A noite da espera, de Milton Hatoum

A noite da espera, de Milton HatoumFoi um choque iniciar e leitura de A noite da espera logo após ler Oblómov. Foi como cair num pântano após quilômetros de caminhada tranquila. O livro simplesmente não me envolveu e eu esperava muito dele. Imaginem que cheguei a dá-lo de presente a um amigo, na certeza de que era um excelente romance. Não é. E tinha tudo para eu gostar: era um romance escrito por um grande autor sobre a geração que esteve na universidade durante a ditadura militar nos anos 70, a minha geração. Tive vontade de abandoná-lo, mas fui até o fim. Logo de cara vê-se uma estrutura frouxa, como um tênis desamarrado. Fiquei esperando por alguma virada, mas nada aconteceu. Não tem boa trama, o conflito é contra algo que não se vê e que não parece perigoso ou incompreensível, o cenário é pintado com superficialidade, enfim, dá vontade de largar. O protagonista e narrador da história é desinteressante. Burro, até diria. Perdido na cidade, mudando de moradia a toda hora e, incrivelmente, refletindo pouco sobre os fatos de sua vida — a separação dos pais, o sumiço da mãe, o pai entusiasmado com a “revolução” dos milicos, os amores — Martim vê tudo passar sem intervir e, pior, sem refletir muito. O livro vai ficando cada vez mais difícil de entender em razão de sua superficialidade e péssima construção. Eu, como leitor, tive que anotar o nome dos personagens e como eles se relacionam, pois todos falam e agem igualmente, sem a menor distinção. São chatos nos dois sentidos. Todos dizem insignificâncias. A política também não é muito tocada. Só se sabe que há censura, perigo e corrupção. Bem, não é uma novidade. E onde ficou a trama, o romance, a tensão, a reflexão, a humanidade? Oblómov tinha setecentas páginas e este romance tem duzentas e poucas, só que muito mais longas. Um saco.

Não recomendo. E, digo-lhes, meus sete leitores, este é o primeiro volume de uma trilogia… Tô fora.

Mídia promocional do programa Impressões do Brasil (TV Brasil)

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Boa noite (aí em Abu Dhabi, no caso), Renato!

Por Samuel Sganzerla

Há coisas, Renato, que é difícil de se colocar em palavras. Faltando cerca de 72 horas para entrarmos nos campos árabes, há uma imensidão de gremistas deste lado do planeta que ainda não sabe muito bem como se sentir em relação à estreia iminente no Mundial de Clubes. A embriaguez do Tri ainda é o único remédio possível para a angústia dos que fogem de quaisquer projeções.

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Agora há pouco foi definido nosso adversário na semifinal. O Pachuca derrotou o Wydad Casablanca. Um jogo feio, que fez todos os comentaristas nos cravarem como grandes favoritos – e os secadores saírem se vacinando de CORNETA PREVENTIVA. Deixe que digam, que pensem, que falem.

Nós gremistas sabemos que não tem jogo jogado. Analisando friamente e racionalmente falando, poderíamos dizer que temos a obrigação de ganhar terça. Mas futebol não seria o esporte mais popular do mundo se não fosse o palco perfeito para tragédias e glórias inesperadas.

Aprendemos a olhar com cautela para esse jogo que precede a grande decisão do Mundial com nosso próprio coirmão (da melhor forma, diga-se). A histórica superioridade Europa/América do Sul no mundo da bola não entra em campo sozinha – e erros evidentes estão aí para não serem repetidos. Espero que os mexicanos estejam sendo muito bem estudados e que os jogadores estejam focados no treino neste momento.

Para ser bem sincero, Renato, não sei o que pensar ainda do destino que o calendário da CONMEBOL deste ano nos traçou. Otimistas, por um lado, falam no lado positivo do intervalo curto: o time preservado, encaixado, em ritmo de jogo. “Se tivesse meio ano pela frente, perderíamos metade dos jogadores”, afirmam.

Não lhes tiro a razão. Apenas gostaria de passar mais umas semanas me regozijando em loucura, alento, trago e amizade. Dez dias depois da glória libertadora e já estamos nos preocupando com o próximo desafio. Faz parte, claro! Ser gremista e não ser ambicioso é uma incoerência, um paradoxo existencial.

De toda forma, Renato, como não consegui ir ao aeroporto durante a semana, vim te desejar boa sorte. A ti e a todos os jogadores. Que estejam ENDIABRADOS como estiveram em Lanús. Que os deuses da bola estejam sorrindo novamente para nós.

Pode haver meio mundo de distância entre nós que não pudemos ou não conseguimos embarcar para os Emirados Árabes e vocês, mas estaremos todos nas milhares de vozes que estarão nas arquibancadas do Hazza Bin Zayed. Porque é como Nigri e Lupi imortalizaram: com o Grêmio, onde o Grêmio estiver.

Que seja o primeiro passo para o Bi!

Saudações Tricolores!

E segue o baile…

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Drops de sexta -feira

Um amigo meu que não via há tempo me contou uma história sobrenatural. Ele viu uma mulher na rua, objetificou-a severamente por alguns dias, reencontrou-a, apresentou-se quando ela meio que sorriu pra ele, ela soube de tudo, fizeram sexo consensual e estão juntos há dez meses, felizes. Achei incrível a história. A natureza humana é muito surpreendente.

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Marchezan diz que a cidade está um caos.

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Vou dar um tiro nessa veia…

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Pensei muitas vezes que um bom escritor é o contrário de um bom político. Um bom político é aquele que enfrenta um problema complexo, reduz esse problema às suas linhas essenciais e o resolve pela via mais rápida; em contrapartida, um bom escritor é aquele que enfrenta um problema complexo e em vez de resolvê-lo, o torna ainda mais complexo e um escritor genial é aquele que cria um problema onde antes não existia nenhum. Os bons políticos simplificam a nossa vida e os ruins a complicam e complicando-a, empobrecem-na, enquanto os maus escritores simplificam a nossa vida e os bons a complicam e complicando-a, enriquecem-na: é por isso que os bons políticos costumam ser tão maus escritores e os bons escritores, tão maus políticos.

Trecho acima da conferência O Ponto Cego, de Javier Cercas, publicada na Revista Serrote 27 de novembro.

(E Bach, que pega um tema simples e o mostra de tantas formas diferentes que tu ententes que a simplicidade, simplesmente, não existe?)

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David McLane:

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Depois o cara não recebe o Nobel de Literatura e não sabe por quê.

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Especialmente nos dias de hoje, não existe nenhuma razão para existir a menos que se creia possível fazer da própria vida algo decisivo. Para todos, para a humanidade. Isso exige uma certa quantidade de atrevimento. Uns poderiam chamar de ambição, outros de desfaçatez. Se tentasse explicar esse ponto de vista, decidiriam me amarrar em uma camisa-de-força imediatamente. Contudo, se você acha que as forças históricas estão mandando tudo e todos para o inferno, você pode resignadamente se juntar à procissão ou então se afastar; e se afastar, não por orgulho ou por outros motivos particulares, mas sim por admiração e amor pelos potenciais e capacidades do ser humano para os quais, sem exagero, as palavras “milagre” e “sublime” podem ser aplicadas.

(Saul Bellow, A mágoa mata mais)

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Admirável o filme “Com Amor, Van Gogh” ou, mais corretamente, “Com Amor, Vincent”. É uma animação para adultos que envolveu a criação de 62.450 quadros a óleo para contar os dias finais da vida do pintor. Mas os aspectos técnicos, apesar de impressionantes, ficam secundários, servindo para contar uma história sensível e emocionante. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida.

Já “Thelma” é um filme escandinavo que envolve ódio e paranormalidade. Não tem a qualidade do primeiro, mas é tão bom que tenho certeza que os estadunidenses logo farão um remake piorado. Vi ambos no Guion Cinemas.

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Nova primeira ministra da Islândia, Katrin Jakobsdottir, tem 41 anos, é socialista, feminista, anti-armas, luta por igualdade de gêneros, vai expandir a saúde pública e acha o Acordo de Paris contra o aquecimento global fraco.

Infelizmente, não dá para importar. Fiquemos com Temer, Sartori e Marchezan. Afinal, votamos neles (nos três).

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Nova-iorquinos pedem a remoção de pintura de Balthus que “sexualizaria” menina

No final da semana passada, alguns nova-iorquinos lançaram uma petição exigindo que o Metropolitan Museum of Art removesse uma pintura de 1938 do famoso pintor francês Balthus (pseudônimo de Balthasar Klossowski) onde é mostrada uma jovem púbere com a roupa interior exposta. O motivo seria o “clima hoje instalado em torno do tema do assédio sexual”. Porém, o Met se recusou a retirar a obra.

Thérèse Dreaming, de Balthus (1908-2001), “sexualizaria” a menina, mostrando sua calcinha sob uma saia. A petição diz que a posição do pé e do joelho esquerdo da menina seriam “provocantes”.

Thérèse Dreaming, de Balthus

Thérèse Dreaming, de Balthus

“O artista desta pintura, Balthus, sempre teve uma grande atração por meninas adolescentes e esta pintura está inegavelmente romantizando a sexualização de uma criança”, escreve Mia Merrill, 30, a empresária de Nova York que criou a petição. “Dado o clima atual em torno do assédio sexual, o Met não deveria romantizar o voyeurismo e a objetivação das crianças. O Met é uma instituição de renome, deveria se preservar. Eu estou apenas solicitando ao Museu que examine mais cuidadosamente a arte em suas paredes e entender determinados quadro insinuam”.

A petição, que foi lançada na sexta-feira, havia coletado quase 7.000 assinaturas no domingo à noite. Pouco.

Porém, como toda razão, um representante do museu disse que não removerá a pintura porque a arte deve refletir muitos períodos de tempo – não apenas o atual. “Nossa missão é colecionar, estudar, conservar e apresentar obras de arte importantes em todos os tempos e culturas, a fim de conectar pessoas com criatividade, conhecimento e ideias”, disse o porta-voz Kenneth Weine.

“Momentos como este fornecem uma oportunidade para o diálogo, e a arte visual é um dos meios mais significativos que temos para refletir sobre o passado e o presente”.

Em 2013, o Met realizou uma exposição de pinturas de Balthus intitulada Balthus: Cats and Girls – Paintings and Provocations.

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O Monty Python Michael Palin em Portugal: “O politicamente correto está impedindo o desenvolvimento da comédia”

Michael Palin… Bem, quem não conhece Michael Palin? Ele é um dos Monty Python e se você não o conhece talvez não deva lê-lo, pois a desinformação denuncia alguém não muito familiarizado com a comédia, esta muito pouco religiosa e solene instituição. A biografia de Palin já garante que toda palavra sua torne-se importante, ainda mais quando ele se manifesta a respeito daquilo que exerceu como poucos — a tarefa de grandíssimo comediante. Os filmes dos Python, muitos com mais de 50 anos, ainda são vistos e de-co-ra-dos com devoção pelos fás no youtube. Se você ainda não os viu, não sei onde esteve nas últimas décadas.

Palin andou dando entrevistas e participando de eventos em Portugal na semana passada. Não posso evitar de copiar aqui duas matérias do sempre excelente publico.pt.

HUMOR

Um Monty Python em Viseu: “A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”

O politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, mas hoje Michael Palin não escreveria um sketch sobre o islão. Entrevistado por Ricardo Araújo Pereira, chamou centenas de pessoas à 3.ª edição do festival Tinto no Branco.

Por Joana Amaral Cardoso

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“Este homem não é um homem comum”, começou Ricardo Araújo Pereira, fazendo de uma fala do sketch do super-homem que arranjava bicicletas dos Monty Python a sua apresentação elogiosa de Michael Palin. Estes são dois homens da comédia e dos livros que tiveram “uma conversa completamente diferente”, claro, nesta sexta-feira à noite em Viseu perante centenas de pessoas — e sob um frio de rachar. Palin defendeu, num tempo em que considera que o politicamente correcto “está a impedir o desenvolvimento da comédia”, que “o humor ilumina tudo e nada [há de] demasiado sério que não se consiga defender contra o humor. A Igreja achava mesmo que ia ser derrubada por A Vida de Brian?”.

A conversa marcou a abertura da 3.ª edição do festival literário Tinto no Branco, inicialmente prevista para a Tenda Jardins de Inverno, mas depois transferida para o exterior do Solar do Vinho do Dão — o centro nevrálgico do evento — devido à prevista e confirmada afluência do público, que superava os 200 lugares previstos da tenda e assim encontrou espaço nos cerca de 600 lugares sentados disponíveis e muitos outros em pé. “Já alguém morreu?”, atirou a certa altura Michael Palin, dos Monty Python, escritor, viajante profissional, actor e apresentador de TV. Aos dez minutos de conversa ao ar livre, com sete graus nos termómetros, Ricardo Araújo Pereira já tinha puxado uma mantinha sobre as pernas. “Pareço uma velhinha”, disse a uma audiência que nunca deixou de sorrir e que terminou a hora de conversa com uma ovação de pé. “Isso, activem a circulação”, brincou Palin antes de abandonar o palco.

Esse palco pertencera aos dois, entrevistador e entrevistado, fã e ídolo. A conversa provou logo no título como os Monty Python são, entre muitas coisas, infinitamente citáveis. Comprovou que falar dos limites do humor, do politicamente correcto e, claro, de papagaios mortos não tinha rival no frio viseense. E solenizou-se então quando Ricardo Araújo Pereira, que acaba de lançar um livro de crónicas em torno do que descreve ser o seu reaccionarismo quanto a elementos tão variados quanto os novos media até à língua, perguntou a Michael Palin como achava que seria recebido hoje um sketch como o do lenhador travesti ou A Vida de Brian (1979). Palin responde: “É difícil saber, porque ainda são populares.”

O filme dos Monty Python (formados por John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Palin) foi recebido com boicotes, protestos e muito debate na época. A rábula do lenhador travesti é um dos intemporais números dos Python e o seu protagonista é Palin, que também escreveu sketches como aquele que ficou reconhecível pela sua exclamação “Ninguém espera a Inquisição Espanhola!”. Para Michael Palin, é uma questão em aberto saber “se se consegue agora escrever algo fresco sobre travestismo, transgénero ou autoritarismo religioso”.

O homem que é conhecido, como lembrou Araújo Pereira, como “o Python simpático” passou depois a responder à sua própria pergunta: “Escreveria hoje algo sobre o islão? Nem pensar, nem pensar, porque há por aí pessoas perigosas.”

“[Mas] gostaria de escrever sobre toda essa área da tolerância e intolerância. E gostaria de escrever algo sobre o politicamente correcto hoje, porque acho que está a impedir o desenvolvimento da comédia. Estamos todos a fazer coisas de que temos vergonha e a comédia é uma forma óptima de falar sobre essas coisas e de lidar com elas. São tempos diferentes daqueles quando escrevíamos comédia em 1969, em que tudo era um alvo em aberto, mas estranhamente acho que isso era porque no mundo na altura havia mais com que nos preocuparmos, a Guerra Fria, a luta pelos direitos civis, mas por alguma razão em Inglaterra podíamos falar sobre quase tudo através da comédia. Porque ninguém tinha feito isso antes.”

E chega à conclusão: “Olhando para os Python hoje, há provavelmente todo o tipo de coisas que seriam totalmente politicamente incorrectas. O que é estranho é que as pessoas ainda se riem delas, ainda vêem os programas, e não houve nenhuma insurreição civil, nenhuma grande religião encerrou por causa disso.”

Michael Palin considera-se “um sacana extremamente sortudo”, disse logo no pontapé de saída a Ricardo Araújo Pereira. “Escrever é o que mais gosto. É um acto criativo primário”, acredita, “ é algo que estamos sempre a aprender”. O Monty Python está em “Biseo”, como pronuncia atenciosamente, provavelmente sem saber porque arranca alguns risos da plateia — a troca do bê pelo vê e o ligeiro ciciar no esse aproximam-no ao sotaque da região, e a audiência reconhece-se. São fãs dos Monty Python de todas as idades, mas também fãs dos Gato Fedorento, que ocupariam Araújo Pereira com fotografias e autógrafos no final da conversa.

O humorista e colunista português quis saber muito sobre o grupo de que é admirador, sendo que já entrevistara Terry Jones e John Cleese no passado. É das “tensões” entre os vários Python que vêm alguns dos seus feitos, responde-lhe Palin. Elas eram “parte da dinâmica que fazia os Python funcionar”, essa trupe que já de si considera que “era em parte um acidente”. A voragem criativa era tal que era “uma força centrífuga” e a sua conhecida animosidade com John Cleese serviria o grupo no programa da BBC em que se estrearam, Monty Python’s Flying Circus (1969-74). “Eu cumpria a função do homem com quem o John se zangava. O que é muito importante. Ele tentava devolver o papagaio e eu dizia ‘Não, não, está só a descansar’.” Esse sketch é um dos que nomeia quando fala do processo criativo do grupo, um dos tiros certeiros que os pôs logo, numa primeira leitura, a rir “histericamente”. “O [sketch do] Ministry of Silly Walks foi mais trabalhoso.”

Michael Palin assume-se como um observador do comportamento humano. Tanto que é essa a sua leitura dos três filmes Python, que considera que Ricardo Araújo Pereira “levou demasiado a sério”. Por não serem, como enunciara o entrevistador, sobre os grandes temas de Deus, fundação de Inglaterra e sentido da vida, mas sim “sobre o absurdo do comportamento humano” na religião organizada (e esganiça a voz para imitar alguns dos seguidores de A Vida de Brian), “sobre o comportamento britânico”, sempre polido mesmo quando violento (“Oh, temos um Império. Oh céus, oh dear”, brinca sobre Monty Python e o Cálice Sagrado, de 1975) ou um filme que, concede, “ainda é bastante radical” — O Sentido da Vida, de 1983.

O encontro entre o Python e o Gato foi o grande chamariz do festival, que alia o vinho da região e a literatura e visa colocar Viseu na rota do turismo cultural. Conta também na programação desta sexta-feira com uma actuação de Benjamin e que ao longo do fim-de-semana terá ainda duetos conversadores com o crítico cultural Pedro Mexia, o escritor e ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, a historiadora Raquel Varela, o poeta Nuno Júdice ou o escritor Afonso Cruz, bem como entre Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais.

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ENTREVISTA:

Michael Palin em Portugal: “A boa comédia é na verdade um protesto”

O Monty Python esteve em Viseu no festival literário Tinto no Branco para falar da comédia revolucionária que fez há 50 anos mas também sobre livros, Trump e viagens.

Por Joana Amaral Cardoso

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Horas antes de um encontro às cegas com Ricardo Araújo Pereira, que nunca tinha visto mas com quem aceitou conversar em Viseu, Michael Palin estava preparado para falar uma vez mais dos Monty Python. O grupo que formou com John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones é quase sempre o seu cartão de visita – embora, explica ao PÚBLICO, nem sempre isso aconteça nos festivais literários em países mais remotos onde a trupe não é tão conhecida.

Não foi o caso nesta 3.ª edição do Tinto no Branco, vinho Dão e livros, escritores e pensadores à conversa com provas de vinho à mistura no centro de Viseu. Uma cidade que não conhecia, também, e que assim cumpria dois requisitos para aceitar vir a um de tantos festivais literários que proliferam mundo fora. “Estou sempre interessado em falar sobre a escrita. Gosto de viajar e se há um festival num sítio que não conheço ou onde estive e quero voltar, isso é apelativo para mim. E quanto mais pequeno o festival mais gosto dele, porque conhecemos as pessoas e fazem uma diferença real — vê-se numa cidade pequena como Viseu.”

Michael Palin, encarnação de cavalheiro inglês e simpatia imune a feitos e fama, é um viajante inveterado que já seguiu os passos de Hemingway nas suas viagens, ou os de Phileas Fogg de Volta ao Mundo em 80 Dias, e que a BBC levou em inúmeros programas pelo globo. Nunca fez um sobre Portugal mas já visitou o país e suas cidades várias vezes, em férias. Tem editados em Portugal muitos dos seus livros de viagens, e também um único livro de ficção, Verdade e Consequência (Bizâncio, 2015). Trabalha agora num novo livro: “Estou a escrever a história da vida de um navio”, envolta tanto em mistério quanto em tragédia, a do HMS Erebus.

Depois de uma conversa com Ricardo Araújo Pereira que manteve mais de meia centena de pessoas ao ar livre numa fria noite de Viseu na sexta-feira, o adepto do Sheffield aqueceu-se com uma espreitadela ao Porto-Benfica. Horas antes, falava sobre a intemporalidade dos Python, pedagogia humorística, sobre Trump e o “Brexit”.

Alguma vez se cansa de falar sobre os Monty Python? Honestamente.
Canso-me se for pura repetição. Mas estou sempre grato por [haver] pessoas genuinamente interessadas nos Python e no facto de ainda resultarem, especialmente no estrangeiro porque é fascinante saber por que é que os Python ultrapassam fronteiras — [saber] o que as pessoas em Portugal, no Brasil ou na Polónia pensam sobre os Python. De cada vez tento pensar, da forma mais clara possível, na melhor resposta que dou.

Estando neste festival, pensa-se em como o trabalho dos Monty Python tem algo de literário na construção e estrutura de alguns dos seus sketches. Introduziram isso de forma consciente, quando escreviam?
Os Python reflectiam muita da informação que tínhamos adquirido na nossa educação e atirávamos para lá absolutamente tudo. Mas a ideia primordial era de que nunca devia ser um sermão, devia ser engraçado, ter um toque de leveza. Tivemos o [Marcel] Proust, por exemplo, e não havia muitos programas de comédia com Proust. Usámo-lo numa espécie de estúdio de televisão provinciano onde concorrentes tinham de resumir as obras de Proust em menos de 15 segundos [risos]. Lidámos com livros incrivelmente densos e complexos e confiámos no facto de o público saber que é um livro incrivelmente complicado e rico, que demora muito a ler. Conscientemente usávamos partes da nossa formação e ideias, temas. Lembro-me de um sketch muito engraçado que Eric Idle escreveu sobre dois homens a discutir a existência ou não de deus, enquanto estão a lutar – um era um bispo e um humanista. Usávamos conceitos intelectuais e tornávamo-los algo muito tonto.

Em Junho, doou mais de 50 dos seus cadernos e diários, cheios de ideias e esboços de sketches redigidos entre 1965 e 1987, à Biblioteca Nacional Britânica. O que o levou a fazê-lo?
Durante muito tempo escrevi e mantive cadernos de notas, farrapos de papel, envelopes, ideias apontadas e que estavam a apanhar pó em pastas em casa. Pensando no que faria com eles, foi claro que os Monty Python não são algo que vá desaparecer. Na verdade, quanto mais nos afastamos dos Python mais as pessoas estão interessadas na forma como trabalhei, mesmo sendo coisas com 50 anos. Dando isto à Biblioteca Britânica, as pessoas podem organizá-los, catalogá-los, fazer sentido deles e também disponibilizá-los a quem esteja interessado em escrever comédia. Eu teria muito interesse em ter visto os cadernos do [influente comediante britânico] Spike Milligan. E isto permite saber como era uma sessão de escrita dos Python.

Têm mais informação sobre os êxitos, mas também sobre as falhas, os erros, os obstáculos que tentavam ultrapassar ao escrever.
Sim, há lá muitos sketches que nunca chegaram à televisão e é muito interessante, olhando para o conjunto de uma obra, descobrir o que não foi usado, o que foi riscado. É quase mais interessante do que o que foi usado.

Não havia dúvidas, mas essa doação é mais uma forma de confirmação do lugar dos Monty Python no Panteão da cultura britânica. Para quem escrevia comédia com leveza, sente-se agora esse peso?
Estava meio à espera que eles dissessem que não era o tipo de coisa que queriam. “Estamos mais interessados em Virginia Woolf ou Kingsley Amis ou whatever”. Mas eles é que tomaram a decisão. Adorariam tê-los porque os Python tornaram-se não só parte da cultura mas também algo que é muito difícil de definir. Quanto mais houver para compreender, mais interessante será.

Os Python ainda são considerados um avanço, uma inovação na comédia. Não víamos isso assim na altura, mas é o que é agora. As frases dos Python são constantemente usadas: “always look on the bright side of life”; “o que é os romanos alguma vez fizeram por nós?”. As pessoas usam-nas a toda a hora, os jornalistas, os políticos. Margaret Thatcher: ela tentou usar o sketch do papagaio morto a propósito de um candidato do Partido Liberal. Alguém do seu aparelho lhe disse para o fazer mas ela não sabia bem o que era. “É de um programa de televisão”; “o que é isso?”. E disseram-lhe “é o Monty Python’s Flying Circus”; e ela disse-lhes “Monty Python… É um dos nossos?”, [do partido]. [risos]

O seu filme mais recente como actor, da autoria do escritor de comédia política Armando Iannucci (Veep, The Thick of It), é The Death of Stalin e centra-se na ambição, no poder e na imagem. Surge numa altura de suspeitas sobre conspirações entre políticos americanos e a Rússia, de tensões entre Theresa May e Donald Trump, de “Brexit” – é particularmente atempado?
A situação hoje é, de muitas formas, diferente. Mas [o filme] é sobre o poder, como se consegue o poder e como se mantém esse poder. Hoje, por oposição ao tempo de Estaline, em que havia papelinhos com os nomes das pessoas e as condenavam por isto ou aquilo, agora há a Internet e pode controlar-se de facto as coisas a partir do centro. Pode-se piratear, pode-se bloquear, ou lançar dúvida como faz Trump. As declarações públicas de Trump são todas tweets, o que é óptimo porque se só se é tido em conta por 140 caracteres, isso significa que não tem de se entrar numa discussão completa. O que é uma forma de manter o poder.

Trump, pelo que sei, ainda não mandou ninguém para as minas de sal, mas está interessado no poder, na forma como se mantém o poder, como se difama as pessoas, o que é muito importante. The Death of Stalin é sobre como o poder e a ambição distorcem e transformam as pessoas, de seres humanos inteligentes e credíveis em apoiantes de actos horrendos e de excessos. Não penso que estejamos nessa situação. Mas por todo o mundo há pessoas a agarrar-se ao poder fazendo coisas muito cruéis, por isso é relevante.

A comédia é particularmente necessária em momentos assim, ou é um cliché pensá-lo?
Não penso que seja necessária, penso que existe. A comédia é muito importante nas crises. Na Grande Guerra havia muito humor, as pessoas riem-se nas situações mais desesperadas. Há que assegurar que esse riso não é um riso de desespero mas um riso que seja de protesto. É isso que a comédia é, a boa comédia é na verdade um protesto. É dizer “olhem para esta pessoa a dizer estas coisas!”, “olhem para o cão atrás dele a fazer-lhe xixi na perna”. Mostrar quão transiente e quão vazios são muitos dos gestos dos poderosos. A comédia e o ridículo são uma parte muito, muito forte do protesto, para manter as pessoas debaixo de olho. As pessoas verdadeiramente poderosas não têm muito sentido de humor, porque a comédia é sobre rirmo-nos também de nós mesmos, e eles não conseguem fazê-lo.

É algo em que os britânicos têm sido muito bons e penso que é por isso que estamos na confusão em que estamos hoje – porque nos conseguimos rir de nós mesmos. Vamos ter de nos rir bastante nos próximos anos. É a única coisa que podemos fazer.

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Bom dia, Renato! (com os principais lances de Atlético-MG 4 x 3 Grêmio)

Por Samuel Sganzerla

Como foi o fim de semana no Rio de Janeiro? Estava boa a praia de Ipanema? E o futevôlei? Merecido descanso depois desse baita ano de trabalho e conquistas. Agora é pensar no embarque para Abu Dhabi, né?! Lamentavelmente, perdemos o Arthur. Dizem que Geromel também virou dúvidas e não se sabe ainda ao certo as condições em que Maicon voltará.

Foto: gremio.net

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Não que eu tenha a ilusão de que, passando pela semifinal, vamos propor nosso jogo contra o Real Madrid. Foi provavelmente no início do milênio que se viu um sul-americano  encarar um milionário europeu de igual para igual (aquele lendário Boca Juniors de Riquelme e Palermo, que ganhou três Libertadores em quatro edições, dois mundiais em três), sem jogar por uma bola. Mas divago!

Alheio a tudo isso, ontem foi o dia da última rodada do Brasileirão, Renato. Fomos a Belo Horizonte encarar o Atlético Mineiro, com nossa terceira equipe. A torcida do Galo, que sempre nos recebe com muita cordialidade e amizade, se fez presente no estádio, para assistir a um grande jogo, disputado do início ao fim, com sete gols e direito até a um apagão dos refletores, lembrando aquele futebol-raiz dos anos 90 de que tanto se fala saudosamente.

Entretanto, numa coisa os atleticanos irão concordar comigo: o time deles, por tudo que fez nos últimos anos e pelo elenco que montou para essa temporada, foi uma das grandes decepções de 2017. Não era para uma equipe que deveria ter brigado pelo título terminar o campeonato em nono lugar e ainda depender do resultado da final da Copa Sul-Americana para ir à Libertadores de 2018. Mas nossa gurizada, que não tem nada a ver com isso, foi lá e fez bonito, apesar de não ter saído com a vitória.

Mesmo com o resultado desfavorável, Renato, valeu a pena para nós, ainda de ressaca pelas comemorações do Tri da América, vermos o chamado “time de transição” mostrar o padrão de jogo e o toque de bola de qualidade do futebol que nos conduziu de volta à nossa alegria. Ainda que um tanto “crus”, pela idade, é bom ver Jean Pyerre, Pepê e outros nos mostrando que a base vem forte, sendo capaz de fazer frente a um Galo, em pleno Independência, que conta com muitos jogadores experientes e de renome internacional.

Agora, lembra que eu disse há algumas semanas que ainda conversaríamos sobre o Brasileirão 2017, Renato?! Então… Chegamos ao final com 63 pontos, num quarto lugar que não reflete a nossa campanha (por três momentos ontem, o vice-campeonato esteve em nossas mãos). O Corinthians foi campeão com 73 pontos. E não é preciso muito esforço para lembrar de 11 ou 12 pontos perdidos pelo time reserva ou “de transição”).

O fato é que o Grêmio foi muito criticado por ter deixado o campeonato nacional em segundo plano ainda lá no seu início. A imprensa e torcedores dos mais diversos clubes muito bateram na tecla de que teríamos plenas condições de ter disputado esse título também. Eu não julgo nem reclamo. Claro, acaso não tivéssemos ganhado a Libertadores, haveria uma inundação de críticas. Felizmente, o desfecho foi de muita comemoração para nós.

Quando a CONMEBOL e a CBF fecharam o calendário deste ano, uma coisa ficou claro (para qualquer um que entenda um pouco de futebol): não há time brasileiro com elenco para disputar as três principais competições – Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores. Não, não há! Porque toda comparação com os grandes europeus que disputam o triplete sem poupar jogadores ignora o abismo que existe entre nós e eles hoje. O mesmo que eu mencionei antes, pensando no possível confronto com o Real Madrid.

E não apenas é apenas uma questão de dinheiro. Toda a organização do futebol europeu já passa pela ideia de sincronia entre suas competições nacionais. Nenhum país do Velho Mundo possui campeonatos estaduais (para lembrar que o Brasil sozinho é do tamanho da Europa), e, se não me engano, somente a Inglaterra possui mais de duas competições (a liga e duas copas). Isso sem nem falar na questão da infraestrutura, que traspassa o mundo do futebol.

Quando algum “especialista” enche a boca para falar que o Barcelona jogou em Bilbao no domingo, pelo campeonato nacional, e, na quarta-feira seguinte, entrou em campo em Milão, pela Liga dos Campeões, com o mesmo time, eu penso como que ele pode ignorar que a ida e a volta dessas duas viagens somadas são mais curtas do que um trecho da que o Grêmio faz quando vai ao Recife. E nem comparemos os sistemas de transporte, por favor.

Renato, tu, que és técnico, sabes o quanto um dia de treino faz diferença. Uma viagem a Guayaquil, a Caracas ou a Medellín significa uma semana perdida somente em torno desse confronto. Essa é a Libertadores e a realidade latino-americana (e olha que os mexicanos nem disputam mais a Copa). A direção também sabia disso. A opção feita foi pelo título continental. E o outro torneio que poderia ser beliscado seria a Copa do Brasil (infelizmente não deu, apesar da boa campanha).

O Corinthians de Fabio Carille, que não tinha nada a ver com isso, fez por onde merecer o título. Realizou o melhor turno da história dos pontos corridos, administrou a grande vantagem e, quando decaiu, soube se mobilizar para assegurar o caneco. Ainda assim, lamentamos que esses 11 pontos que nos distanciaram, ao pensarmos naqueles perdidos de forma boba pelo próprio time titular ou nas tantas partidas em que jogamos com os reservas (que nunca haviam feito uma partida como a de ontem).

Poderíamos ter disputado o Brasileirão do início ao fim e vencido? Até poderíamos! Mas também poderia ter significado um ano sem conquistas, apesar do bom futebol construído e toda expectativa criada. 2017 já valeu pelo Tricampeonato da Copa Libertadores, por termos mostrado que resgatamos e honramos a nossa tradição copeira. E ainda não acabou! Que venha mais!

Até o Mundial!

Saudações TRIcolores!

E segue o baile…

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Em torno de uma fotografia clássica

A famosa foto da fotógrafa norte-americana Ruth Orkin (1921-1985) já foi vista em diversas circunstâncias, quase sempre com a mesma óbvia interpretação. Uma grande amiga minha diz sentir medo cada vez que olha a foto. Tirada em agosto de 1951, na cidade de Florença, mostra uma mulher alta, bela e bem vestida passando por um grupo de homens que a olham com ar de desejo. Assédio. Um, bem próximo da moça, leva a mão à própria genitália enquanto assobia. Em resposta, ela caminha com medo — ou pelo menos com receio –, puxando o xale, evitando olhar para eles.

O que pouca gente sabe é que esta foto, hoje clássica, serviu para ilustrar a revista Cosmopolitan dentro de uma matéria chamada Don’t Be Afraid to Travel Alone.

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Se era para perder o medo… Bem, as feministas utilizam bastante esta imagem para demonstrar o agressivo assédio das rua. A foto foi cuidadosamente encenada ou ao menos repetida sob diversos ângulos, como comprova o rolo do filme. Isto não lhe tira o mérito.

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O curioso é que a modelo Ninalee “Jinx” Allen nega a encenação. Diz que os homens estavam por ali. Eram uns desocupados no alto desemprego do pós-guerra. A fotógrafa Orkin conheceu Jinx, uma pintora também norte-americana, na época com 23 anos, dias antes de retratá-la. Ambas estavam viajando sozinhas pela Europa — algo raro nos anos 50 –, encontraram-se Florença e Orkin convidou Jinx para servir de modelo nas fotos que pretendia vender para a revista..

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Após a publicação na Cosmopolitan, a imagem clássica passou a ser parcialmente censurada, cortando-se a metade esquerda da foto ou apagando-se a mão do homem do guarda-chuva. A partir de meados dos anos 1960 a fotografia completa voltou a ser mostrada.

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Jinx ainda está viva e diz que a imagem pode ser interpretada e apreciada como cada um quiser. Porém, como muitas vezes acontece com as obras de arte, parece haver enorme distância entre a sensação de quem participou e a interpretação de quem vê. Ela não vê assédio na foto. Jinx achou tudo muito divertido. Gostou tanto que passeou depois com um dos sujeitos, conforme comprova outra foto de Orkin.

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A interpretação que faço da belíssima foto é a mesma das feministas. Jinx pode não ter se sentido intimidada, mas a imagem não o demonstra. Há uma matilha prestes a interromper a caminhada dela.

Hoje, Jinx é a bela senhora de 89 anos que, em 2011, tirou a foto abaixo, aos 83, 60 anos depois da foto, com o mesmo xale e colar.

Jinx 5Outras fotos de Jinx tiradas por Orkin para a Cosmopolitan:

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Boa tarde, Renato (com os melhores lances do jogo que levou o Grêmio ao Tri da Libertadores)

Por Samuel Sganzerla

Sim, boa tarde! Porque eu avisei o Milton que, confirmado o título que consagrou essa campanha espetacular que nosso Grêmio fez, não existiria manhã no dia de hoje. A madrugada de ontem ainda não terminou, apesar desse céu AZUL. Ainda não sei se já acordei mesmo, na verdade. Mas me deixem continuar sonhando, então.

Foto: gremio.net

Foto: gremio.net

Renato, ontem estávamos nas arquibancadas de Lanús, nas ruas de Buenos Aires, na Goethe, na Arena, em todos os lugares. Todos vivendo e revivendo esse momento da glória libertadora que nos consome por inteiro nestes momentos de sonho delirante – para lembrar do saudoso Sant’Ana. Ontem, Renato, expurgamos os fantasmas que nos assombraram por vinte e um anos.

Não cedemos à pressão endiabrada em Cáli. O Zagallo não tirou nosso melhor jogador de uma decisão para ficar no banco da Copa América. Não tinha um Pedrinho encarnado em São Januário. Não teve juiz ladrão mandando voltar pênalti defendido pelo Martini. Danrlei não falhou na saída de gol na Colômbia (mas ele pode, ídolo eterno).

Não cruzamos com o melhor Boca da história com um time esforçado. A dupla de ataque não perdeu uma série de gols feitos no Mineirão. Lucas Pratto não teve uma noite de brilho no Olímpico. O Cris não fez um pênalti idiota. O zagueiro do San Lorenzo não tirou aquela bola em cima da linha. Não tomamos uma aula de futebol do Rosário Central.

Ontem, Renato, tudo era alegria. Todos tivemos nossas próprias vitórias. Nunca mais dirão que tu és só um motivador, mas não técnico. Fernandinho justificou como nunca a confiança que tu depositaste nele. Quem um dia já chamou o Luan de pipoqueiro que nem cruze por mim hoje – que atuação e QUE GOLAÇO! E ele não pegou o pênalti para fechar com chave de ouro, mas quero deixar registrado: mil desculpas pela corneta de outrora, Grohe!

Renato, já nem tenho mais palavras para descrever o tamanho da idolatria que a Nação Tricolor tem por ti. O Grêmio é campeão e hoje não importa mais nada! Todos os anos de sofrimento devidamente acompanhados (porque “una pasión es una pasión”, para lembrar Campanella) parecem recompensados.

Hoje a gente segue comemorando. Amanhã começamos a pensar em campeonato mundial. Já manda o drone para Madrid!

O GRÊMIO É TRI! A AMÉRICA É NOSSA DE NOVO! E VAMO COM O PLANETA!

Saudações Tricolores!

E segue o baile…

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Um Grito… Durante O Pássaro de Fogo, de Stravinsky

Ela gritou no meio do Pássaro de Fogo de Stravinsky… Certo que estava dormindo e tomou um susto com o “ataque” da orquestra.

Stephanie Evans disse que não estava dormindo no concerto, apenas fechando os olhos para se concentrar. “Eu estava sentada, sentindo uma sensação de paz e bem-aventurança naquele lugar pacífico quando a orquestra me assustou”, afirmou ela.

A reação dos músicos também é muito engraçada.

Detalhe de 'O Grito' de Edvard Munch

Detalhe de ‘O Grito’ de Edvard Munch

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Lanús supera Grêmio por 2 x 0 e é o Campeão da Libertadores 2017

O Grêmio foi bravíssimo hoje à noite na Argentina, mas não deu. O time gaúcho lutou muito e até poderia ter vencido a decisão nos primeiros minutos da batalha, porém o Lanús, com gols de Acosta e Sand, fez 2 x 0 e é o novo campeão da Libertadores da América. O título inédito, conquistado frente à 42 mil torcedores no estádio La Fortaleza, fez com que uma multidão alucinada adentrasse a madrugada nas ruas do pequeno município homônimo de pouco mais de 200 mil habitantes, localizado na província de Buenos Aires.

O tricolor começou jogando bem e perdeu as melhores chances no início do jogo. Porém, paulatinamente, o Lanús passou a dominar as ações e, a partir da metade do primeiro tempo, já fustigava impiedosamente a zaga tricolor, que se safava como podia. A aposta na imortalidade sucumbiu aos 41 min do primeiro tempo, quando, em rápido contra-ataque — nós ficamos putos com um gol tomado deste modo numa disputa onde o tricolor estava em vantagem de ter vencido o primeiro jogo –, Lautaro Acosta venceu Bressan na corrida e chutou da entrada da área. O tiro deixou impotente o milagreiro goleiro do time do Humaitá. A bola, após passar por Marcelo Grohe, ainda bateu caprichosamente no poste e foi morrer inexoravelmente nas redes do mosqueteiro. Mas por que o Grêmio atacava? Por que não se acautelou, meu deus?

Acosta comemora o primeiro tento do Lanús | Foto: SC Internacional

Acosta comemora o primeiro tento do Lanús | Foto: SC Internacional

O gol enlouqueceu a torcida do Lanús, que fazia grande alarido no La Fortaleza. Mas a massa granate não soltou sinalizadores — os argentinos não são trouxas e não esfriaram seu time. Muito pelo contrário: a primeira etapa foi finalizada com os argentinos fervendo. O pequeno estádio era uma panela de pressão com carne gaúcha dentro. Mas, apesar da, repetimos, grande pressão, os times voltaram ao vestiário durante o intervalo com um placar que levaria a decisão aos pênaltis, 1 x 0 para o Lanús.

No início do segundo tempo, o Grêmio começou tocando a bola sem objetivo, com a finalidade de calar a hinchada. E estava tendo sucesso até o momento em que Renato resolveu reforçar o sistema de marcação colocando Michel em campo.  Por que fez isso? Por quê, carajo?

Esta foi a senha para que o time comandado por Jorge Almirón adentrasse o campo azul e não se retirasse mais dele. O imortal agonizava. Então, aos 33 minutos, um chute de José Sand de fora da área definiu o jogo. Foi um chute de aparência despretensiosa, quase delicado, mas a bola, essa prostituta ingrata, essa víbora corrosiva, essa bêbada sem noção, descreveu uma linha curva como as dos quadros de Pablo Picasso, afastando-se das mãos salvadoras de nosso querido Grohe, como vemos na foto abaixo. 2 x 0.

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Não deu, mas fomos dignos do estado de Sartori. Nosso zagueiro Geromel, o moleque facínora, acabou a partida com lágrimas nos olhos. Para desopilar, deu uma de suas bordoadas num argentino lá e foi finalmente expulso. O jogo acabou com a torcida granate, a do maior clube de bairro do mundo, cantando, pulando e tripudiando sobre nossos meninos do Humaitá que, com dez homens, não tinha forças para reagir.

Ao final do jogo, os gremistas deram declarações culpando o árbitro da partida.

Sand

O sonho acabou. Renato repete sua história na Libertadores. É bi-vice. Enlutados, os drones não voarão no dia de hoje e o planeta não vai acabar, vai continuar assando em mudanças climáticas cada vez piores.

Inter, vice do América; Grêmio, vice da América.

.oOo.

P.S. — Cá pra nós, o Lanús é um time bem ruim, só que organizadinho. Parabéns ao Grêmio, Tri-Campeão da América! (Ou vocês ganham ou serão fuzilados por milhares de memes).

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Bom dia, Renato (com os gols de Grêmio 1 x 1 Atlético-GO)

Por Samuel Sganzerla

Ontem, estava prevista a partida MENOS IMPORTANTE de nosso ano: o Grêmio entraria em campo, na Arena, em jogo válido por um campeonato com campeão definido, contra um adversário já rebaixado. Tudo isso num domingo que intercala as duas quartas-feiras mais significativas da última década.

Retrato da pelada que deve anteceder à glória | gremio.net

Retrato da pelada que deve anteceder à glória | gremio.net

Dizem os que foram até o Humaitá que o jogo realmente aconteceu, que a partida foi uma verdadeira PELADA e que acabamos empatando com o Atlético Goianiense, pela 37ª rodada do Brasileirão. Eu, que aproveitei o domingo para subir a serra e comemorar que cheguei na casa dos 30 anos com a minha família, acredito neles.

O jogo? Nem vi! O jogo que importa mesmo é o de quarta-feira. A partida que vale o sonho cultivado desde que eu era criança. A decisão que vale a nossa alegria regada a trago, alento e DELÍRIO. Renato, a gente nem tem dormido direito desde a vitória da semana passada.

Porque só o torcedor apaixonado entende perfeitamente o que é esse misto indistinto de angústia, otimismo, nervosismo, expectativa e outros sentimentos mais que a literatura e a filosofia ainda não encontraram palavras para descrever. O gremismo é um estágio avançado e constante disso, ora elevado exponencialmente a um nível que a ciência e a religião ainda desconhecem.

Como diz uma faixa que surgiu nas muretas do Olímpico Monumental há mais ou menos doze anos, “Vivemos de loucura”. E se nada pode ser maior que esse amor que temos pelo Imortal, Renato, tu deves imaginar bem como estamos todos.

Serão cinco mil de nós nas arquibancadas de La Fortaleza daqui a dois dias, talvez muito mais em toda a grande Buenos Aires. Mas serão dezenas de milhões em campo, junto com os onze que entrarão fardando o sagrado manto Tricolor. Os que ainda habitam este plano e todos os demais que já passaram para outros. Tu não os vê, tu não os toca, mas estão presentes.

E este é o último recado antes da final, de um fã para um ídolo, de um torcedor para o técnico, de um GREMISTA para outro: queremos a Copa, Renato! Queremos alcançar o sonho LIBERTADOR pela terceira vez! Queremos a Copa!

Saudações Tricolores!

Segue o baile…

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Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 2 x 0 Guarani)

Ao final deste jogo, Odair Hellmann, foste confirmado como técnico do Inter para 2018. Só invejo teu salário.

Eu já achava que serias anunciado. Os diretores não contratam jogadores sem a presença do treinador — não acredito que sempre ouçam a opinião do mesmo, mas é bom manter o fingimento — e, na semana passada, Gabriel Dias (volante do Paraná) e Roger (centroavante do Botafogo) foram praticamente confirmados.

Para meu gosto, Nico e Camilo deveriam ser melhor aproveitados em 2018 | Foto: Ricardo Duarte

Para meu gosto, Nico e Camilo deveriam ser melhor aproveitados em 2018 | Foto: Ricardo Duarte

Fizeste algumas coisas boas do ponto de vista tático. Recuaste laterais e volantes. Deixaste Dale sem funções defensivas. Colocaste Nico de centroavante e ele respondeu à altura com dois gols ontem. Também Pottker subiu de produção quando sua velocidade foi explorada por lançamentos em profundidade.

Pois, antes de ti, jogamos fora o ano de 2017 com técnicos de segunda linha como Zago e Guto. Pouca coisa fez sentido no trabalho deles. A única coisa que sobrou de bom foi nossa medíocre classificação em segundo lugar para a Série A. Isso acabou, mas pode voltar se não melhorarmos. Nosso ano foi fraco, fraquíssimo.

Projetando 2018, um resuminho de 2017, jogador a jogador

Os zagueiros: só Klaus e Cuesta se salvam. Jamais vou entender a insistência com Léo Ortiz e Danilo Silva. Até Ernando é superior. Melhor que estes dois saiam logo. Thales é um boa opção para a reserva. Ele não inventa. Precisamos de mais um bom zagueiro.

Os laterais: o péssimo Cláudio Winck foi nosso lateral durante todo o ano. Alemão é ruim demais e a diretoria nem se coçou para melhorar o nível. Uma irresponsabilidade, pois nenhum dos dois é digno de um time médio. Porém, o contrato de Winck, de forma incompreensível, foi renovado… Na esquerda, Uendel é razoável, mas gostaria de ver mais Iago. Carlinhos não dá. Precisamos de um bom lateral direito com urgência.

Os volantes: Dourado e Edenílson são ótimos, mas não têm substitutos. Charles é verde e Gutiérrez teve uma passagem opaca pelo setor. Dizem que Gabriel Dias está chegando. Não conheço,

Os armadores: só Dale se salva, mas completará 37 anos em 2018. Eu observaria melhor o “reserva de Sasha”, Camilo. Já Sasha passou 15 jogos sem dar nenhuma assistência para lance de gol, além de não ter feito gols. Foi auxiliar de lateral por todo o ano. Um escândalo! Deve ter um baita empresário. Deveria ser negociado ontem. Ninguém suporta mais o cara. E Juan? Depois de alguns bons jogos, sumiu. Precisamos de mais qualidade no setor.

Os atacantes: Damião provou sua utilidade no Inter, um time que cruza ergue exageradamente a bola para a área adversária. Tanto que contrataram Roger, outro centroavante de mesma característica. Se não for para a China, Pottker deverá crescer e Nico é o grande injustiçado do ano. Entrando para jogar 20 minutos em cada jogo, foi um dos goleadores da temporada. Um atacante realmente bom seria uma necessidade, ainda mais se Pottker sair. Contratar para grupo seria apenas empilhar jogadores.

Dos 22 (!) emprestados que retornam, eu só observaria com mais cuidado Eduardo, Andrigo e Marcinho, que está barbarizando no Brasil-Pel.

O que me preocupa é a falta de profissionalismo da gestão de futebol do Inter. Marcelo Medeiros e sua trupe — da qual faz parte Fernando Carvalho — são um bando de patetas. Vamos precisar de sorte e da incompetência maior dos outros.

Voltaremos a escrever sobre futebol só 2018, quando os jogos reiniciarem. A menos que o Lanús nos cause uma enorme euforia na próxima quarta-feira.

Tiau.

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Sobre livros não lidos e como falar sobre eles, por Umberto Eco

Traduzido com extrema liberdade pelo autor do blog

Lembro-me vagamente de um magnífico artigo de Giorgio Manganelli, explicando como um leitor sofisticado pode saber se um livro vale a pena ser lido, mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo à capacidade muitas vezes requerida a um leitor profissional, ou a um leitor afiado e criterioso. Não estava se referindo àqueles que podem julgar um livro a partir de uma linha de abertura, de duas páginas, de uma olhada aleatória do índice ou muitas vezes da bibliografia. Isso é simplesmente experiência. Não, Manganelli estava falando sobre uma espécie de iluminação, de um dom que evidentemente alegava ter.

Umberto Eco

Umberto Eco

Em How to Talk About Books You Haven’t Read (de Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura) é explicado como você pode falar sobre um livro que você não leu, até mesmo para seus alunos, inclusive quando se trata de um livro de extraordinária importância. Seu cálculo é científico. As boas bibliotecas contêm vários milhões de livros: mesmo que se leia um por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, cerca de 3.600 em dez anos, e entre as idades de dez e oitenta anos nós teremos lido apenas 25.550. É pouco. Por outro lado, qualquer italiano que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode participar de uma discussão, digamos, sobre Matteo Bandello, Francesco Guicciardini, Matteo Boiardo, sobre as tragédias de Vittorio Alfieri ou sobre as Confissões de um Italiano, de Ippolito Nievo, conhecendo apenas o nome e algo sobre o contexto crítico, sem ter lido uma palavra deles.

E o contexto crítico é o ponto crucial de Bayard. Ele declara desavergonhadamente que ele nunca leu Ulysses de James Joyce, mas que pode falar sobre isso aludindo ao fato de que é baseado na Odisseia, que ele também admite nunca ter lido na íntegra. Ulysses também é baseado em um monólogo interno, com a ação se desenrolando em Dublin durante um único dia, etc. “Como resultado”, ele escreve, “muitas vezes me encontro falando sobre Joyce sem a menor ansiedade”. Conhecer o relacionamento de um livro com outros livros geralmente significa que você sabe mais sobre o livro do que se tivesse lido a obra.

Bayard mostra como nós, quando lemos certos livros percebemos que estamos familiarizados com seus conteúdos porque eles foram lidos por outros que falaram sobre eles. Ele faz algumas observações extremamente divertidas sobre uma série de textos literários que se referem a livros nunca lidos, incluindo Robert Musil, Graham Greene, Paul Valéry, Anatole France e David Lodge. E ele me faz a honra de dedicar um capítulo inteiro ao meu O Nome da Rosa, onde William de Baskerville demonstra familiaridade com o segundo livro da Poética de Aristóteles no momento em que o segura nas mãos pela primeira vez. Ele faz isso pela simples razão de que ele infere o que diz a partir de algumas outras páginas de Aristóteles.

Um aspecto intrigante do livro de Bayard, que é menos paradoxal do que parece, é que também esquecemos uma porcentagem muito grande dos livros que realmente lemos e, de fato, nós construímos uma espécie de imagem virtual deles que não consiste tanto no que dizem, mas no que eles evocaram em nossa mente. Então, se alguém que não tenha lido um livro cita passagens ou situações inexistentes, estamos prontos a acreditar que estão no livro.

Bayard se interessa pela ideia — e aqui é a voz do psicanalista em vez do professor de literatura — de que toda leitura ou não-leitura ou leitura imperfeita têm aspectos criativos e que, enfim, os leitores fazem sua parte. E ele prevê a criação de uma escola onde os estudantes “inventam” livros que não precisam ler, já que falar de livros não lidos é um meio de autoconsciência.

Bayard demonstra como, quando alguém fala sobre um livro não lido, mesmo aqueles que leram o livro não percebem os erros. No final de sua obra, ele admite ter apresentado três falsas informações em seus resumos de O Nome da Rosa, O Terceiro Homem, de Graham Greene e Changing Places de David Lodge. O divertido é que, quando li os resumos, notei imediatamente o erro em relação a Graham Greene, fiquei em dúvida sobre Lodge, mas não percebi o erro em meu próprio livro. Isso provavelmente significa que eu não li atentamente o que Bayard escreveu, que eu simplesmente espreitei o texto. Mas o mais interessante é que Bayard não percebeu que, ao admitir seus três erros intencionais, assumiu implicitamente que uma maneira de ler é mais correta do que outras, tanto que ele foi obrigado a fazer um estudo meticuloso dos livros que cita para poder sustentar sua teoria sobre não lê-los. A contradição é tão evidente que faz pensar se Bayard realmente leu o livro que escreveu.

Extraído de Crônicas de uma Sociedade Líquida por Umberto Eco, traduzido do italiano para o inglês por Richard Dixon.

Umberto Eco era um romancista italiano, crítico literário, filósofo, semiótico e professor universitário.

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Políticos discutindo o aquecimento global

Políticos discutindo o aquecimento global, escultura em Berlim. Autoria de Isaac Cordal.

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E em Londres, do mesmo autor. Esta chama-se Siga o líder:

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E Artodyssey, também dele.

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Bom dia, Renato (com os principais lances de Grêmio 1 x 0 Lanús)

Texto de Samuel Sganzerla

E bom dia também, drone que nos observa!

Sabe, Renato, o futebol tem dessas coisas fantásticas. Ontem, dava para sentir que Porto Alegre PULSAVA. Havia uma aura mística pairando nos ares da cidade. Uma massa ensandecida de gremistas não apenas lotava a Arena, mas se fazia presente em cada canto. Uma loucura que só uma final de Copa Libertadores pode nos proporcionar.

Foto: gremio.net

Foto: gremio.net

O primeiro passo foi dado, Renato, ainda que timidamente. Ontem à noite, a imprensa gaúcha descobriu o que eu e tu já sabíamos: o Lanús não chegou até aqui de graça. Passei o dia ouvindo a programação esportiva, e o que não faltou foram “especialistas” colocando a taça na mão do Grêmio antes da bola rolar. Como tenho pavor disso, usei minhas redes sociais para pedir educadamente que todos eles introduzissem suas opiniões onde bem entendessem.

Porque no futebol não existe jogo jogado, Renato. É o esporte mais popular do mundo justamente porque é o único que proporciona que um time de bairro possa encarar um gigante tradicional de igual para igual. Surpreende-me que esqueçam disso. Nós, pelo menos, não esquecemos. Pois ficou claro, em campo, que o Grêmio respeita o Lanús. Procuramos nos impor, mas sabendo que do perigo que os argentinos podem proporcionar.

Quando a bola rolou, logo quisemos buscar nosso jogo embasado no toque de bola. Só que, do outro lado, tem uma das equipes mais bem treinadas que eu vi na história recente da América do Sul. O posicionamento e a saída de bola do Lanús são taticamente impecáveis, até bastante inovadores. Quem achava que o Granate era apenas superação, por conta da grande virada para cima do River Plate, na semifinal, surpreendeu-se.

Entretanto, parece que essa gente toda que ou quis comemorar antecipadamente, ou quis fazer uma espécie de ZICA REVERSA esqueceu o que aconteceu nas últimas edições da Libertadores. Fazia quatro anos que um clube brasileiro não chegava à final da competição. Sem contar nas tantas eliminações inesperadas que os grandes do futebol tupiniquim sofreram. Não sei se pensam que só a grife e a gigantesca sala de troféus de um Boca Juniors ou de um Peñarol da vida entram em campo. Mas a soberba do futebol nacional custou muito caro a seus clubes. E muitos não aprenderam.

Eu e tu, por outro lado, sabíamos que não tinha jogo fácil. Nunca é. Ali joga um campeão argentino. E isso é muita coisa! A gente buscou se impor em campo, valendo-se da força da nossa casa. No início, quase sem nenhum efeito, é verdade. Até o Lanús começou a gostar do jogo, levando à nossa meta o perigo que não oferecemos. Mais uma vez, Marcelo Grohe (que um dia me perdoará por toda a corneta) surge no momento em que o time mais precisou dele, salvando-nos novamente.

Arthur muito se movimentava no meio campo, sendo nosso melhor jogador na articulação. Luan, muito marcado, não produziu muito, tendo uma atuação um pouco apagada ontem. Mesmo assim, no final do primeiro tempo conseguimos voltar a prevalecer em campo, retomando a posse de bola e levando o jogo para o campo do adversário. A melhora não foi o suficiente, mas já era sinal de que o filme de terror que tivemos naqueles últimos 15 minutos não duraria a partida inteira.

No segundo tempo, todavia, só deu nós. O Lanús mal entrou no campo do Grêmio e pouco ficou com a bola. Marcelo Grohe foi mais um espectador da etapa complementar. Para dar mais movimentação pelo lado esquerdo, Everton entrou no lugar de Fernandinho, que novamente não esteve bem (a despeito de eu saber que tu segues escolhendo ele porque ele busca cumprir a função tática do Pedro Rocha).

Eis que, para vencer, esse Grêmio do TIKI-TAKA DOS PAMPAS precisou esquecer um pouco de sua atual filosofia de futebol mais refinado, preciso e bem jogado para relembrar o velho Imortal Tricolor. Foi o momento de lembrar que uma Libertadores se ganha com sangue, suor e lágrimas. E a tua estrela entrou em campo, Renato! Foi como tu vestindo a lendária camisa 7, azucrinando os gringos e tirando um cruzamento da cartola para o César.

Quando Cícero e Jael entraram em campo, pouco se poderia acreditar que fariam a diferença. A bem da verdade, àquela altura, estávamos todos tão nervosos que nem pensávamos direito. Vai que a aura mística copeira quisesse que dois jogadores criticados fizessem a diferença. E foi assim mesmo, num grande lançamento de Edilson, que Jael deu a assistência para Cícero fazer a Arena, Porto Alegre e o Rio Grande do Sul EXPLODIREM em alegria.

Poucas coisas são tão espetaculares nessa vida quanto um gol numa decisão nervosa e truncada. Certa vez, Ilie Dumitrescu, centroavante da lendária Romênia de 94, disse que fazer um gol numa Copa do Mundo era algo tão inesquecível quanto a primeira transa. Não são poucas as pessoas que fazem metáforas com futebol e sexo. Aquele gol do Cícero foi um orgasmo coletivo, daqueles que libertam nossas almas. Foi escrita a primeira página para libertarmos a América pela terceira vez.

Fim de jogo. O destaque negativo da partida vai para a arbitragem do senhor Júlio Bascuñan. Kannemann levou amarelo POR TER SIDO EMPURRADO (uma das coisas mais ridículas que eu já vi), o que o tirou do jogo de volta. Além disso, foram-nos sonegados dois pênaltis (um deles claríssimo!). O tal do árbitro de vídeo só existe para enfeite na Libertadores, pelo visto. Simplesmente péssimo.

Sinceramente, Renato, depois da semifinal e de ontem, toda vez que um chileno desembarcar no Salgado Filho para apitar uma partida na Arena, ficarei desconfiado que a CONMEBOL está mal intencionado. Na verdade, vou convidar quem quiser ir até lá comigo para dar uma SURRA no infeliz. Porque até podemos não saber o porquê de estarmos batendo, mas ele com certeza saberá o porquê de estar apanhando.

Enfim, o que importa ontem, mesmo, foi a vitória. Lá em La Fortaleza, semana que vem, será páreo duro. Os argentinos é que terão que sair para o jogo e tentar colocar pressão. Já mostraram que são capazes disso. E nós já mostramos que nosso melhor futebol aparece nessas circunstâncias de jogo. Que essa semana passe devagar o suficiente para todos os jogadores estarem devidamente preparados para a grande decisão, mas rápido o bastante para não deixar que essa ansiedade nos mate.

Que venha o Tri! Como sempre cantamos, Renato: queremos a Copa!

Saudações Tricolores!

Segue o baile…

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Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXII – Oblómov, de Ivan Gontcharóv

Oblómov

Ivan Gontcharóv viveu uma longa vida para alguém do século XIX. Nasceu em 1812 e morreu em 1891, aos 79 anos. Passou longos anos como aposentado — desde 1867 –, dizem que sempre reclamando da vida. Publicou apenas quatro livros, sendo três romances. Ele considerava o último, O Precipício, o melhor. Peço desculpas, Ivan, mas é difícil acreditar que seja melhor que este célebre Oblómov. Valeu muito a pena enfrentar suas mais de setecentas páginas.

(Aqui, os outros livros desta série.)

Oblómov é a história de um indolente e apático latifundiário russo. Ele passa seus dias admirando o teto, embora seus muitos e graves problemas, principalmente os relativos a sua fazenda, que cada vez mais gera menos benefícios e onde é claramente roubado por seu administrador e servos. Mas a mera ideia de deixar sua poltrona ou cama causa-lhe desconforto. Então, ele deixa a inércia guiar sua vida.

Iliá Illich Oblómov é o personagem principal de um épico, trata-se de um Ulisses de roupão, desprovido de vontade. Não age, optando por ficar imóvel, na contracorrente dos eventos. Quando deita no sofá, sente-se protegido de todo estresse, da grosseria e da confusão que rege as ações humanas. Porém, sua atividade mental é grande. Não nasceu para ser um gladiador na arena, mas um pacífico espectador. No fundo era uma alma boa, pura — como tantas vezes sublinha Gontcharóv — e preguiçosa.

Na primeira parte do livro, vemos o personagem principal receber amigos em seu quarto. Os rápidos e vivos diálogos nos enganam: parece que estamos diante de um romance cômico, tal é a galeria de visitantes. A prosa de Gontcharóv é leve. Seu criado Zakhar — também preguiçoso, muito atrapalhado e burro — é uma criação hilária, digna da alta comédia. Essas esplêndidas 200 páginas iniciais são finalizadas com uma visita do amigo de infância Stolz e com o sonho de Oblómov. O sonho é uma longa e famosa passagem, escrita dez anos antes da publicação do romance, que ocorreu em 1859.

Zakhar e Oblómov

Zakhar e Oblómov: já já alguma coisa vai cair no chão…

Neste capítulo IX, o do sonho, o autor fala poética e debochadamente sobre como se formou a visão de mundo de Oblómov e seus ideais de vida. Podemos resumi-lo assim: Iliá Iliich adormeceu e sua infância distante vem até ele. Ele está de volta à propriedade dos pais, na aldeia de Oblomovka. A aldeia era mais ou menos isolada, a cidade mais próxima ficava a cerca de vinte quilômetros de distância e os Oblómov não faziam muita questão de facilitar o acesso à cidade, pois eram avessos a mudar sua vida e ainda mais ao progresso. Durante séculos viviam ali, presos a uma ordem patriarcal, cheios de histórias malucas e crendices, levando a sério cada “sinal”. A vida fluía com tranquilidade e tudo era deixado para depois. Os camponeses viviam despreocupados, não se esforçando por nada, não conheciam ou queriam outra vida.

O dono da propriedade, Oblómov pai, era igualmente preguiçoso e apático. Todos se espantavam pelo fato de um telhado não cair, mas na véspera tinham se admirado por ele se aguentar suspenso por tanto tempo sem manutenção. O pai nunca pensava em conferir o cereal produzido e vendido, nem em cobrar explicações por alguma negligência na fazenda, mas, se demorassem a trazer seu lenço de nariz, fazia uma gritaria. Todos os interesses da família eram as refeições e um bom sono nas pausas. É arrebatadora a cena em que as mulheres fazem tricô e riem, enquanto os homens olham pela janela. Neste interminável far niente, o objetivo era não se incomodar. Os pais não atribuíam grande importância à educação e Oblómov era relutante em ir à escola. Seu amigo mais próximo, o citado Andrei Stoltz, filho do professor da aldeia, ajudava-o a fazer suas lições de casa.

Oblómov no elogiado filme homônimo de Nikita Mikhalkov

Oblómov no elogiado filme homônimo de Nikita Mikhalkov

O “Sonho de Oblomov ” parece uma descrição irônica do Paraíso na Terra, do País da Cocanha. O autor ridiculariza implacavelmente o modo de vida satisfeito e inativo da maioria dos proprietários desta época. O texto caracteriza o estilo de vida do adulto Iliá Ilitch Oblómov, apenas o local muda.

Como dissemos antes, o sonho foi escrito e publicado numa revista em 1849, dez anos antes de surgir Oblómov. Ele foi a gênese do romance. Só que Gontcharóv ficou muito chateado de os leitores tirarem conclusões de todo trabalho a partir apenas de sua extraordinária primeira parte. Gontcharóv chegou a alertar Tolstói: “Não leia a primeira parte de Oblomóv, leia o resto. Isso de 1849 não é bom”. Impossível concordar, Ivan. A primeira parte é espetacular, viva, engraçada, tendo como destaques não apenas o sonho como a relação do personagem principal com o mundo e com seu criado Zakhar, espécie de reflexo do patrão.

Pieter Bruegel, o Velho – O País da Cocanha

Pieter Bruegel, o Velho – O País da Cocanha (1567)

Nesta primeira parte, o livro pode ser considerado uma sátira à nobreza russa, cuja função econômica e social era cada vez mais discutida na Rússia, em meados do século XIX. O romance tornou-se imediatamente popular quando foi lançado e alguns de seus personagens e ações tiveram influência sobre a cultura e a linguagem russas. “Oblomovismo” tornou-se uma palavra usada para descrever alguém que exibe os traços de personalidade de preguiça ou inércia semelhantes aos do personagem principal do romance.

Ao final da primeira parte, entra em cena Stolz. Ele, homem prático e de resultados, procura repetidamente mudar seu amigo Iliá. O próprio admite seus problemas e tenta superar sua apatia. Faz reavaliações, mas o processo é sempre complicado, cheio de objeções. Em suas poucas horas vagas, Stolz ajuda Oblómov a consertar seus graves problemas financeiros, enquanto Tarantiev — outro amigo de Oblomovka — busca roubá-lo.

Graças ao amigo Stoltz, Oblómov conhece Olga, uma jovem por quem se apaixona. Então, vive um despertar. Ela exige que ele resolva os assuntos de sua propriedade, que ele esteja atualizado com o que está acontecendo no mundo, só que isso é demais. Não, não vou contar a boa história do amor entre ambos, apenas alguns detalhes “externos”.

Stolz contou para Olga da inteligência e do potencial do amigo. Eles se conheceram e as apaixonaram. Olga, muito mais madura, começa a planejar sua vida com Oblómov. É ela quem conduz o casal. Mas Oblómov, cheio de indecisões, oferece resistência passiva quando se trata de dar passos significativos na direção do casamento. Olga decepciona-se ao perceber que não é motivo suficiente para arrancá-lo da letargia e que Oblómov se contenta com um amor platônico. Em cena altamente emocional e tensa, daquelas em que a gente come o livro para saber como o autor vai fazer para que Oblómov cumpra seu destino, Gontcharóv… Não, nada de spoilers.

Na imagem de Oblómov também há características autobiográficas. O autor admitia sua indolência pessoal. Amava a paz e o silêncio. Durante uma longa viagem de navio, passou a maior parte do tempo na cabine, deitado no sofá. Seu apelido era “Príncipe”.

Do filme de Mikhalkov

Do filme de Mikhalkov

O aparecimento do romance coincidiu com o tempo da crise mais aguda da servidão. A imagem de um senhor de terras apático e incompetente, que cresceu e foi criado em uma serena propriedade que vivia do trabalho pouco produtivo de servos, era muito relevante para seus contemporâneos. Dobrolyubov, em seu artigo “O que é o oblomovismo?”, agradeceu ao romance por dar uma visão clara do problema. A pessoa de Iliá Iliich Oblómov mostraria como o calmo ambiente da aristocracia russa e a falta de uma educação desfiguram a natureza do homem, engendrando um inútil.

O caminho de Oblómov é típico dos nobres russos do campo nas décadas de 1840 e 1870. Eles iam para a capital e tornavam-se funcionários públicos. Queixavam-se, faziam fofocas, escreviam petições, estabeleciam relações com os chefes. Oblómov cumpriu a mesma trajetória, mas demitiu-se. Não quis escalar na carreira, preferindo fazer planos em seu sofá, sem aspirações.

Gontcharov foi depreciado por várias gerações de escritores russos: Dostoiévski descreveu-o como “um funcionariozeco com olhos de peixe cozido a quem Deus (...) concedeu um talento brilhante” (Legenda copiada o Publico.pt)

Gontcharov foi depreciado por várias gerações de escritores russos: Dostoiévski descreveu-o como “um funcionariozeco com olhos de peixe cozido a quem Deus (…) concedeu um talento brilhante” (Legenda copiada do Publico.pt)

Gontcharóv escreveu sobre seu herói: “Eu tinha um ideal artístico inicial, era uma natureza gentil e honesta, que pensava em lutar o tempo todo, buscando a verdade, enganando-se e caindo em apatia e impotência; depois criei uma variação disso”. Oblómov faz e refaz planos, planeja apenas, agita-se sobre o sofá e adia mesmo a simples tarefa de escrever uma carta. É o rei da procrastinação. Sua alma é a de um poeta, pronto a fruir da beleza e se apaixonar. A percepção que tem da música o demonstra. Cada reunião com o amigo de infância Stolz tira-o da pasmaceira, mas não por muito tempo: a determinação de fazer algo dura sempre um curto período de tempo. No entanto, Stolz tem sua vida, não tem tempo suficiente para colocar Oblómov em outro caminho. Mas em qualquer sociedade há pessoas como Tarantiev, sempre prontas para roubar um trouxa desinteressado por seus negócios. São eles, Stolz e Tarantiev, que determinam os dois caminhos possíveis. Oblómov, contudo…

Publicado em 1859, o romance foi um evento público. Apareceu numa época de excitação social, alguns anos antes da reforma camponesa, e foi visto como um chamado para combater a estagnação da Rússia. Imediatamente após a publicação, o livro foi assunto de discussões em críticas de jornais e entre escritores. Muitos viram na imagem de Oblómov a compreensão filosófica do caráter nacional russo, bem como uma indicação da possibilidade de um caminho moral diferente, que se opusesse ao agitado “progresso” que consome a existência… O fato é que Gontcharóv fez uma descoberta artística. A publicação de Oblómov e seu enorme sucesso deram-lhe a fama de um dos mais destacados escritores russos de sua época.

O notável e paradoxal era que o fato de que autor trabalhou como censor do czarismo… Era necessário ganhar dinheiro de alguma forma e o funcionário público Gontcharóv foi discreto. Jamais tomou decisões muito conservadoras, apesar de odiar o “niilismo”, uma “doutrina miserável e dependente do materialismo, socialismo e comunismo”. Imagina-se que, por ele, possam ter passado obras de Dostoiévski e Tolstói, entre outros. Ou seja, estranhamente, ele trabalhava defendendo os princípios do governo após criar uma poderosa arma de discussão social que o fez, décadas depois, um ídolo da URSS. Seguiu censor até o final de 1867, quando se aposentou por vontade própria. Terminou sua vida em profunda depressão, acusando outros autores de roubarem suas ideias.

Oblómov é um tremendo livro. Não vou contar a história a partir da segunda parte para não atrapalhar a leitura de vocês. O romance é sempre interessante em suas 700 páginas, tendo momentos de alta tensão na quarta parte.

A má notícia é que, hoje, o livro virou raridade no Brasil. Com o fim da Cosac Naify, nenhuma editora herdou o calhamaço maravilhosamente bem traduzido por Rubens Figueiredo. Neste minuto, a Estante Virtual tem um exemplar da edição da Cosac: ele custa R$ 500. O Mercado Livre tem duas, uma a R$ 349 e outra a R$ 475. A Amazon também indica um “novo” por 660,00. Assim fica difícil.

Gontcharóv é o da esquerda. Com a mão na cabeça, parece desejar dormir. Como Oblómov.

Gontcharóv é o da esquerda. Com a mão na cabeça, parece desejar dormir. Como Oblómov. De braços cruzados, Tolstói.

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Anotações sobre Anton Tchékhov e e-mail recebido

Anton Tchékhov

Anton Tchékhov

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia, citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Rosa, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchékhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas e me ordenasse escolher um e somente um, eu — talvez estranhamente — escolheria Anton Pavlovitch Tchékhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchékhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco desencantada do amor — o qual é visto sem muitas ilusões — e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchékhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

tchekhov1Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchékhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo — uma boa história — indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchékhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen.

tchekhov2Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante, para um autor do sáculo XIX: “Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchékhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

tchekhov3Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.
– E ler suas peças de teatro é um deleite só.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

tchekhov4Em vida, Anton Tchékhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchékhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchékov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.

Para mim, Tchékov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévski.

Bom final de semana!
Fernando

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Bom dia, Renato (com os melhores lances de Santos 1 x 0 Grêmio)

Ontem a gurizada nos representou lá em Santos. O time B foi à Vila Belmiro apenas com o objetivo de cumprir tabela, mas, apesar da derrota, teve boa atuação no primeiro tempo, criando diversas chances (e até perdendo de forma inacreditável um jogo fácil). Infelizmente, volume de jogo, chutes a gol e bola na trave não alteram o placar – já dizia a música do meu xará.

Foto: gremio.net

Foto: gremio.net

Dito isso, a verdade é que ninguém da nação Tricolor se importava de verdade com o jogo de ontem. Tu até ficaste em Porto Alegre, para comandar os últimos treinos com os titulares. Toda a nossa atenção está voltada para o jogo de quarta-feira, contra o Lanús. O time tem que entrar focado, decisivo e mortal, tal qual fez na última final que disputamos. E nós torcedores temos que fazer da Arena uma panela de pressão para os argentinos.

Renato, estamos enlouquecidos aqui! Andamos num passo descompassado e angustiado na caminhada cotidiana, somente esperando o apito que permitirá a bola rolar. A Copa Libertadores é o nosso sonho! Almejamos o Tri da América há mais de duas décadas. Foram tantas batalhas árduas, intempéries da bola e sonhos que desvaneceram no meio do caminho durante todos esses anos que nossas ganas de voltar a ganhar a Copa estão maiores do que nunca.

O Grêmio tem longa história nessa competição. Levantou a taça por duas vezes com muito sangue, suor e lágrimas. Não poderá ser diferente desta vez! Entremos com humildade e raça, com força, coragem e inteligência. E sejamos mais aguerridos do que nunca! Sejamos Grêmio! Lembremos que é em cada jogo, em cada lance disputado que mostramos que somos gigantes, que nossas grandeza e imortalidade não são títulos divinos que ficamos ostentando.

“Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.” (Vergílio Ferreira)

QUEREMOS A COPA, RENATO!

Saudações Tricolores!

Segue o baile…

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Bom dia, Odair Hellmann (com os gols de Goiás 0 x 2 Inter)

Um amistoso interessante. Não valia nada, só um inútil primeiro lugar na B. O time não jogou bem, claro, isso não acontece há quase dois anos, mas foi divertido ver Odair Hellmann humilhando Guto Ferreira em seu segundo jogo. O técnico interino segurou mais os laterais — que são mesmo muito ruins e não precisam subir –, recuou Edenílson e adiantou Dale. Só isso já fez melhorar muito o time.

Dois gols de Pottker em dois passes de Camilo. | Foto: Ricardo Duarte

Dois gols de Pottker em dois passes de Camilo. | Foto: Ricardo Duarte

É melancólico este final de ano. Nosso time não demonstrou evolução, apesar de algumas contratações bem caras. Tudo terá de ser refeito. Novamente iniciaremos o ano de um ponto bem próximo do zero, inclusive sem saber qual será o técnico de 2018.

Como já disse, o Inter chega ao fundo do poço após ter Argel, Falcão, Roth, Lisca, Zago e Guto como técnicos. Esta é uma nominata de profissionais que aceitam intromissões da direção. Claramente, há alguém(ns) escalando o time de fora da casamata. Não faz sentido escalar Sasha. É suicídio. O filha da Xuxa fez 16 jogos sem marcar gols nem dar nenhuma assistência. Sua ruindade é escandalosa. Hoje, Camilo entrou em seu lugar — Sasha sempre é retirado. Pois logo Camilo deu passes para nossos dois gols. Regida pela política e pelos interesses extra campo, nossa baixa produtividade não chega a surpreender.

Sasha: xô! | Ricardo Duarte

Sasha: xô! | Ricardo Duarte

William Pottker marcou os dois gols. Ele não fez um grande ano, mas o fato que me surpreende é que os caras vêm para o Beira-Rio após brilharem em outros clubes e afundam. Aquela coisa de jogadores profissionais viverem seu auge no Inter parece coisa do passado. Não somos mais um lugar de bom futebol. Talvez o ambiente nao seja favorável.

Nosso último jogo será contra o Guarani no Beira-Rio, dia 25. Depois, férias e Série A. Na B, já está tudo definido: Sobem América-MG, Inter, Ceará e Paraná. Caem para C Luverdense, ABC, Santa Cruz e Náutico. Foi um ano barbada, mas medíocre.

Hoje, temos 36 jogadores disponíveis. Mas vejam quem volta. Voltam 22 nabas com contrato em vigor. Destes, eu só pensaria em testar Andrigo e Eduardo. Os outros, por favor…:

Paulão — Vasco
Aylon — Goiás
Artur — Ponte Preta
Fernando Bob — Ponte Preta
Anderson — Coritiba
Seijas — Chapecoense
Alan Ruschel — Chapecoense
Geferson — Vitória
Alan Costa — Vitória
Andrigo — Atlético-GO
Eduardo — Atlético-GO
Eduardo Henrique —  Atlético-PR
Marquinhos — Sport
Anselmo — Sport
Jair — Rio Verde
Raphinha — São Paulo-RS
Jacsson — Santa Cruz
Mike — América-MG
Gustavo Ferrareis — Bahia
Marcinho — Brasil de Pelotas
Silva — Atlético-GO
Vilela — Desportivo Brasil

Os empresários vão se divertir bastante.

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O Bola em Transe Nº 28, com este que vos escreve, fala sobre o futebol e a Revolução Russa

Para fanáticos por futebol com um parafuso a mais. Neste programa há um momento histórico, quando Moysés Pinto Neto refuta a Tese do Socialista de iPhone. Começa aos 31min20.

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