Porque hoje é sábado, algumas transparências em mármore, por Antonio Corradini

Antonio Corradini (1688-1752) foi um escultor veneziano. Trabalhou principalmente no Veneto, mas também realizou trabalhos em toda a Europa, vivendo na Alemanha, em Viena e Nápoles — onde morreu pouco depois de completar Modéstia (abaixo), sem dúvida sua obra mais célebre.

1. Modéstia. Sansevero Chapel Museum, Naples (1752)

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2. Busto de uma mulher vendada (Puritas) — Museo del Settecento Veneziano, Ca ‘Rezzonico, Veneza (1725)

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3. Tuccia — Galleria Nazionale d’Arte Antica, Rome

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4. Femme voilée — Musée du Louvre, Paris

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A batalha do Stonewall Inn e os dias heroicos que criaram o Dia Internacional do Orgulho LGBT

Publicado em 28 de junho de 2014 no Sul21

Nos anos 1950 e 60, os gays, lésbicas, travestis e transexuais (LGBT) norte-americanos enfrentavam um sistema legal mais anti-homossexual do que os de alguns países do leste europeu. Porém, nos últimos anos da década de 60, tais políticas repressoras começaram a ser contestadas. Era uma época de mudanças e muitos movimentos sociais tornaram-se subitamente visíveis, como, por exemplo, o Movimento dos Direitos Civis Afro-americanos, a contracultura hippie e as manifestações contra a Guerra do Vietnam. Estes movimentos, juntamente com o ambiente liberal do bairro de Greenwich Village, serviram como catalisadores para os conflitos que ocorreram em Stonewall.

Os conflitos de Stonewall foram uma série de violentas manifestações protagonizadas por membros da comunidade LGBT contra uma batida policial que teve lugar nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, na Christopher Street, no Village de Nova York. O fato é considerado um marco do movimento e, até hoje, marca o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Mas voltemos ao Stonewall.

O bar

O bar

Numa época em que poucos estabelecimentos aceitavam receber pessoas abertamente homossexuais, o Stonewall Inn era conhecido por ser popular entre as pessoas mais pobres e marginalizadas das comunidades gay e lésbica. Também era o local das drag queens, travestis, transsexuais, dos prostitutos, prostitutas e sem-teto. As batidas policiais neste gênero de estabelecimentos eram rotina nos Estados Unidos da década de 60. Durante as sessões, os frequentadores normalmente recebiam castigos físicos de forma indiscriminada, mas, naquela manhã no Stonewall, os oficiais perderam o controle da situação.

A única foto conhecida que foi tirada dentro do Stonewaal antes dos distúrbios

A única foto conhecida que foi tirada dentro do Stonewall antes dos distúrbios

Os fatos

Toda vez que a polícia chegava próxima do bar, o porteiro dava o sinal e o barman ligava todas as luzes do teto como um sinal para que todos se preparassem. Naquele verão de 1969, as batidas policiais tornaram-se cada vez mais frequentes, porém, na noite de 28 de junho, quatro policiais à paisana tiveram acesso ao bar sem que o porteiro pudesse acionar o alerta.

Era 1h20 da madrugada quando os policiais se anunciaram. Alguns dos 200 presentes no Stonewall entraram em pânico e tentaram fugir, mas outro policiais já tinham fechado portas e janelas.

Nada saiu conforme o planejado. O procedimento padrão era o de alinhar os frequentadores a fim de verificar suas identidades. As policiais mulheres tiravam os vestidos dos clientes a fim de checarem seu sexo. Todas as drag queens, travestis e pessoas consideradas “homens caracterizados como mulheres”  e vice-versa eram presas. Só que, naquela manhã, as pessoas recusaram-se a obedecer os oficiais. Ninguém quis identificar-se.

Então, a polícia decidiu levar todos para a delegacia. A drag queen Maria Ritter, que era conhecida como homem em sua família, lembrou: “Meu maior medo era de que eu ia ser presa. Meu segundo maior medo era que minha imagem sairia em um jornal ou em uma reportagem na televisão e eu estava com um vestido de minha mãe”.

A situação ficou tensa, estimulada pelo comportamento da polícia, que começou a ofender algumas lésbicas enquanto as revistavam.

Na porta do bar, uma multidão assistia à batida policial. Lá de dentro vinham sons de gritos e de prováveis espancamentos. Na verdade, o nível de confrontação no Stonewall chegara ao ponto de alguns clientes do bar começarem uma “performance” especial para os policiais. Ouviram-se aplausos vindos do bar. Quando o primeiro camburão chegou, a multidão começou a vaiar. Alguém gritou “Gay Power!”.

Cercado: um cliente do Stonewall Inn em apuros

Cercado: um cliente do Stonewall Inn em apuros

A batalha

O grito foi complementado por  sua antítese. Um oficial saiu do bar empurrando violentamente uma travesti, que lhe respondeu com uma violenta “bolsada” em pleno rosto. Logo depois, uma mulher foi arrastada para fora do bar, reclamando que suas algemas estavam muito apertadas. O policial que a arrastava respondeu golpeando-a na cabeça com um cassetete. Ela não apenas conseguiu permanecer em pé como olhou para a multidão e gritou: “Por que vocês não fazem alguma coisa?”. Para a surpresa geral, mas principalmente da polícia, uma multidão veio em solidariedade aos habitués do Stonewall Inn. Voavam pedras, moedas e garrafas de cerveja. O escritor Edmund White, frequentador do bar, lembra que todos estavam muito agitados. “Não tínhamos slogans nem atitudes, só cerveja e uma imensa raiva”.

Pedras e tijolos eram atirados contra os policiais

Pedras e tijolos eram atirados contra os policiais

A multidão tentou virar o camburão. Os policiais investiram contra as pessoas, o que só serviu para incitá-las ainda mais. Rapidamente, a polícia via-se em uma luta contra aproximadamente 500 pessoas, que começaram a arremessar tijolos de uma construção próxima. Os policiais jamais imaginaram que teriam de correr para o Stonewall a fim de se protegerem dos moradores do bairro.

Das janelas dos edifícios próximos, as pessoas jogavam quaisquer objetos em chamas. Parquímetros foram arrancados da calçada para servir de aríete contra as portas dos carros policiais. Depois de 45 minutos de violenta luta, chegaram mais policiais. A ordem era de prender qualquer um, mas era quase impossível capturar alguém.

Os policiais recém-chegados foram dispostos em uma linha que impedia a saída de pessoas da confusão sem passar por eles. Então, os clientes do bar começaram a zombar deles, formando uma linha paralela que os encarava. A polícia, enfurecida, avançou, batendo no que encontrasse pela frente. Um erro. A multidão não recuou, antes respondeu virando carros e fazendo barricadas contra a polícia. Em menor número e surpreendida pelo ódio da multidão, a polícia começou a fugir. A luta continuou até às 4h da madrugada. Ninguém dormiu.

As duas linhas paralelas começam a se romper: nenhuma disposição para recuar

As duas linhas paralelas começam a se romper: nenhuma disposição para recuar

Durante toda a manhã seguinte, as pessoas visitaram o muito danificado Stonewall Inn, tentando entender o que tinha acontecido.

Parte da matéria do dia seguinte no New York Times de 29 de junho

Parte da matéria do dia seguinte no New York Times de 29 de junho

A noite seguinte

A notícia se espalhou e, na noite seguinte, a multidão voltou à Christopher Street em muito maior número. Alguns eram “veteranos” da noite anterior; outros eram meros turistas; e a maioria veio para brigar. O que houve foi que, pela primeira vez na história de Nova Iorque, gays trocavam carinhos a céu aberto. De mãos dadas, abraçavam-se e beijavam-se. Nada de esconderijos ou bares, nada de armários.

O início da segunda noite

O início da segunda noite

Quando a noite caiu em 29 de junho, a multidão ainda crescia. Então, a polícia de choque voltou. A multidão tratou de queimar cada lata de lixo, novos carros foram capotados e para-brisas quebrados. Quando alguém era levado ela polícia, a multidão recuperava rapidamente o refém. Mesmo em ruínas, o Stonewall Inn permaneceu todo o tempo aberto. A violência foi novamente até a madrugada. Mas a sensação era nova: era a de que algo tinha mudado para a comunidade LGBT.

Cinco noites depois: o início da convivência na esquina da Waverly Place com Christopher Street | Foto: Larry Morris (NY Times)

Cinco noites depois: o início da convivência na esquina da Waverly Place com Christopher Street | Foto: Larry Morris (NY Times)

A influência

A chuva impediu os tumultos nos dias seguintes e a vida parecia voltar ao normal, mas o movimento dos direitos dos homossexuais tinha nascido. Em 28 de junho de 1970, no aniversário do início dos motins de Stonewall, “O Dia da Libertação de Christopher Street”, foi comemorado com um desfile do Stonewall até a 6ª Avenida em direção ao Central Park. Foi a primeira Parada do Orgulho Gay na história dos EUA. Desfiles também foram realizados em Los Angeles e Chicago. Boston, Dallas, Milwaukee, Londres, Paris, Berlim Ocidental e Estocolmo seguiram o exemplo em 1971. E em 1972, Atlanta, Buffalo, Detroit, Washington, Miami, Filadélfia e San Francisco uniram-se ao movimento.

A primeira Marcha do Orgulho Gay em 1970, na cidade de Nova Iorque

A primeira Marcha do Orgulho Gay em 1970, na cidade de Nova Iorque

Dois anos depois do conflito, já havia organizações dos direitos dos homossexuais estabelecidas em quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da seu manual das doenças mentais. Até hoje, a Christopher Street é considerada a “rua LGBT” de Nova York, e o Stonewall Inn recebe bandeiras de arco-íris em sua fachada para afirmar seu status de “local do nascimento do movimento moderno de libertação gay e lésbico”.

Em 1994, para marcar o 25º aniversário do episódio, o desfile de 28 de junho foi do Village em direção à sede da ONU e depois do Central Park. Estima-se que mais de um milhão de pessoas compareceram. Em 1999, o Stonewall Inn foi colocado no National Register of  Historic Places. E em junho de 2011, pouco antes do 42º aniversário do conflito, o Estado de Nova Iorque legalizou o casamento gay. Milhares de pessoas acorreram a uma festa espontânea no único lugar que serviria para comemorar qualquer coisa relacionada ao Orgulho Gay: o pequeno bar em um quarteirão tranquilo de Christopher Street.

A festa de 2011: casamento gay

A festa de 2011: casamento gay

Para finalizar, uma última informação: em 76 países do mundo a homossexualidade ainda é considerada crime. Em 7 deles a pena prevista é a de morte.

10 (pequenas) coisas (histórias) que (talvez) você não conheça sobre Bach

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Quando dizemos Johann Sebastian Bach, pensamos imediatamente nas Variações Goldberg, nas Cantatas e Paixões, nos Brandemburgo e naqueles retratos austeros do Kantor de Leipzig segurando na mão direita uma partitura. A imagem de um bon vivant e do prisioneiro é rara.

1. Ele esteve na prisão

É certo que Johann Sebastian Bach esteve quase um mês na prisão — entre 6 de novembro a 2 de dezembro de 1717 — durante seu período em Weimar. O crime era o de traição a seu patrão. Fora-lhe recusado o cargo de Kapellmeister na cidade, então ele decidiu tentar a sorte em outro lugar. Queria o posto de maestro em Köthen. Bach insistiu e insistiu para ser demitido. Acabou preso. De acordo com o relatório do tribunal, o motivo foi o de “forçar a sua demissão”. Não havia CLT por lá.

2. Ele foi (infelizmente) operado pelo mesmo médico que Handel

O grande doutor John Taylor (1703-1772) operou duas vezes a catarata de Johann Sebastian Bach em 1750. Fez o mesmo com Handel em 1753. Fracassou com ambos. Pior, matou Bach, enfraquecido após as cirurgias, e deixou Handel inteiramente cego.

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3. Ele causava medo na concorrência

Durante uma viagem a Dresden em 1717, houve uma brincadeira idiota entre aristocratas. Foi organizada uma competição para decidir quem tinha mais habilidades para a improvisação: se Johann Sebastian Bach ou Louis Marchand, famoso organista francês. Na véspera da grande luta, Marchand deu de cara com Bach ensaiando. Resultado: alegou uma doença súbita e fugiu.

4. O trabalho não era fácil

Ser Kappellmeister não era simples. Regente do coro da igreja, da orquestra, compositor, ensaios e mais ensaios, além de professor de música e catecismo. Em relatório de 1706, quando tinha 21 anos, Bach dizia mais: que as crianças “já não temem seus professores, elas até mesmo lutam em suas presenças, ( … ) só não carregam espadas e pedras pela rua, mas também na sala de aula.”

5. Ele não era muito amado em Leipzig

Se Bach é apelidado de “O Kantor de Leipzig”, não podemos dizer que a cidade dava-lhe afetuosa contrapartida. Seus chefes eram rápidos para lembrá-lo de sua incompetência. Alguns chefes são assim mesmo, eu já convivi com isso. Em 1723, um assessor disse que Bach não compusera nada durante todo o ano. Hoje, sabemos que ele, como sempre, trabalhou louca e produtivamente naquele ano. Em 1730, ele foi repreendido e advertido pelo mesmo motivo. Quando de sua morte, um jornal da cidade publicou uma notinha onde dizia que “um homem de 67 anos (ele tinha 65), o Sr. Johann Sebastian Bach, maestro e Kantor na Escola St. Thomas”, morrera. Nada mais.

6. Faltava muito às aulas

O maestro John Eliot Gardiner Bach enfatiza a violência do ambiente em que o compositor passou a infância. Eram comuns as rivalidades entre gangues, as brigas entre estudantes e as maldades sádicas. O menino Johann Sebastian esteve ausente por 258 dias em seus três primeiros anos de escola. O motivo mais comum para tais ausências era a violência.

7. Ele apanhou de um fagotista

O episódio demonstra a violência que enfrentou o compositor até depois da adolescência. Em 1705, ocorreu uma briga com um estagiário fagotista chamado Geyersbah: voltando para casa ontem à noite, Bach viu seis músicos estudantes sentados em bancos de pedra e, quando passou por eles, Geyersbach foi atrás e o provocou, perguntando por que ele tinha sido insultado. Bach respondeu que não o tinha insultado, mas foi agredido mesmo assim.

8. Ele adorava café

O gosto de Johann Sebastian Bach para o café vem de sua participação na instituição de Gottlieb Zimmermann, o Café Zimmermann, onde o compositor apresentava-se regularmente durante a década de 1730. O café era uma novidade recente e sucesso absoluto naquele início de século XVIII. Na época, era encarado como uma moda passageira e um luxo. O compositor dedicou uma Cantata ao produto (BWV 211, a Cantata do Café) em que uma moça casadoura diz preferir a bebida a mais de mil beijos e afirma que só aceita casar com um marido que lhe dê café. No inventário de Bach, há menção a dois potes de café (um grande e um pequeno) e um açucareiro.

9. Ele bebia e bebia

Se o conselho da cidade de Leipzig tratava-o com dureza, deve-se notar que Bach gozou de relativa liberdade na cidade luterana. Ele fazia sua própria cerveja e pagava mais imposto sobre a produção desta do que gastava com habitação. As notas examinadas por seus biógrafos indicam que a família Bach consumia toneladas de cerveja. Um relatório de gastos com impostos do compositor em 1725 (tinha 40 anos) dá conta de um consumo espetacular, mesmo considerando família e alunos.

10. Tudo sobrava, sobretudo talento

A perfeição daquilo que criava e que era rápida e desatentamente fruída pelos habitantes das cidades onde viveu, era pura necessidade individual de fazer as coisas bem feitas. Como era pouco compreendido, brincava sozinho criando dificuldades adicionais em seus trabalhos. Muitas vezes o número de compassos de uma cantata corresponde ao capítulo e versículo da Bíblia daquilo que está sendo cantado. Em seus temas aparecem palavras — pois a notação alemã (não apenas a alemã) é feita com letras — , e suas fugas envolvem complexidades que só podiam ser apreendidas por especialistas. Então Bach era não apenas um fantástico melodista capaz amolecer as pernas de quaisquer ditadores — sei do que falo — , como um sólido teórico capaz de brincar com seu conhecimento. Em poucas palavras, pode-se dizer que o velho sobrava… Sua obra, mesmo com a perda de mais de 100 Cantatas e de outras obras por seu filho mais velho, o preferido de Bach, o maldito Wilhelm Friedemann, corresponde a 153 CDs da mais perfeita música. Grosso modo, 153 CDs são 153 horas ou mais de 6 dias ininterruptos de música.

Obs.: Um pouco traduzido, um pouco baseado em 10 (petites) choses que vous ne savez (peut-être) pas sur Jean-Sébastien Bach.

via Helen Osório

Boa noite, Abel Braga (veja os melhores lances e a obra-prima de Paulão em Inter 1 x 0 Goiás)

Abel, parabéns pela vitória choradíssima. Teu time não foi nada brilhante, mas fez o que tinha que fazer jogando sem Aránguiz, Alex, Nilmar, Fabrício, Cláudio Winck, Juan, Wellington Martins e Sacha. São oito jogadores. O futebol apresentado hoje deu para o gasto, mas, se quisermos a vaga para a Libertadores, há que melhorar. Ah, e voltaremos à questão dos machucados.

Não sei por quê, eu e meu filho Bernardo chegamos ao Beira-Rio às 16h. Uma hora antes do jogo. Digo-te, Abel, que a atmosfera era do mais profundo ceticismo quanto a teu time. Não sei se cético ou não, tinha um fisioculturista sentado com sua filha na minha frente. Usava uma camiseta sem mangas a fim de impressionar quem se impressionasse. Na camiseta, estavam estampadas uma propagandas de suplementos alimentares. Fiquei pensando em como aquele cara faz para coçar a cabeça com tanto músculo sobrando. Mas enfim, cada um com seus dramas e obstinações.

Nosso primeiro tempo foi até bom. Perdemos gols. O goleiro do Goiás praticou uma defesa milagrosa e Ernando acertou o poste após driblar o mesmo Renan. No segundo tempo, começou aquele dramalhão. O time, meu caro Abel, novamente cansou. Enquanto isso, o Goiás só se defendia, sem a mínima pretensão de atacar. Até que, quando as coisas estavam dirigindo-se para um melancólico 0 x 0, eis que Paulão comete uma obra-prima, marcando um gol de bicicleta após um escanteio.

Paulão: saiu da reserva para marcar este golaço.

Paulão: saiu da reserva para marcar este golaço.

Ah, pois é. Paulão saiu da reserva para marcar um golaço. Acho que tens razão, Abel, Paulão é banco mesmo. Porém, o que apavora o torcedor é que o time está estropiado fisicamente mesmo tendo desistido da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil. E hoje, mantendo a tendência de morte física, tu fizeste duas substituições por lesões musculares. Ou seja, o que sobrava para o meu vizinho de arquibancada — se aquilo no Beira-Rio ainda pode ser chamado assim — faltava para os nossos jogadores. Que preparo físico de merda é esse, Abel? Alan Patrick e o excelente Alan Costa saíram de campo com problemas musculares a fim de darem lugar a Valdívia e Paulão. E Bertotto saiu por estar TONTO devido ao esforço. Repito: que preparo físico de merda é esse, Abel? Pois o preparador físico é teu contratado, da tua equipe.

Como acabaremos o Brasileiro? Com todos no Departamento Médico?

Espero que o time esteja um pouquinho mais inteiro no próximo sábado, 22. O adversário não será o Goiás, Abel, será o Atlético-MG no Beira-Rio. Será que eles virão com os reservas, preservando os titulares para a final da Copa do Brasil, dia 26, contra o Cruzeiro? Rezemos que sim.

P.S. — Devo dizer que Rafael Moura jogou bem, assim como Willians, D`Alessandro, Ernando e, ainda mais incrível, Jorge Henrique. Os laterais, ambos, tu deves mandá-los embora amanhã.

Porque hoje é sábado, Iza Sala ou Por um Futuro Livre de Agrotóxicos

Quando nosso amor vai à mesa, cumpre protegê-lo.

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Nós oito — eu e meus sete leitores –, somos, aqui neste blog, incondicionalmente

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contra modelos que visem apenas o lucro, desprezando a vida e a preservação

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do meio ambiente — se vocês soubessem o quanto detesto esses lugares comuns!

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(Só que às vezes os usamos aqui no PHES. Nos sábados, não temos elegância).

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Ansiamos pelo prazer das boas comidas. De todas. Sempre.

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Vejam a foto acima: não dá pra vinte comer?

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Queremos nos saciar de forma natural. Somos pela agroecologia.

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Não merecemos que o veneno penetre em nossa boca,

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desejamos nos lambuzar sem correr perigos.

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As comidas são é a mais primitiva forma de conforto e

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não existe amor mais sincero do que aquele devotado a elas.

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E não acredito que se morra por excesso!

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Anatole France dizia que a fome e o amor são os eixos do mundo.

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Seria o mais desumano dos paradoxos saber que

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é mortal o amor ao que mata nossa fome.

(Textinho imbecil escrito muito às pressas)

Na ativa, Chico Buarque chega aos 70 anos de vida e a quase 50 de carreira

Publicado em 19 de junho de 2014 no Sul21

Provavelmente, poucas pessoas conseguirão falar com Chico Buarque no dia de hoje, em que ele completa 70 anos. Ele é um sujeito muito reservado. Quando fez 60 anos, mentiu que viajaria para Paris a fim de ficar tranquilo. Porém, na tarde daquele dia, fez alongamentos e correu no Leblon. Para aqueles que o questionavam, respondia “Viajando nada!”. E ria. É que este verdadeiro patrimônio da cultura nacional, compositor, cantor e escritor, esta figura pública que não evita falar em política, que é ao mesmo tempo lírico, nostálgico e porta-voz das mulheres, é um cidadão mais afeito à tranquilidade do que a inevitável notoriedade que alcançou sua obra. Aliás, a notoriedade veio rápida, alçando-o em menos de um ano do anonimato ao posto de unanimidade nacional, concedido informalmente pelo amigo Millôr Fernandes.

Chico-Buarque

Cedendo ao pecado da primeira pessoa do singular, digo que certa vez estava em Parati e, após alguns dias de contenção, resolvi gastar algum dinheiro. Fui jantar em um dos melhores restaurantes da cidade. Logo que sentamos na mesa escolhida do restaurante quase vazio, dois garçons vieram falar conosco. “Na mesa ao lado, o Chico Buarque jantará com uma de suas filhas e amigos. Ele não tolera fãs. Espero que o senhor não o incomode”. Um tanto contrariado pela observação, respondi que saberia me comportar. Minutos depois, muito sorridente, Chico chegou, fazendo questão de cumprimentar a todos antes de sentar-se com seus amigos.

Conto esta história porque o restaurante está “prenhe de razão”, como diria Julinho da Adelaide. Chico Buarque é um homem especialmente talentoso e bonito. As pessoas têm curiosidade sobre ele, principalmente as mulheres. Algumas das moças que nos acompanhavam talvez ficassem atrapalhadas ao vê-lo adentrar o restaurante com seus olhos verdes para sentar na mesa logo ao lado. Era melhor avisar mesmo.

Chico-Buarque-crianca

Francisco Buarque de Holanda nasceu em 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e de Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda. Aos dois anos, mudou-se com a família para São Paulo. A primeira vez que apareceu na imprensa foi nas páginas policiais da Última Hora em razão de um ilícito: com um amigo, ele roubara um carro para passear. Acabou preso. A foto da delegacia foi parar na capa do disco Paratodos.

Chico Buarque paratodos

Quando trocou a editoria de Polícia pela de Cultura, havia um impasse na música brasileira. De um lado, estavam os defensores do samba tradicional e, de outro, o pessoal da bossa nova,com suas harmonias mais elaboradas. Chico nunca escolheu um dos lados pelo simples motivo de que tinha os dois em seu coração. Se suas letras revelavam um jovem nostálgico — ele parece reviver seu ídolo Noel Rosa (Chico diz que a maior canção brasileira de todos os tempos é Último Desejo) –, as harmonias não são mais as de Noel. É que em 1959, quando Chico tinha 15 anos, fora lançado o LP Chega de Saudade, de João Gilberto, e ele não passara incólume. Nem os vizinhos. Chico ouvia este disco tão repetidamente que a família Buarque de Holanda era alvo de reclamações.

sonho de un carnaval chico buarqueMúsica

Lançado há 49 anos, em 1965, seu primeiro compacto simples trazia duas canções: de um lado Pedro Pedreiro e do outro Sonho de um Carnaval. Pedro Pedreiro é uma canção com letra de conteúdo social, agregada a uma harmonia complexa que incorpora ao estilo tradicional o que lhe interessava da bossa nova. Chico nunca foi um revolucionário da arte, utiliza-se das formas disponíveis para elevá-las a um nível talvez inalcançável por nenhum outro artista popular. Suas combinações de letra e música deram tanto uma feição literária à MPB, como alçaram a música popular ao status de poesia.

Nos anos 60, Chico foi um estranho e talentoso jovem. Era um jovem nostálgico. Realejo e A Televisão mostram uma saudade esquisita em alguém de menos de 25 anos. Mas um de seus temas mais caros já se fazia presente: a preocupação com a condição feminina fazia-o criar personagens e ele convidava mulheres para cantar Com açúcar, com afeto e o dueto de Noite dos Mascarados. Ao lado destas, apareciam a malandragem de Noel em Logo eu? e o lirismo de Morena dos Olhos d´água, Januária e Olê Olá, por exemplo.

chico buarque de hollanda a bandaQuando foi lançada, A banda tornou-se um divisor de águas na carreira de Chico. Interpretada por ele e Nara Leão, dividiu o 1º lugar com Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, no 2º Festival de Música Popular Brasileira, em 1966. Vendeu mais de 100 mil cópias em uma semana.

Por falar em 100 mil, Chico participou da passeata dos 100 mil, em 1968. Ele militou contra a ditadura militar compondo canções e peças que criticavam o regime, às vezes de forma explícita, e em outras buscando driblar a censura de maneira alegórica. Não chegou a ser preso, mas foi interrogado no Dops e no 1º Exército. Também em 1968, Chico venceu o 3º Festival Internacional da Canção, em parceria com Tom Jobim, com a canção Sabiá. O público vaiou Chico, Tom e o Quarteto em Cy. Preferia Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré. Em 1969, Chico recebeu convite para gravar um disco na Itália e cantar na França. Seguiu para Roma com Marieta, grávida da primeira filha. Ao saber da prisão de Gil e Caetano, decidiu não voltar. O casal passou 14 meses na Europa.

Construção_chico_buarqueA maturidade como compositor

Na volta, Chico lançou Construção (1971), um disco absurdamente bom e completamente distinto dos anteriores. Chico se modernizara em tudo: as letras não são mais nostálgicas, as citações ao samba não estão mais em toda canção e os arranjos de Magro (MPB-4) e Rogério Duprat deram a roupagem que as canções já mereciam mas não tinham. O disco tem de tudo: sambas de exílio, canções intimistas, acalantos e a grandiosidade de Construção e Deus lhe pague. As letras estão carregadas de críticas ao regime militar e às condições sociais do país. Além da preciosidade técnica da letra de Construção – 41 versos, todos terminando com um proparoxítono de três sílabas –, a canção revela o engajamento social de seu autor. Foi uma redefinição e tanto. É seu primeiro disco adulto. Na época, ele disse que xingou o Sabiá, abandonou a Rita e empurrou a Carolina da janela para fazer esse disco.

No âmbito da canção, era a maturidade chegando aos 27 anos. Nos anos seguintes, ele abriu mais frentes. Sem açúcar, que está em Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo, trazia um amargor nunca antes ouvido em seus discos. Por outro lado, a censura incomodava. “Eles me encheram o saco, mas também enchi muito o saco deles”. O compositor teve dezenas de canções proibidas ou “tesouradas”, mas algumas escapavam. As principais foram Apesar de você e Cálice. Quando se deram conta do vacilo, os censores já não podiam impedir as ruas de cantá-las. A fim de burlar a censura prévia, o compositor inventou o sambista Julinho da Adelaide, que “escreveu” a notável Acorda amor. A identidade de Julinho foi revelada em 1975, numa reportagem sobre a censura publicada no Jornal do Brasil.

Em 1974, Chico estreou na literatura com Fazenda modelo, definida por seu autor como uma “novela pecuária”. No mesmo ano, ele lançou Sinal Fechado só com canções de outros compositores, além de Acorda Amor. O disco é excelente, mas demonstra as dificuldades com a censura. Mas a fileira de discos de obras próprias aparecia lotada de obras-primas.

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Meus caros amigos (1976), Chico Buarque (1978), Ópera do Malandro (1979), Vida (1980), Almanaque (1981) e Chico Buarque (1984), mais parecem antologias de melhores músicas do que discos regulares. Não há nada que seja de segunda linha, fato que obrigou a Almir Chediak, por exemplo, a lotar de canções os oito CDs de seu Songbook de Chico Buarque. (Songbook é um livro impresso com partituras, letras e CDs, de uma ou mais bandas ou músicos).

Musicalmente liberado, Chico tanto se valeu da eletrificação — Jorge Maravilha, Hino de Duran, A Voz do Dono e o Dono da voz –, quanto de ritmos estrangeiros — Fado Tropical, Tanto amar, Tango do Covil, Bancarrora Blues –, do charleston — Ai, se eles me pegam –, das marchinhas sacanas — Não existe pecado no lado debaixo do Equador e a sensacional Boi voador não pode, etc. Ele ainda explorava preferencialmente o samba e as delicadas valsas — Terezinha, Eu te amo, João e Maria — e revelava auto-ironia em Corrente — “Pra confessar que andei sambando errado / Talvez até precisa tomar na cara”) e Até o fim, além do drama nos versos de Olhos nos Olhos, Folhetim ,Mil Perdões e Bastidores.

Após 1984, a produção de Chico Buarque diminuiu em número, mas não em qualidade. Chico também desenvolveu discos em parcerias com Caetano Veloso e, principalmente com outro gênio da MPB, Edu Lobo. De Francisco (1987) a Carioca (2006) e Chico (2011), seus últimos trabalhos na música nada ficam a dever ao Chico dos anos jovens ou ao Chico maduro.

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Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora, canta Chico em Essa pequena, do disco Chico, certamente referindo-se a seu envolvimento com a cantora Thaís Gulin. Seu último disco é um esplêndido trabalho de canções de amor. Talvez a melhor música seja Nina, uma bela e imaginativa valsa de sabor russo e internético. Nina diz que tem a pele cor de neve / E dois olhos negros como o breu, canta.

A discussão sobre a relação entre a música, a letra de canção e a poesia é antiga. O Chico letrista escreve com profundo conhecimento das técnicas literárias, mas nunca perdem a comunicação e são embaladas por uma musicalidade interna quase natural. Herdeiro da linguagem urbana de Noel, estas incorporam elementos da poesia modernista de Manuel Bandeira, Drummond e Vinícius. A força da poesia das canções de Chico por muito tempo obscureceu a arte do melodista. Ainda mais que, mais recentemente, suas composições foram ganhando os elementos eruditos que lhe chegaram filtradas pela arte de Tom Jobim.

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Fazenda Modelo (1974) era quase uma brincadeira com A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Estorvo (1991) não é um bom romance, mas revela que o romancista não é somente uma extensão do cancionista. Em Benjamin (1995) já havia uma voz própria, mas tudo mudou com o extraordinário Budapeste (2003). Não obstante as críticas geralmente negativas a Estorvo e Benjamim, estes e Budapeste foram adaptados para o cinema. Seu mais recente romance é Leite derramado (2009). É o mais reconhecido deles, tendo recebido o Jabuti de melhor ficção do ano. Na época da premiação, houve grande debate pelo fato de que muitos acharam o livro inferior ao segundo colocado Se eu fechar os olhos agora, do repórter da Globo Edney Silvestre. Leite é a biografia de um homem em meio aos tormentos da memória, que simboliza a formação do país e suas feridas sociais. Seus dois últimos livros apresentam boa variação temática — a questão dos duplos, a velhice, a geopolítica brasileira — e protagonistas em que a fronteira entre a realidade e a imaginação está pouco definida, o que torna seus relatos muito pouco confiáveis.

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Fontes consultadas:
– Fascículo dedicado a Chico Buarque da História da Música Popular Brasileira
Conheça 70 fatos marcantes da vida de Chico Buarque

O estranho concurso da Ospa (Parte V – Que Banca é essa?)

A Banca Examinadora do Concurso Público para preenchimento de vagas de músicos na Ospa foi publicada dia 10 no Diário Oficial do Estado do RS. Ninguém de fora. Ninguém de nome, apesar da alta qualidade de alguns maestros e solistas que participam de concertos com a Ospa. Só gente da própria orquestra. Vários alunos serão julgados por seus professores; vários amigos serão julgados por amigos; e se houver inimizades? Como garantir a imparcialidade?

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Bom dia, Abel Braga (com os melhores lances de SP 1 x 1 Inter)

O único lúcido de um time siderado

Alex (fot0) e Alisson: os únicos lúcidos em um time siderado

O jogo de ontem foi um claro retrato do atual futebol brasileiro: uma péssima administração — representada pelo “árbitro” Héber Roberto Lopes –, um time cansado pelo calendário absurdo (São Paulo) e outro de níveis técnico e tático rasteiros (Internacional).

O Inter teve sorte. Tu entraste com um retrancão de três zagueiros e dois volantes, Abel, e o SP teve dificuldades para chegar próximo de nosso gol. Então, no meio daquela coisa de centenas de passes errados, rebatidas e tentativas de futebol, ganhamos um gol de presente. Paulão estava impedidíssimo ao marcar o 1 x 0. Foi constrangedor. Nem comemorei, apenas ri. Acho que o bandeira não viu o desvio de cabeça do Bertotto.

Nosso time estava desfalcado e tua opção pela retranca foi compreendida por este que te escreve. Alisson esteve genial. Nosso goleiro pegou bolas incríveis ontem, como meus sete leitores e tu podem ver no vídeo abaixo. E tem só 22 anos! Boa sacada tua a de tirar o Dida para colocar o rapaz. Acho melhor te tratar bem neste período crepuscular de tua gestão. Só não repita que vais deixar um legado! Legado o caralho!

Voltando a ontem: o gol do Luís Fabiano foi uma piada. Os caras levantam uma bola na área lá do outro lado e o cara aparece livre no meio de três zagueiros!

Bem, não sei como conseguiremos os nove pontos que nos faltam em quatro jogos para chegar à Libertadores, mas é o único jeito. E já vamos sem Fabrício para o próximo jogo… Que idiotice do Héber. Foi a mais comum das faltas. Aliás, talvez nem tenha sido falta, mas ele tocou o cara na rua com o segundo cartão.

Precisamos fazer retornar o D`Alessandro, seguir colando os cacos e torcer para o glorioso Alan Ruschel reencontre o futebol que deixou no vestiário da Arena Tricolor. Dê companhia para o Nilmar, Abel. O coitado está muito sozinho e vai acabar deprimido.

Até domingo contra o Goiás no Beira-Rio. Estarei lá sofrendo. Boa sorte.

Citando C.P.E. Bach

“Eu penso que a música deve predominantemente tocar o coração. Faz parte da verdadeira arte musical uma liberdade que exclui tudo o que é escravo e mecânico. Deve-se tocar a partir da alma, e não como um pássaro domesticado”

Carl Philipp Emanuel Bach, que completa 300 anos de nascimento este ano.
Ele foi o filho mais talentoso de Johann Sebastian e seria famosíssimo se a história da música não o tivesse colocado sob a enorme sombra projetada pelo pai

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A Ospa com Shinik Hahm

Shinik Hahm, correto | Foto: Antonieta Pinheiro / Divulgação

Shinik Hahm, correto | Foto: Antonieta Pinheiro / Divulgação

O maestro sul-coreano Shinik Hahm é colorado. E suas boas escolhas ficaram comprovadas ao convocar sua conterrânea Hyejin Kim para interpretar o Concerto para piano e orquestra, Op. 16, de Edvard Grieg. É a segunda vez este ano que assisto a este concerto. A primeira vez foi com a Osesp no Theatro São Pedro, com Dmitry Mayboroda ao piano e regência de Marin Alsop. Como pianista, Kim me pareceu ainda melhor. Como estamos entre colorados, afirmo que ela também é melhor do que Wellington Silva como lateral, por exemplo. A moça deu uma interpretação de notável perfeição técnica e musicalidade para uma obra apenas OK. Uma pena que uma pianista de tamanha qualidade tivesse vindo ao RS apenas para tocar o concerto de Grieg. Merecia algo mais interessante. Como o seu bis, por exemplo, um esplêndido e jazzístico primeiro movimento de uma Sonata do ucraniano Nikolai Kapustin. Grieg é como a defesa do Inter, não tira o sono de ninguém. Sabiam que ele era parente distante de Glenn Gould? Pois é.

Retirado do palco o piano, o programa seguiu com a Sinfonias (assim mesmo, no plural) para instrumentos de sopro, de Igor Stravinsky. A peça foi dedicada à memória de Claude Debussy e inaugura o período neoclássico do compositor. Foi muito bom ouvir música com menos de 100 anos e fora da curva habitual da orquestra. Aliás, negando a frase anterior, em 2012 a Ospa já tinha tocado esta obra com o regente Dario Sotelo dançando as tortuosas melodias do talentoso nanico russo amante da grana. Foi um bom momento com os bons sopros da Ospa mandando bala na noite quente.

Depois veio o poema sinfônico As Fontes de Roma, de Ottorino Respighi. O bolonhês Respighi gostava da cidade e escreveu também Os Pinheiros de Roma e Festas Romanas, formando sua Trilogia Romana. Na primeira metade do século passado, Toscanini deixou as peças famosas, mas sua orquestra tinha certamente cordas mais afinadas do que as da Ospa. Há uma história curiosa sobre a de As Fontes: Arturo Toscanini tinha planejado estrear a obra em 1916, mas o compositor italiano se recusou a comparecer ao concerto por motivos políticos. Acontece que, na mesma noite, Tosco iria executar algumas peças de Wagner. Consequentemente, a estreia foi adiada, acontecendo só em 1917, com Antonio Guarnieri. Embora a desavença inicial, Toscanini foi o grande divulgador da obra, regendo-a diversas vezes com enorme sucesso.

Foi um bom concerto. O crescimento da Ospa em menos de sete dias de Hahm, faz-me pensar se ele não aceitaria o lugar de Abel Braga no Inter. Também precisamos de uma melhora súbita. Vai lá, Shinik! Aliás, a célebre Holanda de 74 tinha em seu meio de campo um grande jogador chamado Hahn, lembram? Vai que o coreano não aceita?

Divórcio, de Ricardo Lísias

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddÉ óbvio que, até pela situação passada no ano passado, eu leria este livro. E começo dizendo que a traumática separação do personagem Ricardo Lísias — sim, Lísias é o nome do personagem de Lísias — foi fichinha perto da separação de Milton Ribeiro.

Divórcio é a história de uma separação com todos ingredientes que fazem parte deste tipo de situação: choque, ressentimento, ódio, divisão de bens, vinganças, recuperação. Tudo isto é catalisado por um narrador original e seguro, na primeira pessoa, que cria um texto grudento, apesar de cheio de quebras e opções. A sinceridade e a exposição do personagem Lísias só surpreende se pensarmos que Divórcio é um romance autobiográfico, fato negado pelo autor, inclusive para mim, pessoalmente.

Grosso modo, o romance alterna quatro tempos. O momento presente, a história do casamento, a preparação de Lisias para correr a São Silvestre — única fonte de prazer e o meio escolhido para o retorno à realidade e à vida — e a infância do Lísias personagem. Os jornalistas, profissão da ex-mulher, recebem muitas e justificadas críticas. Há uma coleção de frases antológicas de ódio no livro, mas se eu coloco aqui vão pensar que a coisa tem endereço. Então, vou colocá-las num contexto mais tranquilo. Num PHES fora da curva, por exemplo.

Indico, claro. Trata-se de um belo texto visceral.

(Curiosidade: fiquei contrariado com algumas metáforas utilizadas e, ao comentá-las com a Elena, fui convencido de que eram perfeitas. O problema é que eu sofro de outra maneira).

10 coisas que deveriam mudar nas salas de concertos. Ou não

Este post é baseado na polêmica opinião do maestro Baldur Brönnimann. Minha tradução é mais ou menos traidora. Traduttore, traditore. Os itálicos são observações minhas.

Johnny Greenwood é guitarrista do Radiohead. Ele publicou recentemente um artigo no qual opinava que a música clássica ao vivo era excludente. Era uma constatação de alguém que vinha de fora do mundo da música clássica. Ele disse que, ao longo dos anos, tem assistido — e realizado — uma série de espetáculos e que, se a música clássica quer atrair um novo público, deve pensar sobre alguns fatos de fora de sua vivência habitual.

Pensando no assunto, o maestro Brönnimann elaborou um decálogo de sugestões. Na sua opinião, sentar em uma sala de concertos e não fazer qualquer outra coisa que ouvir música por duas horas é uma grande e radical experiência. E que há muitas regras e convenções em concertos de música clássica que muitas vezes aceitamos sem discutir e que tornam a experiência de concerto clássico pior do que deveria ser.

Uma Sala de Concerto de Copenhagen | Foto: Divulgação

Sala de Concerto em Copenhagen | Foto: Divulgação

Abaixo, Brönnimann sugere alterações no ritual da música erudita (meus comentários, como já disse estão em itálico):

  1. O público deveria poder aplaudir entre andamentos: Gustav Mahler introduziu o hábito de sentar em silêncio até o final de uma peça e eu acho que, depois de cerca de 100 anos, é hora de mudar isso. Eu adoro quando as pessoas batem palmas entre os movimentos. É uma expressão espontânea de prazer e as pessoas devem se sentir livres para mostrar seus sentimentos em um concerto. Acharia estranho aplaudir nas passagens dos movimentos lentos para os rápidos. É um momento em que, quase sempre, está presente uma tensão a ser quebrada. Acho que os aplausos atrapalhariam. Mas também acho ridículo “não poder” aplaudir. Fico em cima do muro.
  2. As orquestras deveriam afinar nos bastidores: Há algo autenticamente emocionante sobre a audição de uma grande orquestra em uma grande sala. Não devemos estragar o impacto dos primeiros sons de uma peça adiantando muitos desses sons mágicos, de forma aleatória, no início de um concerto. Eles devem emergir de completo silêncio. Teríamos então que equalizar a temperatura do palco e dos camarins. A luz do palco é muito mais quente e desafina os instrumentos. Por isso é que os músicos afinam no palco. Discordo.
  3. Deveria ser permitida a utilização de celulares e dispositivos eletrônicos móveis em modo silencioso: Eu não quero dizer que se permitam fazer chamadas telefônicas, é claro, mas se, ao invés de desligar os aparelhos, as pessoas pudessem tuitar, facebookear, tirar fotos ou gravar em silêncio. Se o espectador compra ingresso, deve ter o direito de registrar o que vê e partilhar com os amigos. Concordo.
  4. Os programas deveriam ser menos previsíveis: As orquestras devem assumir o risco e nem sempre imprimir todo o programa, mas apenas algumas obras-chave. Deve haver um elemento de imprevisibilidade sobre um concerto. Algo inesperado. A surpresa deve vir é da interpretação individual ou coletiva da peça. Discordo.
  5. Deveria ser permitido levar as bebidas para a sala de concerto: Eu gosto de me sentir relaxado em um concerto, ter tempo e não ter que esvaziar o copo rapidamente no intervalo. É uma boa, desde que fossem servidos cálices de vinho ou bebidas em copos. Nada de abrir garrafas ou latinhas. A coisa seria comprara num bar lá fora. Por que não?
  6. Os músicos deveriam falar com o publico no bar ou nos bastidores: Ser capaz de fazer uma introdução oral a uma peça, cumprimentar a platéia ou assinar um programa — isso deveria ser obrigatório para todos os artistas. Pior, muitas vezes o público é impedido de ir aos bastidores depois de um concerto. Todo mundo deve poder falar com os músicos para compartilhar com eles pensamentos e opiniões. Nós não vivemos em uma torre de marfim e devemos falar com as pessoas que amam a música tanto quanto nós fazemos. Seria uma forma interessante de precisamente aproximar a música do espectadores sem perturbar o essencial. Concordo.
  7. As orquestras não deveriam atuar com fraques: Essa é velha. Claro que camisas coloridas seria um exagero, mas os fraques com cauda também são. Há opções muito elegantes de ternos. Uma forma de vestir menos formal ajudaria a reduzir a distância. Concordo.
  8. Os concertos deveriam ser mais fáceis para as famílias: As pessoas com crianças pequenas também querem ir a concertos, mas eles têm que ser capazes de deixar a sala de forma rápida e silenciosa quando os pequenos cansam. As salas de concerto deveriam pensar nas famílias com crianças e dar-lhes assentos prioritários perto das saídas. Os bebês choram e ninguém se importa muito, mas os pais devem ter a possibilidade de irem e virem, porque alguns concertos são longos até para os adultos. Complicado de realizar, não? Discordo. Que chorem à vontade.
  9. As salas de concerto deveriam utilizar tecnologia de ponta: Todos gostariam de ver o artista de perto. Então por que as salas de concertos não usam telas para mostrar detalhes de uma performance? Por que não usamos  amplificação para as salas de concerto de acústica deficiente? Há um purismo desnecessário quanto a tecnologia em salas de concerto. Como artistas criativos, devemos estar na vanguarda do uso da tecnologia de forma criativa. Concordo com reservas. Nada de amplificação, por favor. Amplificação = bagaceirice.
  10. Cada programa deveria conter pelo menos uma obra contemporânea: Temos que voltar a ligar o repertório clássico com nossas vidas contemporâneas, precisamos tocar a música do nosso tempo. Isso não quer dizer que não devemos tocar as obras-primas históricas, mas a música clássica tornou-se uma espécie de “fetichização do passado”, como Alex Ross escreveu em um ótimo artigo sobre a influência de Beethoven na música clássica. Programação das grandes obras do passado ao lado da música do nosso tempo vai lançar uma luz diferente sobre o passado, bem como sobre o presente musical. Nossa salas são museus sonoros. Concordo, a menos que o concerto seja de uma orquestra de época, com violas da gamba, bandurras, vielas de roda, etc. Instrumentos medievais não devem tocar música moderna, é óbvio.

Bom dia, Abel Braga (com os gols de Grêmio 4 x 1 Inter)

Gol de Luan após o Inter perder a bola bobamente no meio-de-campo

Gol de Luan após o Inter perder a bola bobamente no meio-de-campo

O Grêmio não fazia 4 gols num jogo desde janeiro, quando venceu o Aimoré por 4 x 0. Neste Brasileiro, o time não tinha feito três gols em nenhuma partida. Ontem, fez quatro. Parabéns, Abel, a justíssima vitória do Grêmio passa por ti, por cima de ti. Foi um banho de bola.

Sim, é complicado jogar contra um time que se utiliza preferencialmente do contra-ataque e que tem uma boa defesa. E nós fizemos aparecer as melhores características do Grêmio perdendo bolas fáceis no meio-de-campo. Se ninguém se aproxima de Willians para receber a bola, ele vai perdê-la e nossa defesa será pega de surpresa. Os primeiros dois gols nasceram assim, de nosso mau toque de bola. Compactar o time, fazer com que apareçam jogadores para receber a bola. Tarefa tua, Abel.

Para completar, fracassos pessoais minaram ainda mais o time. Alan Ruschel fez com que os detratores de Fabrício quase morressem de saudades do lateral titular. Na lateral direita, tu não aprendes que o melhor que temos é Cláudio Winck, seguido de Diogo e não do fraco Wellington Silva, um dos destaques negativos de ontem. Nilmar ainda está fora de forma, é um peso morto e, quanto a Alan Patrick… Melhor nem falar, pois não o vi em campo.

Quando estava 2 x 1 para o Grêmio. Observei um escanteio contra nós. Observei bem e vi que Geromel estava livre no segundo pau. Livre, livre, livre. Mas a bola foi batida no primeiro. Abel, o que tu fazes — tinha escrito “fezes” — durante a semana?

O site de estatísticas Infobola dá o Inter com 43% de chances de chegar à Libertadores. O Grêmio tem 40%. Mas isso é a estatística aplicada à dificuldade dos jogos que ambos têm pela frente. Nosso problema é motivacional e moral. E não tenho nenhuma confiança no teu poder de reagir e de motivar, Abel. Quanto ao esquema tático e erros de escalação, já cansei de te escrever a respeito.

Porque hoje é sábado, Kimiko Nakahara

Seleção de fotos: Cristóvão Crochemore Restrepo

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Por distorção cultural, vejo nas mulheres japonesas

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ou coreanas, chinesas, tailandesas,

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rostos de porcelana, contornos moderados e algum recato.

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Mesmo quando cortesãs, recato.

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Vejo nelas também a tentativa de compreender, respeitar e descobrir

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um modo de harmonizar-se a seu homem.

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Acho que vi muitos filmes históricos, Cristóvão.

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Batalhas fantásticas, domínios imperiais, contos de samurais.

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Sei que desconheço tudo o que é oriental – do xintoísmo ao budismo,

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ignorando também as várias etnias. Sei que as do sudeste asiático são bronzeadas.

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as do extremo oriente, mais claras. E que Kimiko Nakahara,

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com seu nome de super-heroína gueixa assassina mangá, só pode ser japonesa.

Louis-Ferdinand Céline, os 120 anos do brilhante escritor antissemita

Publicado pelo Sul21 em 1º de junho de 2014

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Céline: censura póstuma oficial

O fato de um escritor tão imenso quanto Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) ter sido um antissemita dos mais abjetos sempre foi, no mínimo, perturbador. Em 2011, quando completou 50 anos de morte, Céline recebeu uma curiosa “des-homenagem” oficial. O Ministro da Cultura da França, Frédéric Mitterrand, retirou o nome de Céline das Célébrations Nationales. O motivo era o de sempre: “o antissemitismo virulento” do escritor e seus desprezíveis panfletos. O Ministro afirmou que apesar de seu talento, “não se deve esquecer o homem que fez a apologia do assassinato de judeus durante a ocupação. Não é digno que a República o celebre”. Um intenso debate seguiu-se e o Ministro afirmou que a retirada consistia numa moção de repúdio.

O professor emérito da Sorbonne, Henri Godard, ficou indignado: “É uma forma de censura. É perfeitamente possível distinguir os dois Céline: o grande escritor e o antissemita. O ato não constitui numa reparação às vítimas do antissemitismo, só as transforma em culpadas involuntárias de um ato de censura a um excepcional escritor”. Frédéric Vitoux, da Academia Francesa e biógrafo de Celine, afirmou que remover o nome de Céline de um catálogo é tão bobo quanto o fato de Stalin ter apagado das fotos oficiais os líderes comunistas de quem não gostava. “Isso não contornará o fato de que Céline foi um escritor genial, traduzido inclusive em hebraico. O que fazer, devemos queimar a tradução hebraica de Viagem ao Fundo da Noite?”.

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O escritor viu seu asilo na Espanha de Franco impedido por de Gaulle.

Amado e odiado, Céline é uma glória das letras europeias. Em 1950, foi julgado e condenado pela Repú­blica Francesa a um ano de prisão e a pagar 50 mil francos de multa. O governo confiscou cerca da metade de seus bens. O escritor ficou proibido de votar e ser votado, de portar armas e pleitear cargos públicos e não podia trabalhar em jornais, escolas e bancos. Quando a Segunda Guerra acabou, Céline pediu asilo a Franco, mas de Gaulle impediu pessoalmente que o ditador espanhol o recebesse, dizendo a Franco que tal asilo atrapalharia as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.

Nesta semana, ao completar 120 anos de nascimento, as homenagens a Céline partiram mais dos países de língua inglesa do que da França. Mas por que Céline é importante? Porque, na primeira metade do século passado, numa época em que os escritores e compositores experimentalistas tornavam suas obras mais e mais impenetráveis, Céline renovava a literatura utilizando-se da língua falada. É claro que a expressividade de Céline era muito estilizada, tratava-se de uma linguagem fabricada, mas o gosto pelas expressões orais e populares faziam parte de seu projeto, mesmo que seus temas fossem tão pouco seculares quanto a morte e a guerra. Suas posições políticas e opiniões não se fazem presentes em seus romances, apenas nos panfletos.

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Amor às reticências. Um pontilhista como Seurat e Signac…

Seu primeiro romance foi o citado Viagem ao Fundo da Noite.  A “viagem” é a aventura que se vive até a morte certa. Seu segundo romance, chama-se Morte à Crédito.

Quando se abre um livro de Céline, em qualquer página, toma-se um susto. O escritor simplesmente adorava as reticências. Suas páginas estão cheias delas, ao lado de uma linguagem fácil e fluida, raivosa e debochada. “As reticências arejam a frase”, dizia. A impressão que se tem é a de que o escritor raramente finaliza suas frases… Ele mesmo brincava que era pontilhista como os pintores Seurat e Signac. Já os estudiosos de sua obra garantem que a linguagem simples era resultado de uma elaboração rigorosa. Ou seja, ela parece simples, porque calcada na linguagem oral, mas é finamente elaborada. A tradutora Rosa Freire d’Aguiar anota: “Desde seu romance de estreia, Viagem ao Fim da Noite, de 1932, Céline forjou uma língua própria, incorporando gírias, corruptelas e palavrões, criando onomatopeias, elipses, rimas e neologismos”.

Seu estilo é raivoso e requer estômago forte. Por exemplo, a descrição que ele faz de uma viagem de barco em Morte à Crédito (1936) é algo inacreditável. O barco começa a jogar de um lado para outro e Céline não recua ao descrever a verdadeira epidemia de vômito que acomete os participantes. Não é um escritor que evite descrições por pudor.

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Herói e inválido na Primeira Guerra Mundial.

Nascido em 1894 em Courbevoie, periferia de Paris, em uma família de classe média baixa, Céline recebeu uma instrução escolar convencional antes de se incorporar ao exército francês em 1912, durante a primeira Guerra Mundial. Por ter levado a cabo uma missão de reconhecimento arriscada no setor de Ypres (Flandres Ocidental), foi condecorado como Herói de Guerra. No conflito, sofreu ferimentos na cabeça que lhe deixaram um zumbido recorrente no ouvido. Foi declarado inválido de guerra.

Depois, em 1916, esteve em Camarões trabalhando numa empresa francesa de madeiras. Retornou à França no ano seguinte. Trabalhou também numa fábrica de automóveis, enquanto começava o curso de Medicina. Em 1919 casou-se com Edith Follet, filha do diretor da Escola de Medicina de Rennes. Em 1920 nasce a sua filha Colette e dois anos depois Céline recebe a licenciatura em Medicina, tendo por tese um trabalho sobre o médico Ignaz Philipp Semmelweis.

Semmelweis em 1858, tese lida até nossos dias

Semmelweis em 1858. A tese de Céline é lida ainda em nossos dias

Esta tese é pura literatura e está publicada no Brasil, em livro da Companhia das Letras. É um relato espantoso e envolvente sobre a perseguição sofrida por Semmelweis pelo simples fato de ele ter sido o médico que tentava introduzir o ato de lavar as mãos e a esterilização de instrumentos e utensílios antes de quaisquer operações cirúrgicas. As estatísticas mostravam que seus pacientes morriam menos, mas a novidade era tão incompreensível para a época que o húngaro Semmeweis (1818–1865) só podia estar brincando ao fazer pouco da habilidade de quem fazia os procedimentos sem lavar as mãos.

O húngaro constatou que, quando se obrigava os médicos obstetras a lavarem as mãos antes de se aproximarem das parturientes, a proporção de infecções caía de 30% para menos de 1%. Vítima da hostilidade e da zombaria dos círculos médicos, Semmelweis foi expulso do hospital, teve de deixar Viena e acabou não somente alijado do mundo científico como internado num hospício… Tornou-se o primeiro grande personagem de Céline. A repercussão da tese de Céline, que não continha nenhuma novidade, ultrapassou muito o campo da medicina.

A morte, portanto, está presente na obra de Céline desde sua tese. Na verdade a morte já estava em sua vida desde a Primeira Guerra Mundial. Céline disse que tinha matado uma dezena de pessoas no conflito e que aquilo o afetava. Talvez tenha sido para aliviar a própria dor que Céline começou a escrever, o que acabou dando origem ao seu primeiro e melhor romance: Viagem ao Fundo da Noite.

Viagem narra a história de Ferdinand Bardamu, que luta na Primeira Guerra Mundial, envolve-se em uma empreitada de colonização na África, trabalha na linha de montagem da Ford nos Estados Unidos e termina em um subúrbio pobre de Paris, trabalhando em um manicômio. O romance é um grande retrato da loucura, mas da loucura não de um homem só, mas de toda a sociedade. Os caminhos de Bardamu reproduzem a própria história da França no começo do século passado, ingressando numa guerra genocida onde ninguém poderia ganhar, num projeto colonial e numa industrialização desumana ao estilo norte-americano da época… Não é casual que pareça que estamos recontando a biografia de Céline. Assim como seu alter ego, o escritor não guardava boas lembranças de nenhuma de suas experiências.

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“O amor é o infinito ponto fora do alcance”

O romance é dividido em duas partes. A primeira refere-se à descoberta de um mundo onde a paz e o amor entre os povos parecem impossíveis — por todo lado há homens explorando-se uns aos outros.  A segunda parece um prolongamento íntimo do primeira, notavelmente bem escrito. Serve para confirmar que o amor é impossível. Aqui, Céline examina a vontade de dominação e dependência nas relações amorosas. O romance desloca-se do social para o particular a fim de demonstrar que, de forma geral, “o amor é o infinito ponto fora de alcance”.

Morte a Crédito é tão autobiográfico quanto Viagem, só que voltado à infância do escritor. Como Céline, o protagonista também é um médico que descreve suas experiências no subúrbio da capital francesa, atendendo pessoas pobres. Com acidez, o narrador demonstra sua descrença a respeito de tudo. (Talvez seja importante citar que Céline, como médico, era amado por seus pacientes, sendo considerado um modelo de bondade e dedicação). Porém, a descrição de seus pacientes e parentes — dos quais recebia quantias miseráveis — é tão ressentida e permeada pelo ódio que se torna hilária. Todavia, num certo ponto da narrativa há uma ruptura e recuamos no tempo, dirigindo-se para a infância do escritor. O leitor, então, é levado à casa de Céline e de sua família. A vida era complicada. O pai trabalhava numa empresa de seguros e é um homem sem perspectivas e energia. A mãe mantinha a lojinha da família, enquanto a avó vive da renda de alugueis que quase não recebe e os tios não possuem um emprego fixo. Ou seja, todos sofrem com a falta de dinheiro. A narrativa é primorosa na descrição dos sentimentos humanos envolvidos.

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Um médico e escritor obcecado pela catástrofe

Mas, ao lado destes romances e de Norte, há os panfletos. O primeiro é Mea Culpa, onde manifesta seu desencanto com o comunismo. Depois vieram os políticos… A pedido do autor, Bagatelas para um massacre, A Escola dos cadáveres e Bonitos os Panos nunca foram reeditados. Dos panfletos antissemitas, apenas o célebre Vão Navios Cheios de Fantasmas pode ser lido.

O ensaísta Dau Bastos frisa que Céline “fez da escrita uma briga só” e nota que “ele mostrou-se tão obcecado pela catástrofe que a ela submeteu seu próprio texto”. Já Simone de Beauvoir confessa que chegou a saber de cor algumas das páginas de Viagem ao Fundo da Noite. O universo de Céline, que nos fala de desastres e das ruínas humanas, foi desfeito após a Segunda Guerra. E ele terminou sua vida exercendo a profissão de médico e não a de escritor em Meudon, no ano de 1961, sentindo a medicina como sua verdadeira vocação e a escrita como um acidente.

A Sala Sinfônica da Ospa, ontem, 05/11/2014, às 16h

Pedi para o repórter fotográfico do Sul21, Ramiro Furquim, que, quando tivesse tempo, desse uma passadinha pelas obras da nova Sala Sinfônica da Ospa. Ele foi visitá-la ontem. Os moradores que aparecem nas fotos estão do lado de fora do espaço. Dentro, uma obra paralisada, árvores e grama. Ninguém estava trabalhando. O zelador disse que a obra estava embargada.

Isto não é uma reportagem. É um post de um blog que documenta a situação atual.

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Acabo de receber o seguinte comentário, vindo do leitor Paulo Augusto (@pacdesouza):

O GOVERNO INFORMA
Atualizado em 09 SET, 2014
Foram encontradas divergências entre o que foi executado e o que estava previsto no projeto estrutural da obra. Em virtude dessa situação, a concretagem dos elementos estruturais não foi autorizada. A Simon Engenharia, empresa responsável pelo projeto estrutural, elaborou uma proposta técnica, com o objetivo de apresentar as soluções para as discrepâncias encontradas no levantamento topográfico. A previsão de conclusão dos serviços de reforço estrutural é até o dia 19/09.

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

Por Ramiro Furquim/Sul21

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