Ospa em Noite Transfigurada e jovem, demasiadamente jovem

Cláudio Cruz no concerto de ontem | Foto: Antonieta Pinheiro

Cláudio Cruz no concerto de ontem | Foto: Antonieta Pinheiro (clique para ampliar)

O curioso e novidadeiro (sim, isto é muito positivo) programa de ontem da Ospa iniciou com a Sinfonia Simples, Op. 4, para orquestra de cordas, de Benjamin Britten (1913-1976). Britten escreveu-a aos 20 anos de idade, utilizando temas que compusera para o piano entre os dez e treze anos. A primeira apresentação foi em 1934, com o compositor regendo uma orquestra amadora. A Simples, em quatro movimentos, não faz jus à Britten, um sofisticado compositor do ponto de vista musical e literário. Digo literário porque a parte principal de sua produção é de música vocal baseada em estupendas obras, muitas das quais foram adaptadas por Britten e colaboradores para seu companheiro Peter Pears cantar. Britten era alguém tão cool e respeitado que nunca escondeu sua sexualidade, mantendo abertamente sua relação com Pears por mais da metade da vida. Continuar lendo

Os impostos da cachaça

Foto: Lili Callegari

Ah, Parati | Foto: Lili Callegari

Leio surpreso que a cachaça é o produto campeão de impostos. No preço de cada garrafa comprada, 82% são impostos. Em segundo lugar vem o cigarro com 80% e em terceiro os perfumes importados, com 78%. O uísque paga 61% e o espumante 59%. A cerveja 55 e o vinho, 53.

Os impostos da cachaça artesanal são maiores do que os da industrial. É que os pequenos produtores foram retirados do Simples – regime tributário com alíquota menor voltado justamente para os micro e pequenos empresários. A cachaça é considerada  supérflua — e é mesmo –, fato que faz com que sua alíquota do ICMS seja mais alta. Mas o uísque também é supérfluo, não? E por que os alambiques pagam mais? Continuar lendo

Holy Motors, de Leos Carax + Elena, de Petra Costa

Minha mulher tem a mania de propor sessões duplas. A gente sai de casa no final da tarde e vê dois filmes. Só que ela está viajando e, ontem, quando fui sair, descobri que já era posição minha achar decepcionante sair de casa para apenas um filme. Então, fiz um pequeno planejamento para assistir os dois filmes do título acima, um às 19h e outro às 22h, com um rápido jantar entre eles. E sim, existe felicidade cinematográfica. Dificilmente assisti de enfiada dois filmes tão diferentes e tão bons.

Holy-Motors

Conhecia Leos Carax (1960) de dois trabalhos extraordinários — Sangue Ruim (1986) e Os Amantes de Pont-Neuf (1991). Ele filma muito pouco e não creio que seus outros dois longas tenham chegado ao Brasil. Ontem, vi Holy Motors (2012) em sua atrasadíssima pré-estreia em Porto Alegre lá no Instituto NT. Além de diretor, Carax é ator, crítico e escritor. E é ele quem abre Holy Motors fazendo uma única e breve aparição. Numa cena belíssima — como quase todas as do filme — , ele acorda ao lado de uma sala de cinema onde os espectadores dormem… Certamente não estão ali para isso, mas dormem. Esta é uma das chaves para a (in)compreensão do que virá. Continuar lendo

Porque hoje é sábado, Sofía Jaramillo ou uma colombiana para os gremistas colorados

Sofía Jaramillo é uma colombiana que adora futebol.

Sofia_Jaramillo_01

E torce para um time de camisas vermelhas e calções brancos.

Sofia_Jaramillo_02

Que são um pouco maiores que os análogos usados nas fotos acima.

Sofia_Jaramillo_03

Imaginem que ela não é torcedora do SC Internacional, mas do Manchester United.

Sofia_Jaramillo_04

Imaginem que ela não é torcedora do imortal Independiente Santa Fe.

Sofia_Jaramillo_05

Ela nasceu em Cali, mas hoje mora em Bogotá, onde o Grêmio

Sofia_Jaramillo_06

não tomou exatamente um banho — os conterrâneos de Sofía são ruins demais –

Sofia_Jaramillo_07

mas perdeu novamente e novamente.

Sofia_Jaramillo_08

Desta vez o Grêmio não pode reclamar do apito, que até foi amigo,

sofia-jaramillo-03

nem de convocações da seleção brasileira.

sofia-jaramillo-07

O que houve apenas foi mais um fiasco,

Sofia_Jaramillo_09

Mais uma vez um time brasileiro convidou um adversário ruim para

Sofia_Jaramillo_10

um convescote em seu campo. E o Santa fe lá ficou, até o gol. Uououou…

Sofia_Jaramillo_11

A retaguarda gremista não tem zagueiros italianos como tinha a Inter de Mourinho,

Sofia_Jaramillo_12

tinha o pobre Weller voltando de lesão e um menino que não viu

Sofia_Jaramillo_13

que alguma coisa estava passando entre suas pernas.

Sofia_Jaramillo_14

Bem, Sofía, ontem teve festa em Bogotá,

Sofia_Jaramillo_15

não foi do Manchester, nem do Inter

Sofia_Jaramillo_16

mas teve jogador em prantos após o gol,

Sofia_Jaramillo_17

não, não o 9,

Sofia_Jaramillo_18

mas as redes foram balançadas

Sofia_Jaramillo_19

por um time de vermelho e branco que parecia homenagear outro alvi-rubro longínquo…

Sofia_Jaramillo_20

E agora, chega desse papinho de “Estamos na Libertadores”, tá?

(Adoro ver o Vargas perdendo aquele gol nos descontos. Pulem para 2min48 and enjoy).

As imagens e a fúria de Iberê Camargo

Publicado em 18 de novembro de 2012 no Sul21

O homem sem fé não cria. Fé em quê? No que faz.
Iberê Camargo

Iberê Camargo, nascido em 18 de novembro de 1914, foi um artista sofisticado, dono de uma arte impactante, impaciente, torturada e visceral. A fase mais importante deste gaúcho de Restinga Seca não pode ser menos decorativa e indulgente. Por isso, não deixa de surpreender que, em nossa época, sistematicamente acusada de superficial e de privilegiar o entretenimento — o que também é verdade — , a arte de Iberê tenha alcançado tamanha relevância que chegue ao ponto de sua importância poder ser vista no caminho da Zona Sul de Porto Alegre desta forma:

Fundação Iberê Camargo na Av. Padre Cacique, 2000 em Porto Alegre | Foto: Bernardo Ribeiro

O ensaio de Paulo Venancio Filho, Iberê Camargo, desassossego do mundo, não deixa dúvidas sobre o caráter de Iberê: “Dostoievsquiano, revoltado, angustiado, trágico, sinistro, violento, atormentado pela consciência” foram algumas das expressões utilizadas. Ao menos quando trabalhava ou falava sobre arte, pois o pintor, fora do ambiente artístico, foi sempre descrito como um homem educado e afável.

Poucos dias antes de morrer, em 9 de agosto de 1994, Iberê Camargo, já bastante debilitado pelo câncer, acordou Maria, sua esposa, no meio da madrugada. Pediu a ela que o levasse até o ateliê, pois queria finalizar uma tela. Achava que era a última oportunidade de fazê-lo antes de ser internado. Solidão é o título da obra inacabada. Se o fato demonstra uma postura absolutamente dedicada à arte – “Minha arte e minha vida são a mesma coisa”, dizia – , o título da obra também é muito significativo para quem disse, a respeito da morte: “Sempre fui um caminhante solitário. (…) Não nasci em cacho. Nasci só e morrerei só. (…) Não participo de paradas de sucesso. Não pertenço a grupos. Vivo recolhido. Não me importo em saber de que lado sopra o vento. Sou quem sou, faço o que faço.”, declarou Iberê para Lisette Lagnado no livro Conversações com Iberê Camargo.

Não obstante a dureza destas palavras, os amigos de Iberê lembram que ele exigia a solidão apenas em seu trabalho. De resto, “era generoso, gentil, falante, conciliava a solidão da criação ao convívio tranquilo no dia a dia”. Porém seu humor era de exemplar acidez. Não, não era um otimista. E ficou ainda menos após envolver-se numa tragédia em 1980, quando o homem gentil provou ser apenas um homem controlado.

Iberê estava numa rua do Rio de Janeiro, acompanhado de sua secretária, quando testemunhou em plena rua uma briga violenta entre um casal. Nervoso, o homem ameaçou-o por estar observando interessadamente a cena, empurrou a secretária e depois Iberê. Agredido, o artista – que tinha posse de arma – disparou dois tiros, matando o agressor. Foi absolvido por legítima defesa, porém nunca se recuperou da tragédia. O caso teve grande repercussão e o pintor resolveu voltar a morar em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, trazer a figura humana de volta a seus óleos e gravuras.

Com efeito, o caso deixou Iberê abaladíssimo e influenciou de forma cabal sua obra. Como resultado, surgiram quadros de figuras esquálidas, grotescas, torturadas, espectrais e zombeteiras, cheias de angústia. Era como um Goya moderno, dedicado a retratar não os horrores da guerra, mas de seus fantasmas interiores. Do Rio, Iberê retornou a Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Em 1986, foi morar e trabalhar no bairro Nonoai.

A artista plástica Lou Borghetti – que depois foi aluna e assistente de Iberê – conta sobre o primeiro encontro entre ambos, ocorrido justamente em 1980.

Ele estava com uma mostra na Galeria do Centro Comercial Azenha. Naquela época eu não conhecia de perto sua pintura. Passei em frente a galeria e me deparei com uma tela grande, escura e muito dramática. Pensei: não gosto, vou embora. Andei uns metros, voltei. Parei novamente, olhando a tela através do vidro e novamente meus pensamentos eram de como alguém pode pensar algo assim, pintar assim, eu não teria esta tela em minha casa, ou teria? Olhei para dentro da galeria, com pouca gente, num pequeno espaço expositivo bem acolhedor. Entro, não entro, entro, só pra ver a tela sem o vidro e ter certeza de que não gosto. Entrei, pensei, mas quem é esse pintor que de tão forte e corajoso me provoca tanta sensação de desconforto, mas ao mesmo tempo não consigo parar de olhar. Não tive dúvida, perguntei: Quem é o pintor? E um senhor alto, atencioso e muito gentil se aproximou e disse: – Sou eu. – Ah, desculpe, eu posso ser franca? – Claro. – Não gosto da sua pintura, me aflige muito.

E ele, do alto de sua extrema gentileza disse: – Nem eu.

Este diálogo faz eco a um outro, ocorrido no Rio de Janeiro nos anos 40. Logo que chegou ao Rio, Iberê Camargo foi procurar um dos grandes nomes do modernismo, Cândido Portinari. Portinari mostrou-lhe o que tinha em seu ateliê e perguntou se Iberê gostava. A resposta foi outro “Não”. Portinari achou natural: aquele menino ainda precisava se acostumar aos modernistas. Com uma de suas pinturas, Iberê recebeu um prêmio: uma viagem à Europa. Foi lá, entre Roma e Paris, que fortaleceu sua formação. Na Itália, estudou com De Chirico e na França teve aulas com André Lhote.

Voltando ao Brasil em 1950, começou a trilhar um caminho muito pessoal: o dos carretéis que usava como brinquedos durante a infância. Na séries Núcleos, formas de carretéis invadem cada tela com pinceladas densas, camadas pastosas de tinta em tons negros ou azulados. Críticos estrangeiros, ao observarem as obras desse período, tendem a traçar analogias com o expressionismo abstrato de De Kooning e Pollock.

Mas Iberê gostava era dos mestres — dos renascentistas, de Goya, de Rembrandt — e, entre os contemporâneos, preferia associar seu espírito criativo ao de Picasso, pelo desejo de retornar aos clássicos e dar a eles uma roupagem moderna.

- Meu aprendizado não se fez apenas através de cópias de grandes mestres. Embora não tenha – graças a Deus! – cursado uma academia de arte, na juventude frequentei ateliês de mestres, na Europa. O conhecimento, uma sólida cultura plástica como a entendo, jamais poderá sufocar a originalidade de um artista, se ele realmente a tem. Conheci em Paris, um escultor brasileiro, bolsista, que não frequentava museus para não perder a personalidade, esquecendo, talvez, que só se perde o que se tem. Mo Museu do Prado, encontram-se, lado a lado, cópias e originais de mestres: Delacroix après Rubens; après Tiziano.”

De volta a Porto Alegre, começa sua fase mais soturna da carreira. Figuras espectrais e disformes permeiam séries como As Idiotas, Fantasmagorias, Ciclistas e Tudo Te é Falso e Inútil (título inspirado em um verso de Fernando Pessoa). Grande parte dos trabalhos tardios de Iberê está exibida na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. “Além de lamentar os rumos do mundo e voltar-se para os desejos e angústias da humanidade, ele produzia para apalpar a eternidade e dominar o tempo, para continuar conosco por mais tempo”, afirma o escritor Paulo Ribeiro, que conviveu com Iberê nos últimos anos de vida.

Acamado, no hospital, antes de morrer Iberê recebeu a imprensa. Com a mesma fúria presente em telas criadas com verdadeiros nacos de tinta que formam impressionantes relevos, chamou os donos das galerias de arte de débeis mentais, disse que a arte brasileira da década de 90 era feita só de bugigangas. “Ah, e se sair do hospital e quiserem me deixar de mau humor é só me convidarem para um coquetel. Não vou!”.

Abaixo, algumas das principais obras de Iberê Camargo:

Da série As Idiotas

Da série Ciclistas

Fantasmagoria IV

Carretel 1984

Face

O Grito

Hora X

Mulher de Chapéu Preto, homenagem a Maria Leontina

Carretel Azul

Tudo te é falso e inutil III

Solidão

Fontes:
– Paulo Venacio Filho, Iberê Camargo, Desassossego do Mundo, Pactual, 2001
– Lisette Lagnado, Conversações com Iberê Camargo, Iluminuras, 1994
– Jonas Lopes, artigo A arte como expressão da vida de Iberê Camargo.
– Blog pessoal de Lou Borghetti – http://louborghetti.blogspot.com.br/

Dois jogos: o Corinthians finalmente roubado e o Inter com seus impasses

Rotina: Riquelme acertou mais um daqueles chutes malucos que os gremistas conhecem.

Rotina: Riquelme acertou mais um daqueles chutes malucos que os gremistas conhecem.

No dia em que Marina Silva cometeu mais um suicídio político — será ressuscitada novamente, esperem e verão — , o Inter fez um confronto equilibrado com o Santa Cruz e o Corinthians foi finalmente roubado. OK, não foi roubado; na verdade, o juiz errou de forma cabal e contrária aos interesses do todo-poderoso time paulista, algo inédito em terras brasileiras, com juízes brasileiros. E nem Tite reclamou. Beneficiário contumaz da péssima e clientelista arbitragem nacional, o Corinthians tem mais é que ficar quieto e acender velas para a nossa Comissão de Arbitragem. Aliás, nem precisaria disso, tem um timaço e merecia eliminar o Boca, só que o Boca com Bianchi tem outro aplomb, outra autoconfiança. E Amarilla em jornada inusual. Os dois Carlos resolveram o jogo e…

O meio-de-campo Eriviti disse que Bianchi insistiu a semana inteira para que o número 8 do Corinthians fosse bem marcado. Mesmo assim, Paulinho voltou a ser impressionante. É o melhor jogador em atividade no Brasil. Usa como ninguém as facilidades oferecidas por nossos armadores que não sabem marcar. Paulinho os engole lá atrás e os patrola quando vai ao ataque. Sim, quando digo que Paulinho é o melhor em atividade do Brasil, não esqueço de Neymar, nem de…

D`Alessandro, que novamente salvou o Inter.  O amor que tenho aos clubes menores quase me tornou torcedor do Santa Cruz, mas quando começou o segundo tempo e nós estávamos com um jogador a menos, voltei a meu coloradismo delirante e quase incondicional. Vou dizer uma coisa para vocês: o Inter tem laterais, tem um time de sete zagueiros bastante bons  – o louco Moledo, mais Juan, Índio, Jackson, Alan, Romário e Ronaldo Alves, para que tantos? — bons volantes e um grupo absolutamente insuficiente de armadores e atacantes. Do meio pra frente, temos D`Alessandro, Damião e um ex-craque que vive de LAMPEJOS, Forlán. Fred não confirma seu início de carreira e deveria ser repassado a outro clube junto com o loiro uruguaio enquanto têm valor de mercado. Caio é alguém a ser testado, assim como Rafael Moura. Ou seja, apesar de toda a boa comissão técnica do Inter, nosso time só pode fazer gols à fórceps e em times fracos

A chamada D`Ale dependência significa apenas que ele ´é nosso único armador e que nossos atacantes não têm rendido. Sim, desse jeito não vamos longe. E tenho dito.

Ospa e Indiana Jones em noite cheia de aventuras

Karl Martin: Indiana Jones e a Última Cruzada

Karl Martin: Indiana Jones e a Última Cruzada

O concerto de ontem à noite no Theatro São Pedro trouxe um repertório de primeira linha e emoções inéditas. Primeiro, uma voz do além avisou-nos que haveria um atraso de 10 minutos para o início do concerto. Tudo ficou mais claro quando finalmente o maestro suíço Karl Martin adentrou o palco. Ele é muito parecido com o Indiana Jones dos últimos filmes e, como a maioria das aventuras do herói ocorre aproximadamente na década de 1930, nada melhor do que começar o concerto com a Sinfonia Op. 21 (1928) de Webern. Só que… Bem, o motivo do atraso foi que um músico esquecera suas partituras em casa, no bairro Guarujá, e teve buscá-las com a presteza do personagem de Spielberg. Certamente, o esquecimento foi inoculado em seu cérebro por algum cientista nazista daqueles que costumam perseguir Indiana no desejo de se apossar de relíquias como o Santo Graal e partituras de compositores vienenses. Ainda mais que Webern foi, na década de 40, o mais descabelado hitlerista dentre os compositores austro-germânicos (favor ler O resto é ruído, de Alex Ross) e deve ser muito querido entre os inimigos de Indiana. Ah, e depois ainda teríamos o judeu Mahler!

Bem, enquanto o músico atormentado permanecia em sua corrida pelas ruas, o concerto começou. É que as primeiras obras não tinham a participação dele. E, como dissemos, o concerto foi aberto  justamente com a Sinfonia de Webern. Webern sempre se caracterizou por se expressar de forma descontínua. Como Céline e suas milhares de reticências. Sua música é paradoxalmente densa como um haicai e rarefeita como a cabeleira de seu mestre Arnold Schoenberg. Suas composições têm movimentos muito curtos. Em 1927, decidiu expandir-se um pouco, então escreveu um Trio de Cordas que dura nove minutos. Logo depois veio esta Sinfonia que não é muito maior — 10 minutinhos — e que exibe uma beleza abstrata e estranha em seus dois movimentinhos. Anton Webern era um dos compositores da chamada Segunda Escola de Viena juntamente com Schoenberg e Alban Berg. A primeira teria sido formada por Haydn, Mozart e Beethoven, que não sabiam nada a respeito disso e que não pensavam como Schoenberg. No ano de 1928, ele escreveu: “A arte desde o princípio e por natureza não se destina ao povo. Mas querem forçá-la a isso. Espera-se que todos possam dar sua opinião. Pois a nova glória consiste no direito de falar: liberdade de expressão! Ó Deus!”.

(E o coro grego responde em intermezzo não programado:

– Ei, Schoenberg, vai tomá no cu! Olê, Inter, olê, Inter!)

Não obstante a tal obscura escola, eu curti o Webern.

E o nosso músico perdido? Nada de voltar. Então, ainda em Viena, voltamos no tempo para encontrar Mahler. Os lieder de Mahler, Strauss e Schubert são coisas a respeitar. No gênero, há dezenas de coleções e avulsos sublimes. As quatro Canções de um Viandante, com texto de autores da Idade Média compiladas no livro Das Kanben Wunderhorn, são lindíssimas. A segunda foi depois amplamente reutilizada por Mahler na Sinfonia Nº 1. (Aliás, quando iniciou este segundo lied, nosso músico adentrou o palco com enorme tranquilidade. Tal como Indiana Jones, ele não sua muito em suas correrias. parecia saído do banho.)

Mas voltemos ao Mahler. O barítono uruguaio Alfonso Mujica é magérrimo e garanto que todos pensaram numa voz fraca e inadequada para as canções, mas ele tirou de letra, dando a elas compreensiva interpretação, proporcionando-nos um dos mais belos momentos da temporada. Que seguiu com Haydn.

As últimas doze sinfonias de Haydn são as chamadas Sinfonias de Londres ou Sinfonias Salomon, nome do empresário esperto que as contratou. A Sinfonia Nº 92 é a última não londrina e tem o apelido de Oxford porque o compositor a conduziu na cerimônia onde recebeu o titulo de doutor Honoris Causa naquela Universidade. O pessoal de Oxford só pode ter adorado, não há como não sorrir àquela Sinfonia! Dentro da uma estrutura clássica de quatro movimentos (Grave-Alegro, Adagio,  Minueto e Presto), é uma música feliz, cheia de invenções e surpresas, daquelas que fazem as pessoas irem para a rua felizes. Foi o que aconteceu.

Belo concerto! All’s well that ends well (Tudo está bem quando termina bem), já dizia Shakespeare.

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XIX – Auto-de-fé, de Elias Canetti

canetti auto-de-féElias Canetti foi um judeu búlgaro de nome italiano e origem espanhola que viveu na Inglaterra e escrevia em alemão. Recebeu o Nobel em 1981, tendo iniciado sua carreira literária com seu único romance, este Auto-de-fé (atualmente na Cosac Naify, 631 paginas). Depois, produziu ensaios e algumas peças teatrais.

Aqui, a tradução é de Herbert Caro, o que tem claro significado. Meu velho amigo não costumava entrar em fria. Um dia, em nossas reuniões na King`s Discos com a finalidade de falar de música, o Dr. Herbert Caro disse que a Nova Fronteira estava publicando mais um calhamaço traduzido por ele. Disse que não ficava nada a dever a Doutor Fausto, nem a A Montanha Mágica e nem às outras traduções que ele já fizera. Parece que, naquela altura da vida, ele só traduzia o que queria, e sempre eram grandes obras. Assim que foi lançado, comprei (ou roubei, pois na época era um meliante literário) o livro.

Peter Klein é um eminente filólogo que só existe em função de sua biblioteca. Ele é um misantropo que vê o mundo através de seus milhares de livros, mantendo-se afastado da vida. Um dia, por impulso, este ser enormemente individualista resolve casar com a governanta — afinal, ela era tão competente, arrumava tudo tão direitinho… — , convencido de que esta lhe auxiliaria a manter-se afastado do mundo exterior. Casam-se. Porém, rapidamente o casal se incompatibiliza e Klein é posto no olho da rua. Forçado à vida, o professor parte para conhecê-la, entrando numa espiral auto-destrutiva.

Canetti_EliasLendo assim, parece simples; lendo o livro cruzamos com uma montanha de personagens estranhos. O livro é de 1935, segundo ano do nacional-socialismo de Hitler, e seu entendimento do livro deve ser buscado não apenas naquela Europa, mas também lá longe, na China de dois mil anos atrás. Não esqueçam que Peter Klein é um sinólogo e, há dois milênios, o império chinês foi dominado por um certo Qin Shi Huang. Huang foi quem pacificou os vários reinos em guerra que vieram a formar a China. Também divulgou o confucionismo e construiu um belo exército de terracota para proteger seu túmulo. Qin Shi Huang tinha algo de Hitler no sangue e determinou que todos os livros que discordassem de sua linha filosófica deviam ser queimados. Para o servidor que demonstrasse negligência ou piedade ao punir os portadores de livros proibidos, estava prevista a pena de morte. Depois, Huang achou que as fogueiras de livros não bastavam e decidiu enterrar vivos os aproximadamente 500 intelectuais e alquimistas do reino, só para deixar claro seu apreço pela opinião alheia e pelo debate franco e aberto de ideias.

Huang e Hitler, Hitler e Huang. Como escreveu Felipe de Amorim em seu extenso e pessoalíssimo comentário sobre Auto-de-fé, o tema de Canetti é o embate entre o totalitarismo e a liberdade intelectual, descrita numa linguagem colorida e com farpas para todos os lados. Os personagens deste estranho livro interagem, mas não dialogam efetivamente, pois cada um deles está fechado em seu próprio mundo e em suas metas individualistas. Falam e não se ouvem uns aos outros. Eles não conseguem, em momento algum, estabelecer uma compreensão concreta do outro, nem do mundo.

Canetti era um apaixonado pelo tema da formação de grupos populares e da comunicação entre seres humanos. Sua maior obra de ensaios, Massa e Poder, deseja compreender como pessoas pretensamente racionais podiam subitamente se transformar em uma coletividade enfurecida cheia de paranoia, medo e voracidade. Quem manda e quem obedece, quem deve ser exterminado e quem deve sobreviver? Enfim, como se obtém e se perde o poder. “A massa traz sempre vivo em si um pressentimento de desintegração que ameaça e da qual busca escapar através do rápido crescimento”, diz em Massa e Poder. E tudo o que está claramente presente neste ensaio de 1960, aparece de forma alegórica em Auto-de-fé.

Em Auto-de-fé, o ingresso do homem no grupo, na massa, não o torna mais tolerante. Na massa, ele ganha permissão para radicalizar suas opiniões e atos. É este o processo que move as ações dos personagens do romance em sua jornada aniquiladora.

Chico Buarque fala sobre o racismo, sobre seu neto e a hipocrisia

chico buarqueChico Buarque comenta o racismo claro ou dissimulado de boa parte dos brasileiros. Ri daqueles que insistem em ignorar os séculos de miscigenação em nosso país. Em seu depoimento, Chico fala de sua revolta ao descobrir que sua filha, casada com o músico Carlinhos Brown, foi forçada a se mudar em razão das agressões que seu filho, neto de Chico, sofria dos moradores. Às vezes, quando ouço pessoas falando de sua genealogia — que sempre evitam suas linhagens não brancas, respondo que tenho pedigree. É que só se encontra portugueses em meu passado. Só que minha árvore genealógica é muito incompleta, muito curta, é dessas que logo se perdem, mesmo que eu tenha cidadania portuguesa adquirida em razão de ter avós portugueses por parte de pai. Aliás, os portugueses nunca se miscigenaram… Daqueles 128 citados por Chico — 4 avós, 8 bisavós, 16…, etc. — deve haver um monte de não brancos. Imagina se não há negros e índios dentre eles? Minha mãe era chamada de índia por seus pais… E os 128 estiveram por aí não faz muito tempo.

Com a palavra, Chico Buarque. Vale a pena ouvir.

E o Benfica novamente caiu de joelhos diante do Porto

Quando Kelvin fez o segundo gol do FC Porto, novamente pensei que o Benfica é igual ao Internacional dos anos 80 e 90. Aquele colorado até formava bons times, ganhava jogos, mas levantar taças (ou ganhar jogos decisivos) é algo muito diferente. Para ganhar campeonatos é necessário um gênero de vontade e ousadia diferentes, exatamente o que o Benfica não tem e que o Internacional aprendeu a ter apanhando muito. Meus dois times estão em situações antitéticas. Em Porto Alegre, o Inter ganha um ou mais campeonatos por ano; em Lisboa, quase nada. O Benfica não sabe que, quando estamos ganhando um jogo decisivo, há que melar os minutos finais com quedas, faltas a cada minuto, reclamações dramáticas ao árbitro, etc. Partidas muitas vezes são ganhas por anjos, campeonatos são coisas decididas por atores dispostos a tudo. Não entendo como o Porto fez seu segundo gol nos descontos sem maiores dificuldades, numa jogada de um ex-jogador de futebol conhecido nosso: Liédson, que recém entrara em campo.

Há duas rodadas, o Benfica estava 4 pontos na frente do Porto e invicto. Na semana passada, já avisou que estava louco para entregar a rapadura — empatou com o Estoril e ficou a 2 pontos de seu principal adversário. E hoje perdeu por 2 x 1, deixando o Porto passar a sua frente com apenas uma rodada para ser jogada.

Jogando na casa do Porto, o Estádio do Dragão (ui!), o Benfica saiu ganhando. Logo o Porto empatou, mas depois nunca massacrou, nunca pressionou fortemente o time lisboeta. Tudo parecia sob controle: o Benfica estava em pé, demonstrava compostura e esquema tático. Porém, se o Porto não massacrava em campo, o Benfica provavelmente massacrava-se internamente. E, lentamente, a equipe foi se desmanchando, se desmanchando e então o técnico Jorge Jesus cometeu o maior dos absurdos: lançou mão da  estratégia que a torcida colorada costuma denominar de chama-derrota. Em vez de tratar de manter a posse de bola e o adversário sob contra-ataques, retirou um jogador de frente para colocar um zagueiro. A entrada de Roderick Miranda no lugar de Gaitán indicou claramente ao Porto que “não vamos atacar mais, vamos ficar todos lá atrás e o papel de vocês é o de tentar fazer o gol que lhes falta; o nosso, de impedir”. Ora, uma das coisas mais simples e esquecidas do futebol é a necessidade de fazer com que o adversário fique longe de nosso gol. Ou temos uma super-defesa à italiana, ou o melhor a fazer é sair com a bola para longe, trocando passes.

Quando Liédson passou a Kelvin e este chutou cruzado, a TV mostrou a mais dramática, bela e importante imagem do jogo. O técnico Jorge Jesus desabou de joelhos, fazendo cara de enorme dor. Não encontrei nenhuma foto da cena de Jesus ajoelhado à beira do gramado de cabeça baixa e com cara de dor, mas digo que a profunda dor moral foi causada por ele mesmo. Ao final do jogo, JJ declarou: “Esta derrota penaliza fortemente e vai deixar marcas”. É mesmo?

Dizia Drummond — e eu concordo — que amar se aprende amando. Pois eu digo que vencer se aprende vencendo. E está difícil para o Benfica aprender.

À esquerda está Roderik Miranda; à direita, um Jorge Jesus abismado. Adeus, Benfica.

À esquerda está Roderick Miranda; à direita, um Jorge Jesus abismado. Provavelmente, o Benfica deu adeus ao Campeonato de 2012/2013.

Se você quiser medir o tamanho de seu compositor preferido…

Via Elena Romanov

Clique para ampliar

Clique para ampliar

1,50 m…………….. 150 cm………… 4′ 11″ (quatro pés e onze polegadas)
1,51 m…………….. 151 cm………… 4′ 11.5″
1,52 m…………….. 152 cm………… 5′
1,53 m…………….. 153 cm………… 5′ 0.25″
1,54 m…………….. 154 cm………… 5′ 0.5″
1,55 m…………….. 155 cm………… 5′ 1″
1,56 m…………….. 156 cm………… 5′ 1.5″
1,57 m…………….. 157 cm………… 5′ 2″
1,58 m…………….. 158 cm………… 5′ 2.25″
1,59 m…………….. 159 cm………… 5′ 2.5″
1,60 m…………….. 160 cm………… 5′ 3″
1,61 m…………….. 161 cm………… 5′ 3.5″
1,62 m…………….. 162 cm………… 5′ 3.75″
1,63 m…………….. 163 cm………… 5′ 4″
1,64 m…………….. 164 cm………… 5′ 4.5″
1,65 m…………….. 165 cm………… 5′ 5″
1,66 m…………….. 166 cm………… 5′ 5.5″
1,67 m…………….. 167 cm………… 5′ 5.75″
1,68 m…………….. 168 cm………… 5′ 6″
1,69 m…………….. 169 cm………… 5′ 6.5″
1,70 m…………….. 170 cm………… 5′ 7″
1,71 m…………….. 171 cm………… 5′ 7.5″
1,72 m…………….. 172 cm………… 5′ 7.75″
1,73 m…………….. 173 cm………… 5′ 8″
1,74 m…………….. 174 cm………… 5′ 8.5″
1,75 m…………….. 175 cm………… 5′ 9″
1,76 m…………….. 176 cm………… 5′ 9.25″
1,77 m…………….. 177 cm………… 5′ 9.5″
1,78 m…………….. 178 cm………… 5′ 10″
1,79 m…………….. 179 cm………… 5′ 10.5″
1,80 m…………….. 180 cm………… 5′ 11″
1,81 m…………….. 181 cm………… 5′ 11.25″
1,82 m…………….. 182 cm………… 5′ 11.5″
1,83 m…………….. 183 cm………… 6′
1,84 m…………….. 184 cm………… 6′ 0.5″
1,85 m…………….. 185 cm………… 6′ 1″
1,86 m…………….. 186 cm………… 6′ 1.25″
1,87 m…………….. 187 cm………… 6′ 1.5″
1,88 m…………….. 188 cm………… 6′ 2″
1,89 m…………….. 189 cm………… 6′ 2.5″
1,90 m…………….. 190 cm………… 6′ 2.75″
1,91 m…………….. 191 cm………… 6′ 3″
1,92 m…………….. 192 cm………… 6′ 3.5″
1,93 m…………….. 193 cm………… 6′ 4″
1,94 m…………….. 194 cm………… 6′ 4.5″
1,95 m…………….. 195 cm………… 6′ 4.75″
1,96 m…………….. 196 cm………… 6′ 5″
1,97 m…………….. 197 cm………… 6′ 5.5″
1,98 m…………….. 198 cm………… 6′ 6″
1,99 m…………….. 199 cm………… 6′ 6.5″
2,00 m…………….. 200 cm………… 6′ 6.75″
2,01 m…………….. 201 cm………… 6′ 7″
2,02 m…………….. 202 cm………… 6′ 7.5″
2,03 m…………….. 203 cm………… 6′ 8″

Versão de ópera de Wagner com nazistas é cancelada na Alemanha

Germany-Opera-ScandalDo Público.pt

Uma produção da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner (1813-1883), foi cancelada na Alemanha depois de críticas ao realismo das cenas de judeus a serem executados e a morrerem nas câmaras de gás, noticiou na quinta-feira a AFP. A produção, que inaugurou no fim-de-semana na Ópera do Reno, em Dusseldorf, constrói para a ópera de Wagner o cenário de um campo concentração. Provocou “protestos violentos” na noite de estreia, de acordo com a imprensa local.

A direcção da Ópera do Reno disse que estava ciente de que o “conceito e encenação” de Burkhard Kosminski provocariam “controvérsia” e decidiu cancelar a produção, mantendo apenas os concertos sinfónicos. “Depois de considerarmos todos os argumentos chegámos à conclusão de que não podemos justificar um impacto tão extremo do nosso trabalho artístico. Com preocupação notamos que algumas cenas (especialmente a de fuzilamento) estavam representadas de forma muito realista”, tendo provocado “stress psicológico e físico” a membros da audiência, escreveu o teatro num comunicado. Membros da audiência procuraram ajuda médica, depois de assistirem ao espetáculo, escreveu o site da BBC.

A direção do teatro ainda ponderou fazer alterações na ópera mas Kosminski “recusou” invocando “razões artísticas”, lê-se no comunicado. “Claro que temos de respeitar – também por razões legais – a liberdade criativa do encenador”.

O representante da comunidade judaica de Dusseldorf, Michael Szentei-Heise, disse à Associated Press que “membros da audiência deram murros na porta como sinal de protesto quando deixaram o teatro”. Szentei-Heise considerou que a adaptação era de “mau gosto”.

Wagner era, segundo a BBC, um anti-semita proclamado e um dos maiores fãs da sua música era Hitler. Por isso as produções das suas óperas na Alemanha costumam gerar polémica. O ano passado, o barítono russo Evgeny Nikitin foi forçado a retirar-se do papel principal de Tannhäuser quando se soube que em jovem – tocava numa banda de heavy-metal – tinha feito uma tatuagem no peito com uma cruz suástica.

Wagner apresentou pela primeira vez Tannhäuser no Teatro Real de Dresden no dia 19 de Outubro de 1845 – uma ópera em três actos, baseada no mito do trovador dividido entre os amores da deusa Vénus e de Santa Isabel da Turíngia. A história decorre no século XIII e a ópera tem início no Reino de Vénus onde o Trovador se rendera à deusa, centrando-se na luta entre o amor sagrado e o amor profano.

O bicentenário do nascimento Wagner vai ser celebrado este ano e muitos teatros alemães planeiam apresentar novas produções das suas óperas.

769511

Há 120 anos, nascia um mestre: Graciliano Ramos

Os 120 anos de um dos maiores escritores brasileiros, Graciliano Ramos

Publicado em 28 de outubro de 2012 no Sul21

Graciliano Ramos viveu 60 anos e nasceu há 120, precisamente em 27 de outubro de 1892. Durante sua vida, publicou 10 livros. Tal simetria combina bem com o estilo do escritor – seco, elegante, de um regionalismo muito particular, discreto e onde estavam presentes mais a condição social e a psicologia do que as descrições de costumes e o ambiente. A política, aliás, apareceu em sua vida antes do escritor. Graciliano nascera em Alagoas, na cidade de Quebrângulo. Aos dezoito anos de idade, mudou-se para Palmeira dos Índios, onde o pai era comerciante. Em 1928, tornou-se prefeito. Um excelente prefeito. Permaneceu no cargo por dois anos, renunciando em 1930.

Durante sua gestão, tomava atitudes polêmicas como a de soltar os presos para que construíssem estradas. Outra curiosidade é que seu talento para a literatura foi descoberto a partir dos relatórios que escrevia como prefeito. Ao escrever um relatório ao governador Álvaro Paes, chamado “Um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas em 1929, o escritor se revela mesmo ao abordar assuntos de rotina da administração. Seus relatórios impecáveis, mas também irônicos e apresentados em forma livre, dificilmente seriam lidos sem estranheza e admiração. Após a renúncia, foi nomeado diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. (Aqui, temos o relatório enviado pelo prefeito Graciliano ao governador de Alagoas em 1930).

Uma foto rara de Graciliano, provavelmente dos anos 30

E efetivamente foram tais relatórios que pavimentaram o caminho para a literatura. Eles foram levados ao conhecimento do poeta e editor Augusto Schmidt, que aconselhou Graciliano a escrever mais, porém a respeito de outros temas. Em 1933, foi o mesmo Schmidt que publicou seu livro de estreia, Caetés, o qual vinha sendo escrito desde 1925.

Entre 1930 e 1936, viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial e professor. Durante este período, publicou São Bernardo e, na tarde de 3 de março de 1936, após entregar o manuscrito de Angústia a sua datilógrafa, Dona Jeni, foi levado de sua casa, preso. O motivo era a suspeita – jamais formalizada – de que o escritor tivesse conspirado no malsucedido levante comunista de novembro de 1935. Preso em Maceió, Graciliano foi demitido do serviço público e enviado a Recife, onde embarcou com outros 115 presos no navio “Manaus”. O país estava sob a ditadura de Vargas. O escritor esteve preso no Rio de Janeiro — no Pavilhão dos Primários da Casa de Detenção — e depois foi mandado para o presídio de Ilha Grande, onde passou a célebre temporada descrita em Memórias do Cárcere, livro apenas publicado postumamente. Com ajuda de amigos, consegue publicar Angústia, talvez sua melhor obra, em 1936. Foi libertado em janeiro de 1937, após dez meses.

O escritor Marcos Nunes observa, a respeito de Angústia: “Trata-se de um romance excepcional, que consegue ser ao mesmo tempo expressão de sua região e do mundo inteiro. A gente sai em frangalhos da leitura; é uma experiência quase única em literatura, porque o clima pesa em um contínuo massacrante mas, ao contrário do que se possa pensar, aquilo não nos faz rejeitar o romance, mas mergulhar nele como se dele pudéssemos extrair uma catarse de todo nosso sofrimento. A angústia é nuançada até a explosão desesperadora que nada redime enquanto tudo finaliza; a vida acaba, a do leitor continua e nunca mais será a mesma”.

É importante notar que o pessimismo de Graciliano não é produto de atuação ou de uma projeção. Não foi muito fácil ser Graciliano Ramos. As surras durante a infância; o adolescente inteligente a autodidata que lia Balzac e Marx em língua francesa; o aperto financeiro por toda a vida; as dificuldades para adequar-se à burocracia e aos caminhos tortuosos do Partidão; a prisão política em Ilha Grande; a volta à vida civil e ao inferno das dívidas; nada daquilo que era o material ficcional de Graciliano lhe era estranho. Havia autêntica tensão entre o homem, a atmosfera social e sua criação literária, como lembra seu biógrafo Dênis de Moraes, em O Velho Graça.

Após a prisão, o grande estilista Graciliano Ramos foi trabalhar como copidesque no Correio da Manhã. Seu livro seguinte foi Vidas Secas (1938). O livro, o primeiro narrado em terceira pessoa, aborda uma família de nordestinos retirantes às voltas com a seca, a pobreza e a fome. A narrativa não aponta apenas os problemas sociais, mas o efeito emocional que tais condições impõem aos personagens. Graciliano teve enorme cuidado com este livro, fazendo visitas frequentes à gráfica para ter certeza de que a revisão e as ilustrações não interfeririam em seu texto. Outros escreveram livros naturalistas sobre a pobreza do Brasil, mas talvez não da forma como fez Graciliano: sem opiniões do autor, sem discursos, sem indignação, com o mínimo de palavras, como se apenas abrisse uma cortina para a realidade e dissesse: é assim que é; eles se sentem assim.

A polícia de Vargas aparentemente o deixa em paz, mas anota em seus registros que na sede da revista “Diretrizes”, em 1940, o escritor frequentava assiduamente a sede da revista “Diretrizes”, junto de Álvaro Moreira, Joel Silveira, José Lins do Rego e outros “conhecidos comunistas e elementos de esquerda”.

Outro grande livro de Graciliano é o autobiográfico Infância (1945). Filho mais velho de um casal sertanejo de classe média, ele narra sua infância em meio a uma prole numerosa, afastado de manifestações de afeto e brincadeiras. A infância árdua, vivida na virada do século XIX para o XX, no interior de Alagoas, encontra suas maiores alegrias na solidão e na descoberta da literatura. Ao fundo, onipresente, pode ser espreitada a condição econômica, histórica e cultural da família.

O célebre Memórias do Cárcere (1953) é obra póstuma. É uma pena que este clássico tenho sido publicado com Graciliano morto meses antes de um câncer no pulmão. Falta-lhe o último capítulo. Sobra muita, muitíssima grande literatura nas esplêndidas páginas dos dois volumes de Memórias do Cárcere. Quando seu filho Ricardo perguntava sobre o final do livro, Graciliano respondia que faltava pouco, que era tarefa para uma semana. O título? Ora era um, ora era outro, Memórias do Cárcere ou simplesmente Cadeia. E o que pretendia com este último capítulo? Sensações de liberdade. A saída, uns restos de prisão a acompanhá-lo em ruas quase estranhas. Mas Graciliano nunca escreveu este final quase feliz.

Há uma querela a respeito do fato de que o texto de Memórias do Cárcere teria sido alterado por pressões do PCB. O neto de Graciliano, o escritor Ricardo Ramos Filho, desmente com veemência tal versão:

É importante que esse equívoco seja desfeito de uma vez por todas. Embora o crítico Wilson Martins e minha tia Clara tenham se esforçado para trazer a público essa versão fantasiosa, jamais, embora o Partidão quisesse, o texto original de Memórias do Cárcere foi alterado. Quem aceita essa ideia certamente não conheceu meu pai, ou mesmo minha avó Heloísa. Isso seria inconcebível. Posso lhe garantir que o Memórias do Cárcere conhecido, a menos do último capítulo escrito por Ricardo Ramos, meu pai, foi publicado exatamente como Graciliano o escreveu.

“Há uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem comprar capas de borracha. Quando a chuva aparece, essa literatura fica em casa, bem aquecida, com as portas fechadas. E se é obrigada a sair, embrulha-se, enrola o pescoço e levanta os olhos, para não ver a lama dos sapatos”.

Graciliano Ramos, em Linhas Tortas

Isso é tudo que não era Graciliano Ramos.

* Pessoalmente, tomo a liberdade de dedicar esta singela matéria a Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano e a quem tenho como amigo.

Carta aberta à polícia gaúcha: um alerta sobre Latuff

Sempre na perseguição implacável aos fatos e auxiliando a briosa polícia gaúcha, nosso blog — que é o único espelho confiável do mundo — descobriu tudo a respeito de Carlos Latuff, na verdade Anatoly Fiodorovitch Latuv, ex-agente soviético da KGB, dublê de cartunista e agitador antissemita que ora atua em nosso país. No dia de ontem, ele esteve presente em nossa redação do Sul21, ao mesmo tempo em que se encontrava em Londrina e no Rio de Janeiro. Sua ubiquidade não tem caráter divino, sendo antes produto de artes demoníacas praticadas desde a época em que o Eixo da Mal era administrado desde Moscou, URSS. Nesta quarta-feira, a versão de Latuff presente em nossa redação obteve parir mais um de seus clones, no caso um clone estagiário. Com pragmatismo chinês, objetividade albanesa, métodos do Baader-Meinhof e fome palestina, o Latuff aqui presente formou um novo estagiário, de nome Nícolas, o qual começará a distribuir cartuns de forma indiscriminada e alucinada — típicas do celerado — pelo estado (rimou!) do RS.

latuff passando o conteúdo de sua mente a um prosélito | Foto de 5 de maio, retirada do Facebook do delinquente

Fragrante de um Latuff (direita) passando o conteúdo de sua mente a um prosélito, que sorri | Foto de 5 de maio, retirada do Facebook do delinquente (clique para ampliar)

Engana-se quem pensa que estamos brincando com a verdade. Desta vez, apresentaremos provas da finalização do curso de Nicolas. Num quase transe, produto de severa lavagem cerebral, o estagiário de Latuff psicografou, na nossa frente e em segundos, um perfeito brigadiano ao estilo dos que faz seu mestre e senhor. A imagem não deixa dúvidas: é um Latuff original, mas notem a assinatura. Ela está escrita com a letra do meliante, porém esta atribui a autoria a outrem: Nicolas. Veja a imagem abaixo e pasme.

Charge Latuff

Alertamos as autoridades gaúchas e nacionais que a proliferação de Latuffs pode ser altamente perigosa para a segurança nacional. O baderneiro deve ser imediatamente detido. Bem faz o Pig em evitá-lo.

Os cinemas mortos: o Bristol (1975-2000)

Por Gustavo Lisboa
Belo Horizonte – MG

Os cinemas mortos
Cine Bristol (depois Baltimore 3) (1975-2000)
In memoriam

São inúmeros os cinemas mortos ao redor do planeta. O espaço físico destinado à fruição de filmes foi reduzido substancialmente, mundo afora. Os centros de compras (conhecidos abreviadamente como shoppings, dentro e fora dos EUA) acolhem os cinemas sobreviventes. O cinema de rua, esse está morto. E enterrado.

Falarei brevemente de um desses cinemas, especificamente do falecido (RIP) Cine Bristol (1975), uma vez localizado em um segundo andar de um cinema maior, o Cine Baltimore (1931). (Reformaram o mezanino do último, transformando-o em outra sala de cinema). Os dois davam de frente para uma avenida bonita com palmeiras-imperiais, que margeia um parque quase centenário de uma cidade meridional do Brasil. Cine Bristol, Avenida Osvaldo Aranha, 1058, Parque Farroupilha (ou da Redenção), Porto Alegre. (Para maiores detalhes, cf http://cinemasportoalegre.blogspot.com.br/).

Meu conhecimento do Cine Bristol aconteceu em um espaço de oito anos (1980-1988). Creio que a minha formação como cinéfilo diletante teve no Cine Bristol um papel proeminente. Nada como “estudar” um determinado autor-diretor pela apresentação de um ciclo dedicado à sua obra em um espaço físico modesto (184 lugares). Os famosos ciclos cinematográficos do Cine Bristol. Os que frequentamos tais acontecimentos culturais (e alguns realmente o foram) sentem uma nostalgia indefinida por aquele cheiro peculiar de mofo da sala e da projeção às vezes errática – embora as cópias tenham a maior parte da culpa.

Lembro-me de um deles com carinho: a mostra Tempo Glauber promovido pela Embrafilme, que passou toda a obra do gênio baiano (que geração privilegiada!). Revi Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol. Conheci o  Idade da Terra (surrealismo do surrealismo: naquela tarde de junho de 1985, estava eu a apenas mais um casal que não se importava muito com Glauber Rocha naquela sessão).  Os curtas. Os louquíssimos (e chatíssimos) filmes do exílio – com exceção de Claro. Meu apreço por Glauber Rocha aumentou desde então. Graças ao Cine Bristol como lócus de tal encontro.

Os antigos frequentadores do Cine Bristol têm outras lembranças de outros ciclos cinematográficos do velho Bristol. Filmes por gêneros (os filmes e documentários sobre o rock eram um must naquelas meias-noites frias dos anos 80), por autores e diretores, por temática etc. Os ciclos do Cine Bristol foram como uma Cahier de Cinema gaúcha para muitos realizadores de hoje, no Rio Grande do Sul. Alguns com público nacional.

A memória afetiva transcende ao intelecto: é física também. Muito namorei naquele extinto cinema. O pudor impede-me de continuar nessa senda.

O pós-filme era nos bares da avenida Osvaldo Aranha. A resistente Lancheria do Parque deve ainda ouvir o eco longínquo das discussões acaloradas sobre os filmes recém-vistos, regadas a Brahma e Skol. Quando então era permitido poluir o ar interno com fumaça de cigarro, a atmosfera emulava um noir barato de algum ciclo da RKO. Bar Ocidente, Bar Lola, Bar João  e o Cachorro do Gordo na esquina da Fernandes Vieira eram outras opções, no começo. Com o Bar Escaler, o movimento maior passou a ser na José Bonifácio. A noite de Porto Alegre passava pelo Bom Fim nos anos oitenta.

O Cine Bristol, morto e enterrado na poeira de uma demolição em 2003 (o terreno jaz agora como estacionamento), merecia um documentário.  Fica a sugestão. Um simples tributo àquele que foi o segundo lar de muitas pessoas loucas por cinema.  Ou que se recrie em CGI aquela sala de cinema, em algum possível roteiro de uma versão porto-alegrense de Jules e Jim.

Minha memória do Cine Bristol é um filme inacabado, um copião. Fragmentos de ciclos cinematográficos, cheiro de mofo, perfumes de mulher, seios quentes, músicas e diálogos. Nunca completarei a obra. Não importa.

A fachada externa do Baltimore-Bristol. A entrada do Bristol ficava no lado direito

A fachada externa do Baltimore-Bristol dias antes de ser derrubada. A entrada do Bristol ficava no lado direito, na altura daquele carro escuro.

A Ospa no frio e sob o domínio de Teraoka

Teraoka durante ensaio com a Ospa (Clique para ampliar)

Teraoka durante ensaio com a Ospa | Foto: Augusto Maurer (Clique para ampliar)

Ontem, no dia em que Brahms completava 180 anos de nascimento, a Ospa programou Sibelius e Prokofiev. Nossa orquestra é rebelde e não se liga muito em datas. Também não é nada nacionalista: por exemplo, no dia 17 de novembro de 2009, quando Villa-Lobos completava 50 anos de morte e todos os cadernos culturais só falavam nisso, a Ospa só falava em outra coisa, apresentando um programa que era inteiramente dedicado a Mendelssohn. Mas, enfim, deixemos Brahms e as datas de lado. Era uma noite gelada em Porto Alegre e tivemos mais uma comprovação de que o gaúcho não é macho o suficiente para enfrentar o frio. Talvez também pela fuga que as pessoas empreendem do centro da cidade ao final do dia, talvez pela falta de estacionamento, a Reitoria de UFRGS parece ser amaldiçoada para além da má acústica. Estava com menos de meia casa. Mas digo pra vocês que a o Theatro São Pedro e o Auditório Dante Barone — que também estão no centro da cidade — trarão mais pessoas nos concertos dos dias 14 e 21. Esperem e verão.

Sibelius foi um enorme compositor. Não é apenas o mais famoso compositor da Finlândia, é o mais famoso dos finlandeses ao lado do piloto Mika Häkkinen e dos celulares Nokia. Sua figura estava nas notas de cem marcos antes do euro chegar. Era um nacionalista e foi figura fundamental na independência do país. Muito mal visto pela escola alemã — pelo simples motivo de ser bom e popular — , recebeu todo o gênero de críticas injustas, boa parte delas feitas pelo contumaz equivocado musical Theodor Adorno. Sibelius era um herói em seu país e ficou logo famoso em Paris e nos EUA, que até hoje aguarda ansiosamente sua oitava sinfonia…

Na coletânea de ensaios Os testamentos traídos, Milan Kundera analisa as culturas periféricas da Europa, tomando como exemplo sua Tchecoslováquia. “A intensidade muitas vezes assombrosa de sua vida cultural pode fascinar um observador”. Porém, “no seio dessa intimidade calorosa, um inveja o outro, todos vigiam a todos”. Se um artista ignora as regras locais, a rejeição pode ser cruel, a solidão, esmagadora”. No início do século XX, cada uma destas pequenas nações tinha seu círculo de compositores locais e, dentre eles, seus representantes nacionais. Sibelius na Finlândia, Bartók na Hungria, Grieg na Noruega, Dvorak, Smetana e Janáček na Tchecoslováquia, Nielsen na Dinamarca, Elgar e Vaughan Williams naquele grande país quase sem música até o século XX. Até nós tínhamos um nacionalismo musical com Villa-Lobos, lembram? A influência de Sibelius na cultura de seu país é tão grande que até hoje a Finlândia dedica generosa fatia de seus investimentos culturais em orquestras e na formação de músicos. Mas tergiverso e preciso voltar logo à Reitoria da UFRGS.

O programa iniciou com a suíte Pelléas et Mélisande, música incidental de Jean Sibelius escrita em 1905 para o dramalhão homônimo de Maurice Maeterlinck. A obra tem nove movimentos curtos e é muito bonita, mais ainda quando não se dá importância ao triângulo amoroso protagonizado pelos irmãos Pelléas e Golaud e que acaba na morte de princesa Mélisande. O tema também serviu a uma ópera de Debussy. Em meio àquelas brumas, a Ospa saiu-se muito bem, orientada eficientemente pelo maestro Teraoka. (Soube que nos ensaios, os cães que habitam as proximidades da Igreja São Pedro, local improvisado de ensaios da Ospa, detestaram as ameaças de mau tempo desferidas pelos contrabaixos e respondiam latindo loucamente).

Depois veio a Valsa Triste, também de Sibelius. É uma das peças mais esplêndidas que conheço. Lacrimosa quando ouvida sem atenção, torna-se absolutamente comovente quando nos aproximamos. São seis minutos do melhor Sibelius, microcosmo de suas melhores sinfonias e poemas sinfônicos. A curtíssima Valsa Triste é o mais belo dos haikais e vi algumas lágrimas próximas a mim durante a execução.

Já o mesmo não pode ser dito de Cena com garças, medonha peça semi-onomatopaica onde os clarinetistas Augusto Maurer e Marcelo Piraíno fizeram o papel de garças com donaire, esbelteza e garbo. Tudo inútil. As garças gostam de rios e lagoas, mas estas de Sibelius se ligavam mais num charco. A peça era merecidamente desconhecida, os xerox das partituras eram quase ilegíveis e devem ser jogados fora hoje. Por favor, não guardem papelada inútil.

O final do concerto veio pela maravilhosa Sinfonia Clássica Op. 25 de Serguei Prokofiev. Foi uma verdadeira lufada primaveril para a plateia e muito trabalho para a orquestra. A sinfonia — radicalmente feliz e melodiosa — também é muito difícil de tocar e pode ser um tormento para orquestras que ensaiam apertadas em igrejas. É claro que a interpretação não foi das melhores que vi, mas também é verdade que só consegui me dar conta disso ao final, rememorando alguma coisa. Música ao vivo é assim. Muitas vezes a gente nem se dá conta dos erros e foca a atenção na musicalidade e no tesão.

O regente Kiyotaka Teraoka já comandou a Ospa uma dezena de vezes e, este ano, ainda a comandará na Sagração da Primavera, se esta não for cancelada em função da falta de local adequado para ensaios. Se é gentil e educado com os músicos, também é competentíssimo e engraçado. Ontem, bem dentro do espírito da música, fazia momices durante o primeiro movimento da Sinfonia Clássica, marcando o tempo para quem caçava borboletas. É muita classe.

P.S. — E houve um bis. Um certo Andante Festivo, de Sibelius. É uma composição de um  movimento, originalmente escrito para quarteto de cordas em 1922. Em 1938, o compositor rearranjou a peça para orquestra de cordas e tímpanos. É um belíssimo e lírico fluxo de temas que só pode ser considerado festivo na Finlândia.

E Johannes Brahms faz 180 anos

O jovem Brahms em 1853

O jovem Brahms em 1853

Para Claudia Antonini, um pequeno rascunho sobre Brahms

Brahms nasceu em Hamburgo no dia 7 de maio de 1833. Como se não bastasse o trocadilho infame que o nome Brahms sugere a nós, brasileiros, ele era filho de um contrabaixista de Hamburgo que tocava em cervejarias. A partir dos dez anos de idade, o pequeno Johannes passou a trabalhar como pianista com seu pai, nas tabernas. Não sabemos se estas atividades foram nocivas à saúde do menino, sabemos apenas que ele, mais tarde, fez bom uso de seu conhecimento sobre o repertório popular alemão. Brahms teve apenas dois professores, ambos durante a infância e adolescência. E estava pronto. Acho que nasceu pronto, pois há obras perfeitamente maduras desde os primeiros opus. Ele não concordava, tanto que deixou passarem-se anos até arriscar-se no gênero sinfônico. Tinha algum receio da inevitável comparação com Beethoven.

Começou a compor cedo e, antes de completar 20 anos, seu Scherzo opus 4 já tinha entusiasmado e revelado afinidades com Schumann, a quem Brahms ainda desconhecia. Foi visitar Schumann e então os fatos são mais conhecidos: primeiro, Schumann escreve em seu diário “Visita de Brahms, um gênio!”, depois publica um artigo altamente elogioso ao compositor, fazendo com que o jovem Brahms tivesse a melhor publicidade que um artista pudesse desejar. Schumann o considerava um filho espiritual e a esposa de Schumann, Clara, chamava-o de seu “deus loiro”. Muitas hipóteses são possíveis sobre a relação entre Clara e Brahms, mas só uma coisa é certa: eles destruíram a maior parte das cartas que dizia respeito a ela. Porém, a versão de que houve um forte componente amoroso — ao menos no âmbito de uma grande amizade — tem tudo para estar próxima da verdade.

Em minha opinião, o que caracteriza Brahms são a densidade, o lirismo e a intensidade. Quando digo intensidade, refiro-me ao lado emocional; quando digo densidade, refiro-me a profunda inteligência musical e a muito artificiosa fusão que ele consegue entre a expressividade romântica e as preocupações formais clássicas. Foi um revolucionário amante dos tons menores e da economia de meios. Num mundo em que as orquestras cresciam desmesuradamente, não fez uso de exércitos orquestrais. Compreensivelmente, em sua época foi adotado pelos conservadores. Ele colaborou bastante com esta adoção ao assinar um manifesto contra a chamada escola neo-alemã de Liszt e Wagner. Um conservador? Nada mais equivocado. Ele nem precisaria ser desagravado por Schoenberg em Brahms, o Progressista, para ser reconhecido como uma voz original, distinta e um passo adiante de seus contemporâneos. Um passo dado numa outra direção do que a adotada por Bruckner e Mahler, mas adiante.

Eu convivo com uma brahmsiana em casa. Se quero ver a Claudia alegre é pegar um CD do compositor. Internamente, ela possui uma misteriosa e infalível chave de reconhecimento. Não que saia dizendo imediatamente que se trata desta ou daquela obra, mas por ficar imediatamente feliz e perguntar: “É Brahms, né?” O curioso é que  não são músicas exatamente luminosas ou modelos de otimismo. É uma questão de pura empatia, de se reconhecer nas vozes de Brahms. Como resultado, hoje também fico feliz aos primeiros acordes de cada composição sua.

O que ouvir hoje? Olha, eu iniciaria com o Sexteto Op. 18, passaria ao Quarteto para Piano Op. 25, depois pelo Concerto para Violino Op. 77, pela Sinfonia Nº 1 e me despediria com uns Lieder (link quebrado, PQP!). Hoje, jamais ouviria o Um Réquiem Alemão; afinal o aniversário é de nascimento, certo?

Aqui, bem mais velho, em 1896

Aqui, bem mais velho, em 1896