Pollini em 18 de fevereiro de 2014

Pollini em 18 de fevereiro de 2014

Hoje foi um dia especialíssimo e irrepetível — quem sabe? — em Londres. Eu e Elena assistimos ao concerto de Maurizio Pollini no Royal Festival Hall, sala principal do Southbank Center. O programa era vasto, mas centrado em peças de Chopin e Debussy. Ele tocou o primeiro livro dos prelúdios do francês e peças esparsas do primeiro. O concerto foi dedicado por Pollini à memória de Claudio Abbado. Talvez isso explique a recolocação no programa da Sonata nº 2 para piano, Op. 35, cujo terceiro movimento é a célebre Marcha Fúnebre.

Tudo isso contribuiu para que a eletricidade estivesse no ar. Mas talvez o melhor seja passar a palavra para a Elena, que não tinha tido ainda muito contato com Pollini, enquanto que eu o conheço desde os anos 70, chamo-o de deus no PQP Bach e considero-o um dos maiores artistas vivos de nosso planeta, tão vulgar.

No intervalo, após uma série de Chopins, a Elena já me dizia: “Ele tem altíssima cultura musical e concisão. Enquanto o ouvia, pensava em diversa formas de reciclagem: ecológica, emocional, psíquica… Sua interpretação é a de um asceta que pode tudo, mas demonstra humildade e grandeza em trabalhar apenas para a música. Pollini não fica jogando rubatos e efeitos fáceis para o próprio brilho, mas me fez rezar e chorar. Que humanidade, que sabedoria! Depois desse concerto, minha vida não será a mesma”.

Foi a primeira vez que vi Pollini em ação, após ouvir dúzias de seus discos. Acho que não vou esquecer da emoção puramente musical — pois ela existe, como não? — de ouvir meu pianista predileto. Para Pollini ser absolutamente fabuloso, só falta o que não quero que aconteça e que já ocorreu com Abbado.

Foi isso que nos aconteceu hoje.

Ônibus Serraria, de Marino Boeira

Ônibus Serraria, de Marino Boeira

O título completo do livro é Tudo pode acontecer no Ônibus Serraria e na Zona Sul (Libretos, 118 páginas, R$ 30), mas como o editor deu mais destaque na capa à linha de ônibus, fiquemos com o título resumido.

Marino Boeira costuma publicar deliciosos textos no Facebook. Sou seu leitor. Ultimamente, ele está escrevendo textos mais curtos. Uma pena. Conheço-o também de outras paragens, mas o que interessa é que este informado, culto e divertido senhor de 80 anos produziu um livro que se lê rapidamente, sem cansar. Li numa tarde de sábado e já usei a palavra “delicioso” acima. Ela é perfeita.

Por favor, não pensem no tiozão do churrasco inventando historinhas sem graça. Marino é um cara aposentando — foi professor universitário, publicitário e jornalista — que fica atrás do computador fazendo a gente rir de suas histórias e fazendo-nos pensar em como seria admirável preservarmos a inteligência e ser politizado, ateu, cético, informado e radical sendo octogenário. Além do mais, ele vê todos os filmes interessantes e lê as novidades literárias. E tem um programa de rádio onde o chamam de Mestre e de alguns outros títulos complicados que esqueci. Bem… Aqui já entramos no terreno da auto-ironia.

Sim, ele é um intelectual à antiga, uma daquelas enciclopédia ambulantes que eram mais fáceis de encontrar no passado.

Mas o que é o livro Ônibus Serraria? É uma despretensiosa e inteligente coletânea de crônicas divididas em duas partes: “As histórias que acontecem no Ônibus Serraria” e “As histórias que acontecem na Zona Sul” (de Porto Alegre). Gostei mais da segunda parte, cujas crônicas tratam de traições, sexo (ou da saudade do mesmo), fantasias loucas e filosóficas, causos e da pequena política da cidade. Também a morte está presente, mas o céu de Marino… Bem, leiam.

Achei especialmente boas as crônicas Dona Lucrécia e o Sexo, Direto do CéuCabíria ou Gesolmina e Ficantes & Significantes.

Recomendo.

.oOo.

P.S. — Sou citado e até ilustrado no livro de Marino… Sou eu ali, com uma camiseta onde está escrito Bamboletras em russo, obra do Santiago.

A citação
A imagem

Enfim, Capivaras, de Luisa Geisler

Enfim, Capivaras, de Luisa Geisler

Quando ocorreu o episódio de Nova Hartz — com Luisa Geisler sendo desconvidada da Feira do Livro da cidade em razão dos palavrões e do “linguajar inadequado” de Enfim, capivaras (Seguinte, selo jovem da Cia. das Letras, 173 páginas, R$ 39,90) –, logo fiquei louco para ler o livro, claro. E aconteceu o que eu esperava: Geisler manteve a (alta) classe e categoria habituais. Trata-se de um excelente romance, de estrutura sofisticada, muito bem narrado por 4 vozes, com boa história e linguajar inteiramente adequado.

Palavrões? Onde, meu deus? Um porra aqui, outro cu ali, um merda e um cazzo lá adiante, em um livro cujos personagens são adolescentes? Isso não é normal? Sem spoilers, conto que a ação de Enfim se passa durante uma madrugada, quando o carro de um dos meninos estraga na estrada e os jovens, sem sinal de celular e sem ter como obter auxílio imediato, passam a noite juntos, procurando alguém que os tire daquela situação. Sexo? Nada, apenas platônicos interesses amorosos. Há um beijo carinhoso de Léo em Vanessa, se não estou enganado. Drogas? Apenas álcool. Violência? Quase nada, O Senhor das Moscas, por exemplo, mereceria tarja preta perto das capivaras de Geisler. Queriam que eles não discutissem ou que discutissem com zero palavrões? Queriam que eles rezassem na beira da estrada esperando uma ajuda do vereador Robinson Bertuol, do PSC de Nova Hartz?

Mas “Para a alegria das crianças e felicidade dos pais, o livro foi retirado de circulação e autora não virá para Feira do Livro de Nova Hartz”, disse Bertuol.

Mas vamos sair do papo absurdo do casto vereador.

Os pais de Vanessa se separaram e ela e a mãe se mudaram para Chapada do Pytuna, em Minas Gerais. Como costuma ocorrer nessas cidades, não há diversão para os jovens. Sobram a bebida, ir à festas nas redondezas ou a invenção. A invenção: Dênis é um baita mentiroso, cria e defende histórias incríveis como o fato de possuir uma capivara de estimação. Então Vanessa, Léo — o menino rico que anda de caminhonete –, Zé Luís — filho da empregada da casa de Léo — e a interessante Nick, vão visitar Dênis para conhecer a tal capivara.

Só que Dênis lhes diz que ela tinha fugido, é óbvio. E, mesmo cética, a turma sai à procura do bicho. E o carro estraga durante a jornada. E o resto eu não conto.

A estrutura é bem engenhosa. Os capítulos obedecem a cronologia e são narrados em primeira pessoa, com os personagens se alternando. Antes de cada capítulo há listas de desejos, intenções e opiniões aleatórias de quem narrará o próximo capítulo. A coisa prende.

Enfim, capivaras é um livro sobre a amizade, as descobertas, as diferenças sociais, as diferenças de quem vive na cidade grande e no campo, as dificuldades de se relacionar, as dúvidas de toda ordem que assaltam os adolescentes e, digo mais, acho que poderia ser adotado por escolas mais avançadas. Em vez de fazer seu adolescente babar dormindo sobre Iracema, dê-lhes capivaras, professor!

Recomendo.

Acho que esta foto de Luisa Geisler não foi tirada em Nova Hartz | Foto do Facebook da autora

Explicando o Campeonato Gaúcho de 2020

Explicando o Campeonato Gaúcho de 2020

Já que ninguém explica em termos claros, vou dar a morta pra vocês, esclarecendo como será o Picanhão (ou Vaziozão) 2020. O Campeonato Gaúcho de Futebol de 2020 – Série A, oficialmente denominado Gauchão Ipiranga 2020, será a 100ª edição da competição organizada anualmente pela Federação Gaúcha de Futebol e será disputada entre 22 de janeiro e 19 de abril em um máximo de 17 datas.

Pela primeira vez desde a edição de 2013, o Campeonato Gaúcho voltará a ser disputado no formato de dois turnos — Taça Ewandro Poeta e Taça Francisco Novelletto (hã?). No primeiro turno, as equipes, divididas em dois grupos, enfrentam-se dentro das chaves em jogos apenas de ida (5 datas). Os dois melhores colocados de cada chave avançam para a semifinal e os vencedores para a final do turno (2 datas). Já no segundo turno, as equipes dos grupos A e B enfrentam-se entre si em jogos apenas de ida (6 datas). Os dois melhores colocados de cada chave avançam para a semifinal e os vencedores para a final do turno (2 datas).

Os campeões de cada turno enfrentarão-se na grande final em jogos de ida e volta para definir o campeão do Campeonato Gaúcho de 2020 (mais duas datas). Caso a mesma equipe vença os dois turnos, será automaticamente declarada campeã do campeonato. Então, esses dois últimos jogos poderão não ocorrer.

Ao final do campeonato, o time melhor colocado, excetuando-se a dupla Gre-Nal, será declarado campeão do interior. Os três melhores colocados na classificação geral vão para a Copa do Brasil de Futebol de 2021, porém, caso estes times já tenham conquistado a vaga por outro método, a vaga será repassada ao time subsequente. Também será disponibilizada uma vaga para o Campeonato Brasileiro de Futebol de 2021 – Série D, que será distribuída para o melhor colocado que já não esteja classificado para alguma divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Os grupos:

Grupo A: Inter, Juventude, Novo Hamburgo, Pelotas, São Luiz e Ypiranga.
Grupo B: Grêmio, Aimoré, Brasil-Pel, Caxias, Esportivo e São José.

Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

O sociólogo uruguaio Julio Calzada descreve neste artigo para o esquerda.net a ascensão e queda do ciclo político progressista no seu país. E tira algumas lições da derrota do candidato da esquerda nas eleições do mês passado.

Do esquerda.net

A frase de Públio Terêncio Afro, “nada do que é humano me é estranho” que percorre vários séculos da história do ocidente, faz-nos refletir sobre o Uruguai de hoje, em que sentimos que “já nada do que acontece na região e no mundo nos é estranho”.

Quem somos

O Uruguai é um país pequeno de 3.3 milhões de habitantes, dos quais 2.7 milhões estão recenseados para votar e votaram 2.43 milhões. O voto no Uruguai é obrigatório para todos os recenseados e não está disponível o voto para os residentes além-fronteiras. Isso explica em parte a diferença entre os recenseados e os que foram efetivamente às urnas.

Até há poucos anos havia uma narrativa nacional que circulava nos meios académicos e de esquerda, segundo a qual as coisas no Uruguai aconteciam 30 anos depois de acontecerem no resto do mundo. Isso resultou num ditado que dizia que a vantagem de viver neste país, aqui no sul do mundo, é que quando o mundo acabar o Uruguai vai existir mais 30 anos.

Isto já não é assim há mais de uma década. O Uruguai foi um ator destacado da “DÉCADA PROGRESSISTA” que viveu a “AMÉRICA LATINA” no início do século e pelo menos até 2015.

Saído da crise econômica e social mais profunda da sua história no ano 2002, com o colapso do sistema financeiro, produziram-se no País a partir de 2005 um conjunto de transformações sociais, culturais, políticas e econômicas importantes que levaram a esquerda a ganhar o governo por três vezes consecutivas: 2005, 2010 e 2015.

Neste período foi reduzida a pobreza de 36% para 8%, a indigência de 3% a 0.5%, o salário aumentou 65% em termos reais e o índice de Gini melhorou substancialmente, tornando o Uruguai na economia mais equitativa na América Latina, o continente mais desigual do mundo.

A estes dados há que acrescentar uma transformação profunda da Matriz Energética que levou o Uruguai a cobrir mais de 50% do seu consumo de energia através de fontes renováveis e até, em certas alturas, que todo o consumo diário venha dessas fontes.

Concomitantemente às melhorias econômicas e sociais, ao desenvolvimento, foi promovido um conjunto de políticas que colocaram o Uruguai na ribalta das sociedades com melhores níveis de desenvolvimento humano da região.

A lei das 8 horas para os trabalhadores rurais — uma lei que tinha já 100 anos de atraso —, a regularização, regulação e sindicalização do trabalho doméstico, a lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, o Casamento Igualitário, a Regulação da Canábis, ou a Lei da responsabilidade penal empresarial para a prevenção dos acidentes no trabalho, a par de  outras iniciativas, marcaram esta posição única do Uruguai na região.

Milhares de pessoas passaram da economia da subsistência a ser parte da sociedade de consumo.

A década progressista não só não nos foi estranha, como até tivemos nela um importante protagonismo e destaque.

A insegurança, um fantasma percorre a América Latina

A partir do ano 2008, algumas formas de criminalidade começam a mudar e outras, nunca antes vistas, chegam de forma relevante, como o sicariato, uma prática criminosa praticamente desconhecida no País.

O tráfico de drogas, que já era uma realidade com décadas no País e na região, muda de forma significativa e passa a ser uma organização empresarial, não necessariamente cartelizada mas empresarial que se integra nas “cadeias de valor” do mercado internacional.

Alguns fenômenos geopolíticos, em especial  o Plano Colômbia, levaram, a partir dos primeiros anos deste século, a que certas ligações da cadeia mundial de produção, tráfico e consumo de drogas, em particular da cocaína, se transferissem do norte para o sul do continente.

As cocaínas fumáveis na forma de CrackPaco ou Pasta Base entraram no dia-a-dia das cidades e vilas do sul do continente. São os desperdícios do processo de produção da cocaína destinada aos grandes consumidores mundiais dessa droga — os Estados Unidos, os Países Europeus e os países ricos em geral — que “se valorizam” ao monetizarem-se no consumo dos setores mais vulneráveis das nossas sociedades.

Este fenômeno provocou profundas transformações econômicas, sociais e culturais nas nossas sociedades. Apareceram as ollas, as mulas, os centros de recolha e distribuição, as bocas.[1]

O surgimento desta nova realidade provocou inicialmente, no âmbito da grande crise económica dos anos 1999, 2000, 2001 e 2002, mudanças profundas nas dimensões sociais, sanitárias e culturais em toda a região, em particular no Sul do continente. Nos anos posteriores, este impacto incluirá a quebra das estruturas econômicas clássicas da vida quotidiana de sobrevivência dos setores mais vulnerabilizados da sociedade, e à boleia do microtráfico viriam a surgir novas formas de emprego e de relacionamento social. Nada nos é estranho.

Estas novas configurações sociais, econômicas e culturais chegaram repletas de novas formas de violência simbólica e fática.

Por um lado, ajustes de contas, assassinatos, extorsões, controlo dos territórios por famílias que impõem regras do jogo violentas para entrar, sair ou andar em zonas de onde o estado se retira progressivamente.

Por outro lado emergem as políticas de mão pesada, o populismo punitivo, das quais não ficaram isentos amplos setores da esquerda, que levaram as prisões a situações extremas e o Uruguai a ter hoje uma das maiores taxas de encarceramento da região, com 12 mil presos para uma população de 3.3 milhões de habitantes.

Mas a direita é insaciável em matéria de coerção estatal e punição, sempre quis mais e conseguiu instalar ao longo dos anos a ideia de que o País vivia numa situação extrema de emergência em matéria de segurança.

Desde a chegada do presidente Mujica ao governo em março de 2010, a investida em matéria de segurança chegou ao ponto de se falar em mexicanização da sociedade uruguaia.

Em junho de 2012, Mujica responde com a Estratégia pela Vida e a Convivência e com 15 medidas políticas para reverter a situação, houve a tentativa de mudar o eixo político da segurança para a convivência, das drogas ao relacionamento e aos projetos de vida das pessoas numa sociedade aberta, plural e em transformação permanente pelo impacto das mudanças tecnológicas e de novas formas de vida. Uma destas 15 medidas será a Regulação do Mercado da Canábis.

A direita não parou, chamou cortina de fumo às medidas e os seus setores mais recalcitrantes, ligados política, cultural e mesmo familiarmente à ditadura que ocupou militarmente o País entre 1973 e 1985, iniciou uma campanha pela reforma constitucional para baixar a imputabilidade penal para os 14 anos, colocando como o centro do problema as drogas e a inimputabilidade penal das crianças e adolescentes. Nesses anos, os e as adolescentes com problemas com a lei e privados de liberdade ascendiam a 600 em todo o país.

Os Jovens, imersos num amplo movimento social, cultural e político que tinha promovido o que apelidou de agenda de direitos, que incluiu o casamento igualitário, a Lei de segurança sexual e reprodutiva que legalizou o aborto, a regulação da canábis entre outras leis de claro recorte progressista como as que referi, responderam à direita e ao populismo penal com uma enorme campanha de recusa à descida da imputabilidade penal, que tomou o nome NO A LA BAJA e fez dele o seu slogan identitário, ao ponto de hoje se falar na geração NO A LA BAJA.

A descida da idade de imputabilidade penal foi a referendo e não foi aprovada. Nessa eleição, toda a campanha do NO A LA BAJA trouxe, mesmo sem o propor especificamente, água ao moinho da esquerda, que na segunda volta venceu com grande avanço.

Não obstante o resultado do referendo, positivo para o arco progressista, e da própria eleição, também favorável ao progressismo, a questão da insegurança continuava latente.

Embora a questão da insegurança não nos fosse alheia, e embora o populismo penal avançasse passo a passo no pensar e no sentir da sociedade, ainda se mantinha alheia ao recrudescimento das penas, a guerra às drogas e ao gatilho fácil.

2015-2019: Implosão da POLÍTICA na esquerda

Após cinco anos de uma forma frenética de fazer política a nível local e mundial por parte do presidente Mujica, o ano de 2015 traz uma aterragem abrupta do clima político, o novo presidente da República pela segunda vez, Tabaré Vázquez, desaparece do debate público e a esquerda política e parlamentar retrai-se para a custódia do governo e perde iniciativa, inovação e capacidade de proposta política.

A Frente Ampla, partido/movimento/coligação de governo, apresenta-se como ator de terceira categoria no palco social e político do país, limitando-se a dar o seu aval e apoio a toda a política avançada pelo Poder Executivo.

O grupo parlamentar da Frente Ampla, tanto em deputados como no Senado, fecha-se no acompanhamento do governo, perde iniciativa política e carece de uma agenda de novas iniciativas que aprofundem as mudanças e as conquistas do primeiro governo de Vásquez e do governo de Mujica. A narrativa da esquerda e a sua capacidade de sedução desvanecem-se até quase desaparecer, absorvida pela gestão, o bom governo e a correção política.

Os movimentos sociais, em particular o Feminismo e em alguma medida o Movimento Sindical são os que mantêm uma ação política permanente e sistemática de reivindicação e aprofundamento dos direitos adquiridos, da inclusão de novas perspetivas inclusivas em assuntos ambientais, de género, das deficiências, dos afrodescendentes e os migrantes, com especial ênfase naquilo que tenha a ver com violência de gênero.

A direita mobiliza toda a sua artilharia ideológica, política e mediática, questionando o que chama de “ideologia de gênero” e fazendo finca-pé nos problemas de segurança pública, promovendo denúncias de corrupção e judicializando as responsabilidades políticas e de gestão dos membros do governo de Mujica e do primeiro governo de Vázquez.

Há um episódio muito doloroso na gestão da empresa pública petroquímica que apresentou em 2015 um importante défice na gestão financeira, o que levará em 2017 o vice-presidente da República Raúl Sendic [2], que no período 2009-2015 tinha sido por duas vezes presidente da dita empresa, a renunciar ao cargo.

Alguns traços relevantes da segunda presidência de Tabaré Vázquez

O segundo governo de Tabaré Vázquez teve logo a partir do dia seguinte à eleição um viés conservador, até mesmo com nuances autoritárias em certas áreas.

Vázquez anunciou o seu elenco governativo imediatamente a seguir à eleição sem ter em conta a realidade eleitoral nem as sensibilidades da sociedade nesse momento, nem a do partido que o levou ao governo. O seu executivo foi formado com os incondicionais da sua velha guarda, aquelas pessoas que o acompanharam e com quem tinha governado Montevideo de 1990 a 1995 e que tinha sido a sua equipa de confiança no primeiro governo nacional entre 2005 e 2010.

O mandato teve início com a descontinuação de uma série de iniciativas que tinham avançado durante o governo de Mujica, algumas delas saídas da Estratégia pela Vida e a Convivência promovidas em 2012, que tentavam enfrentar o problema da insegurança de forma integral, com intervenções urbanas de envergadura para recuperar territórios pauperizados.

Os temas da Insegurança e das Políticas Sociais “ficam presos”, respetivamente, nos ministérios do Interior e do Desenvolvimento Social, que não dialogam entre si nem com o resto dos organismos do estado que têm intervenção na matéria, como os da Habitação, Trabalho e Segurança Social, Saúde, e o segundo e terceiro nível de governo, Departamentos e Municípios.

Apenas em 2018 foi ensaiado um plano para retomar formas de dar uma resposta integral em alguns territórios críticos de Montevideo e noutros departamentos do País, com a participação de diversos organismos do estado central, os Departamentos e os Municípios e o envolvimento dos moradores na construção de uma sociedade mais segura.

Aos olhos da direita dura foi uma resposta tardia e tímida e aos olhos de amplos setores de esquerda foi também uma resposta tardia e focada nos aspetos repressivos, sem sublinhar o facto de que se tratava de territórios abandonados pelo Estado, aos seus diversos níveis, desde há décadas.

Tudo parece indicar que já era tarde e insuficiente.

A bandeira emblemática da esquerda na sua chegada ao governo em 2015 eram as políticas sociais, a redução da pobreza, a quase eliminação da indigência. Foram implementados planos de transferências de rendimento, programas de proteção no emprego, uma bateria de ferramentas para corrigir as desigualdades de um sistema que as cria de forma sistemática.

Para além das inevitáveis falhas na implementação dos diversos programas de apoio aos setores mais vulneráveis da sociedade, eles contribuíram de forma significativa para a melhoria da qualidade de vida e a dignidade das pessoas.

A direita fustigou sistematicamente estas políticas, acusando-as de serem clientelares e de contribuírem para que as pessoas que recebiam as ajudas deixassem de procurar trabalho, de cuidarem de si próprios e de se superarem como seres humanos. Instalou a aporofobia[3].

As pessoas são pobres porque não se esforçam, porque são preguiçosas, porque gostam de viver às custas do estado. Uma narrativa cruel e impiedosa, que nega as histórias de vida de amplos setores sociais historicamente submergidos e postos de lado ao longo de gerações, à qual foram aderindo as classes médias, depois médias baixas e finalmente até as próprias classes baixas da sociedade.

15 anos após o nascimento do Programa de Atenção Nacional à Emergência Social — PANES, bandeira da esquerda que ganhou o goberno com 51% dos votos à primeira volta em 2005, sem alterações significativas nos elencos que implementaram essas políticas nem na reformulação das mesmas por parte da esquerda, a direita impôs a sua narrativa aporofóbica.

No que diz respeito às relações no seio do campo popular, em setembro de 2015 aconteceu algo que iria marcar não apenas toda a gestão da segunda presidência Vázquez, mas também o estilhaçar da sensibilidade, do pensar, da razão de ser da esquerda. No meio de um profundo enfrentamento com os sindicatos docentes e os estudantes, Vázquez decreta a requisição civil na educação. Uma medida impopular, que juntou milhares de pessoas nas ruas e que nem se podia aplicar por ser inconstitucional. Vázquez partiu a loiça sem ganhar nada com isso.

Por outro lado, no marco de uma estratégia com várias tenazes com que tentavam isolar a esquerda da sociedade, cujos eixos são A INSEGURANÇA, a ineficiência das POLÍTICAS SOCIAIS, MÁ GESTÃO e as acusações de CORRUPÇÃO, é a direita que marca a agenda de praticamente todo o período do mandato do governo.

Ao longo de dez anos e independentemente de não existirem indicadores no País que confirmassem a gravidade das suas afirmações, a direita convenceu a sociedade que o País estava perante uma crise generalizada de valores, de insegurança, de corrupção e que a mudança de caras na condução do país era imprescindível para que o Uruguai não se Venezuelizasse. O País ouviu e convenceu-se disso.

Duas eleições e muitas lições

Outubro

A 27 de outubro de 2019 a Frente Ampla foi o partido mais votado pelos cidadãos. Os 39.02% deram à Frente Ampla a possibilidade de ser a maior minoria, o partido político mais importante do país. O resto dos partidos de tom liberal ou ambientalistas e da direita conservadora, junto com outros pequenos grupos que não alcançaram representação parlamentar, somam 56.64% dos votos. O resto foi completado pelos  votos brancos e nulos.

A maioria da sociedade votou contra a esquerda e os três principais partidos da direita tiveram no seu conjunto 52% do eleitorado, dos quais 28.02% para o partido nacional, representante histórico do conservadorismo em matéria de direitos e liberdades e neoliberal nas suas conceções económicas; 12.34% dos cidadãos optaram pelo partido colorado, um partido liberal em matéria de direitos e liberdades; e depois a extrema-direita, com um partido liderado por um ex-chefe do exército que em oito meses alcançou 11.04% do eleitorado e que hoje é a chave do futuro governo.

Novembro

O Uruguai tem um regime eleitoral a duas voltas, o que implica que para um partido ganhar a eleição à primeira volta tenha de superar 50% do eleitorado mais 1 voto. Por isso, apesar de a esquerda no seu conjunto ter obtido 39.02% dos votos válidos e o segundo partido ter ficado a 11 pontos de diferença com 28.02%, a lei eleitoral estabelece a necessidade de uma segunda volta.

Logo a seguir à eleição de outubro, os três principais partidos da direita, incluindo a extrema-direita, coligaram-se numa aliança a que se juntaram os pequenos partidos. Tudo somado, esta coligação tinha juntado 54.05% da vontade cidadã.

A esquerda cometeu inúmeros erros ao longo da campanha de outubro e também na campanha da segunda volta em novembro. Tudo fazia crer que esta eleição seria um passeio sem sobressaltos para a direita.

Ao longo de todo o mês, as sondagens davam a coligação de direita vencedora da contenda com 8 a 9 pontos percentuais de avanço. A direita não conseguia captar todo o eleitorado que nela tinha votado em outubro, mas mantinha larga vantagem sobre a esquerda.

Mas às 20h30, ao fecharem as urnas, o País parou ao ver que a diferença entre ambos os candidatos era tal que as principais empresas de sondagens davam “empate técnico” e não apontavam um vencedor. Três horas mais tarde, às 23h30, o candidato da esquerda Daniel Martínez saúda a sua militância e diz que a eleição ainda não está definida e será necessário aguardar pela contagem dos votos observados [4], dada a diferença tão pequena. Por isso haverá que esperar várias horas, ou mesmo vários dias para saber quem será o próximo Presidente da República.

Na quinta-feira, 28 de novembro ao meio dia, a recontagem dos votos confirmou o triunfo da coligação de direita com 48.8% do eleitorado contra 47.3% da esquerda, uma curta margem de 27.042 votos separou a esquerda do que teria sido o seu quarto mandato consecutivo no governo.

Lições aprendidas

A primeira reflexão importante a destacar é que no Uruguai uma eleição não se ganha nem se perde numa campanha.

A segunda é que os candidatos são importantes, mas não são necessariamente determinantes.

A terceira é que a ação política do governo, da força política e dos deputados, bem como dos movimentos sociais e do conjunto da sociedade civil, ao longo de todo o período do ciclo progressista e em particular do período 2015-2019, assumem um papel central na construção da narrativa histórica que dá sentido ao voto no dia da eleição.

A quarta é a constatação de que havia 47.3% do eleitorado disposto a votar Martínez e que em outubro não votou nele. O voto fragmentado em vários partidos de direita não lhe teria dado a maioria parlamentar, mas sim à esquerda e assim pelo menos 8 deputados e 3 senadores agora nas bancadas da direita teriam ficado nas bancadas da esquerda.

A quinta e muito importante é que conservadores e liberais não duvidaram por um instante em abraçar a extrema-direita com o objetivo de tirar o progressismo do governo.

A eleição de outubro foi para a esquerda um triunfo com sabor a derrota, foi o partido mais votado mas perdeu 3 senadores e 8 deputados e a maioria parlamentar passou para as mãos da direita.

A eleição de novembro foi para a esquerda uma derrota com sabor a triunfo, com a direita a ir governar o país sem ter superado a fasquia dos 50% do eleitorado. Desde a reforma eleitoral de 1996, nenhum presidente foi eleito à segunda volta com menos de 50% dos votos. Ainda por cima, mais de 5% do eleitorado que votou na direita em outubro não votou em novembro no candidato único das direitas e escolheu antes apoiar o candidato do progressismo.

Se o resultado de novembro não evitará que a direita promova um programa de conteúdo fortemente neoliberal, como sugere a formação do executivo que está em marcha e as medidas que está a anunciar, pode contribuir para que não o faça de forma selvagem como acontece no Brasil de Bolsonaro e aconteceu na Argentina de Macri.

Terminado o processo eleitoral, é necessário constatar que a esquerda não soube interpretar o incómodo, o descontentamento, a vontade de mudança na sociedade e sofreu um revés histórico.

Finalmente, uma reflexão muito importante para o futuro da esquerda: as políticas dos 15 anos de progressismo que conseguiram retirar da pobreza mais de 25% da população não conseguiram uma mudança cultural por entre esta população e o conjunto da sociedade que tornasse estes cidadãos ativos, críticos e não meros consumidores de um mercado que antes lhes fugia.

Nada nos é estranho.


Julio Calzada é sociólogo, ex-Secretário Geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai e atual Diretor da Divisão de Políticas Sociais da Intendência de Montevideo.

Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Notas:

[1] Olla, lugar onde os “cozinheiros” cozem a pasta de cocaína e extraem o cloridrato que em seguida pode ser consumido na forma de cocaína snifada ou injetada.

Boca, lugar de abastecimento de drogas e no caso das cocaínas fumáveis, “lugar de abastecimento e consumo de pasta base”.

[2] Filho de Raúl “Bebe” Sendic, líder histórico do movimento de trabalhadores rurais de Artigas UTAA e fundador com o presidente Mujica do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros no início dos anos 1960, responsável pela guerrilha urbana mais mediática das décadas de 60 e 70 do século XX.

[3] Aporofobia: rejeição, hostilidade e aversão às pessoas pobres.

[4] “Votos observados” são votos registados separadamente nas mesas eleitorais, em casos de eleitores que votam numa zona eleitoral diferente do recenseamento ou cujo nome não é encontrado na lista eleitoral. Os dados desses eleitores são analisados posteriormente à eleição para confirmação de identidade e só após essa confirmação são validados.

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

Ou o humor na obra de Dalton Trevisan

Ernani Ssó

Sem busto de vampiro na pracinha

Quando o Márcio Renato dos Santos, curador da FLIBI (Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná), me ligou pra perguntar se eu topava falar sobre o humor na obra do Dalton Trevisan, eu disse sim no mesmo segundo. Foi uma irresponsabilidade, claro. Eu gosto de humor e reli muito o Dalton, mas não sou um especialista em nada, apenas alguém com curiosidade. É bem provável que as pessoas que me ouviram podiam trocar de lugar comigo com grande vantagem.

Mas eu sinto que tenho uma dívida com o Dalton. Não só eu, o Brasil também tem, e como tem. Mas vamos deixar o Brasil pra lá, eu só pago as minhas dívidas e de preferência as que não envolvem dinheiro.

Os críticos reconheceram que o Dalton é um grande escritor, claro. Todos nós sabemos disso. Mas, veja, reconheceram e em seguida saíram de fininho. Fora o Ivan Lessa, não lembro de ninguém que festejasse o Dalton. Até autores de segunda são festejados no Brasil, ou Bananão, para os íntimos. Será porque ninguém tem coragem de botar busto de vampiro na pracinha?

O diabo é que o Dalton é mais profundo, mais preciso e com maior domínio técnico que todos esses concorrentes a miss simpatia que enchem jornais e academias, ou que se dedicam mais à divulgação do que a escrever.

Bem, me desculpem a empolgação, ou não desculpem, porque é mais do que justificada. E como não consegui falar nem um terço do que anotei, volto ao assunto, espero que um pouco menos confuso.

Falta de humor

Vocês não sei, mas eu deploro a falta de humor na literatura brasileira. Sim, sempre se fala no humor do Machado, ou do José Cândido de Carvalho ou do Campos de Carvalho. Mas mesmo os que se dizem machadianos ou cantam sua admiração por Campos de Carvalho, na hora de escrever assumem um arzinho de sobriedade senhorial. Quem é o herdeiro do deboche brincalhão de José Cândido de Carvalho? Eu não conheço. No máximo vi a linguagem que José Cândido criou ser chupada pelo Dias Gomes na novela O bem-amado. Até um humorista como Millôr Fernandes dizia que humor não é pra rir, mas fazer pensar. Ele parece se defendendo da velha acusação do Aristóteles de que a comédia é menor, que a tragédia é que está com tudo.

Parece que se confunde seriedade com cara fechada, com solenidade. É óbvio, qualquer um pode ser raso ou mesmo idiota com a cara mais solene do mundo e enganar os trouxas. E qualquer um pode ser profundo e risonho ao mesmo tempo, vide o Oscar Wilde, o exemplo mais caindo de maduro. É como dizia Cortázar: como se Cervantes fosse solene, carajo! Ou alguém tem coragem de dizer, ainda hoje, que o Quixote não é sério, que não trata de uma das grandes misérias humanas, o desajuste entre a realidade e nossos desejos? Melhor ainda: trata de um modo exemplar, que continua fazendo sentido e sendo divertido quinhentos anos depois. Os sérios profissionais têm de engolir que o primeiro e talvez mais importante romance seja um romance cômico.

Há quem atribua a pose de seriedade e a linguagem empolada de grande parte da literatura brasileira à nossa tradição bacharelesca. Pode ser, não? Começamos com muitos advogados, muitos deles de classe média, ou mérdia, como dizia o João Antônio. A primeira coisa que o cara fazia – ainda faz, na verdade – era esfregar na cara da patuleia o seu anel, sem jamais desconfiar da sua cafonice. Eu sou doutor. Olha com quem está falando – aí o chorrilho de palavras difíceis, pretensamente bonitas, com surtos gramaticoides cabeludos. Exagero meu? Leia as “poesias” de Ayres Britto, pra sentir o gostinho.

O humor apareceu muito mais na crônica, me parece. Um gênero considerado menor, pra jornal, pra consumo de gente que nem lê livro. Pode ser que isso tenha contribuído pra que alguns autores escrevessem com mais naturalidade. Se você senta pra escrever com o peso de fazer grande literatura, de desbancar Dante e Goethe, talvez embatuque, não? Veja o Cervantes, que se saiu melhor justamente quando sentou pra escrever um livro sem ambição, uma mera sátira aos romances de cavalaria. O certo é que temos grandes cronistas, mas, o nível desses cronistas a mim, pelo menos, parece maior que de nossos ficcionistas. Digo isso de um modo geral, bem entendido. Eu gostaria muito de ler um romancista do nível do Rubem Braga, pra começo de conversa.

Fomos mais felizes na música popular, não? Nossa música tem relevância internacional, coisa que não acontece de jeito nenhum com nossa literatura. Nossa música popular, também de um modo geral, escapou da maldição do doutor. Veja a quantidade e a qualidade de grandes letristas cheios de humor: Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Aldir Blanc – seria tão bom que muitos dos nossos poetas tivessem o talento deles. Mas até o baixo clero se mostra humorado. Pra não ir mais longe, o Erasmo Carlos, no começo da Jovem Guarda, era muito bem-humorado.

O caso do Chico é estranho. Com letras geniais, muitas cheias de humor, na hora que sentou pra escrever romances, em geral ficou chato, sem bossa nenhuma. Deve ser praga dos imortais da academia.

O humor, como tudo, tem vários níveis. O que o Renato Aragão faz é humor. Mas, não vamos esquecer – porque faz bem ao coração e ao fígado –, o que Jorge Luis Borges e Julio Cortázar fizeram também é humor. Se você cortar o humor da obra deles, vai fazer um estrago e tanto. O humor está inclusive na visão de mundo deles. Mas quem pensa neles como humoristas? Mal se pensa neles como escritores com senso de humor.

Eu até gosto de comédias que são apenas comédias. Mas, desde o começo – gosto que se acentuou com os anos –, prefiro a comédia dramática, ou a tragicomédia. É um gênero complicado, porque misturar dois elementos de climas tão diferentes, tipo mocotó com limonada, exige pulso muito firme, muito tato, muito faro pra equilibrar tudo. Mas me parece que é o gênero que está mais próximo dessa mixórdia que chamam de – pra agravar, em maiúscula muitas vezes – vida.

Aristóteles dizia que a tragédia é superior à comédia porque a comédia não tem a dor. Podemos inverter a frase: a tragédia é inferior porque não tem o riso ou o ridículo. Eis o ponto: a tragicomédia tem tudo.

Acho que é aí que o Dalton Trevisan se enquadra.

O humor do Dalton

O humor dele é pouco explícito e é, praticamente sempre, negro, ou ironia gótica, como disse a crítica Barbara A. Bannon. Por falar nisso, há um achado que considero genial no conto “Três irmãos”, em O rei da terra: “Logo está lavando as mãos e abrindo os armários – não é o espelho o melhor esconderijo de um fantasma?”.

Vocês sabem, há humor pra se gargalhar, pra rir, pra sorrir, às vezes apenas mentalmente, e há um humor tão duro, tão cortante, que nossa reação talvez seja o silêncio ou uma exclamação de espanto. Há no Dalton de tudo um pouco, mas, claro, o predomínio é de Jack, o Estripador, disfarçado de palhaço. Outra coisa amarga: os heróis dele são tão escrotos que não dá pra gente torcer por eles.

Meu exemplo favorito, pra ilustrar essa quizumba, é de um conto chamado “Barata leprosa”, que acho que li no Pasquim e nunca encontrei em livro, que me lembre. Trata-se de um suspiro de absoluta solidão: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico, como eu a faria feliz!”

Às vezes a coisa está na linguagem. Mas com o Dalton nunca é apenas a linguagem, as palavras estão a serviço sempre, nunca por elas mesmas. A dor mais banal, com um pequeno toque de mão, se revela patética, sem falar que traça a estreiteza do universo da personagem, como nesse lamento de incompreensão de uma mãe tirada das páginas de A trombeta do anjo vingador: “Era cruel com o velho por amor ao filho? Como podia o filho não ficar ao seu lado? Se não era ela, quem enchia de água o filtro? Sempre lavando e chorando, varrendo e rezando, quem sabia fritar o ovo dos dois lados?”

Como disse, talvez na maioria dos casos seja mais ironia que humor. Isso acontece com Machado também. Só que no Machado isso é notado e cantado em prosa e verso. Pelo menos hoje em dia. Daqui a cem anos, por motivos de força maior, não terei como saber o que aconteceu, mas tenho minhas dúvidas de que haverá muitos interessados em ter vampiro como modelo. Quem tem jugular, tem medo.

Cortes e recortes

Há uma observação do Stevenson, num ensaio, que me parece de uma sensatez luminosa. Se você pede pra um menino contar seu dia, ele não vai dizer que ao se levantar desabotoou seis botões do pijama, deu quinze passos até o banheiro, abotoou tantos outros botões da camisa, tomou sete goles de café com leite, mastigou vinte vezes o pão com manteiga e desceu vinte e dois degraus pra sair de casa. Ele vai separar os fatos significativos, apenas. Daí que não interessa o acúmulo de descrições e detalhamentos, embora muitos escritores insistam, por pura tara ou tomado de uma espécie de êxtase.

O Dalton, entre dezenas de fatos e de detalhes, separa só os que interessam, quer dizer, aqueles que ilustrarão a ausência do resto, porque os silêncios, as lacunas são parte integrante do texto. Pra isso é preciso ter ótimo olho e precisa, também, ter vivido um pouquinho, não? Sem ter vivido e pensado no que se viveu não se tem a menor ideia do que importa.

O fato de Trevisan ser econômico ao extremo, de apostar em detalhes às vezes ínfimos, exige muito do leitor. De modo que é preciso reler – e reler como um Nero Wolfe examinando o depoimento de um suspeito. A cada releitura, nos damos conta do quanto deixamos escapar. A cada releitura, o Dalton se revela melhor do que pensávamos.

Vejamos um trechinho do dia a dia de um viúvo em Desgracida: “De volta à Pensão Bom Pastor com um jornal, às vezes uma revista. Um pouco de jornal, daí o rádio, logo me chateio. Mais jornal, suspiro, os pequenos anúncios, gemido. No fim começo a falar sozinho. Sabe que faz bem?”.

Deu pra notar? Ele recorta com tesourinha uns cacos de realidade e os cola numa ordem e com uma precisão perfeitas, quero dizer, de um modo que o efeito é cem vezes mais poderoso do que um acúmulo de cenas ou descrição de três páginas de lágrimas e lamúrias. É isso o que o humor e a poesia fazem quando são humor e poesia pra valer.

Acho esse trecho exemplar. Repito, o Dalton é o verdadeiro gigolô das palavras. Ele bate nelas pra mostrar quem é que manda no pedaço. No texto dele, as palavras nunca estão lá pra se exibirem apenas. Estão sempre em função da expressão. Elas são sempre meio, nunca fim.

Por falar nisso, li em algum lugar que o estilo do Dalton é antiliterário. Não entendi no primeiro segundo. Tive de lembrar que o pessoal acha Iracema, do José de Alencar, literatura. Bom, é literatura, no mau sentido do termo.

Pequenos fatos, pequenas observações

Há muitos exemplos de humor em pequenos fatos, ou em observações de passagem. Vejamos alguns.

No conto “Morte na praça”, há uma ceninha em duas frases: “à passagem do morto as lojas iam fechando as portas. Os homens revezavam-se nas alças do caixão: o cemitério perto, mas o defunto pesado.”

Detalhes realistas, simples. Primeiro, o fechamento das lojas indica um costume da época, talvez um respeito convencional, todo mundo se conhece na cidadezinha. Depois, a troca nas alças do caixão. Até aí, tudo normal, o leitor pode pensar várias coisas, até que os homens se revezam pra todos terem oportunidade de carregar o morto. Mas quando Dalton nota que o cemitério é perto e o defunto pesado, temos algo cômico. Ele não se deixa contaminar pela solenidade da situação. Na verdade ele premeditou a coisa. Veja, se ele diz apenas que o cemitério é longe ou que o defunto é pesado, não tem graça. Se diz que o cemitério é longe e o defunto pesado, força a barra, a graça diminui. Mas ao contrastar a distância e o peso, ele faz a formulação perfeita.

Lembrem do Mario Quintana falando do mistério da comicidade. Se você vê um perneta descendo a ladeira, qual a graça? Mas se você vê três pernetas descendo a ladeira? Há inumeráveis detalhes nos contos que provam que esse mistério não é nada misterioso para o Dalton.

Há quase a mesma piada no conto “Uma coroa para Ritinha”, do volume Abismos de rosas. Quase, porque aqui o cômico é melancólico, poético até. Vejamos: “Ali do cemitério poderiam ir todas para o bordel das normalistas. Disputavam uma alça do caixão, a da frente reservada para ele, que abria o cortejo. Como é que, tão leve nos seus braços, pesava tanto no caixão?”

Vocês lembram do conto “O caniço barbudo”, do livro Frufru Rataplã Dolores? O herói é todo doente, apaixonado pela mãe e, claro, tem ódio do pai. Quando o velho morre, o herói “Renova sempre a assinatura do jornal preferido do pai. Despreza as notícias de terremoto, ataque terrorista, inundação diluviana. O interesse antes nos pequenos anúncios que no fim do mundo”.

Talvez se possa dizer que o Dalton também despreza terremotos, ataques terroristas, inundações diluvianas. Que o negócio dele, como escritor, são os pequenos anúncios. Ele lida com os dramas cotidianos, muito particulares. Naturalmente que esses dramas valem em qualquer canto do mundo. Ele trabalha com uma lupa, nunca olha de longe, os movimentos das tropas não interessam, ele quer saber por que certo soldado manca. Ele é o ás do detalhe preciso, mas que muitas vezes parece banal. Quando digo preciso quero dizer que através dele temos o resto, a pessoa toda e, se somos chegados a somar dois mais dois, essa pessoa dentro do dito contexto maior. O mundo indo para o brejo e o camarada se queixando de que o sapato aperta o calo no joanete. Como se vê, é um retrato aterrorizante do bípede implume – o egoísmo, a irrelevância, a burrice extrema.

Se lermos com cuidado uns dez dos melhores contos do Dalton, compreenderemos mais facilmente o que acontece no país hoje do que lendo todo o jornalismo da grande imprensa. Mais, compreenderemos inclusive a calhordice da grande imprensa com seus eminentes colunistas chapas-brancas. Não conheço obra que tenha mais gente canalha ou burra ou maluca. Ou gente com tudo isso e mais alguns novos predicados.

No conto “O segredo do noivo”, do livro O rei da terra, temos um rapaz atormentado por um drama que só podemos supor. Ele quer mostrar pra noiva o que o atormenta, como quem deseja mostrar um objeto que precisa de distância e discrição. Ela não aceita, prefere casar e resolver tudo depois. Ele avisa: se você não for minha, não será de ninguém. A insinuação, claro, é que ela “não pode” ser dele.

Bom, na noite antes do casamento temos a seguinte cena: “Não dormiu aquela noite, a família ouviu que João andava pelo quarto. Três tentativas ele fez e nem uma deu certo: prendeu um fio no teto, amarrou na ponta um lápis vermelho e com a força do pensamento queria girá-lo. Com a mesma ordem dos olhos encarniçou-se por apagar a chama de uma vela. A terceira é muito triste para contar”.

Esse fecho é perfeito – e muito engraçado. Mas qual seria essa triste terceira tentativa? Alguém aí tem um palpite? Tremo só em pensar no que um psicanalista diria. Talvez, pra começo de conversa, que o lápis vermelho é um símbolo fálico. Afinal, tem forma cilíndrica e é vermelho, não? Fazer girar o lápis com o pensamento seria a vontade de fazer o pingolim se levantar? E apagar a chama da vela? Apagar o desejo pelas mulheres e tocar a vida? Mas a terceira tentativa ainda é mistério.

Pelo menos um exemplo de humor direto, brincalhão. No conto “Vozes no retrato” (na versão mais recente, não a de Desastres de amor:

“Com arte feiticeira desencantara um retrato de João.

“– Credo! Olhos fatais de Dom Pedro Primeiro”.

De volta ao grotesco. No conto “A gorda do Tiki Bar”. Primeira linha, a ironia direta: “Cambaleou na luz negra do inferninho: quanto mais escuro, mais lindas rainhas”. Mais adiante, ainda na mesma linha: “Credo, bem. Mais tarado que o meu marido”. Por fim, isto: “Nu, de meia preta e relógio de pulso. Ela surgiu balouçante na pontinha do pé, encheu todo o quarto. Se não a esperasse, teria gritado de susto”. Parece que estamos numa daquelas comédias do cinema italiano da década de 70, quando os índices relativos do ar eram carregados de sarcasmo.

O vampiro de Curitiba

Vamos falar do conto “Vampiro de Curitiba”? Talvez seja inevitável, deve ter gente esperando, vão me cobrar se não falo. Quem sabe o Dalton, com uma obra tão extensa, sinta algum ressentimento por esse conto, que recebe um destaque que em muitos momentos ele pode sentir como imerecido. Ou, nessas alturas, pode ter se resignado, não? Tanto que aceitou ser chamado de Vampiro de Curitiba, confundindo a imagem do escritor – que jamais deu moleza pro sentimentalismo, segundo muitos o principal fator de sucesso – com a do tarado escroto.

Seja como for, o fato é que esse conto se destaca, mas, veja, não porque o Dalton não tenha muitos outros contos tão bons quanto esse ou melhores. Literatura não é concurso de miss, onde se mede a beleza com fita métrica, o que, em minha opinião, é uma ofensa às mulheres em geral e à Fanny Ardant em particular.

Não gosto muito de comparar autores ou livros. Não acho que seja justo. Cada autor, cada livro têm suas intenções, mexem com coisas secretas e profundas que às vezes mal transparecem, enfim, são aventuras diferentes. Depois tem a pessoa que avalia, com suas manias e miopias – mais importante, com seus segredos que às vezes não confessa nem a si mesma mas que o texto pode despertar. Ao comparar dois autores o que mais aparece somos nós mesmos. Eu, faço questão de reconhecer, gosto de coisas diferentes conforme a época, ou até o dia. Ou gosto das mesmas coisas de modo diferente, conforme o tempo.

Acho que o que faz a diferença nesse conto é que ele nos dá um personagem – e nos dá de corpo inteiro, em poucas páginas. Só isso já é imenso. Mas isso é feito num conto que nem tem enredo, não tem história. É só um cara divagando enquanto olha as mulheres na rua.

Quem encarna na gente é o personagem. É que nem o Quixote, que em seguida não precisou mais do Cervantes. Até o Rocinante logo não precisou do Cervantes. Eles, o Nelsinho, o Quixote e o Rocinante andam por aí sozinhos, independentes. Como no caso do Cervantes, muita gente que não leu o Dalton já ouviu falar do vampiro de Curitiba.

Acho que isso acontece, primeiro, porque o Dalton acertou no retrato, que é feito menos de fatos do que de um modo de falar e de ver o mundo. Segundo, porque esse sujeito, em toda a sua escrotidão, encontra eco na gente ou em nossa memória, em nossa experiência.

Vejamos isso melhor. Quando Nelsinho vê na rua uma mulher com o marido, pensa: “Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama – acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos”.

Essa observação me lembra outro personagem de um conto de que não lembro o nome. O sujeito diz: “velho sujo também tem sentimentos”. Talvez nossa identificação, maior ou menor, com o vampiro de Curitiba seja o reverso disso: boas pessoas também têm sentimentos sujos.

Outra coisa: esse conto é cheio de energia, é contagiante e engraçado. Pelo menos eu acho engraçado. O que não dá pra negar é que é extremamente irônico. E a ironia às vezes se volta contra o próprio personagem, que por alguns segundos parece se dar conta da própria loucura.

Nelsinho se define nas primeiras frases: “Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz”.

O sexo é o caminho da felicidade mas é um perigo mortal. Pobres mulheres. Porque Nelsinho atribui a felicidade e a dor a elas, felicidade e dor inseparáveis. Curitiba está menos no mapa do Brasil do que no Velho Testamento, a meio caminho entre Sodoma e Gomorra. Nelsinho não pensa que tem parte ativa no negócio. Até o fato de ele ser um canalha, oco de pau podre cheio de aranhas e escorpiões, é devido à existência das mulheres.

Em outros contos isso é levado ao delírio. O sexo trazendo embutida a punição pelo prazer. Lembrem-se de personagens transando com as mulheres mais horrorosas. O velho sujo, em nome dos seus sentimentos, tem de se punir. É uma doença monstruosa.

Há outra coisa presente em todo o devaneio do vampiro. A boquinha dela está pedindo beijo, certo? Mas onde o sinal disso? Pro Nelsinho o fato de essa boquinha existir e ser bonita é prova de que está pedindo beijo.

Mesmo que isso fosse verdade, pede pra quem? Nelsinho jamais pensa que uma mulher pode ter desejo e esse desejo ser legítimo e natural – e, note-se, com endereço específico. É sempre uma safadeza, um pecado. Se o desejo é por ele, é porque ele é poderoso, nada menos.

Não é exatamente assim que pensam os que dividem as mulheres entre as que merecem ou não merecem ser estupradas? Frase, aliás, que poderia ter sido dita por Nelsinho.

O estupro pode ser apenas o exercício da lei do mais forte, lei tão onipresente quanto a lei da gravidade. Mas em muitos casos também é punição. Pela lógica do vampiro, mulher nenhuma tem o direito de ser bonita, de querer ser vista e de não ter interesse pela maioria dos homens ou ter, que Deus atalhe, por outras mulheres. E se se entregar a muitos homens, é a pior das putas, merece a morte do mesmo jeito. Enfim, nas mãos do vampiro, mulher nenhuma tem escolha nunca. Ou é a Virgem Maria ou a puta da Babilônia.

Peço paciência: vamos pensar no óbvio ululante.

Por que uma mulher não pode ser vaidosa? Por que ela não pode desejar ser admirada? E, ao mesmo tempo, dar apenas pra quem ela quer dar? Só porque ela é bonita e vaidosa tem de pagar pedágio pra todo marmanjo que aparecer?

Os homens também não são vaidosos? Também não querem ser admirados por todas as mulheres? Mas, ao mesmo tempo, não querem ser agarrados por todas, só pelas que acham bonitas e interessantes, não é mesmo?

Olha, estou mastigando isso tudo porque conheço muita gente que acha que o Dalton está ultrapassado, que fala de um mundo que não existe mais, que Curitiba não está mais entre Sodoma e Gomorra apesar do esforço dos fundamentalistas evangélicos. Esse mundo poderia dizer, como Mark Twain, que sua morte foi um tanto quanto exagerada.

Há algumas semanas li, não lembro se no El País ou no UOL, as seguintes manchetes: “A cada 4 minutos, uma mulher é espancada”; “A cada 4 horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada”.

Nelsinho continua em ação. Sem bigodinho, mas é ele, talvez fazendo o tipo lenhador. Sem dente de ouro, agora com dente de porcelana, mas é ele.

Bom dia, Marcelo Medeiros

Bom dia, Marcelo Medeiros

Eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Bem, depois falo sobre isso.

Para 2020, o Inter deve ser pensado, repensado e, talvez, dispensado. Inclusive tu, Marcelo. É claro que tu não vais renunciar, então digo que talvez eu — ou a torcida — vá dispensar o clube em 2020. Alguns farão política contra ti, claro. Eu não sou candidato a nada, mas te digo que estou cansado de nosso futebol.

É demais. Tu estás finalizando três anos de gestão e, OK, subiste em 2017 da segunda para a primeira divisão. Só isso e  mérito nenhum. Afinal, até hoje, todos os grandes subiram no primeiro ano. Tua administração foi tão opaca que conseguiste subir sem brilho, na segunda colocação.

Tua administração é um mero balcão de maus negócios. Para quem foi boa a contratação de Natanael, por exemplo? Ele recebe 280 mil por mês em três anos de contrato. Jogava na Bulgária, imaginem. Sua estreia foi tão ridícula que ele nunca mais voltou a entrar em campo. É reserva do desastroso Uendel. Quem ganhou com esta contratação obscura, que provocou gozações do pessoal do Athlético-PR, onde ele atuava antes de ir para a Bulgária? Quem ganhou?

E Natanael não é o único. Há Parede — este joga mal e sempre, vocês dizem que vão contratá-lo… –, Bruno Silva, Tréllez, Rithely, etc. Negócios, apenas negócios, sem futebol.

E o pior é que temos bons meninos na base. Gostaria que se tivesse com eles a mesma paciência que temos com o Parede, Edenílson, Patrick, Uendel, que estão comprometendo o time há muito tempo.

Peglow — faz gols todo dia nos times da CBF –, Netto, José Aldo, Sarrafiore, a gente mal os conhece. E vocês contratando gente meia boca.

Como disse lá no início, eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Espero a baga na pré. O Fortaleza não pode mais encostar na gente, mas o Goiás, sim.

Sobre perder para o São Paulo no Morumbi; eu já esperava. Incrível como Zé Ricardo conseguiu esculhambar a única coisa que funcionava no nosso time, a defesa. Ontem, dava risadas com as patacoadas de Moledo e Cuesta.

Esta tua administração, Marcelo Medeiros… Demitir Odair sem um plano B engatilhado…

Guerrero na derrota de ontem à noite, uma das poucas boas contratações de um time que joga dinheiro pela janela | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

O Flamengo é o campeão do Brasileiro de 2019 e, como também venceu a Libertadores deste ano, o que lhe garante classificação automática para o ano seguinte, criou mais uma vaga para esta competição neste ano. O mesmo fez o Athlético-PR: como venceu a Copa do Brasil e está em quinto lugar no Brasileiro, ele também criou mais uma vaga.

Então, estes dois competentes clubes fizeram o G-6 transformar-se em G-8, ou seja, teremos 8 times brasileiros na Libertadores de 2020 — 6 com vagas diretas e 2 na escorregadia pré-Libertadores.

O Inter está em sétimo lugar. Vejamos.

1 Flamengo 87 pts, 27 v
2 Santos 71 pts, 21 v
3 Palmeiras 68 pts, 19 v
4 Grêmio 62 pts, 18 v
5 Athletico-PR 60 pts, 17 v
6 São Paulo 57 pts, 15 v
7 Internacional 54 pts, 15 v
8 Corinthians 53 pts, 13 v
9 Fortaleza 49 pts, 14 v
10 Goiás 49 pts, 14 v
11 Bahia 48 pts, 12 v

Para não ir à Libertadores 2020, o Inter teria que perder duas posições, caindo para o 9º lugar.

Todos jogam mais duas partidas. O Inter contra o São Paulo — observem a colocação dos são-paulinos, se os vencermos quarta-feira assumimos o 6º lugar com 16 vitórias contra 15 e podemos incrivelmente pegar uma vaga direta — e contra o Atlético-MG na última rodada, domingo.

O São Paulo pega o Inter (C) e o CSA (F). Este resultado garante uma vaga, no mínimo, na pré-Libertadores.

O Corinthians pega o Ceará (F) e o Flu (C).

O Fortaleza pega o Flu (F) e o Bahia (C).

O Goiás pega o Palmeiras (F) e o Grêmio (C).

E o Bahia, com chances quase nulas, pega o Vasco (C) e o Fortaleza (F).

Ou seja, como Goiás e Fortaleza estão a 5 pontos de distância, está difícil cair fora da pré-Libertadores. E se empatarmos em pontos com o Corinthians, estaremos na frente em razão do menor número de vitórias dos paulistas. Já para a vaga direta, os sites de estatísticas dão entre 18 e 24% de chances.

Então, é melhor a diretoria reformular o time para 2020, pois estamos MUITO MAL.

Morre Mariss Jansons

Morre Mariss Jansons

Aos 76 anos, Mariss Jansons morreu na noite passada em sua casa em São Petersburgo. Ele tinha problemas cardíacos há bastante tempo.

Este ano, sua saúde tinha se deteriorado dramaticamente.

Mariss foi um sensacional regente. Filho do maestro letão Arvid Jansons e Araida, uma judia, Mariss permaneceu escondido durante sua infância na Riga ocupada pelos nazistas. Durante os anos em que Arvid foi vice-diretor da Filarmônica de Leningrado, Mariss memorizava o que ouvia.

Mariss foi autorizado a partir para o País de Gales na década de 1970, onde um impressionante ciclo de Tchaikovski foi transmitido na televisão nacional, e para Oslo, onde se tornou o diretor de sua orquestra em 1979.

Em 1996, Mariss sofreu um ataque cardíaco quase fatal enquanto dirigia La Bohème em Oslo. Somente a presença de um médico de ágil e a proximidade de um hospital salvaram sua vida.

No ano seguinte, tornou-se diretor musical em Pittsburgh, revitalizando a orquestra por mais de meia década até se cansar dos vôos transatlânticos. Desde 2002, dirigiu a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera, mantendo seu status de melhor século na Alemanha, atrás apenas da Filarmônica de Berlim.

Ao mesmo tempo, ele ocupou a posição de maestro titular no Concertgebouw de Amsterdã entre 2004 e 2014. Suas gravações incluem leituras absolutamente magistrais das sinfonias de Mahler e Shostakovich.

Ele deixa uma filha, Ilona, ​​de seu primeiro casamento, e sua segunda esposa, Irina, que sempre o acompanhava.

Somos nós que estamos implantando o fascismo

Somos nós que estamos implantando o fascismo

Por Valéria Brandini (*), antropóloga.

É o povo que está elegendo o fascismo. Se não fosse esse militarzinho bunda suja, seria outro. Pesquiso o brasileiro há 25 anos. Já fiz pesquisas presenciais de norte a sul do País e atesto que o brasileiro médio “é isso aí”.

Quando a tendência da diversidade chegou, ela veio “de fora para dentro”, é uma tendência mundial, pegou a parte mais desenvolvida da sociedade, que não deve chegar a 5% – não falo de nível econômico, falo de nível cultural – e pegou o pink money da comunidade LGBTQ. Mas quem estuda tendências socioculturais sabe que uma coisa é a tendência que vem de fora, e outra coisa é sua assimilação de acordo com os valores e tendências emergentes de um grupo, ou povo.

Pois bem, há uns 7 anos entrevistei grupos de jovens homens que diziam que “não dá pra namorar hoje em dia porque só tem puta”, e grupos de jovens mulheres que “queriam casar virgem, porque a mulherada hoje não se respeita”, que acham que “não dá pra trabalhar e ser mãe e esposa ao mesmo tempo”. Isso é o brasileiro médio – homens e mulheres machistas, racistas e homofóbicos.

Entrevistei adolescentes que diziam ter medo de ir em baladas, pois “os caras não aceitam quando você não quer ficar com eles e te agridem”. Entrevistei jovens homossexuais de periferia que disseram que “tirando os Jardins (SP), ser gay na periferia é correr ameaça de espancamento e morte todo dia.

O brasileiro médio nunca foi “bonzinho”, como dizia Kate Lyra nos quadros de humor dos anos 80. O brasileiro médio “odeia viado”, odeia pobre — mesmo quando é pobre — não odeia “a pobreza”, odeia “o pobre”, divide as mulheres entre as putas e as mulheres pra casar, é racista e de um “racismo cordial” nojento, pois diz que tem amigo negro, mas não se importa que a polícia mate jovens negros inocentes. As mulheres são AS grandes machistas, pois o machismo feminino é o que forma homens e mulheres machistas na socialização primária das crianças e elas NAO QUEREM se libertar dos padrões coercitivos do machismo, elas querem manter esses padrões, pois acreditam que nele elas tem privilégios (mesmo tomando porrada de machista e com um índice altíssimo de feminicídio — vivem uma eterna síndrome de Estocolmo) — já no feminismo, teriam que ser responsáveis por suas próprias vidas, teriam que ter autonomia existencial e isso é novo e assustador.

A candidatura de B17 rompeu o lacre do reacionarismo e o protofascismo que orienta o ethos do brasileiro médio, mas que com a tendência mundial de apoio à diversidade, ficava reprimida. Democracia é isso, senhoras e senhores e infelizmente o povo brasileiro “é isso”.

Nós aqui que achamos uma abominação o machismo, homofobia e racismo do PSL, nós que lutamos contra Bolsonaro e sua ideologia de extrema-direita, sua apologia à tortura, seu desmerecimento às mulheres, seu ódio aos LGBTQ e sua depreciação dos negros, somos a minoria numa elite cultural que não representa o brasileiro médio — e não digo isso com orgulho, mas com pesar —, pois somos o que o brasileiro médio não quer.

Então, se você, como eu, acredita nos valores da diversidade, na busca por equanimidade para os excluídos, como base da cidadania, busque inspirar e influenciar os valores da igualdade por onde passar. Use o conhecimento como ferramenta para desconstruir mitos discriminatórios, use o conhecimento como forma de mostrar a realidade do Outro para aqueles fechados em suas bolhas, pois a empatia é o caminho para que estas pessoas entendam que você precisa lutar por quem não tem condições de lutar por si na sociedade. Não fique apenas na tentativa de convencimento de voto. O trabalho para inspirar é trabalho de uma vida inteira, não de uma eleição — e só ele causa mudanças profundas. Não tente “convencer”, mostre o conhecimento, desconstrua os preconceitos pelo conhecimento e deixe que escolham o caminho a seguir. Se 1 em 10 pessoas se inspirar, você venceu.

E aprenda a mandar à merda quem precisa ser mandado à merda, sem medo de que não gostem de você, pois nada é mais precioso do que a integridade, e integridade é ser inteiro no que você acredita.

A antropóloga Valéria Brandini | Foto: valeriabrandini.com

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(*) Valeria Brandini é antropóloga graduada pela Unicamp, especialista em Multimeios (Comunicação e Interdisciplinaridade), Mestre em Publicidade e Propaganda pela ECA – USP, Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA – USP em Convênio com a Universitá La Sapienza (Roma) e Central Saint Martin’S School Of Fashion (Londres) e Pós Doutoranda em Antropologia Empresarial pela Unicamp.

Essa gente, de Chico Buarque

Essa gente, de Chico Buarque

Não li todos os livros de Chico Buarque, mas penso que, com alguma margem de segurança, possa dizer que este é seu melhor, ao lado de Budapeste. Manuel Duarte — notem a semelhança sonora com Chico Buarque — é um escritor que gosta de caminhar pelo Leblon, cuja grande obra foi escrita no passado e ainda é muito respeitada.

O livro é escrito em pequenos capítulos como se formassem um diário. São escritos, é claro, na primeira pessoa, só que por vários personagens. (Há uma voz misteriosa que narra em terceira pessoa).  Essa gente é duro, muito carioca e inclui fatos muito recentes. Imaginem que o diário finda em 25 de setembro de 2019. Duarte é autor de diversos livros, dentre eles um sucesso estrondoso — O Eunuco do Paço Real -, mas hoje produz pouco e está na pindaíba. Tem duas ex, uma tradutora e uma decoradora que depois se especializou em procurar homens ricos e liberais do ponto de vista sexual. Com a primeira mulher, tem um filho pré-adolescente com o qual mal conversa.

Enquanto escreve um novo livro e espera pela reedição do Eunuco, Duarte anda atrás de dinheiro e de mulheres. Das suas ex e de Rebekka, uma holandesa, mulher de um salva-vidas muito considerado no morro. O autor não parece muito apaixonado por seus personagens, parece mais fixado e estarrecido pelas circunstâncias, pela conformidade das pessoas em relação à vida que levam, pela comédia que é ignorar o que se passa. É um livro que mostra o espancamento de um mendigo, o bullying sofrido por uma criança em razão de ser filho de “gente de esquerda”, a humilhação de porteiros, tudo coisa normal. É um triste cenário de decadência moral com gente preocupada em salvar sua pele em primeiro plano. É uma realidade estranha, violenta e trágica. O final é especialmente enigmático. Chico nos deixa com o pincel na mão para pintarmos o que se quisermos. E a gente só pensa em tinta preta e em vermelho sangue.

Chico Buarque: retrato do Rio de Janeiro e do Brasil | Foto: Divulgação

Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

Bolsonaro apresenta seu novo partido explicitamente fascista

A apresentação da logomarca do partido completamente feita de balas, veio algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas pesquisas é 38, conforme o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Do Il Manifesto
Tradução do blogueiro

Impossível esquecer o lançamento do novo partido de Bolsonaro, Aliança pelo Brasil, nascido da costela (ainda) mais fascista do Partido Social Liberal (Psl), a força política com a qual ele chegou à presidência do Brasil e de onde saiu por discordâncias cada vez mais graves com o presidente Luciano Bivar. Esta é a décima troca de partido de Bolsonazi, como seus muitos o chamam.

Bolsonazi presidirá o partido e o primeiro vice-presidente será o primogênito Flávio, o 01, super enrolado na justiça. Na primeira convenção nacional da Aliança pelo Brasil, que aconteceu na quinta-feira em um hotel da capital, nenhum dos ingredientes estava faltando: insultos a jornalistas por militantes com camisetas elogiando o torturador da ditadura de Brilhante Ustra, referências a Deus e religião, piadas sexuais e slogans anticomunistas (“Nossa bandeira nunca será vermelha”). E, acima de tudo, a apresentação de uma foto com o nome do partido totalmente feito de balas, seguiu dali algumas horas após o anúncio de que o número com o qual será apresentado nas urnas é 38, como o calibre da famosa pistola (“fácil de lembrar”).

Uma escolha na linha da missão de “lutar incansavelmente para garantir a todos os brasileiros o direito inalienável de portar uma arma”. Missão que acompanhará a luta para restaurar a Deus seu lugar “na vida, na história e na alma dos brasileiros”, banir qualquer traço de comunismo e “globalismo” e curar “o flagelo ideológico” da “ideologia de gênero”. Para a estreia real do partido, talvez seja necessário esperar um pouco mais, pois é necessário coletar 500 mil assinaturas em pelo menos nove estados da federação e aguardar o aval do tribunal eleitoral. Uma empresa que dificilmente pode ser realizada a tempo de participar das eleições municipais de 2020.

Entretanto, já está sendo debatida a “orientação explicitamente fascista” da nova força política, sobre a qual enfatiza, por exemplo, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta, que não hesita em descrevê-lo como o “partido da milícia”, em referência aos laços claros do clã Bolsonaro com as milícias paramilitares do Rio de Janeiro envolvidas no assassinato de Marielle Franco, pela qual o filho Carlos está sob investigação, o 02.

E, em matéria de fascismo, houve também o anúncio de um ato solene em homenagem a Pinochet pela Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, encomendado por Frederico d’Avila, deputado estadual do PSL próximo a Aliança pelo Brasil, e marcado para 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, essa coisa inútil. É difícil, no entanto, que o evento ocorra: o presidente da Alesp, Cauê Macris, já declarou que vai impedi-lo.

A mesma carta marcada (observações de Marcos Nunes sobre o filme Coringa)

A mesma carta marcada (observações de Marcos Nunes sobre o filme Coringa)

A MESMA CARTA MARCADA, por Marcos Nunes

Fiquei bastante surpreso com o fato de algumas pessoas de minhas relações terem visto – e gostado – de CORINGA. Me obriguei, assim, a vê-lo, ainda que deteste o subgênero “filmes baseados em histórias em quadrinhos com super-heróis”, basicamente porque super-heróis são apenas uma expressão de cultura de massas, que se utiliza da fórmula das soluções mágicas para mascarar a impotência de seus consumidores, inserindo-os em um universo demagógico onde ele tem voz e poder.

Lamento, mas não gostei mesmo do filme, ainda que ele seja diferente dos demais desse subgênero, tanto na construção do roteiro quanto das personagens, além da linguagem cinematográfica que o aproxima mais de filmes realistas como Midnight Cowboy ou hiper-realistas como Taxi Driver e sua violência gráfica. Arthur, o Joker da vez, me pareceu uma fusão de Ratso (de Midnight Cowboy) com Travis (de Taxi Driver).

O tipo esquizo-paranoide que é associado ao cidadão comum, suas mazelas, fracassos e acentuado grau de sociopatia, não me pareceu representar a revolta dos pobres esquecidos pelo capitalismo financeiro versus os ricos que abdicaram de qualquer pretensão a um mundo mais justo e gozam com a multiplicação das injustiças.

Ele me parece mais um… bolsomínion, alheio à política, imerso no ressentimento e, em dado instante, também adepto da solução violenta como expressão de sua potência íntima relegada à marginalidade por um sistema injusto.

Arthur, cuja fisionomia muitas vezes lembra a do vigarista-em-chefe ora no poder, também não sabe de nada, sequer da própria vida e de seu passado. Supostamente a mãe foi vítima de uma trama de ocultação de paternidade sob responsabilidade do vilão da história, o pai de Bruce Wayne (que virá a ser o “Batman”, coisa mais ridícula, um bilionário ocupado em fazer justiça com as próprias mãos para o bem de uma sociedade conflagrada justo pela desigualdade crescente de renda e poder…).

Mas tudo pode ser apenas projeção de mentes paranoicas, mergulhadas no delírio persecutório. Mas também pode não ser.

Nisso entra o discurso subliminar acerca da ignorância, despolitização, incapacidade técnica e fracasso social em que mergulhou a maioria dos habitantes de Gotham City, que passam a cultuar o “assassino do metrô” por ele ter liquidado com três agentes do mercado financeiro (coisa, aliás, bem inverossímil: três corretores do mercado financeiro na madrugada, viajando pelo infecto e perigoso metrô da cidade…).

Isso lembra o que? Exatamente: o revanchismo do pobre que, ao invés de mudar sua condição pela razão e compreensão do jogo político e social de um universo financeirizado, toma para si a figura de um assassino que potencializa suas realizações, dá expressão aos desejos de vingança e às soluções mágicas da violência, da fé cega e faca amolada, que significariam, para essa massa, a fuga do sistema, vitória sobre ele, conquista de força pessoal e coletiva.

Mas tudo que se produz a partir desse herói imerso em complexo de inferioridade é o caos, a anarquia.

Me pareceu que a conclusão do filme é óbvia: dar poder ao povo significará caos irremediável. A miséria que existe é responsabilidade apenas dos próprios miseráveis, mentalmente incapazes e psicologicamente destruídos por uma fusão de ignorância total e desejos irrealizáveis.

Ao imergir na cultura das massas, chega-se à conclusão que o mais perigoso para a sociedade é render-se à demagogia da assimilação dos conceitos do homem comum para melhor feitura e conclusão de um Estado capaz de atender a todos, não apenas àqueles que, em termos darwinistas sociais mais bem dotados, tomam o poder nas mãos, e isso é posto como absolutamente legítimo.

O que é a falta de poder do Coringa se não inadaptabilidade social derivada de males psicológicos derivados não dos conflitos de classe e poder, mas apenas de relações afetivas instáveis e marcadas pelo pendor à esquizofrenia?

Me parece bem estranho que pessoas “de esquerda” tomem o Coringa como símbolo para uma revolta consequente das massas. O que o filme apresenta é justo o posto: ressentidos cuja arma revolucionária é apenas a violência direcionada genericamente aos “ricos”, sem que compreendam qualquer coisa acerca do tecido social construído por determinado modo de produção.

O Coringa representa, isso sim, os bolsomínions, o cara ignorante, violento, preconceituoso, que emerge das massas como expressão do obscurantismo essencial das mentes imersas nas piores patologias. A massa o acolhe como herói, um homem antissistema, despolitizado, que vence como símbolo da estupidez coletiva empoderada.

Funciona, assim, como um aviso contra lideranças políticas “populistas”. E nesse balaio cabe, prioritariamente, quaisquer lideranças políticas de esquerda, jamais os tecnocratas do liberalismo econômico.

Funciona como imagens reveladoras da degradação dos povos, sob única responsabilidade… deles mesmos. São as cartas marcadas de sempre: ou o povo é conduzido por déspotas esclarecidos, ou cria um despotismo próprio, o fascismo, elegendo um líder carismático e pondo-o a serviço de sua irracionalidade patológica.

Não serve como expressão de revolta legítima contra um sistema político e econômico que condena as massas à pobreza e à miséria, mas o inverso: como tal revolta apenas expõe uma massa de ressentidos cuja fúria leva tão somente à perseguição, tortura e morte dos inimigos, designados apenas como “os ricos”.

Diante disso, “chama o Batman”.

E isso é muito pouco. E certamente demais para ter ganho um Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

 

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone

Se minhas resenhas são exemplos de jornalismo gonzo, esta talvez bata meus recordes no estilo. Eu conheço Clara Corleone faz algum tempo. Leio seus textos nas redes sociais e gosto deles. Certa vez, tivemos uma dessas tretas de internet — tenho problemas reais com textos que possam levar a linchamentos virtuais — e certamente seríamos inimigozinhos se Clara não fosse tão generosa ao iniciar um papo meio bobo inbox, semanas após a confusão. Agradeço muito a ela, que tem a enorme sabedoria de não cultivar bobagens, pois eu exagerei feio na crítica. Mas fazer o quê? Ela me mostrou o caminho e eu fui. O cômico é que algumas pessoas arregalam os olhos quando digo que estamos de boas, que conversamos, que já tive a honra de participar do sarau literário que ela mantém, que uma de suas irmãs trabalhou na Bamboletras, etc. Bem, espero que ela tenha notado que não sou totalmente escroto…

O homem infelizmente tem que acabar é uma coletânea revisada das melhores crônicas de Clara. A primeira questão seria examinar se os textos suportariam a passagem para o formato livro ou se tornariam um saco vazio. Não, o papel lhes caiu muito bem.

Os temas são conhecidos de quem a lê: o sexo — início (abordagem), meio (convivência) e fim (separações) –, o feminismo, as diversas formas de assédio, o medo, o amor, com sua poesia e sacanagem, o machismo circundante e a sorte de ter uma família calorosa e sensacional, tudo pontuado com muita música e sarcasmo.

Clara não faz grandes teses, mas dá exemplos e exemplos a respeito de como (sobre)vive uma mulher solteira e sexualmente ativa numa cidade como Porto Alegre. Olha, não é fácil, não há paz nem para passear com as cachorras no bairro Bom Fim. Eu nunca assobiei ou chamei mulher de gostosa na rua, mas é óbvio que me reconheci em algumas posturas de machismo mais sutil. Só que também comemorei. Não sou 100% tosco.

Mas sabe o que é bom mesmo no livro? A autora. Ela é uma jovem na primeira metade dos 30 anos que gosta do melhor cinema, da melhor música brasileira e que sabe misturar sua enorme cultura e bom gosto em narrativas do dia a dia. Como deve ter uma jukebox em permanente funcionamento na cabeça, Clara também tem o costume de surpreender, integrando perfeitamente letras de canções em meio aos textos. O bom humor é onipresente e ele torna a crítica mais potente. Clara não tem nada do estereótipo da feminista mal-humorada — provavelmente criado por nós, homens — e está rindo e nos ridicularizando, mesmo que aprecie nosso instrumental. E os textos poéticos sobre o amor são excelentes.

Como não sou um leitor em busca de teses e penso que a ficção e os casos bem contados arranham mais a realidade do que os ensaios, gostei muito de O homem infelizmente tem que acabar. O título? Ora, leia o livro que você entenderá. Tem que acabar mesmo.

Clara Corleone em seu sarau no von Teese | Foto: Carolina Disegna

Imagens cruzadas durante ‘O Messias’ de Händel na Igreja das Dores

Imagens cruzadas durante ‘O Messias’ de Händel na Igreja das Dores

Eu estava assistindo ao Messias de Händel na Igreja das Dores com uma série de amigos. Quando olhei para trás, vi Elena sentada na lateral do confessionário ao lado de Jonatha Arruda.

Foto: Milton Ribeiro

Ela me viu.

Foto: Milton Ribeiro

Ao meu lado, a Cláu Paranhos me fotografava com Marisa Monte — na verdade Marina Vilaça — em primeiro plano.

Foto: Cláu Paranhos

O Jonatha também fotografou a mim e à Elena.

Foto: Jonatha Arruda

Na nossa frente, estava o Mateus Rosada, mais conhecido pelo apelido de Bisnaga.

Foto: Elena Romanov

Ele é um talentoso arquiteto e desenhista e, enquanto ouvia  música, registrava a Igreja.

Desenho de Mateus Rosada

E, no celular da Lia Maria de Medeiros, apareceu isto…

Saiba porque a obra-prima de Scorsese ficará apenas duas semanas em Porto Alegre

Saiba porque a obra-prima de Scorsese ficará apenas duas semanas em Porto Alegre

A Netflix não se importa muito com o antigo modelo de negócios cinematográfico, ela quer é ver seus assinantes felizes e adimplentes. Então, com produção da Netflix, ao custo de US$ 159 milhões, O Irlandês terá somente 2 semanas em cartaz nos cinemas — li em vários lugares que seria apenas uma, mas o Guion confirma duas. Em Porto Alegre, como disse, ele está no Guion Cinemas com exclusividade porque as grandes redes não aceitaram as exigências da Netflix.

E isso ocorrerá no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 65 salas exibirão o filme. No Brasil, serão 19 salas espalhadas por 15 cidades a partir do dia 14 de novembro. E fim. É claro que a Netflix está mais interessada em promover seu streaming do que as salas de cinema trabalhadas pelas produtoras tradicionais. Mas também está de olho nos prêmios como o Oscar. Então, temos uma pequena chance na tela grande.

O Irlandês narra mais uma uma saga de Scorsese sobre o crime organizado nos Estados Unidos pós-guerra. Contado através da perspectiva do veterano da Segunda Guerra Mundial Frank Sheeran, um assassino profissional que trabalhou ao lado de algumas das personalidades mais marcantes do século 20, o filme aborda o desaparecimento do lendário líder sindical Jimmy Hoffa – e se transforma em uma jornada pelos corredores do crime organizado, com seus mecanismos, leis, rivalidades e associações políticas.

O filme é baseado no livro O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia, de Charles Brandt. O livro tem um sugestivo título original: I Heard You Paint Houses, que é uma expressão do submundo do crime dos Estados Unidos, que significa “pintar casas”, melhor dizendo, significa matar, uma gíria derivada do sangue que espirra dos corpos e das cabeças nas paredes contra as quais os mortos se chocam após o impacto dos tiros.

Scorsese fez seus filmes recentes, incluindo O Lobo de Wall Street e O Aviador, na Paramount. Se tivesse feito O Irlandês em um estúdio tradicional de Hollywood, tudo teria transcorrido normalmente, e seria provável que ele aparecesse em um cinema perto de você. Mas a Paramount não se interessou, por causa do orçamento robusto de um filme que abrange décadas.

A Netflix foi a única empresa disposta a assumir o risco do projeto — um filme com ritmo lento de três horas e meia de duração, que conta a história de como o crime organizado se interligou ao movimento trabalhista e ao governo nos Estados Unidos ao longo do século passado.

“A Netflix está recusando uma quantia significativa de dinheiro”, disse irritado John Fithian, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas. “Pense em Os Infiltrados, de 2006. O filme arrecadou US$ 300 milhões em todo o mundo. Garantiu o Oscar de melhor diretor a Scorsese. Ganhou a estatueta de melhor filme. Ficou muito tempo nos cinemas e rendeu uma tonelada de dinheiro. Por que a Netflix não gostaria de gerar receita com isso antes de ir para o streaming? Ele ainda ficaria exclusivo na Netflix”. Ué, mas a Paramount quis esses 300 milhões, né? E quem aceitou investir tem suas regras, não?

Então, como a Netflix quer atrair mais e mais assinantes, daqui a alguns dias o único lugar em que você poderá vê-lo é em casa. Paciência. Pois é claro que o lugar dele é mas telonas.

Mais uma coisa: dizem que a grande cena do filme ocorre só aos 45 min do segundo tempo.

Foto: Divulgação

Lula vai percorrer o Brasil

Lula vai percorrer o Brasil. Vai falar com líderes internacionais. Vai às praias sujas de petróleo do nordeste (um absurdo que Boçalnato nem foi olhar!). Vai falar sobre o desmonte do estado patrocinado por Paulo Guedes. Vai mostrar o plano de Guedes para nos tornar uma colônia dos EUA — o cara é um singelo baba-ovo anos 70. Vai falar da estagnação econômica. Vai comparar. Vai mostrar, com sua oratória brilhante — e não sou lulista –, que Boçal é burro demais. Vai ver Macron e dar beijos em Cristina e Alberto Fernandez. Se a Frente Ampla ganhar no Uruguai, ele vai visitar.

E nós vamos nos foder com este Congresso de baixo nível que os boçalnaristas colocaram lá. (Religião e direita é o mesmo que intolerância e autoritarismo). E a tendência é uma grande explosão. Mas eu vou parar de me preocupar e amar a bomba, porque os estúpidos eleitores de Boçalnato merecem isso mesmo.

E eu vou dizer que prefiro o 6 x 5 ao 7 x 1 deles, bando de trouxas amantes de milicianos. E meu sonho de Pollyanna é que seja instalada inteligência artificial nos eleitores do Bozo. E que, enquanto eles não receberem esse acréscimo, que fiquem quietos, dormindo, sonhando com o AI-5. E fim.

P.S. — E os boçalnaristas nem poderão reclamar muito do STF, pois este colegiado é que está garantindo a não prisão dos filhos de Bolso — que são os verdadeiros Irmãos Petralha. Quem leu Tio Patinhas na infância sabe disso.

P. P. S. — E quem mandou matar Marielle?

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (apêndice)

~ Curiosidades ~

A venda da alma

Sabe-se que Bulgákov foi muitas vezes ao Bolshoi para ver e ouvir a ópera Fausto, de Charles Gounod. Esta ópera sempre o animava, ele voltava feliz para casa. Mas, um dia, Bulgákov voltou do teatro em estado muito sombrio. Ele tinha começado a escrever sua peça sobre Stálin, Batumi. Bulgákov reconheceu-se na imagem de Fausto. Como escrevemos acima, a peça jamais foi concluída por ter sido indiretamente reprovada por Stálin.

Personagem desaparecido

Em 1937, nos 100 anos de aniversário da morte de Pushkin, vários autores apresentaram peças dedicadas ao poeta. Entre elas, havia uma de Bulgákov. Alexander Pushkin distinguia-se das obras de outros autores pela ausência do personagem principal. Bulgákov acreditava que a aparição do homenageado no palco tornaria tudo vulgar e insípido. Sua peça foi considerada a melhor daquele ano.

Tesouro

No romance A Guarda Branca, Bulgákov descreveu com bastante precisão a casa em que morara em Kiev. Lá, haveria um tesouro. Os novos proprietários da casa quase a derrubaram, quebrando paredes ao tentar encontrar o dinheiro descrito no romance. É óbvio que não encontraram nada e ainda ficaram irritados com o escritor.

História de Woland

Woland recebeu seu nome a partir do Fausto de Goethe. No Fausto, ele é citado apenas uma vez, quando Mefistófeles pede para que espíritos malignos abram espaço pois “O nobre Woland está chegando!” Em outros Faustos ele aparece como Faland ou Phaland. A primeira edição de O Mestre continha uma descrição detalhada (15 páginas manuscritas) de Woland. Esta descrição está perdida. Além disso, na versão inicial, Woland era chamado Astaroth (um dos demônios mais altos do inferno, de acordo com a demonologia ocidental). Mais tarde, Bulgákov o substituiu.

O protótipo de Behemoth

Em russo, diz-se Begemot. O ultrafamoso assistente de Woland tinha um protótipo real, só que este não era um gato, mas um cachorro: o grande cão preto de Bulgákov chamava-se Behemoth. Esse cachorro era muito inteligente. Uma vez, quando Bulgákov estava comemorando o Ano Novo com sua esposa, logo após o relógio de parede dar doze badaladas, o cachorro também latiu 12 vezes, embora ninguém lhe tivesse ensinado.

Memória

Desde os primeiros anos de vida, Bulgákov demonstrou possuir uma memória excepcional. Lia muito. Diz a lenda que ele leu tantas vezes o romance Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que o sabia de cor.

Coleção

Bulgákov tinha todos os ingressos de teatro — peças, ópera e concertos — a que compareceu.

Crítica soviética

O escritor também colecionava, coladas em um álbum, recortes de jornais e revistas com críticas de suas obras. Dava ênfase às mais devastadoramente hostis. De acordo com Bulgákov, ali havia 301 críticas negativas e apenas 3 elogiosas.

Defesa de Stanislavski

A primeira produção no Teatro de Arte de Moscou de Os Dias dos Turbin foi garantida por Konstantín Stanislavski. Ele simplesmente afirmou que, se a peça fosse banida, fecharia o teatro.

Stálin e Os Dias dos Turbin

Stálin gostava muito da peça e assistiu-a peça pelo menos 15 vezes, aplaudindo com entusiasmo desde o camarote destinado a membros do governo. Oito vezes ele desceu para falar com os artistas após a peça, a fim de incentivar a necessidade da luta política na literatura.

Escultura de Behemoth em Kiev | Wikimedia Commons

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (IV)

O herói, o Mestre, aparece aparece em apenas 5 capítulos. Surge no 13 (apenas na página 138), volta no 24 e nos três últimos capítulos do livro. Ao todo, temos 32 capítulos e um epílogo.

A estrutura do romance é construída sobre o princípio da existência de três mundos: o terrestre, o bíblico e o eterno. Este último é o elo entre os dois primeiros. E há uma coincidência de datas: a reunião na Lagoa do Patriarca e o interrogatório de Jesus ocorrem no mesmo dia do ano civil, próximo da Páscoa.

Há também uma conexão de composição entre os mundos, no romance eles estão entrelaçados. Os capítulos “antigos” são introduzidos de diferentes maneiras: um deles nos chega como uma história contada por Woland, outro como um sonho de Bezdômny e outro um trecho do romance do Mestre. Esses capítulos também são muito diferentes estilisticamente: é um estilo clássico, contido, as falas são mais formais, a sensação da realidade muda.

Há situações no romance que se repetem nos três mundos. Desse modo, Bulgakov procurou tornar óbvia a conexão dos tempos. Coincidências facilmente rastreadas como a descrição do clima — a tempestade que cai sobre Yershalaim e Moscou, por exemplo. “As trevas cobriam a cidade odiada pelo procurador. Pontes suspensas desapareceram; o abismo desceu do céu”. É assim que ele descreve o clima em Yershalaim: “A cidade desapareceu – uma grande cidade, como se não existisse no mundo. ” Esta é a paisagem do começo do capítulo 25. E o final do capítulo 29: “… Essa escuridão, que veio do oeste, cobriu uma cidade enorme. Pontes e palácios desapareceram. Tudo se foi, como se nunca tivesse existido no mundo”. Moscou.

Não é de admirar que o romance seja chamado de fantástico, satírico, filosófico e de amor. Todos estes temas são desenvolvidos na novela, enquadrando e sublinhando a ideia principal – a luta entre o bem e o mal.

O tema satírico é o show de Woland. Enlouquecidos pela riqueza material, o público, representantes da elite sedentos de dinheiro, os truques de Koroviev e Behemoth, descrevem de maneira clara e a sociedade moscovita.

O tema do amor está incorporado no mestre e em Margarida e dá ao romance ternura, suavizando muitos momentos agudos. Importante notar que Bukgákov queimou a primeira versão do romance, onde Margarida e o mestre ainda não estavam.

O tema da empatia percorre todo o romance e mostra várias opções para empatia ela. Pilatos simpatiza com o filósofo errante Yeshua, mas, envolvido em seus deveres, “lava as mãos”. Margarida tem uma simpatia diferente — ela simpatiza com todo o coração, tanto pelo mestre quanto por Frida no baile. Mas sua simpatia não é apenas um sentimento, ela a leva a certas ações, ela não cruza as mãos e luta pela salvação daqueles por quem está preocupada.

Os tópicos filosóficos sobre o significado e o propósito da vida, sobre o bem e o mal, sobre os motivos bíblicos por muitos anos têm sido objeto de debate e estudo de escritores. Isso ocorre porque O Mestre e Margarida, a cada leitura, abre diante do leitor mais e mais novas perguntas e pensamentos.

A ideia inicial do romance é a luta entre o bem e o mal. E não apenas no contexto da luta, mas também na busca de definição. O que é realmente mal? O leitor está acostumado ao fato de que o diabo é puro mal, e ficará sinceramente surpreso com a imagem de Woland. Ele não pratica o mal, contempla e pune aqueles que agem baixo. Sua turnê em Moscou apenas confirma essa ideia. Ele parece parte do bem. Ele mostra as doenças morais da sociedade, mas nem as condena, mas apenas suspira tristemente: “As pessoas são como pessoas… são as mesmas de antes”. O homem é fraco em seu poder de resistir e de combater suas fraquezas.

O tema do bem e do mal é ambiguamente mostrado na imagem de Pôncio Pilatos. Ele se opõe à execução de Yeshua, mas não tem coragem de ir contra a multidão.

A análise “O Mestre e Margarita” implica imersão nos mundos recriados pelo escritor. Aqui você pode ver os motivos bíblicos e os paralelos com o imortal Fausto de Goethe. Os temas da novela são desenvolvidos separadamente e coexistindo, criando juntos uma rede de eventos e perguntas. São vários mundos, cada um encontrando seu próprio lugar no romance. Não é de todo surpreendente uma viagem da moderna Moscou à antiga Yershalaim, as conversas sábias de Woland, uma gata falante e o voo de Margarida.