Ciático

Pela primeira vez estou com a tal terrível dor no ciático que tantas vezes ouvi meus amigos descreverem para eu achar graça. Estou com dificuldades para levantar de cadeiras e camas e também para mexer os quadris. Ainda bem que não tenho compromissos importantes nos próximos dias. Imaginem se eu tivesse uma Noite de Núpcias pela frente, algo assim, sei lá.

Porto Alegre

Você trabalha com cultura e sai de casa otimista. No caminho, vê todo o tipo de lixo, lixo literal, sujeira, cheiro ruim, muita coisa seca e orgânica espalhada em torno das lixeiras da prefeitura. Isso sem contar os cocôs dos quais vai desviando na calçada. Depois, ao chegar ao trabalho, fica sabendo que houve uma Marcha para Jesus em São Paulo. Sim, com a presença de Jair Bolsonaro e milhares de pessoas. Um sucesso. Ou seja, o cheiro das ruas é de Idade Média e a religiosidade também. Haja ânimo. Ao menos aqui dentro da Livraria Bamboletras dá para respirar.

Ingresia, de Franciel Cruz

Ingresia, de Franciel Cruz

A verdade, essa menina traquina que não salva nem liberta, é uma só: demorei a ler o livro de Franciel em razão das exigências descabidas do menino James Joyce e de seu Bloomsday. Estudar os 600 DEMÔNHOS que habitavam o SÓ DESGRÓRIAS do Leopold fizeram o tempo se dilatar. Quanto eu não sei porque não uso relógio.

Mas derivo ao tentar imitar, sem talento, o estilo de Franciel. Vamos ao livro. O seguinte é este: Ingresia (R$ 30, só a capa já vale mais, 258 páginas) são crônicas e mais crônicas uma melhor que a outra, todas muito bem escritas, todas em rigorosa forma franceliana — uma linguagem barroca e desbocada, irreverente e ateia, altamente pessoal, cheia de surpresas e beleza. Sim, beleza, esta fugidia menina. Tanto que às vezes temos que lê-las duas vezes por pensar que perdemos algo da forma no afã (recebam meu afã no peito) de não perdemos a linha do pensamento original e bêbado do autor que escrevia bêbado, mas editava sóbrio (beijinho no ombro, Hemingway).

Os temas são a cultura e o comportamento baianos — a Bahia, essa terra lambuzada de dendê e exclusão –, a política, o futebol e a imprensa de lá com suas figuras tão repulsivas e adoráveis — mais aquelas do que estas — quanto as nossas. Também adorei as crônicas que falam de música. Há igualmente os causos da infância e os problemas de Soterópolis (Salvador), que em tudo diferem dos nossos, não fosse a onipresente indiferença do poder público à população e o respeito aos grandes empresários. Ou seja, em nada diferem na origem.

Um excelente livro que RECOMENDO.

E mais não digo porque hoje é quarta-cheira véspera de feriado.

PUTAQUEPARIU A RESENHA!

Franciel Cruz na Feira Literária de Mucugê em agosto de 2018 | Foto: Lari Carinhanha / Fligê

No Uber, com um haitiano

No Uber, com um haitiano

Ontem, peguei um Uber com um haitiano. Logo notei que o sotaque me era estranho e ele me disse que sua língua preferencial era o francês.

— E o crioulo?

— O crioulo é a língua das ruas. O francês é a língua da escola, dos livros e dos documentos. Eu falava crioulo na rua, mas tudo o que escrevia e lia lá era em francês.

— São línguas parecidas?

— Sim. Bon jour, bon soir, quase tudo igual, mas o criolo tem algumas palavras diferentes, nossas.

— O francês é oficial?

— Sim. Somos um dos 2 países da América com língua oficial francesa. O outro é o Canadá.

Perguntei como ele aprendera o português.

— Em Manaus, com um professor angolano. Três meses de aula. Bom professor, mas com aquele sotaque e a fala rápida dos portugueses. Tinha que suar para acompanhar.

— E o clima em Manaus, é parecido com o do Haiti?

— Não. O Haiti tem o melhor clima do mundo. É seco e agradável. É dos poucos motivos de orgulho. O sol do Haiti é vitamina, o de Manaus é doença.

— Sim, minha mulher viveu 7 anos lá e concordaria. E como vieste parar em Porto Alegre?

— Meu filho conseguiu emprego aqui. Me ajudou a alugar este carro e estou dirigindo há 4 semanas, sem conhecer quase nada da cidade.

— E tu sente o racismo?

— Claro que sim. Brasileiro não é fácil. Me olham estranho. É difícil alguém sentar do meu lado como o senhor. E reclamam que eu não sei o caminho. Não sei mesmo. Ainda bem que tem o banco de trás, né?

E abriu enorme sorriso.

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(Boa sorte no Brasil, M., vais precisar. Detalhe: M. tem 4,66 na avaliação. Não sei se é merecido).

Foto de Porto Príncipe | Foto: Projeto 101 países

Bloomsday 2019 no Ling

Bloomsday 2019 no Ling

Boa tarde a todas e a todos!

Todo ano é a mesma coisa. Ainda bem.

Há controvérsias sobre o ano em que o Bloomsday começou a ser comemorado. Alguns indicam 1925 (três anos após o lançamento do livro); outros afirmam que foi na década de 1940, logo após a morte de Joyce. A hipótese mais aceita indica que foi em 1954, na data do quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulysses, o célebre 16 de junho de 1904.

O Instituto Ling, claro, não poderia ficar de fora.

Neste ano, temos aqui presentes Donaldo Schüler premiado escritor e também tradutor de livros como Finnegans Wake, de James Joyce, e da Odisseia, de Homero. Donlado é doutor em Letras e Livre-Docente pela UFRGS e pela PUCRS. Patrick Holloway é escritor e tradutor, possuindo doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS e mestrado pela Universidade de Glasgow. Seus contos e poemas foram publicados no Brasil, EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Irlanda.

Temos também a presença do ator Charles Dall’Agnol no papel de Leopold Bloom e da Banda Irish Fellas, quarteto de música tradicional irlandesa, formado pelos músicos Caetano Maschio Santos (violino, banjo, flautas e voz), Alexandre Alles (teclado), Renato Muller (gaita-ponto e voz) e Kelvin Venturin (bódhran e voz).

Contrastando com tudo isso, no papel de patinho feio, há eu, Milton Ribeiro, jornalista, critico literário e proprietário da Livraria Bamboletras.

Mas iniciaremos passando a palavra ao representante do Consulado da Irlanda em Porto Alegre. Por favor, Mr. Jill Henneberry.

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Bem, como jornalista, tenho o vício de contextualizar tudo.

O que é o Bloomsday?

Bloomsday é o dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista de Ulysses, de James Joyce. Em todo o mundo, é o único dia dedicado a um personagem de um livro.

O Bloomsday é comemorado no mundo inteiro, em várias línguas. É comum que pessoas — de atores profissionais a amadores — vistam-se a rigor e refaçam cenas vividas pelos personagens de Ulysses por Dublin.

Como ele foi traduzido no Brasil?

No Brasil, temos três traduções do livro. A de Antônio Houaiss, de 1966, a de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, e a de Caetano Galindo, de 2012. De forma complementar, o mesmo Galindo escreveu Sim, eu quero sim — Uma Visita Guiada ao Ulysses de Joyce.

O guia de Galindo se justifica. Ulysses é um livro difícil, que assusta e afasta muita gente.

Mas o que há nestas mais de mil páginas?

Como disse, tudo se passa num só dia, das 8h da manhã às 2h da madrugada do dia 17.

São 18 capítulos, cada um com aproximadamente uma hora de ação.

Cada um escrito em uma técnica narrativa diferente.

Cada um deles sendo uma paródia de um episódio da Odisseia de Homero.

(Há correspondência entre personagens da Odisseia e de Ulysses — Leopold Bloom seria Ulysses; Molly Bloom, Penélope; Stephen Dedalus, Telêmaco).

Cada capítulo faz referência a uma ciência ou ramo do conhecimento.

Em cada um, uma parte do corpo humano é alçada a símbolo.

Em todos os capítulos há uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas, como escreveu o professor de literatura Idelber Avelar.

Nestas 18 horas, Leopold Bloom tem aventuras mais ou menos análogas às do herói Ulysses: ele encontra sereias, ciclopes, feiticeiras, enfrenta a ira dos deuses e consegue retornar ileso para casa. Mas em Ulysses as figuras mitológicas são substituídas por pessoas de Dublin. As batalhas épicas acabam acontecendo dentro de fatos e diálogos de um dia comum em Dublin.

A primeira versão integral foi editada na França, em 1922, depois que editoras americanas e britânicas evitaram a publicação por considerar o original pornográfico. A Justiça dos EUA só permitiu a publicação integral em 1933. A Inglaterra, só em 1936. A razão é que os personagens falam como pessoas comuns, há fluxo de consciência, então a vida interior deles está exposta, com franqueza e muitos palavrões.

E quem é Bloom?

Quando conhecemos Leopold Bloom, ele está fazendo café da manhã para sua esposa e falando carinhosamente com um gato. Se você passasse por ele na rua, talvez nem o notasse. Sua vida exterior é circunscrita pelas ruas de Dublin e pelas exigências de uma carreira modesta. Apesar da falta de perspectivas, ele parece estar à vontade com suas próprias sombras e contradições. Ele aceita o mundo e sente prazer nas menores coisas. Conheceu a tragédia — o suicídio de seu pai, a morte de seu filho recém-nascido — e conheceu a alegria, como marido de Molly e pai de Milly. Ele ama animais, abomina a violência e aceita o fato de que sua esposa está transando com outro. Esta última parte lhe causa dor, mas ele aprendeu há muito tempo que o mundo é maior do que sua dor e a posse não faz parte de sua compreensão do amor.

Bloom também é filho de um imigrante judeu e, portanto, Joyce fugiu da escolha óbvia de criar um herói típico. Bloom é Dublin, seus amigos gostam muito dele, mas ele é um mistério. Em suas mentes, ele é passivo e “feminino”. E todos sabem que sua esposa está tendo um caso. O que está errado com ele? Que tipo de homem é esse?

Ulysses é um livro quase sem enredo e Joyce ufanava-se disso. Naquele dia, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia pelas margens do Liffey; Leopold Bloom, vendedor, não muito atormentado pelas repetidas traições de Molly, sua mulher, toma café da manhã, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto seu amigo Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a uma carta, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando Gerty MacDowell, encontra-se com Dedalus, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa. Ambos urinam no jardim. Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia.

Ou erotismo. Pois talvez a pornografia seja apenas o erotismo dos outros, não? Enfim.

Por que o livro foi proibido e censurado à princípio?

Salman Rushdie escreveu em seu ensaio The Short Story: “É muito comum que o que é pornográfico para uma geração, seja clássico para a seguinte”. A frase parece perfeita aqui. Enquanto a censura do início do século XX considerava o texto imoral e inadequado, ele agora oferece para nós um quadro riquíssimo para a exploração e análise da sexualidade de personagens extremamente bem construídos.

Há coisas bem estranhas no Ulysses, principalmente para os contemporâneos de 1922.

Por exemplo, a Penélope de Joyce é Molly Bloom. Se a personagem de Homero esperava o retorno de seu Ulysses fielmente, embora assediada por pretendentes – sempre tão gentis, como diria Chico Buarque –, Molly não aguarda. Bloom, apesar de saber das traições de Molly com Blazes Boylan, não pretende lavar sua honra com sangue.

Assassinato nunca, visto que dois erros não se tornam um acerto.”

A propósito, o adultério de Molly nada tem a ver com o de Capitu. Não pairam dúvidas a respeito. Bloom sabe e a própria Molly, em seu longo monólogo final de 8o páginas sem pontuação, rememora com algum detalhe os acontecimentos eróticos da tarde.

Um trecho de Ulysses (Cap. 17, Ítaca):

“Cada um que entra na cama imagina ser o primeiro a entrar nela, enquanto que é sempre o último termo de uma série precedente mesmo e o primeiro de uma outra subsequente, cada um imaginando ser primeiro, último, único e só, enquanto que não é nem primeiro nem último nem único nem só.”

Bloom não se comporta tipicamente como um homem da virada do século como o  casal Molly e Leopold, está inteiramente fora dos estereótipos da virada do século XIX para o XX, que definem a masculinidade como agressiva e dominadora e a feminilidade como passiva e reservada. Bloom é muitas vezes chamado de homem feminil. Molly é decidida e toma todas as iniciativas, inclusive foi ela quem o beijou pela primeira vez.

Bloom não deseja impedir o adultério de Molly com Blazes Boylan. Ele chega a imaginar uma cena na qual entrega sua esposa. Essencialmente, ele permite a infidelidade da esposa para que esta possa experimentar o prazer enquanto ele procura a sua própria e particular satisfação.

Enquanto Ulysses lutava para voltar para sua Penélope, Bloom enrola e faz tempo na rua para não cruzar com Boylan em sua casa.

Como disse, Bloom prepara o café para Molly, arruma a cama, tem sentimentos de empatia para com a mulher grávida, preocupa-se com situação da filha, morre de saudades do filho morto, têm fantasias de que está grávido. Mais: Bloom sente-se inconformado e invejoso pela centralidade da mulher no processo dar à luz.

Seis semanas antes de seu filho Rudy nascer, é visto comprando uma lata de alimento infantil, comprovação — para seus amigos — que ele não é bem um homem. Pior: s amigos dizem que ele, uma vez por mês, fica com dor de cabeça “como uma franguinha menstruada”.

Para finalizar, digo-lhes que Ulysses é puro colorido, vivacidade e energia verbal. As pessoas não são sutis ou elegantes. Não há nada mais lindo do que Bloom se masturbando na frente de Gerty MacDowell e Molly explodindo em sua insônia, nada mais frágil do que o não-machista Bloom comprando fraldas. Nada lembro de nada literariamente mais brilhante do que Joyce fazendo pouco dos padres. Não há pose, pompa, grandiosidade, apenas um enorme amor pelo humano. Na minha opinião, é uma alegria que tal livro seja o único que mereceu um feriado até hoje. Isto fala bem de nós.

.oOo.

Este foi o esboço do meu roteiro. Na verdade, eu entremeei os parágrafos com várias perguntas ao Donaldo e ao Patrick, assim como com chamadas à excelente banda Irish Fellas. Tivemos belos momentos durante o Bloomsday do Instituto Ling. Concordamos, discordamos, ouvimos música irlandesa e tivemos a presença ‘in loco’ do próprio Leopold Bloom.

Com a minha autoestima tão retardada quanto meu cérebro, só hoje, pensando retrospectivamente, concluí que fizemos um belo trabalho juntos. Comandados pela Maira Ritter, o grupo que falou, cantou e atuou foi formado por mestre Donaldo Schüler, Charles Dall’Agnol, Patch Holloway, Irish Fellas, pela representante do Consulado da Irlanda Jill Henneberry e por mim. Ah, jamais esquecer das participações da Aurora, filha do Patrick (Patch Holloway), que aprendeu a caminhar faz uma semana e que parece estar gostando muito disso.

Com Gustavo Ventura Gomes, a Livraria Bamboletras também se fez presente com edições de ‘Ulysses’ e de ‘Sim, eu digo sim’ de Caetano W. Galindo.

E viva Joyce! Viva Ulysses! Vivam Molly e Leopold Bloom!

Fotos: Elena Romanov.

cinecittà

cinecittà

Por Eduardo Mello (*)

paira sempre sagrada saia

tremulam
no centro storico de roma
as bandeiras italiana
europeia
as saias
do mundo todo

a rotina da chegada ao novo posto, à nova vida: caixa postal e área de trabalho, idioma, identidade, amigos. apresentar-se ao embaixador e iniciar a burocracia da instalação, procurar apartamento e pensar em fixar mais uma vez, ancora una volta, os quadros e memórias na parede. recuerdo do curso diplomacia no clube de cultura, a principal dúvida de uma colega sobre a carreira diplomática: como fica a mobília?!

já não podemos morar onde bem entendemos, no azalai de bissau ou numa colina de santiago, mas onde a logística escolar permitir. começam as aulas das gurias, os aniversários, mães e pais de coleguinhas, os primeiros amigos quem nos dá são elas

endereço provisório via savoia 3, piano terra. a poucas quadras da porta pia, de michelangelo, na muralha aureliana que circunda as sete colinas de roma desde 275 anno domini. ali os bersaglieri furaram o bloqueio, abriram a breccia que selou a vitória sobre os estados papais e a unificação italiana, em 20 de setembro de 1870

35 anos depois, ali mesmo, na noite de 20 de setembro de 1905, a primeira grande projeção de um filme na cidade, la presa di roma (‘a tomada de roma’), de alberini. a céu aberto, a contar o episódio culminante do risorgimento, in loco. dez minutos de duração, um longa-metragem para os padrões da época

olhar forasteiro, sguardo di turista. andar à noite tranquilamente, um pouco como brasília, não muito como porto alegre. restaurantes em toda parte, ir de bus ou tram pro colégio, cine, cines de bairro, em poucos metros quadrados o histórico savoy, o europa, o mignon, com casais idosos saindo de braços dados passada meia-noite

não há alarme, guarita, snipers. nem eclusas e clausuras. eclusas. têm origem na segurança dos castelos medievais e na atualidade são usadas na segurança privada. eclusas: sistema de controle constituído por dois acessos e um espaço confinado

não há, mas a professora de natação das gurias não entende por que estamos aqui. ‘saíram daquele país lindo pra vir pra cá? trabalho? por quê?’ falou de emprego, custo de vida, meritocracia, no mesmo tom que o cabeleireiro, também branco, ele mora na praia e vem de trem. ao menos há trem, tentei ponderar

meses depois, show da built to spill no largo venue, região tipo cidade baixa. a banda de abertura é suíça, o vocalista pergunta como está a vida em roma. ante os resmungos da plateia, o cara diz ‘é, i know, zurique também é uma merda’

na via salaria, perto da via savoia, um africano aborda quem saca dinheiro no caixa eletrônico da calçada, depois dança em frente ao espelho de uma loja, aparentemente em transe. a uma quadra da piazza navona, entre as bandeiras e as saias, mulheres portam um cartaz, we came from syria and . na quadra seguinte, na esquina do descolado restobar friends, um africano negro puro me aborda desesperado, vim da líbia e estou com fome, please help please help me

won’t you please, please help meee? help! canta lommucia na garupa da bici a caminho da escola, em meio ao parque da villa borghese. ela se diz triste ‘porque dois dos beatles já morreram’. ontem mesmo viu um cidadão revirando um contêiner de lixo e retirando um pé de tênis sem cadarço

olha, mamãe!
que legal!
aquele moço
encontrou o sapato
que ele tinha perdido!

Foto: arquivo pessoal do autor

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(*) Eduardo Brigidi de Mello, diplomata, publicou ‘Brisas de Bissau’ (2015). O texto representa tão-somente a percepção do autor.

Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 3 x 1 Bahia)

Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 3 x 1 Bahia)

Evitei escrever após Vasco 2 x 1 Inter. Estava muito irritado. Tu, Odair, não és um bom técnico. Precisarias de alguém para dialogar, mesmo durante as partidas. Ontem mesmo, em nossa vitória contra o Bahia, fizeste substituições erradas, chamaste os baianos para nosso campo e eles podiam ter empatado. Contra o Vasco, então, nem se fala: a escalação de Parede para marcar o lateral de um time que é o lanterna do Brasileiro foi uma piada. E deixaste a bola para o Vasco, quando tínhamos que ter tomado a iniciativa. Perdemos 3 pontos que todos os líderes vão ganhar.

O primeiro gol do Inter, marcado por Lindoso, foi BEM duvidoso. | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional.

Melhor dialogar com alguém da comissão técnica a fazer bobagens. Ontem, Roger te deu um baile tático e vencemos em razão das individualidades que felizmente possuímos. Brincar com a sorte contra times melhores pode ser complicado.

O grande destaque de ontem foi novamente D`Alessandro. Jogou demais. Lindoso foi efetivamente uma bela contratação. Também Patrick entrou muito bem.  Fez toda a jogada para o gol de Dale, quando o jogo ficou perigoso com a colocação de Fernandão ao lado direito, atacando diretamente Uendel, sem uma reação tua, Odair.

Neste momento, com a 9ª rodada longe de seu final, estamos em 4º lugar com 16 pontos. Se não fosse tuas duas patacoadas fora de casa, se tivéssemos vencido a Chapecoense e o Vasco, teríamos 22 pontos e seríamos líderes. Só isso, Odair.

Bom descanso. Pense num auxiliar técnico que te fale ao coração. Assim como estamos acabaremos multi-eliminados em julho. Leia esta verdade que salva e liberta.

Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

Hoje é o Dia dos Namorados e eu tenho a melhor de todas, desculpem.

Um amigo me dizia que a beleza dói. Doeu fundo quando eu vi a Elena pela primeira, segunda, terceira vezes. Dói de vez em quando ainda.

Meu pai dizia que há pessoas cuja inteligência é tanta que parece que lhes vai derramar pelos olhos. É o caso.

Eu digo que há vozes que se acomodam no ouvido da gente e que a gente não se incomoda jamais com elas. É o caso.

E só no dia de hoje soube o real significado da palavra “borogodó”. Tomem de relho na paleta, pois ela significa “atrativo pessoal irresistível”. E ela foi usada para referir-se a Elena. E não por mim.

Vocês sabem que eu sou um pobre diabo — então, o que sobra para mim?

Ora, dizer a ela como ela é (pois a moça insiste em ser modesta e em sempre me olhar como dissesse absurdos), pensar na minha incrível sorte, fazer carinho, café, arrumar a cama, lavar a louça, passar o aspirador na casa, acompanhá-la. Daqui a pouco vou buscá-la porque está ensaiando.

Como deixar minha namorada cheia de borogodó aí sozinha pela rua?

Perdidos na tradução: as mais incríveis traduções de títulos de filmes no Brasil

Perdidos na tradução: as mais incríveis traduções de títulos de filmes no Brasil

Há uma piada de português que conta que o nome de Psicose, de Alfred Hitchcock, em Portugal, é O filho que também era mãe.

Gente, foi piada, tá?

No Brasil não chegamos a tanto, mas há coisas inacreditáveis. Inspirado e copiando alguma coisa da Revista Bula, procurei por aí e fiz uma seleção das traduções mais absurdas para meus sete leitores. Se quiserem acrescentar mais traduções do gênero, usem os comentários.

— Annie Hall — Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

— Lost in Translation — Encontros e Desencontros (2003)

— Rebel Without a Cause — Juventude Transviada (1955)

— Teen Wolf — O Garoto do Futuro (1985)

— The Hangover — Se beber, não case (2009)

— Hidden Figures — Estrelas Além do Tempo (2017)

— Breakfast at Tiffany’s — Bonequinha de Luxo (1961)

— Revolutionary Road — Foi apenas um sonho (2008)

— Persona — Quando duas mulheres pecam (1966)

— Angel’s Heart — Coração Satânico (1987)

— The Sound of Music — A Noviça Rebelde (1965)

— Nowhere Boy — O garoto de Liverpool (2009)

— Jack and Jill — Cada um tem a gêmea que merece (2011)

— Meet the Parents — Entrando numa fria (2000)

— Blue Valentine — Namorados para Sempre (2010)

— The apartment — Se meu apartamento falasse (1960)

— The sweetest thing — Tudo para ficar com ele (2002)

— Parenthood — O tiro que não saiu pela culatra (1989)

— The Godfather — O Poderoso Chefão (1972)

— All about Eve — A Malvada (1951)

— Giant — Assim caminha a humanidade (1956)

— The Cable Guy — O Pentelho (1996)

— Vertigo — Um corpo que cai (1958)

— Brewster McCloud — Voar é com os pássaros (1970)

— McCabe & Mrs. Miller — Onde os homens são homens (1971)

— August Rush — O Som do Coração (2007)

— The Good, the Bad and the Ugly — Três Homens em Conflito (1966)

— The Wild Bunch — Meu Ódio será tua Herança (1969)

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

Mariana Enríquez: “Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King”

A autora de As coisas que perdemos no fogo e Este es el mar e participará do Segundo Encontro de Literatura Fantástica, em Santiago e Punta Arenas.

Por Javier GarcíaNo Culto — Suplemento Cultural do jornal La Tercera (Santiago, Chile)

Foto: Divulgação

Em meados de maio, Mariana Enríquez (46) viajou para um festival de escritores em Praga, República Tcheca. A autora argentina aproveitou para frequentar os lugares onde predominam cruzes e flores. “Fui ao antigo cemitério judeu e ao novo cemitério judeu onde fica Kafka”, conta ao telefone de Buenos Aires.

Renomada romancista, elogiado especialmente por suas histórias de horror, entre suas últimas publicações está Alguien camina sobre tu tumba, publicado pelo selo Montacerdos no Chile, em 2018. O volume é um conjunto de crônicas de cemitérios, localizados na Argentina, Peru, Cuba, França, Itália e Estados Unidos.

No final do volume há um epílogo que nomeia os cemitérios “que eu quero ver antes de morrer”. Um deles é chamado Kutná Hora. “É muito interessante, é cerca de 30 quilômetros de Praga, onde o Ossuário de Sedlec é, é uma igreja onde toda a sua decoração é feita de ossos. Mas desta vez eu não pude ir por tempo. Haverá uma nova oportunidade”, diz Enríquez, que está visitando o Chile esta semana.

Autora de títulos como As coisas que perdemos no fogo (2016) participará do II Encontro de Literatura Fantástica. Organizado pela Faculdade de Letras da Universidade Católica, terá palestras e leituras entre amanhã e sábado 8 de junho, em Santiago e Punta Arenas.

Como surgiu o interesse pelos cemitérios?

Eu sempre gostei deles. Em geral, tenho uma tendência estética para coisas um pouco macabras, literatura e filmes de terror. Mas decidi escrever com meus diários e dados sobre cemitérios, acho que tem a ver com a história de um amigo. Sua mãe estava desaparecida pela ditadura argentina e ele recuperou seus ossos e foi capaz de enterrar sua mãe. Então comecei a perceber que o meu fascínio por tumbas e cemitérios tem muito a ver com a minha história e a história da Argentina.

Você participou do livro de ensaios The King, bienvebido al universo de Stephen King (2019) …

O editor me perguntou. King é um autor extremamente popular e ainda não tem o reconhecimento literário que deveria ter. Ele é um dos melhores escritores no momento. Eu escolhi escrever sobre mulheres no trabalho de King. Nesse sentido, ele é muito corajoso, quebra essa regra desajeitada que um homem não pode escrever sobre as mulheres. E ele faz isso muito bem, como Annie Wilkies, a protagonista de Misery.

Para a academia, ele não é um autor altamente valorizado…

Eu acho que nunca receberia o Prêmio Nobel, mas é injusto. Eu daria o Prêmio Nobel a Stephen King. A qualidade literária é algo difícil de determinar. King escreve em vários gêneros, terror, polícia, fantasia… No twitter, ele está sempre recomendando livros. Ele é um homem que vive da literatura e que ensinou a ler uma geração. Lembro-me de quando a garota lia suas epígrafes, onde nomeava outros escritores. Eu construí um guia de leitura a partir dele.

A literatura faz dieta e perde páginas

A literatura faz dieta e perde páginas

Relatos revelam um corte significativo na extensão dos romances durante a última década, em razão de novos hábitos de leitura

Traduzido rapidamente por mim — Fonte: El País

Estande na Feira do Livro de Madri | Foto: Jaime Villanueva

Uma mesa cheia de livros à espera de atenção. A pilha tornou-se uma coluna que continua crescendo em número e em angústia. Talvez seja a sala de um leitor, mas é também a imagem que ilustra a capa da nova edição da revista The New Yorker. O sufoco do casal, em sua cama, parece ter uma explicação na superprodução de novidades, na falta de tempo para lê-las e no surgimento de novos inimigos que competem para manter seu limitado tempo livre.

Número médio de páginas dos livros lançados nesta década

Na Espanha, o ISBN (a agência que cataloga os livros geridos pela Federação de Editores do país) descobriu uma tendência que poderia estar ligada a um movimento contra o hábito da leitura. Os editores produzem livros cada vez mais curtos. Na última década, o número de títulos lançados cresceu, mas vieram com menos páginas: a média foi, em 2017, 243 páginas na categoria ficção e poesia. Em 2009, a extensão média era 265 páginas. 20 páginas foram cortadas, de acordo com as estatísticas do cadastro que audita o setor editorial. O segmento da ficção já tem 50,8% de livros de menos de 200 páginas. Uma década atrás, eles eram 46,3%. Nós examinamos detalhes e vimos que em 2017 foram publicados 6.573 títulos com uma extensão entre 101 e 200 páginas; 3.740, entre 201 a 300 páginas; 3.816, de 301 a 500; e 1.078 de 501 a 1.000 páginas. Em 2011 houve uma recuperação, devido à superprodução de notícias (ver gráfico).

Quase 70% dos títulos de literatura são publicados por pequenos e médios editores. Luis Solano é o editor do Libros del Asteroide e reconhece ter detectado a tendência de livros mais curtos. “Eu acho que as razões são claras. Por um lado, o tempo disponível dos leitores é mais escasso do que dez anos atrás. É evidente que o entretenimento digital (da TV às redes sociais, WhatsApp, YouTube, Netflix ou outras ferramentas de comunicação) reduz o tempo de leitura, portanto, os livros que propomos devem ser melhores ou mais curtos”.

O tamanho importa

O mundo e a leitura offline adaptam suas formas à constante mobilidade das pessoas, à fragmentação dos tempos cotidianos e à multiplicação de ofertas. Por isso, ao escolher livros, reconhece Solano, os editores levam em conta que a proliferação do digital diminuiu a atenção dos leitores. “Eu não pretendo descartar os livros grandes, mas o tamanho é um fator que tem mais peso do que há alguns anos”, diz ele. Ele acredita que os autores sabem disso e se esforçam em livros que captem imediatamente a atenção do leitor, o que os compensará pelo tempo de leitura.

Raquel Vicedo, editora da Pepitas de Calabaza e sócia da livraria Cervantes y Compañía (Madri), reconhece que tem dificuldade para se dedicar a livros de mais de 250 páginas. “Se não é uma obra de arte, não vale a pena. Há muitos livros bons para serem lidos”, explica ela. Ela descreve um panorama avassalador, um mercado saturado de livreiros e leitores, incapaz de assumir o lançamento incessante de novidades. “Nestes tempos, os escritores devem nos encorajar a projetos mais curtos. É necessária muita vontade para romances longos. Mais vontade do que dinheiro”, diz a autora Lara Moreno, que acaba de publicar o livro de poemas Eu tinha uma gaiola (La Bella Varsovia). Ela, que trabalhou na editora Caballo de Troya por um ano, aponta outro fato importante: o tempo de leitura dos editores. Ela diz que os editores não gostam de analisar livros de mais de 500 páginas, só para saberem se vale a pena.

A escritora Elvira Navarro — também ex-editora do Caballo de Troya — concorda com Lara Moreno. “Talvez o fator mais importante seja a mudança de percepção da temporalidade que vivemos. Afeta a leitura e a escrita. Os tempos aceleraram e, embora no romance de entretenimento o número de páginas tenha crescido, devemos ter em mente que seus ritmos internos são rápidos. Eles são lidos em pequenos trechos”, diz Navarro. A redução de páginas também acontece em livros de ciências sociais e humanas, talvez, como diz o autor de A Ilha dos Coelhos (Random House), porque nos acostumamos a “um conhecimento parcial e superficial”. Remedios Zafra concorda com o livro Como lemos na sociedade digital?, da Fundação Telefónica, que identifica a precariedade da leitura. Na rede, flui entre a abundância, onde a leitura acontece mais pela impressão do que pela concentração.

O editor do Impedimenta, Enrique Redel, observa que “os leitores estão cada vez mais relutantes a livros volumosos. A tendência está aí. Acho que é parte de uma mudança estrutural gradual no consumo cultural, nada de novo, que afete o tempo dedicado a esse consumo”. Como Solano, Redel aponta que o tempo é limitado e que a competição é “poderosa”, entre séries, redes sociais, conteúdo online, música ou jogos. “O livro define os tempos, exige atenção total e maior envolvimento. Isso não está na moda, então o conteúdo é diluído para ser mais digerível”, acrescenta Redel, que não acredita que um leitor contumaz sofra deste problema, mas acha que o restante hesita entre um tipo de conteúdo e outro.

17 minutos de leitura por dia

O único estudo que aponta o tempo que os espanhóis dedicam à leitura foi realizado pela Comunidade de Madrid e acaba de ser publicado. Este garante que o povo de Madrid lê 10 horas por semana. Cada vez mais se lê fora de casa, como no metrô, onde 33%das pessoas leem em viagens de cerca de 40 minutos. Um recente estudo do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) perguntou aos entrevistados o quanto liam. A resposta foi de dois a quatro livros por ano. Outros estudos, como o da Federação de Editores da Espanha, afirmam que são uma dúzia. Os leitores diários espanhóis são apenas 32%. 40% dos espanhóis dizem que não leem nada é porque não têm tempo. Os relatórios provenientes dos EUA são mais desanimadores, porque falam de uma queda de 19% no tempo de leitura por dia. Em 15 anos, ele baixou para 17 minutos.

Mulheres são mais felizes sem filhos ou cônjuge, diz especialista em felicidade

Mulheres são mais felizes sem filhos ou cônjuge, diz especialista em felicidade

O cientista comportamental Paul Dolan diz que os indicadores tradicionais de sucesso não se aplicam mais

No The Guardian
Tradução fuleira deste blogueiro

Mulheres solteiras e sem filhos nunca estiveram tão bem, de acordo com a pesquisa de Paul Dolan | Foto: Sky / The Guardian

Era uma suspeita, mas agora a ciência garante: mulheres solteiras e sem filhos são o subgrupo mais feliz da população. E elas são propensas a viverem mais do que as mulheres casadas ​​e com filhos, de acordo com um dos principais especialistas ingleses em felicidade.

O professor de ciência comportamental da London School of Economics, Paul Dolan, disse que as evidências mais recentes mostram que os indicadores tradicionais usados ​​para medir o sucesso não se relacionam mais com a felicidade — particularmente nos itens casamento e a criação de filhos.

“Temos alguns bons dados longitudinais seguindo as mesmas pessoas ao longo do tempo, e podemos dizer: se você é homem, você provavelmente deveria se casar; se você é uma mulher, não se apresse”.

Os homens se beneficiam no casamento porque “se acalmam”, disse ele. “Correm menos riscos, ganham mais dinheiro no trabalho e vivem um pouco mais. Elas, por outro lado, têm que lidar com isso e morrem mais cedo do que se permanecessem solteiras. Em média, o subgrupo mais saudável e feliz da população são o das mulheres que nunca se casaram ou tiveram filhos”, disse ele.

O livro mais recente de Dolan, Happy Ever After, cita evidências do American Time Use Survey (ATUS), que comparou os níveis de prazer e insatisfação em indivíduos solteiros, casados, divorciados, separados e viúvos.

Outros estudos mediram alguns benefícios financeiros e de saúde em homens e mulheres casados. Para estes, podem ser atribuído a maiores rendas e apoio emocional, permitindo que pessoas casadas corram menos riscos e procurem maior ajuda médica.

No quesito saúde, Dolan disse que os homens têm mais benefícios para a saúde ao casarem, já que assumem menos riscos. Já a saúde das mulheres não foi afetada pelo casamento.

Apesar dos benefícios de um estilo de vida solteiro e sem filhos para as mulheres, Dolan disse que a narrativa existente de que casamento e filhos eram sinais de sucesso era um equívoco e que este estigma errado poderia levar algumas mulheres solteiras ao casamento e a se sentirem infelizes.

E completa: “Você vê uma mulher solteira de 40 anos, que nunca teve filhos…” Isso é uma vergonha, não é? Talvez um dia ela conheça o cara certo e mudará para melhor. Ou não, talvez ela conheça o cara errado que a fará menos feliz e saudável e morra mais cedo”.

Bom dia, Odair Hellmann (com os principais lances de Inter 2 x 0 Avaí)

Bom dia, Odair Hellmann (com os principais lances de Inter 2 x 0 Avaí)

O Avaí entrou em campo como 19º colocado no Brasileiro. Claro que entrou fechado, buscando um empate ou uma vitória num contra-ataque. O Inter estava em 10º podendo subir muito com uma vitória.

Grandes atuações de Edenílson e Dale, com golaço marcado pelo primeiro após bela jogada coletiva | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Como quase sempre acontece conosco, no primeiro tempo não conseguimos furar a defesa dos homens do 50º estado norte-americano e, pior, tomávamos contra-ataques. A vida de um colorado é difícil. Eram 18 min e eu já pensava na injeção de ânimo que deveria ser dada apenas no intervalo. Complicado iniciar o jogo e querer que o primeiro tempo logo acabe. Isto foge da definição de diversão e entretenimento. E, com efeito, o Inter está muito mais para sofrimento do que para festas.

De novo ficou clara a má fase em que submergiu Nico López, nota dez em esforço e zero em inspiração. Já Nonato errava demais, perdendo bolas fáceis. Eram 30 minutos e não tínhamos chutado a gol. Se o goleiro do Avaí fosse eu, o placar seria o mesmo.

Lá pelos 40 min, houve pênalti em Lindoso. A TV mostrou claramente, mas o juiz não deu. Vou lhes contar. O juiz nem foi olhar o VAR.

A verdade é que o Inter não conseguiu se impor em todo o primeiro tempo. E o adversário era o Avaí…

Como o previsto, após a palavra (ou os gritos) do vestiário, voltamos bem melhores no segundo tempo. Aos 6, Nonato perdeu um gol incrível. E abrimos o placar logo depois da entrada de Sarrafiore no lugar de Zeca. Guerrero marcou. Como é bom ter centroavante!

A participação de Guerrero em todas as partidas tem sido esplêndida. A bola é passada a ele, mesmo às vezes alta e sem jeito, e o peruano a disputa de verdade com os zagueiros. Não tem aquele negócio de pular só para constar como fazem tantos de seus falsos pares. Ele tenta matar a bola ou dar o passe e normalmente consegue, mesmo tendo menos corpo. Além disso, é hábil, chuta e cabeceia bem. Trata-se de nossa melhor contratação em anos.

Jogando bem, marcamos mais um em uma obra-prima de  feitura coletiva — Dale, Sarrafiore, Parede e Edenílson — e poderíamos ter ampliado.

Pra que tanto sofrimento?

Com o resultado, chegamos aos 13 pontos, ficando na 5ª colocação na tabela, além de manter 100% de aproveitamento dentro do Beira-Rio. Antes da parada para a Copa América, ainda temos dois jogos: sexta-feira contra lanterna Vasco da Gama, em São Januário — local onde costumamos nos enrolar ou sermos roubados como no ano passado — e o Bahia, na quarta-feira seguinte, em Porto Alegre. E atenção: estaremos sem Guerrero, que estará servindo à seleção peruana na Copa América.

Os melhores lances começam aos 45 segundos do vídeo abaixo:

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Atrás do balcão da Bamboletras (XIII) — A visita de Dostoiévski (II)

Mas tenho mais fatos a narrar sobre a visita de Dostoiévski à Livraria Bamboletras, durante o lançamento do Ingresia de Franciel Cruz.

Apresentei-lhe ao célebre escritor um livro de seu conterrâneo e contemporâneo Tolstói, Anna Kariênina. Ele olhou, risonho porém visivelmente contrafeito, e disse:

— Ah, um Tolstói qualquer.

Notei que ele tinha achado minha atitude ofensiva e tentei consertar a situação dizendo que, imagina, atropelada por um trem, muito melhor uma machadinha ou um bom parricídio — já pensou que maravilha se acontecesse em Brasília, Dostô? –, mas como ele não reagia, reclamei das considerações agrícolas de Liêvin, louvei o príncipe Míchkin e o niilista Kirílov e fui saindo de fininho antes que ele jogasse em mim aquele copo de cerveja.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Atrás do balcão da Bamboletras (XII) — A visita de Dostoiévski (I)

Na última sexta-feira, durante o evento de lançamento do Ingresia, de Franciel Cruz, recebemos Dostoiévski na Livraria Bamboletras.

De posse da bela tradução direto do russo do Crime e Castigo da todavia — feita pelo grande Rubens Figueiredo –, eu lhe explicava como eram as traduções antigas de seus livros. Elas nos chegavam todas de segunda mão, a partir de traduções francesas. Parece que não havia ninguém que conhecesse russo no Brasil. Enquanto isso, ele, um eslavófilo furioso, 100% anti-francês, me olhava com aquela cara de quem tá louco pra pegar uma machadinha.

(Com Bruno Pommer e Milton Ribeiro).
(Fotos: Rômulo Arbo).


Hilary Hahn: por que eu preciso de dois Vuillaumes

Hilary Hahn: por que eu preciso de dois Vuillaumes

É difícil compará-los. Eu tive experiências muito diferentes com cada um deles em diferentes momentos da minha vida. O de 1864 não parece mais tão natural para tocar. Algo mudou ao longo dos anos e eu não mudei na mesma direção. O instrumento foi numa direção e eu noutra. É um violino poderoso, mas… O de 1865 é melhor para mim nos dias de hoje. É ágil e forte, responde às nuances mais sutis, move-se comigo. É como uma extensão de mim mesma. Essa diferença pode ser psicológica; acho até que é mesmo psicológica. Nossa relação com o instrumento é tão complexa quanto uma relação interpessoal.

cinecittà

cinecittà

Por Eduardo Mello (*)

fala, milton! nem te conto estive no mesmo mesmíssimo hotel onde pisou eva green
aquela vênus pós-moderna cuja ausência no ‘porque hoje é sábado’ eu ia já criticar
mas vá lá, admito: te subestimei a propósito, chegamos a roma

mais uma partida de brasília pra nós, a primeira pras gurias. esta é fácil, elas pouco lembrarão, mas daqui pra frente… perdas de turmas e paixões irão pra minha conta, e mais do que nunca precisarei destes papeis de carta

lennucia não faz ideia, tem pouco menos de dois anos de idade. lommucia, aos quatro, entende mais ou menos. dá abraço apertado numa amiga, ao fim do último ato na escola cabo frio. pequeno balé, animado por um violão que dá melodia ao bucolismo solar de brasília. as professoras perguntam se ela voltará para visitá-las, ela grita de longe, natural, puxando a mochila, ‘não seei!! mas todo mundo tá dizendo que vai me visitar em roma!’

damos a última volta de bicicleta pelas ciclovias verdes da asa norte, embalamos objetos e lampejos. passamos em porto alegre para mais despedidas, lommucia entra em campo com o tricolor na arena, canta o hino nacional no gramado; lennucia passa a gritar ‘grêmio’ quando vê a bandeira do brasil – e vice-versa

cada escala nesse porto é um nó, sempre foi. a passagem do tempo no rosto de mãe e pai dói mais, quando vista em longos intervalos. irmão e irmã emigraram, o que nunca é bom sinal – além de dificultar a logística. restam os amigos, pontos turísticos sempre presentes, sobretudo do passado

tudo passa, com a decolagem. logo estamos em montmartre, as gurias abandonam a mesa e dançam no café des deux moulins, fingem que já falam francês com bom jur pra cá, bom soar pra lá. temem o urso empalhado do museu de história natural com a mesma convicção que creem na sereia que nada no aquarium. o hotel de senlis parece familiar, e de fato é: set d‘os sonhadores’ do bertolucci – e da eva green.

viajam de trem pela primeira vez. de paris a roma, o único carro que lhes atrai é o carrossel. de avignon, arles, nîmes, orange, ‘olhem, por aqui passaram os romanos, da cidade onde vamos morar’. não temos chance de teatro (muito menos de noite), mas as vemos correr e banhar-se nas fontes dançantes da place masséna de nice, correr até o róseo mergulho no mar do entardecer mediterrâneo

neste mesmo mar, nesta mesma hora, lá do outro lado, outras crianças fazem travessias de vida ou morte ainda não sei como explicarei a elas nem isso, nem os militares com fuzis de assalto que fazem a segurança na promenade des anglais – onde outras crianças foram assassinadas há pouco. perto disso, responder perguntas sobre sexo será barbada

não é uma sensação facilmente definida, definível, esta. partir do brasil, a representar este mesmo brasil, em período tão conturbado ao redor do mundo. atentados espocam no noticiário, em meio a nosso idílio familiar, antes, muito antes de elas começarem a desconfiar que não são mais personagens de desenho animado, que nem todos, nem todas veem o mundo com a canção fraterna de brunori sas

io vedo il mondo solo secondo me / e scrivo al mondo solo secondo me /
chissà com’è invece il mondo / visto da te

tanta coisa acontecendo, e elas só se preocupam em correr até o lanche no vagão-restaurante, subir e descer de trens, gritar, infernizar até a última escala antes do nosso próximo set. em milão, estranham o ‘ciao’ no lugar do oi, participam de atividade no ‘museo dei bambini’, onde começam a aprender italiano à força

chegamos a roma num domingo do mês de agosto, das férias e da cidade vazia mostrada, em 1962, no clássico ‘il sorpasso’

chove um pouco, vejo esse monte de malas, carrinho de bebê, fraldas a trocar, e lembro dos primeiros passos em brasília-08, bissau-10, santiago-12, brasília-14, tudo de novo

eram outras expectativas nenhuma maior do que a sensação de chegar com elas
na cidade que será também pra nós eterna

Foto: Eduardo Mello

.oOo.

(*) Eduardo Brigidi de Mello é diplomata e o texto representa tão-somente a visão do autor.

Bom dia, Odair (com os lances de Paysandu 0 x 1 Inter)

Bom dia, Odair (com os lances de Paysandu 0 x 1 Inter)

Que vida dura. O Pottker nem saiu do Inter e o Odair já inventou o Parede, que errou tudo o que tentou. Tudo. Que cara ruim. Mas é outro atacante que marca, o que apaixona treinadores medrosos como tu, Odair.

Guerrero, a maior contratação do Inter dos últimos anos | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

E Dale, Sarrafiore e Neílton sentadinhos no banco. Vou lhes contar…

Foi uma espécie de jogo-treino mais forte que o normal. O Paysandu só ameaçou o Inter em alguns momentos da primeira metade do segundo tempo, o resto foi de certo domínio do Inter e enrolação.

Guerrero marcou um golaço no primeiro tempo, mas infelizmente Nico López — que tinha lhe passado a bola — estava impedido.

No final da partida, Guerrero marcou novamente. E valeu. D`Alessandro está com uma vida complicada. Recebe do Lindoso, toca pro Sarrafiore e corre para abraçar o Guerrero. Chato, né?

Guerrero é um diferencial e tanto. Que baita jogador, que tremendo centroavante.

E a volância do Inter é um luxo só. Sai DOURADO e entra LINDOSO.

Chega de bobagens. Foi um jogo fácil, nem serviu como teste dada a fraqueza do adversário.

Pelo Brasileiro, o Inter (7º, 10 pontos) terá desfalques contra o Avaí (19º, 3 pontos em 3 empates), domingo (2), às 19h, no Beira-Rio: Rodrigo Moledo, Rodrigo Dourado e Iago. Paolo Guerrero fará seu último jogo antes de se apresentar ao Peru para a Copa América.

Os melhores lances começam aos 30 segundos do vídeo abaixo.

Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

Alguns pitacos sobre o Prêmio Camões concedido a Chico Buarque

1. Acho difícil comparar a situação atual com aquela do Nobel dado a Bob Dylan. O Nobel não ficou maior entregando seu prêmio de Literatura para Dylan, diria até que ficou menor. Já o Camões — que muitos desconheciam — ficou maior ao chamar Chico Buarque.

2. Sabemos que este prêmios muitas vezes são geopolíticos. Vários Nobéis foram dados a escritores menores porque estes faziam oposição a governos absurdos. Assim, a distinção para Chico Buarque chega para chamar a atenção das pessoas para o país, além de incomodar os fascistas ou ignorantes que elegeram um iletrado que, logo após a chegada ao poder, extinguiu o Ministério da Cultura como se fosse um penduricalho inútil.

3. Caberia também acrescentar que Chico sempre teve posições políticas claras, nada lisas ou duvidosas.

4. Chico é um representante importante da cultura nacional que está sendo atacada. Passou a vida entre Drummond, Bandeira, Vinícius, João Cabral, Tom Jobim e um monte de gente que o influenciou. Parece que João Cabral recebeu o Camões, mas mesmo assim vale a observação. Temos alguém mais importante?

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

5. Li quase todos os livros de Chico. ‘Budapeste’ é excelente e ‘Leite Derramado’ é muito bom. E ele não faz o óbvio. Seus livros não são “para vender” por carregarem um autor conhecido. São originais e são literatura.

6. Como este governo precisa ver seus inimigos no chão, a ridícula ministra Damares, ao exibir para deputados, em tom crítico, num telão, algumas imagens de Lula, Marighella, etc., mostrou uma foto de Chico e disse, quando apareceu uma foto de Chico: “Eu acho que esse é um cantor, né?”. Ou seja, até a débil sentiu o golpe.

7. Interessa mesmo saber se o prêmio foi para o músico, para o autor ou para a figura pública? Talvez seja para o homem que transita como poucos entre o erudito e o popular, não?

8. Para finalizar, voltando a Dylan e às provocações: “E quem há de negar que Chico lhe é superior?”.