Os discursos de Fidel Castro e Thomas Bernhard

Castro

Em certa época da ditadura militar brasileira, eu era da Engenharia da Ufrgs, mas frequentava mais o pessoal, as festas e as reuniões das humanas. Zanzava pelos Diretórios Acadêmicos onde volta e meia era marcada uma sessão de cinema em que era apresentado um discurso de Fidel Castro. Quase sempre acabava assistindo. Gostava deles. Era coisa para ser apresentada no início de uma noite ou num fim de semana, pois via de regra duravam mais de quatro horas. A data e a hora das apresentações dos filmes eram secretas, mas todo mundo sabia. Assisti a vários deles, alguns divididos em dois turnos. Lembro de pouca coisa e não sei se ainda concordaria com eles, o que sei é que ele era um extraordinário orador. Era complicado até de ir ao banheiro. Tudo parecia muito importante. Um dia comecei a pensar na estrutura daqueles textos falados. A primeira conclusão a que cheguei foi a de que eles eram indissociáveis do ator. Castro era notavelmente carismático e sabia como seduzir com pausas e alterações de tom e dinâmica. E havia seu rosto, muitas vezes com expressões irônicas. Tudo o que ele dizia adquiria caráter mítico. Quando conheci Thomas Bernhard, fiquei surpreso não somente com seu discurso de ódio contra a sociedade, mas com a estrutura encadeada de sua prosa, algo parecida com a de Fidel, mas funcionando esplendidamente por escrito. Não dá para falar de avanço em espiral porque ambos voltam a pontos anteriores do discurso e uma espiral sempre avança tontamente por lugares onde não passou. Era mais uma sequência minimalista de variações que avançam de tal forma que muitas vezes a frase atual era uma variação da anterior, mas se ouvíssemos a décima oração anterior, ela já seria totalmente diferente da atual. Ou não era assim. Eram como as de um professor que avança duas casas no jogo de seu discurso e volta uma para depois avançar mais duas novamente. Não sei porque lembrei disto agora. Talvez seja saudades da juventude; de ler, estudar, estagiar e ainda ganhar uns trocos dando aula; de, apesar desta super atividade, ter a eterna impressão de não estar fazendo nada. Ou saudades daqueles ambientes esfumaçados, ultra hiper ripongas, e daquelas meninas que iam lá assistir e que ficavam mudando de posição até encostar em nós. O que eu sabia é que estávamos fazendo tudo para atrapalhar a ditadura civil-militar e que eles tinham observadores — ratos — infiltrados entre nós. Tinham receio de nós e dos discursos de Fidel, que talvez os entediassem. O que Fidel falava era liso, sem fendas. Como o texto de Bernhard, suas falas tinham caráter repetitivo e exagerado, o que lhes garantia grande impacto (e eficiência nas queixas). Bernhard desconsidera a estrutura de parágrafos e creio que alguém que transcrevesse os discursos de Fidel não deveria repetir tal estratégia, pois ele fazia longas pausas. Em ambos os casos, há um desesperado adiamento do ponto final, pois o que vale é o encadeamento de orações subordinadas, como se o narrador tivesse a necessidade compulsiva de jamais abrir mão da palavra. Com Fidel, a bunda ficava quadrada, mas eu não me incomodava com o tamanho dos discursos nem lembro de gente dormindo. Sim, nem os ratos dormiam, então acho que não se entediavam. A fala de um e a escrita do outro eram impecáveis. Perdiam-se por ladeiras e ruelas mal frequentadas que só eram compreendidas quando apareciam lá na frente na avenida. Ou talvez não seja nada disso e o que tinham em comum fosse a tentativa de aniquilação de adversários ou de si mesmo — caso de Bernhard — através de palavras. Ah, e a soberba de ambos, arma que parecia mortal na mão destes dois Quixotes em ambientes hostis. E o fato de frases ditas aqui serem complementadas apenas bem adiante. Sei lá, só sei que toda vez que lia Bernhard lembrava de Fidel e que hoje, ao rever no YouTube um discurso de Fidel, ele não me fez lembrar em nada Bernhard. Nada, nem um pouco.

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Meu pitaco sobre a tal cena da manteiga entre Maria Schneider e Marlon Brando em ‘O Último Tango em Paris’

Em uma entrevista concedida ao Daily Mail em 2007, Maria Schneider falou do estupro que sofreu por parte de Marlon Brando em frente às câmeras de Bernardo Bertolucci para o filme O Último Tango em Paris. A cena faz parte da produção e o uso da manteiga foi decidido entre Bertolucci e Brando na manhã anterior à filmagem. Não houve consentimento por parte de Maria, uma menina de 19 anos que contracenava com um monstro do cinema e com um cineasta extremamente talentoso que já era autor de O Conformista e A Estratégia da Aranha. Quando sentiu o que Brando fazia, é óbvio que ela pensou num estupro real.

“Deveria ter chamado meu agente ou meu advogado para vir ao set porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não está no roteiro, mas, naquela época, eu não sabia disso. Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, embora o que Marlon fizesse não fosse real [não houve penetração], eu chorava de verdade. Senti-me humilhada e violentada por Marlon e Bertolucci. Pelo menos foi só uma tomada”.

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Engana-se quem pensa que, se não houve penetração, não houve estupro. Vale lembrar a definição do termo: “O crime de estupro é qualquer conduta, com emprego de violência ou grave ameaça, que atente contra a dignidade e a liberdade sexual de alguém”. O elemento mais importante para caracterizar esse crime é a ausência de consentimento. A lei brasileira, por exemplo, diz que não é preciso penetração para que o crime se caracterize como estupro.

A cena é polêmica desde o surgimento do filme. É a tal “cena da manteiga” e Bertolucci quis filmar de forma realista a reação de Schneider. Lembro que comentávamos a cena durante meu segundo grau no Colégio Júlio de Castilhos. Só que é indiscutível que houve violência e sadismo. Foi uma atitude deplorável. Uma atitude de dois estupradores famosos contra uma jovem de carreira ainda obscura.

Há anos conheço essa história e sempre quis que ela fosse mentira. Não é. Bertolucci e Brando levaram a um nível repulsivo a afirmativa de Hitchcock de que atores são gado. (Lembro de Bergman pedindo desculpas e mais desculpas a Gunnar Björnstrand antes de grudar uma vela acesa sobre a careca do ator, que ria). É incrível pensar que um dos maiores momentos do cinema — o monólogo de Brando ao lado do caixão da esposa suicida — esteja acompanhado da cena da manteiga e pelo que foi feito para que ela fosse filmada de forma “realista”. O pior é que Maria Schneider sempre será lembrada por este Último Tango, apesar de sua melhor atuação ter sido no esplêndido Profissão: Repórter, de Antonioni. Depois desse absurdo, ela não fez mais cenas de nudez.

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Me irrita especialmente, repito, o fato de que Bertolucci e Brando, “o maior ator do mundo”, serem dois artistas famosos e consagrados a pegarem uma menina que até ali devia estar feliz trabalhando com eles. Nojo total. Dizem que Maria jamais se recuperou do fato.

“Fui horrível com Maria, porque não lhe disse o que iria acontecer”, declarou o diretor na entrevista de 2013, e ainda completou que a intenção era que Schneider reagisse “como uma menina, não como uma atriz”. Bem… Contudo, Bertolucci nunca pediu desculpas para a Maria Schneider e até hoje afirma que sacrifícios precisam ser feitos em nome da arte.

Mas há limites, não?

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Fotografias de Helen Levitt (1913-2009)

Helen Levitt dedicava-se às ruas de Nova Iorque. Foi uma das grandes fotógrafas do século XX.

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Helen Levitt em 1963

Helen Levitt em 1963

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Realmente devia ser um inferno viver em Cuba sob Fidel

Imagens de ontem em Cuba. Como disse um comentarista abaixo, “Cuba é uma ilhota se comparada com seu todo poderoso vizinho. Mesmo assim possui índices melhores na saúde e na educação. Então, se quiserem criticar Cuba e Fidel, primeiro façam melhor”.

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Viagem ao redor do umbigo

Li no livro Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, a curiosa definição de Marguerite Duras sobre o ato de escrever: escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos. Dou-lhe inteira razão, mas há algumas pessoas, dentre as quais me incluo, que negam o que escrevem e raramente releem o que deixam escrito por aí. Nem este blog é relido por mim.

Hoje, dediquei algum tempo a reler uns posts antigos e surpreendi-me com o grande número de frases e expressões que revisaria ou cortaria. Há idiotices incríveis. Encontrava aqui uma ideia que deveria estar clara e não está; ali, uma frase horrenda; mais adiante, surpreendia-me comigo mesmo — eu escrevi isto, isto sou eu ou um personagem? Ou sou eu meu personagem? Acho que é o caso. Afinal, quando divagamos sobre nossas vidas, não estamos reescrevendo um livro com caracteres mais brilhantes ou não para depois recolocá-lo — capa dura ou brochura — em nossa memória, a fim de retirá-lo no momento seguinte com o objetivo de mais uma revisão, a mesma revisão que não faço aos duros caracteres do monitor? Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos.

Sonhar, de Almada Negreiros

Sonhar, de Almada Negreiros

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Porque hoje é sábado, o Milagre

Por delicadeza, por obediência,

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quase perdi minha vida.

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Vivia apenas metade dela,

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tudo era meia verdade.

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Meia verdade é como habitar meio quarto,

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ganhar meio salário.

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É como só ter direito

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à metade da vida.

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Num milagre, a uma metade juntou-se outra

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perfazendo um inteiro.

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Aquela parte que existia ganhou um corpo,

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e agora ela o observa.

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Brasília

Desenho à mão original de Nelson Moraes. Alguém usou ferramentes digitais a fim de mostrar a todos nós uma versão mais realista de Brasília. Podem roubar e distribuir à vontade. Falo da imagem.

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Um passeio poético pela Voluntários da Pátria

Fotos de Bernardo Jardim Ribeiro

Pautado para simplesmente caminhar pela cidade, o fotógrafo Bernardo Ribeiro escolheu percorrer a Voluntários da Pátria da estação rodoviária até a Ramiro Barcellos. A região pouco turística estranhou a presença do fotógrafo. Em certo momento, ele foi alvejado por uma maçã. Mesmo assim, o resultado foi excelente. São gatos em antiquários, carroceiros, mendigos, crianças e Papais Noéis…. Enfim, belas cristalizações do fugidio em Porto Alegre.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro / Sul21

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Cobertos de razão, torcedores colorados repudiam a declaração de Fernando Carvalho

NIKE SU13Eu já tinha escrito aqui neste blog que Fernando Carvalho era uma daquelas pessoas de alguma idade que não preservaram a inteligência. Disse e repeti. Acontece. Completo agora dizendo que ele deve ir para casa cuidar do netos, se os tiver e se os filhos permitirem. O que ele cometeu no dia de hoje já foi muito bem respondido pela ComudoInter e por minha amiga Elisa Piranema. Abaixo, copio os textos de meus amigos. Chega do Inter na 1ª Divisão, chega de fiascos. Vamos varrer esta diretoria nas eleições de dezembro. E adeus, Fernando Carvalho!

Também peço o encerramento do campeonato AGORA com a queda do Inter. Temos que repensar o clube.

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O Grupo do Facebook, ComudoInter divulgou uma carta de repúdio à declaração realizada ao Vice-presidente de futebol Fernando Carvalho, onde ele comparou o acidente com o avião da Chapecoense com o risco quase iminente de rebaixamento do Internacional.

Com diversas assinaturas, a carta dos torcedores pede o encerramento do campeonato mesmo que acarrete o rebaixamento do Internacional.

Leia na íntegra:

CARTA DE REPÚDIO ÀS DECLARAÇÕES DE FERNANDO CARVALHO

De: Torcedores colorados
Para: Torcedores de outros times, amantes do esporte, e acima de tudo seres humanos

É com um imenso pesar que nós, torcedores do Sport Club Internacional, repudiamos as declarações dadas pelo ex-presidente Colorado – o Sr. Fernando Chagas Carvalho – à Rádio Pampa na fatídica Terça-Feira, dia 29/11/2016, após o trágico acidente com o avião que transportava a equipe da Chapecoense, além de sua comissão técnica, comissários de bordo e jornalistas esportivos.

Outrora um presidente do qual nos orgulhávamos de um dia termos tido, por sua glória máxima de obter um título mundial, hoje nos envergonhamos por sua frase “Temos a nossa tragédia particular, que é fugir do rebaixamento (…) e esse adiamento de rodadas certamente será prejudicial”, que demonstra uma absurda falta de compaixão ao desprezar que nenhuma tragédia, única e exclusivamente futebolística – como ser rebaixado a uma série inferior –, se sobrepõe à tragédia ocorrida que acarretou a perda das vidas de pessoas, pais de famílias e profissionais dedicados.

Seria leviano ignorar a comoção global com tamanha catástrofe, de tal forma que compadecer-se da dor alheia não é demagogo, e sim empático. A sua dor, torcedor de Chapecó, é também a nossa dor. E a sua decepção com a declaração infeliz, é, também, a nossa decepção. Abaixo de vestirmos vermelho e branco somos também de carne e osso, e o que, esporadicamente, nos divide, é algo infinitamente menor quanto ao que nos une permanentemente: Somos seres humanos, e como tais, prezamos pelo bem estar de nossos semelhantes.

Acima de qualquer rivalidade, acima de qualquer disputa e acima de qualquer paixão a uma entidade futebolística, deve-se sempre existir o respeito. Respeito, este, que parece ser uma virtude desconhecida ao antigo dirigente, mas que acompanha a nós, torcedores do Internacional e verdadeiros representantes deste Clube do Povo.

Isto posto, nos manifestamos favoráveis ao encerramento do Campeonato Brasileiro sem a realização de sua rodada derradeira, cientes de que os resultados atuais acarretariam o descenso de nosso clube. Não há clima para futebol no que resta deste ano.

Por fim, a quem tenha se ofendido: Nosso imenso pedido de desculpas, tal declaração não representa a dor que também estamos sentindo.

Atenciosamente,
Torcedores colorados “

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A torcedora e minha amiga Elisa Del Pino Piranema publicou o que segue em seu perfil do Facebook. Ela também me representa.

Se já não bastasse todo o sofrimento que estamos vendo com a tragédia da Chape, tenho que ouvir um dirigente vir dar uma declaração NOJENTA E REVOLTANTE que o cidadão que é vice de futebol do Inter deu, pq me nego de hj em diante citar o nome dele.

Que moral tem essa criatura de falar uma coisa dessas se toda essa situação que estamos passando é culpa e muito dele por ter trazido o MAIOR DESAFETO DA TORCIDA COLORADA para nos treinar e se não bastasse insistir com ele mesmo vendo que o barco estava afundando.

Triste é ver um dirigente que já foi tão respeitado pelo Brasil inteiro, inclusive por mim, ter um fim tão decadente e patético.

Só tenho duas coisas a dizer: ESSE CIDADÃO NÃO REPRESENTA A MAIORIA DA TORCIDA COLORADA e peço desculpas às 75 FAMÍLIAS que perderam seus entes queridos por ter que ouvir e ler uma coisa dessas.

Triste é ver que tem pessoas que diante de uma tragédia dessas, consiga ainda pensar só no seu umbigo e sua reputação, pouco se lixando para os seres humanos que partiram de uma forma tão trágica.

Desculpe o desabafo mas numa hora dessas o que menos importa é se vamos cair ou não, pq a VIDA É MAIOR QUE TUDO E QUE TODOS.

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Ontem foi o pior dos dias: nunca fomos tão rapidamente do luto à baixeza

Ontem foi o pior dos dias. Primeiro, houve a tragédia com o time da Chapecoense, vitimando jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas do excelente, simpático e organizado clube catarinense. Só se falava nisso, a comoção foi mundial. Pois enquanto todos os olhos estavam voltados para a Colômbia, enquanto a Rede Globo botava o país para chorar com edições de alta temperatura emocional, ratos de todas as espécies — deputados gaúchos, deputados federais e senadores, todos juntos, ao mesmo tempo — aproveitaram-se para deitar e rolar.

Foda-se o povo | Foto: Gisele Arthur

A brilhante foto-resumo: foda-se o povo | Foto: Gisele Arthur

Na verdade, a maioria dos políticos brasileiros está como na foto acima: lixando-se para as consequências sociais de seus atos. Eles trabalham apenas para seus patrões financiadores de campanhas e para suas igrejas. Porém, infelizmente, são os legítimos representantes do povo brasileiro, um povo sem o menor grau de informação, idiotizado pela propaganda e bovinizado pelos meios de comunicação dominantes.

A desonra do que fizeram ontem a Assembleia Legislativa do RS, o Congresso Nacional e o Senado, dificilmente será superada. Mesmo assim, a imensa maioria do povo brasileiro ainda não entendeu que os atuais donos do poder são meros estafetas de grandes empresários que ganham muito, mas muito com eles.

Tais testas-de-ferro querem reduzir um estado que não dá o mínimo de saúde, educação e segurança. A intenção é de privatizar o que der, sempre em causa própria e na de seus patrões. O que pensar do Ministro da Saúde Ricardo Barros, um engenheiro civil que teve sua campanha financiada por um dos principais operadores de planos de saúde do país? O que ele tentará fazer? Você já sabe, vai reduzir os gastos e o atendimento do SUS. Quem se rala? Os mais pobres, a maioria, justo aqueles que votaram nos deputados de propagandas mais ostensivas e nos evangélicos do Congresso.

Não tenho mais dúvidas sobre a necessidade das ruas. E elas se tornarão mais e mais violentas. Lamento, mas creio ser necessário. Temos em Brasília uma quadrilha governando para si e procurando anistiar-se de seus próprios crimes. Imaginem que a Câmara dos Deputados, também ontem, rejeitou a criação do crime de enriquecimento ilícito de servidores públicos. A noite de 29 para 30 de novembro de 2016 jamais será esquecida pelos servidores que recebem propina. Foi uma noite de liberação!

Mas ainda maior repercussão terá a PEC 55, aprovada ontem em primeiro turno no Senado e que corta investimentos sociais por 20 anos, jogando muita gente na absoluta falta de saúde e educação. Tal PEC é uma encomenda de certos empresários financiadores de campanhas. Estes são os piores inimigos do povo brasileiro. E devem ser tratados como tais.

Curiosamente, as manifestações de 2013 começaram pedindo mais investimentos em serviços públicos e no combate à corrupção. Ontem, o Congresso respondeu impondo severos limites a ambos.

Como escrevi, acho que temos que ir mais e mais para as ruas. Meus parabéns aos estudantes que ontem foram a Brasília. Estamos nas mãos de ministros corruptos, senadores corruptos, deputados corruptos, juristas corruptos. E as grandes emissoras de TV e rádio, comprometidas com o lamaçal, ainda vêm dizer que se trata de vândalos, que democracia não é baderna. Que a baderna aumente! Infelizmente, é o momento da Grande Baderna.

P.S. — Peço desculpas pelo texto (muito) irritado, inteiramente fora da linha habitual do blog.

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Apartamento de Bulgákov em Moscou vai virar museu

Em processo de restauração, espaço já abrigou primeira mostra este ano. Museu permanente irá expor objetos do escritor, entre eles fotos e escrivaninha.

Da Gazeta Russa

Mostra "Manuscritos não queimam" foi a primeira de novo museu Foto: Agência Moskva

Mostra “Manuscritos não queimam” foi a primeira de novo museu Foto: Agência Moskva

O apartamento em Moscou onde o autor Mikhail Bulgákov viveu nos anos 1920 e 1930 e escreveu sua obra mais conhecida, “O Mestre e Margarita”, será reaberto em breve como museu, anunciou o diretor do espaço, Peter Mansilla-Cruz.

A decisão de reutilizar o apartamento como galeria foi feita em dezembro de 2015, e uma pequena exposição-teste foi realizada em maio deste ano.

“Pequena e muito íntima, [a mostra] ficou em cartaz por 10 dias. Trouxemos um exemplar da primeira edição de ‘O Mestre e Margarita’ e alguns itens importantes de sua parafernália. Foi um anúncio do futuro deste espaço como um museu”, disse Mansilla-Cruz à Gazeta Russa.

Manuscrito exibido na exposição em maio Foto: Agência Moskva

Manuscrito exibido na exposição em maio Foto: Agência Moskva

O apartamento, descrito no livro “Um Coração de Cachorro”, está localizado na rua Bolsháia Pirogóvskaia, 35a (próximo às estações de metrô Sportívnaia e Frúnzenskaia).

“A casa onde Bulgákov viveu e trabalhou é um memorial de nossa herança cultural”, disse o diretor, “por trás da fachada há uma mansão do século 19 que foi reconstruída de cima a baixo na época soviética. O apartamento foi ocupado por serviços administrativos e usado como depósito, por isso está conveniente gasto. Também sofreu mudanças internas – o arco que conduzia ao famoso escritório foi recoberto com tijolo.”

O desenvolvimento do conceito do museu e a restauração continuarão ao longo de 2017, mas Mansilla-Cruz adianta que o memorial irá exibir a escrivaninha de Bulgákov e outros artefatos.

“Felizmente, muitas de suas fotos da época foram preservadas, todos esses detalhes podem ser restaurados”, acrescentou o diretor.

Moscou já possui um espaço dedicado ao escritor, o Museu Estatal Bulgákov, que está localizado na rua Bolsháia Sadôvaia, 10 (perto do metrô Maiakóvskaia), no endereço onde Woland e sua trupe viviam em “O Mestre e Margarita”. Este museu organiza excursões por Moscou apresentando locais ligados a Bulgákov.

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Se liga, meu amigo: Sul21 lança campanha de assinaturas

Assim como vários órgãos da mídia independente, o Sul21 está lançando sua campanha de assinaturas. Acho justo e esperado.

Com a democracia brasileira fragilizada por sucessivos ataques à Constituição e ao Estado de Direito, com o crescimento da onda de intolerância e de um discurso de ódio que procura criminalizar os direitos humanos e sociais, com a grande imprensa subordinando a produção e a circulação da informação a seus interesses particulares, acreditamos que nosso trabalho é mais do que nunca necessário.

Queremos e vamos sobreviver. Quando afirmamos isso, não desejamos apenas a manutenção de nossos empregos, mas uma ampliação de cobertura. Só nós sabemos o que deixamos de cobrir por “falta de pernas”. Há uma enorme demanda dos movimentos que não recebe divulgação e amplificação.

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Para enfrentar esse cenário, o Sul21 está lançando uma campanha de assinaturas a fim de fortalecer e qualificar o trabalho que desenvolve desde 2010.

Mais do que uma mera colaboração financeira, a campanha propõe uma maior aproximação do nosso público leitor com o trabalho cotidiano que realizamos.

O conteúdo do Sul21 permanecerá aberto. Não é nossa ideia impedir a leitura dos não assinantes do portal.

Além do livre acesso a nosso conteúdo e de colaborar para o fortalecimento do portal, os assinantes receberão produtos especiais como envio de notícias por diferentes plataformas e aplicativos, boletins especiais sobre temas estratégicos da conjuntura e ingressos para participar dos Debates Sul21.

Porém, o mais importante é que a sua assinatura contribuirá para que o Sul21 qualifique e amplie sua capacidade de fazer um jornalismo independente comprometido com a justiça, a democracia e os direitos fundamentais.

A motivação para este texto é óbvia, mas pedimos mais uma colaboração a vocês: por favor, divulguem em suas certamente qualificadas redes pessoais de forma a que mais pessoas sejam informadas de nossa campanha.

Nesta página estão todos os detalhes de como funcionam as assinaturas.

Agradecemos sua participação e divulgação.

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Índice médio de felicidade, de David Machado

indice-medio-de-felicidade-david-machadoDe uma forma muito pessoal, gostaria de caracterizar o excelente romance Índice médio de felicidade como uma “história pânica”. Em nenhum momento consegui um afastamento emocional do livro, pois ele tocou profundamente em um de meus maiores medos — o do desemprego, ainda mais na minha idade de 59 anos. O texto do português David Machado é envolvente, profundamente humano e nervoso, impondo um ritmo forte à leitura.

Após décadas de crescimento, Portugal soçobra em uma profunda crise econômica e o desemprego cresce. O romance é narrado por Daniel, um jovem na casa dos 30 anos que se vê sem ter o que fazer. Demitido de uma agência de viagens, passa a realizar pequenos trabalhos, vê sua esposa mudar-se para o interior com os filhos e fica em Lisboa, aguardando a sorte e ocupando-se com todo o tipo de coisas, muitas delas perfeitamente inúteis para tirá-lo do buraco, meros reflexos de sua situação.

Otimista ao mais alto grau, Daniel vai resistindo de uma forma muito peculiar e humana: procura não encarar a dura realidade e a falta de perspectivas. Mesmo a vergonha que sente de expor-se aos filhos e à mulher é mostrada pelo filtro de leveza de Daniel. Porém, à medida que lemos o romance, sentimos crescer um subtexto que caminha na direção contrária ao que diz o narrador. Suas boas intenções passam a ser claramente hostis a ele próprio. Um verdadeiro achado.

A história é ótima, com um belo final. O bom humor do livro e a extraordinária capacidade narrativa de David Machado — um ex-economista que não escreve uma palavra em economês — garantem um livraço.

Índice Médio de Felicidade recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura e, dizem, será adaptado para o cinema. Recomendo MUITO.

De forma inteiramente casual, encontrei-me com David na Feira do Livro de Porto Alegre no momento em que adquiria seu livro

De forma inteiramente casual, encontrei-me com David na Feira do Livro de Porto Alegre no momento em que adquiria seu livro. O pedido de autógrafo foi inevitável.

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Inter mexeu um minguinho, mas permanece em coma

3baeed38-5b65-4708-a4dd-7b75c9cf2ef5Eu assisti à partida apenas ontem à noite. Credo, que coisa assustadora! Em primeiro lugar pelo futebol feio, interrompido pela janela de luz do golaço de Valdívia e, no final, o terror completo com o Cruzeiro perdendo dois gols feitos com Robinho e Ábila. Nos dois lances, o goleiro Danilo Fernandes ficou parado, na torcida para que suas redes não fossem estufadas pelos chutões desferidos da entrada da pequena área. O segundo pareceu um efeito especial. A gente espera ver a bola lá dentro, mas ela passa como se tivesse a propriedade de atravessar redes e paredes. Vejam os dois lances no vídeo abaixo, logo após o gol de Valdívia. Não sei como aquelas bolas não entraram.

Acabou 1 x 0 para o Inter. Vendo o jogo, se eu não soubesse o resultado final, não acreditaria. Mas o Inter baixou suas chances de rebaixamento de 90 para 82%… Ou seja, ainda dependemos de um mundo para nos livrarmos, a começar por uma escorregada do Vitória hoje à noite contra o Coritiba já em férias. Não duvido que o Inter esteja repassando uma grana de incentivo ao Coxa. Sobre o resto, é um fim de feira.

O time não tem padrão de jogo, é confuso na defesa, não cria, não arma. Dependemos do Sobrenatural de Almeida.

Ah, se Lisca tivesse chegado antes… Ontem, mudou o time sempre com correção e ousadia. Não temos futebol, mas conseguimos certo domínio territorial com as saídas do péssimo Géferson e do horroroso Dourado de 2016. Tenho certeza de que, se Lisca tivesse chegado antes, não estaríamos nesta merda.

Agora, hoje à noite, faremos uma torcida meio constrangida pelo Coritiba à espera de um milagre no próximo domingo.

P. S. sobre o drone: achei engraçada a brincadeira. Dei risada. Mas não é todo mundo que sabe rir de si mesmo. O incrível é que os torcedores não apenas foram se vingar como invadiram a casa errada. Quebraram o que viram pela frente. Imaginem o medo desta família que, por sinal, é (ou foi) colorada. E, como em nossa Porto Alegre tudo o que não há é segurança, aquelas pessoas inocentes da brincadeira ficaram à mercê de um grupo de vândalos, para dizer o mínimo. Um completo absurdo.

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No dia da morte de Fidel, lembro de minha longa conversa com Padura

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Foto de Alberto Korda. Clique para ampliar.

Quando conversei com Leonardo Padura, ele foi muito franco sobre seu país. Pediu que ficassem off-the-record apenas algumas de suas impressões sobre o Brasil. Falou que há uma esquerda romântica que vê Cuba como paraíso socialista e há uma direita muito agressiva, que a vê como um inferno comunista. E Cuba não é uma coisa nem outra. Segundo ele, o país parece mais com o purgatório. Porém… “Como leste em meus livros, sabes o quanto sou crítico de muitas coisas que ocorrem em Cuba, mas posso te dizer com toda certeza que, por sorte, lá nunca houve os excessos que ocorreram na União Soviética, na Alemanha e nos países do oeste. É uma sociedade que teve e tem, sobretudo, grandes problemas econômicos. A economia não funciona bem e a política está presente na vida das pessoas, mas nunca tivemos grande repressão. Há controle, é uma sociedade muito controlada, de um partido único, em que o estado e o governo são os mesmos. Há controle, repito, mas sem excessos. Lezama Lima, por exemplo, jamais teria sido publicado na URSS ou na Europa Oriental comunista. Até hoje teria problemas na Rússia. Em Cuba, foi. E isso aconteceu nos anos 60”.

Sobre a relação dos escritores cubanos com o mercado, foi ainda mais tranquilo: “Até 1990, 91, cada vez que um escritor cubano publicava um livro fora do país, tinha que fazê-lo através de uma agência literária do Ministério da Cultura. Ela cobrava os direitos e dava a parte do escritor. Já a partir dos anos 90, foi possível a livre contratação. Eu, no ano de 1995, comecei a publicar através de uma editora espanhola. E, desde então, minha relação econômica com o governo cubano é a de um escritor que recebe direitos e que paga impostos, como qualquer trabalhador independente. Pago pontual e religiosamente meus impostos, mas os direitos são meus e de uma agência da Espanha”.

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Pois é, eu e Padura | Foto: Roberta Fofonka

Conversamos muito sobre Cuba. Sobre a dificuldade de alguém realizar-se no país — parecia que falávamos de toda a América Latina –, sobre a casa onde mora, que é a mesma em que nasceu. Aliás, seu pai e seus avós também viveram no mesmo local. Riu quando, ironicamente, perguntei se a revolução não quisera levá-la. Também sobre a sensação de pertencimento de todo povo cubano. Sobre a pobreza e as fugas. Sobre o excelente sistema de saúde, uma das obsessões de Fidel. E ele contou a piada que já conhecia: “Acaba o comunismo e o pai diz para o filho em Cuba: meu filho, tudo o que te disseram sobre as maravilhas do comunismo eram mentiras, mas tudo o que te disseram sobre o capitalismo era verdade”.

A ingenuidade de tanta gente que vê um país latino tão semelhante ao Brasil como se fosse outra dimensão…

Hoje, dia da morte de Fidel Castro, não é dia de entrar no Facebook. Li cada coisa sobre Cuba… Uns falando no tal paraíso, outros falando em pobreza e que Fidel não deveria ter nascido… Olho para lá, para cá, e concluo que essa gente certamente não mora no Brasil.

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Porque hoje é sábado, Miranda Kerr

Alguns de nossos sete leitores, mais exatamente quatro deles, fizeram uma reclamação:

o PHES estaria evitando a nudez.

Ora, sabem nossos leitores que não apreciamos a exposição ginecológica,

que privilegiamos o rosto e o respeito à modelo,

mas uma acusação desta ordem é algo muito grave

para o PHES, nossa célebre coluna sabatina.

Então, atendendo ao clamor popular

apresentamos hoje a bela magrela Miranda Kerr,

uma australiana de Sydney,

cuja beleza deverá calar os suplicantes

que vêm nos incomodar.

A pornografia mostra a intimidade e ultrapassa a linha do vulgar.

O erotismo busca a imaginação.

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Evitar a queda para a Série B no tapetão é coisa de time grande…

A ironia do título que criei não dá ideia da vergonha que sinto de torcer para um time tão ruim. O texto abaixo não é meu, porém explica muita coisa. De resto, dura lex sed lex, ou seja, a lei é dura mas é lei.

Querem a real? Então tá!

O TAPETÃO: Pra galera que não entendeu o que aconteceu com o jogador Victor Ramos, do Vitória. Ele pertence ao Monterrey e foi emprestado ao Palmeiras. Findou o contrato com o Palmeiras e foi repassado DIRETO para o Vitória. Acontece que isso é PROIBIDO pela FIFA. O jogador foi negociado com se fosse patrimônio (ativo) do Palmeiras, sendo que ele pertence ao Monterrey! A FIFA determina que nesses casos, o jogador retorne ao clube que pertence logo após o término do contrato e só daí ele pode ser negociado novamente. Mas de acordo com o informativo da Fifa, ele não retornou ao Monterrey, ele foi repassado DIRETO pro Vitória. Isso é proibido porque antigamente era uma maneira de evitar os pagamentos de encargos pelas partes envolvidas, no caso Monterrey e Vitória. Cada ida e vinda do jogador resulta na incidência de tributos e com esse repasse direto, essas tributações são limitadas. O jogador está SIM inscrito irregularmente! Se o Bahia não conseguiu reverter o resultado do campeonato baiano foi porque faltou força POLÍTICA. Tudo é política. Precedente jurídico tem de sobra, mas uma punição por Vitória com perda de pontos passa antes de tudo por uma forte articulação política. O STJD pode optar por multa, advertência ou embargos ao Vitória. Como pode optar também pela perda de pontos. E isso depende muito mais de Fernando Carvalho e sua influência do que propriamente dos advogados. Carvalho, como um homem de direito que é COM CERTEZA irá agir. É a última cartada. É bonito ? Não. Mas é legítimo e legal. Se o Inter tivesse cometido esse erro, adversário nenhum perdoaria.

Que cagada, Victor Ramos...

Que cagada, Victor Ramos…

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Mônica Leal e meu Tempra dourado

Obs. inicial: Hoje, duas pessoas vieram me falar deste velho post. Recordar é viver! Importante dizer que já paguei o que devia à nobre vereadora.

Alguns poucos de vocês devem lembrar que a atual vereadora de Porto Alegre e ex-Secretária de Cultura do RS, Mônica Leal, me processou. Sei que muita gente vai me invejar e devo confirmar que tenho o maior orgulho disso. É currículo, meus amigos! Bem, ela ganhou a causa e fiquei devendo um alto valor para ela. Depois, meu advogado — que é excelente — conseguiu baixar o montante e hoje a coisa está num valor que não lembro qual é, só lembro que é igualmente impossível de pagar. Afinal, se me virarem de cabeça para baixo e chacoalharem, só vão cair no chão minhas passagens e os almoços que devo comer até o fim do mês.

Hoje me ligou um oficial de justiça. A seguir, o diálogo:

— É o Sr. Milton Ribeiro?

— Sim, quem fala?

— Aqui é X., oficial de justiça, e eu tenho uma intimação para entregar ao Sr.

— Da parte de quem? — perguntei, já sabendo do que se tratava.

— De… Mônica Leal — ele disse e deu uma risadinha curta, não sei por quê.

— Ah, sim, pois é, acho que ela deve processar muita gente, né? E o que diz a intimação?

— Ela pede a penhora de um Tempra de sua propriedade.

— Um Tempra? O Sr. quer dizer o automóvel?

— Sim, o automóvel.

— Mas eu nunca tive um Tempra.

— Mas é o que está escrito aqui.

— OK, o Sr. fica de plantão no dia X no horário Y no local Z, não?

— Sim.

— Eu vou aí buscar a intimação, pode ser? Passo aí na frente todo dia.

— Ah, perfeito. Estarei aqui. Obrigado.

— Obrigado, boa tarde.

— Boa tarde.

Quando depositei o telefone no gancho, minha mente se iluminou. Lembrei do Tempra. Estávamos talvez em 1997. Eu e meus amigos Daniel e Corrêa compramos um carro em São Paulo para fazer negócio. O troço era bom e caro e não era um Tempra. Vendemos na primeira semana. Recebemos uma parte em dinheiro e outra na forma de um carro de menor valor: o Tempra dourado.

Eu juro para vocês que nunca tinha visto uma coisa mais feia na minha vida. Eu nunca dei bola para carros, mas aquilo era uma excrescência, um problema de malformação de fábrica, algo que faria a Igreja aprovar o aborto, algo que deve ter feito os operários da Fiat pararem a produção para olharem bem, darem gargalhadas e contarem pros amigos.

— Daniel, que carro é esse?

— É o que a gente recebeu na volta.

— Daniel, esse carro não foi figurante em Carruagens de Fogo?

— Que coisa horrível, né?

— Daniel, quem é que vai comprar isso?

— Olha, Milton, o carro está em excelente estado blá, blá, blá…

Demoramos uns 3 meses ou mais para nos livrar do Chariots of Fire. Mas ele foi adiante. A dúvida que fica no ar é a seguinte: será que ele ainda está em meu nome? Será que, em estando no meu nome, teve pagos seus impostos? Bem, se não teve, aí toda a piada começa a perder a graça. O pior é fucei no site do Detran e nada de Tempra.

Hoje à tarde, só para apavorar meus sete leitores, procurei um Tempra dourado na internet mas não achei. Era um amarelo metálico, credo. Era dessa cor aí embaixo, mas não era digno como este Maverick. Imaginaram o horror?

.oOo.

Acabamos de encontrar uma foto de Tempra dourado!

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Boa tarde, Presidente Piffero, você conseguiu!

Rotina corintiana: Ernando não comete pênalti, mas o juiz marca.

Rotina corintiana: Ernando não comete pênalti, mas o juiz marca.

Ontem à noite, após nova e merecida derrota – apesar do pênalti inexistente que foi marcado contra o Inter — a boa equipe de esportes de Nando Gross, na Rádio Guaíba, fez um levantamento dos erros cometidos por Vitorio Piffero nestes dois anos. Na brincadeira não valia falar nas coisas que deram errado por uma eventualidade, apenas naquelas que a imprensa e a torcida apontaram na hora: vai dar errado, tem tudo para dar errado. E deram.

Foram tantas coisas que é difícil de lembrar de todas: a promessa de que teríamos Tite, a esnobada em Mano Menezes, a contratação de Aguirre — técnico nº 8 na preferência da direção –, o preparo físico nos tempos do uruguaio, a insistência com Argel, a cedência de D`Alessandro para o River, a contratação de Falcão, sua combatida substituição por Celso Juarez Roth, a não demissão de Roth antes do jogo contra a Ponte, quando tínhamos 10 dias para treinar, a entrada de Lisca sem tempo para treinar, a tentativa de queimar Seijas e Nico López, que ontem foram os melhores… E, aliás, ontem tivemos uma escalação com cara de Fernando Carvalho, não?

Entrar com Sasha e Paulão, colocar Aylon em campo, mas deixando Vitinho como centroavante (?), as substituições que não alteram o esquema, tudo igual a Juarez, na verdade tudo igual a Fernando Carvalho. Pois o maior de todos os erros de Piffero foi o de ter entregue o futebol ao decadente presidente campeão do mundo em vez de buscar alguém mais atualizado e menos negociante.

Gente, já era. O Infobola está até bonzinho e diz que temos 90% de chances de cair. Basta olhar como nosso ataque joga — o terceiro pior da Série A — para saber que é 100%. Só o reserva Nico López chuta. Não há criação ou posse de bola. Todos erram passes. A defesa só dá chutão. Como disse o goleiro Danilo Fernandes na saída do campo, o Inter parece um time juvenil, todo assustadinho. Não ganhamos fora de casa desde MAIO, tá bom? Imagino o que passa pela cabeça de gente desassombrada como Valdomiro, Figueroa, Mário Sérgio, Iarley, Tinga ou D`Alessandro vendo o atual time jogar. Somos uma vergonha futebolística.

Parabéns, Vitorio Piffero!

Parabéns, Vitorio Piffero!

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Sartori, em vez de extinguir Fundações, que tal ir atrás dos sonegadores ?

Foto: Guilherme Santos / Sul21

Foto: Guilherme Santos / Sul21

Anos atrás, eu prestava consultoria ao setor de TI da FEE. Gostava do ambiente e da criteriosa seriedade das pessoas de lá. Além disso, a utilidade e a qualidade do trabalho realizado também era clara. Era uma série de atividades voltadas para a geração de indicadores, tabulações, perfis econômicos, publicações, trabalhos acadêmicos, etc. Ficava tão feliz, a sensação de ser útil era tão grande que sempre ultrapassava o número de horas contratadas. A Fundação é de 1973. Tem, portanto, 43 anos de serviços prestados.

Como ouvinte, sou fã absoluto da FM Cultura 107.7, da Fundação Piratini. É a melhor rádio do dial do FM. O que dizer das horas e da cultura que ganhei no Sessão Jazz do Paulo Moreira, no Conversa de Botequim, na Manhã Popular Brasileira, no Contracultura, no Estação Cultura, no Cultura na Mesa e no pré-antigo As Músicas que Fizeram sua Cabeça?

Agora, Sartori pretende acabar com as duas Fundações e mais sete que conheço muito menos, quase nada. É o que diz a tabela que anexo abaixo, publicada hoje em ZH.

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Sem medo de errar, sei que a FEE será substituída por mil consultorias contratadas. E vocês sabem como são estas contratações. Eu sei. Lá por 2008, perdi uma empresa por me negar a pagar propina a um gestor federal. Ele ficou indignado pelo fato de eu ter escolhido ser correto. Procurando vingança, até nos processou por “maus serviços”. (Vejam só, a FEE nos contratara sem esquema no passado. Já esta outra…)

Seria irresponsável acusar alguém ou o governo de querer fazer o mesmo. Mas acho absurdo este descarte de importantes empresas. Ouço e leio o choro do governo do RS: “não temos dinheiro”, “são empresas desnecessárias”. Porém, curiosamente, o governo gasta milhões em propaganda para dizer que economiza muito. OK, na opinião deles há que chegar ao estado mínimo, só que não temos o mínimo de saúde e educação. E, quando fala em déficit, o governo olha principalmente as despesas, cuidando muito menos das receitas.

O que o Pezão Feltes, nosso Secretário Estadual da Fazenda faz contra a sonegação? Olha, não ouço falar nisso. É só mimimi sobre despesas com funcionalismo — que nem pode sonegar — e extinções.

Acho que lucro é igual a receita menos despesa. Então, tão importante quanto cortar despesas é aumentar a receita.

E Feltes, o Sindicato dos Técnicos Tributários da Receita Estadual do RS (Afocefe) e do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda (Sinprofaz) afirmou em 18 de agosto que a sonegação de ICMS no RS chegara a R$ 4,5 bilhões até aquela altura, considerando apenas o ano da graça de 2016.

Isso é dinheiro grosso, não? A FEE, por exemplo, gasta R$ 22 milhões com celetistas em um ano, ou seja, 204 vezes menos.

Por que não ir atrás? Por que é antipático? Por que incomoda os amigos que financiaram as campanhas? Que tal tentar resolver a coisa pelo outro lado? É mais gostoso chorar e assim justificar a inação?

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