Eu acredito nisso:

Cada nova realidade estética redefine a realidade ética do homem. Porque a estética é a mãe da ética. As categorias de ‘bom’ e ‘mau’ são, em primeiro lugar e sobretudo categorias estéticas que antecedem as categorias do ‘bem’ e do ‘mal’. (…)

Um homem que tenha gosto, e em particular gosto literário, é mais resistente aos refrões e aos feitiços rítmicos próprios da demagogia política em todas as suas versões (…).

Quanto mais rica é a experiência estética de um indivíduo, quanto mais seguro o seu gosto, tanto mais sólida será a sua escolha moral e tanto mais livre – mesmo se não necessariamente mais feliz — será ele próprio. (…) Num sentido antropológico, repito, antes de ser uma criatura ética o ser humano é uma criatura estética. A arte portanto, e em particular a literatura, não é um subproduto da evolução da nossa espécie, mas antes o contrário. Se aquilo que nos distingue dos outros representantes do reino animal é a palavra, então a literatura – e em particular a poesia, sendo esta a forma mais elevada da expressão literária – é, para o dizer sem rodeios, a meta da nossa espécie.

Joseph Brodsky

Joseph Brodsky (1940-1996)

Joseph Brodsky (1940-1996)

No dia dos 100 anos, como diz o samba: “Vinícius, velho, saravá!”

O poeta Vinícius de Moraes

Publicado em 19 de outubro de 2013 no Sul21

Há 100 anos, em 19 de outubro de 1913, nascia Vinícius de Moraes. O poetinha — apelido dado por Tom Jobim — era letrista, boêmio, poeta, fumante, dramaturgo, diplomata, amante dos bons uísques, das mulheres e de tudo o que desse prazer. Casou-se nove vezes. Apesar disso, teve tempo de criar obra literária, musical e teatral. Foi parceiro de mais de uma geração de grandes músicos brasileiros, como o citado Tom, além de Chico Buarque, Toquinho, Baden Powell, Carlos Lyra, Edu Lobo, João Gilberto, João Bosco, dentre outros.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes nasceu na Gávea, Rio de Janeiro, filho de um funcionário da prefeitura e de uma dona de casa que era também pianista amadora. Em 1930, ingressou na Faculdade de Direito do Catete, hoje integrada à UERJ. Na chamada “Faculdade do Catete”, conheceu o romancista Otávio Faria, que o incentivou a escrever. Vinícius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933, aos 20 anos. Após um período na Inglaterra, fez concurso para o Ministério das Relações Exteriores. Na primeira vez foi reprovado, mas passou na segunda tentativa, sendo enviado para Los Angeles como vice-cônsul.

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Depois, Vinícius de Moraes atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. A carreira de diplomata fui subitamente interrompida pelo AI-5, através de uma aposentadoria compulsória. O motivo alegado foi a boemia. Em entrevista, o presidente João Figueiredo explicou as causas da demissão: “O Vinícius diz que muita gente do Itamaraty foi cassada por motivos políticos, por corrupção ou por pederastia. É verdade. Mas no caso dele foi vagabundagem mesmo. Eu era o chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI, e recebíamos constantemente informes de que ele, servindo no consulado brasileiro de Montevidéu e ganhando 6 mil dólares por mês, não aparecia por lá havia três meses. Consultamos o Ministério das Relações Exteriores, que nos confirmou a acusação. Checamos e verificamos que ele não saía dos botequins do Rio de Janeiro, tocando violão, se apresentando por aí, com um copo de uísque na mão. Nem pestanejamos. Mandamos brasa.”

Hoje, ninguém se incomoda com seu mau comportamento funcional. Afinal, o ganho cultural foi muito mais importante.

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Manuel Bandeira, Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes

A música

Vinícius de Moraes é conhecido pelo grande público muito mais por sua música e por seu trabalho como letrista do que por sua obra literária. Porém, estes estão de tal forma interligados entre si e com a vida do autor que certamente não é muito inteligente separá-los. Nos anos 40, Vinícius era um poeta lírico de linguagem simples que muitas vezes enveredava pelo social. Os poemas desta época certamente não lhe garantiriam nenhum gênero de “imortalidade” e ele era mais conhecido por sua atuação como jornalista e crítico de cinema.

O manuscrito de “Soneto da Separação”

Só em 1953 o poeta começou a abrir espaço para o letrista e músico. Naquele ano, Aracy de Almeida gravou Quando Tu Passas Por Mim, primeiro samba de sua autoria. Escrito com Antônio Maria, o samba marcava, na vida pessoal do poeta, mais um fim de casamento.

Em 1954, foi publicada sua coletânea Antologia Poética, ao mesmo tempo em que finalizava sua peça teatral Orfeu da Conceição, premiada no concurso associado ao IV Centenário de São Paulo, cidade por ele apelidada de “o túmulo do samba”. Dois anos depois, quando andava atrás de alguém para musicar a peça, um amigo indicou-lhe um jovem pianista e arranjador chamado Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, de 29 anos. O encontro entre Vinícius e Tom, entre Tom e Vinícius, deveria ser saudado com fanfarras não fosse a Bossa Nova avessa a tais barulheiras. Ali nascia uma das mais fecundas parcerias da música brasileira, uma que a marcaria definitivamente. Os dois compuseram a trilha sonora para Orfeu e seguiram compondo uma vertiginosa sucessão de clássicos que acabaram na criação da Bossa Nova juntamente com João Gilberto. Se Todos Fossem Iguais A Você, Eu e Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu sei que vou te amar, Garota de Ipanema, Insensatez, entre outras belas canções canônicas.

“Vinicius de Moraes foi um divisor de águas na história da música popular brasileira. Um poeta de livro que de repente se torna letrista e traz para as letras da música brasileira uma grande densidade poética”, define o crítico musical Tárik de Souza. Mais do que parceiros, Vinicius de Moraes colecionou amigos, companheiros de boemia e da vida cotidiana. A troca ia muito além das rimas e notas musicais.

mvtjPara Tárik, que apresenta na Rádio MEC FM o programa Bossamoderna, Vinicius exerceu um papel de catalisador na música popular, estimulando o surgimento de novos compositores. “Ele foi o primeiro parceiro do Edu Lobo, o primeiro parceiro do João Bosco, incentivou o Francis Hime e vários outros artistas a se dedicarem realmente à música, a partir de parcerias com ele. Vinicius tinha essa generosidade de lançar artistas e de abrir novas frentes, como ele fez com Toquinho, que foi o seu último grande parceiro”.

É grande a lista. Além dos já citados, inclui Carlos Lyra, Baden Powell (que formavam, juntamente com Tom, o que o poeta chamava de sua “santíssima trindade”), Chico Buarque e muitos outros. Lyra, um dos integrantes da “trindade” de Vinícius, conta como foi seu primeiro contato com o poeta. “Liguei para a casa dele: ‘Vinícius de Moraes? Aqui é o Carlos Lyra”… e ele, com aquela mania de diminutivos, respondeu: ‘Ah, Carlinhos, ouvi muito falar de você. O que você quer de mim?’ E eu: ‘quero umas letrinhas…’. E ele: ‘então venha já pra minha casa’. E aí começou a amizade e a parceria”.

A pedra fundamental da bossa nova veio com o LP Canção do Amor Demais, gravado por Elizeth Cardoso. Além da faixa-título, o LP trazia ainda com outras músicas da parceria, como Luciana, Estrada Branca, Outra Vez e a indiscutível Chega de Saudade, em interpretações vocais intimistas, bastante estranhas ao comum da época — o da voz empostada e do berro. No ano seguinte, era lançado o LP João Gilberto que trazia como música de abertura a mesma Chega de saudade e abria definitivamente o período da bossa nova. Aliás, é importante dizer que a famosa batida do violão de João Gilberto já se fazia presente no disco de Elizeth.

Tom e Vinícius

Mas Vinícius ainda teria outras participações fundamentais na história da MPB. Em 1965, o “I Festival Nacional de Música Popular Brasileira” (da extinta TV Excelsior) consagrou Arrastão (composta em parceria com Edu Lobo) como vencedora. O segundo lugar foi a Valsa do Amor que Não Vem , do mesmo Vinícius com Baden Powell, defendida por Elizeth Cardoso.

Em 1966, uma nova parceria com Baden Powell gerou “Os Afro-Sambas”, uma brilhante coleção de canções de influência africana que recebeu sua maior homenagem há poucos anos, com a regravação feita por Mônica Salmaso e Paulo Bellinati.

Entre um parceiro e outro, eram criadas uma série de obras-primas da MPB. Samba da Bênção, com Baden; Marcha da Quarta-feira de Cinzas, com Carlos Lyra; Valsinha e Gente Humilde, com Chico Buarque; a lista é imensa.

Toquinho e Vinícius

Depois de 1970, foi a vez de encetar outra longa parceria, talvez a mais duradoura  e prolífica delas, aquela com o violonista e compositor Toquinho. Formavam uma dupla bem diferente em qualidade das atuais. Também era diversos na postura: Toquinho empunhava um violão e Vinícius um copo de uísque. O primeiro LP já trazia Na Tonga da Mironga do Kabuletê, Testamento, Tarde em Itapoã, Morena Flor e A Rosa Desfolhada. Em 1972, eles lançaram o álbum São Demais os Perigos Dessa Vida, contendo — além da faixa-título — grandes canções como Cotidiano nº 2, Para Viver Um Grande Amor e Regra três.

Em 1979, participou de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Voltando de viagem à Europa, sofreu um derrame cerebral no avião. Perderam-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 17 de abril de 1980, foi operado para a instalação de um dreno cerebral. Morreu na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.

Vinicius+de+Moraes+vmAntes do poeta, o crítico e grande conhecedor de cinema

O “Poetinha” que o Brasil admira e cultua pelo lirismo de seus versos era também um cinéfilo de carteirinha. Ao longo de toda a década de 40 e na primeira metade dos anos 50, Vinicius de Moraes exerceu, paralelamente à carreira de diplomata, intensa atividade como crítico de cinema para os jornais A Manhã e Última Hora e para as revistas Diretrizes e Sombra.

“Creio no cinema, meio de expressão total em seu poder transmissor e capacidade de emoção, possuidor de uma forma própria que lhe é imanente e que, contendo todas as outras formas de arte, nada lhes deve”, escreveu Vinicius, em artigo publicado em agosto de 1941 no jornal A Manhã. Parte do acervo literário de Vinicius, sob a guarda da Fundação Casa de Rui Barbosa, os escritos revelam que o poeta produziu análises aprofundadas sobre os grandes mestres do cinema da época, como Orson Welles, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, René Clair, Fritz Lang, Sergei Eisenstein, Vittorio de Sica e o brasileiro Alberto Cavalcanti.

Os rumos do cinema brasileiro e o resgate da obra de nossos primeiros cineastas também estavam nas preocupações do poeta. “Vinicius de Moraes foi importante não só como crítico de cinema, mas também como cineclubista. Foi por meio do Vinicius e das pessoas que integravam a turma dele, de cinéfilos, que o público tomou conhecimento da existência de Limite, o filme de Mário Peixoto, que estava perdido há anos”, disse Fabiano Canosa, um dos curadores do Festival do Rio.

Entre 1946 e 1950, período em que foi vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, Vinícius estudou cinema com Welles e teve uma convivência muito grande com o meio cinematográfico de Hollywood. “Ele frequentava muito a casa de Carmen Miranda e promoveu a aproximação de muitos nomes da cultura brasileira com Hollywood nos anos posteriores à 2ª Guerra Mundial, como por exemplo o escritor Erico Veríssimo”, declarou Canosa, ex-programador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do Public Theatre de Nova York.

O poeta

O poetinha em 1977

A poesia de Vinícius, seja na música ou nos livros de poesia, transpira paixão. Paixão pela mulher, paixão pelo divino, paixão pelo prazer transitório e pela dignidade humana. Outra palavra fundamental de seu léxico é a busca. Busca da religião que logrou encontrar na África, busca das inumeráveis musas — mulheres reais ou inventadas — e a busca do perdão para tantas infidelidades. Poeta entre o viril e o terno, entre o metafísico e o carnal, fez de sua poesia um local de encontros e de despedidas. Morreu como uma encarnação do hedonismo. Era o rei das festas, o mais saudado, o poeta do fumo, das religiões afro-brasileiras num tempo em que isso era quase escandaloso, da irresponsabilidade, da insânia e, sobretudo, da intoxicação — através do amado uísque — que une o bebedor com a deidade. E, para nossa alegria, ainda nos deixou uma extensa obra que, se não chega a ser a de um Drummond, a de um João Cabral, a de um Murilo ou a de uma Cecília, chegou mais facilmente ao coração do povo através da música. Vinícius, velho, saravá!

Jamie Oliver ameaça a soberania nacional ao criticar nossos quindins

O amigo Ubiratan Leal escreveu em seu perfil do Facebook:

A única coisa que me incomodou na polêmica do Jamie Oliver é que as pessoas se doeram todas por causa de brigadeiro. Convenhamos, brigadeiro é superestimado. Eu entenderia uma revolta popular pela crítica do cara ao quindim. Aí é comprar briga!

Poucas vezes li palavras de mais meridiano bom senso. Quando Jamie Oliver fala mal do sublime quindim, ele faz com que eu lembre automaticamente do English Breakfast, verdadeira nojeira, festa da gordura e do mau gosto com a qual os ingleses se refestelam toda manhã. Vou poupá-los até das fotos da iguaria britânica, mas jamais deixaria de colocar uma foto de quindins. Afinal, além de lindos, são gostosos.

Quindim, o melhor e mais belo doce brasileiro

Ahhhh, o quindim: o melhor e mais belo doce brasileiro

OK, quando ele fala mal do brigadeiro. Eu até o compreendo. Mas criticar o quindim é como dizer que Machado de Assis era mau escritor, que Tom Jobim era desafinado e que Cândido Portinari era um pintor de rodapés, tudo junto somado. Ou seja, é atacar o pouco que temos de indiscutível.

O quindim é o príncipe dos nossos doces. Mordê-lo é segunda forma mais perfeita de lambuzar os bigodes. Poucas coisas são mais sensuais do que observar o belo espelho amarelo para depois deixar que nossos dentes penetrem lenta e empoderadamente na essência adocicada feita de ovos, até encontrar o bendito coco da base, que diminui a doçura e justifica nossa existência neste mundo.

Assim como o anão escritor que vos escreve, o poeta Mario Quintana (1906-1994) era um grande admirador do quindim. Ele o consumia ritualmente com um café sem açúcar. O nome quindim é de origem africana e significa dengo ou encanto. Tem como ingredientes gema de ovo, açúcar e coco ralado. A receita que utiliza o coco ralado é originária do nordeste brasileiro, diferente da receita portuguesa.

Jamie Oliver, com todo o respeito, vá emagrecer no raio que o parta.

Algumas maravilhas da língua portuguesa

muçarelaVocê sabia que…

… o correto é MUÇARELA e não mussarela?

… que À-TOA (com hífen) é sem-vergonha, puta, essas coisas, enquanto que À TOA significa sem rumo, como o Chico de A Banda?

… que INCIPIENTE é iniciante, enquanto INSIPIENTE é ignorante?

… que CERRAÇÃO é com C, vem de cerrar, fechar, e não vem de serra?

… que ESTADA é permanência de alguém, enquanto ESTADIA é a permanência paga de um navio no porto?

… que EM PRINCÍPIO é em tese e A PRINCÍPIO é no início?

… que ACERCA DE é a respeito de, A CERCA DE é a alguma distância e HÁ CERCA DE é faz aproximadamente (em sentido de tempo)?

… que soprano e contralto, apesar de cantoras, são substantivos masculinos?

… que o correto é PRETENSIOSO e não as suas variantes tão utilizadas por aí?

… que você deixa seus livros na ESTANTE e os deixa em exposição ou feira num ESTANDE?

… que, segundo a Nova Ortografia, tanto faz escrever GRÊMIO ou GRÉMIO, pois os dois estão corretos, têm a mesma pronúncia e referenciam o mesmo time do bairro Uma e tá?

Deputados estaduais do RS têm variação patrimonial de mais de 100% em quatro anos

Paulo Borges, O Homem do Tempo fez chover

Paulo Borges, o Homem do Tempo fez chover

Entre 2010 e 2014, a inflação acumulada foi de 26,7%, mas nossos deputados tiveram um aumento de 101,7% em seus patrimônios. O valor global de bens declarados à Justiça Eleitoral, subiu de R$ 26,3 milhões em 2010 para R$ 53,1 milhões neste ano. Foi um aumento de 101,7%.

O Homem do Tempo, o deputado Paulo Borges, do DEM, foi o que teve a maior variação percentual: 952,2%, passando de R$ 70,6 mil para 742,6 mil. Sua assessoria informou que o ele financiou uma casa e um veículo de alto valor neste período. O parlamentar que teve o incremento mais expressivo em valores absolutos foi Paulo Odone (PPS), cujo patrimônio saltou de R$ 1,8 milhão para R$ 8,7 milhões — uma alta de 377,6% no período.

Fico feliz por eles. Com subsídio mensal de R$ 20.042,34, sem incluir benefícios como a “ajuda de custo” (duas parcelas no valor do subsídio mensal, uma no início outra no final do mandato), um deputado estadual recebe pouco mais de R$ 962 mil em quatro anos.

Já os deputados federais não pouparam tanto assim. O valor dos bens declarado à Justiça Eleitoral pelos 29 deputados federais gaúchos que concorrerão nestas eleições aumentou, em média, apenas 69,93%, passando de R$ 17,4 milhões em 2010 para R$ 29,6 milhões em 2014. Bah, que vergonha!

Fontes: ZH e TSE.
Dica: Fernando Guimarães.

Ospa, gingando na chuva sob a malemolência argentina do maestro suíço

Nicolas Rauss: o homem do bom trenzinho veloz

O suíço Nicolas Rauss: trenzinho veloz

Sem dúvida, o suíço Nicolas Rauss é um excelente regente. Trabalha em Rosário, na Argentina, desde 2008, o que explica nosso título. Ontem, para além dos raios e da chuva lá fora, o concerto do Ospa foi cheio de contratempos — até um microfone, que ficou aberto por um erro operacional, começou a cuspir ruídos pelas caixas bem no coração da Sinfonia de Schumann, a qual teve de ser interrompida! –, mas a música sempre saiu soberana. Rauss viu coisas em Villa-Lobos que estão fora de nosso padrão de deixar nosso maior compositor descer a ladeira na banguela. E Carrara tocou muito. E Rauss fez um grande Schumann. E o suíço gingou e dançou com Gnatalli e Villa. Eu vi. Todos os que estavam lá viram.

A noite começou com o Concerto Noel Rosa para piano e orquestra (1978), de Radamés Gnattali. Seus movimentos são arranjos sobre três clássicos de Noel: As Pastorinhas, Feitio de Oração e Conversa de Botequim. André Carrara esteve perfeitamente à vontade, principalmente na melhor das peças, uma encantadora Conversa de Botequim, onde pode demonstrar uma antes insuspeitada faceta: a do jazz sem glúten by Carrara. Um belo início de concerto.

Mais ambiciosa, depois veio a Bachianas Brasileiras nº 2 (1930), de Heitor Villa-Lobos. Não sou muito apaixonado pela obra, feita de movimentos rearranjados a partir de peças mais antigas, escritas originalmente para piano solo ou para violoncelo e piano. Nos três primeiro movimentos, eu ouvia a música com meia atenção. Na verdade, estava observando os músicos da Ospa, desejando saber quais deles eram ou tinham se filiado ao PP ou a um de seus coligados nas próximas eleições estaduais. Não, não desejo a Ana Amélia nem ao pior de meus inimigos, mas sei que quem tiver feito isso, é sério candidato a um CC, creio. Deus me livre!

Mas voltamos a Villa. Não dá para negar que as locomotivas suíças são mais velozes e confortáveis do que os trens do interior do Brasil. Rauss acelerou o O Trenzinho do Caipira já de cara, ficando muito mais próximo da interpretação cantada por Edu Lobo (com letra extraída do Poema Sujo de Ferreira Gullar) no disco Camaleão, do que do comum dos regentes. A ousadia foi premiada, a peça ficou linda e a Reitoria do UFRGS veio abaixo em aplausos.

Após o intervalo, tivemos a ultra-romântica Sinfonia Nº 4 de Robert Schumann. Restabelecidos do choque — jamais Schumann deveria suceder Villa — pudemos até curtir a complexidade da obra que não foi, cronologicamente, a última sinfonia a ser composta por Schumann e sim a segunda. Tal como a primeira, a sinfonia foi composta em 1841, mas a sua instrumentação foi revista em 1851 (quando já tinham sido estreadas a segunda e a terceira). O seu título original dizia Fantasia Sinfônica. É a mais original das sinfonias de Schumann, uma vez que os quatro andamentos se encadeiam sem interrupção, pondo em prática o procedimento cíclico que viria a ser utilizado depois por outros compositores, onde os temas vão reaparecendo ao longo dos vários andamentos.

A Ospa foi digna de uma obra difícil e estranha, que parece mais adequada ao piano do que a uma orquestra. Pois, não adianta, Schumann escrevia para orquestra pensando em seu piano.

Enquanto o PT e o PSDB brigam, o Estado Laico vai pro brejo

Salve-se quem puder

Salve-se quem puder

A dicotomia tipicamente gaúcha foi exportada para a política nacional faz mais de uma década. O Grêmio e o Inter, a noite e o dia, o bem e o mal, o preto e o branco, deus e o diabo, o céu e o inferno, o PT e o PSDB. Isso é empobrecedor demais. A Veja e assemelhados fazem seu discurso de ódio ao PT, enquanto vários pequenos veículos e blogs respondem. Um trata de demonizar o outro em exageros espetaculares, como se o mundo se resumisse a detestar a Dilma ou o Aécio.

No entanto, há mais coisas no ar. Houve uma bancada que conseguiu enorme projeção no primeiro mandato de Dilma: a Bancada Evangélica. Segundo dados da própria Frente Parlamentar Evangélica, nas eleições de 2010 a bancada cresceu de 46 deputados (9% do total da Casa) para 68 deputados (13,2% do total), um crescimento de quase 50%. No Senado, os evangélicos têm 3 representantes: Walter Pinheiro (PT-BA) da Igreja Batista, Magno Malta (PR-ES) da Assembleia de Deus e o bispo Marcelo Crivella (PR-RJ), um ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.

Os evangélicos cresceram tanto que o comando da campanha à reeleição de Dilma Rousseff está preocupado com o voto deles, um eleitorado que representa 22,2% da população, ou 42,3 milhões de brasileiros, segundo o último Censo do IBGE. Agora será mais difícil conquistar esse eleitorado, sobretudo diante da candidatura de um de seus representantes, o Pastor Everaldo Pereira, do “Partido” Social Cristão (PSC) e da Assembleia de Deus. Em seu primeiro dia de campanha, Everaldo anunciou que criará o Ministério da Segurança Pública. E disse: “Com a Bíblia e a Constituição Federal nas mãos, inicio aqui, com Fé, minha caminhada para mudar o Brasil de verdade”. Assim vai nosso Estado Laico.

Dei uma passada no Facebook, blog e site do pastor. É de um retrocesso constrangedor. Inverdades vendidas como “verdades” e mais ódio, ódio e ódio à, digamos o termo exato, felicidade. Os evangélicos preveem um maior crescimento nestas eleições. Pensam que aumentarão em 30% sua presença no Congresso. Já há partidos políticos que se colocam frontalmente contrários ao Estado Laico, casos do PR e PSC. As mulheres e os homossexuais que se preparem, ainda mais que as leis de financiamento de campanha nunca são alteradas. Os caras têm grana e Everaldo já teria 4% dos votos, segundo as pesquisas. Isso sem contar com Marina Silva, vice de Eduardo Campos, terceiro colocado nas pesquisas.

Aberrações como o tal Estatuto do Nascituro — com sua consequente proibição do aborto –, cura-gay, homofobia, retirada da diversidade de gênero do Plano Nacional de Educação, o impedimento do kit gay — que foi retirado do MEC por Dilma e que era apenas um kit educacional contra a homofobia — e outros fatos foram os primeiros passos contrários a um Estado Laico onde a religião seja uma escolha íntima, uma necessidade pessoal. O que virá? Olha, me cago de medo dessa gente.

Bom dia, Abel Braga

Abel Braga: 4 x 0 fáceis

Abel Braga: 4 x 0 fáceis

Vou começar minha cartinha de hoje combinando duas coisas contigo: (1) o Flamengo é muito ruim e (2) quando a gente está jogando mal, pode se atrapalhar até com times ruins. Minha mãe já ensinava que, quando a fase é ruim, até peido descadeira. Não foi nosso caso.

O jogo foi fácil. Tá certo que o time ficou todo enrolado quando viu Aránguiz sair de campo. O chileno jogava bem como sempre. Só que o Fla é tão ruim que viramos o primeiro tempo vencendo por 2 x 0, mesmo sem mostrar nenhum brilhantismo. O segundo tempo sim: jogamos muito melhor, beneficiados pela expulsão de Chicão.

Mas, Abel, olha só: deu para notar claramente que o Alan Patrick não está jogando nada naquele meio-de-campo. Ele está lento como o Ademir da Guia, porém sua velocidade de raciocínio não é a do Divino, é a do Alan Patrick mesmo. Está se achando craque, tanto que encostou uma bola para dentro do gol aberto do Flamengo, dando tempo a um zagueiro para impedir o evento consagrador. Acho que ele quer voltar para a Ucrânia, para o Shakhtar Donetsk, num voo da Malaysia Airlines. Esse Wellington Silva, o lateral, até que joga bem para um estreante, mas ainda não emprestaria meu cachorro para passear com ele. E o Wellington volante… Melhor deixar de lado, é uma dessas paixões inexplicáveis que os técnicos contraem. Ele me lembra o Michel. (Por onde anda?) Ah, ia esquecendo do Rafael Moura! Como disse o respeitável senhor que sentou a meu lado na arquibancada, era o jogo para ele se consagrar. Fez um e perdeu três gols feitos, mas feitos mesmo.

Olha, tchê, com tantas críticas a jogadores — e tu sabes, Abel, o quanto que são justas! — a gente fica com medo. Sou cachorro desses que chegam com o rabo entre as pernas, sabendo que no fim vai apanhar. São 35 anos sem vencer um Brasileiro e sei que ou a gente faz logo umas trocas ou vamos ficar ali no nosso lugar cativo: entre o 6º e o 10º lugar.

Abre o olho, Abel.

Boa semana de treinos. De treinos, tá? Larga o trago.

Um desejo impossível: o fim dos narradores de futebol na TV

É isso mesmo, Galvão.

É isso mesmo, Galvão.

Em primeiro lugar, talvez devesse dizer que vejo futebol sem som na TV. SEMPRE.

Ouço música enquanto vejo o jogo.

Talvez eu vá ao estádio pela beleza plástica do jogo ou de sua tática (na TV não é tão bonito, nem tão interessante), mas talvez vá pela beleza do gramado, iluminado pelo sol ou pelos holofotes em jogos noturnos, ou quem sabe apenas por amor à disputa e ao Inter, mas acredito que a verdadeira razão é a de que o futebol é um gênero de espetáculo que produz maior variação de humores e participação do que qualquer outro que conheça. Por exemplo, se você for a um concerto, provavelmente não poderá ofender o artista ou, num museu, será no mínimo estranho se começar a vaiar o quadro. Vou a muitos concertos; sei que escolho bem e, quase sempre, saio feliz. Às vezes, ele é apenas aceitável. Há possibilidades bem tristes, é claro, porém elas raramente incluem a vaia, chamar o artista de filha-da-puta ou a disposição de odiar o time e odiar a si mesmo a ponto de desejar a própria derrota – em outras palavras, de desejar o próprio fracasso.

Estou enrolando para dizer isso: um concerto ou qualquer outro espetáculo que aconteça dentro de um teatro são representações mais incompletas da vida do que um jogo de futebol. Pronto, disse! Talvez não consiga dormir hoje. Os fantasmas de Shakespeare, Pirandello, Tchekhov, Bergman, Wagner (ai que medo!), Sófocles e de tantos outros me perturbarão a noite. Sei que os aspectos culturais envolvidos fariam o futebol perder de goleada nos primeiros minutos de uma discussão, mas experimente olhar de frente para uma torcida de futebol com o jogo se desenvolvendo às nossas costas. O sofrimento, a alegria, a expectativa, a frustração e quase todos os sentimentos são coisas presentes, visíveis quase a ponto de serem fenômenos físicos. Talvez até o amor romântico tenha representação no futebol… No teatro elisabetano – época de Shakespeare -, os assistentes manifestavam-se, podiam gritar e fazer piadas sobre Otelo, Iago e Desdêmona, mas, hoje, fazer isto seria uma tremenda falta de educação e eu até concordo. Pô, já imaginaram um cara berrando ao nosso lado, fazendo-nos perder as falas?

A possibilidade de amar, de ser indiferente ou de detestar o próprio time, de ridicularizar e sentir medo do adversário, de aplaudir ou desejar a própria derrota é exercida plenamente apenas quando estamos no estádio. Não sinto e, mais, acharia ridículo sentir tanta coisa na frente da TV. A maravilha está no campo de batalha e no leque de opções por ele oferecidas. Na proximidade do fato e no oscilar entre o píncaro da glória e o possível funeral está o fascínio da coisa.

Acho que a narração da TV deveria ser substituída pelo simples som ambiente do estádio. Sério! Apenas ele, o som, os gritos e cantos da torcida, quiçá o som da casamata com as ordens, palavrões e lamentações dos técnicos. Quem sabe umas mensagens escritas, indicando o tempo de jogo e as substituições. Sim, sei que sou lido por vários jornalistas e eles poderiam (e até deveriam) chamar o sindicato para intervir num caso desses, mas quando lembro de Galvão Bueno e alguns “famosos alguéns” de nosso Rio Grande, fico com esta posição.

Miles Davis, o inquieto do jazz

Por Paulo Moreira*
Publicado no Sul21 em 28 de setembro de 2013

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Lembro bem do dia em que Miles Davis morreu. Era um sábado e eu estava em casa com as minhas filhas quando a notícia surgiu no Jornal Nacional com aquela brevidade bem estilo Globo. Fiquei atônito. E fui ouvir os meus discos. Um deles, o álbum duplo Get Up With It, tinha uma história particular. Lá por 82, 83, eu e os meus amigos de sempre, Mauro Magalhães e Marcelo Jardim, tínhamos feito uma excursão exploratória no subsolo da Yes Discos, lá na esquina da Borges com a Salgado Filho. Alguém tinha nos dito que havia uma liquidação de discos de jazz. E eu encontrei esta pérola, importada, a um precinho camarada. É claro que comprei. Qual não foi a surpresa ao me deparar com o que estava naquele LP. Uma música densa, muito percussiva e com o Miles tocando órgão (!!!) ao invés do seu habitual trompete. De qualquer maneira, a música me intrigou. O disco era uma homenagem ao grande mestre Duke Ellington e a primeira faixa era uma viagem de mais de 30 minutos chamado He Loved Him Madly, ou seja “Ele o amava loucamente”, que era o sentimento de Miles em relação ao grande Duke.

Miles Davis em foto de Jan Persson

Miles Davis em foto de Jan Persson

Recentemente, esta história teve seu círculo fechado. O flautista da canção, Dave Liebman, esteve em Porto Alegre para fazer um concerto com o Edu Martins Trio e a OCTSP. Numa das conversas que tive com Liebman, ele contou que Miles, ao saber da morte de Duke, lhe disse que deveriam fazer alguma coisa musicalmente como um tributo ao mestre. Um mês depois, Liebman foi chamado aos estúdios da Columbia por Miles que lhe disse: “pegue sua flauta e toque alguma coisa”. O músico lhe atendeu e Miles deu por encerrada a gravação. Qual não foi a surpresa de Liebman quando o LP foi lançado. Seu solo de flauta se estendia por incontáveis minutos, obra do grande parceiro e “montador” dos discos de Miles da década de 70, o saxofonista e produtor Teo Macero. Assim funcionava a mente musical de Miles Davis. Um gênio que muitas vezes, mostrava as outras facetas — nem tão bonitas e agradáveis — de seu caráter aos músicos, ao público, à crítica e à Polícia de Nova Iorque.

foto: divulgação

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Nascido em Saint Louis, filho de uma família de classe média — uma raridade na década de 20 –, Miles Davis ganhou seu primeiro trompete aos 13 anos. Foi descoberto pelo também trompetista Clark Terry e foi estudar na Julliard School of Music, em Nova Iorque. Em plena era do bebop, o jovem trompetista foi fisgado pelos sons de Dizzy Gillespie e, especialmente, de um saxofonista alto que estava fazendo sua particular revolução no jazz: Charlie Parker. Logo, estava tocando no quinteto do saxofonista e gravando com o baterista Max Roach e com os pianistas Bud Powell e John Lewis. Inquieto como sempre foi, Miles tinha um jeito diverso, mais relaxado, de tocar o frenético bebop. E, ao se juntar ao sax barítono Gerry Mulligan e ao arranjador canadense Gil Evans, perpetrou sua primeira revolução na história do gênero: o Cool Jazz, em gravações avulsas com noneto que, com o surgimento do long-play, foram reunidas num volume chamado The Birth of the Cool.

Porém, esta primeira revolução seria seguida de um período difícil de luta contra o vício da heroína. Para se livrar da droga, Miles voltou a Saint Louis, se enfurnou na casa da fazenda de seus pais e só saiu de lá depois de passar pelo cold turkey, a temida síndrome de abstinência. Ao voltar para Nova Iorque, juntou-se a um grupo de jovens músicos muito talentosos que marcariam o seu primeiro grande quinteto: John Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo acústico) e Philly Joe Jones (bateria). Com eles, gravou grandes discos para dois selos diferentes: Prestige, onde estava contratado, e Columbia, para onde foi “desviado”. Para cumprir o contrato com a primeira, teve de enfrentar duas monumentais sessões de gravação que resultaram nos discos Relaxin’, Workin’, Steamin’ e Cookin’, verdadeiros paradigmas da música que se fazia na época.

Ele desfez o primeiro grande quinteto porque Coltrane e Philly Joe Jones estavam mergulhados na heroína. Ele tinha largado e, no horizonte, estava disponível seu velho amigo Gil Evans. Com ele, Miles gravou três discos em sequência que se inscreveram na história do jazz como exercícios estilísticos com uma big band: Miles Ahead (1957); Porgy and Bess (1958); Sketches of Spain(1959/60). Mais adiante, a Columbia lançou outras gravações num LP, aí flertando com a bossa-nova e com a música brasileira, chamado Quiet Nights (1962). Sempre ranzinza, Miles reclamou deste lançamento, dizendo que era apenas meio álbum. No meio de tudo isso, o incansável Miles reformou seu quinteto, trazendo de volta Paul Chambers e John Coltrane (já recuperado do vício da heroína e começando a atravessar uma fase mística), buscando na Flórida um professor e saxofonista alto chamado Julian Adderley que, de tão gordo, era chamado de Cannonball (bola de canhão), o baterista Jimmy Cobb e a suprema heresia para o público negro: um pianista com cara de professor de matemática de colégio, Bill Evans.

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Gravou então o que é considerado, hoje em dia, como um dos maiores — se não o maior — disco da história do jazz: Kind of Blue. Tanto Miles quanto Evans estavam intrigados com os experimentos sonoros do compositor e arranjador George Russel com a música modal. Neles, eram usados modos ao invés de progressões de acordes para liberar os solistas. E com um time daqueles, o resultado só poderia ser um clássico da história da música. O problema é que cada um dos músicos participantes tinha seus próprios planos. Evans com seu trio, Cannnoball com seu quinteto e Coltrane com o quarteto.

De 1960 até 64, Miles procurou incansavelmente um novo grupo de músicos que se adequasse ao seu estilo de tocar. Passaram pela banda os saxofonistas George Coleman, Hank Mobley, Sonny Stitt e Joe Henderson. Esta busca terminou quando um baterista de 17 anos chamado Tony Williams e um pianista de 23 chamado Herbie Hancock entraram para a banda que já tinha o baixista Ron Carter. Faltava o saxofonista. Que estava tocando com Art Blakey & The Jazz Messengers: Wayne Shorter. Quando este aceitou o convite, formou-se então o segundo grande quinteto da carreira de Miles. Durante cinco anos, este grupo barbarizou o mundo do jazz com seu “freebop”, um hard bop com pitadas de modal jazz. Entre os discos gravados por este grupo, destacam-se Neffertiti e Sorcerer, ambos de 1967. Mas a inquietude de Miles não dava tréguas.

Fã confesso dos experimentos eletrônicos do Karlheinz Stockhausen e do rock de Jimi Hendrix (com quem quase gravou), além do soul de Sly and Family Stone e James Brown, Miles resolveu adotar a linguagem elétrica nos seus trabalhos. Trouxe da Inglaterra o baixista Dave Holland e o guitarrista John McLaughlin, acrescentou à mistura os pianistas Chick Corea e Joe Zawinul, ambos pilotando os recentes pianos elétricos Fender Rhodes, e o baterista Jack DeJohnette. Com eles, gravou o disco In a Silent Way (1969), seu primeiro grande experimento elétrico. A consagração viria no mesmo ano com o seminal Bitches Brew, um marco na história do jazz, incorporando as sonoridades do rock ao jazz, utilizando instrumentos elétricos e inaugurando uma nova fase no gênero, o jazz-rock. Este disco é tão importante para o desenvolvimento do jazz que cada instrumentista foi fazer seu próprio trabalho. Wayne Shorter, Zawinul e Airto Moreira fundaram o Weather Report. Já Chick Corea se juntou ao baixista Stanley Clarke e ao saxofonista e flautista Joe Farrel e montou o Return to Forever. John McLaughlin já havia participado do grupo Lifetime com Tony Williams e criou a lendária Mahavishnu Orchestra. Hancock e o claronista Bennie Maupin formaram o Headhunters.

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E Miles seguiu em frente, experimentando cada vez mais durante os cinco primeiros anos da década de 70. Nos discos desta fase, destacam-se o já citado Get Up With It e On the Corner. Mas, em 1975, a máquina começou a enguiçar. Anos de uso de drogas mais um problema no quadril fizeram Miles sair do circuito por cinco anos e se entocar na famosa casa de Malibu, palco de histórias que não devem ser contadas para as crianças. Ele só voltou em 1981, ajudado pela atriz Cicely Tyson, com quem havia retomado o relacionamento, e escudado pelo baixista Marcus Miller, responsável por grande parte da música nos seus últimos dez anos de vida. Seu retorno foi morno com The Man With the Horn, mas o negócio esquentou com o disco ao vivo We Want Miles (1982) e Star People, uma investigação do blues pela ótica de Miles Davis.

Seus últimos anos de vida foram marcados pela polêmica em que se envolveu com o também trompetista — e jovem adversário na Columbia Records — Wynton Marsalis. Representante da turma dos neoclássicos, Wynton desdenhava os experimentos estilísticos de Miles, afirmando que “aquilo não era jazz”. Arrogante como sempre, Miles mandou o guri calar a boca, dizendo que ele era “um jovem legal, apenas confuso”. Os discos foram se acumulando: You’re Under Arrest (1985); Tutu (1986), fruto de seu novo contrato com a Warner Brothers; Amandla (1987) e o derradeiro Doo-Bop (1991), um experimento com o hip-hop. Miles Davis morreu de pneumonia e insuficiência respiratória em 29 de setembro de 1991. Postumamente, foi lançado um disco feito meses antes de sua morte no Festival de Jazz de Montreux, quando o maestro Quincy Jones montou uma orquestra para regravar os arranjos de Gil Evans. Miles participou de algumas faixas, mas já estava doente.

Uma lenda da música do Século XX, Miles Davis foi um dos mais importantes músicos de jazz de todos os tempos ao lado de Duke Ellington e Louis Armstrong. Ele passou por várias revoluções na música, começando com o bebop dos anos 40, o cool jazz no início dos anos 50, a música modal do disco Kind of Blue e o jazz elétrico dos anos 70. Além disso, passeou por inúmeros estilos, sempre deixando impressa sua marca de trompetista e  bandleader. Seu modus operandi era o de juntar sempre os melhores e dar espaço para que seus talentos pudessem acrescentar qualidade à sua música. E nisso ele foi mestre. Poucos líderes tiveram à sua disposição nomes como John Coltrane. Phlly Joe Jones, Paul Chambers, Bill Evans, Cannonball Adderley, Herbie Hancock, Tony Williams, Wayne Shorter, Chick Corea, Joe Zawinul, John McLaughlin, Dave Holland, Jack DeJohnette, Lenny White, Bennie Maupin, Dave Liebman, Keith Jarrett, Marcus Miller, Mike Stern, Al Foster, John Scofield, Branford Marsalis, entre muitos outros. Nestes 22 anos sem Miles, a música ficou certamente mais pobre.

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* Paulo Moreira é jornalista e radialista há 32 anos. Apresenta diariamente há 14 anos na FM Cultura o programa SESSÃO JAZZ, que vai ao ar de segunda a sexta, das 20h às 22h. Além disso trabalha na Coordenação de Música da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, na assessoria de imprensa e na curadoria dos projetos “Sons da Cidade” e “POA Instrumental”. Tem duas filhas, uma neta e, especialmente, é colorado.

Bom dia, Abel Braga

Tu não me engana, Abel...

Tu não me engana, Abel…

Abel, já te disse e não vou mais repetir: estás muito gordo.

E olha, meu amigo, no futebol, eu acho que só fiz uma coisa nos últimos quatro anos: esperei que a Era Luigi terminasse. E isso ocorrerá finalmente em dezembro. Este retorno ao Brasileiro tem a tua cara, Abel, mas também a de nosso presidente. Confessa, a folga da Copa do Mundo foi uma espécie de licença-prêmio, né? Vocês só fizeram treinamentos leves e bate-papos. Viram bem a Copa e não ensaiaram nenhuma jogadinha nova, acertei? Confirma, vai.

Nos jogos-treino do Inter, contra Metropolitano, Joinville e Novo Hamburgo, perdemos duas e empatamos uma. Foram jogos feios, com expulsões e tudo. Aquilo já cheirava mal, mas estávamos mais atentos à queda do Brasil na Copa. Ontem, em nosso primeiro e importante jogo oficial, conseguiste errar na escalação após dois meses “observando o time”. Escolhido por ti pelo espetacular rendimento nos treinos, João Afonso errou passes, esteve perdido, tomou cartão, deixou espaços e teve que ser substituído ainda no primeiro tempo por Cláudio Winck. Só que aí já estava 2 x 0 para Corinthians. Foram dois gols em dois minutos, lembrei do Felipão.

Não ouvi tua entrevista de final de jogo — não quis ouvir, entende? –, mas espero que tu não tenhas demonstrado laivos de orgulho por ter arrumado o time com a mudança e sim tenhas sugerido alguma tristeza pela má escolha. De resto, teu time esteve lento, deprimido, previsível, frouxo e sem centroavante. E o pior é que fiz check-in para ver Inter x Flamengo no Beira-Rio… Abel, o Flamengo é o lanterna do Campeonato, vê bem o que tu vais fazer!

O Aránguiz volta?

Pessoal, eis o cartaz de meu novo filme, “Não fechem minhas abas!”.

A obra é do amigaço Carlos Latuff, como não seria? Obrigado.

Milton Ribeiro era um homem pacato, até que...

Milton Ribeiro era um homem pacato, até que…

Ah, tá, vai contar pra mim que tu não é imigrante?

Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Caxias auxilia os ganeses a encaminhar documentos | Foto: Rafael Lopes/ Câmara de Vereadores de Caxias do Su

Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Caxias auxilia os ganeses a encaminhar documentos | Foto: Rafael Lopes/ Câmara de Vereadores de Caxias do Sul

Minha namorada é uma brasileira nascida em Mogilev, na Bielorrússia. Eu sou um brasileiro neto de portugueses nascidos numa pequena localidade próxima de Aveiro, em Portugal. Minha namorada chegou aqui com menos de 30 anos de idade, é altamente qualificada e logo conseguiu emprego. Depois, fez concurso para uma orquestra sinfônica, obtendo vaga. Meu avô, de formação menos sofisticada, chegou mais ou menos com a mesma idade e trabalhou como estivador em Porto Alegre. Depois, o velho Manuel abriu sua padaria, chamada Lisboa.

Nossos imigrantes adoram contar histórias fantasiosas de suas famílias. A maioria delas é absolutamente mentirosa. O pessoal veio para cá porque era pobre. Muitos passaram fome. Ninguém era nobre nem tinha ligações com a realeza. Somos quase todos imigrantes recentes. A maioria de nós, brasileiros, somos netos e bisnetos de famílias pobres europeias que estão aqui há menos de dois séculos. Se não somos descendentes de europeus, somos descendentes de escravos que chegaram antes dos primeiros por aqui.

Acho triste, acho revelador de pobreza de conhecimento de sua história familiar e do Brasil, quando alguém reclama dos haitianos, dos médicos cubanos e agora dos ganeses. Somos quase todos imigrantes. E recentes.

Além do mais, quando se torce o nariz — especialmente para os que chegam dos países citados acima — há racismo embutido. E há também o preconceito de classe. Afinal, haitianos, cubanos e ganeses são gente normalmente pobre. Assim como meus parentes, eles passavam fome no local onde nasceram ou moravam. Que coincidência, não? Se fossem brancos europeus, talvez fossem saudados como pessoas do primeiro mundo reconhecendo boas possibilidades em nosso país. Já li reportagens ufanando-se disso.

Há imigrantes que, como os haitianos, cubanos e meu avô, vieram simplesmente buscando oportunidades, mas há aqueles que vieram atender nossas necessidades de mão-de-obra. Seus fluxos migratórios atendem à demandas por força de trabalho no Brasil, onde determinadas ocupações já não são preenchidas apenas por brasileiros, como operários da construção civil, empregadas domésticas, costureiras, etc.

A imigração é um fenômeno mundial, assim como a exploração das fragilidades dos imigrantes. Assim, devem ser protegidos e auxiliados. O fato da maioria de nossos antepassados ter sido explorada quando aqui chegou é mais um motivo para tratarmos bem os que, agora, chegam em busca de sustento para construir nosso país. Esse papo crescente de ajudar os brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, do está ruim sem vocês, pior com vocês, é de uma tolice vergonhosa. Ainda vindo de quem não suporta o Bolsa-Família…

Não penso que o velho Manuel tenha vindo para o Brasil a fim de roubar o emprego de algum brasileiro que chegou um pouco antes. Não gostaria de pensar que ele sofreu preconceito. Então, tratemos os ganeses como seres humanos que estão fazendo agora o que nossos ascendentes fizeram há pouco tempo, tá? Não é gente inferior, não. É gente necessitada, apenas.

Dois excelentes CDs vindos do passado

Minha mãe costumava dizer que não se interessava por “música perecível”. Admirava-se quando alguém ia correndo comprar um disco novo, pois a coisa mais natural, segundo ela, seria esperar uns dez ou quinze anos para avaliar o que sobrara do trabalho do músico.

Fui à Cultura com um objetivo preciso: o de comprar o CD de Mônica Salmaso com os afro-sambas de Baden e Vinícius e o disco de 1973, agora CD, de Edu Lôbo. Sobre o primeiro, tinha recebido por parte de um amigo uma intimação peremptória: “Ouve!”; sobre o segundo, a intimação era interna. São dois trabalhos espantosos e antigos; se o disco de Edu tem 41 anos, o dos afros completarão 19 anos neste 2014. O CD de Mônica está fora de catálogo, o de Edu foi encontrado facilmente.

Mônica Salmaso apresenta os afros-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes ao lado do violonista Paulo Bellinati. Ou será que é Bellinati quem convida Mônica para cantá-los a seu lado? Provavelmente a última suposição é a correta; afinal, seu nome aparece com maior destaque no CD e ele é o produtor. Mas a ordem tanto faz. Mônica Salmaso é uma cantora imensa. De voz meio entubada, é uma mezzo de musicalidade, emoção e elegância mais encontráveis no jazz norte-americano. A facilidade que parece ter para cantar e seu colorido são um deleite que, na primeira audição, obrigou-me a deitar no sofá da sala para ficar ouvindo apenas. O violonista Bellinati possui aquele tipo raro de virtuosismo que está inteiramente voltado para a música. Os arranjos são seus.

O CD é rigoroso. Trata-se do clássico recital voz e violão de princípio a fim. Apesar do termo “afro-samba” nos sugerir imediatamente percussão, não há outros músicos no projeto – e eles são mesmo desnecessários. Os sambas mais líricos têm arranjos lindíssimos e os mais agitados têm o freio de mão um tanto puxado, provavelmente em nome da unidade do trabalho. Este CD deveria ser um best-seller divulgado pela grande imprensa, mas aparece mais pela propaganda que as pessoas fazem. Aqui no sul, Arthur de Faria o divulga insistentemente, assim como a todos os trabalhos de Mônica. Das 11 músicas, só teria restrições a “Canto de Xangô” que gostaria que estivesse mais próxima da gravação que meu pai ouvia em casa… Mas desconsiderem, por favor! Se você ainda não ouviu este CD, se não tem nada contra aquela música popular (ou seria impopular?) que é para ser ouvida pelos ouvidos e não pelas pernas, não sabe o que está perdendo.

Conheci Edu Lôbo quando era criança. Minha irmã era uma adolescente apaixonada por sua música e pelo próprio Edu que, com sua cara de bom menino, provocava efeitos em seu precário equilíbrio hormonal. Enquanto todas as moças culturalizadas suspiravam por Chico Buarque, ela o descartava em favor do “muito mais charmoso” Edu, um carioca do Rio de Janeiro, filho do também compositor Fernando Lôbo. Se Chico não fazia com que o sangue de minha irmã errasse de veia e se perdesse, ela ia para não voltar com Edu, nem que fosse só prá dizer adeus. O mesmo já lhe acontecera quando do episódio Beatles. Suas colegas colecionavam posters de Paul McCartney e John Lennon, mas o amor de minha querida irmã ia para o tímido George Harrison. Talvez por isto ela tivesse tão poucos posters.

Já eu o via como o principal adversário de Chico Buarque nos festivais da Record, o que não era pouca coisa. Depois disto, com uma pequena ajuda da ditadura militar, este pessoal foi levado para o exílio. Chico ficou entre a Itália e a França, Gil e Caetano foram para a swinging London e Edu foi estudar música nos Estados Unidos. Ao retornar, gravou este Edu Lôbo (1973), também conhecido como Missa Brevis.

Naquela altura, eu tinha 16 anos e ficava muito contrariado com as gravações que tínhamos no Brasil. Toda a atenção era dada aos cantores, os músicos só podiam tocar a introdução e acompanhar a estrela. Os arranjos eram previsíveis e a desafinação era tolerada. (Será que nossa música de consumo mudou muito?) Ouçam os primeiros discos do Chico para conferir o fato. Já este Edu Lôbo era totalmente diverso. Os arranjos eram sensacionais e, de forma muito peculiar, a grande música de Edu estava perturbada por Bartók e Stravinski.

É difícil destacar as melhores faixas deste trabalho. Minhas preferências são Gloria – que faz parte da Missa Breve -, Vento Bravo, Viola Fora de Moda e Zanga, zangada.

Creio ter ouvido este disco diariamente por meses em 73 até o dia em que minha proverbial generosidade resolveu emprestá-lo a um “amigo” que está com ele há mais de 30 anos… Recuperei-o só agora.

Ospa em noite de trocadilhos fáceis e de um flute hero

Após o concerto de ontem, a Ospa mereceria este sorriso e charuto do mestre.

Após o concerto de ontem, a Ospa mereceria este sorriso e charuto do mestre.

Não terei tempo para escrever com maiores cuidados a resenha do concerto de ontem à noite no Salão de Atos da UFRGS. Então, vou iniciar pelo final: foi muito bom. O maestro Carlos Prazeres entregou-se à música e o resultado foi bom para mim e para todos. Mas poderia ter sido ainda mais satisfatório… O público cometeu um grande erro. O excelente pianista georgiano Guigla Katsarava daria seu bis se voltasse pela terceira vez ao palco, puxado pelos aplausos. É a praxe, gente! E falamos com ele! Como o pessoal cessou de aplaudir logo após a segunda entrada, ficamos chupando o dedo. Ele tocou maravilhosamente o Concerto para piano nº 1, Op. 23, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

Este concerto abriu a função. Foi composto entre novembro 1874 e fevereiro de 1875 e revisto no verão de 1879 e novamente em dezembro de 1888. É uma das mais populares composições de Tchaikovsky e está entre os mais conhecidos concertos para piano. Embora a estreia tivesse sido um sucesso de público, os críticos não ficaram nada felizes. Um deles escreveu que “não estava destinado a se tornar famoso”. Errou feio.

A execução da obra foi magnífica. Katsarava  trouxe um sotaque autenticamente russo a Tchaikovsky. A orquestra esteve muito bem e, logo após o segundo movimento, anotei apressadamente no programa: “Klaus Volkmann, que bonito, que delicadeza! Javier tb mto bem!”.

O feito de Klaus é digno de nota, ainda mais que eu soube depois, através de fontes ligadas à orquestra, que ele tinha deixado cair no chão o estojo de sua flauta, avariando o instrumento. Imaginem que ele tocou num INSTRUMENTO EMPRESTADO do segundo flautista! Com todos os solos que fez — era uma noite em que Klaus seria especialmente exigido — e com a extraordinária qualidade deles, dá para se ter uma ideia da magnitude do feito. Poucos conseguiriam. É como se ele tivesse saído do banco de reservas, após longa lesão, para virar o jogo. Porra, Klaus, foi demais!

Depois veio Batuque, de Alberto Nepomuceno (1864-1920), espécie de micro-Bolero de Ravel. O cearense Nepomuceno tem o mérito de ter sido um dos precursores do nacionalismo musical, que explodiu mesmo com o talento de Heitor Villa-Lobos

Por falar nele… E veio a melhor peça da noite, o Choros N° 6, de Villa-Lobos. Escrita para orquestra em 1926, a peça só foi estreada no Rio em 1942. É irresistível. Meus sete leitores sabem, tenho o coração duro e o derramamento de mel promovido por Tchaikovsky apenas me agradou parcialmente. Gostei mesmo foi do Choros, espécie de passeio musical — de trem, como Villa gostava de trens! — por bairros e cidades da periferia do Rio de Janeiro. É uma obra de primeira linha, com episódios muito belos, seresteiros, carnavalescos, chorados e contrastantes. O que anotei apressadamente no meu programa? “Klaus de novo, abrindo maravilhosamente os trabalhos. Não esquecer do Calloni (corne-inglês), do Tiago (trompete), o belo sax soprano do Carlos Gontijo e o clarinete do Samuel de Oliveira.”. Porra, Klaus!

Grande concerto.

Ao centro da foto, Elena Romanov, com Klaus logo atrás.

Ao centro da foto, Elena Romanov, com Klaus logo atrás, à direita | Foto: Olga Markelova Medeiros

Programa:
Pyotr Ilyich Tchaikovsky: Concerto para piano nº 1, Op. 23
Alberto Nepomuceno: Batuque
Heitor Villa-Lobos: Choros n° 6

Regente: Carlos Prazeres
Solista: Guigla Katsarava (piano)

Luciana e o hedonismo

Sexta-feira à noite. Finalmente chegara o dia que Luciana temia: aquele no qual, depois de meses desempregada, deixaria de pagar suas contas. Na sua frente, sobre a mesa da sala, estavam o aluguel, a luz, a água, algumas faturas de cartões de crédito e outras assombrações. Viu que sua conta bancária estava quase chegando ao limite do cheque especial – faltavam apenas R$ 15,59 para encostar lá -, e decidiu que segunda-feira trataria de entrar em contato com seus futuros credores para evitar o que pudesse ser evitado, sabe-se lá como.

Acordou no sábado ainda com os documentos sobre a mesa. Seu desalento era completo. Precisava de um dinheiro qualquer e procurou na agenda do celular algum amigo que pudesse emprestar-lhe o necessário para a comida e o gás de cozinha. Ligar para sua mãe estava fora de cogitação. Enquanto passava por nomes de conhecidos, viu, num cantinho, sob a papelada remexida no dia anterior, um cartão. Pegou-o. Era um cartão de crédito recebido meses atrás, quando ela ainda tinha emprego. Um desses que a gente recebe sem pedir, pelo correio. Revirou-o de um lado para outro. Digitou no celular o número do desbloqueio. A ligação era gratuita. Recitou seus dados para a atendente e ocorreu o milagre. Nascia a possibilidade de gastar mais R$ 4.000,00.

Foi ao supermercado e pôs no carrinho boas quantidades dos produtos de consumo básico. Leite em pó, arroz, feijão, frango para congelar, sabonete, detergente, pasta de dentes e o último chocolate, uma extravagante caixa de Bis ao custo de R$ 3,97. Eram estes seus víveres para a guerra que tinha pela frente. Caminhou em direção ao caixa e pagou R$ 346,32 com o novo cartão. Funcionou! Foi auxiliada por um funcionário do supermercado no transporte das compras, mas antes avisou que não tinha dinheiro para gorjeta.

- Não tem problema, moça. Eu levo assim mesmo.

No caminho, pensou naquele blogueiro que tinha a mania de estampar belas mulheres todos os sábados. Para ele o sábado devia ser uma festa, é o dia em que ele pode enfim gastar os milhares de reais ganhos em uma semana de trabalho. Deve ser rico, o filha da puta. Rico e machista. Só como vingança, eu deveria publicar fotos de homens no meu blog, para mostrar que também tenho desejos. E grandes desejos – de uns 15 cm, no mínimo – e pesados – de 70 Kg para cima. Merda. Vou ver quem ele colocou hoje.

Chegando em casa, não resistiu a dar R$ 2,00 ao menino, guardou as compras e sentou-se frente ao computador. Tenho que vender esta porcaria antiquada, refletiu. Olhou o blog do infeliz e viu várias fotos de uma peituda. Credo, como os homens são patéticos, mas bem que eu gostaria de um que tivesse um emprego. Decidiu não deixar comentários no post, o Milton que se fodesse.

Saiu a caminhar pela rua pensando no que fazer com o cartão e em como arranjar logo emprego e companhia. Mais víveres? Talvez. Achou que o cartão poderia ajudar também na companhia. Iria ao bar do Beto naquela noite; suas amigas diziam que qualquer mulher saía de lá casada, se quisesse. Deixaria todos os pruridos de lado, podia ser um velho grisalho, carente e impotente que ela agarraria do mesmo jeito. Passou por seu antigo colégio e pela igreja que frequentara na infância. Subiu a longa escadaria da Igreja das Dores e entrou, buscando tranquilidade e inspiração. Fazia anos que não entrava numa e achou cômica uma velhinha de preto ajoelhada no confessionário. Que pecados poderia estar expiando? Provavelmente tinha envenenado o gato da vizinha.

Sentou-se e bocejou longamente. Viu a velhinha levantar-se e, para pasmo próprio, levantou-se e ajoelhou-se no confessionário.

- Bom dia, padre.

- Bom dia, minha filha.

- Padre, eu preciso de uma solução urgente para minha vida. Estou desempregada e caindo em desespero.

- Como é seu nome?

- Luciana, mas me chame de Lu.

- Lu, pense em Cristo que morreu por nós…

- Padre, por favor.

- Sim?

- Sou uma mulher adulta, não vou perder meu tempo com carolices e preces. Quero conversar.

O padre silenciou por instantes. Então ela o ouviu dizer:

- Vamos conversar, então.

- Quero uma opinião pessoal.

- Vou lhe dar a opinião pessoal de um padre, de um religioso, de alguém que dedicou até hoje sua vida ao Criador.

- Que seja.

- …

- Bom, acabo de decidir que vou utilizar um cartão de crédito apenas em atividades que me levem ao prazer. Acho que o prazer de ir à bares poderá me levar ao prazer de obter companhia masculina e isto pode significar, se eu for competente e legal com o cara, financiamento da minha comida, ao menos. Além disso, se eu gastar um pouquinho… ou melhor, esqueça… Não, é que acredito que o prazer de comprar algumas roupas poderá me levar a ter uma melhor apresentação e me auxiliará a encontrar um emprego. E um homem, quem sabe.

- Um hedonismo útil?

- Sim, é uma boa definição, padre.

- Lu, o hedonismo pode consistir em prazer sensorial imediato ou em prazer moral. Epicuro, por exemplo, não liga a idéia de hedonismo ao prazer imediato e fugaz. Este, o hedonismo sensorial, seria inferior; o espiritual é inequivocamente superior. Esta é uma das razões pela qual abracei a religião.

Seguiu-se um longo silêncio que foi quebrado pelo padre.

- E o verdadeiro hedonismo só existe se houver sofrimento.

- Como?

- O prazer se tornaria chato e até o evitaríamos se fosse seguido sempre de mais prazer.

- Ah, padre, não sei não. Se o Sr. soubesse da minha pindaíba não diria isso!

- Se você não conhecesse a pindaíba, se conhecesse apenas a segurança, talvez te tornasses desinteressada e entediada, que são outras desgraças a serem evitadas. Talvez inventasses problemas e deixarias tua segurança, digo, teu dinheiro, no psiquiatra, como tantos fazem.

- Para com isso, meu! Queres dizer que a segurança é tão ruim quanto a insegurança? Esse papo só serve para o conservadorismo da igreja.

- Não, Lu. Eu só estou te explicando…

- Que a felicidade não existe?

- Preste atenção, veja minha missão: aqui onde estou, neste confessionário, há tanto a necessidade do Mal quanto do Bem. O pecado é tão dialeticamente necessário quanto os bons atos.

- O Sr. quer dizer que o hedonismo, para ser hedonismo, precisa do sofrimento para justificar-se, como um contraste para que o hedonismo possa ser hedonismo?

- Certamente.

- O hedonismo não teria a menor graça se não fosse seguido de desprazeres ou de algo menor? Ou pior?

- Muito pior, Lu. Senão não teria graça.

- O Sr. é padre mesmo ou invadiu a casinha aí?

- Sou padre sim. Mas acredito em dialética. O que há de errado nisso?

- Não sei. É que o Sr. abandonou a bobajada católica com tanta facilidade….

- Não diga isso, Lu.

- … que mais parece um livre-pensador.

- Nenhum de nós é livre-pensador, Lu. Isso não existe, nenhum de nós é independente, só a indiferença é livre, todos temos compromissos. Aliás, outrora, eu mesmo contava uma piada sobre esse tema. É curta: “O mais feliz dos subordinados na Terra é o Papa de Roma, porque todos os dias pode contemplar seu chefe crucificado!”.

Lu deu uma gargalhada que ecoou na igreja. O padre não gostou.

- Lu, que desrespeito!

- O quê, minha risada?

- Claro.

- Culpa sua. Não devia contar piadas, só abençoar e mandar rezar.

- Não era isso o que você queria.

Novo silêncio, desta vez quebrado por Luciana.

- O que devo fazer com meu cartão?

- Não posso entrar na sua vida privada.

- Como não? É o que a igreja faz sempre! Se eu lhe perguntasse se deveria transar com uma amiga o Sr. teria resposta. Por que não pode falar sobre o cartão?

- Luciana, Luciana. Não vou te explicar os conceitos fundamentais da religião católica.

Após dizer isto ele riu, como se estivesse deliciando-se previamente com o que iria dizer. Porém, Luciana ouviu um simples

- corrijo dizendo que não devo entrar em tua vida econômica.

- Karl Marx disse que a economia está em tudo. E está.

- Deus está em tudo, Lu.

- …

- Tudo bem. Dialeticamente, já expiaste tua dor analisando tuas contas e tuas terríveis perspectivas. Não foi uma anedonia, que é o contrário perfeito do hedonismo, formando uma unidade dialética com ele, mas, enfim… dou-te uma penitência inversa. Beba, dance e compre belas roupas. Só não diga que um padre te aconselhou a isso.

- E o Sr. me abençoa? O Sr. reza para que a anedonia não me invada?

- Claro, minha filha. Rezarei também para que um dia você respeite e receba os prazeres morais em tua vida.

- Mas o hedonismo moral não oferece ganhos econômicos, padre.

- Talvez sim, secundariamente.

- É, pode ser.

- Agora vá, rezarei por ti.

- Tá bom, padre. Obrigado.

- Mais uma coisa. Por que a igreja oferece este serviço?

- Porque tanto o pecado quanto a virtude nascem de ideias e o habitat das ideias é o diálogo, é onde se transformam e são testadas. Nós, confessores, não fazemos nada. És tu quem – ouvindo tua própria ideia,  vinda de tua própria voz – faz a correção e a punição.

- Chega, padre. Muita filosofia prum sábado de sol.

igreja das dores

Luciana ficou sentada nos degraus de Igreja Nossa Senhora das Dores por mais de uma hora. Olhava a rua que se descortinava à sua frente com o Guaíba ao fundo e os passantes na Rua dos Andradas. Refletia com o cotovelo no joelho e a mão no queixo. O que faço? De repente, ouviu sons de passos atrás de si, voltou-se e viu um padre descer lentamente as escadas, passar por ela e ir em direção à rua. Seria o padre dialético? Fez uma aposta consigo: se ele dobrasse à esquerda, hedonismo; se à direita, víveres para a guerra.

O padre atravessou a rua e seguiu em linha reta.

Luciana levantou-se e finalmente decidiu: víveres para a guerra, mas hoje, hedonismo! E ligou a cobrar para seu amigo Doni, o escolhido para sua primeira abordagem hedonista. Ele seria a vítima.

A dança pataxó dos alemães

Poucos notaram a dança pataxó que os alemães fizeram em campo.

É que a casa da Alemanha nesta Copa do Mundo foi Santa Cruz Cabrália e lá, no sul da Bahia, os alemães conheceram um pouco dos índios.

“Reunimos os grupos indígenas em um círculo. Acendemos os cachimbos e tocamos os maracás. Aí, em nossa língua, fazemos os nossos pedidos e orações. E os pedidos dessa vez foram para que os alemães vençam”, revelou o cacique. Durante a coletiva, o próprio cacique fez esse pedido a Thomas Müller e a Philipp Lahm. “Primeiro falei que eles exageraram demais contra o Brasil e que 2 x 0 tava bom. Depois, pedi que eles não deixassem a Argentina ganhar”.

Klose celebrou seus 36 anos de vida dançando com os índios, no primeiro contato alemão com a tribo local. De lá para cá, o contato ficou cada vez mais próximo, até a despedida, na última sexta-feira.

Estranho. Eles respeitam os índios.

O aniversário de 36 anos de Klose.

O aniversário de 36 anos de Klose.

Schweinsteiger na festa.

Schweinsteiger e Müller na festa.

A lembrança dos pataxós no Maracanã, em meio à comemoração.

A lembrança dos pataxós no Maracanã, em meio à comemoração.

A Seleção Brasileira me representa?

Você está feliz de ter como presidente da CBF um tipo como José Maria Marín?

Olha, eu assisti aos jogos e não me vinha nenhuma empatia pelo time. Nenhuma. E isso antes dos fiascos. Eu, que acompanho futebol, não reconheço a biografia recente de vários de nossos jogadores — aliás, alguém sabe por qual clube David Luiz atuou no Brasil? (*) — e, quando jogavam os “brasileiros”, o resultado era péssimo. Mas há mais problemas. O futebol sempre foi corrupto, só que nunca tivemos como presidente da CBF alguém tão identificado com a repressão como José Maria Marin. Trata-se de um arqui-anacronismo ungido ao posto do líder que deveria nos levar à Copa de 2014. É preciso estômago. Mais incomodações? Sim. Existe a lembrança de Ricardo Teixeira e a necessidade empresarial que a Rede Globo tem de nos incutir entusiasmo à fórceps.

Independentemente de algumas boas seleções formadas, a CBF (antes, CBD) sempre foi uma entidade nebulosa, comandada por aproveitadores que se alçaram a um duvidoso profissionalismo a partir do impulso dado por seus clubes. E isso não tem jeito, pois no mundo inteiro é assim, as exceções de praxe à parte. (A Alemanha parece ser uma dessas exceções).

O que é irritante é que — mafiosos ou não — os dirigentes da CBF deveriam ser minimamente competentes para formar um time de qualidade, propiciando a todos eles garantias de embolsos fabulosos ou simples fama. Mas a velha classe dominante brasileira é useira e vezeira em matar, uma após uma, as galinhas de ovos de ouro postas pelo povo brasileiro em seu quintal.

Vejo uma tremenda bagunça no meu Inter, também acho que lá a incompetência grassa, mas permaneço fiel. Tenho dificuldades em fazer o mesmo com a Seleção. Será em função da proximidade? 

Bem, por mais que pense não sei explicar este fenômeno de rejeição à Seleção Brasileira que noto em mim e em muitos amigos. Será por que a geração atual não apenas joga muito menos como é por demais inodora, sem dramas, opiniões ou posturas distintas? Não fiquei feliz com os 7 x 1 da Alemanha, mas também não quis me esconder de vergonha. Acabo por não encontrar motivos para torcer pelo combinado montado pela entidade privada chamada CBF, vulgarmente conhecida como Seleção Brasileira.

(*) No Vitória da Bahia, dos 18 aos 20 anos de idade. Jogou apenas 26 vezes e foi vendido ao Benfica.

Porque hoje é sábado, uma mensagem vinda da Alemanha (por Heidi Klum)

Por Francisco Marshall

Recebi esta mensagem para ti, MR, e a transmito, traduzida:
“Querido Milton Ribeiro, cujo nome celebra nosso herói maior, Bach,

Clicando em mim, a imagem fica bem grande, tá?

Clicando em mim, a imagem fica bem grande, tá?

oi, querido.
Duvido que você realmente goste da flauta que vem de seus vizinhos, argentinos.

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Até posso vestir azul, mas é só para poder despir e viver bem meu corpo cheio de fantasia.

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Gosto das praias da América, e de usar bikinis generosos

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mas por solidariedade latino-americana, eu não apoiaria Pinochet, Videla ou Stroessner, menos ainda bravateiros arrogantes que insultam o nosso amado Brasil

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Além disso, estranho que um especialista como tu prefira estes peitos estranhos da argentina, às minhas obras primas.

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Ademais, tenho outros atributos

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Eu também falo castelhano, viu?

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Por estas e outras, e por tudo que te permito sonhar

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É que te peço que analises de modo objetivo

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E aceites meu pedido de reconsideração

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E deixe esses boludos se fuderem sem o seu apoio

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Porque hoje é sábado, porque amanhã vou torcer para Argentina

Creio que o beijo de Pamela David na camiseta da Argentina

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fará com que meus sete leitores

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se agreguem à grande corrente latino-americana

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que varrerá a ameaça germânica de nosso continente.

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A elegância alemã, a gentileza e educação com que nos trataram em campo,

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chegando ao nível da clemência,

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não me enganam.

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Por outro lado, há 5 coisas a considerar ou invejar na decisão de domingo:

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1. o comportamento apaixonado da torcida argentina,

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2. Messi,

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3. a necessária vingança contra nosso algoz,

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