Por um bife, de Jack London

por-um-bife_Jack_LondonJack London (1876-1916) foi “o escritor” de minha infância e juventude e também quem introduziu meus filhos no mundo dos livros. Caninos Brancos, O Chamado Selvagem, Antes de Adão e outros livros de London foram engolidos por nós com grande entusiasmo. Penso até que li O Chamado Selvagem em voz alta para minha filha. London era uma figura singular. Aventureiro e independente desde os 14 anos, o escritor cruzou os Estados Unidos de trem, navegou o mundo inteiro, foi vagabundo de rua, passou fome, trabalhou como correspondente de guerra, tornou-se socialista, foi preso, virou minerador, sucumbiu ao alcoolismo, mas, neste ínterim e sabe-se lá como, escreveu 50 livros, apesar de ter vivido apenas 40 anos.

Com surpresa, vi um livro de London que não conhecia na vitrine da Livraria do Globo da Getúlio Vargas. Adorei o nome da coletânea de histórias: Por um bife e outras histórias de boxeadores. É claro que tratei de lê-lo imediatamente. Já imaginava, são contos naturalistas de um autor de estupenda capacidade descritiva. É leitura fácil e fluente. O assunto central é sempre o boxe que, aliás, também era praticado pelo autor. Por um bife (1909) é excelente; narra a decadência de um velho boxeador que vê a inexorável evolução dos jovens que lhe tirarão o sustento. O mexicano (1911) é um duro relato de um chicano que lutava não pelo prazer do esporte mas por seus ideais. O benefício da dúvida (1910) trata de uma curiosa disputa judicial a respeito de uma briga de rua em que o agredido torna-se réu, tendo por fundo a corrupção de uma pequena cidade; tem final delicioso. O jogo (1905), relato trágico da inocência, é fraquinho. Já O bruto insondável (1911) é a melhor história, sendo um retrato da corrupção do boxe, com suas lutas compradas e apostas.

Não faz falta não ler, mas é, como sempre foi, boa diversão.

Bom dia, Diego Aguirre

Meu caro Aguirre, o Gre-Nal de ontem teve seu principal fato nas arquibancadas, não em campo. Foi bonito ver o vermelho e o azul misturados nas arquibancadas. Na saída do estádio, enquanto descia a rampa, surgiu um gremista levando um menino colorado nas costas. Recebeu aplausos. Imaginem só. O Latuff, que estava comigo, fotografou. Talvez tenhamos cura.

Foto: Carlos Latuff

Um gremista tranquilo entre colorados. Imagem impossível nos duzentos (ou mais) gre-nais anteriores | Foto: Carlos Latuff

A ideia colorada da torcida mista saiu aprovada com louvor. É incrível, mas os gremistas são seres humanos que pertencem à mesma sociedade que pertencemos. Vestem-se com aquele pijama horroroso, mas são como nós. Trabalho com vários, sou amigo de muitos e até o aumento das tarifas de energia será sentido por eles. Olha só que linda estava a torcida mista.

Foto: Carlos Latuff

A torcida mista | Foto: Carlos Latuff

Em campo, o Gre-Nal foi entre os reservas do Inter e os titulares do Grêmio. Jogo trancado, de pouca emoção. Nosso time reserva é um total desentrosamento, Aguirre. Isso só aumenta quanto jogadores que aspiram vaga no time titular tentam resolver tudo sozinhos, casos de Valdívia, Anderson e Vitinho. Nilmar esteve mal, mas há que considerar sua solidão entre os zagueiros tricolores.

Num time bagunçado, a gente mal consegue analisar as individualidades. Nico Freitas é um achado teu, Aguirre. O uruguaio joga demais e acabará empurrando algum Nilton ou um dos armadores para fora do time. Alisson Farias entrou muito bem. Géferson parece ser bem melhor do que o famigerado Alan Ruschel. Rodrigo Dourado é outro bom jogador e Luque aprontou algumas com sua velocidade.

Mas foi uma partida jogada por nossos reservas. Não dá para criar teses. O Gre-Nal serviu para um público de 30 mil pessoas ver que colorados e gremistas podem conviver civilizadamente mesmo num ambiente de disputa. O jogo em si será esquecido. A torcida mista e sua lição, não. Ao menos é o que espero.

Foto: Tales Venâncio

Imagem fófis da tarde: os sulvinteumenses Carlos Latuff, Milton Ribeiro, Igor Natusch, Caio Venâncio e Filipe Castilhos | Foto: Tales Venâncio

Paris, 27 de fevereiro de 2014: Museu da Idade Média e o tal estojo de violino

Era a segunda vez que ia a Paris. Para mim, uma das novidades de nossa viagem foi o acerto ao seguir uma dica de Luís Augusto Farinatti, o Museu de Cluny, oficialmente chamado de Museu Nacional da Idade Média ou Musée National du Moyen Âge. Aliás, ele, Farinatti, andou comentando aqui no blog.

Dos Cadernos de meus Fiascos (volume XXIII).
O que Milton, que é um cara generoso, não conta, é que eu enviei a ele um texto sobre coisas para aproveitar em Paris. E sugeri que pegasse o metrô sempre que não pudesse ir a pé. E disse que o mapa do metrô era uma maravilha.
Não me passou pela cabeça a relação das cores do mapa e o daltonismo do Milton.
Mas isso não tão grave, fica pior se soubermos que, poucos meses antes (ou depois, não lembro). Fiz as mesmas entusiasmadas recomendações a outro amigo que ia a Paris. As mesmas.
Ele TAMBÉM é daltônico.
Uadarrél!!!

Bem, o Museu da Idade Média ficava perto do nosso hotel. Foram 15 minutos de uma agradável caminhada por Paris e pronto. Num ambiente nada feérico, não foi tão fácil tirar fotos. Não é um Museu enorme, mas é muito interessante. A tradução dos nomes das peças é minha. Com minha inexistente cultura religiosa, deve estar tudo errado.

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O cara aí de baixo é um brother meu: é o Imperador Júlio, o Apóstata. Apóstata? Grande cara!

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Abaixo, direto do século XIII, A Virgem e o Menino

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De 1250, um belíssimo altar com o tema do batizado de Cristo.

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Missa de São Gregório, também peça de altar. Essa é a parte da Ceia, claro. A peça, de autoria de Jan de Molder, é de 1513.

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Mais uma Virgem com seu filho. Alegres, não?

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O Beijo de Judas, mais um anônimo, este de 1500.

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A Virgem no Calvário, fins do século XV.

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Paris, 26 de fevereiro de 2014: Morrendo de cansaço no Louvre

Amigos, uma das tantas coisas estúpidas que um ser humano pode cometer é a de sair do Museu d`Orsay e ir direto ao Louvre. As razões são várias. A primeira delas é o cansaço. A segunda é a de que o Louvre talvez demande mais de um dia de visitação. A terceira é que o Louvre é uma demasia. Há coisa demais lá, dá enjoo. Tem quadros pendurados por todo lado, alguns em locais de difícil apreciação. Às vezes, queria ver algo que estava quase no teto. Dói o pescoço. Para piorar, é lotado. Ou seja, é um Museu imenso, lotado de quadros e de pessoas. Então, meus amigos, vou-lhes dar a real. Precisa-se criar uma estrategia de abordagem ao Louvre.

Talvez minha opinião tenha escorrido para a Elena porque ela também sentiu invencível cansaço no momento em que chegou ao Museuzão. É óbvio que o acervo é maravilhoso, é óbvio que existem salas que criam em nós puro encantamento. Então, como disse, acho melhor planejar a visita. Como o bom turista compra aquele ingresso para todos os museus, este poderá entrar e sair quantas vezes quiser de qualquer um deles. Desta forma, sugiro fazer o que não fizemos. Num dia, duas horas de holandeses e tchau; outro dia para os egípcios e tchau, e assim por diante. Porque ficar muito tempo no Louvre não dá. E nós voltamos lá no dia seguinte, claro.

Não colocarei closes da Elena pois ela estava visivelmente cansada. O Louvre cansa! Na foto abaixo, ela olha um quadro.

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Porque hoje é sábado, Elizabeth Taylor

Ontem, observando as fotos de Liz Taylor que a Mônica

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(As Moças Que Costuram)

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postou em seu perfil do Facebook,

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senti-me tentado a reabrir esta defunteada série.

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É que ontem, 27 de fevereiro, foi o aniversário desta deusa.

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Se fosse viva, a londrina Liz teria feito 83 anos e talvez tivesse casado mais vezes.

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(Ela casou oito vezes — duas vezes com Richard Burton).

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Com enorme justiça, Liz foi reverenciada como uma das mulheres mais bonitas

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de todo o cinema de todos os tempos.

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Bom dia, Diego Aguirre / Péssima noite, EPTC (veja os gols da vitória colorada)

Se Sasha faz esse gol... | Foto: Alexandre Lops no site do Inter

Se Sasha faz esse gol… | Foto: Alexandre Lops no site do Inter

Quando saí de casa para o estádio, pensava em pegar um T5 até as proximidades do Beira-Rio. Moro no Bonfim. Chovia. Após ficar 30 minutos na parada, veio o T5, mas era absolutamente impossível entrar no veículo da odiosa Carris. Estava super, hiperlotado. Todos os torcedores que estavam na parada começaram a protestar e o ônibus levou alguns chutes. Não meus.

Então propus um transporte solidário pago. Juntaríamos 4 pessoas e racharíamos um táxi. Assim é nesta cidade da EPTC e do Fortunati: melhor esquecer o transporte público. Ele some quando a demanda é maior. Pulemos para o pós-jogo… Na saída do estádio, havia umas duzentas pessoas na parada da José de Alencar para pegar o famigerado T5. Adivinhem o que houve? Depois de vinte minutos, o ônibus não veio, refiz o esquema e pegamos novo táxi.

Faz poucos anos, havia filas de T5 para pegar os torcedores após o jogo. Dava para voltar sentado para casa, ouvindo as entrevistas coletivas. Mas os tempos de Fortunati são tempos de merda.

Vamos para o campo. Meu caro Aguirre, foi mais ou menos, o que significa que melhorou. Apesar da escalação de Jorge Henrique — que entrou para marcar o lateral adversário e errar passes — e de momentos realmente ruins, o time demonstrou evolução e, quem sabe, futuro. Ainda temos muito desentrosamento atazanando a dinâmica. No primeiro tempo, por exemplo, impusemos total domínio e posse de bola, mas as chances de gol eram só da Universidade de Chile. Os caras cansaram de perder gols em rápidos contra-ataques. O juiz também estava engraçadinho. Sem exagero, aconteceram dois pênaltis claros a nosso favor, porém o pênalti que ele marcou favor, no final do primeiro tempo, foi muito duvidoso. Inter 1 x 0.

Voltamos muito melhor na segunda etapa. Mais elétrico e impedindo os contra-ataques chilenos, passamos ao papel da La U, isto é, perdemos gols sobre gols. Quando Alex entrou no lugar de Vitinho, a coisa virou massacre. O próprio Alex deixou Jorge Henrique na cara do gol para fazer 2 x 0.

Então, relaxamos e, bem, a Universidade não é trouxa e não apenas descontou como nos deu sustos. 2 x 1. Meio cagado, tu colocaste Nícolas Freitas no lugar de Jorge Henrique para progeger a defesa e retomar a tranquilidade perdida. Sasha fechou o placar com um golaço.

Saldo: Réver mostrou que não sairá mais do time e Nilton jogou, finalmente, uma partida parecida com as que fazia no Cruzeiro. Léo também esteve bem e Sasha foi o segundo melhor jogador da partida, logo após o sensacional D`Alessandro. (Sasha tentou uma bicicleta impossível e quase acertou. Seria um gol digno de placa e de ser colocado na abertura de todos os programas de TV que falassem de Libertadores). Alex entrou muito bem. A decepção esperada foi Jorge Henrique, errando passes e armando contra-ataques para os adversários. E o inesperado foi a má atuação de Vitinho, excessivamente individualista para o meu gosto.

Estamos em segundo lugar no Grupo 4 da Libertadores. Seria adequado VENCER o líder Emelec na próxima quarta-feira. Será que terei um T5 para ir ao Beira-Rio?

E vamos para o Gre-Nal. Com ônibus ou sem, até a pé venceremos.

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Os melhores lances começam em 1min11.

Você sabe ouvir música?

Como você ouve música? Há mais de 20 anos, li um artigo do brilhante crítico musical J. Jota de Moraes em que eram descritas as diversas formas de se ouvir música. Se a classificação é do professor, as explicações sobre como age cada grupo são minhas e peço desculpas póstumas a ele pela irreverência de meu texto. Os grupos:

Musica_PernasOs Ouvintes de Grau 1: Os que ouvem com as pernas.

Estes seriam os ouvintes mais primários, os simples. A música (ou o ritmo) que lhes entra pelos ouvidos dirige-se a suas pernas ou à deleção sumária. São as pessoas que ouvem música apenas para dançar ou para servir de fundo sonoro a outras atividades. Na verdade, eles não se preocupam com a fruição do fenômeno musical, pois desejam apenas o ritmo ou o preenchimento de silêncios. As músicas que são tocadas em volume baixo dentro de empresas ou em alguns encontros, são exemplos de música de fundo que está lá não para ser ouvida, mas com a finalidade de preencher alguma lacuna que não conheço, pois nada é preenchido em mim pela chatíssima música-ambiente. A New Age é, em minha opinião, o ápice desta arte que existe para não incomodar. Já a música de dança não pode ser tratada da mesma forma e obriga seu apreciador a fazer movimentos corporais, às vezes a cantar junto (se houver algo a cantar) ou a bater o pezinho, no mínimo. A maioria das pessoas dos outros graus também tem o hábito de dançar, mas muitas delas, se a música for muito ruim, turbinam-se antes com um pouco de álcool. Sendo rigoroso, diria que as pessoas do grau 1 não ouvem música, ouvem ritmos ou tranquilizam-se com o preenchimento dos eventuais silêncios perturbadores.

Musica_CoracaoOs Ouvintes de Grau 2: Os que ouvem com o coração.

Este caso é uma evolução do anterior. Aqui a música já é ouvida, mas desvia-se de seus cérebros e toma um caminho estranho, mais curto que os das pernas: o do coração. Trata-se daqueles seres que ficam relacionando músicas com períodos de suas vidas, são os que ficam amorosos e se aninham a seus amores quando é executada “a nossa música”… Para estes seres, a música existe para lhes sugerir fatos e coisas que estão no mundo ou em sua memória. Normalmente, são pessoas nostálgicas e que ficam facilmente embevecidas. Um dos efeitos colaterais desta postura é que, com a idade, eles não conseguem manter suas contemporaneidades, ficando agarrados às músicas de sua juventude e que são invariavelmente melhores que as atuais… Mais: é perigoso andar de carro com alguém de grau 2. Certa vez, estava de carona com uma figura destas quando um alucinógeno dos anos 80 começou a ser executado no rádio do carro. Aquilo fez com que o motorista de grau 2 ficasse tão transtornado com suas memórias e saudades, que voltou-se para mim a fim de contar sobre um remoto, saudoso e tórrido idílio embalado por aquela melodia. Só que o implacável sinal fechou e J.C.A. foi de encontro a um carro que parara metros adiante. Antevendo a desgraça, levantei os joelhos, porém fui atirado violentamente para a frente e quebrei o painel do carro com eles. Afirmo-lhes que o painel do Toyota Corolla destrói-se facilmente com uma boa joelhada e que nossos joelhos não sofrem absolutamente nada. Nem as calças. Experimente! Voltando a nosso assunto, completo dizendo que o ouvinte de grau 2 têm enorme sensibilidade às melodias, mas não costuma preocupar-se com o restante da música, nem com o trânsito.

Musical mindOs Ouvintes de Grau 3: Os que ouvem com os ouvidos.

Neste caso, a música que nos entra pelos ouvidos vai para majoritariamente para dois locais de nosso corpo: o coração e o cérebro. Depois de passar pelos órgãos citados, o ser de grau 3 pode até dançar e bater o pezinho acompanhando a música, mas ele registra o que está ouvindo. J. Jota de Moraes, segundo lembro, foi bem mais arrogante e chamou este grupo de “Os que ouvem estruturas”. Não quis imitá-lo, mas reconheço a pertinência da expressão. Se a audição do primeiro grupo é determinada pelo bate-estaca e pela não-audição e a do segundo pela melodia, este grupo identifica verticalmente o cluster sonoro oferecido e consegue estendê-lo pelo tempo da música. São pessoas exigentes e normalmente não são compreendidas pelos outros grupos. Por exemplo, detalhes difíceis de serem caracterizados podem provocar-lhes violenta ojeriza. Muitas vezes, a pessoa de grau 3 não sabe porque detesta determinada música. Ele apenas detesta e protesta contra ela, fato que parece uma excentricidade incompreensível às pessoas de grau 1 ou 2. Tais posturas só podem ser toleradas por outro ser de grau 3 que, mesmo discordando eventualmente da avaliação, irá respeitá-la. Estas pessoas podem direcionar seu amor à música para vários estilos. Por exemplo, eu gosto de música erudita, o Tiago Casagrande de heavy metal — e, diga-se de passagem, é inteiramente compreendido pelo ex-roqueiro Milton Ribeiro –, o Idelber Avelar e a Mônica Alves para a música popular brasileira, o Manoel Carlos para suas raízes nordestinas, etc. Certamente, nenhum gênero detém a hegemonia da “boa música”. E a coisa pode piorar: o pianista erudito Nélson Freire gosta de musicais americanos, o guitarrista Keith Richards (Rolling Stones) ama Brahms, Leonard Bernstein dizia que não há nada melhor que Norwegian Wood (dos Beatles), Keith Jarrett disse pretensiosamente que gostaria de ser Bach e Jimmy Page (Led Zeppelin) declarou que preferia ter nascido negro e com o sobrenome King… Enfim, pode haver grande admiração entre os gêneros e há pessoas de grau 3 que são autenticamente “multidisciplinares”, o que é outra coisa incompreensível aos graus 1 e 2.

jjotaObservação final: O ilustre professor da USP J. Jota de Moraes faleceu em 2012. Nos últimos anos, estava ainda muito produtivo e ministrava cursos sobre a História do Violino em São Paulo. Antes, ministrou uma lotadíssima Introdução à Música Contemporânea. Não lembro se a abordagem que ele dava ao assunto continha tantos exemplos e bom humor. Diria que sua seriedade ao criar a classificação era… média. (Mas sei que dizemos muitas verdades usando um tom pouco solene.) Esteja onde estiver, peço muita calma ao senhor cuja foto publico ao lado.

Não me queira mal, professor. (Há um real paradoxo entre seu olhar ameaçador e seus textos, sempre tão gentis.)

Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

A edição da Assírio & Alvim

A edição da Assírio & Alvim

Eu gosto da prosa dos poetas. Quando os poetas escrevem contos, romances e novelas, permanecem como poetas de uma forma diferente, talvez inadequada à narração e suas regras. Mas alguma coisa faz com que eu goste disso. As descrições têm trechos de tonalidade distinta e os ganchos de um tema a outro muitas vezes inexistem. É o caso de Sophia neste livro de contos. A brilhante poetisa conta — o verbo é este — cinco histórias simples. Destaque para A História da Gata Borralheira (ou Cinderela), onde Sophia faz uma interessante variação sobre o conto original; O Silêncio, dura parábola sobre a ditadura salazarista e Saga, uma belíssima e tocante história sobre os antepassados dinamarqueses da escritora portuguesa. É um livro de estilo clássico que conta suas histórias adultas como se fossem infantis. Eu curti.

Paris, 26 de fevereiro de 2014: Museu d’Orsay e o Sono da Razão

No dia 26 de fevereiro, há exato um ano, eu e a Elena acordamos atrasados — demoramos anos para sair do hotel — e extremamente bem-humorados. Tudo era motivo de piadas e digo-lhes, meus amigos, a Elena é extraordinária nisso. Tem uma acidez toda especial que não sei se é de origem soviética ou judaica… Já expliquei que o mapa do metrô de Paris não foi feito para daltônicos e, como eu era o condutor da viagem, acabei nos levando para fora de Paris em vez de nos levar para o Museu d`Orsay, para onde poderíamos ter ido a pé. Acabamos numa cidadezinha da periferia chamada Juvisy-sur-Orge, a 19 Km de Paris. O esquema do metrô tem cor-de-rosa, violeta, vários tons de verde, lilás, púrpura e outras cores sabidamente inexistentes para gente daltônica como eu. Voltamos a Paris e finalmente…

Milton Ribeiro e Elena Romanov 00

Chegamos ao melhor Museu de Paris, o Museu d`Orsay. Lá é proibido tirar fotos dos quadros. Respeitamos, é claro. As coleções do museu apresentam principalmente pinturas e esculturas da arte ocidental do período entre 1848 e 1914. Entre outras, estão presentes obras de Van Gogh, Monet, Degas e Redon  — segundo a Elena, os Renoir estão na Rússia. Situado na margem esquerda do Sena, o edifício era originalmente uma estação ferroviária, a Gare d`Orsay. Abaixo, uma foto geral que deixa clara a função original do prédio.

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Lá em cima, no caminho dos poucos Renoir do museu, tem o relógio da estação, através do qual pode-se ver Montmartre.

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E esta é uma foto tirada através do vidro do grande relógio. Abaixo, vê-se a margem direita e a Catedral de Montmartre ao fundo.

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A próxima foto continha uma mensagem cifrada para o Latuff, mas não lembro qual…

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Pierre-Auguste Renoir, Le Moulin de la Galette  Eu e Elena ficamos minutos e minutos parados observando esta maravilha. Mas foi muito pouco tempo. A lembrança do quadro ficará para sempre ligada a ela.

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Paris, 25 de fevereiro de 2014: Museu Rodin (II – parte interna) e primeira ida à Shakespeare & Company

Cabe uma explicação, creio. É que deixei pela metade o registro da viagem que eu e a Elena realizamos há quase um ano e havia certa pressão de uma de meus sete leitores para que eu terminasse a série. Como esta leitora é especialíssima, q u e r i d a como nenhuma outra, acho melhor atendê-la. E correndo!

Na última parte publicada, tínhamos visitado a parte externa, ao ar livre, do Museu Rodin de Paris. Agora, entramos na parte interna. Vamos lá?

Logo na entrada vemos a Jovem Mulher com o Chapéu Florido. Como se nota, é uma obra da juventude de Rodin, lá de 1865.

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Modernizando pero no mucho, temos Bellona, bronze de 1870.

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Pode ser frescura minha, mas achei tocante a figura de O órfão alsaciano (1871).

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A famosíssima O Beijo (1888-89).

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Por outro ângulo.

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Ainda outro ângulo.

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As fofoqueiras, obra de de 1897, de Camille Claudel.

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Boa tarde, Diego Aguirre. Mais compostura, por favor, prefeito Fortunati

Vou escalar o time para ti: Alisson; Léo (já que tu gostas), Ernando, Alan Costa e Fabrício; Freitas, Aránguiz, Dale e Alex; Sacha e Vitinho. E estamos conversados. Deixa o Anderson e o Réver no banco. São craques, mas estão fora de forma. Nilton também está mal fisicamente. Não é hora deles. Rafael Moura nem pensar, deixe-o afastado até do banco de reservas para não dar vontade. Sabe-se, às vezes a gente se desespera e toma decisões equivocadas. Em seu lugar, convide o Bruno Gomes para ficar no banco. Mas só o coloque se estivermos ganhando. Se a coisa estiver complicada, ponha outro, mas nunca Rafael Moura, OK?

Obrigado.

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O Grêmio anda bem divertido. Liguei o rádio ontem à noite — sempre tomo banho com o rádio ligado –, estava na hora das coletivas pós-jogo. O Felipão e o diretor Rui Costa falavam com tamanha tranquilidade que achei que o time tivesse saído vitorioso. Não, a coisa tinha sido um melancólico 0 a 0. Um mau Gauchão não dá nada, o problema é entrar assim no Brasileiro. Bá, eu gosto quando o Grêmio cai.

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Eu jamais iria assistir uma dessas brigas públicas do gênero UFC ou MMA.  Na minha opinião, trata-se de um moderno retorno às arenas, uma espécie de rinha de galos com seres humanos. Ou seja, é uma coisa de gosto pra lá de duvidoso. Sei que é polêmico, mas a maioria das pessoas que tenho como razoáveis concorda comigo. Então acho estranho que o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, vá a um espetáculo violento desses como se fosse a um concerto. Ele tem um cargo importante, de certa forma, ele nos representa. E, no sábado à noite, vai ver um troglodita tentar amassar outro. Para piorar, ainda ufanou-se em seu twitter: “Porto Alegre recebe mais um grande evento internacional: baita público, gente bonita e grandes lutas”. E, como se não bastasse, foi flagrado tirando fotos da gente bonita, mais exatamente das ring girls, as meninas que anunciam os terríveis combates. A tripla baixaria está fartamente documentada.

Olha, eu acho que um sujeito que ocupa um cargo público deveria procurar ter maior cuidado. Há escolhas que uma pessoa pública deveria esconder ou praticar na intimidade.

fortuna

Oscar 2015: Direto do tapete vermelho

Depois de uma noite consagradora para… mim, já que acertei 100% dos oscares principais (confira aqui), volto ao tapete vermelho para escolher as mais elegantes da noite.

Cate Blanchett recebe a medalha de bronze:

Cate Blanchett

Scarlett Johansson recebe a de prata.

Scarlett Johansson

And the Oscar goes to… Naomi Watts!

Naomi Watts

Em outro nível, Emma Stone tenta esganar Jennifer Aniston. A luta pelo Oscar foi duríssima:

a luta pelo Oscar

Não pensem que entendo de moda ou que deixei de ser daltônico, tá? Para que as mulheres não reclamem, deixo aqui uma foto do apresentador Neil Patrick Harris na noite de ontem.

Neil Patrick Harris

A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan

A-Balada-de-Adam-Henry-Ian-McEwanNo ano passado, eu e Elena estávamos em Londres e fomos duas vezes ao Templo da Música de Câmara da cidade — segundo alguns do mundo –, o Wigmore Hall. Na fila para retirar os ingressos previamente adquiridos na internet, notei que as pessoas estavam olhando muito discretamente para um ponto logo atrás de mim. E me virei para ver o que era. Era Ian McEwan. O curioso é que McEwan já citou o local em vários de seus livros e, em A Balada de Adam Henry, volta a fazê-lo com elegante ironia. É o local dos exigentes, dos caras que só criticam, dos chatos. É o meu lugar!

Vinho, Fiona esperava, poderia mitigar as faculdades críticas dos frequentadores assíduos do Wigmore Hall, escreve na página 178.

Uma significativa minoria (…) passava muitas noites por ano ouvindo música de câmara com grande concentração, as testas franzidas, no Wigmore Hall de Marylebone, na página 162.

Porém o caráter gonzo desta resenha está exagerado, não? Pois o livro não tem cenas no Wigmore Hall e a música é algo importante no livro, mas este sobreviveria sem ela. Com bastante menos brilhantismo, mas sobreviveria. Então vou permitir que o vírus da objetividade sem spoilers tome conta do texto.

Fiona Maye é uma respeitada juíza do Tribunal Superior inglês, especializada em direito de família. O sucesso profissional não esconde frustrações pessoais. Aliás, ele parece fundar-se nestas. Não é incomum que os casos de direito de família acabem famosos por motivos éticos ou por envolverem celebridades. Grandes fortunas, divórcios milionários, etc. E há os casos que envolvem religião. Então, um hospital decide fazer uma transfusão de sangue em um menino que é Testemunha de Jeová. Ele e a família não aceitam o procedimento por motivos religiosos. O hospital leva o caso à Justiça.

A Balada de Henry Adam (The Children Act, 196 páginas, Cia das Letras) é um McEwan mais ligeiro e descansado, mas não pobre. É uma novela polifônica na medida certa que discute importantes problemas pessoais, sociais e religiosos. Não é tão redondo e não está no nível de Reparação, Amsterdam ou Sábado, mas também não é o mau livro de que alguns falam, normalmente levados por faniquitos religiosos. Acontece que McEwan permitiu-se alguns alongamentos normalmente não prescritos à boa literatura. Ele força a barra em algumas cenas e emite mais opiniões do que o habitual. É um trabalho tão pessoal que é tímido ao analisar o mundo do judiciário, mas nada inofensivo ao tratar do que realmente deseja: a criação de cenas inusitadas, a exploração de uma crise conjugal e a exposição da lógica das igrejas. Isso ele faz com a acidez e brilhantismo. O resto foi tratado com livre espírito de divertissement e algum uso de clichês, o que foi mal recebido por certo sectarismo literário que só aceita coisas perfeitinhas, adita que é dos gritos de bravo.

Ah, excelente tradução de Jorio Dauster.

Na semana que vem, completará 4 anos do atropelamento do Neis sem lei (reveja o vídeo)

Texto de divulgação da Massa Crítica.

Semana que vem completam-se quatro anos que Ricardo Neis covardemente atropelou dezenas de pessoas que participavam da Massa Crítica em Porto Alegre, quatro anos de impunidade. Enquanto o julgamento de Neis ainda nem foi marcado, um jovem que participou das manifestações de 2013 já foi julgado e condenado por quebrar objetos. Ricardo Neis quebrou pessoas. Qual é a prioridade da Justiça?

É contra a impunidade no trânsito, contra os diferentes tratamentos dados pela assim chamada “Justiça” e pela humanização do trânsito que estão marcados diferentes atos para os dias 25, 26 e 27 de fevereiro, marcando os quatro anos do atentado à Massa Crítica.

Dia 25 de fevereiro acontece ato em frente ao Tribunal de Justiça (Av. Borges de Medeiros com Aureliano de Figueiredo a partir das 17h), com posterior marcha. Convidamos as pessoas a trazer percussões, panelas, apitos e materiais para confecção de faixas e cartazes.

Dia 26 de fevereiro acontece uma Pedalada Pelada com o mote “Obscena é a demora da Justiça!”, saindo do Largo Zumbi dos Palmares às 19h.

E dia 27 de fevereiro, como é a última sexta-feira do mês, acontece a já tradicional Massa Crítica.

#NÃOFOIACIDENTE

Querida EPTC

Lotações em Porto Alegre: um serviço caro e péssima qualidade

Lotações de Porto Alegre: serviço caro e de péssima qualidade

Hoje à noite, eu e minha namorada chegamos à parada da lotação Auxiliadora, no Shopping Iguatemi, às 21h05 e ficamos esperando até às 21h45, quando desistimos e pegamos um táxi. O curioso é que quando chegamos perguntamos ao fiscal até que horas haveria o serviço. Ele nos respondeu: até às 22h.

Às 21h05 estava chovendo e várias pessoas aguardavam a condução conosco. Durante este período chegaram três lotações Auxiliadora. A primeira deixou os passageiros alguns metros antes da parada e foi embora. Gritei para o motorista e este me disse que estava atrasado e que logo viria outra para nos levar. Pois bem, vieram mais duas e ambas fizeram ainda pior. Deixaram seus passageiros e trataram de nos ignorar, acelerando rapidamente. Fingiram que não estávamos ali. Uma fuga, na verdade.

O que a população deve fazer? Sair sempre de carro? A EPTC sabe que uma boa cidade não é aquela que todos têm carro, mas aquela que qualquer cidadão possa fazer uso de um transporte coletivo confiável, pontual e com frequência e horários previstos?

O serviço pelo qual vocês são responsáveis é caro e de péssima qualidade. E o fato que ora cito ocorre justo no dia em que foi autorizado um novo aumento na tarifa.

Ah, tenho também histórias sobre o serviço de ônibus de nossa cidade. Uso o meu TRI e sou usuário contumaz do transporte público de Porto Alegre. Acho que quase todos os porto-alegrenses têm histórias, na verdade.

Por favor, seria demais aguardar providências?

Acabo de registrar esta reclamação no site da EPTC e no perfil da empresa no Facebook, impossível que não leiam.

Três minicontos para quem reclama que eu não publico mais ficção

1. O Primeiro Beijo – Um Miniconto do Século XIX

O demônio, no ombro esquerdo dela, sussurrava-lhe:

– Beije-o agora, agora, já!

Enquanto o anjo, no ombro direito, opinava:

– Deixe-o aproximar-se mais, demonstrar inequivocamente o que quer. Um pouco de prudência poderá salvar nossa honra.

Foi quando o moço perdeu a concentração no que estava fazendo, afastou-se bruscamente e disse, em tom protocolar:

Apesar de desconhecer o grau de suscetibilidade de ambos. anjos e demônio, gostaria de interromper sua altercação a fim de dar-lhes meu parecer. Os anjos, tive pouco contato com eles; creio ter mais afinidade com o diabo e noto que ele representa meus interesses neste caso. Mas vamos direto ao objeto desta peroração. Creio que suas atuações — a dos dois — são danosas e a controvérsia inútil. Falta-lhes informações para fazer um bom aconselhamento. Então proponho encerrar esta demanda que ocorre muito antes de seu tempo. Se ela me beijar e depois não me quiser, libero-a de qualquer compromisso para todo o sempre e não anuncio a ninguém o que quer que tenha havido entre nós. O que julgo inaceitável e injusto é o fato de que, cada vez que vocês começam a brigar, sua dona mude, adotando um tom de frieza que gela meu coração. Vocês causam unicamente perturbação. Saúdo-os como se saúdam embaixadores de nações inimigas.

Findo o discurso, ele dá uma piscadela para o diabo e beija Maria Antoninha apaixonadamente. Ela, que chegava à casa dos vinte e poucos e sonhava desde a adolescência com esta culminância, gosta. Muito. Tanto que se emociona e chora.

2. Domingo

Ele odiava os finais de tarde de domingo. Não havia pior hora. A semana era suportável em sua rotina de trabalho, cansaço e sono; sábado era o dia de fazer as compras da semana, jantar com a mãe e ir ao cinema; porém aquele horário dominical de completo ócio, em que sentia possuir forças além da necessidade de produzir, era terrível. Sentado na sala, pôs um CD e começou a organizar mentalmente a agenda da semana. Sua angústia crescia à medida que via os compromissos avolumando-se. Havia os imediatos e outros, piores, que eram deixados para depois. Procurava organizar-se. Ergueu-se e, deixando o volume da música mais alto, foi ao armário de remédios procurar um analgésico. Pegou o comprimido e abriu a geladeira para servir-se de água. Viu um garrafão de vinho pela metade. Largou o comprimido sobre o esmalte branco da geladeira, apanhou o garrafão, um funil e, cuidadosamente, passou a dividir o conteúdo em garrafas pequenas de água mineral que pegou no lixo seco. Deixou três frascos iguais exatamente no mesmo nível e fechou-os. Enfileirou o resultado na porta da geladeira, desligou o som e ligou a TV.

3. Quem diria, casou-se com o corretor de seguros

Vânia acorda e decide matar-se. O celular toca : “Filha, me deu outra crise, vem logo!”. Vai à sacada e olha a rua, mas não quer pular de pijama. Veste-se e pensa na mãe: merda, como ela enche o saco. O celular de novo. A morte. Desce até a garagem, sai e acelera loucamente o carro de olhos fechados. A despesa não supera a franquia.

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