Boa tarde, Abel Braga

abel-bragaViste ontem o jogo do Grêmio? Pois é lembrei da Teoria do Caos. Conheces? É o seguinte: dizem os matemáticos e físicos que, se colocarmos em uma caixa de fundo plano um grupo de bolinhas em movimento chocando-se elasticamente entre si e as paredes, sem atrito contra a superfície, o resultado será o caos. Ou seja, será impossível calcular as posições futuras que as bolas tomarão. E elas nunca pararão de bater-se umas contra as outras e as paredes. É isso que eu achei do jogo do Grêmio ontem. Uma correria absolutamente sem sentido, objetivo ou beleza. São dois times muito ruins. O gol do San Lorenzo me pareceu meio casual, foi como se uma bolinha do caos tivesse resolvido entrar ali. Fico feliz de nosso time ser diferente. Temos conseguido manter certa compostura e lógica.

Mas o jogo contra o Vitória foi triste. D`Alessandro foi bem marcado, Alex estava a meio pau e o Alan Patrick jogou muito, mas muito mal. Então, não houve criação. Além disso, Cláudio Winck sentiu o Beira-Rio. Gostei das tuas reclamações sobre o desempenho do time nas entrevistas de final de jogo. Acho perfeitamente viável vencer o Botafogo do Bolívar no final-de-semana, mas só que com um jogo melhor. Não chegaremos a lugar nenhum com aquela pobreza. Salvou-se e salvou-nos o Aránguiz. Vamos contratá-lo né, Abel?

Outra coisa: devo ser um chato, pois sou o único colorado do mundo que achou comum o Beira-Rio. Claro, está mais bonito, mas eu esperava muito mais. As pessoas piraram de tal forma que pensei que entraria no Nirvana. Nada disso. Mas é nossa casa, precisamos dela para somar pontos. Não adianta, meu negócio é futebol, não arquitetura. Não ignoro que o Inter tornou-se multi-campeão depois da inauguração dos Eucaliptos, tendo o mesmo acontecido com o Grêmio pós-Olímpico e o Inter pós-Beira-Rio, só que não consigo torcer por estádios.

William Shakespeare: 450 anos, hoje

Com poesia, ele realizou brilhantemente o sonho de todo escritor: colocou nos palcos o poder, o amor, a vingança, a traição, a injustiça, a ambição, o ódio, a beleza. A humanidade seria diferente sem ele, certamente ainda pior. Ele tudo compreendia e há tudo em suas peças e poemas. Não apenas uma enorme diversidade de tipos humanos de qualquer classe social, como os mais variados desafios e sentimentos. O papel central de William Shakespeare no cânone ocidental consolidou-se a partir do século XVIII e de lá não mais saiu.

Você pretende beber em honra ao velho Bill?

(MACBETH, William Shakespeare, ATO II, Cena III)

MACDUFF — Quais são as três coisas que a bebida provoca especialmente?

PORTEIRO — Ora, senhor, nariz vermelho, sono e urinas. A lascívia, senhor, ela provoca e deixa sem efeito; provoca o desejo, mas impede a execução; por isso pode-se dizer que a bebida usa de subterfúgios com a lascívia: ela a cria e a destrói; anima-a e desencoraja-a; fá-la ficar de pé e depois a obriga a descansar. Em resumo: leva-a a dormir com muita lábia e, lançando-lhe o desmentido, abandona-a a si mesma.

Então, modere-se na comemoração.

Shakespeare

Paris, 23 de fevereiro: Notre Dame, a sopa Pho da nossa desesperança, Os Jardins de Luxemburgo (I)

Quando descrevi rapidamente o dia 22, esqueci de dizer que Liana Bozzetto e Alexandre Constantino entraram em contato conosco através do Facebook para nos dizer que estavam na cidade. Combinamos de nos encontrar ao final desta tarde (23), quando eles estivessem saindo da Ópera Nacional de Paris (o Palais Garnier da Rua Scribe). Iniciamos nosso dia fazendo uma caminhada até Notre Dame em pleno domingo pela manhã, dia de missa.

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O fotógrafo Milton Ribeiro insiste em não fotografar a torre por inteiro. Abaixo, os cadeados com juras de amor eterno. Acho uma baixaria este símbolo. Não quero ninguém preso a meu lado, quero alguém que queira estar comigo por sua e por minha vontade.

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A fachada principal, …

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detalhes da mesma, …

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e, pronto, entramos!

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Algo de mágico ocorreu lá dentro da Catedral de Notre Dame. Estávamos caminhando dentro dela (ia começar a missa e o silêncio era completo, a não ser pelos passos e as máquinas fotográficas dos turistas que caminhavam pelas laterais da nave enquanto uma fila de padres com seus turíbulos preparava-se para ir até o altar), quando subitamente o órgão atacou acordes dissonantes e apocalípticos, nada harmônicos.

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Era uma peça de Messiaen que dava início à missa e que mais parecia uma acusação aos homens. Foi lindo e assustador. Estávamos ouvindo música moderna num edifício que fora construído entre os anos de 1163 e 1345. A cultura francesa nos proporcionava aquele momento arrepiante, aquela poderosa e inesperada união entre passado e presente.

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Eu e Elena Romanov ficamos dando voltas até o final da peça. Aliás, ficamos ainda depois por ali. Afinal, a coisa podia voltar. Não voltou, mas que maravilha ouvir uma obra daquelas — com aquele poder — em seu habitat. Ah, querem saber o que ouvimos? Soava mais ou menos assim.

Bem, já que o dia lá fora era belíssimo, resolvemos sair de Notre Dame…

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em direção aos Jardins de Luxemburgo. No meio da caminhada pela cidade, além de vermos alguns cartões postais naturais, …

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nos deu uma fome do cão. E foi então que cometemos o maior erro de nossa viagem. Na cidade de melhor culinária do mundo e após passarmos batido ao longo da Rue Mouffetard, veio-nos uma fome urgente, desesperadora. Passamos a procurar alguma porta de restaurante que nos abrigasse, mas os mesmos, na segunda magia do dia, simplesmente insistiam em não aparecer. Passamos ao lado do Pantheon se nem olhar para ele e acabamos entrando num restaurante vietnamita. Sim, vagando no pleno mar da culinária francesa, atracamos numa porra duma ilha vietnamita. E, ali dentro, completamos a tragédia. Pedimos a terrível, implacável, horrorosa e intragável Sopa Pho.

Sopa phoO gosto que a porcaria acima tem é complicado. Sentimo-nos deglutindo comida de astronauta em pleno paraíso. Todas as pessoas são felizes em Paris, à exceção de quem comeu sopa Pho no almoço. Uma água quente é jogada sobre finas fatias de carne. A fantasia é a de que, deste modo, a carne cozinhará. Na verdade, a água fervendo lava a carne, deixando-a clarinha. Em seguida, acrescenta-se manjericão, coentro, broto de feijão e pedaços de limão. Uma iguaria que só pode ser fruída adequadamente se estivermos entre napalms e bombardeios aéreos norte-americanos. Eu olhava para a Elena e ela olhava para mim. Difícil saber a quem culpar. Gosto dela, ela gosta de mim, se não somos jovens, somos um casal jovem, que não vai discutir idiotices. A Elena jogava temperos para todos os lados, tentando melhorar a coisa. Vendo que eu estava derrotado, ela falou que era nutritivo. Rimos sem graça.

Afinal, era uma atitude dantesca aquele negócio de atravessar o mar para comer uma merda daquelas. Saímos de lá loucos por comida de verdade, mas impossibilitados de qualquer coisa, pois estávamos enjoados, com receio de rever a sopa Pho a qualquer momento. Vou parar de escrever porque acho que ainda sobrou um pouco de Pho no meu estômago. Volto a sentir o gosto daquela nojeira.

Mas os Jardins de Luxemburgo estavam ali ao lado.

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поросёнок

A palavra russa acima tem o seguinte som: “parassionak”. Eu lhes digo que é um belo som. Vamos conferir lendo-a novamente e dizendo bem alto: “Parassionak”. Imagine o parassionak de seu país. Parece um ser sublime que talvez ocupe um cargo especial no STF, uma espécie de consultor para assuntos transcendentais, um aiatolá daquele grupinho às vezes tão atrapalhado. Imagine o parassionak de sua cidade, certamente alguém a ser saudado com fanfarras e que mora num palácio.

E se fosse a representação fonética de uma coisa não viva? Neste caso, certamente seria um transatlântico ou um gênero de limusine. Quem sabe o último modelo da Ferrari? Hoje vi uma Parassionak B3, parece uma nave.

Pois então você deixa migalhas de pão por todo lado e é chamado de parassionak. Bá, quanto orgulho senti! Eu, logo eu, um parassionak! E perguntei o que significava.

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Sim, parassionak é apenas “porquinho”. A fonética é muito enganadora.

Mas gremistas, saibam: “azul”, em russo é “голубой”. A pronúncia é “galubói”, uma palavra de som horrível! Aqui, a fonética volta a revelar-se genial.

Já vermelho é “красный”, “krássny”. Digam bem alto: “Krássny”. E voltei a me apaixonar pela fonética. Tudo bem, sou um porquinho.

Espreitando uma nesga do imenso García Márquez

Uma medida bem pessoal que posso ter da grandeza de Gabriel García Márquez é a seguinte.

Minha q u e r i d a e a m a d a Elena Romanov nasceu em Mogilev, na Bielorrússia. Ela morou lá, acho, até por volta de seus 20 anos. Durante a adolescência, ela se apaixonou pela tradução russa de Cem Anos de Solidão de tal forma que não apenas a leu 4 vezes como fez com que seus amigos a lessem. E, hoje “pela manhã”, durante o café tomado após às 14h, ela contava sobre José Arcadio Buendía, o que pensava que o tempo havia parado e que morreu louco, amarrado ao castanheiro da família.

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De Londres para Paris, 22 de fevereiro: Eurostar, Tim Hotel e primeira ida aos vinhos

De manhã, ainda em Londres, pegamos o Eurostar até Paris. Saímos de táxi de nosso querido EasyHotel até a enorme St Pancras Station. No caminho, só para nos atrapalhar, passamos bem na frente da Wallace Collection… Na St Pancras, era nossa última chance de comprar a History Today que a Nikelen nos pedira. Perguntamos por todo lado e nada. A revista simplesmente não existia. Já fizéramos o mesmo no dia anterior, com o mesmo resultado.

A viagem de trem é tranquila e confortável. Pontualíssima, dura aproximadamente 3 horas e tem o preço de pouco menos que 90 libras. Passamos pelo chamado eurotúnel. Ele foi construído no subsolo, 50 metros abaixo do leito do mar do Norte. Inaugurado em maio de 1994, o túnel do Canal da Mancha liga a França e a Inglaterra e tem 51 quilômetros de extensão. Custou seis bilhões de dólares, e é a obra mais cara do mundo paga inteiramente com dinheiro privado. Em Paris, a estação onde o trem chega é a Gare du Nord. De lá, pegamos o terceiro táxi da viagem até o hotel, que ficava bem perto. Tudo calculadinho.

Ficamos no TimHotel da Rue Linné, 5, bem na frente do Jardin des Plantes, onde está localizado o Museu Nacional de História Natural. Num raio de uns 4 Km, andando a pé, tínhamos a Notre Dame, a Shakespeare & Company, o Pantheon, a Rue Mouffetard, os Jardins de Luxemburgo, o Louvre, o Musée d`Orsay, etc. Enfim, se fôssemos alérgicos a metrô, poderíamos ficar sem ele, tal era a perfeita a localização (ver no centro do mapa) do hotel reservado pela Casamundi. Quando chegamos, abri a janela de nosso quarto, peguei o tablet e tirei uma foto digna do filme Amélie Poulain. A luz sobrenatural que saía da fruteira da esquina era de cinema.

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Não consegui repetir o fenômeno quando peguei a máquina fotográfica.

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Virando o corpo para o lado direito, dava para ver o portão do Jardin des Plantes. Sim, estava anoitecendo.

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Fomos explorar a Rue Linné. A primeira coisa que vimos foi que o grande Georges Perec tinha morado por 8 anos na vizinhança.

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Depois de um longo passeio, entramos num Carrefour a fim de comprarmos nosso jantar. Este, o jantar, foi maravilhoso, mesmo com a cruel alergia à proteína de leite da Elena em pleno país dos queijos.

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Em nosso quarto — desta vez de bom tamanho — abrimos um daqueles vinhos premiados que o Farinatti nos indicou.

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~ Ospa surfa nas ondas das Metamorphosen ~

Lavard Skou Larsen mandando bala

Lavard Skou Larsen mandando bala. No canto esquerdo, ela (suspiro). Clique para ampliar. | Foto: Augusto Maurer

O concerto de ontem no Auditório Dante Barone tinha contornos um pouco diversos do habitual. Afinal, no pódio estava um grande regente conhecido por suas versões nada rotineiras, um autêntico especialista não apenas em Mozart como em música de câmara. E no programa, tínhamos o que mesmo? A boa Abertura da pequena ópera O Empresário, de Mozart; a Sinfonia Nº 38 “Praga”, do mesmo compositor e as Metamorphosen, de Richard Strauss. Ou seja, tínhamos Mozart e música de câmara, pois as Metamorphosen são uma belíssima peça para 23 integrantes das cordas.

Os ensaios de Lavard Skou Larsen, desde a última quinta-feira com a Ospa, demonstraram duas coisas: (1) o homem conhece como poucos uma orquestra e (2) as cordas responderam a sua boa influência, dando-nos uma versão cheia de musicalidade da obra de Strauss. Conhecia Lavard de gravações e de um notável concerto ocorrido em 2005. O homem é um monstro como solista e regente.

Houve novidades. Quando acabou a Sinfonia “Praga”, ouvi uma pessoa atrás de mim colocar em palavras o que eu estava pensando. O entusiasmo e o som eram outros, melhores. Apesar do que sofre nas mãos do estado, a Ospa não é um grupo desmotivado, mas ontem parecia não somente entusiasmada, mas focada em fazer um Mozart que fosse Mozart. Assim como nas Metamorphosen, houve falhas aqui e ali, mas ouvia-se um conceito trabalhando a favor da música. Não era um Mozart diferente pelo fato de Lavard ser auto-centrado ou de funcionar em faixa própria, era o Mozart de 1786, aquele que se dirigia para as obras mais dramáticas do final de sua vida.

Estranhamente, nesta sinfonia, Mozart não utiliza o clarinete. Outra estranheza é que a Praga possui três movimentos em vez dos tracionais quatro. O primeiro movimento parece uma abertura de ópera, com um tema introdutório lento seguido de um tema rápido. Para mim — além do que falou o cidadão sentado atrás de mim –, a primeira surpresa na “Praga” foi a dantes nunca ouvida batida seca do tímpano. Aquilo anunciava a sonoridade bem diferente do concerto de ontem e o resultado foi um Mozart alguns centímetros mais alto que o habitual. Estávamos longe da caixinha de música na qual alguns maestros escondem as nuances de um compositor que não é apenas leveza, mas ousadia, drama e, sim, sensualidade.

"Ô meu, nada de moleza com esse tímpano!"

“Ô meu, nada de moleza com esse tímpano!” | Foto: Augusto Maurer

Mas o prato principal estava por vir: as Metamorphosen, de Richard Strauss. São 23 instrumentos de cordas: 10 violinos sem a divisão de primeiros e segundos, 5 violas, 5 violoncelos e 3 contrabaixos. É uma música grandiosa, triste e sublime. A instrumentação inicial é rarefeita, camarística, e ganha corpo durante a execução. A obra dá a impressão de um mar de cordas cujas ondas vão se repetindo nunca iguais uma à outra. Como no mar, a onda-tema que vai embora é engolfada novamente pela massa sonora e retorna, formando outra, metamorfoseada. Lavard Skou Larsen tocou o primeiro violino com notável brilhantismo, no que foi seguido pela orquestra. Foi uma interpretação arrepiante que deixou o público hipnotizado e tão tocado que até os aplausos pareciam ter sido ensaiados. Eles começaram apenas uns três segundos após o final, dando tempo para que os músicos saíssem do transe.

A obra, de título provavelmente roubado à Ovídio, tem história um pouquinho menos poética. Alguns historiadores gostam de esconder a verdade, mas é fato indiscutível que a peça chamava-se Réquiem para Munique, consistindo no pranto de um artista que via sua Munique destruída no mês de abril de 1945, data em que pôs a nota final na música. Como Strauss tivera ligações com o nazismo, tal título poderia ser interpretado como uma espécie de Ai que saudades do meu nazismo…  Mas um amigo mais esperto disse que uma composição com aquele nome jamais ia ser interpretada por aí e aconselhou-o a rebatizar a peça de forma mais neutra. Assim, esta obra-prima acabou homônima ao melhor Ovídio.

Para se ter uma ideia da música, coloco o vídeo abaixo para vocês. E, putz, que belo concerto! As pessoas saíram felizes, tendo extraído uma enorme euforia daquele final melancólico. Aliás, este fenômeno é matéria para ser pensada.

(Ah, Lavard, volte sempre. Porto Alegre é uma de tuas cidades e a Ospa é a orquestra de tua estreia como solista, certo? Chegaste na semana passada — fazer o quê? –, já és imprescindível).

Uma Morta-Viva invade O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Meu genro, Vicente Cortese, é um baita leitor; também é um baita ouvinte de música, mas essa é outra história. Ele me mandou um excerto de uma tradução da Cosac & Naify de O Vermelho e Negro de Stendhal. Nela, uma mulher perde literalmente a cabeça e não morre. Para quem não sabe, o romance é um marco da literatura universal e não inclui mortos-vivos.

Foto: Vicente Cortese

Foto: Vicente Cortese

Mas nosso leitor, o escritor e tradutor Ernani Ssó, nos traz o original e…

Désespérée de ce qu’elle croyait deviner, et voyant que les sages avis devenaient odieux à une femme qui, à la lettre, avait perdu la tête, elle quitta Vergy sans donner une explication qu’on se garda de lui demander.

Ô, Stendhal, te liga!

Sobre Abel Braga e o novo avião do Grêmio

Após a repetição da vitória de duas semanas atrás e a consequente conquista do Campeonato Gaúcho, Abel Braga demonstrou surpreendente falta de entusiasmo, mantendo uma lucidez inesperada para aquele momento. Na entrevista após o jogo, ele não fez qualquer alusão ao título, mirando apenas o futuro. Tem toda a razão. O Gauchão não representa nada, sua importância limita-se às duas vitórias consistentes sobre o time do Grêmio e nada mais. OK, a conquista posiciona melhor o ego e altera e sala de troféus, mas é só isso. Pior que ganhar o Gaúcho é perdê-lo, certamente.

Sobre o Gre-Nal: já tinha externado com muita clareza minha opinião sobre nossa superioridade, mas é óbvio que os 4 x 1 devem ter assustado os inquilinos da Arena, ainda mais pela forma como aconteceu. Fizemos uso de certa indulgência, não? O Grêmio até jogou melhor no primeiro tempo, mas volume de jogo não é quase nada quando seu adversário tem jogadores de melhor qualidade. Um time mais ou menos cria quatro oportunidades e faz uma, um melhor cria duas e marca. É da vida. Nos anos 80 e 90, eu via isso acontecer todo dia no Beira-Rio. Quando o Inter massacrou o São Paulo — e perdeu o jogo por 4 x 1 — comecei a pensar que bom mesmo era contra-atacar com Kaká, Júlio Baptista e Luís Fabiano e ser feliz.

Agora, o óbvio: o Brasileiro será disputado em poucas datas. É uma disputa para um grupo grande de jogadores. Haverá lesões e cartões pra todo o lado, além de adversários muito melhores. Então, não sei se temos que contratar — não conheço detalhadamente o banco do meu time –, mas certamente o clube com mais material de reposição sofrerá menos. Mais: acho que não há nenhum paulista ou carioca de assustar. O perigo, como no ano passado, está novamente em BH. E, olha, faz 35 anos que não levantamos o Brasileiro. Já passou da hora. Vamos lá, gente.

Ah, abaixo, o novo avião do Grêmio.

Novo avião tricolor foi entregue ontem no aeroporto de Caxias

Novo avião tricolor foi entregue ontem no aeroporto de Caxias

Porque hoje é sábado, Haylie Noire

O PHES de hoje é uma contribuição do estudante de tecnologia Elton Freitas, brasiliense e, segundo ele, ‘ávido leitor’ do PHES. Ele nos traz Haylie Noire e diz esperar que ela seja de alguma valia para meus outros seis leitores.

(Alguma valia…)

.oOo.

O único lugar onde você vai encontrar Haylie Noire é em seu tumblr.

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Onde ela compartilha as fotos que tira em seu apartamento.

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Sabe-se apenas que é francesa e tem 1,69m de altura.

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E que Vinícius de Morais aprecia todos os ingredientes de seu corpo. Visto que foi o próprio poeta quem escreveu:

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“Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa”

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“Com olhos

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e nádegas.

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Nádegas é importantíssimo.”

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“É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos

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Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas

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No enlaçar de uma cintura semovente.”

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“e que seus seios

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Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca

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E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.

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Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral

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Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!

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Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas”

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Há quem discorde do poeta?

Entradas da semana no Facebook: nem tão idiotas quanto poderiam ser

5 de abril:

Gostava do Wilker.

6 de abril:

O Centro Peruano é um dos lugares mais finos da cidade. Mas, do ponto de vista material, não há nada de especial lá. Não é um lugar que rescenda ao chique gerado pelo dinheiro, de modo algum. Quando digo fino, falo sobre o tratamento que o Dr. Carlos Nevado e sua família dispensa aos clientes, assim como sobre a qualidade do que se come lá. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, só que tal impressão fica mais consistente quando se entra num tal “Armazém”, em plena Padre Chagas, e nos chega às narinas um invencível e anti-higiênico fedor.

Ah, nesta semana batemos nosso recorde. Fomos 3 vezes comer cebiche…

 

Dica da semana:

“Antes de sair de casa, revise se está com as chaves. Esquecê-las dentro das calças que você recém tirou não é inteligente e causa problemas.

Pior ainda se o esquecimento ocorrer num domingo à noite e se estiver na companhia de alguém que confia em você”.

Fica a dica.

7 de abril:

Espero que o Luigi não seja pusilânime e confirme o Gre-Nal de domingo para o novo Beira-Rio. Se tem medo de quebra-quebra, retire as cadeiras e aumente o número de seguranças, ora. Ou ele ignora que quebramos lá também?

 

Um dos fenômenos mais interessantes é de que a ignorância não gera dúvidas, mas certezas. Outra coisa interessante é a criatividade do ódio. Há pessoas que, ao odiarem, criam personagens muito diversos do odiado. O odiado é um mutante, ou uma valise na qual cabe toda sorte de más qualidades. Mas seguimos.

 

Um beijo procê, George Orwell:

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.”

8 de abril:

Há pessoas que repetem e repetem os mesmos padrões, errando sempre. Mas nem lhes passa pela cabeça de que os errados são eles.

 

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

E então eu cheguei em casa às 19h carregando um cansaço maior que eu e Elena me sugeriu dormir por uma hora. E eu sonhei que estava em Londres na casa de Virginia Woolf e que traduzia para o português o Between tha Acts. Eu viajara para que ela me explicasse algumas passagens. Depois dos esclarecimentos, ela me fez um chá e sentamos à mesa. E então eu, com a maior intimidade, perguntei sobre suas crises de depressão. E Virginia olhou para mim, deu um meio sorriso, começou a falar e eu acordei.

Coisa sem graça.

10 de abril:

A gente dorme com uma loira e acorda com outra de cabelos castanho-claros.

Ficou bonito, Elena.

 

Já imaginaram o que deve doer um beijo no coração? Além do mais, é pouco asséptico.

11 de abril:

Acerta o TJD da Federação Gaúcha de Futebol ao rebaixar o Esportivo para a Segunda Divisão em razão das ofensas racistas sofridas pelo árbitro Márcio Chagas em Bento Gonçalves. Racismo não é caso para relativizar e tergiversar, é caso para se extirpar. Por isso, lamento que a votação pela punição tenha tido o resultado apertado de 5 x 3, o que comprova que nossa sociedade não tem lá muita segurança se deve punir tais casos de hedionda boçalidade.

O árbitro Márcio Chagas

O árbitro Márcio Chagas

Londres, 21 de fevereiro: Cadogan Hall, o passeio final e a saudade antecipada

Depois da Tate Modern, fomos caminhar pela cidade em direção à loja da Twinings, que está desde 1706 na Strand. Eu namoro uma bielorrussa e as pessoas deste país não vivem sem chá. Nós tínhamos que comprar muitos chás, sacolas e sacolas, entendem? Abaixo, vemos a Strand, onde a Elena ainda permanecia faminta, lembram? E chega de perguntas. É um recurso de baixo nível.

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Então nós entramos num pequeno restaurante tailandês. A qualidade da comida era fantástica e o preço melhor ainda. Nossa fome ajudava, é claro. Das janelas do pequeno restaurante, víamos uma Igreja Ortodoxa Romena ao lado do prédio mais simpático do mundo. Ele abriga várias publicações. Não perguntei se eles queriam um correspondente no Brasil porque seria muito melhor ser correspondente do Brasil em Londres.

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E então, chegamos à Twinings. Ah, se soubéssemos que aquele chá de gengibre era o que era! Teríamos comprado centenas deles! Compramos tanto chás que ganhamos um monte de brindes. Um destes foi bebido por mim hoje. Eu dizia para a Elena: estamos pegando muita coisa, menos, Elena. Ah, arrependo-me. A loja é pequena. Apenas um longo corredor, mas a enorme variedade de cheiros não deixa ninguém dotado de nariz indiferente.

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Já estava dando aquela tristeza. Afinal, íamos abandonar no dia seguinte um local que tínhamos adorado e onde passamos dias felizes. Avisei a Elena que a Temple Station era ali perto. Nós iríamos pegar o metrô para deixar os chás no hotel antes do concerto da noite. Mas o caráter romântico de minha amiga impediu a bobagem. Ela me perguntou se eu me incomodaria de seguir carregando as duas sacolas de chá e, à minha resposta negativa, propôs um passeio. Três viagens à Londres me deixaram com bom conhecimento da geografia da cidade. Então, dobramos á esquerda e fomos para as margens do Tâmisa a fim de fazer nossa despedida.

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Era um final de tarde. As pessoas caminhavam bem mais apressadas do nós. Muitos saíam do trabalho com calções e camisetas e faziam uma corrida até em casa. (Lá, eles vendem umas mochilas que não apenas envolvem o ombro como são amarradas na barriga. Os caras vestem aquilo, mais calções, tênis e botam pra correr. O número de corredores é alto: a cada minuto, passavam uns 5 por nós).

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Estávamos nostálgicos, refazendo o circuito mais turístico da cidade. A Elena dizia que não queria mais ir para Paris, ríamos.

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Londres deve ser mesmo a melhor cidade do mundo. Tem tudo lá em grande quantidade e a preços acessíveis, basta usar a cabeça. Desde concertos até roupas, desde a comida até o transporte, tudo pode ser barato. Os concertos mantêm cadeiras para quem é apaixonado mas não pode pagar muito; as roupas são muito baratas em lojas como a Primark e assemelhadas; a comida pega-se no super e come-se no quarto com o vinho vendido e garrafas individuais; o transporte pode ser todo feito pelo Underground, ônibus e barcos, basta comprar o passe semanal da Oyster; os bens culturais estão todos à mão. Para melhorar ainda mais, os grandes museus são gratuitos, até a Wallace Collection é gratuita. Não tínhamos visitado todos os lugares que desejávamos e isso nos dava uma leve angústia, apesar do fato de que o que fizéramos fora bem feito.

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Ana Amélia e seu Homem de Seis Milhões de Dólares

Ana e o biônico | Foto: redesul.am.br

Ana e o biônico | Foto: redesul.am.br

Rapidamente, quase um bilhete.

O gaúcho é mesmo o povo mais politizado do Rio Grande do Sul. Só isso explica a pesquisa do Ibope realizada na semana passada e que coloca Ana Amélia Lemos na primeira colocação para o Governo do Estado. A pesquisa indica uma polarização entre os nomes de do atual governador Tarso Genro e de Ana Amélia. O que vemos é que, em plena semana de descomemoração dos 50 anos do Golpe, a ex-esposa de um senador biônico da ARENA é alçada como a mais provável governante de nosso estado para o quadriênio de 2015-2018. É pra matar.

O termo biônico. No seriado Cyborg — O Homem de Seis Milhões de Dólareso Coronel Steve Austin (vivido por Lee Majors) recebeu implantes eletrônicos que lhe salvaram a vida após grave acidente. O tais implantes custaram seis milhões de dólares. Então, dotado capacidades ultra-ampliadas, ele passou a trabalhar como agente especial do governo americano. Tornou-se melhor e mais forte do que todo mundo. Era o “homem biônico”, que podia tudo. Transposta para nosso mundo político dos anos 60 e 70, tal designação serviu para apontar quem ascendeu ao poder sem o desgaste de uma campanha eleitoral. Ou seja, que foi indicado pelo governo militar. Os biônicos são aqueles que foram investidos de cargos normalmente obtidos por sufrágio.

Como surgiu esta excrescência? Ora, quando a ditadura viu que o MDB, partido único de oposição, estava ficando grandinho demais, resolveu indicar pessoas que a apoiavam para cargos chave. Sem eleição. Foi a forma de se manterem no poder sem dissolver o Congresso novamente. Tais indicações garantiram a continuidade do regime e impediu que os objetivos traçados pelos militares fossem atrapalhados pelo povo.

Um destes biônicos foi Octávio Omar Cardoso, falecido marido de Ana Amélia Lemos. Ele foi senador biônico pelo estado do Rio Grande do Sul entre os anos de 1983 e 1987. Era suplente de Tarso Dutra e assumiu após a morte do titular, quando, ex-arenista, já era do PDS. Dizer que ela não tem nada a ver com isso é quase análogo a dizer que o PP não tem nada a ver com a ARENA. Para que não sabe, a Arena tornou-se PDS, depois PPB e depois PP, o partido da senadora. Então Ana Amélia era casada com o senador que ninguém elegeu, escolhido a dedo pelos militares da ditadura.

É claro que a senadora não forma gêmeos siameses com seu ex-marido — talvez ela esteja grudada apenas à RBS –, porém o amor ao mesmo partido e ao latifúndio, agora agronegócio, permanecem. Ana Amélia é hoje uma bonita senhora de 69 anos que enfrenta um governador que teve bom desempenho econômico, com um PIB que teve crescimento maior que o dobro do nacional, mas que é malvisto pelos professores e pelo Bloco de Luta, que sistematicamente apanha da Brigada Militar estadual. Tarso também perdeu oportunidades de ouro na área da Cultura, deixando a inauguração da Sala Sinfônica da Ospa para o próximo governo e a Biblioteca Pública em obras eternas. Desta forma, decepcionou setores habitualmente amigos das esquerdas. Será uma disputa complicada, mas votar num filhote da ditadura como Ana Amélia? Pelamor.

E, se pensarmos que o líder das pesquisas para o senado deverá ser Lasier Martins, melhor mudar logo nossa sigla estadual de RS para RBS.

A Sinfonia Nº 1 de Brahms

Mas voltemos a Brahms. Sei, há Beethoven, Mozart, Bruckner, Mahler e Shostakovich, mas, no meu sentir, esta sinfonia é a melhor que conheço. Brahms era visto como o sucessor de Beethoven e estava muito preocupado em se manter digno da tradição sinfônica do mestre. Tão preocupado que preparou sua primeira sinfonia ao longo de mais de 20 anos. Sua composição iniciou-se em 1854 e sua finalização só ocorreu em 1876.

O maestro Hans von Bülow apelidou-a de “A Décima de Beethoven”, o que é apenas uma frase de efeito. Não pretendo desconsiderar que há uma citação da Nona de Beethoven no último movimento, porém os fatos obrigam-me a encarar isto como uma demonstração de gratidão a seu antecessor, ao qual tanto devia – ou, corrigindo, ao qual tanto devemos… Depois de anos e anos como ouvinte, afirmo tranquilamente que, até mais do Beethoven, o que há aqui é Schumann, principalmente na forma inteligente como foram desenvolvidos os elos entre os movimentos que parecem brotar logicamente um do outro. No mais, a Primeira de Brahms é uma derivação autêntica, exclusiva e original do estilo empregado por Brahms em sua música de câmara. Ademais, Brahms – que estreava sua sinfonia 49 anos após a morte de Beethoven – aborda o gênero de forma diversa, dando, por exemplo, extremo cuidado à orquestração e chegando a verdadeiros achados timbrísticos no segundo movimento e na introdução ao tema do último tema: aquele esplêndido solo de trompa, seguido da flauta e do arrepiante trio de trombones. Tais cuidados orquestrais evidentemente não revelam um compositor maior que Beethoven, apenas revelam que o tempo tinha passado, que Brahms já tivera contato com as orquestrações de Rimsky-Korsakov, Berlioz, Wagner, Liszt (os dois últimos eram seus inimigos), que Mahler tinha 16 anos de idade e que a Sinfonia Titan estaria pronta dali a 12 anos…

Em sua primeira sinfonia, Brahms resolveu apresentar todas as suas armas como compositor. A solidez da intrincada estrutura do primeiro movimento (Un poco sostenuto – Allegro) vem diretamente de alguns outros notáveis “primeiros movimentos” de sua música de câmara. Sua complicada estrutura rítmica e aparente rispidez causa certo desconforto a ouvintes mais acostumados a gentilezas. Sua estrutura não é nada beethoveniana, os temas são mostrados logo de cara, sem as lentas introduções nem os motivos curtos e afirmativos de nosso homem de Bonn. Afinal, estamos ouvindo nosso homem de Hamburgo! Se o primeiro movimento demonstra toda a maestria do compositor ao lidar com diversas vozes e linhas rítmicas, o próximo é um arrebatador andante (Andante sostenuto) que parece pretender mostrar “vejam bem: além daquilo que ouviram, eu também faço melodias sublimes”. A melodia levada pelo primeiro violino ao final do andante é belíssima e inesquecível. O terceiro movimento (Un poco Allegretto e grazioso) nos diz que “além daquilo que ouviram, eu também faço scherzi divertidíssimos, viram?”. Claro que não chegamos à alegria demonstrada nos scherzi de Bruckner, porém, para um sujeito contido como Brahms, a terceira parte da sinfonia chega a ser uma galinhagem.

O último movimento é um capítulo à parte. É a música perfeita. Há a já citada introdução de trompas e trombones, mas há principalmente um dos mais belos temas já compostos. No romance Doutor Fausto, de Thomas Mann, o personagem principal Adrian Leverkühn vende sua alma ao demônio em troca da glória e da imortalidade como compositor. Feito o negócio – num dos mais belos capítulos já escritos: o diálogo entre Adrian e o Demônio –, Adrian vai compor e… bem, sai-lhe uma peça muito parecida com o tema a que me refiro. Ele o abandona. Seria este um sinal de Mann, indicando que seu personagem partiria do ponto mais alto existente para a construção de uma obra estupefaciente? Creio que sim, creio que sim, meus queridos sete leitores. Mas, sabem?, não vou gastar meu latim descrevendo o tema que aparece aos 5 minutos do último movimento da sinfonia para ser transformado e retorcido até seu final.

Afinal, ele está aqui. A sinfonia completa está. Sim, neste maravilhoso blog. Trata-se da versão de Claudio Abbado.

Não é música para diletantes leigos como eu. Porém, como a ouço há anos, posso avaliar como deve ser difícil equilibrar a rigidez formal e a imaginação melódica de uma sinfonia que – inteiramente dentro da tradição de contrastes das sinfonias – parece pretender abarcar o mundo, mostrando-se ora imponente, ora delicada; ora jocosa, ora séria.

Londres, 21 de fevereiro: Tate Modern

Pois era o dia 21 de fevereiro, no dia seguinte pegaríamos o trem para Paris e tínhamos uma série de “atrações turísticas” que simplesmente não víramos. Em parte pelo excesso, em parte por sermos turistas tranquilos, não estávamos muito preocupados. Quando nos dirigimos para a Torre de Londres, item 5 estrelas de qualquer guia de viagens, a Elena quis saber o que havia lá. Fiz-lhe a descrição da maravilhas, depois falei de outras coisas da margem do Tâmisa que não tínhamos visto — Greenwich, Tate Modern e Globe Theater. E ela, que estava indo à Londres pela primeira vez, decidiu sabiamente: Tate Modern!

Mas, antes, contornamos a Torre de Londres e fomos tirar uma foto clássica.

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Depois, entramos pela cidade e caminhamos entre os estudantes dos colégios próximos até a ponte que nos levaria ao Tate Modern (há outro Tate, não esqueçam). Vejam como a ponte da foto de cima ficou pequenina na de baixo.

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E aqui, aproximando um pouco…

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Como sempre, não vamos apenas às coisas mais belas, mas principalmente às mais curiosas. Há uma parte do Tate que mostra os cartazes políticos do século XX. E é claro que não poderia faltar a presença soviética.

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Abaixo, com tradução: “Os carrascos estão torturando a Ucrânia. Morte aos carrascos!”.

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Abaixo, o quarteto de ataque do Dínamo de Moscou. Curiosamente, Marx aparece na ponta-direita dando uma de Garrincha.

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As três dançarinas de Picasso.

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Um quadro que adoro: Marguerite Kelsey, de Meredith Frampton.

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Este recebeu grandes elogios da Elena: Family Jules: NNN (No naked niggahs), de Barkley Hendricks. Ela deve ter razão ao relacionar NNN com KKK. O rapaz negro tem uma cara incrivelmente intelectual, inteligente e desafiadora. O quadro é realmente esplêndido.

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Sabem por que o gato da Elena se chama Vassili? Ora, em homenagem à Vassili Kandinsky. E, com efeito, toda vez que ela corre para um quadro, desviando-se da rota definida para que se veja todos, um a um, é por culpa de Kandinsky. Ele a atrai certamente mais do que eu.

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Visto assim numa foto, não tem muita graça em Something Old Something New, de Monir Shahroudy Farmanfarmaian. Porém, parando em frente ao quadro, você fica dividido em dezenas de pequenos pedaços.

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Na próxima foto, estamos abraçados na frente dos espelhos. Acho que dá para ver.

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Porque hoje é sábado, vinte tons de preto-e-branco

O grande Marcos Vasconcelos, mezzo cearense, mezzo carioca, escolheu as fotos e escreveu o texto deste PHES especial. Marcos é um pervertido que pode ser encontrado administrando a comunicação da Rede de Bibliotecas da Uerj. Atualmente, todas as tais bibliotecas apresentam curioso tom acinzentado e têm livros como o Kama Sutra, o Decamerão, Fanny Hill, 120 Dias de Sodoma, A História do Olho, A História de “O”, Teresa Filósofa e outros clássicos, tão vilipendiados.

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Prezado Milton, não me perderei em inúteis prolegômenos, mas preciso dizer:

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não foi fácil substituí-lo no PHES. Foi cansativo.

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E me virou do avesso. Que sirva de aviso aos que virão.

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São muitas escolhas, entre elas: seguir o estilo do dono…

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…ou imprimir o meu próprio?

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E que musa escolher? São tantas!

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Sem ver saída, resolvi fazer um ensaio platônico…

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(É sério, não ria.)

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…afinal, numa semana em que as mulheres foram tão aviltadas, eu quis falar não do que me encanta nelas como homem, mas o que nelas é encantador por definição.

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Por exemplo: a beleza clássica…

Charlize Theron

…e a beleza estranha.

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A juventude…

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…e a maturidade.

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A atitude…

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…e o sonho.

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A mente…

EWBR

…e a coragem.

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A sombra…

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…e a luz.

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Porque para elas isso não é nada. E também é tudo.

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(Alicia Keys, Elizabeth Taylor, Monica Bellucci, Anita Eckberg, Mary Elizabeth Winstead, Scarlett Johansson, Jean Seberg, Halle Berry, Amy Lee, Charlize Theron, Brittany Murphy, Jennifer Lawrence, Susan Sarandon, Hayley Williams, Irène Jacob, Emma Watson, Ellen Page, Noomi Rapace, Kate Winslet e Shakira Mebarak.)