A Rádio da Universidade faz 50 anos hoje

Hoje, a Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul faz 50 anos. Foi a primeira rádio universitária e pública do país. Comecei a ouvi-la diariamente desde os 15 anos e não imaginava que ela tinha nascido no mesmo ano que eu. Antes desta idade, meu pai já nos fazia ouvi-la no carro e em casa. Naquela época, suas transmissões começavam às 8h e iam até a meia-noite. Assim que meu pai notou em mim alguma tendência para apaixonar-me pela música clássica, iniciou um jogo que durou até sua morte em 1993. Toda vez que ligava o rádio, nós tínhamos que adivinhar que obra estava sendo executada. O jogo era levado tão a sério que, logo após o final de cada música e do locutor anunciar o nome do compositor e título da obra – tínhamos que ouvir atentamente, porque era nossa conferência para saber quem tinha acertado – , o rádio era desligado a fim de que não ouvíssemos o nome da próxima. Deixávamos passar alguns minutos para só então religarmos o rádio.

Isso me deu um treinamento incrível para reconhecer estilos e obras e o único fato que lamento é nunca ter encontrado outra pessoa íntima para seguir “brigando” neste campo. Mas o que interessa hoje é que há mais de 35 anos ouço a rádio, a minha rádio que tantos problemas apresentava nos primeiros anos: sinal fraco, interrupções das transmissões, discos com problemas (alguns arranhados que não deixavam a agulha avançar…), etc. Hoje, os problemas são alguns péssimos programas de música popular – os únicos bons são o de trilhas cinematográficas e o de jazz – e os programas étnicos que são de matar, além do de tangos, que é diário como se fôssemos platinos, e os dos alunos… Ah, os alunos…

Mas os méritos da rádio ultrapassam em muito seus problemas e foi ali, com o grande compositor e ex-diretor da emissora Flavio Oliveira e com Rubem Prates, que aprendi que uma programação não era sorteio ou livre-associação. É notável como eles conseguiam ligar inteligentemente cada música à próxima, fosse por seu tema, por sua evolução na história da música ou pela pura sensibilidade desses dois conhecedores, que viam parentescos em coisas aparentemente díspares. Aprendi na prática como, por exemplo, o estilo de composição de Johann Christian Bach foi receber tratamento de grande música apenas com Mozart e que havia várias formas de se avançar grande árvore da história de música. Explico: pela manhã, a rádio iniciava por um compositor de música antiga ou barroco, depois ia para um clássico, daí para um romântico, e assim por diante, nos mostrando sempre os caminhos e os diálogos que um compositor travava com seu antecessor. Foi a maior das escolas e ali aprendi as muitas derivações que cada compositor passava a seus sucessores e aquilo, após milhares (mesmo!) de dias como ouvinte, tornou natural a leitura das histórias da música que fiz depois. De forma misteriosa, estranha e certamente gloriosa, aqueles dois homens silenciosos já tinham me ensinado tudo, colocando as coisas na ordem certa para que meu ouvido entendesse.

É claro que me emociono ao falar da Rádio da UFRGS, não há como ser diferente. Depois, seu horário foi ampliado e já faz décadas que transmite 24 horas por dia como qualquer outra emissora. Isso é bom porque podemos usar os horários alternativos para escapar de certas coisas como “Música e Ciência” (ou coisa que o valha), sendo que a música é sempre rock e a ciência uns pobres periódicos de divulgação de dois acordes. Mas, novamente, tratarei de esquecer tais afrontas para lembrar das inumeráveis obras que ouvi pela primeira vez na rádio e no susto que foi ouvir algumas delas; para lembrar de como ouvi a Oferenda Musical de Bach numa manhã intacta e perdida, no quarto já então pleno de futura saudade. Era uma gravação de Hermann Scherchen e, naquele momento, eu tive a certeza de que não existia nada que pudesse deixar aquele momento mais perfeito e importante, tal o modo como a música caiu sobre mim. Fora da música, talvez apenas a futura leitura do Fausto de Mann, do Tempo Perdido de Proust e do enlouquecido Guimarães Rosa do Grande Sertão me proporcionaram momentos em que novamente pareci ter saído da pequena natureza destinada ao pequeno e simples Milton Ribeiro.

E, no grande último momento, dias atrás, ao ligar a rádio, dei de cara com a esquecida Sinfonia Turangalîla de Messiaen e permaneci – por sorte estava em minha cama, antes de dormir, por mais de uma hora, de olhos arregalados, cada vez mais acordado e eufórico. Ou ainda, anos atrás, quando atrasei-me para um encontro porque TINHA que saber qual era aquela maravilhosa música que, afinal, era desconhecidíssima para mim na época: a Sinfonia Singular de Berwald.

É por viver com ela há mais de 35 anos, é por saber que só em Montevidéo, em Oslo e em Amsterdã (sim, ouço pela internet!) há emissoras de mesma categoria, é por ter receio de que a programação da rádio caia na vala comum – como tantos já desejaram – que saúdo e fico feliz com o cinqüentenário da “minha rádio”.

Parabéns e longa vida!

A propósito, hoje, domingo, às 10h30, no Salão de Atos da UFRGS, haverá um concerto comemorativo. Entrada franca.

P.S.-
9h50 – Liguei o rádio agora. Música? Pompa e Circunstância, ora! São uns gozadores…
10h – Uma hora (!) com o programa judaico Shalom. Uma coisa de indescritível ruindade. Homenagens ao martelo do Oswaldo Aranha que determinou nas Nações Unidas a partilha da Palestina; outra a um jogador de basquete americano, judeu ortodoxo, que, portanto, não pode jogar aos sábados; incríveis audições de certa yiddish collection; puxação de saco ao deputado I-bi-sen-Pi-nhei-ro (dito com as sílabas em staccato); uma série de mal disfarçadas propagandas de empresas de proprietários judeus; tudo isso sob a apresentação de uma locutora que parece mais familiarizada com o inglês do que com o português.
11h- Alívio! O Concerto para Piano de Schumann! Com Argerich e Rostropovich. Antes anunciam Turandot para as 15h e um especial de aniversário para as 14h30.
11h35- Chopin: Variações sobre a ária “Lá Ci Darem La Mano” Op. 2.- Antes, o poeta Mário Pirata parabenizou a rádio por seus 20 anos… Humpf!
11h55- Segue a programação mainstream. Não critico, acho natural. . Ravel: “Bolero”.
12h14- Bachianas Nº2, Villa-Lobos.
Depois- Gershwin: “Rhapsody in Blue”, versão para piano solo; Nepomuceno: Serenata para cordas; Osvaldo Lacerda: Canções de câmara, para tenor e piano.
18h27- Apresentando uma série de filés suculentos, já tivemos a Primeira de Brahms com Bernstein e agora a Nona com Klemperer.

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