Cinco Drops

O Grêmio já está nas semifinais do xaroposo Campeonato Gaúcho. Com açúcar, com afeto, enfrentará o adversário predileto. Uma papinha.

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Sou contra a violência, claro, mas estou achando um saco esse negócio do Tibete. Todo esse esforço para criar uma teocracia? Pô, no Iraque o Bush gosta é de democracia, coisa do demo mesmo, no Tibete é diferente.

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Se o mundo quisesse fazer um boicote aos chineses, seria fácil. Era só ignorar a festa de abertura e de final das Olimpíadas. As TVs fariam isso? :¬)))) Nessas festas é que há a celebração do país-sede. De resto, deixem os atletas.

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Só quem não entende de futebol não viu de cara que Alexandre Pato era um supercraque. Ele merece ser titular do Brasil desde aqueles 45 minutos de estréia contra o Palmeiras em 2006. Faz gols (muitos), erra pouco dentro da grande área e isso basta para escalá-lo em qualquer time. É jogador valiosíssimo em todos os sentidos.

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Meu post sobre o Caso Sampallo Barragán acaba de ser atualizado. Las Abuelas pressionam. Mais detalhes aqui.

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100 Livros Essenciais da Literatura Mundial

Este post foi publicado em 13 de dezembro de 2007 em meu blog anterior na Verbeat. Como ainda rende comentários e comentários por lá – e não os acompanho -, decidi copiá-lo aqui.

Há algumas semanas, a revista Bravo lançou uma edição especial em que fazia comentários sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. A edição está vendendo muito, disse o dono da banca de revistas meu vizinho, e eu vi a revista na mão de adolescentes, uma espécie que raramente anda pela rua com revistas à mostra. Como me relaciono muito bem com jovens e estes me perguntam muitas coisas, sei que este se tornará um post de referência ao menos no meu recionamento com eles.

No final da revista, há uma página de Referências Bibliográficas de razoável tamanho, mas o editor esclarece que a maior influência veio dos trabalhos de Harold Bloom.

A lista é a seguinte (talvez haja erros de digitação, talvez não… Os digitadores da lista foram meus filhos):

1. Ilíada, Homero
2. Odisséia, Homero
3. Hamlet, William Shakespeare
4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes
5. A Divina Comédia, Dante Alighieri
6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
7. Ulysses, James Joyce
8. Guerra e Paz, Leon Tolstoi
9. Crime e Castigo, Dostoiévski
10. Ensaios, Michel de Montaigne
11. Édipo Rei, Sófocles
12. Otelo, William Shakespeare
13. Madame Bovary, Gustave Flaubert
14. Fausto, Goethe
15. O Processo, Franz Kafka
16. Doutor Fausto, Thomas Mann
17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire
18. Som e a Fúria, William Faulkner
19. A Terra Desolada, T.S. Eliot
20. Teogonia, Hesíodo
21. As Metamorfoses, Ovídio
22. O Vermelho e o Negro, Stendhal
23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
24. Uma Estação No Inferno,Arthur Rimbaud
25. Os Miseráveis, Victor Hugo
26. O Estrangeiro, Albert Camus
27. Medéia, Eurípedes
28. A Eneida, Virgilio
29. Noite de Reis, William Shakespeare
30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway
31. Coração das Trevas, Joseph Conrad
32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf
34. Moby Dick, Herman Melville
35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe
36. A Comédia Humana, Balzac
37. Grandes Esperanças, Charles Dickens
38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil
39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
40. Finnegans Wake, James Joyce
41. Os Lusíadas, Luís de Camões
42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
43. Retrato de uma Senhora, Henry James
44. Decameron, Boccaccio
45. Esperando Godot, Samuel Beckett
46. 1984, George Orwell
47. Galileu Galilei, Bertold Brecht
48. Os Cantos de Maldoror, Lautréamont
49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé
50. Lolita, Vladimir Nabokov
51. Tartufo, Molière
52. As Três Irmãs, Anton Tchekov
53. O Livro das Mil e uma Noites
54. Don Juan, Tirso de Molina
55. Mensagem, Fernando Pessoa
56. Paraíso Perdido, John Milton
57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe
58. Os Moedeiros Falsos, André Gide
59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello
62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll
63. A Náusea, Jean-Paul Sartre
64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O’Neill
66. A Condição Humana, André Malraux
67. Os Cantos, Ezra Pound
68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake
69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams
70. Ficções, Jorge Luis Borges
71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco
72. A Morte de Virgilio, Herman Broch
73. As Folhas da Relva, Walt Whitman
74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati
75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós
78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar
79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger
82. Huckleberry Finn, Mark Twain
83. Contos de Hans Christian Andersen
84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa
85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne
86. Passagem para a Índia, E.M. Forster
87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
88. Trópico de Câncer, Henry Miller
89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev
90. O Náufrago, Thomas Bernhard
91. A Epopéia de Gilgamesh
92. O Mahabharata
93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino
94. On the Road, Jack Kerouac
95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse
96. Complexo de Portnoy, Philip Roth
97. Reparação, Ian MacEwan
98. Desonra, J.M. Coetzee
99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki
100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

A lista é ótima, mas há critérios bastante estranhos.

Se não me engano, só três semideuses têm mais de um livro na lista: Homero, Shakespeare e Joyce. OK, está justo.

No restante, é uma lista mais de autores do que de livros e muitas vezes são escolhidos os livros mais famosos do autor e dane-se a qualidade da obra. Se a revista faz um gol ao escolher Doutor Fausto como o melhor Thomas Mann, erra ao escolher Crime e Castigo dentro da obra de Dostoiévski – Os Irmãos Karamázovi e O Idiota são melhores e posso prová-lo -; ao escolher Guerra e Paz de Tolstói – por que não Ana Karênina? -; na escolha de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth; que tem cinco romances muito superiores, iniciando por O Avesso da Vida (Counterlife) e ainda ao eleger Retrato de Uma Senhora na obra luminosa de Henry James. Li por aí reclamações análogas sobre as escolhas de Brás Cubas e não de Dom Casmurro, de Cem Anos de Solidão ao invés de O Amor nos Tempos do Cólera e de As Cidades Invisíveis de Calvino, mas acho que é uma questão de gosto pessoal e não de mérito. Ah, e é absurda a presença do bom O Náufrago e não dos imensos e perfeitos Extinção, Árvores Abatidas e O Sobrinho de Wittgenstein na obra de Thomas Bernhard.

Saúdo a presença de grandes livros pouco citados como Tristram Shandy, obra-prima de Sterne muito querida deste blogueiro, de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, de A Consciência de Zeno, genial livro de Ítalo Svevo, de O Deserto dos Tártaros (Buzzati) e do incompreendido e brilhante Grandes Esperanças, de Charles Dickens, de longe seu melhor romance.

Porém é estranha a escolha de A Comédia Humana, de Balzac. Ora, a Comédia são 88 romances! Não vale! Estranho ainda mais a presença de autores menores como Orwell (com o famigerado 1984), Kerouac, Hesse, Malraux e do romance que não é romance – ou do romance que só é romance em 100 de suas 1200 páginas: O Homem sem Qualidades, de Robert Musil.

Também acho que presença de MacEwan e de Coetzee prescindem do julgamento do tempo, o que não é o caso de alguns ausentes, como Lazarillo de Tormes, de Chamisso com seu Peter Schlemihl, de George Eliot com Middlemarch, de Homo Faber de Max Frisch e de O Anão, de Pär Lagerkvist, só para citar os primeiros que me vêm à mente. Se autores modernos podem entrar na lista, acho que talvez Roberto Bolaño e Antonio Lobo Antunes sejam superiores a MacEwan e Coetzee.

(O Bender escreve um comentário reclamando a ausência de Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa. É claro que ele tem razão! Esqueci. Coisas da idade.)

Com satisfação pessoal, digo que este não-especialista não leu apenas Os Miseráveis, o livro de Blake e os de Lautréamond, Mallarmé, Ovídio e Hesíodo. Isto é, seis dos cem. Tá bom.

P.S.- Milton mentiroso! Não li Finnegans também!

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Uma camiseta para a Veja

Presente do Társis, baita designer. Veja ficou linda, não? Essa eu vou mandar fazer para mim.

Cveja

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O Caso Sampallo e o Mar de Histórias (algumas absurdas, outras dignas)

A bonita moça ao lado, María Eugenia Sampallo Barragán, de 31 anos, estava na barriga de sua mãe quando esta foi presa em dezembro de 1977. Não se sabe exatamente quando, mas supõe-se que em fevereiro de 1978, Mirta Barragán deu à luz uma menina na prisão. Seu pai, Leonardo Rubén Sampallo foi informado do nascimento da filha. Dias depois, María foi dada de presente pelo capitão do exército Enrique Berthier ao casal Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto. Os pais verdadeiros de María desapareceram.

De acordo com sobreviventes da prisão clandestina “El Banco”, Mirta foi levada para o Hospital Militar em fevereiro de 1978. Nunca mais se teve notícia dela nem do companheiro. Antigos militantes do Partido Comunista Marxista Leninista, os dois eram operários e atualmente fazem parte das cerca de 30 mil pessoas desaparecidas durante a Guerra Suja, como é chamada a repressão desencadeada pela ditadura militar argentina contra seus opositores.

Há uma história semelhantíssima no romance Duas Vezes Junho, de Martín Kohan. Alías, hoje há comprovadamente outros oitenta e oito jovens na mesma situação chegando todos aos 30 anos na Argentina. Devem ser muitos mais.

Vários fatos saltam aos olhos dos brasileiros. Em primeiro lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina (propositalmente em maiúsculas). Como é que um processo que começou em 2007 tem data marcada para sua terminar e esta será em 4 de abril de 2008? Como pode? Em segundo lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina que ordenou em 2001 que fossem realizados exames de DNA dos “pais adotivos” de María, da própria e dos parentes de seus pais. Tendo em mãos o resultado, ela permitiu, no mesmo ano de 2001, que María Eugenia alterasse seu sobrenome de Rivas Pinto para Sampallo Barragán. Tudo em 2001. Em terceiro lugar, a rapidez e eficiência da Justiça Argentina, pois, em 2007, o casal Rivas processou María por calúnia e difamação. Após perderem a causa, María, no mesmo ano, resolveu abrir processo contra os falsos pais, que agora podem pegar 25 anos de prisão cada um no próximo 4 de abril.

Em quarto lugar, a postura de um país implacável que não parece apreciar pizzas como o nosso. Se nosso passado pode ser escamoteado, o que impede de fazermos o mesmo com nosso presente?

María Eugenia não fala à imprensa, é uma pessoa de dignidade e discrição aparentemente inabaláveis, porém seu caso é acompanhado com extremo interesse em toda a Argentina. O tal capitão Berthier, o homem que a entregou aos pais “adotivos” já está preso. O resultado, como já disse, movimenta a imprensa argentina e o resultado deve ser conhecido dia 4 de abril.

Sim, uma das formas de ver o mundo é imaginá-lo como um vasto mar de histórias. A expressão “Mar de Histórias” era utilizada em sânscrito para se referir ao universo inteiro das narrativas: “Os contos estão entrelaçados: a primeira história não acabou, e personagens começam a narrar outra, na qual por sua vez, outras se acham encravadas. Acotovelam-se nesse estranho labirinto as figuras mais singulares…” (Aurélio Buarque & Paulo Rónai). Este mar de histórias une fatos que um escritor talvez tivesse pudor de escrever. Há casos análogos e inacreditáveis como o de Victoria Donda Pérez: ela descobriu que seu pai foi prisioneiro do próprio irmão que a doou a um militar… Isso mesmo, o torturador doou a sobrinha, mas para que a história ficasse ainda mais novelesca, o mesmo criou sua irmã mais velha como filha!!!

Voltando ao Caso Sampallo, diria que ele tem enorme valor para este ficcionista amador. É uma história de busca de identidade sem as chateações da adolescência, é uma história dura e cheia de ódio, é a recuperação do direito de saber a própria história pessoal, e há algumas contrapartidas muito interessantes: o que Las Madres de Plaza de Mayo faziam procurando seu filhos, hoje é feito pelos netos procurando seus avós. Eles são los Hijos; elas, las Abuelas.

Há um movimento chamado H.I.J.O.S. (Hijos por la Identidad y la Justicia contra el Olvido y el Silencio). Um integrante do movimento declara:

– Sabemos que as pessoas que nos criaram foram cúmplices do aparato estatal e cometeram delitos. Os netos cresceram e criaram consciência das graves violações. Hoje, podemos enfrentar o trauma da busca de identidade.

A mãe “de adoção” de María dá declarações assim:

– Mocosa maleducada, tenías que ser hija de guerrilleros para ser tan rebelde.

Como resposta, María, cuja voz é conhecida da imprensa apenas por seus depoimentos à Justiça, não diz palavra. E está certa, não tem que fazer cenas nem buscar a piedade fácil que uma órfãzinha mereceria. Suas poucas fotos revelam uma mulher doce e tranqüila. Eu invejo a Argentina; lá, há vontade de punir quem deve ser punido. Para trazer esse espírito para cá, teríamos primeiro que implodir nosso belo Judiciário. Sou candidado a apertar o botão. Me chamem.

Atualização de 27 de março, 17h42:

CONFERENCIA DE PRENSA

Ref. Juicio por la apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán

Abuelas de Plaza de Mayo convocamos a una Conferencia de Prensa, junto a María Eugenia Sampallo Barragán, su abogado Tomás Ojea Quintana y otros nietos restituidos para hacer saber la importancia de este juicio y lo ejemplar que debe ser su sentencia.
El 19 de febrero comenzó el juicio oral contra Osvaldo Arturo Rivas, María Cristina Gómez Pinto y Enrique José Berthier por la apropiación de María Eugenia Sampallo Barragán, primera nieta recuperada por Abuelas de Plaza de Mayo que querella a sus apropiadores.
Luego de casi dos meses de audiencias el Tribunal Oral Federal Nº 5 (TOF Nº5) deberá dictar su sentencia el próximo 4 de abril. Las Abuelas esperamos la máxima condena para los tres imputados.
Los esperamos en nuestra Sede de la Virrey Cevallos 592 PB 1 el lunes 31 de marzo a las 11:30hs.

Buenos Aires, 26 de marzo de 2008

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Gosto literário se discute

Em 2003, respondi por escrito a um questionário cujo título era “Gosto literário se discute”. Sou um compulsivo respondedor de questionários e testes. Se, por exemplo, vejo em alguma revista um daqueles testes do tipo “Como está seu coração” ou “Descubra se você será traído por sua mulher?”, saio respondendo na hora. É claro que não resistiria a tal proposta, assim como não resisti a responder um teste sobre TPM numa revista Cláudia da minha mãe…

Não sei quem criou as perguntas a seguir.

Qual o livro que você mais relê?

“A Metamorfose”, de Franz Kafka.

E que livro relido ficou melhor?

“O Idiota”, de Dostoievski.

Dê exemplo de livros injustiçados que, apesar de muito bons, nunca foram devidamente louvados.

São tantos!:
– “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
“- Laços de Família” de Clarice Lispector,
– “Luzia-Homem”, de Domingos Olímpio;
– “Quatro-Olhos”, de Renato Pompeu;
– “Dona Guidinha do Poço”, de Manuel de Oliveira Paiva;
– toda a obra de Sergio Faraco e
– mais uns 100.

Cite um livro decepcionante, que frustrou suas melhores expectativas?

“Alta Fidelidade” de Nick Hornby, o filme sugeria algo melhor. Os últimos livros de Günther Grass e de João Gilberto Noll estão firmes nesta disputa.

E um livro surpreendente, isto é, bom e pelo qual você não dava nada?

“A Flor, a Carne, os Figos (sobre as mulheres)”, de Heloísa Pedroso de Moraes Feltes.

Há cenas marcantes na boa literatura. Cite duas de sua antologia pessoal.

Vou arrasar nessa: a cena em que Ivan Fiodoróvitch Karamazov conta a Parábola do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoievski; e o diálogo entre Adrian Leverkühn e o diabo (Cap. 25) em “Doutor Fausto” de Thomas Mann. Há o famoso capítulo 8 deste livro, mas penso que este interesse mais a músicos e melômanos.

Há personagens tão fortes na literatura que ganham vida própria. Cite os que tiveram esta força na sua imaginação de leitor?

– Dom Quixote, em “Dom Quixote”;
– Sílvia, de “O Tempo e o Vento” (Parte III, “O Arquipélago”), de Erico Verissimo;
– Vania de “Tio Vania”, de Anton Tchekhov;
– Tristram Shandy, de “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne;
– o narrador de “Opiniones de um Payaso” (trad. para o espanhol), de Heinrich Böll;
– Alejandra, de “Sobre Heróis e Tumbas”, de Ernesto Sábato;
– o Homo Faber, de Max Frisch;
– o Conselheiro Aires, do “Memorial de Aires”, de Machado de Assis;
– Anna de “O Carnê Dourado” de Doris Lessing;
– Lucien de Rubempré de “Ilusões Perdidas”, de Balzac;
– Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf; etc.

Qual o livro bom que lhe fez mal, de tão perturbador?

“Berlim Alexanderplatz”, de Alfred Döblin.

E qual o que lhe deu mais prazer e alegria

Foram tantos… Como foi pedido só um, vai lá: “Sete Novelas Fantásticas” de Isak Dinesen ou “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, escolha você!

E o que mais lhe fez pensar?

Um só? “Extinção” de Thomas Bernhardt.

Cite…

a) um livro meio chato, mas bom

“V.” de Thomas Pynchon.

b) um livro que você acha que deve ser muito bom mas que jamais leu

Apenas “Finnegans Wake”, de James Joyce.

c) um livro que não é um grande livro, apenas simpático

“Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago.

d) um livro difícil, mas indispensável

“Os Mímicos” de V.S. Naipaul.

e) um livro que começa muito bem e se perde

“Maus presságios” de Günther Grass.

f) um livro que começa mal e se encontra

“Brincando nos Campos do Senhor”, de Peter Mathiessen.

g) um livro que valha apenas por uma cena ou por um personagem, ainda que secundário

O olhar entre Sarah Woodruff e Charles Smithson em “A Mulher do Tenente Francês” de John Fowles.

Qual o início de livro mais arrebatador para você?

“A Metamorfose” de Franz Kafka.

De que livro você mudaria o final? Como?

“Crime e Castigo”. Eu deixaria Raskolnikov sem salvação.

Que livros ficariam muitos melhores se um pedaço fosse suprimido?

“Guerra e Paz”, que prescinde daquela longa tese no final (mais ou menos 50 páginas).

Que livros que não têm nada a ver com você, até contrariam algumas de suas convicções e que ainda assim você considera bons ou recomendáveis?

Eu odeio dizer que adoro os livros do fascista Céline: “Morte a Crédito”, “Viagem ao Fundo da Noite”, etc.

A literatura contemporânea é muito criticada. Cite livro (s), escrito (s) nos últimos dez anos, aqui ou no mundo, que mereça (m) a honraria de clássico (s) ou obra-prima (s).

– “O Avesso da Vida”, de Philip Roth;
– “As Confissões de Lúcio”, de Fernando Monteiro (*);
– “Afirma Pereira”, de Antonio Tabucchi;
– “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago;
– “As Horas”, de Michael Cunningham.

(*) Sou amigo de Fernando Monteiro, mas esta amizade só existe porque elogiei “Aspades, ETs, etc.”; ou seja, minha admiração por seus trabalhos antecede nosso contato.

Por falar em clássicos. Para que clássico brasileiro de qualquer época você escreveria um prefácio daqueles que incitam a leitura?

Para “Memorial de Aires”, de Machado de Assis. Tenho certeza de que seria muito convincente.

Cite um vício literário que considere abominável.

As explicações nos rodapés por parte dos autores.

E qual a virtude que mais preza na boa literatura?

Pensei muito e seria complicado de explicar, mas a virtude que mais prezo é uma certa serena ousadia encontrável em mestres como Anton Tchekhov.

De que livro você mais tirou lições para seu ofício?

Não sou escritor, mas, se fosse, diria que o mais “pedagógico” são os contos de Machado de Assis.

E que a frase ou verso que escolheria como epígrafe desta entrevista?

Ora, só pode ser….

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente na livrarias:
Preciso de todos.

Mundo Grande (Fragmento) – Carlos Drummond de Andrade

 -=-=-=-=-

 É sacanagem. Não conseguia sair da frente do rádio e fazer o que tinha para fazer. A Rádio da Universidade atrapalhou todo o meu dia programando a seguinte seqüência:

– J.S.Bach: Sonata em lá maior, BWV 1032, p/flauta e cravo obbligato – parece tão simples esta espetacular obra do pai de
– J.C.Bach: Sinfonia Concertante em lá maior, p/violino e cello – o Bach de Milão que criou o estilo galante, cujo maior mestre foi
– Mozart: Serenata nº 12, K. 388, em dó menor – cuja gentileza faz-nos lembrar os primeiros anos daquele jovem arrogante que reivindicava para si o título de
Tondichter (poeta dos sons) o qual chamava-se
– Beethoven: Quarteto de cordas nº 5, Op. 18, em lá maior – que nos lembra sempre espantosas obras de câmara e grandiosas sinfonias, o que nos trouxe
– Bernstein: Sinfonia nº 2, “A Idade da Angústia”, baseada em poema de Auden – sinfonia ab-so-lu-ta-men-te perfeita e que abriu espaço para um belo
– Programa Olinda Alessandrini – sobre a ignorada música erudita brasileira
.

É que às vezes eles resolvem que não servirão de música de fundo. Decidem que a gente tem que ouvi-los. Aí, não dá para trabalhar.

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Uma Obsessão: A Lista Anual de Filmes

Publicado em 28 de agosto de 2003

Na próxima semana, prometo voltar à literatura; hoje, quero falar sobre uma mania que costuma divertir muito – às vezes até demais! – alguns de meus amigos. Desde 1997, sempre no dia 31 de dezembro, distribuo um e-mail com a lista de todos os filmes que vi, acompanhada de suas avaliações e daqueles que considerei os melhores do ano. Normalmente, há discordâncias, concordâncias, pedidos de retificações,etc. e a troca de e-mails e telefonemas acaba se extendendo até o final de janeiro. Esta lista é acumulativa e já está em 1030 filmes. Não é muito, se considerarmos que faço as anotações de cada ida ao cinema há 17 anos. Dá uma média de apenas 1,20 filmes por semana.

A “famosa” lista consiste em uma tabelinha do Word com a totalidade dos filmes vistos e é sempre acompanhada de um texto no corpo do e-mail, onde analiso com simplicidade o ano cinematográfico através de seus melhores filmes. Cometi o deslize de reler estes textos e, pior, acabei gostando quando eles cumpriram sua missão de me fazer lembrar de filmes esmaecidos na memória e que gostaria de rever. Coloquei abaixo os que escrevi nos últimos 3 anos. Resolvi compartilhá-los com vocês na esperança de que lhes seja útil, de alguma forma. Se algum de vocês quiser receber a lista completa, basta pedir deixando um comentário com seu e-mail. (Ou me enviem um e-mail, enquanto os comentários não voltarem…)

Ano 2000:

Caros Amigos.

Aí está a atualização da mui afamada relação de filmes do Milton.

Para quem não lembra ou está a recebê-la pela primeira vez, explico que se trata de uma lista de 959 filmes, os últimos que assisti… Apesar do número, há muitas lacunas nos anos iniciais, pois só em 1987 me disciplinei. Por exemplo, é absolutamente certo que vi mais de 8 vezes a Gritos e Sussurros – 3 vezes na primeira semana – e o filme não está na lista, apesar de ainda hoje aquelas quatro mulheres estarem caminhando em minha direção (Agnes, Karin, Maria e Anna). Espero também que ninguém acredite que vi Janela Indiscreta apenas no final de 1999; este é outro que vi mais de 4 vezes.

As avaliações que faço não devem ser levadas tão a sério. O teste final de um filme será a nossa afeição por ele anos depois; é como o teste de nossos amigos.

O que retorna de alguns de vocês compensa e dá sentido ao trabalho de anotação. Um vai com a listagem para as locadoras de vídeo, diz obedecer a ela e é tão polido que nunca contestou minhas avaliações; na verdade não acredito que ele me conceda tanto poder. Outro transformou-a em uma base (banco) de dados e “descobriu” matematicamente que o diretor que mais admiro é Woody Allen, o que não é verdade. Outro quer discutir cada avaliação e, por pura preguiça, fico quieto. O mesmo volta a querer discutir cada avaliação e, por puro ódio, mas me achando bondoso, resolvo explicar-lhe os filmes O Guardião da Floresta e Afogando em Números – tudo inútil. Outra, bem mais legal, conheceu Hal Hartley e me agradece comovida. Outro se apaixonou pelos escandinavos do Dogma 95, como se fosse possível o contrário. Etc., etc., etc.

Este ano foi péssimo para os cinéfilos. Entenda-se por cinéfilos as pessoas que ainda gostam de se fechar com pessoas estranhas em uma sala escura, a fim de assistir a uma projeção. Muitíssimos filmes ruins. Acho que os melhores – e estes foram realmente excelentes – foram Regras da Vida, Magnólia, Assédio, Os Cinco Sentidos e Wintersleepers.

Não sei porque antecipei em 3 dias a remessa deste mail, ainda mais depois de saber que entrou um “novo” filme (1998) do Hartley na cidade.

O significado as notas:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Uma bomba
0 – Além de bomba, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

Ano 2001:

Caros Amigos.

Pontualmente distribuída pelo quinto ano consecutivo, aí está a atualização da aguardada (?) e cada vez mais célebre (…) relação de filmes do Milton.

O ano cinematográfico de 2001 não teve nada a ver com o de 2000. Houve muitos filmes bons. Neste ano, farei um curtíssimo comentário sobre os melhores que vi. Quem discordar de mim sabe o que fazer. Espero que as discussões deste ano sejam tão divertidas quanto as ocorridas após as listas dos anos anteriores.

Os que mais gostei foram estes:

1. Dançando no Escuro: aqueles que são hostis aos caras do Dogma 95 terão que me desculpar. Foi o filme mais original que vi em muitos anos.

2. Poucas e Boas: quem não morreu de rir na cena em que Sean Penn encontra o verdadeiro Django Reinhardt? Um dos melhores de Woody Allen.

3. Traffic: este filme perdeu o Oscar para quem mesmo?

4. As Confissões de Henry Fool: junto com Infiel, o melhor de 2001. Um belíssimo filme sobre a amizade. Uma pena que só umas 100 pessoas o viram em Porto Alegre. Quem de vocês viu? Se tiver em vídeo ou DVD, aluguem-no logo.

5. Infiel: o filme perfeito. Texto, atores, sinceridade, realismo. Um filme sobre a necessidade de ferir o outro.

6. Código Desconhecido: foi visto por 10 pessoas no cofre do Santander. Só foi passou uma vez em Porto Alegre. Em São Paulo, ficou dois meses. Um filme demolidor sobre a violência racial na França.
7. Benvindos: Tão terno, humano e engraçado… Uma bela sobremesa.

8. Harry chegou para ajudar: Um brilhante filme todo baseado em O Terceiro Tiro (The TROUBLE with HARRY) de Hitchcock. Este Harry passa todo o filme dizendo não tem problemas, o de Hitch era o próprio problema. Este gera defuntos, o de Hitch é um defunto. Repentinamente, as pessoas deste filme começam a recitar as falas do filme de Hitch, só que no negativo. No final, os filmes acabam iguais, com gente feliz e os Harrys mortos. Pura diversão!

9. Inteligência Artificial: Ah, fala sério! O filme é ótimo de cabo a rabo. Gostei até do final, com aquela lombriga citando A Montanha Mágica de Thomas Mann.

10. Uma Relação Pornográfica: outro filme perfeito. Alguém imagina o que eles faziam no hotel?

11. Os Outros: junto com o Harry, a melhor diversão do ano.

Chega de conversa! Voltando à vaca fria, em anexo está uma tabelinha do Word com o ano em que vi o filme, o nome, o diretor e a nota que dei a ele. Elas significam mais ou menos isto:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Uma bomba
0 – Além de bomba, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

Ano 2002:

Lista de Filmes do Milton 2002.

Aqui está, pelo sexto ano consecutivo, a aguardada (já recebi e-mails perguntando sobre a continuidade da dita cuja), festejada (?), célebre (!) e principalmente inevitável lista de filmes do Milton. Foi um ano de grandes filmes europeus, especialmente franceses. Estes dias, navegando na Internet, descobri uma lista de melhores filmes de 2002 feita por Woody Allen. Sei que é sempre bom e desonesto solicitar auxílio de uma grife destas para avalizar nossas escolhas, mas os filmes que me impressionaram estavam lá, um atrás do outro: O Gosto dos Outros, Fale com Ela, Amélie Poulain, Italiano para Principiantes, Um Casamento à Indiana, etc. Não tem como errar.

Com a proliferação de novas salas de cinema em Porto Alegre – o que é ótimo -, não dá para ver tudo o que há. Mesmo tendo visto mais de 90 filmes este ano, fiquei aquém do que gostaria. Antes de (re) explicar a lista em anexo, vamos aos melhores de 2002, segundo este que vos escreve. Em 2000, coloquei apenas 5 entre os melhores; em 2001, foram 11 e, neste ano, 15.

1. Terra de Ninguém (Bósnia-Herzegovina) , de Danis Tanovic: páreo duro com Fale com Ela para melhor do ano. Uma implacável parábola da guerra na Iugoslávia. O roteiro nos mostra desde a conduta individual dos soldados em meio à guerra, até à imprensa que, mesmo que nos traga a realidade do front, é oportunista e trouxa. Mas a maior crítica vai para a ONU, cujos oficiais preferem manter uma distância profilática do conflito a intervir. Apesar da seriedade dos temas – a guerra, o ódio entre povos, as disputas de autoridade -, Terra de Ninguém não assume em momento algum um tom excessivamente trágico, melancólico ou engajado.

2. O Gosto dos Outros (França), de Agnès Jaoui: uma maravilhosa comédia de costumes com um roteiro bem escrito e elenco afinado. Um pequeno filme perfeito que sobre o preconceito nas relações humanas.

3. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (França), de Jean-Pierre Jeunet: uma história que nos lembra os personagens de Cortázar. Irresistível, com todo seu ludus, estratégias e comportamentos malucos e engraçados. Não é nada surpreendente o fato de ser amado pelas crianças. Minha filha de 8 anos o viu quatro vezes em 24h (havia tirado na locadora) e pediu o DVD de Natal. Ganhou.

4. A Cidade Está Tranqüila (França), de Robert Guédiguian: um filme estupendo e pesadíssimo, mesmo para quem, como eu, não se incomoda com temas desconfortáveis (drogas, morte, pobreza, etc.).

5. O Quarto do Filho (Itália), de Nanni Moretti: faço minhas as palavras de Marcelo Bartolomei, da Folha de São Paulo: o longa-metragem O Quarto do Filho (“La Stanza del Figlio”) é uma obra-prima do cinema italiano: trata de um tema extremamente triste, mas não tira o espectador da sala com um sentimento de depressão; só o faz refletir. É isto. (Não abro mais dois pontos dentro de dois pontos, tá?)

6. O Closet (França), de Francis Veber: desde o Monty Python não tinha rido tanto em uma comédia. E que atores! Auteuil e Depardieu estão soberbos!

7. O Homem que não estava lá (EUA), de Joel Cohen: uma história meio boba, mas narrada com grande senso de estilo e elegância. Imperdível.

8. Italiano para Principiantes (Dinamarca), de Lone Scherfig: o tipo de “pequeno filme” que me é especialmente sedutor. Adorei. Nunca pensei que Veneza pudesse aparecer tão bela em um filme do Dogma 95. Os outros filmes do Dogma não se permitiam paisagens. Porém, se me lembro dos dez mandamentos do Dogma, não há nada que as impeça, desde que não se altere a luz natural com filtros e efeitos. A história daqueles 6 solitários é contada com um olhar cheio de ternura. O filme mostra, cena a cena, as pessoas aprendendo e reaprendendo nova linguagens emocionais, além de italiano, é claro.

9. Cidade dos Sonhos (EUA), de David Lynch: tá bom, vocês vão querer brigar comigo por causa dos polêmicos 10 minutos finais. Creio tê-los entendido. Escrevi ¿creio¿… mas, como perguntaria Isak Dinesen, precisamos compreender tudo? Um filme envolvente como poucos. David Lynch é o máximo.

10. Um Casamento à Indiana (Índia), de Mira Nair: possui o enorme mérito de ser um dos poucos indianos a conseguir distribuição por estas bandas. Para quem não sabe, a Índia é o segundo país em produção de filmes no mundo. Penso que este foi o meu primeiro indiano… E que belo filme! Uma celebração à família em uma história com personagens de carne e osso. Imperdível.

11. Promessas de um Mundo Melhor (EUA), de Justine Shapiro, B. Z. Goldberg e Carlos Bolado: teve milhares de espectadores em São Paulo e Rio de Janeiro, pois foi adotado pelas escolas que levaram seus alunos para vê-lo. Aqui, teve vida curta. É um excelente documentário a respeito do cotidiano das crianças palestinas e israelenses durante o conflito. Comovente e cheio de boas entrevistas.
12. Cidade de Deus (Brasil), de Fernando Meirelles e Kátia Lund: um grande e empolgante filme. Se o livro já era um fato importante, o filme só acrescenta.

13. O Príncipe (Brasil), de Ugo Giorgetti: poucos o viram, já que ficou apenas no circuito alternativo. É a expressão da náusea de Giorgetti para com a política cultural, o abandono das preocupações sociais de uma geração e a convivência com a violência. Pra lá de pessimista e desolador. Mais um trabalho impecável do melhor cineasta brasileiro.

14. Fale com Ela (Espanha), de Pedro Almodóvar: em minha humilíssima opinião, o melhor do ano. A idéia do filme dentro do filme é um achado brilhante que nos prepara para o final da história. Genial! Não gostava do Almodóvar provocador do passado. Eu mesmo provoquei algumas discussões sobre o que pensava ser a “vulgaridade” do diretor. Porém, acho seus três últimos filmes (Tudo Sobre Minha Mãe, Carne Trêmula e este) grandes obras. Mais um grande filme sobre a amizade entre homens, como já fora o extraordinário As Confissões de Henry Fool (Hal Hartley), que passou aqui no ano passado.

15. O Filho da Noiva (Argentina), de Juan José Campanella: um filme perfeito! Roteiro monumental que equilibra boa comédia, drama consistente e que, ao final, quando lágrimas querem surgir em nossos olhos, o diretor interrompe os créditos para fazer um importantíssimo esclarecimento, que acaba por ser uma das melhores piadas do filme. Imperdível (deve estar ainda em cartaz).

Já as maiores decepções do ano foram Oito Mulheres, Depois da Vida, Onze Homens e um Segredo e principalmente O Senhor dos Anéis I.

Bem, chega de papo. Voltando à lista em anexo, ela é composta dos últimos 960 filmes que vi e lembrei de anotar. Os mais atentos notarão que ela diminuiu seu tamanho, pois antes de 1987 (entre 79 e 86), minha disciplina era bastante boêmia; então retirei da lista uns 200 filmes destes anos. Em anexo, há uma tabelinha do Word com a relação dos filmes que vi entre 1987 e 2002. Lá estão seus nomes, diretores e a nota que dei a eles. Para quem não sabe como ela começou: costumava anotar em minhas agendas os filmes que via e dava-lhes notas; uma vez resolvi jogar fora as agendas, mas achei que aquela relação de filmes poderia ser útil em idas a locadoras de vídeos. Digitei todos os filmes em um arquivo do Word e, durante uma discussão cinematográfica com meu amigo Franklin, na qual tínhamos esquecido o nome de um diretor, mostrei-lhe o arquivo. O arquivo foi recebido com tamanho entusiasmo que resolvi distribuí-lo anualmente, o que causa sempre muita confusão, pois alguns de vocês são muito chatos, opiniáticos e insistem em discordar de mim…

As notas significam mais ou menos isto:

5 – Não de deixe de ver
4 – Muito bom
3 – Vale a tentativa
2 – Medíocre
1 – Um saco
0 – Além de saco, mal intencionado

Feliz ano novo. Milton.

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Porque hoje é sábado, Marlene Dietrich

Carlos Drummond de Andrade brincava com Vinícius de Moraes

Drummond achava que a mais bela era Greta Garbo

Vinícius respondia que não, a mais bela era Marlene Dietrich

Prefiro Drummond como poeta, mas sua cara de farmacêutico nunca me enganou

Não entendia patavinas de mulher

Mulher era uma especialidade de Vinícius

E dou-lhe razão

Greta era fria e má atriz; Marlene era mais bonita, melhor atriz, excelente cantora e

Tinha o mistério que poucas mulheres possuem

Vestia-se como homem, mas ao contrário de Garbo, parecia uma fornalha pronta a explodir

Mesmo em fotos estranhas

Mesmo atrás da porta

Parecia prestes a saltar (maravilhosamemente) sobre nós

Mesmo quando passou apenas a cantar (e evoluía mesmo além dos setenta anos)

Mesmo quando retirou-se, mesmo depois de morta

Permaneceu ameaçando-nos com um olhar inquisitivo que não consigo decifrar…

… (burro que sou).

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Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que sua respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela – àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser assim descrita: seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

– Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu, Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma seqüência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

– Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem da mensagem que gravara. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

– Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos – principalmente para cuidar de seu filho -, que ele entendeu tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro específico.

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Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

– Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a idéia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?
– Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse uma música que a Maria Bethânia canta.
– Que música?
– Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

(Ou seria melhor chamá-lo “Da Humana Pretensão”?)

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Enquanto isso, em nosso Rio Grande…

Crusius! Nossa governadora provoca debates realmente originais. Nada que melhore sua imagem, claro. Estamos com o pior governo do país. De novo. Se eleger Rigotto foi uma idiotice, substituí-lo por Yeda torna indesmentível nossa estupidez.

Uma das provas da inexistência de Deus é o fato de sermos governados por gente como Yeda Crusius e José Fogaça. Ninguém pode ser insondável a este ponto.

Yeda Bagre

Charge de Eugênio Neves, do Dialógico.

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Tropa de Elite (ou Da Impossível Simplicidade), de José Padilha

I was not writing the Bible.
Resposta lacônica de Doris Lessing na Feira do Livro de Buenos Aires, em 1990, ao responder a uma leitora — de Veja?, já naquela época? — sobre o motivo do personagem X ter dito a Y aquela determinada frase presciente naquele determinado momento iluminado… Puf!

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Observação: Resolvi ver o filme após ler a discussão que corria lá no Torre de Marfim. E valeu a pena enfrentar a enorme fila. É um bom e importante filme brasileiro. Minhas considerações são parcialmente influenciadas por diversos posts e críticas lidas por aí, então não esperem cem por cento de ineditismo. Começo desorganizadamente pela periferia e vou pouco a pouco entrando nas questões principais de Tropa de Elite. Ao final, copio, no melhor estilo Fausto Wolff (mas com o devido crédito), alguns trechos lidos que achei especialmente esclarecedores ou inteligentes acerca do filme.

Não é o tipo de filme que normalmente me agrada; muitos personagens interessantes ficam inexplorados em troca da ação. Por exemplo, a esposa do Capitão Nascimento passa todo o filme repetindo a mesma ladainha ? e, porra (desculpem, deve ser influência do filme), seu papel mereceria maior desenvolvimento, pois é ela quem cobra de forma peremptória a saída do marido do BOPE ? e mesmo a burguesinha gostosa e correta poderia ser algo mais particularizada. Outra coisa que perturbou minha atenção é que eles suam o tempo inteiro. Parece um filme feito no insuportável verão gaúcho e não no calor bem mais seco do Rio. Talvez o drama e a tensão dos personagens devesse sair fisicamente por seus poros, mas com Wagner Moura, André Ramiro e Caio Junqueira atuando de forma soberba, nem precisava besuntar os atores. A tensão está na cara de todos eles. E por que a burguesa vivida por Fernanda Machado não sua tanto? Se os burgueses não sentem calor então por que compram tanto ar condicionado? Bom, OK.

Vale a pena discutir a acusação de que o filme seria fascista? Não fala em globalização, em Lula, não defende o capitalismo, a família, o patrimônio, nem os Estados Unidos ou Bush, vai sempre em linha reta sem proteger-se de eventuais assuntos espinhosos, Wagner Moura não tem nada de Stallone ou de Schwarzenegger e até obedece à esposa, não se fala de onde vem a droga e não há cartazes neo-nazistas nem de Che Guevara e muito menos resquícios de bolivarismo. Então…? Mais: na sessão em que assisti o filme, o público não aplaudiu ou aprovou as cenas de violência; ou seja, não me pareceu haver grande prazer em ver aquela violência tão pouco estilizada.

Maniqueísta? (Maniqueísmo: Doutrina que se funda em dois princípios opostos, antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo.) Maniqueísta? Mas quem é quem? E olha, mesmo que seja, considere que estamos no cinema, local onde o bem e o mal já travaram belas lutas e travarão outras, espero. O esquema mocinho-bandido é maniqueu, goste ou não você da palavra. E ponto. O foco narrativo do filme reforça o maniqueísmo ao partir exclusivamente do Capitão Nascimento ? cuja mulher está grávida e que deseja deixar aquele serviço – e do BOPE. Trata-se de uma visão, portanto, parcial e emocionada, dentro de um tom que permanece longe do narrador onisciente a derramar-se em verdades. Então, mesmo dentro do esquema tradicional do the good and the evil, José Padilha expõe certas fragilidades de seu personagem, deixando-o à crítica, por assim dizer. Diferentemente do que faria um filme fascista a proclamar suas teses, ele nos apresenta um ser humano plenamente contraditório e que, portanto, pode ser contestado. É claro que nos sentimos identificados com o narrador ? o filme infelizmente trata a bandidagem muito superficialmente -, mas nossa simpatia pelo narrador a priori o abraça, sendo ele bonzinho como eu ou mauzinho como o Alex Castro.

O principal mérito do filme é o de não dar razão a ninguém. É como a vida. Sei que é muito complicado para alguns espectadores – e também para o leitor médio da revista Veja – entrar em contato com uma história deficitária em termos de sínteses intelectuais (sínteses que na verdade só servem para nublar a realidade e outras camadas de experiência que, sabemos, têm o glorioso costume de serem inesgotáveis). Ah, o leitor de Veja não deve chegar próximo a Tchekhov, pois o russo, tal como Padilha, expõe problemas, mas nega-se a resolvê-los. Fala, professor: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.” Obrigado pelo auxílio, Anton Pavlovitch. Ora pro nobis.

Há cenas brilhantes no filme.

1. A cena em que o inteligente Matias ? finalmente metamorfoseado em homem violento da repressão – enfrenta diretamente o menino rico que liga-se ao tráfico e ao crime é uma espécie de recapitulação (*) do conflito externo. Fantástico. Ponto para Padilha.
2. A cena dos comprimidos, na qual o capitão Nascimento presumidamente evita matar-se com seus calmantes, jogando fora na pia o conteúdo do frasco. O conflito interno é demonstrado em cena curta e elegante. Mais um ponto para Padilha.

E há duas cenas lindas.

1. Na cena do nascimento do filho do Capitão Nascimento, Wagner Moura tem uma atuação absolutamente tocante, fazendo com que eu lembrasse de meus dois episódios semelhantes que ocorreram comigo. Principalmente do segundo, em que olhava para minha menina pensando no esforço que fizera para que aquilo acontecesse. Soma mais um para ele!
2. A cena em que são avaliados os policiais que participarão do Curso do BOPE: o elenco, como se estivesse brincando numa mesa de reuniões, improvisa uma série de piadas sobre os ?noviços?. Tal cena lúdica, talvez tomada num ensaio, é um refrescante interlúdio para o espectador. Brilhante.

E três fatos que reforçam o estranhamento.

1. O capitão Nascimento é um profissional que ama sua família, mas…
2. O traficante Baiano despede-se da mulher e filha quando sabe que enfrentará o BOPE. É uma atenção meio tosca, mas é a autêntica e…
3. Não quer que seu rosto seja desfigurado por um tiro, pois quer estar adequado em seu enterro.

São homens preocupados com suas famílias. Seres humanos.

Copy and Paste:

Arranhaponte escreveu isso na citada Torre:

(…)

Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório.Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.

(…)

As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um ?ataque do Bope? ao miolomolismo desta gente. Porrada pura.

(…)

Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.

Grande Arranhaponte!

E Sergio Leo, invariavelmente exato, expõe certa loucura da mídia:

Na capa da Veja, leio que o sucesso do filme Tropa de Elite se dá porque finalmente, alguém “trata bandido como bandido”. Meu amigo Bode Orelana, analista político de plantão, me garante que o filme é bom, e que desnuda a engrenagem hedionda capaz de fabricar torturadores de boas intenções. Leio na Folha um rapper defender a tese imbecil de que o crime é um mecanismo de justiça social, e o Reinaldo Azevedo, em vez de desmontar o argumento, dizer, babando pelo canto da boca, que a democracia pede a supressão sumária de vozes como essa.

(*) Termo utilizado de forma análoga ao da música erudita (as sonatas têm três partes: exposição, desenvolvimento e recapitulação): Recapitulação é a seção que tem a função dramática de afirmar o tom original, após a transferência para a dominante no final da exposição.

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Hospedando Tolstói

Foram duas discussões bastante duras e Idelber Avelar abandonou minha casa ontem à noite. O primeiro desacerto foi documentado por meu filho fotógrafo. Vejam o flagrante abaixo:

Milton X Idelber

Peço desculpas a meus leitores por submeter-lhes a um “Onde está Wally?”, mas é o que temos. Mais ou menos no centro da foto, estou à direita de um cidadão de óculos e camiseta branca. Eu olho para um Idelber empertigado e indignado – ele é a única pessoa no estádio que não está voltada para o campo de jogo. A meu lado, no lado direito da foto, há um sujeito loiro, vestindo vermelho. Seu nome é Paul. Minutos antes de nossa acerba discussão, Paul tinha dirigido a palavra a mim:

– Eu te conheço, sou teu leitor. Tu és o Milton Ribeiro e foste da Verbeat para o OPS.

Isso não acontece todo o dia e confesso ter ficado envaidecido. Mui gentimente, agradeci e apresentei Paul a Idelber Avelar. Foi a apresentação que um cara modesto como eu (200 visitas diárias) faz de um überblogger (5.000 visitas diárias). Eu disse

– Paul, muito obrigado, fico até comovido. – E completei:

– Este é o Idelber Avelar, do Biscoito Fino e a Massa.

– Desculpe, não conheço. Não leio todos os blogs.

– Claro que conhece, Paul! – disse e pisquei para ele. – Ele tem 200.000 visitas a cada domingo… O nome do blog baseia-se numa citação de Oswald de Andrade “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico” e ele…

– Comerá o biscoito? Hahahahahaha, tô fora, Milton, desculpa.

Ora, confesso ter sorrido; sei lá, talvez rido; alguém diria que tenha gargalhado. O fato é que Idelber indignou-se de tal forma que quase chegamos às vias de fato minutos após nosso primeiro encontro! A discussão foi tão ridícula e ociosa, que provocou risos no casal à esquerda da foto, cuja moça olha para o fotógrafo. Fomos impedidos de sair a socos e pontapés em plena arquibancada pela moça de enormes brincos e disposição ainda maior cuja cabeça impede que meus leitores possam ver meu cotovelo direito. Ela é campeã de Kickboxing e seu pézinho tem miraculosa mira. Ela acentuou a sensiblidade de partes delicadas do meu corpo. Paul sentiu-se tão culpado com o fato que publicou ontem um comentário em meu blog:

Olá Milton! Aqui fala o Paul, falei contigo no Beira-rio sábado. Cara, eu não entendi quando tu me disse o nome dele (provavelmente porque eu havia derrubado o copo de cerveja e estava tentando ver se havia dado um banho em alguém…), mas é óbvio que muito já li o blog do Idelber.
Eu acompanhava o teu outro blog pelos feeds da Verbeat, agora já vou incluir o “Ops” no google reader.

Grande abraço, e saudações coloradas!

Notaram o problema do rapaz? Dois dias depois ele vem a meu blog negar que desconhecia o obscuro Idelber (é óbvio que nunca passou nem perto do Biscoito). Bem, voltando aos fatos ocorridos no Beira-Rio: depois de lograrem acabar com as intenções assassinas de nosso professor, Paul e a menina dos brincos foram vistos rolando abraçados na rampa do Beira-Rio. Desconheço se ela viu o Biscoito ou apenas sentiu-o, mas espero que o Sr. Paul volte a nossa caixa de comentários com a finalidade de esclarecer o detalhe.

Ontem, Idelber Avelar voltou a se descontrolar. Manifestou exagerado ódio contra mim ao ver que eu ainda utilizava o Internet Explorer.

– Porra, pára de usar AGORA esta merda produzida pelo Bill Gates.

– Mas, Idelber, tu usas o Windows da Microsoft controlando o teu querido Firefox. Temos algo em comum, râni! – ao chamá-lo de Râni, tentava apenas demonstrar carinho.

– Conhecidos meus meu não usam essa porcaria, Milton. Instala agora o Fire! É mais rápido do que esta bosta que utilizas – sim, ele está tentando falar um gauchês plus. – Já faz vários anos que utilizo o Firefox. Ele é simplesmente o melhor navegador que já encontrei para meu Biscoito. Já utilizei Internet Explorer, Netscape, Opera, Konqueror e Safari mas nenhum deles satisfez minhas necessidades. Uso o Firefox por causa de suas extensões. Existe extensão para tudo, até para o Biscoito.

E saiu para fumar. Era uma da madrugada. Minutos depois, ouvi uma porta bater forte, como se comunicasse uma decisão aos que ficavam e procurasse deixar para trás seu mau humor. Não havia vento, porém a batida foi tão violenta que trouxe certo odor de tabaco. Ele não deve estar longe; afinal, deixou seus filhos lá em casa. Acabo de instalar o Firefox e termino este post para ir atrás do professor Idelber. Tenho certeza de que o encontrarei batendo papo com o gerente de alguma estação de trem. Levarei meu notebook e lhe mostrarei o Firefox instalado. Vai dar certo.

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O Papa acaba de acrescentar seis pecados aos conhecidos sete originais. É lamentável, pois ainda não estou inteiramente adaptado àqueles e o homem me aumenta o tema de casa.

1. Fazer modificação genética.
2. Poluir o meio ambiente.
3. Causar injustiça social.
4. Causar pobreza.
5. Tornar-se extremamente rico.
6. Usar drogas.

Os novos pecados dois a dois ou Gioco delle coppie (afinal, amo Béla Bártok):

2 e 6: Esses estão bem postos.
1 e 5: Poucos podem cometer o primeiro pecado e a Igreja Católica comete o quinto há séculos.
3 e 4: O terceiro e quarto serão fartamente utilizados pelos católicos do PT. Eles agradecem. Apenas eles.

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Notícias da Família Avelar

Chegaram sábado, quase que direto, fomos ao jogo do Inter. Idelber e seu filho Alexandre impressionaram-se com a frieza de nossa torcida. Todos sentados, assistindo ao jogo. Só a Popular, abaixo de nós, comportava-se como a Massa, mas tomada de grande cansaço. Engraçado, o Inter é um time recentemente bem sucedido, que enche estádios, mas sua torcida é cada vez mais tranqüila. À noite, tivemos uma festa em parte convidada por mim, em parte por ele e em parte auto-convidada. Conhecemos a Gabriela Zago, tímida e risonha Twitter no meio de uns caras muito faladores; reconhecemos a ala colorada do Impedimento, Daniel Cassol e Douglas Ceconello; esteve lá meu querido ex-chefe Tiago Casagrande, em noite de grande inspiração.

Ontem, dia de brique, Barranco e calor insano, foi dia de Katarina Peixoto, de seu maridão, do César do Animot e de um monte de não-blogueiros não menos interessantes.

O Idelber conhece bastante Porto Alegre e os convites vão acontecendo de um jeito inesperado, ao menos para mim. Se me contassem que, após 48h, o homem só faria uma refeição lá em casa, não acreditaria.

Uma história certamente pouco divulgada e que deve figurar em meu blog – mais pessoal e íntimo que o dele – é o jeito com que o Idelber relaciona-se com seus filhos. São eles o Alexandre, um menino de 11 anos, e Laura, uma menina de 8. O Alexandre é um projeto de adolescente ensimesmado, mas felizmente isto tem de ser somado a uma perfeita calma e gentileza. Mesmo com o iPod nos ouvidos, está ligado, pricipalmente se houver comida por perto. Como o pai, sabe tudo de futebol. A Laura também não é especialmente loquaz, porém impressiona pela maturidade e por gostar de cozinhar, fato que a fez ser adotada imediatamente por minha mulher. Gosta de palavras e dá explicações muito acima do esperado para seus 8 aninhos. Os dois demonstram que o Idelber é pouco comparado ao que virá.

P.S.- Cadê as fotos, Bernardo?

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Ludwig van Beethoven e Thomas Mann – Sonata No. 32 em dó menor, Op. 111

Há um capítulo muito famoso, mais exatamente o oitavo, no Doutor Fausto de Thomas Mann, em que o imaginário professor Kretzschmar dá uma aula sobre o tema “Porque Beethoven não escreveu o terceiro movimento da Sonata Op. 111”.

Talvez não haja verdades absolutas sobre algo tão aberto, criado numa arte que é intangível ar sonoro, mas o resultado é que, relendo o espetacular capítulo, resolvi pensar um pouco sobre uma questão que, se é significativa no romance de Mann, é apenas curiosa fora dele. Houve um corajoso Schindler (jornalista ou músico) que perguntou a Beethoven sobre a razão da inexistência do terceiro movimento. A resposta do compositor foi típica de seu mau humor: “Não tive tempo de escrever um!”. Mann explorou habilmente a história e só quem leu o Dr. Fausto sabe da profunda impressão que a aula de Kretzschmar causou a Adrian Leverkühn, o personagem principal do livro que no capítulo XXV.

Pois o incrível é que descobri que havia a intenção de um terceiro movimento para esta sonata e que Beethoven parece ter desistido dele. Inclusive no manuscrito onde está o primeiro movimento há uma anotação: segundo movimento – Arietta; terceiro movimento – Presto. Também não encontrei referências de que a Arietta (segundo movimento) fosse algum tipo de adeus, conforme disse o Kretzschmar de Mann. Claro que a invenção dessa despedida foi uma das muitas liberdades poéticas tomadas pelo ultra-entusiasmado professor. Está bem, foi a última sonata para piano de Beethoven, porém ao Op. 111 seguiram-se obras até o Op. 137 e dentre estas há todos os últimos quartetos, a Nona Sinfonia (Op. 125), as Variações Diabelli (Op.120) , as Bagatelas (Op. 126), a Missa Solemnis (Op. 123), etc. Ou seja, quando Beethoven escreveu o Op. 111, ele era um compositor em plena atividade e com vários projetos diferentes a desenvolver, não obstante a doença.

Porém, o mais interessante é tentar explicar porque esta obra provoca tanto e a tantas pessoas. A linguagem altamente abstrata que Beethoven alcançou em suas últimas obras nos perturba tanto aqui como nos últimos quartetos. A imaginação de quem criou a Arietta é arrebatadora. O professor Kretzschmar tem toda a razão ao proclamar que tudo aquilo vem de um simples dim-dada, ou seja, de três notas que não despertariam a atenção de nenhum artista comum, e é sobre este quase nada que Beethoven cria uma imensa construção, onde há lugar para a delicadeza, a simplicidade, o sublime e até para a explosão de uma desenfreada dança semelhante ao jazz que os negros inventariam 100 anos depois. Ele sempre foi dado à utilização de temas curtos e afirmativos, mas convenhamos, aquele dim-dada está mais para um balbucio de criança… Não seria isto o que nos surpreende tanto? A música se inicia como um balbucio, depois cresce mui modernamente, quase que por livre associação e depois retorna ao início. Será esta a despedida a que Kretzschmar se refere? Nascimento, vida e morte?

Não reli a aula de Kretzschmar antes de escrever este post. Fazendo rápida e severa auto-análise penso que talvez tenha entrado neste assunto apenas como pretexto para pensar em músicas que não são somente belas, mas demonstrativas de inteligência e engenhosidade. Outras do mesmo gênero seriam os quartetos de Béla Bártok, alguns dos últimos quartetos de Beethoven (principalmente o Op. 132), as Variações Goldberg, a Oferenda Musical de J.S. Bach e outras raríssimas. Não sei se me faço entender, mas acredito que o espítito mozartiano – que adentra muito no campo emocional – não poderia entrar aqui. São obras por demais cerebrais. São as minhas preferidas.

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A estadia do Idelber processa-se calma, amigável e bastante etílica. Mas que diabo se me deu vontade de falar em música neste fim de noite?

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Porque hoje é sábado, Ingrid Bergman

No Dia Internacional da Mulher, apresentamos a – na opinião deste atento observador – mais bela representante do sexo a que dedicamos não apenas nossos sábados como todos os dias de nossas vidas: Ingrid Bergman (1915-1982).

Notem acima como Ingrid, aos 63 anos, quatro antes de falecer e já tendo realizado duas mastectomias em razão do câncer que lhe foi fatal, ainda era uma mulher belíssima.

Ela, que nasceu e morreu no mesmo 29 de agosto, protagonizou um enorme escândalo em 1949.

Ingrid separou-se de seu marido sueco Petter Lindström para casar-se com o diretor Roberto Rosselini. Ambos tinham filhos, família, cachorro e calopsita.

Tal paixão fez com que Ingrid fosse acusada de adúltera e de mau exemplo para as mulheres americanas. Ficou anos sem filmar nos EUA.

Os EUA não fizeram muita falta, nem pessoal nem artísticamente. Com Rossellini ela teve três filhos: Roberto e as gêmeas Isotta Ingrid e Isabella, esta a também atriz Isabella Rossellini.

Meu Deus, que pedigree! :¬)))

Recebeu três vezes o Oscar, sempre com filmes meia boca.

O primeiro veio em 1944 com “À Meia-Luz”, o segundo em 1956 com “Anastácia, a Princesa Esquecida” (imaginem o que deve ser…).

O terceiro em 1974 por uma solteirona tímida em “Assassinato no Orient Express”.

Mas ficará eternizada por Casablanca, pelo saco de dormir de Por Quem os Sinos Dobram (daria tudo para me meter ali com ela)…

pela obra-prima Stromboli e pelos hitchcocks.

Aliás, Hitchcock a criticava publicamente: dizia que, se desejava ser eterna, não tinha que fazer papéis de grandes heroínas como Joana d`Arc, mas seus pequenos papéis.

O gordinho, como sempre, tinha toda a razão.

Pois, além de nos hitchcocks, ela é vista por toda a nova geração em um filme pequeno. Passou todo o tempo discutindo com o diretor. Um caso entre dois suecos brigões.

A luta Ingmar X Ingrid teve resultado sublime: Sonata de Outono.

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