Enquanto os psicanalistas se divertem

Marcos era um analista de sistemas que se interessava por arte. Gostava de ouvir música até tarde da noite e a solidão destes momentos levava-o a produzir pequenos textos que não mostrava a ninguém. Na verdade, eles se constituíam de anotações que muitas vezes acabavam em meio a uma frase ou ficavam só no título. Fazia com maior empenho listas de filmes ou músicas e lia, lia muito. Era um apaixonado que ia pouco a pouco sendo reconhecido pelos amigos como um catálogo ambulante. Parecia feliz. Sua mulher era uma advogada que repassara seus clientes para tornar-se exclusivamente professora universitária. Ela estudava muito e, contrariamente ao marido, produzia bastante na área do Direito de Família, área na qual era respeitada, apesar da juventude. Os dois tinham interesses em comum, iam a muitos concertos, filmes e freqüentemente liam os mesmo livros.

Após o jantar, Marcos estava lavando os pratos para a pia — sempre gostara de lavar a louça — quando o telefone tocou. Pensou que sua mulher o atenderia e continuou cuidando dos restos do jantar. Ouviu-a atender e logo foi chamado:

— Telefone para você!

Roberson queria falar com ele. Achou estranho, pois o conhecia somente dos aniversários e festas que a família de Álvaro, um amigo comum, promovia. Roberson era um psicanalista de quem todos pareciam gostar.

— Marcos, acabo de falar com o Álvaro e ele me indicou teu nome para uma atividade que nossa Associação fará daqui a três semanas.
— Associação? — perguntou Marcos.
— Sim, a APRJ, Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro.
— Hum, e do que se trata?

Roberson explicou-lhe ser responsável por um dos cursos da associação e que estava preparando uma aula especial de fim de semestre. A aula agregaria literatura, cinema e música. “As coisas, enfim, de que gostamos”, disse, rindo. Partiria do romance Noturno Indiano de Antonio Tabucchi, que estava sendo lido pelos alunos, passaria pelo filme homônimo de Alain Corneau e acabaria na análise da música do filme, principalmente na que o diretor utilizara na cena do hospital. Veio imediatamente à mente de Marcos uma cena dilacerante, inflamada e direcionada por Schubert. O psicanalista desejava um apoio externo, sobretudo para a parte musical. Acrescentou que o evento todo era algo a ser encarado como diversão.

— O Quinteto de Schubert… — externou vagamente Marcos.
— Exatamente. Vejo que você conhece o filme. O Álvaro me falou que você era o cara.

Era uma pessoa delicada e gentil; o que Roberson não sabia é que, apesar de Marcos nunca ter lido o livro de Tabucchi, este filme fora-lhe muito marcante, com suas cenas lentas mostrando o desolação do português Xavier a vagar sem destino pela Índia.

— Não sei…
— É sim. É bom que você leia o livro, mas sua maior participação, acho, será na parte musical. O filme nem precisa rever, nós vamos passar.

Enquanto lembrava-se com saudades das cenas finais passadas em Goa e sem necessitar de maior avaliação, aceitou e agradeceu o convite. Feliz, comentou o assunto com Lúcia, que não entendeu nada.

— Mas por que você? Não há músicos que possam comentar? — perguntou ela com voz um tom acima do habitual.
— Não sei, só sei que foi um músico, o Álvaro, quem me indicou.
— Estranho.
— Talvez eles pensem que eu possa contribuir com a história do Quinteto. E vou falar pouco; afinal, a aula é do Roberson — completou Marcos, conjeturando sobre os motivos que tornaram Lúcia agressiva.

Encontrar o livro de Tabucchi foi fácil. Lê-lo foi ótimo, rever o filme foi novamente emocionante e estudar sobre as circunstâncias da composição de Schubert ensinou-o sobre fatos que desconhecia. A presença do Quinteto no filme não era casual. Reviu diversas vezes a cena do hospital e foi aos poucos compreendendo as intenções de Corneau, construídas sobre a base de Tabucchi e catalisadas por uma das músicas mais tristes jamais compostas: o adágio do Quinteto de Cordas D. 956. Ou seja, dentro do espírito anunciado por Roberson, Marcos estava divertindo-se e a oposição de sua mulher — que o via para lá e para cá com o livro e o VHS do filme — não o preocupava.

Poucos dias antes da aula, Lúcia entregou-lhe um pequeno gravador e um livro de Adorno sobre música. Queria que ele gravasse a palestra que daria, pois “precisava ouvir”; desejava também que ele lesse algo decente sobre música. Marcos riu.

— Adorno fala sobre o Quinteto? — perguntou.
— Acho que não, mas é importante você ler isto. – Marcos viu que várias páginas estavam marcadas com pedaços coloridos de papel, cada um simbolizando um tópico.
— Lúcia, é uma coisa informal. Nem merece o nome de palestra, vamos só conversar. E estas coisas coloridas não dizem muito a um daltônico; por exemplo, qual é a diferença entre este e este papel? Estas cores representam alguma notação?

Em resposta, ela abriu o livro e começou a ler em voz alta um dos trechos indicados. Marcos reconheceu “Bach defendido contra seus admiradores”, um texto que nunca lera mas do qual já tinha ouvido falar. Era brilhante, porém inútil para o que ele faria. Enquanto ela seguia, ele estendeu o braço para o teclado do computador, entrou no Google e fez a consulta “Adorno jazz Casagrande”. Chegou ao blog de Tiago Casagrande e leu em voz alta, interrompendo-a: O objeto do jazz é a produção mecânica de um momento regressivo, um simbolismo da castração. O sujeito que se expressa (pelo jazz), expressa precisamente isto: não sou nada, sou sujo, e mereço qualquer coisa que façam comigo. Potencialmente este sujeito já se tornou um daqueles russos acusados de um crime e que, embora inocente, desde o inicio colabora com seu perseguidor e é incapaz de encontrar um castigo severo o bastante.

— Eu estou lendo algo que acho importante para você e você me vem com esta merda?
— Escrita por Theodor Adorno.

Ela ficou desconcertada.

— Bom, eu queria te ajudar e detestaria que você, como marido de uma pessoa pública, me envergonhasse.
— Pessoa pública?
— Sim, sou conhecida e não quero uma palhaçada.

No dia seguinte, ela apenas pediu para que ele gravasse a palestra.

Na aula, cerca de vinte pessoas viram Roberson apresentá-lo antes de falar sobre o livro de Tabucchi e anunciar o filme que veriam. Depois do filme, Roberson fez um curto discurso sobre o que fora visto e abriu espaço para Marcos explicar a música de Schubert, esclarecer as circunstâncias de sua composição, fazer analogias entre as três obras e entrar, com todos, num debate gentil, bem humorado e interessado, em que surgiam observações inteligentes, principalmente a respeito do livro. Em meio às argumentações, inteiramente à vontade, Marcos pensou: “Isto aqui é puro fun. É ótimo”.

Ao final, provocou protestos por não poder jantar com a turma em função de um compromisso. Era mentira e ele ignorava o motivo da recusa. Despediram-se. Já em casa, entregou o gravador para Lúcia e foi comer alguma coisa. Ainda estava na cozinha quando ela saiu do quarto reclamando que não conseguia entender nada do que fora dito por ele ou por ninguém. Ele abriu os braços, pondo a culpa no aparelho. Parabenizava-se por tê-lo enrolado cuidadosamente num lenço, deixando-o no bolso de trás das calças jeans.

1 comment / Add your comment below

Deixe uma resposta