Anotações Pessoais sobre Anton Tchékhov e E-mail recebido

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Döblin, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchekhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas (vocês deveriam ler a RASCUNHO, repito!) e me ordenasse escolher um e somente um, eu – talvez estranhamente – escolheria Anton Pavlovitch Tchekhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchekhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco diferente do amor – o qual é visto sem muitas ilusões – e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchekhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchekhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo – uma boa história – indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchekhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen. Voltei para a casa diferente.

Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchekhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchekhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchekhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante: “Para Tchekhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchekhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

Em vida, Anton Tchekhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchekhov criou novas – absolutamente novas – formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchekhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchekhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchekov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.
Para mim, Tchekov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévsky.

Bom final de semana!
Fernando

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Mais um tabu é quebrado em Pequim

Depois d`O Caso da Vara sem Damião, Sinhá Rita ou seminário (*) e da luta do português com João Derly, mais um tabu vai para o espaço.

(*) Não estaria na hora de ler os contos de Machado de Assis?

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Alfredo fala, Laura responde, Marcelo e Joana telefonam

Alfredo, 26 anos, 1,90m, 112 Kg, era um gordo em permanente expansão apaixonado por Laura, 24 anos, 1,60m, 48 Kg. Costumava trazer-lhe mimos; coisas como chocolatinhos, bebidinhas e, agora, na época mais fria do ano, chegou ao ponto de levar quentão para sua pretendida. Quentão é uma bebida que mistura vinho, cachaça, canela, açúcar e cravo, às vezes noz moscada e casca de laranja ou limão, e é irresistível no inverno. Laura sabia que a garrafa térmica de Alfredo tinha a intenção de aquecer-lhe o coração em sua adiposa direção, mas tal consolo só fazia com que ela pensasse com maior ternura em Marcelo, 23 anos, 1,72m, 70 Kg, um jovem meio sem graça que não lhe trazia mimo algum e que costumava aconselhar Alfredo a considerar o efeito benéfico que um regime traria a sua rotunda pessoa. Ocorre é que Marcelo só tinha olhos para a loira Joana, 20 anos, 1,68m, 57 Kg, que era ainda mais sem graça do que ele e dava a impressão de que o clímax de sua vida era quando ia à academia malhar seu corpo que, diga-se de passagem, era belíssimo, fazendo com que muitos homens tentassem buscar (ou não) sua alma escondida sob tantos alongamentos, pesos levantados, abomináveis abdominais e seios sublimes, aumentados e empinados pelo silicone.

Alfredo acostumou Laura a seus mimos gastronômicos e telefonemas. Os contatos pelo telefone eram tão freqüentes e longos que a moça não tinha tempo de falar com outro. Ela revirava os olhos cada vez que o telefone tocava, mas atendia e – notável! – gostava. Não adianta, certas mulheres gostam mesmo de rir e Alfredo era engraçado, soltava de improviso boas piadas e Laura ria e ria do outro lado da linha. Era bom aquilo. Sabemos que os diretores de cinema gordos amam os complexos movimentos de câmara porque caminham pouco e ficam vendo o mundo de cima da grua. Alfredo também não queria deslocar-se muito, cansava facilmente, preferindo “namorar” pelo telefone. A voz de Laura e principalmente sua risada eram importantes para ele, que se achava inadequado e feio para a perfeição que via na lauríssima criatura. Apostava em seu espírito, mas, toda vez que tornava-se íntimo e confidente, Laura vinha com o papo sobre Marcelo, aquele antípoda seu: chato, burro e louco por outra.

Muitas vezes os quatro saíam juntos. Iam a festas e tinham a singularidade de parecerem um quarteto assexuado, pois nada era manifesto. As intenções só emergiam em telefonemas e em rápidos encontros pessoais provocados pelas raras idas de Alfredo ao local onde Laura estagiava, por Laura correndo atrás de Marcelo na faculdade, por Marcelo indo à academia em muitos finais de manhã procurar Joana, que – surpresa! – deixava-se dar alguns amassos e algo mais quando a endorfina estava alta e misturada com o suor, mas nunca à noite, quando permanecia em silêncio, ouvindo os amigos, feliz com sua bela aparência e tranqüila com a mente mansa dos animaizinhos mais simples. Porém, ela sofria, assim como Marcelo. Joana queria um homem alto, grande e sarado para si; fingia seus orgasmos para aquele esquelético Marcelo e chegava a achar Alfredo mais interessante, apesar deste quase ignorar sua existência silenciosa, incapaz de externar uma opinião sobre aquele Blow-up a que ele submeteu o grupo em sua casa na semana anterior, fazendo ao final os brilhantes e cômicos comentários que encantaram à Laura que, por sinal, andava engordando sem se dar conta. Joana ficou de olho: ao final do filme, sem parar de falar – exclusivamente à Laura, e em voz altíssima -, ele foi à cozinha e trouxe a mais bela torta de requeijão com goiabada que vira até hoje. Era puro amor transformado em doce para Laura. A goiabada escolhera aquele momento para descer pela base de requeijão, como dedos que buscam prazer sobre a pele. Ao ver aquilo, Laura voltou seu olhar encantado de Alfredo para o magrinho Marcelo que, constrangidamente, dirigiu seu olhar à Joana, que observou como Alfredo era triste com toda aquela comilança e devoção à Laura.

Naquela noite, ao chegar em casa, Marcelo telefonou para Laura e disse que ela e Joana estavam fascinadas pelo gordo, mas ficou literal e longamente boquiaberto ao ouvir uma Laura meio bêbada pelos eflúvios de Alfredo rebater que iria visitá-lo naquele minuto a fim de mostrar sua “fascinação”. “E ponha uma música adequada!”, ordenou.

Neste ínterim, enquanto voltava para casa no banco de trás de um táxi, uma Joana sem endorfina permitia-se algumas lágrimas que desciam em direção ao sublime colo de silicone. Ela pegou o celular e ligou para Alfredo, que não atendeu. Ligou novamente e ouviu um alô assustado. “Oi, joaninha do meu jardim, aqui fala teu pulgão. Aconteceu alguma coisa de grave?”. “Não, nada de grave, é só que eu não queria ficar sozinha esta noite”.

E, com efeito, nada de grave ocorreu, apenas o grupo dos quatro tornou-se publicamente sexuado. Alfredo e Marcelo não tornaram-se grandes amigos mas Laura e Joana, sim. Trocavam confidências: Joana não gostava de ser chamada de “minha loirinha limitada” e sentia-se insegura, Laura andava sempre brigando com Marcelo, principalmente após saber de suas idas matinais à academia.

Não foram felizes por muito tempo porque, como vocês sabem, é sempre assim. Mas Laura e Joana ainda são amigas.

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Tertulha Virtual (Tema: Água) – A Fonte da Donzela (Final)

Participando da Tertulha Virtual, criada pelo grande Eduardo Lunardelli do blog Varal de Idéias, deixo aqui para vocês o extraordinário momento em que a fonte de água (ou da vida) nasce sob a cabeça da filha cruelmente assassinada. Bergman é sempre perfeito e vale a pena ver não apenas esta seqüência final mas todo o filme. Porém o motivo de minha postagem começa aos 4min02.

A Fonte da Donzela é um filme de 1960. Trata-se da maravilhosa encenação e filmagem de uma lenda medieval sueca, cuja história copio abaixo. O vídeo está dublado em italiano… Acho que dá para entender.

Grande abraço, Eduardo.

Na Suécia do século XIV, Töre e sua mulher Märeta formam um casal que tem uma propriedade rural. Cristãos fervorosos, incumbem sua filha única, Karin, uma bela adolescente virgem, de quinze anos, de levar velas à igreja do vilarejo próximo e acendê-las em louvor à Virgem Maria.

Com licença da mãe, ela veste seu mais valioso vestido e parte, a cavalo, através de uma floresta, para realizar a missão a ela confiada. Acompanhando-a, segue ao seu lado, Ingeri, uma criada tida como filha adotiva do casal Töre, que se acha grávida.

No caminho, ao passarem por um culto de magia, Ingeri diz à Karin que vai voltar, por achar que anoitecerá antes que elas consigam chegar à igreja. Decidida a atender ao pedido dos pais, Karin segue em frente sozinha. Enquanto isso, movida por um enorme ciúme que sente da jovem, Ingeri participa de um ritual do culto a Odin, com a intenção de que algo de mal ocorra à Karin. Em seguida, passa a acompanhá-la, mantendo uma certa distância da jovem.

Ao encontrar dois pastores de cabras e um garoto, Karin os convida para dividir uma refeição que sua mãe havia preparado para ela. Em seguida, é agredida sexualmente pelos dois homens, os quais, após estuprá-la, a matam com um porrete. Ingeri, impotente, assiste a tudo.

Quando a noite cai, ironicamente os criminosos vão pedir comida e abrigo aos pais de Karin. São recebidos cordialmente e, depois de acomodá-los, Töre lhes promete trabalho. Märeta mostra-se nervosa, pois a filha ainda não retornou da igreja, mas o marido tenta tranqüilizá-la dizendo-lhe que em outras ocasiões Karin dormiu no lugarejo.

O temor da mãe se concretiza quando um dos pastores, sem imaginar onde se encontram, tenta vender, à Märeta, um vestido que alega ter sido de uma irmã dele. Ela reconhece o vestido de sua filha e, controlando-se, promete-lhe pensar no assunto. Ao falar com Töre, os dois têm certeza do triste destino da filha, pois a peça acha-se suja de sangue.

Ao encontrar-se com Ingeri, Töre toma conhecimento dos detalhes do brutal ataque sofrido pela filha, que a levou à morte. A jovem pede-lhe perdão por se sentir culpada pelo ocorrido à Karin. Movido por um forte sentimento de vingança, Töre mata os criminosos.

Na manhã seguinte, guiados por Ingeri, todos seguem até o local onde se encontra o corpo de Karin. Enquanto Märeta abraça-se ao corpo da filha, Töre, em sua crise de desespero, interroga Deus sobre os motivos que o levaram a permitir tamanha tragédia. A seguir, entretanto, ele implora seu perdão por seus pecados e promete construir, com suas próprias mãos, uma igreja no local, em penitência por sua vingança sanguinária.

Ao retirarem o corpo de Karin, surge milagrosamente uma fonte de água exatamente no local onde o mesmo se encontrava.

Crítica

Uma lenda medieval sueca inspirou a fábula “A Filha de Töre em Vangé”. “A Fonte da Donzela”, por sua vez, foi baseada nessa fábula. Realizado pelo grande mestre do cinema sueco, Ingmar Bergman, sua trama gira em torno de uma jovem adolescente e virgem que, ao ser estuprada e morta, faz surgir milagrosamente uma fonte de água no local do crime.

Soberbamente fotografado em preto-e-branco por Sven Nykvist, parceiro de Bergman em inúmeros filmes, esta magnífica produção carrega consigo uma mensagem de fé e esperança do homem, mesmo depois de passar por uma enorme tragédia.

Como em diversos outros filmes de Bergman, temas como a violência, a vingança e a necessidade de redenção acham-se presentes. Aliás, raramente tive a oportunidade de, no cinema, ver tais temas serem tratados com a delicadeza impressa por este consagrado cineasta em “A Fonte da Donzela”. A religiosidade e a presença de Deus, dois outros temas recorrentes na obra de Bergman, acham-se igualmente presentes.

Retirado daqui.

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Carta aberta ao judoca português Pedro Dias

Sabemos, Pedro, que tu tinhas uma questão pendente com o João Derly. E que questão! O povo brasileiro tomou conhecimento anteontem que, no ano passado, enquanto tu fazias compras no centro de São Paulo com a mãe de João Derly, ele se divertia no hotel com tua namorada brasileira. Sim, é um fato triste na vida de qualquer homem. Por este motivo, o fato de o teres vencido e eliminado das Olimpíadas de Pequim te deu um prazer e um gosto todo especial.

Porém, amigo Pedro, ouça o que tenho a te dizer. Essas coisas não se contam publicamente. Todo o Brasil está agora se divertindo com o português trouxa e, depois da informação, tua grande vitória tornou-se apenas uma vingancinha de corno. Tsc, tsc, tsc. Por favor, tenha um pouco mais de dignidade, Pedro. Tu fizeste bem a primeira parte: foste lá e eliminaste o João do torneio que ele mais desejava vencer. Pedro, tu tiraste a medalha do gajo que é bicampeão mundial! Ali, no tatame, realizaste tua vingança. Esta, para ser digna, deveria ser silenciosa e finalizada somente por um leve sorriso. E fim. É assim que se faz. No máximo, deverias ter dito ao João, privadamente:

– A vingança é um prato que se come frio.

Isto seria perfeito. Mas não. Resolveste humilhar publicamente João Derly. Erraste. Todo o país está rindo da esperteza do gaúcho que comia tua namorada enquanto fazia comprinhas com, com… logo com a mãe de teu mau amigo! Posso imaginar a cena.

– Pedro, não querias fazer compras em São Paulo?
– Sim, umas poucas coisinhash de que pr`ciso.
– Olha, minha mãe pode te acompanhar. E… Quanto à X, deixa ela dormindo.
– Ah, Derly, muito t` agr`deço. Mas não extarei atr`apalhando a sinhora tua máe?
– Não, que idéia! Darás um prazer a ela. Ela já adora fazer compras. Imagina então com um cara bonito como tu…

Tudo bem, Pedro, foi uma traição. Mas acho que quando a gente é traído, deve resolver a coisa internamente, não nos jornais. Esta tua declaração…

– Tinha uma questão pendente com ele. Já fomos amigos, mas agora somos só conhecidos. Se é uma questão de saias? Pode dizer-se que sim, mas o assunto ficou hoje tratado.

… foi de total infelicidade. Ficaste tão encantado (e burro) que não apenas reduziste tua grande vitória como tomaste um pau na rodada seguinte e também ficaste fora das Olimpíadas. Enquanto isso, João dizia-se inocente, que era invenção e que gostaria de conversar contigo a respeito. Pedro, ele voltou a ficar em vantagem. Nota zero para ti. Invalidaste tua desforra.

Aprenda a ficar calado e a não aceitar convites para sair com a mãe do amigo, gajo. Só se for para dar uns amassos na véia.

Grande abraço.

De bandana, Pedro Dias esconde seus ornamentos enquanto acaba com Derly.

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Medo de Dentista

Hoje, às 18h, eu vou à dentista. Eu tenho horror a dentistas.

Não tenho medo de cirurgias, de altura, de avião, do Grêmio, de ratos, de insônia, da velhice. Tenho medo é de dentistas.

Às 18h. São 13h30 e só penso no que me fará a Dra. Simone daqui 4 horas e 30 minutos. Uma enorme obturação — quase 100% do dente — quebrou e hoje ela será refeita. Fui lá na semana passada e ela me disse hum, vai dar canal. Então me botou aquela coisa gélida no dente e quase me atirei pela janela. Sorte que pude pensar antes, o consultório é no 22º andar. Surpresa com a dor que eu tinha sentido, ela respondeu então não vai dar canal. Canal? Ficou louca? Nunca fiz tratamento de canal e só ouvir uma expressão dessas já me provoca pânico e desarranjo.

Meus pais eram ambos dentistas e sempre preferi fazer os tratamentos com meu pai (cirurgião-dentista), já falecido. Ele parecia me compreender melhor. O trauma começou lá na minha infância, quando minha mãe – que era…, bem, odontopediatra -, começou a eliminar minhas cáries. Hoje sabemos que uma mãe NÃO DEVE ser a dentista de seu filho, mas, nos anos 60, essa noção não era tão clara. A criança que eu era nunca entendeu porque a pessoa que mais amava neste mundo insistia com aquelas torturas. Era ela quem ligava aquela coisa giratória e de som insuportável em mim. Mas o pior era a emissão secundária de um ventinho frio, úmido e dolorido que me penetrava boca adentro e que me fazia automaticamente gritar, chorar e mexer as pernas. Hoje não faço mais fiascos, mas internamente choro e não entendo porque não me amam.

Morei muitos anos com meus pais em uma grande casa de dois andares. A família morava no andar de cima e o térreo servia para as atividades de nosso DOI-CODI. Com uma mãe odontopediatra, podia ouvir durante o dia os gritos, o choro e a indignação das criancinhas seviciadas. Não sei como ia tanta gente lá, eles estavam sempre com o consultório lotado! Ficava surpreso com a cordialidade com que os adultos mutilados se despediam de meu pai, quando acharia mais natural que praguejassem violentamente e buscassem reparação ou vingança. Mais surpreendente ainda era a reação cordial das mães das crianças às ações de minha mãe.

Hoje estarei na cadeira com a suave Dra. Simone. Ela é bonita e, apesar de perigosíssima, não parece. É um tipo mignon; tal como minha mãe, é magra e mede 1,55m, no máximo. Gostaria de suplicar-lhe cuidados maiores que o normal. Quando lhe falei sobre meus medos, ela riu muito e fiquei imaginado que crueldades poderiam estar escondidas sob cada ha que ouvia. Ha, ha, ha. Qual é a graça? Acordei pensando nela, louco para desmarcar a hora, ainda mais quando abri o jornal e ele dizia, inequivocamente: 13 de agosto. Disse isso para minha mulher que, após a tradicional inspeção feminina sobre quem seria a tal Dra. Simone e porque eu justamente a escolhera, ironizou falando alguma coisa sobre homens medrosos que ficam 10 anos sem ir ao dentista e que, com 50 anos, só vão uma vez fazer o tal exame de próstata, enquanto as mulheres, etc., chega! Despediu-se perguntando se eu não desejava que ela fosse junto para segurar minha mão…

Decididamente, as pessoas não são sérias.

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Alexander Soljenítsin já tinha morrido

Foi chocante a acolhida que teve a morte de Soljenítsin na imprensa nacional e internacional. Ninguém o lia, mas todos repetiram que tratava-se de um portentoso escritor, algo como um Tolstói, do qual na verdade só possuía a barba. A lista de seus livros era repetida e sistematicamente elogiada, quase sempre com as mesmas palavras. Ninguém o lia, repito, pois o escritor, morto no último dia 3, já estava literariamente morto e enterrado, sobrando apenas o importante “autor geopolítico”. Como li mais de sete daqueles intermináveis livros, posso dizer que, estatisticamente, TODOS os que escreveram nos grandes jornais e nos blogs nunca tiveram uma obra de Soljenítsin por perto. Mas apenas Sérgio Rodrigues confessou.

Seu primeiro livro foi o único realmente bom. A pequena novela Um Dia na Vida de Ivan Denísovich, de 1962, é uma contida e por isso mesmo pungente crítica ao stalinismo. A obra veio à tona durante o processo de desestalinização promovido por Kruschev e tornou-se um merecido sucesso. É uma novela. Depois dela, Soljenítsin escolheu como base a forma do romance do século XIX anterior à Dostoiévski e muito anterior à Tchékhov. E, além de antiquado, suas obras tornaram-se expressão própria do escritor, disfarçados como documentos históricos do período soviético. Mas são mais Soljenítsin do que qualquer outra coisa; ou seja, eram da lavra de alguém que vivia num planeta todo seu.

Sua expulsão da União Soviética, ocorrida em 1974, criou grande constrangimento entre os que o acolheram. Seu primeiro discurso fora da URSS já apontava para alguém meio amalucado que, na verdade, defendia os regimes de exceção, mas um regime de exceção bem particular, uma fantasia russa, moral e religiosa. Ou seja, como escreveu Sérgio Rodrigues no TodoProsa, Soljenítsin cavou seu próprio e imediato ostracismo ocidental. Este discurso de 1978, proferido em Harvard, demonstra que o homem tinha posições políticas só compreendidas por ele e, talvez, por mais meia dúzia de doidos varridos.

Na sociedade ocidental de hoje, revelou-se a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que queira realizar algo importante e altamente construtivo para seu país precisa agir cautelosamente, até mesmo timidamente; existem milhares de críticos afoitos e irresponsáveis à sua volta, o parlamento e a imprensa o rechaçam. À medida que avança, ele é obrigado a provar que cada um de seus passos é consistente e absolutamente impecável. (…) Desse modo, a mediocridade triunfa sob a desculpa das restrições impostas pela democracia.

A defesa dos direitos individuais chegou a tais extremos que tornou a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos. Chegou a hora, no Ocidente, de defender menos os direitos humanos e mais as humanas obrigações.

O criminoso pode ficar impune ou ser tratado com leniência indevida, apoiado por milhares de defensores públicos. Quando um governo começa uma luta sincera contra o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Há muitos casos desse tipo.

Aqui, temos o enlouquecido (e repressivo) discurso por completo.

Arquipélago Gulag, Pavilhão dos Cancerosos, Agosto 1914, O Primeiro Círculo e outras são obras enfadonhas e repetitivas de um escritor que foi apoiado fora da URSS apenas em razão de suas posições simpáticas àquilo que desejava o Ocidente: o fim da União Soviética. Deixo de fora da lista o aceitável O Carvalho e o Bezerro, livro que li com algum prazer. É notável o fato de que Soljenítsin possa fazer estatísticas dos campos de concentração, mesmo sendo inteiramente cerceado. Já imaginaram algum inimigo da ditadura militar brasileira publicando minuciosas estatísticas de prisões e mortos? Soljenítsin fazia! Como conseguia? O que ele lia? Quem lhe dava acesso à informações tão privilegiadas e circunstanciadas? Ora, me desculpem, mas garanto que tudo aquilo partia da imaginação do moço e do desejo que a maioria de nós, ocidentais, tínhamos de que fosse verdade. Soljenítsin fazia ficção. Sempre.

Seu país ideal era a Rússia pura de antes da Revolução e as inimizades que arranjou entre os próprios dissidentes soviéticos às vezes pareciam cômicas. Shostakovich fugia de Soljenítsin. Achava-o um grande chato e, quando ele anunciava sua presença na casa do compositor — pois, em sua guerra santa, costumava impor o horário sem desejar saber sobre disponibidade alheia — Shostakovich e sua esposa Irina sumiam dentro de um algum cinema. (Sim, sei que Maxim, o filho do compositor, foi ao funeral e disse palavras elogiosas. Li bastante a respeito.)

Uma vez, Shostakovich assinou uma petição que solicitava a libertação do compositor grego Mikis Theodorakis. Para quê…! Alexander ficou uma arara vociferando que Dmitri estava se preocupando com problemas que não lhe diziam respeito. Depois disso, em resposta ao silêncio de Shostakovich, ao invés de seguir elogiando o compositor como fez em O Carvalho e o Bezerro, passou a atacá-lo com críticas notável embasamento técnico: passou a dizer que “a música de Shostakovich entrava por um ouvido e saía pelo outro”… Pobre Soljenítsin; a música de Dmitri cada vez é mais ouvida, já os livros do Prêmio Nobel…

Grosso modo, havia três correntes de oposição na União Soviética pós-1970:

1. A de Sákharov, Tviordokhlébov e Shalídze com o Comitê de Defesa dos Direitos Humanos: algo razoável, democrático;
2. A do escabelado Soljenítsin que apenas era compreendida por ele e recriada livremente no ocidente: tinha caráter religioso e de retorno ao passado;
3. A dos irmãos Medviêdev, historiadores que desejavam “o retorno ao maxismo-leninismo puro”: corrente com a qual Shostakovich teria mais afinidade, certamente.

Após a expulsão da URSS, o ocidente pode ter finalmente contato com o Soljenitsin real. Ele apoiava Pinochet. Ele deu uma entrevista à televisão espanhola na qual fez a apologia do regime franquista, ao mesmo tempo que lançava críticas aos “círculos progressistas”, ou seja “a oposição democrática” de liberais, sociais-democratas ou comunistas. Ele pediu, em 1976, para que os EUA voltassem ao Vietname, desta vez para vencer. Ele discursou, em 1974, para que os EUA interviessem em Portugal; etc.

Mais valorizado fora do que dentro da Rússia, fica de Soljenítsin a corajosa figura pública de oposição ao regime soviético. E talvez Ivan Denísovich. O restante de sua obra é de valor histórico e político. E só. Como digo no título, Alexander Soljenítsin já tinha morrido, voltou a agitar-se no início de agosto e agora deverá ir diretamente ao paraíso no qual tanto acreditava.

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Do Leitor Normal

Os últimos resultados obtidos pelo Sport Club Internacional têm feito seus torcedores reagirem das mais diversas maneiras: há os que se deprimem e têm dificuldades até para sair de casa, há os que caminham sem rumo pela rua falando sozinhos e há os que — identificando-se completamente com o clube — passam a fazer a apologia do secundário, procurando solapar tudo aquilo que é grandioso e perfeito. Este é o caso do professor de literatura Luís Augusto Fischer e ele escolheu o veículo jornalístico mais notório de nosso estado para divulgar seu problema.

No artigo chamado O Leitor Normal, publicado há algum tempo na Zero Hora, o Prof. Fischer escolheu — com imenso despudor — duas vítimas de primeiríssima linha: Thomas Mann e Franz Kafka. Argumenta ele que a obra A Montanha Mágica de Thomas Mann seria um livro chato, arrastado, lento, pré-cinema (?) e ilegível para o leitor normal e sugere que Kafka seria um autor desprovido de bom humor e auto-ironia. Talvez o autor pense que as repetidas reedições de A Montanha Mágica e das obras de Kafka sejam devidas apenas a masoquistas e a entediados especialistas em literatura.

Prezado Prof. Fischer, o Sr. não é um leitor normal, o Sr. publicou e organizou diversos livros, é uma pessoa conhecida e respeitada; o leitor normal sou eu, que não vivo de literatura, que não tenho produção cultural, que trabalho o dia inteiro e que, em meus horários livres, leio uns livrinhos por aí. Do alto de minha autoridade de Leitor Normal, digo-lhe que, dentre os livros que amo, incluo A Montanha Mágica e quase toda a obra de Kafka. Sei que é um abuso, mas vou procurar lhe expor algumas características deste romance de Mann e da produção de Kafka.

Um dos principais assuntos de A Montanha Mágica é o tempo. A “ação” se passa dentro de um sanatório, onde há apenas médicos, pacientes e funcionários. É a representação de uma Europa enferma e vacilante logo após a Primeira Guerra Mundial. O livro é de 1924 e todos nós sabemos o que aconteceu depois na Alemanha e Europa. As discussões, muitíssimas vezes agressivas, ocorrem num ambiente onde impera a modorra e o tédio. Este enfraquecimento do senso de tempo, — expressão de Mann — deve ter sido tão bem trabalhado pelo autor, que o Sr. começou a dormitar e a pular páginas e páginas, tal como, em seu artigo, confessa ter feito. Deve ter pulado os luminosos capítulos Neve e Passeio pela Praia, devia estar tonto de sono durante as sensualíssimas cenas entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat e não imagino o que fazia enquanto Naphta e Settembrini se matavam a discutir.

Já chamar Kafka de opressivo, sisudo, vetusto e funéreo é apenas fazer eco a um dos lugares comuns mais equivocados. Esta declaração soa como chamar Kafka de kafkiano, ou como chamar todas as personagens femininas de Balzac de balzaquianas. É respeitar um adjetivo, deixando de lado o sujeito. Posso citar de memória uns dez trechos de Kafka onde há bom humor e auto-ironia. Será que no livro mais famoso deste autor não há auto-ironia? Será que não há um pingo de auto-ironia numa história em que o narrador acorda e vê-se transformado em inseto? Será que não haveria uma pitada de auto-ironia se o Prof. Fischer escrevesse uma história como a que segue? “Num belo dia de outono, Luís Augusto, ao acordar, viu-se vestido de chuteiras, calção e camiseta do Grêmio…”. Está bem, concordo que é antes um pesadelo dos mais tenebrosos, mas não haveria auto-ironia nele?

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Confusão na Ossétia do Sul

Mais uma guerra. Agora da Rússia contra a Geórgia, tudo por um território onde vivem 70.000 ossetianos e que é 1,5 maior do que Luxemburgo. Os ossetianos do sul querem pertencer à Rússia, pois os ossetianos do norte já estão lá, são da mesma etnia e vivem melhor. Isso dizem os russos, porque a Geórgia, além da Ossétia e da também insurgente Abecásia, tem uns oleodutos e gasodutos bem legais. Então, fica mais interessante a questão da Ossétia do Sul e da Abecásia. Mas a Abecásia fica à noroeste e ainda não está no centro das notícias. Quem está é a Ossétia do Sul que quer unir-se à do Norte. Esta, a Ossétia do Norte, faz fronteira com a Chechênia, cuja capital não é Clitória e sim Grosny.

O problema que vejo em toda esta confusão étnica é que o Ministro do Interior da Geórgia, que também faz fronteira com a Chechênia, chama-se Shota Outiachvili. Este tipo de informação não pode cair nas mãos de Marconi Leal ou do Ao Mirante, pois então todos desconsiderarão a situação dramática da região para morrerem de rir.

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Propaganda da Playboy

Acabo de receber uma bela correspondência da revista. Duas fotos de uma tal Natália do BBB. Gaúcha. Photoshop visível. Uma foto enorme, a outra menor. Falam que ela tem um sorriso irresistível. Olho novamente as fotos. Não há sorriso. Talvez a sombra de um na foto menor. Mas sobra bunda. A propaganda evita referências à bunda. Vai para o lixo.

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O Anônimo Célebre, de Ignácio de Loyola Brandão

Estou relutante em escrever minha opinião acerca deste livro. Não gosto de SÓ ficar falando mal das coisas. É a história de um cara que faz tudo para tornar-se famoso. Já li e vi coisas muito melhores no gênero arrivista. Loyola tentou ser engraçado e sou um cara que gosta de rir. Tinha tudo para dar certo. Pois ele não conseguiu nenhuma risada. Fazer o quê? Não sei onde foi parar o tal “Realismo feroz” que mestre Antonio Candido com toda a razão (para variar) viu em Loyola no passado. O homem foi sumindo depois de Zero

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As Olimpíadas de Pequim, seus narradores e circunstâncias

De quatro em quatro anos, temos a chateação olímpica. Hoje pela manhã, já tivemos Galvão Bueno substituindo o jornal matinal, que já não é grande coisa, mas é mais variado. Galvão, normalmente desinformado a respeito de tudo o que não seja Fórmula 1 (*), narrava o jogo de futebol feminino entre Brasil e Alemanha, que acabou em 0 x 0. Uma droga. Francamente, é um período frustrante para o consumidor de esportes. Aquele monte de modalidades, cada uma exigindo conhecimentos que nossa imprensa não domina e nem procura aprender é das coisas mais lastimáveis, apesar da comicidade involuntária que às vezes surge. O lutador cai, o locutor grita “ippon!” ou qualquer palavra que saúde o homem que permaneceu em pé, mas o juiz dá a vitória para quem está no chão… Uma desgraça. O judô e uma série de esportes são coisas para especialistas, não podem ser descritos por neófitos. Outro fato desagradabilíssimo é a oferta nauseante de esportes inteiramente diferentes entre si. A gente está vendo as eliminatórias dos 800 m rasos e a TV corta para apresentar a sensacional final do pólo aquático, onde só se vêem os jogadores do peito para cima… Uma beleza. Mas o ápice visual é o tiro ao alvo, esporte especialmente televiso, onde não se vê absolutamente nada dinamicamente, só se ouve um estampido e vê-se um furo num pedaço de papel. Ou não.

Como se não bastasse, esta Olimpíada traz junto de si a questão da falta de liberdade na China, porém, como os EUA e todo o mundo gostam do comércio com a China não se falará muito em Direitos Humanos. Já sobre o Tibete… Ai, que saco! O mundo parece subitamente obstinado em recriar um país teocrático. O Ocidente vê o Tibete como uma maravilha localizada no telhado do mundo — quase saindo para fora –, que seria governado por monges bonzinhos, não fosse o malvado governo da China. OK, sou sensível àquilo que tem relação à identidade cultural de um povo, mas só há problemas no idílico Tibete da China? E alguém acredita mesmo no Nirvana representado por uma sociedade dedicada à paz e à sabedoria mesmo que a história do Tibete só nos mostre matanças, Dalais Lamas apoiados pelo exército chinês e um feudalismo recente apoiado em milhares de servos e escravos? Sim, escravos! Sim, uma teocracia brutal. No Tibete dos anos 50, o escravo que roubasse uma ovelha receberia a punição de ter seus olhos vazados e uma das mãos mutiladas… Sim, os Dalais Lamas são bons e nos mostram uma filosofia de vida super, só que do ponto de vista medieval.

A vereadora e candidata à prefeitura de São Paulo Soninha Francine (PPS-SP), a Soninha da MTV, da ESPN e da Folha, é budista e já escreveu sobre o Tibete, depois de ver o filme de Annaud. É impossível discutir com quem só vê pureza, elevação e altos conhecimentos — de auto-ajuda? — nos Dalais Lamas. É óbvio que lá ocorreu um genocídio e que hoje a China tenta destruir a cultura do país à fórceps, o que não entendo é esta mania de Tibete. Por que não a Chechênia ou o Leste do Congo? E os palestinos que foram retirados de suas terras por um inimigo que exibe-se como vítima, que é mais popular no Ocidente e que chama de anti-semita quem fique indignado com as mortes palestinas? Bem…

Voltemos à chateação do evento multi-hiper-esportivo. OK, um homem vai lá e dá dez tiros na mosca. Aplausos e medalha de ouro para o homem de boa mira. Observemos o vôlei e comparemo-lo com o homem dos tiros. No vôlei, são disputados muitos jogos que envolvem um sexteto e mais seus reservas. Há fases classificatórias, pontos decisivos, um estresse espetacular e, no final, a equipe de verde a amarelo ganha o torneio. Aplausos e uma medalha no quadro geral. Uma medalha? A mesma do homem de boa mira que nem suou muito para acertar seus tirinhos de brinquedo? Sim. Eu, se fosse do Comitê Olímpico Brasileiro, daria um monte de dinheiro para o boxe. Sim, o boxe tem categorias aos montes, distribui um monte de medalhas e como a violência tem sido uma especialidade de algum destaque em nosso país, esta poderia ser direcionada para algo mais sistemático. Já pensaram quantas medalhas viriam? Outra providência seria criar e treinar algumas equipes de badminton. A gente poderia destinar o Acre, o Piauí e Tocantins como pólos do badminton nacional. Rio Branco, Teresina e Palmas viveriam o esporte e, de quatro em quatro anos, seriam manchete nacional. (Ora, se é para escrever bobagens preconceituosas, também sei!).

Então não falemos mais em Olimpíadas como um todo, tá? Falemos talvez de forma individual em alguns torneios interessantes, como vôlei, futebol, tênis e… esgrima? E esqueçam essa coisa de boicote. Só aceito boicote se derem uma paulada na China, outra em Israel, outra na Rússia, etc. OK?

Fazendo uma análise dos atletas da competição, achei interessante esta brasileira:


É a Jaqueline Carvalho, do volei. Ah, e a Ana Ivanovic estará presente!

(*) Está todo mundo tirando o maior sarro da minha cara porque eu pensava que o Galvão entendia muito de F1. Na verdade, eu é que não entendo patavina do dito esporte e fui enganado pelo homem do “Bem, amigos”. Peço desculpas pela ignorância crassa.

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Lula em Bagé

Depois de tirar foto com poncho e boina e ainda empolgado com aquele comovente discurso em que nos informou, pela primeira vez, que tem vergonha na cara, o presidente Lula foi tomar um cafezinho num bar da sete de setembro, a principal rua de Bagé.

Lá defrontou-se com um gauchão, já meio mamado, que puxou assunto:

— E aí, presidente, dizem que em Brasília a situação tá mais quente que frigideira sem cabo.
— O Corinthians ganhou do…
— Mas o povo, aqui em Bagé, anda mais sobressaltado que cozinheiro de hospício.
— Fique calmo. Com o companheiro Meirelles no Banco Central, não tem crise.
— Presidente, eu sei que cusco não se mete em briga de cachorro grande, mas é verdade que o senhor cortou mesmo o mensalão?
— A minha assessoria já emitiu nota oficial sobre esse assunto.
— O Roberto Jefferson disse que os deputados ficaram de boca aberta, como burro que comeu urtiga.
— Isso de mensalão não existe neste país.
— Bah, mas o Roberto Jefferson sabe das coisas! Ele é mais informado que gerente de funerária.
— Se alguém errou, tem que pagar.
— Presidente, me desculpe, eu sou mais grosso que papel de enrolar prego, mas o que o senhor fez não tem sentido. Os pobres deputados já estavam acostumados com a mesadinha. Ficaram mais atazanados que galinha agarrada pelo rabo.
— Eu estou tranqüilo! Neste país ninguém é mais ético do que eu! Está ouvindo?
— Calma, presidente! O senhor me parece mais nervoso do que potro com mosca no ouvido.
– Me respeite! Tenho um diploma do Senai que vale mais do que muito doutorado.
— Concordo. Meu irmão, que se formou na faculdade, é mais chato que chinelo de gordo. Mas, voltando à vaca fria, me diga: porque o Zé Dirceu anda mais ansioso que anão em comício?
— O companheiro Zé Dirceu está recolhido, preparando sua defesa.
— O José Dirceu vivia alegre, dando ordem pra todo mundo, mas agora anda mais nervoso que velha em canoa. Não fala mais com a imprensa. Está mais calado que guri que se borrou nas bombachas.
— Fique sabendo que, doa a quem doer, eu vou cortar na minha própria…
— E o Delúbio na CPI? Estava mais escorregadio que telefone de açougueiro. É um bicho matreiro. Se fez de leitão pra mamar deitado. Simpatizei com ele, mas aquele goiano é mais falso que idade de mulher.
— Enquanto não surgirem provas, o companheiro Delúbio Soares é inocente.
— E aquele tal de Sílvio Pereira? Falava mais rápido que enterro de bexiguento. Não entendi nada do que ele disse. Ou não disse.
— No momento oportuno, no fórum adequado, os companheiros apresentarão suas defesas.
— E o carequinha? O tal de Marcos Valério de Souza parecia mais assustado que barata atravessando galinheiro. Acho que ele estava com medo de sair de lá preso.
— O PT é o PT e o governo é o governo…
— Os jornais estão dizendo que, nos dias de pagamento, no Banco Rural, se juntavam por lá mais assessores do que corvos em carniça de vaca atolada.
— Isso é maldade dos tucanos. FH tem inveja do meu maravilhoso governo.
— Pode ser. Fernando Henrique é mais manhoso do que gato que quer pegar passarinho. Ele disse que, no que se refere a tocar o governo, o senhor é mais vagaroso do que tropeiro de lesma.
— Vamos mudar de assunto. FH me deixa irritado.
— Está bem. Dizem que o senhor ficou muito amigo do Severino. Que andam juntos pra todo lado, mais grudados que cocô em tamanco de leiteiro. É verdade?
— O companheiro Severino merece o maior respeito. É nordestino e pobre como eu.
— Estou sabendo, mas tome cuidado! O Severino é mais esperto que cavalo de contrabandista. Dizem que ele é mais ligado do que rádio de preso.
— Será que o companheiro gauchão poderia me deixar em paz?
— Mas, bah, é claro. Sei que o senhor anda sofrendo mais que joelho de freira em Semana Santa. Me desculpe, mas eu gosto de espichar assunto. Minhas conversas são mais compridas que trova de gago. Mas eu não resisti: o senhor é um homem mais conhecido do que parteira de campanha e aí, eu…
— Me dê licença. Agora, vou pegar o Aerolula. Estou em cima da hora.
— Sei como é. Todo político é apressado que nem cavalo de carteiro.
— Fui!

Texto de Lourenço Cazarré, jornalista e escritor gaúcho.

Obs.: Agradeço ao Milton Saad por ter enviado este texto e aproveito para dizer que ele tem pé mais frio do que china fazendo ponto no inverno. Explico: ontem, ele, colorado como eu, foi assistir Inter 0 x 1 Santos com a minha carteira de sócio e viu que Robinho é mais liso que Delúbio em CPI.

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Um Fígado para Roberto Bolaño (Final)

Os livros modernos que mais amamos nascem da confluência e do choque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar e de estilos de expressão. Ainda que o desenho geral tenha sido cuidadosamente planejado, o que conta não é a construção de uma figura harmoniosa, mas a força centrífuga que libera, a pluralidade de linguagens como garantia de uma verdade imparcial.

ITALO CALVINO, Seis propostas para o próximo milênio

Roberto Bolaño é fácil de ler. Sua prosa é fluida e bem humorada até quando descreve o bizarro, a desgraça e o patético. Só que esta opção pela clareza parece ser um artifício para nos colocar problemas abismais e demonstrar uma realidade dividida e ramificada de tal maneira que precisei recorrer a esquemas gráficos para entender quem conhecia quem e o que quando li Os Detetives Selvagens. Mas a tentativa não melhorou minha leitura e desisti. É estranho como a orelha da edição da Companhia das Letras involuntariamente diminui a obra. Dizer que o livro é sobre a procura de dois poetas, Arturo Belano e Ulises Lima, por uma terceira, a misteriosa Cesárea Tinajero, é o mesmo que dizer que Os Irmãos Karamázovi discute apenas quem, afinal de contas, teria matado o velho Fiódor…

Os Detetives Selvagens tem 3 partes. A primeira, de mais ou menos cem páginas, uma longa segunda parte de 500 páginas e uma terceira, um epílogo curto. Apesar da esplêndida introdução, o que interessa está na segunda parte: esta é formada de textos escritos na primeira pessoa do singular. São mais de 50 narradores que se alternam para contar a história dos personagens e outros fatos que aparentemente não tem muito a ver. Eles são extremamente envolventes, apesar de quase sempre finalizarem de forma abrupta, como um Tchékhov enlouquecido que resolvesse retirar não um, mas os dois ou três últimos parágrafos. A gente fica… com vontade de ler o próximo, que é, normalmente, sobre outro assunto envolvente e que novamente nos deixará na mão. É claro que nos acostumamos e acabamos por achar divertido o autor que nos tira o pão da boca. Só que o efeito geral da obra é devastador. Quando você se afasta do livro, acaba descobrindo que as narrativas complementares estão se afastando do plot, ao invés de formar um todo tranqüilizador. O romance é minuciosamente descontrolado por um homem de visão nada indulgente para com toda aquela turba. O resultado de toda a alegria de viver demonstrada é o desencanto e é mais, é o horror do vazio.

Tudo é parcial e tem múltiplas significações no mundo falsamente simples de Roberto Bolaño. Para referenciar o vazio, Bolaño recorre, como me ensinou a Meg, à hipérbole, ou seja, a intensificar a vida de forma inconcebível, de forma a negá-la. Explicando melhor, Bolaño escreve infinitamente suas belas histórias sem origem nem fim, preenchendo infinitamente todos os espaços ficcionais com sua prosa agradável e de inícios e finais abruptos, conseguindo, com isso, negar seu preenchimento, mostrando o inconsolável vazio de seus inteligentes e simpáticos personagens. De que outra forma apreenderíamos o vazio senão valendo-se da hipérbole? Mais: Bolaño utiliza-se brilhantemente de repetições, só que elas são normalmente imprecisas, diferentes, perturbadoras.

Não estou com o livro a meu lado, mas creio que a única história onde o horror é descrito de forma direta é uma das mais belas que já li: o episódio de Auxilio Lacouture. Trata-se do seguinte: quando a Universidade Autônoma do México foi invadida pelo exército em setembro de 1968, Auxilio decidiu permanecer no banheiro, onde já estava, resguardando o último reduto de autonomia universitária. Ela lê um volume de poesias, e às vezes observa e ouve os militares que cuidam para que ninguém entre na Universidade. Permanece ali por vários dias (não lembro quantos), em plena resistência e com “uma certeza meio vaga” de que ia morrer. Não morreu, tornando-se uma heroína aos olhos de alguns amigos, enquanto outros duvidavem da história. (Depois, a uruguaia Auxilio transformou-se em protagonista do romance Amuleto (1999), mas este é outro assunto).

Mas por que, céus, escrevi quatro posts sobre Bolaño? Porque acredito que seu projeto literário seja realmente importante e pode ter continuidade sob a mesma ou outras formas; porque acho que os jovens que o lêem com tanta dedicação têm razão; porque acho que Bolaño é um escritor que finalmente escreve para o futuro e não repisa experiências gastas; porque tenho certeza que ele desejava ser popular e lido; porque ele foi um vanguardista que se preocupava em não ser um serial killer de leitores e porque ele era humano o suficiente para dizer que escrever era…

Correr por el borde del precipicio: a un lado al abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida.

ROBERTO BOLAÑO – Discurso quando do recebimento do Prêmio Rómulo Gallegos

Obs.: As citações de Calvino e Bolaño constantes neste post foram retiradas deste trabalho de Rafael Gutiérrez Giraldo.

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