O Monólogo Amoroso (III)

Ricardo pegou um caderno espiral, escreveu lentamente “Cartas a Alguém” na capa, olhou sua letra irregular e pareceu-lhe ter escrito “Cartas à Algema”. Abriu-o.

Há quatro anos, vim à Itália em viagem de passeio com meus pais. A finalidade da excursão era mais sentimental que turística; eles queriam conhecer a pequena cidade de Oppeano, de onde seus pais, meus avós, vieram para o Brasil. Procurariam seus parentes. Seria, pois, uma viagem entediante pela Itália de tantas possibilidades. Para mim, a simples idéia das lágrimas, dos encontros a princípio incompreensíveis daqueles vênetos separados desde o Pré-Antigo de seus familiares de outro continente, era suficiente para causar náuseas. Armei-me de estoicismo para encarar o infortúnio, mas, antes de chegar à Oppeano, consegui, não sem segundas intenções, ingressos para um concerto em Verona – o que me obrigaria a ficar mais tempo na cidade – e lá, já em plena rebeldia, comprei uma e somente uma passagem para Veneza. Fingi uma segurança que ainda não tinha, aos 21 anos, para aproveitar a meu modo a viagem proporcionada pelos pais. Ora, eu queria conhecer o que pudesse da Itália, não de meus parentes. Fiquei surpreso ao ver que minha insubmissão fora recebida com condescendência; foi débil a tentativa de meu pai de me colocar em culpa para com “nosso passado comum” e para com o fato de eles não poderem apresentar seu único filho…

Fui direto de Verona a Veneza e, a médio prazo, acabei deixando orgulhosos meus pais: apaixonei-me tanto pelo país, adaptei-me com tanta facilidade, que meti em minha cabeça que, um dia, viria morar nesta região, nem que fosse por poucos anos. A profissão de músico não deixa ninguém rico, porém as chances de viagens para mestrados, doutorados ou simples formação são grandes. Já a aventura de meus pais foi mal sucedida, os tais parentes foram evasivos e até antipáticos para com aqueles descendentes de imigrantes subitamente materializados. Foi complicado converter sua viagem de sentimental em turística. Passaram quase todo o tempo da viagem no Vêneto, certamente decepcionados com o final melancólico da empreitada.

Estudei muito para voltar à Itália. Meu objetivo era, na realidade, ser aceito no Conservatório de Veneza, mas dizia a todos que estava indo para Roma, pois tinha consciência das dificuldades de um violinista do meu nível em Veneza. Mas fui lá, com meus parcos oito anos de instrumento, fazer minha tentativa. Cheguei de trem a Veneza, vindo novamente de Verona. Mesmo chegando na cidade pela segunda vez e no mesmo local, tomei o mesmo choque. A saída da estação de trens dá-nos uma visão extraordinária e inesquecível. Há a calçada por onde caminhamos, uma calçada normal, há edifícios normais do outro lado da rua, só que no meio há água salgada e barcos, ou seja, é mar. E há os gritos de vendedores querendo que se entre neste ou naquele barco. Mas é difícil decidir qualquer coisa, pois o estrangeiro fica ali, embasbacado. Parece uma perturbadora montagem de cinema, um efeito especial em que os carros e o pavimento são substituídos por barcos e água, algo que poderia ser uma piada ou um belo quadro surrealista, não fosse verdadeiro. Peguei o barco para a Piazza da Catedral de San Marco lembrando A Morte em Veneza, de Thomas Mann, e o escritor Gustav Aschenbach – transformado, anos depois, em compositor no filme de Visconti. Abobalhado, fiquei imaginando qual seria o tom exato do cabelo do Padre Rosso Vivaldi e nos rostos das meninas do Conservatório do Ospedale della Pietà. As lembranças literárias e o Estro armonico que começava a ser executado em minha cabeça, misturado com o barulho do motor do barco que nos levava, era o contexto dentro do qual chegava à cidade, confiante num futuro brilhante. Antes que Algema pergunte, já vou respondendo que não!, não procurei adolescentes bonitinhos pela cidade…

Desci em San Marco e iniciei uma caminhada pela cidade que deveria começar pela pensão em que me hospedaria e que terminaria pela visita ao local de minha audição. Dois dias depois, fosse pela beleza da cidade, que favorece naturalmente às artes – acredito nisso! -, fosse por uma esquizofrenia recém adquirida, fui perfeitamente calmo para a audição, com a certeza de que seria rechaçado pela banca. Despreocupadamente, imaginei que estava em meu quarto com Nina, tocando a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach para seus olhos azuis. Sabia que minha “interpretação” era ridícula, mas que, bem concentrado, poderia colocar todas as notas em seus lugares, nada além disto. Foi o que fiz. Porém, talvez por pena, talvez por meu sobrenome vêneto, meu ingresso acabou sendo confirmado ali mesmo.

Na comemoração, bebi minha primeira garrafa de vinho a preço veneziano e, entusiasmado e até acreditando num futuro em alguma orquestra da cidade, escrevi para Nina e para os amigos, contando sobre a atmosfera da cidade e minha vitória. Logo, travei amizade com uma dupla de argentinos que engordavam suas bolsas apresentando em bares um novo compositor hermano: Astor Piazzolla. Ele não me empolgava muito, mas os venezianos ficavam fascinados pelo novo tango, que apresentávamos em versões para violino, violoncelo e piano. Aquele simulacro portenho em Veneza logo se tornou absolutamente necessário a meu orçamento. O italiano que falava ainda era péssimo e a convivência com aqueles argentinos que só falavam espanhol entre si e comigo me atrapalhava mais. Tornamo-nos grandes amigos. Estes “concertos” de fim de semana não perturbavam meu desempenho no Conservatório, que era, como sempre, mediano.

Fecha o caderno.

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Trecho de e-mail recebido de Mariângela Grando:

A presidente do Conselho Estadual de Cultura escreveu:

…me parece que, finalmente, a inteligenzia começa a dar-se conta dos estragos que estão sendo cometidos na pasta da Cultura. Hoje aprovamos a Feira do Livro, e até reabilitou-se algumas glosas ao orçamento, que haviam sido feitas pelo SAT (setor de análise técnica) da LIC/SEDAC…

A melhor notícia da semana, quiçá do mês, João Carneiro.

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Uma perspectiva curiosa da Feira do Livro de Porto Alegre

Nossa querida Feira do Livro – que já passou dos 50 anos – é uma grande reunião de livreiros e instituições em uma praça aberta no centro de Porto Alegre. Vende-se livros, ministram-se palestras, há uma área para a literatura infantil (com livrarias especializadas e teatro), há oficinas de literatura, há as empresas de comunicação que transferem seus estúdios para lá e há o coração da cidade, que segue pulsando não apenas de acordo com a pressa e a violência, mas também pela literatura. Nossa Feira é incomum sob vários aspectos: é gratuita, é realizada em praça aberta, é visitada por milhões de pessoas – não é exagero – e é quase impossível caminhar entre as barracas nos finais de tarde e de semana. Os amigos estão todos lá, conheço gente que vai todos os dias da Feira à Praça da Alfândega, no centro da cidade. Ela começa sempre na última sexta-feira de outubro e acaba por volta do dia 15 de novembro. Este ano vai de 31/10 a 16/11.

Há coisas ruins nela: nos últimos anos, as barracas da Feira tornaram-se uma imensa livraria convencional. Não há diversidade, todos oferecem as mesmices mais vendidas, deixando as novidades escondidas. A Feira que vende livros novos é uma megastore meio nauseante. Vou dar um exemplo: no ano passado, procurei o premiado Nove Noites de Bernardo Carvalho, publicado pela Companhia das Letras. Livro novo, né? Perguntei em mais de 20 barracas e nada. Enchi o saco. Ou seja, todos vendem as mesmas coisas e acabei na Internet. Já Paulo Coelho e nossos best-sellers gaúchos estão em todo lugar. É monótono. Talvez as únicas exceções sejam a Livraria Bamboletras e a Ventura Livros. O resto é shopping. Mas há os sebos e há os tradicionais balaios de saldos e encalhes, são eles que salvam nossa vida e garantem nossa presença na área de vendas. Há que procurar, mas vale a pena.

Nos últimos anos, passei a participar dos eventos periféricos. São carradas de seminários gratuitos com escritores. Sentamo-nos confortavelmente nos bons salões do Santander Cultural, do Clube do Comércio e do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo a fim de ouvir os autores. Ao final, podemos fazer perguntas e debater a obra, a vida, a política, o futebol, o amor, outras obras, qualquer coisa. Dependendo do autor, claro, as pessoas saem eufóricas destes encontros. Nos últimos anos, estão sendo apresentados ciclos também gratuitos de filmes baseados em livros em salas próximas (“É tudo free!”, como diria Raul Seixas) e a parte internacional da Feira melhorou muito, com os argentinos e espanhóis entrando com livros e preços bem legais. Mas, quando coloquei lá em cima meu título sobre uma determinada perspectiva, não referia-me às possibilidades culturais e sim a outras, como explico abaixo.

O título diz respeito a um caso pessoal. Alguns meses depois de minha separação, em 2001, eu ainda estava deprimidíssimo e chegou a época da Feira do Livro. Não morava mais com meus filhos e tinha um enorme tempo livre ao qual estava desacostumado — ou acostumado a utilizá-lo apenas para me desesperar ainda mais. Os amigos estavam meio sumidos pois eu sumira. Mas também sumiram porque é normal sumir nestas circunstâncias: sabe-se que o separado contrai uma rara espécie de hanseníase contagiosa. Ele(a) causa medo, algo do gênero se-aconteceu-a-ele(a)-pode-acontecer-a-mim-e-eu-não-quero. Porém, durante a Feira consegui decidi (aleluia!) que ia voltar a aparecer para as pessoas. Afinal, era a Feira! Então ficava na frente do pavilhão de autógrafos por volta das 18h. Sim, ficava ali, como uma prostituta fazendo seu ponto. O extraordinário é que TODOS OS DIAS em que lá fui, surgiram amigos — velhos, novos ou antiqüíssimos — com os quais acabei jantando ou visitando depois. Eles sempre apareceram. Estes amigos traziam com eles outros e, quando me dei conta, estava com uma popularidade tonitruante, se comparada com a imediatamente anterior. Meu telefone voltou a tocar e pude, com mais conforto, fazer de conta que a vida estava voltando ao normal.

Certas experiências acabam por se oferecer gratuitamente aos separados, quando estes não estão inteiramente paralisados pela depressão. Não, não indico a separação como remédio para ninguém, mesmo que se queira fazer um treinamento intensivo de realidade. Ao contrário, admiro muitíssimo mais os casais que se separam por um tempo e depois voltam a seus casamentos em outros termos. É uma atitude de fé no outro e a remodelação deve ser “ecológica para a alma”.

As idas à Feira custou-me menos do que qualquer psiquiatra, menos que qualquer antidepressivo… Foi um período de recuperação e inclusão de novos amigos. Um bom período. A propósito, comprei alguns livros nos balaios, claro…

Ah, e há promessas de cervejas no bar no MARGS.

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A sumidade vai falar, eu mal posso esperar

RS Urgente informa:

A Assembléia Legislativa aprovou hoje (28), por 26 votos a 20, a criação de uma Comissão de Representação Externa para investigar as denúncias de fraudes na prestação de contas de projetos beneficiados pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC). A proposta é de autoria do deputado Ronaldo Zulke (ecce homo, ao lado), do PT, com o apoio de mais 19 parlamentares. A comissão vai averiguar as denúncias de fraudes no sistema LIC, que geraram uma crise envolvendo a secretária estadual da Cultura, Mônica Leal, e a presidente do conselho estadual da área, Mariângela Grando. Segundo Zulke, o trabalho da comissão não se limitará aos problemas de gestão da LIC, mas também analisará os fatores que prejudicam atualmente a atividade cultural no Rio Grande do Sul. O governo Yeda saiu derrotado na votação. Não queria a instalação da comissão.

Finalmente vamos saber mais.

Mal posso esperar pelas explicações de Mônica. Gostaria de ver. Quando ela fala sobre cultura, dá-me frouxos de riso.

E Zero Hora, pisando em ovos, informa:

A 54ª Feira do Livro de Porto Alegre foi lançada oficialmente nesta terça-feira durante café da manhã para imprensa e convidados. Para o público, a feira será aberta na próxima sexta-feira.

O presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, João Carneiro, falou da expectativa para a reunião do Conselho Estadual da Cultura, na quinta-feira, que decidirá sobre o repasse de R$ 700 mil referentes à Lei de Incentivo à Cultura.

— Não estou trabalhando com a hipótese de não recebermos a verba. Temos sim, um orçamento geral e um enxuto para a edição deste ano.

Inteligente o seu João, pode-se esperar qualquer coisa da sumidade (ou seria sumidouro?).

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O Monólogo Amoroso (II)

Ela pressiona a tecla REC.

Fiquei muito mal nos primeiros dias. Em sua primeira carta da Itália, Ricardo escreveu sobre nós. Lembro que tentou descrever os papéis que tínhamos um em relação ao outro. Dizia que eu lhe proporcionava um fluxo de carinho tão constante que acabava fazendo-o recuar a uma posição de mero recebedor de amor. Muitas vezes ele tomava iniciativas espasmódicas, mas estas eram infinitamente inferiores – em número e em intensidade – a minha constante secreção de confortos. Assim, eu o deixaria numa falsa posição egoísta. Porém, quando algo fazia com que eu diminuísse “minha enorme capacidade de doar amor”, ele se voltava imediatamente para mim. Nestes casos, sempre constatava que algo tinha acontecido e tinha de ser resolvido, normalmente uma desatenção maior da parte dele. Escreveu que aquele era nosso equilíbrio. Ele, o artista recebedor de atenções; eu, sua dedicada amante. Não sei se isso exprimia nossa realidade. De minha parte, meu lado amante negava tanto o amado, que me via muitas vezes tomada por um grande cansaço e uma sensação de falta incurável, a que não saberia dar nome. E, em sua ausência, havia uma falta efetivamente incurável e que me deixava repleta de tristeza.

Nunca soube muito sobre seus estudos romanos e venezianos, soube foi de shows em bares em que se executavam músicas de Astor Piazzolla, então uma novidade quase indecorosa, arranjadas para violino, violoncelo e piano. Ficava lindo, mas não é este meu assunto.

Nesta idade, vai-se muito a festas e meus colegas, sabendo-me sozinha, partiram a abordagens às quais não teriam coragem se eu estivesse com ele. Minha reação? Ora, eu tinha 16 anos… Estava cheia de saudades, mas era difícil ficar solitária. Nas aulas, rejeitava a abordagem dos amigos, mas nas festas, dançando, aceitava ser minuciosamente amassada durante as músicas lentas. Os garotos sentiam-se à vontade comigo, pois imaginavam estar em contato físico com alguém com alguma experiência sexual – afinal, eu parecia namorar um homem! – e que, por conseguinte, cederia com maior facilidade. Talvez tivessem razão. Naquela época era assim mesmo. Havia as iniciadas e as inexpugnáveis. Eu pertencia ao primeiro grupo. Um dos que mais me abraçava, me apertando a ponto de me machucar, tirando-me do chão em certos momentos – e não se engane, não era por eu estar na nuvens -; um que tinha um ar meio desesperado de desejo e que todos temiam por ser grandalhão, bem, Ana, este era teu pai.

Se os amassos nas festas eram o apogeu daqueles dias, sua antítese estava na vida familiar e na falta que sentia de Ricardo. Sofria, mas também pensava que o amor por ele era algo inserido nas coisas não permitidas a alguém da minha idade e, então, à minha saudade misturava-se certo alívio. O restante que Ricardo levara consigo, toda minha vida cultural, era em parte recuperada através da leitura e da Rádio da Universidade, além dos concertos gratuitos de domingo de manhã. Trocávamos cartas, porém a demora do correio e uma inexplicável preguiça faziam com que as notícias e os afagos por escrito também ficassem pouco a pouco à deriva. Logo cansei daquele namoro epistolar, com suas belas promessas e juras de amor, acrescentadas de um descumprimento de parte a parte, pensava. Apesar disto, sentia falta de Ricardo. Ele me perguntava o que estava acontecendo e eu lhe respondia que tudo estava igual, que o aguardava. Só que ambos sabíamos que não era verdade, havia uma indireção em minha forma de agir que abria espaço para o rompimento.

Tu deves estar te perguntando se os causadores desta postura não seriam os meninos das festas – especialmente aquele que veio a ser teu pai. Mas, olha, aquelas noites, para mim, tinham maior importância pelo assunto que geravam no âmbito do colégio e dos amigos, do que qualquer outra coisa. Um dia, de forma totalmente egoísta, pensei que convidar teu pai para ir ao cinema poderia representar uma evolução em minha vida. Ricardo, na Itália, sempre me escrevia indicando filmes com seus diretores e títulos traduzidos em várias línguas a fim de que eu os localizasse na libérrima tradução brasileira, mas o cinema – principalmente as sessões noturnas – era algo inatingível para uma adolescente com pouco dinheiro e liberdade. Porém, com Raul a meu lado, obtinha automaticamente dois privilégios: a permissão para sair à noite – meus pais tinham mais confiança e simpatia por ele do que no distante, adulto e perigoso Ricardo – e o ingresso pago. Raul usava a sala escura exclusivamente como mais uma oportunidade de beijos, abraços e bolinações. É claro que eu adorava aquilo; quase sempre ignorávamos inteiramente o que se passava na tela e lembro de não ter visto vários filmes absolutamente atenta a seus lábios e mãos. Raras vezes dividia-o com filme. Então, ocorreu uma noite muito especial. Fomos ao cinema e, no dia seguinte, supliquei-lhe para ver o filme novamente. Raul equivocou-se ao pensar que meu pedido tinha a finalidade de obter a repetição da intimidade acrobática das salas escuras.

O motivo era Jeanne Moreau e François Truffaut. Enquanto caminhávamos, disse-lhe:

— Raul, este filme é muito bom e desta vez eu quero assistir de verdade, tá?

A onda de decepção que tomou conta dele foi respondida por uma enorme onda de ternura. Abracei-o e repentinamente perguntei se ele não queria ir a meu quarto na próxima noite, após o filme. Afinal, meus pais e irmãos dormiam cedo e, com sorte… Quem sabe? Seria nossa primeira experiência não improvisada, as outras tinham sido em festas, portões de edifícios, cinemas e em outras circunstâncias difíceis.

Fico pensando se o que sentia por ele era amor. É certo que não podia causar-lhe nenhuma mágoa sem senti-la retornar com toda força a meu peito. Naquela noite, pude ver o filme inteiro. Fantasiava ser Catherine, Ricardo era Jules e Raul era Jim. Saí da sessão eufórica, feliz e decidida a cumprir minha promessa. A mesma voz que narrava em off o filme de Truffaut (a voz do próprio Truffaut?), dizia-me em português: “Agora, Catherine decidira ir a seu quarto com ele, custasse o que custasse. Seria a melhor reparação que poderia oferecer a Jim.”

Estava nas nuvens. Se não tínhamos as bicicletas de Catherine, Jules e Jim, fomos correndo a minha casa. Ele me puxava pelo braço, eu quase caía nas calçadas irregulares, mas, ao chegarmos ao edifício onde morava e com receio de acordar meus pais, substituímos a pressa pela cautela. Ficamos na porta do edifício e tentei conversar sobre o filme, mas logo vi que era complicado conversar com Raul sobre sua leve e ousada indecência. Além disto, ele estava muito inquieto e utilizara expressões como putaria e outras, as quais serviram para que eu descesse alguns andares de minhas nuvens. Mudei de assunto.

Sem parar de conversar e fingindo ignorar o imenso ganho secundário programado para aquela noite, fomos nos aproximando da porta. Enquanto acontecia, baixávamos progressivamente a voz. Não nos tocávamos. Quando deixei a porta do apartamento entreaberta, sussurrávamos. Voltada para fora, apoiei meu ombro no marco de porta e dava respostas rarefeitas a ele. Sabíamos que outro discurso escondia-se sob as banalidades que pronunciávamos e este dizia algo como “Há alguém ainda acordado?” ou “Quando poderemos finalmente entrar?”, etc. Depois de um tempo infinito, ele colocou delicadamente o dedo indicador em meu peito empurrando-me para dentro do apartamento. Calados, chegamos a meu quarto.

Virou rotina. Em muitos dias, amanhecia com olheiras por dormir muito tarde; tinha aula pela manhã. Raul saía no meio da noite e eu tinha certeza que meus pais suspeitavam mas que não tentariam comprovar nada e nem fariam perguntas.

Ela desliga o gravador.

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Entrevista com Mariângela Grando sobre a atuação de Mônica Leal na SEDAC

Minha preocupação inicial era com as dificuldades que a lastimável Secretária de Cultura produziria à Feira do Livro, porém esta curiosidade descortinou uma tal inépcia de Mônica Leal para o cargo que ocupa que a Feira tornou-se periférica. O rigoroso silêncio guardado pela imprensa sobre quaisquer problemas que afetem os aliados do candidato José Fogaça é tão imenso — observação minha — que penso novamente fazer um serviço ao entrevistar por e-mail a presidente do Conselho Estadual de Cultura Mariângela Grando. Sei que tal assunto não interessa muito aos leitores de outros estados, mas o que fazer?

– Qual o efeito que os problemas da SEDAC podem causar à Feira do Livro de 2008?

A não homologação da prestação de contas de 2007 impedirá o CEC/RS de analisar o mérito do projeto. Há mais de um mês alertei aos dirigentes da Câmara do Livro de que deveriam tomar medidas judiciais para garantir a homologação das contas pendentes e assim poder ter o mérito do projeto avaliado. Não fui ouvida e agora tenho medo que tudo isso prejudique a Feira, o que seria uma tremenda lástima!

– Quem manda hoje na política cultural do Estado?

Qual política Cultural? É exatamente do que nos queixamos! Não há política cultural. E, desde que a LIC foi criada, virou a única ferramenta de financiamento à Cultura no Estado! Nem mais um centavo foi aprovado para investimentos diretos em nenhum tipo de segmento cultural. E a chegada da Mônica só fez desaparecer as poucas conquistas que haviam sido conseguidas a duras penas.

– O que a SEDAC pode fazer após as restrições do CEC? A secretaria está inoperante?

É certo que houve uma redução no fluxo de projetos. Isso deve colaborar para que a Sedac ponha em dia o passivo de projetos esperando pela homologação das contas. Não é justo que os produtores culturais paguem por esse descontrole. Mas o CEC não podia mais fechar os olhos para o que estava acontecendo. Há produtores culturais com contas sem homologar desde 1999. E há uma decisão do TCE, de 29/11/06 que determina que não haja autorização para novas captações de recursos àqueles produtores culturais com pendência na homologação das contas. O Secretário da Cultura de então, Victor Hugo acatou a determinação, mas a Mônica revogou a Instrução Normativa (IN) 03/2006 que acolhia a descisão do TCE, pela IN 01/2007, que liberou geral. Por quê?

– Quais são os interesses que ditam a gestão de Mônica Leal na Cultura?

Suas pretensões eleitorais. Tudo lá dentro da SEDAC é contabilizado na base dos rendimentos em votos! Mônica Leal é uma grande operadora de mídia. Tem uma habilidade espantosa de criar factóides e espalhar fantasias e inverdades. Exemplo disso é o discurso inverídico de que zerou o passivo da LIC. Que é isso? Ela por acaso não conhece o princípio da anualidade desta Lei? Se você não gasta, não sai do caixa! Ela nem sequer entendeu as determinações do TCE que, quando falou em passivo, falou da pilha de 1000 projetos sem homologações de contas!

– E o interesse de Yeda Crusius em NÃO TER uma Secretaria de Cultura?

Não. D. Yeda estava assustada com os números e achou que deveria enxugar a máquina. Todo político sempre pensa, quando se trata de cortes, na cultura em primeiro lugar. Mas acredito que a Governadora mostrou sua sensibilidade quando decidiu manter a SEDAC. Ainda que esteja demorando muito na correção das irregularidades apontadas àquela secretaria.

– E por que foi para lá logo uma amiga pessoal da governadora?

Vamos esclarecer isso: a Mônica NUNCA foi amiga pessoal da D.Yeda. A Mônica foi anunciada como da “cota pessoal” da Governadora, creio que mais por estratégia de marketing político do que qualquer outra coisa. Mas a indicação partiu mesmo foi do Bertolucci, então prefeito de Gramado. A D. Yeda nem conhecia a Mônica. Aliás…continua desconhecendo.

– Qual é o real poder do Conselho Estadual de Cultura para manietar a atuação sobre uma secretaria sobre a qual pairam dúvidas?

O Conselho tem, entre suas atribuições constitucionais, formatar e fiscalizar os atos praticados no desenvolvimento de políticas públicas. Desde que assumi a Presidência do CEC, começamos a levantar uma lista de atos irregulares que estavam acontecendo na SEDAC. Por exemplo: alteração na estrutura organizacional da SEDAC, sem decreto governamental ou autorização da Assembléia; homologação de contas de projetos sob investigação de irregularidades (Caso Multipalco); liberação de recursos a projetos sub judice e sem trânsito em julgado (caso Jornada de Passo Fundo); distribuição irregular de patrimônio público (contrapartidas); nomeação de conselheiros do CEC, em substituição a outro, sem que este fosse o suplente originalmente nomeado pela Governadora, entre outros. O CEC denunciou ao MP e ao Gab. de Transparência, que encaminhou ao TCE. E anteontem levamos o relatório ao conhecimento da Assembléia Legislativa.

– Qual é a plataforma da atual gestão do Conselho de Cultura?

O que queremos é que o governo pare de pedir recursos da LIC para viabilizar seus projetos; que implemente mecanismos alternativos de financiamento à cultura (FAC); que recomponha os valores legais da LIC (0,5% das receitas líquidas do ICMS) porque há 10 anos trabalhamos com o mesmo valor, quando deveríamos estar trabalhando com o dobro dos recursos; que financie com orçamento próprio a manutenção dos equipamentos culturais pertencentes ao Estado e realização de eventos culturais de interesse do Governo (caso Semana Farroupilha e outros) e; por fim, uma ampla modificação de cunho filosófico e regulamentador da Lei de Incentivo. Queremos a implantação de políticas públicas eficientes para a Cultura do RS!

– Como foram liberados documentos das prestações de contas dos filmes que produziste?

Pois é, também gostaria de saber. Se as contas ainda estavam sendo analisadas e em diligência, como foi parar nas mãos da RBS? Algumas das notas fiscais que atribuiram a despesas pessoais minhas nem tinham o meu nome! Quem disse que aquelas despesas foram feitas por mim? Mas será que os problemas com estas notas resumem o desastre que é a gestão Mônica Leal na Cultura do RS?

– E aquela gravação feita na SEDAC?

Outra coisa interessante. A mídia divulgou que fui eu quem ligou para a SEDAC a fim de fazer ameaças à Mônica, mas tenho como testemunha pelo menos dez conselheiros que estavam no CEC, naquele momento, para provar que o telefonema foi dado pelo Rosenfeld (coordenador da LIC) à mim. Então estava tudo arranjado. Um verdadeiro show macartista e vergonhoso, que só é possível dado o baixo calão e tremenda falta de habilidade da secretária e sua assessoria!

– Se as irregularidades estão no órgão gestor do Sistema Lic, neste caso a SEDAC, por que o Conselho foi acusado dessas irregularidades?

Para levantar uma cortina de fumaça que desviasse o foco para o Conselho, quando os que têm que ser investigados são a SEDAC e a SEFAZ. A Sedac porque emite as autorizações de captação e a SEFAZ porque realiza os créditos de ICMS. Como é possível que o Dr. Graziottin, da Fazenda, saia a público para dizer que a LIC não é auditada porque os créditos fiscais são de “apenas” R$13 milhões, enquanto a secretaria lida com créditos tributários da ordem de R$2,7 bilhões? Ah, tá! então os recursos da LIC são considerados troco?

– Por que o Da Camino pediu teu afastamento?

Sei lá! Talvez estivesse com medo de que eu fosse atrapalhar a Inspeção Especial que o TCE decidiu fazer no CEC. O que a população não sabe é que o CEC não é ordenador de despesas, não distribui dinheiro e não faz tomada de contas dos projetos. Nossa atribuição é apenas dar parecer sobre o mérito (oportunidade e relevância) cultural dos projetos. A Inspeção Especial que está sendo feita no CEC encontrou lá apenas atas, pareceres e livro de presença. Mas, em noventa dias a auditoria do TEC deverá apontar se foram cometidas irregularidades pelos conselheiros que por ventura tenham dado pareceres favoráveis aos processos do produtor cultural que acusou membros do Colegiado de favorecer-lhe em alguns projetos. Estamos esperando por isso, porque hoje o Conselho circula por aí com uma nódoa de corrupção impressa na testa de cada um dos conselheiros. Isso é muito negativo para a imagem do CEC e para aqueles que não têm nada a ver com estas denúncias.

– E esse Grupo de Trabalho que a Casa Civil montou para discutir as mudanças na Lei, o que se pode esperar dele?

Não muita coisa. O Governo agora está preocupado em apertar a fiscalização. Mas o que a Lei necessita é de uma mudança geral. Inclusive que contemple e respeite à dinâmica da produção cultural. Não adianta auditar caixinha de fósforo. O que se precisa é de um entendimento amplo sobre as peculiaridades do fazer cultural e considerar como objetivo principal a realização dos produtos resultantes dos projetos aprovados pela Lei.

– E a audiência pública na Assembléia? Qual o objetivo?

Na minha conversa de anteontem com o Dep. Alceu Moreira, presidente da Assembléia, ficou claro que esta audiência é para tentar levantar mais dados sobre as fraudes do Sistema. Neste sentido o CEC só poderá colaborar com o esclarecimento sobre o seu papel no Sistema LIC. Sei que, no dia 28 de outubro, deverá ser votado o requerimento proposto pelo Dep. Zulke, para que seja instalada uma Comissão de Representação Externa, que deverá se aprofundar nas investigações das denúncias de fraude, mas que também leve ao início de uma discussão com todos os agentes do Sistema, para embasar as emendas que a Assembléia Legislativa deve fazer ao texto a ser proposto pelo Executivo, como resultado desse grupo de trabalho criado pela Casa Civil e que deverá ser encaminhado logo ao Legislativo. Fiquei contente em ouvir do Presidente de que a Casa está atenta para que a Lei não vire um cipoal burocrático que inviabilize a propositura de projetos e que, ao final, sirva apenas para abrir ainda mais portas para a corrupção!

– O que pensas sobre algumas afirmações que têm sido reproduzidas, de que o Conselho não deveria dar pareceres aos projetos culturais?

Na minha opinião seria ótimo se o Conselho saísse do Sistema LIC! Assim teria mais tempo para trabalhar naquele que é seu papel constitucional: formatação e fiscalização de Políticas Públicas de Cultura. Convenhamos, não é um papel nada simpático ficar emitindo pareceres sobre o que deve ou não deve receber recursos públicos de fomento aos projetos. Razão pela qual o CEC tem, de parte dos produtores culturais, muitas restrições. Seria ótimo que isso ficasse a cargo apenas das autoridades gestoras do Sistema LIC e eles, somente eles, fossem responsabilizados por estas escolhas.

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O mais confuso (e engraçado) dos grandes romances

Beethoven gostava de temas curtos e afirmativos. O crítico Otto Maria Carpeaux também, até demais. Beethoven repetia seus temas à exaustão, mas não enchia o saco. Carpeaux não os repete, mas larga aqui e ali juízos curtos, afirmativos e terríveis que às vezes me deixam louco. A literatura não prescinde de justificativas mais, digamos, alongadas. Eu adoro Beethoven e Carpeaux, só que o austríaco tem uma capacidade de me irritar que o alemão só utilizou n`A Batalha de Wellington e na Pastoral. Pobre do grande LAURENCE STERNE: na História da Literatura Ocidental, o maravilhoso amansa-burro de 2300 páginas de Carpeaux, ganhou a curta e grossa má vontade do mestre:

Não é romancista, e não compreendemos como seus contemporâneos puderam dar o nome de romance a esse aglomerado de conversas, digressões e anedotas, sem ação novelística, que é o Tristram Shandy.

Que equívoco! Fico curioso sobre o que diz Carpeaux sobre outro livro notável, também quase exclusivamente um aglomerado de conversas e digressões filosóficas: O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Consulto e ele demonstra coerência, fazendo questão de chamar a obra-prima inacabada de romance-ensaio. OK. Romance-ensaio é mais que um aglomerado de conversas e digressões, porém Carpeaux sempre ensina muito e conta com minha INDULGÊNCIA.

Mas creio que Carpeaux não ousaria falar mal da espetacular prosa de Sterne, meu assunto de hoje. Seu principal romance (ou não), A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, é uma de minhas melhores lembranças literárias. Este livro extravagante, publicado em capítulos entre os anos de 1759-67, tem importantes admiradores. James Joyce, Luigi Pirandello, Samuel Beckett e – notem bem – MACHADO DE ASSIS, que o cita com conhecimento, foram alguns dos escritores que se declararam influenciados pelo irlandês Sterne, um pároco muito bem sucedido e amante de intermináveis digressões pontuadas de anedotas escabrosas e alusões cínicas. Agrada-me intensamente a forma como Sterne decepciona seus leitores ao não dar seguimento às ações que esboça, coisa que Roberto Bolaño se esmera em realizar (ou não).

A cena inicial do romance nos conta sobre o nascimento de Tristram. Seu pai costumava fazer duas coisas no primeiro domingo do mês. A primeira era dar corda no relógio da sala; a segunda era cumprir seus deveres conjugais. Porém, num destes domingos, sua mãe, JÁ PENETRADA mas sem o menor interesse, pergunta repentinamente (a pontuação, sempre originalíssima, é puro Sterne):

– Por favor, meu caro, não te esqueceste de dar corda ao relógio? ————-Por D—–! gritou meu pai, lançando uma exclamação, mas cuidando ao mesmo tempo de moderar a voz. ——–Houve jamais mulher, desde a criação do mundo, que interrompesse um homem com pergunta assim tão tola?

Com a interrupção, o velho Shandy, desconcertado, descuida-se de outra: a do coitus interruptus; e é desta forma que nasce o HOMÚNCULO ou, para nós, o feto daquele que seria o protagonista da “ação”. A piada fez enorme sucesso e por anos não apenas as prostitutas da Inglaterra perguntaram a seus candidatos QUERES DAR CORDA EM MEU RELÓGIO? como as senhoras de respeito deixaram de comprar relógios para suas casas com receio dos comentários que isso poderia provocar… Que os comprassem os maridos!

É notável o momento em que Shandy desiste de narrar sua própria vida – o livro é escrito na primeira pessoa. Isto acontece lá pela página 80 de um livro de 600 páginas. Ele observa que já passou alguns meses descrevendo as primeiras horas de sua vida. Constata assim que demora muito para escrever do que para viver e que os acontecimentos narrados estão afastando-se mais rapidamente do que a narrativa avança… Impossível alcançar-se. Conclui que o melhor é parar de perseguir-se e conversar com os leitores. A vida de Tristram que siga seu curso e Sterne, bem, Sterne sabe e declara-se consciente de que a literatura existe primeiro para SATISFAZER O AUTOR… Danem-se os leitores.

Como se não bastasse ser um excêntrico romance sobre quem escreve um romance, Tristram Shandy apresenta uma série de artifícios antes nunca vistos: uma página inteiramente pintada de preto, tentativas de desenhar graficamente a evolução do romance, alguns capítulos em branco (em que nada é escrito) e uma página também em branco, limpinha, para que o leitor desenhe sua amada.


Acima, Sterne nos brinda com o esquema gráfico da história do tio Toby…

Hoje, poucos lêem o descontrolado e desprogramado romance Tristram Shandy, mas os estragos causados por ele fez foram grandes: Joyce adorava seus jogos de palavras e trocadilhos ab-so-lu-ta-men-te malucos, Beckett – “Nada tenho a dizer, mas somente eu sei como dizer isto” – deliciara-se com o fato de Sterne ter, por assim dizer, inviabilizado seu próprio romance e Machado de Assis aprendeu com ele a dialogar freqüentemente com o leitor e a brincar com aqueles pequenos capítulos em que nada, mas nada mesmo, acontece.

Li este livro em 1985, na brilhante tradução de José Paulo Paes e, por ter lido hoje alguns textos do textos do DOUGLAS CECONELLO — o qual ADORA pontuações de ESTRANHA MUSICALIDADE e de escrever em maiúsculas as PALAVRAS-CHAVE, mania a que todo seu blog aderiu –, passei o dia pensando em Tristram e em Joyce. Coisas.

Despeço-me com mais um trecho do Tristram Shandy. A pontuação é a do autor, claro:

O que é a vida de um homem! Pois não é um rolar daqui para lá?——–De infortúnio em infortúnio?—— Abotoar uma ca(u)sa de aflição!—–e desabotoar outra?

(…)

—Entrementes, tenho umas poucas coisas a fazer—uma coisa a nomear—uma coisa a lamentar—uma coisa a esperar, uma coisa a prometer, e uma coisa a ameaçar.—Tenho uma coisa a imaginar—uma coisa a declarar—uma coisa a esconder, e uma coisa por que rezar. ——A este capítulo chamarei, portanto, o capítulo das COISAS——e o capítulo a ele subseqüente, isto é, o primeiro do volume seguinte, se eu viver o bastante, será o capítulo das SUÍÇAS, a fim de manter algum tipo de nexo entre as minhas obras.

A coisa que lamento é terem as coisas se apinhado de tal modo sobre mim que não consegui chegar àquela parte de minha obra a que visei durante todo o caminho com tamanha ansiedade, qual seja a parte das campanhas, e mais especialmente a dos amores do tio Toby; os acontecimentos e eles respeitantes são de natureza tão singular e de cunho tão cervantino que se eu conseguir transmitir a outro cérebro as impressões que as ocorrências suscitam por si sós em meu próprio cérebro—garanto que o livro abrirá caminho no mundo muito melhor do que nele abriu seu autor.—Oh Tristram! Tristram! poderá jamais acontecer, uma vez que seja—que o prestígio de que venhas a desfrutar como autor compense os muitos infortúnios que te afligiram como homem?—Festejarás o primeiro—quando tiveres perdido toda a sensação e lembrança dos outros!—

Não estranha eu estar tão inquieto por chegar a estes amores.—Eles são o acepipe mais refinado de toda a minha história! E quando eu chegar enfim a eles—asseguro-vos, boa gente,—(não me importam os estômagos delicados aos quais possa desgostar) que não serei nada cuidadoso na escolha das minha palavras;—a coisa que tenho a DECLARAR——–é que receio não poder chegar-lhes ao fim em apenas cinco minutos—e a coisa que ESPERO é que vossas referendas senhorias não se ofendam—se vos ofenderdes, podeis contar, minha boa gentry, que no próximo ano eu vos darei algo com que de fato vos ofenderdes—assim o faz minha querida Jenny—mas quem seja a minha Jenny—e qual a extremidade certa e a extremidade errada de uma mulher, essa é a coisa a ser ESCONDIDA—ser-vos-á contada dois capítulos após meu capítulo acerca das casas de botão—e em nenhum outro capítulo anterior.

E agora que chegastes ao fim destes quatro volumes—a coisa que tenho a PERGUNTAR é, como estão vossas cabeças? A minha dói horrivelmente—quanto às vossas saúdes, sei que estão bem melhores…

Estão mesmo, Laurence, ou ao menos hoje a minha está.


A descrição da morte de Yorick: uma página preta, de luto

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Três grandes amigos: Luís Frederico Antunes, Fernando Monteiro e Marcelo Backes

1. Estou obtendo minha cidadania portuguesa. É um processo que parece fácil quando lido no papel, mas que se complica numa burocracia inteiramente diferente da nossa. Todos os documentos têm prazo de validade, todos têm de ser reemitidos, inclusive a certidão do nascimento de meu avô, ocorrido no ano de 1900, e o óbito de meu pai. É como se fatos novos pudessem alterar seus conteúdos. A parte chata é esta, a da fria papelada. A parte interessante é a comprovação dos vínculos com Portugal. Valem quaisquer comprovações lusófonas, desde fotografias tiradas em Portugal, associações a entidades portuguesas, interesses sobre a cultura e até depoimentos abonatórios de portugueses. Mostrei as minhas, que penso serem suficientes. Para tanto, é necessário escrever uma carta de próprio punho ao Ministro da Justiça português. Agreguei à minhas justificativas algumas curiosidades, como a árvore genealógica que gerou este desfrutável rebento, o notável e infelizmente falecido blog Cidades Crónicas, do qual fui prefeito por uma época, e o esplêndido depoimento abonatório do professor e doutor em História Luís Frederico Antunes. Conheci-o através da Internet. Fizemos uma bela amizade por e-mail logo após a vitória do Inter no Campeonato Mundial Interclubes sobre o Barcelona. A rede é maravilhosa para se fazer amizades em que os laços advém não da proximidade física, mas das afinidades e das eleições pessoais e ideológicas. Pedi então ao amigo — que antes já me conseguira a certidão de nascimento do meu avô por duas vezes! — que dissesse que não sou Hannibal Lecter, que sou apenas um bom e real português com quatro gerações de ascendentes nas proximidades de Aveiro e de seus ovos moles. A carta abonatória é uma obra de arte.

A quem possa interessar

Atesto por minha honra que Milton Ribeiro, brasileiro de nascimento, é de origem genética e cultural profundamente português. Na realidade, fui o signatário responsável pela pesquisa efectuada no Arquivo Distrital de Aveiro sobre as raizes familiares de Milton. Lembro-me que o seu avô Manuel Martins Ribeiro nasceu em 21 de Fevereiro de 1900, na aldeia do Pinheiro, freguesia de S. João de Loure, do concelho de Albergaria a Velha, distrito de Aveiro.

Mais, ele era sapateiro de profissão e os seus pais (logo bisavós de Milton) eram igualmente gente da terra lusitana. Declaro que sou leitor assíduo do seu caderno digital ( http://opensadorselvagem.org/blog/miltonribeiro ). Os artigos e opiniões aí editados comprovam na perfeição que Milton domina com esmero a língua de Camões e que tem ideias – o que é agradável -, especialmente quando, o que é o caso, são interessantes. Este facto reputo de muito importante na medida em que, nos dias que correm, já vai sendo raro, mesmo para os nados em Portugal.

Finalmente, o facto que melhor indica a sua origem portuguesa é ter um coração vermelho, adepto do glorioso SPORT LISBOA E BENFICA. Aqui, por terras lusas, se diz que quem não é do Benfica não é nem bom chefe de família, nem bom português.

Por tudo isso, EU POSSO ATESTAR QUE MILTON RIBEIRO PREENCHE TODOS OS REQUISITOS PARA SER UM BOM CIDADÃO PORTUGUÊS.

Luís Frederico Dias Antunes
Natural em 1954, em Goa, (antigo Estado da Índia).
Bilhete de Identidade emitido pelo Arquivo de Lisboa xxxxx63
Sócio cativo do Glorioso 39286

Luís, muito obrigado. Novamente.

2. Leiam que bela crônica Fernando Monteiro publicou no último sábado, no JORNAL DO COMMERCIO. Ele estará hospedado em minha casa no início de novembro. Se bem lembro, vem aqui entre os dias 3 e 8 de novembro para a Feira do livro. No dia 7, palestrará na Feira sobre o tema QUEM MATOU O LEITOR?, segundo ele uma espécie de palestra policial. Fernando é outro amigo que nunca vi e que chegou através da rede. Este ateu jura que adora a Internet.

Lembrança de Antonioni

Li, recentemente, o autobiográfico Comincio a capire – de um dos autênticos gênios do cinema, o italiano (de Ferrara) Michelangelo Antonioni. O título do livro revela bem a surpreendente modéstia do artista que achava que “o passado e a vida estavam por se fazer mais entendidos (por ele) somente na velhice”.

Num ano já longínquo, visitei Ferrara – e não me lembro de ter feito associações da cidade senão com a literatura. Para mim, em 1969, Ferrara e suas fumaças se mapeavam, na moderna cultura italiana, muito mais pela família Finzi-Contini – do romance de Bassani – do que pela certidão de nascimento do autor de Blow-up.

Isso foi há quase 40 anos. Teria sido uma boa oportunidade para tentar ver Ferrara com os olhos do grande diretor… mas os meus – e outros olhos inquietos, no pós 68 – estavam então “enevoados”, à sua maneira, pela arrogância da juventude que nunca quer ver nada pelos olhos alheios. Terminada a leitura da autobiografia, tentei rever a imagem do diretor naquela Roma da primavera de 1970: ágil e elegante, aos 58 anos, num restaurante francês da Via Mangili, muito longe da sua cidade e morada agora definitiva.

O restaurante era francês porque G. o escolhera para a nossa piccola extravagância. Minha colega de turma no Centro Sperimentale era filha de um romano e de uma francesa de Montpellier. No final do almoço no La Piscine, a nossa atenção se distraía com a mesa logo ao lado, onde havíamos assistido o diretor Michelangelo Antonioni ser o tempo todo servido com grande solicitude (extensiva às duas senhoras que o acompanhavam e que riam mais do que a minha lisa paciência podia suportar).

O que querem? Era 1970, eu tinha 21 anos – e a minha geração tinha raiva de tudo. Hoje, a pasmaceira não permite que se compreenda jovens como nós fomos, no Rio, no Recife ou em Roma.

O cineasta parecia um homem calmo, sereno. Apenas esboçava um sorriso quando as mulheres riam, talvez mais atento ao jogo da luz enviesada iluminando trutas e outras iguarias nos pratos. “Todos comem pouco quando fumam” – dizia a minha amiga. “Por isso é que ele é tão magro?”

Na dúvida – e antes de pagarmos a conta bem examinada – G. se levantou e, com o largo menu na mão, se dirigiu a Antonioni, para… pedir um autógrafo?! Não acreditei nos meus olhos enevoados, ou não, pelo monte de liras gastas (e não com trutas delicadas). Fiquei “na minha”, mal acompanhando, pelo canto do olho, a acolhida por parte de Michelangelo, o meio sorriso mais uma vez esboçado e o rápido sacar de uma caneta muito grossa – uma espécie de “pincel atômico” – retirada do bolso a fim de assinar, com segurança, na carta do La Piscine. Quando G. voltou, eu perguntei porque lhe interessava o autógrafo daquele “solene amontoador de caixas vazias” (usando de uma definição meio invejosa que nem sequer era minha, mas de Orson Welles, que só admitia o gênio próprio). Ela sabia tanto da minha admiração pelo diretor de Cidadão Kane (e por Godard e Straub), quanto da minha antipatia, naqueles anos, pelo “cineasta da incomunicabilidade”. Talvez porque esse tema me parecesse um luxo no mínimo dispensável, debaixo das botas de 64.

Com o autógrafo de vinte centímetros (e “quilométrica vaidade”, denunciei) na mão, a minha amiga apenas sorriu – ainda mais serenamente do que o Signore que acenaria de volta, para ela, ao sairmos… jovens e imortais na primavera romana.

Faz muito tempo. Eu mudei. E o mundo também mudou, entre cores e cinzas, filmes memoráveis e discursos sinceros sobre a transformação – ainda possível – dos mundos que portamos todos, incomunicáveis.

Eu, pouca coisa mais moço que Fernando, também custei a ser dobrado por Antonioni.

3. Adriana Falcão não tem culpa de nada. Ela enfrentou Marcelo Backes no Jogo 6 da Copa de Literatura Brasileira. Numa boa, levou um vareio. E eu, ocupadíssimo em toda semana passada, também. Marcelo esteve — de quarta-feira à sábado — com a Nina em Porto Alegre e eu os perdi. Mau amigo, liguei para ele só às 15h de sábado, quando o casal já estava mais para avião de volta do que para nós enquanto bar. Lamentável, ainda mais que Marcelo mandou dois e-mails com todos seus telefones, direções e saudades. Todas perderam a validade, menos o número do celular e as saudades, que ficou em mim recrudescida depois de conversamos, alemão. Merda de vida.

Voltando à Copa, Marcelo já está nas semifinais, pois enfrenta o apenas simpático Na multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Dedicamos todo o respeito a nosso adversário teoricamente mais fraco e acreditamos que ele VIRÁ BEM ARMADO. Apesar disso, sabemos da obrigação de ganhar os três pontos para deixar satisfeita a grande massa torcedora aqui presente.

Não conheci o Marcelo Backes através da Internet, mas de um memorável churrasco.

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Dois livros d`Os Viralata: Branco Leone e Luiz Biajoni

Li dois livros editados pela Os Viralata, editora que penso ser de propriedade do Branco Leone. Um dia, os Viralata ainda editará(ão) algo de Milton Ribeiro, mas não temos pressa alguma e nunca fizemos nada nesse sentido nem em outro. É uma editora que trabalha sob demanda, você compra o livro e rapidamente eles o produzem para envio. Ou têm um estoque diminuto para enviá-lo rapidamente. Ao menos acho que é assim, nunca investiguei nem perguntei.

O primeiro que li foi Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone, de Albano Martins Ribeiro. É óbvio que, sendo neto de Manoel Martins Ribeiro, de São João do Loure, distrito de Aveiro, eu só posso simpatizar muito com o Albano de mesmos sobrenomes e santa terrinha.

O livro é formado por crônicas que foram posts. Não conheço os originais, mas a maioria delas merecem o status de crônica, enquanto outras nasceram e morrerão efêmeros posts. Estou convencido que o autor — qualquer autor — não sabe julgar sua obra. Eu, por exemplo, sempre estou tentando explicar que aquilo que as pessoas gostam é o pior de mim e que o bom é isso ou aquilo, mas elas sempre discordam. No livro do Branco, há uma tal disparidade entre a esmagadora maioria de textos bons e os poucos textos ruins que eu fico pensando o quanto sua filtragem passou pelo emocional e aí, meus amigos, é onde mora o perigo.

Sem puxar o saco de meu futuro editor, aviso que os textos do Branco são engraçadíssimos. Ele tem o domínio de vários gêneros de humor e nos surpreende com coisas escrachadas e sutis, às vezes separadas apenas por uma linha ou nem isso. O humor escrachado de O Galaxão, onde quase adolescentes compram um Gálaxie na certeza de que, com ele, comeriam muitas mulheres; a cuidadosa escolha dos adjetivos e das analogias mais inusitadas em Picrato de Butesin, que me fez lembrar Dickens, talvez por livre-associação; o típico enrolador de Turmalino von Münchausen; o humor negro carinhoso de Um tio; a nostalgia de A senha; o hilariante Rivotril, uma história de alegria que eu e minha mulher lemos às gargalhadas dentro de um avião; a infância de A primeira gargalhada e a inteligência de A vida não imita a arte, mas deveria são os pontos mais altos deste livro, na minha sempre contestável opinião.

Li também a novela Virginia Berlim, de Luiz Biajoni. O Bia mudou e desta vez nos conta uma história rarefeita. Ele deixa que a imaginação do leitor preencha as lacunas de um enredo que deixa laços soltos e sem explicação. O foco narrativo parte da primeira pessoa do singular – um sujeito preso em seu apartamento por motivos que não declinarei aqui – e Biajoni dá ao narrador o mesmo conhecimento que temos ao contar nossas histórias de amor: um conhecimento parcial e extremamente insatisfatório. Essa falta de detalhes que seriam fundamentais numa novela convencional e a atenção masculina que o narrador dá a seu próprio sofrimento é a grande charme da narrativa. Detesto a simples idéia de um debate com Alex Castro – o homem gosta de briga mesmo! -, porém discordo quando ele escreve no prólogo que o estilo do Biajoni é não ter estilo e concordo quando ele diz que é suado e deu trabalho ser tão transparente — apesar de achar que o termo musical-geográfico “rarefeito” seja mais adequado do que transparente. Discordo porque Virginia Berlim é uma novela reveladora de que o Biajoni tem senso de estilo – outro termo roubado à musica – e trata cuidadosamente de não pisar sobre a linha que poderia levar a novela à detalhismos inúteis ou ao melodrama convencional. Como charme adicional, a novela vem com um CD com as músicas “ouvidas” no livro. Alex, tudo aqui é estilo, elegância… E eu gosto.

(A novela é tão boa que a gente chega a esquecer as opiniões do Biajoni sobre Jorge Luis Borges…)

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Porque hoje é sábado, Emmanuelle Béart

A L.C.R.

Lembro da história que um grande amigo me contou há pouco tempo. Era a primeira metade de 1994 e seu casamento já estava na crise em que se manteve por mais sete anos quando, finalmente, para gáudio dos amigos, esboroou-se. Sua mulher reclamava da falta de dinheiro em casa e queria abortar o segundo filho do casal, o que não aconteceu. Ele, desesperado e irritado, resolveu vingar-se dela saindo com aquele back-up que alguns homens têm no escritório. Ao final de uma sexta-feira, saiu caminhando pela rua com a colega; viu um cartaz onde estava escrito Jacques Rivette, Michel Piccoli, Jane Birkin e Emmanuelle Béart. Interessou-se. Não podia ser um mau filme. Convidou-a, depois iriam a um bar. OK. Só faltou ler uma coisinha no cartaz além dos atraentes nomes dos artistas: 240 minutos.

O filme tinha aquele ritmo francês que causa engulho e sono aos americanizados espectadores atuais…

… mas meu amigo estava antes colonizado pela tristeza que pelo mau gosto.

Pouco a pouco deixou-se levar pelas belas imagens que narravam…

… a história do pintor em crise criativa que recebia uma nova modelo.

Passou a achar que a crise do personagem de Piccoli tinha tudo a ver com a sua e…

… que alguém como Béart poderia solucionar rapidamente quaisquer problemas. Imagina se não.

Lá pelas tantas, a colega perguntou:

— Que horas são que esta coisa não acaba nunca?

Ele viu que já tinham transcorrido três horas… Porém o filme não parecia estar perto do fim.

Ela queria retirar-se, mas ele desejava ver a modelo até o final do filme.

A colega irritou-se e disse que então ia embora. Foi.

Meu amigo ficou até o final. Sentia, enquanto ia sozinho para casa — a sua casa dos horrores –, aquele tremendo amor ao cinema… Hoje ele freqüenta outra praia, de águas mais calmas e quentes.

E a serenidade retornou àquele amigo que hoje vive com quem, desde o primeiro indício (em ambos os casos), sempre quis.

O filme é La Belle Noiseuse na França, A Bela Intrigante no Brasil, A Bela Impertinente em Portugal e The Beautiful Troblemaker nos EUA. Direção de Jacques Rivette. Asseguro-lhes, é uma obra-prima, não obstante o que diz nosso intrépido navegador.

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O Monólogo Amoroso (I)

Que importância tem isso? Tuas palavras servem a tua realidade; as minhas, à minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada.

INGMAR BERGMAN – Sonata de Outono

Ela se virou com dificuldade para o lado e, com o gravador sobre o travesseiro, ligou-o e começou a falar.

Minha querida filha. Ontem fiquei surpresa com nossa conversa. Não esperava tuas expressões desencantadas e as comparações que fizeste entre a minha vida e a tua. Disseste que minha existência era a comprovação de que todo amor e intimidade transformava-se inexoravelmente em indiferença ou ódio. Não concordo. Não é minha experiência geral e, se é a tua, só posso lamentar. Como penso que não sobreviverei à doença, quero deixar aqui um registro sobre fatos de nossas vidas que talvez ignores. Prometo gravar meus monólogos nos intervalos entre minhas crises de dor. Não suportas minhas lamúrias de doente e, além disto, há outro motivo para pensar que estas gravações sejam ideais para mim: sabes que tenho dificuldades em discussões e discursos; me emociono facilmente e, se antigamente os bons argumentos acabavam me chegando tarde, comumente quando já em retirada, na situação atual talvez eles nunca aparecessem. Não tenho pressa, alguém diria que tenho todo o tempo do mundo; espero tê-lo ao menos para organizar meus pensamentos. Não tenho expectativas de que aquilo que vou contar agora tenha grande repercussão em ti, mas gostaria que soubesses. Minha história começa lá por 1963, durante minha adolescência.

Li num livro qualquer uma frase em que o autor dizia que não tivera adolescência, que passara da infância diretamente para a inexperiência adulta. Parece ter sido o meu caso. Apaixonei-me por Ricardo quando tinha 15 anos. Ignoro o que ele, um estudante universitário nove anos mais velho, teria visto numa tapada como eu. Está bem, diziam que eu era bonita, mas era só. Em nosso mundo da Avenida João Pessoa, ele era o vizinho desconhecido, o que entrava e saía de seu apartamento de solteiro pouco menos que cumprimentando os outros moradores. Eu o via raras vezes, apesar de passar horas conversando com os amigos, sentada na escadaria de entrada do edifício ao lado, onde morava. Ele não tinha nada de especial; entre nós, seu apelido era o “cara dos discos”, pois quase sempre carregava alguns deles, junto com uns cadernos não muito grossos, que depois soube serem partituras, e uma caixa de violino. Um dia, eu estava comprando sorvete no bar perto de casa quando ele entrou e puxou conversa. Não acreditei que qualquer tipo de amizade pudesse prosperar entre eu e um homem adulto e, toda sorridente, caminhei com ele até seu edifício, pensando no que os outros diriam daqueles cem metros de conversa. Mas ninguém vira o que para mim fora uma lisonja e fui obrigada a anunciar deselegantemente a epopéia a minhas amigas: eu falara com o “cara dos discos”, ele se chamava Ricardo e era músico, violinista. Houve algumas referências sobre sua profissão e sobre como os discos que ele levava seriam ruins. Sentindo que nosso encontro não aumentaria nem prejudicaria minha reputação, acrescentei, também sem sucesso, que ele era fazia um mestrado na Universidade.

Como por mágica, passei a vê-lo quase todos os dias. E sempre conversávamos. Às vezes, conjeturava se era a minha vaidade o que fazia alongar excessivamente nossos diálogos ou se era Ricardo quem desejava minha companhia. Eu não tinha objetivos. Ele estava muito distante de meu ideal de adolescente e me parecia algo entre o não desejado e o inatingível. Um dia, mostrou-me alguns discos de que não lembro e estendeu-me um de Sonatas para Viola da Gamba e Cravo, de Bach. Deu-me vontade de não aceitar o disco, pois viera acompanhado da frase “Este eu não ouço tanto”, o que denunciava sua opinião sobre minha importância. Porém, minha enorme timidez impediu-me qualquer negativa. Assim, com toda a dedicação, ouvi pela primeira vez aquele emaranhado de notas, sem saber nada sobre as leis que regiam o que me parecia um novelo inextricável e menos ainda o motivo pelo qual uma música tinha várias partes, umas rápidas e outras lentas, que eram mais chatas que as primeiras. Porém, uma hora depois, já tinha pesquisado e entendido que aquilo que chamava de partes eram movimentos e que uma música, ou obra, era formada por vários movimentos, sendo que os rápidos eram “Allegros” ou “Vivaces” e os lentos “Adágios”. Com toda esta bagagem cultural e tendo descoberto que Bach nascera em 1685, ouvi com mais simpatia o disco emprestado.

Dois dias depois, Ricardo surpreendeu-me ao perguntar direta e seriamente o que eu achara do disco. Disse que tinha gostado e ele me prometeu outros. Estávamos ficando amigos. Ele perguntava e parecia interessar-se por meus assuntos de estudante secundarista e eu lhe retribuía ouvindo seus discos e comentando-os a meu modo. Depois de tantos encontros, eu já o achava legal, às vezes bonito e era natural que eu o visse como uma possibilidade de namorado. Meus amigos nos viam e também conversavam com ele, principalmente as amigas, mas eu escondia o fato de acompanhá-lo diariamente até o Instituto de Música da Universidade – uma longa caminhada – e que ele perguntara sobre os horários de saída de colégio, pergunta que fingi não ouvir.

OK, aproximei-me por vaidade, esta transformou-se lentamente em atração física, misturada à intuição de que havia naquele rapaz com a barba por fazer a possibilidade de ser salva de uma vida familiar e futuro vulgares. O rosto de Ricardo carregava em si objetivos, concentração e interesses em coisas que não diziam respeito a meu cotidiano: ele ensinava-me sobre música, cinema e leituras, trazia um outra esfera para mim. Contava-me também sobre sua angústia: a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach. Quando chegou seu violino novo – que depois mostrou-se quase igual àquele que seu pai lhe dera -, permaneceu semanas ensaiando-a em casa, afastado de todos. Sim, de todos, porém eu era recebida. Minhas visitas não eram de forma alguma assexuadas, mas não havia contato físico. Minha primeira cerveja e copo de vinho foram tomados em seu apartamento. Ríamos muito, eu tinha evidente admiração por ele e tal sentimento apenas aumentou quando soube afinal o motivo de tanto esforço: ele estava preparando-se para uma audição em Roma que poderia dar-lhe uma bolsa de estudos. Uma semana antes da viagem, ele me beijou apaixonadamente. Na hora, a novidade deu-me vontade de rir, como se estivesse participando de uma coisa para a qual estivesse despreparada, mas por nada desistiria, ainda mais tendo à frente uma longa separação. Foram dias em que fiquei mais em sua casa do que na de meus pais. Deixei de ir às aulas no turno da tarde para ficar abraçada a ele sob as cobertas. Meus amigos logo desconfiaram do cara dos discos. Naquela altura, creio que nos amávamos muito.

Ela desliga o gravador e fecha os olhos para dormir.

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Notas sobre um novo esporte, o Hipismo Canino

O Hipismo Canino é esporte muito praticado na Zona Sul de Porto Alegre. O material utilizado é simples. Basta você desalojar todos os vasos ornamentais da casa — eles nunca reclamam –, colocando seus suportes em fila. Observe na figura abaixo:

Notem que os obstáculos do Hipismo Canino podem ser colocados lado a lado como na figura acima, ajustados como duplos ou triplos — tipo em fila com espaços no meio para o cachorro tomar impulso, entende? –, ou serem amontoados uns sobre os outros — tipo montanha –, como na ilustração que segue. É muito divertido!

Fundamental é o preparo psicológico adequado do animal. Ele pode ficar nervoso, ainda mais em se tratando de filhotes fêmeas de 5 meses de pastor alemão, como é o caso de nossas ilustrações. A propósito, na figura abaixo, vemos a treinadora de Hipismo Canino mantendo o animal calmo e sob seu inteiro controle.

E aqui, o pai da treinadora faz o mesmo enquanto o animal lambe-se de prazer. Viram? Demonstrações de carinho fazem com que o cão submeta-se às maiores torturas provas!

A(o) treinadora(or) acompanha o cão com seu uniforme obrigatório: uma calça velha, uma pantufa recém dada pela boadrasta e já devidamente destruída pelo cão — para ter aquele cheirinho de afeto — e um blusão novo, do colégio, a fim de que lhe seja dado logo outro, porra. Na mão direita, como estímulo, é fundamental que a(o) treinador(a) tenha uma coxa de galinha congelada, mordida e recém aquecida no forno de microondas — não sabemos se no caso a coxa foi mordida, depois congelada e descongelada ou se a ordem dos fatos foi outra — e, na esquerda, o maior objeto de amor do animal: uma bola de futebol do irmão furada pelos dentes do cão. Observem bem, sem perder o detalhe do tamanho da língua do cão, a qual permanece externa à boca, prova de seu bom preparo psicológico:

O esporte é simples. Basta gritar “Vem, Juno!” e movimentar-se. Os olhos da filhote faminta ficarão mesmerizados pela coxa de galinha e pela bola furada ou por uma das duas. (Pensamos que o duplo estímulo funcione melhor). Em seu caminho haverá os obstáculos. Muitas vezes a cadela os contornará — coisa intolerável! Neste caso, nada de coxa ou bola para a cachorra feia, apenas pesadas admoestações, sempre em língua alemã. Mas quando ela salta é maravilhoso.

O prazer da treinadora e do irmão fotógrafo é algo indescritível!

Observem como, mesmo antes de cair, o animal apenas olha, salivando, a desejada coxa e a bola — seu objeto transacional (importantíssimo a qualquer criança, segundo os psicólogos) — sem preocupar-se com o chão.

É o esporte ideal para pátios internos e principalmente para condomínios que aceitem a presença de cães. Tire seu filho das drogas através do Hipismo Canino.

Fotos do meu filho Bernardo.

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E-mail de Mariangela Grando sobre o caso SEDAC ou Mônica Leal revisitada…

Eu não conheço Mariangela Grando — Presidente do Conselho Estadual de Cultura –, apenas sei que ela tem sido atacada pela Secretária da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, Mônica Leal. Se eu fosse Mariangela, estaria preocupado e deprimido com as suspeitas levantadas pela secretária; mas convenhamos que quaisquer ofensas dizem mais sobre o ofensor do que sobre o ofendido e considerando-se de quem parte… Racionalizando, seria até uma honra ser alvo da secretária, filha de Pedro Américo Leal. Eu, por exemplo, nada tenho com Mônica Leal, a qual apenas vi uma vez, da platéia, durante um patético discurso ao lado da OSPA. O restante são as notícias que me chegam pelos jornais, um cardápio confuso e pouco convincente.

Hoje, Mariangela buscou contato com este blog e enviou sua versão dos fatos, a qual reproduzo ipsis litteris. Trata-se de uma carta que enviou à Governadora e um artigo que ainda não havia publicado.

Excelentíssima Senhora Governadora Yeda Crusius,

Diante da avalanche de acontecimentos que assolam a Cultura do RS, trazendo intranqüilidade, desmobilização e prejuízos irrecuperáveis para a produção cultural do nosso Estado, cumpre-me o dever de vir até Vossa Excelência para manifestar minha surpresa e estarrecimento diante das graves acusações de irregularidades a mim imputadas e que urgem ser devidamente esclarecidas.

1. Nos 12 anos de funcionamento da Lei 10.846/96, de Incentivo à Cultura, mais de R$ 200 milhões já foram investidos nos diferentes segmentos por ela contemplados, gerando inúmeros benefícios à população do nosso Estado. Tais investimentos transformaram o cenário cultural, dando a oportunidade para que o patrimônio cultural gaúcho se multiplicasse, saísse apenas do circuito da Capital e alcançasse os mais remotos rincões de nosso Estado, qualificando pessoas, envolvendo comunidades, descobrindo talentos, despertando interesses e consolidando a Cultura como instrumento gerador de emprego e renda. Como todo mecanismo legal que, formado em cima de conceitos básicos, com certa pressa, e sem a reflexão necessária quanto aos instrumentos reguladores e fiscalizadores desta, a Lei, agora se vê, carece urgente de uma modificação, para que os mecanismos de alcance da mesma se tornem uma ferramenta de fomento e incentivo à auto-sustentabilidade deste setor. Nas minhas recentes declarações públicas, na qualidade de Presidente do Conselho Estadual de Cultura – CEC –, adverti à sociedade desta necessidade e de sua urgência.

2. Os recentes escândalos, envolvendo falsificações de documentos, recursos liberados a projetos sem a devida análise de mérito (oportunidade e relevância), pelo CEC – órgão responsável pela recomendação final dos projetos -, revelam o descontrole das autoridades gestoras do Sistema LIC, que permitiu que produtores culturais que estavam sob investigação pelo TCE, desde 2004, permanecessem credenciados no Sistema e continuassem encaminhando projetos para análise, através do Setor de Análise Técnica da SEDAC, abrindo portas para que fraudes fossem cometidas de modo contínuo, lesando o patrimônio público e, agora, a imagem de todos os agentes do Sistema: produtores culturais, autoridades gestoras (SEDAC e SEFAZ), Conselho Estadual de Cultura e patrocinadores, com reflexos indeléveis nos principais interessados: a comunidade gaúcha! As perguntas que se revelam importantes e até aqui não respondidas são: quem, dentro da Secretaria da Cultura, permitiu que estes produtores continuassem a atuar, sabendo-se que estavam inadimplentes, e quem, dentro da Secretaria da Fazenda, responsável pelos créditos de incentivos fiscais das empresas, permitiu que os mesmos fossem realizados sem que a documentação necessária a estas autorizações fosse checada?

3. As denúncias levantadas pela RBS TV, as quais tentaram envolver a minha pessoa, como produtora cultural, e a minha gestão, como Presidente do Conselho Estadual de Cultura, demonstram claramente que, usando argumentos absolutamente falsos e inverídicos, e métodos macartistas de triste memória, apontam de forma inequívoca, para uma tentativa de desviar o foco das responsabilidades e negligência da autoridade gestora na fiscalização da tomada de contas, autorizações e descuido quanto à permanência de fraudadores no Cadastro Estadual de Produtores Culturais – CEPC. As acusações de irregularidades a mim atribuídas, se existiram, são de total responsabilidade da empresa proponente do projeto, que me contratou para exercer a produção executiva de dois longas-metragens, nos quais não tive nunca a incumbência da prestação de contas. É mais: as despesas pessoais que dizem terem sido encontradas no relatório de contas foram todas acompanhadas dos respectivos recibos, por mim assinados, de forma a ficar claro de que faziam parte dos meus honorários naqueles projetos. Se estes recibos não acompanham a prestação de contas, enviadas ao Setor de Tomada de Contas da SEDAC, não há que se imputar a mim a autoria de atos irregulares, sob pena de estar-se transferindo a outrem tal responsabilidade, a qual se delega, mas jamais se transfere – como bem sabemos.

4. Enquanto presidente do Conselho Estadual de Cultura – é bom que se observe – em nenhum momento desta polêmica, jamais foi levantada qualquer suspeita de irregularidades durante minha gestão. Bem assim, as inverdades assacadas contra aquele órgão é uma tentativa desesperada de denegrir a imagem de um Colegiado, formado por vinte e quatro membros que gozam de alto conceito junto à comunidade intelectual e artística do RS e onde todos, sem exceção, têm relevantes serviços prestados à Cultura e ao patrimônio cultural do Estado; basta que se veja em seus currículos. O Conselho Estadual de Cultura é uma instituição criada pela Constituição do Estado, em 1968, independente e soberana, e por onde passam e passaram os melhores nomes que a cultura do RS já produziu. É mais um ato leviano, totalmente sem fundamento e sem provas, com o intuito claro de desviar o foco das graves denúncias que se assomam sobre as autoridades gestoras do Sistema LIC e contra a própria Secretaria da Cultura.

5. As acusações a mim atribuídas de que estaria fazendo comentários jocosos e comparativos da minha condição de suspeita de irregularidades e as denúncias, que sei ser improcedentes, quanto às condições da compra da casa da Exma. Senhora Governadora, apresso-me em afirmar que nunca as proferi, e desafio a quem quer que seja a provar que tal afirmação foi por mim proferida no pleno do CEC ou em outro lugar qualquer. São inverdades e calúnias que tentam indispor Vossa Excelência quanto à minha pessoa e que terão a intervenção da Justiça, para que a verdade seja restabelecida.

Quanto às denúncias, encaminhadas pelo CEC ao Gabinete de Transparência e Combate à Corrupção, são de alto teor de gravidade, e sua apuração se faz urgente e rigorosa, para que o Governo de Vossa Excelência não seja acusado de conivência com as improbidades administrativas ali caracterizadas e comprovadas, e que inaugurou, na Secretaria de Cultura, um período ditatorial de prática política, digna de nossas mais tristes e vergonhosas lembranças! E sei o quanto lhe são caros os conceitos de Estado de Direito e Democracia.

Por último, Senhora Governadora, rogo-lhe que a Cultura do RS tenha de parte do Governo a atenção que lhe é devida, o cuidado que necessita e atitudes inadiáveis quanto à implantação de políticas públicas que reflitam os anseios da população gaúcha, regulamentadas através de ferramentas legais fortes, e que atinjam os mais nobres objetivos do fazer cultural.

Respeitosamente,
Mariangela Grando

E o artigo citado:

A cor do gato e a cultura do RS

“Não importa a cor do gato, importa que cace o rato”. Com esta frase de Deng Xiaoping, o vice-presidente da República, José Alencar, divertiu a platéia presente à posse da nova diretoria da FIERGS, no último dia 24 de julho, no auditório do SESI, em Porto Alegre. Ora, tal citação deve ser repetida, quem sabe ad nauseam, para que se entenda de uma vez por todas que a cultura e o fazer cultural devem estar acima de qualquer discussão de cunho partidário e/ou ideológico. O que se necessita é destreza. A recente polêmica envolvendo as denúncias de irregularidades nas prestações de contas dos projetos culturais financiados pela Lei de Incentivo à Cultura – LIC – levada às páginas dos jornais, blogs e demais publicações e orquestradas pela atual titular da pasta da Cultura et caterva, têm, na verdade, a intenção de ocultar uma triste realidade: a flagrante incompetência, inabilidade e despreparo da Secretária e seu staff para comandar uma pasta de sensibilidade exposta e latente, aliada a total e absoluta falta de programa para o setor, que ela desinteligentemente tenta mascarar com seu périplo de Seca à Meca, apresentando um power point em que resume sua política à frente da Secretaria da Cultura. O que ali se vê é a exaltação de eventos de cunho musical de gostos discutíveis, totalmente financiados pelos recursos públicos da Lei Rouanet, ou seja, com verbas federais, numa afirmação tão megalômana quanto irreal, que lhe fazem acreditar piamente que política cultural se pode fazer “a custo zero”. O mesmo informativo traz cenas que mostram ações da secretaria utilizando mão de obra infantil, num claro desrespeito a Declaração Internacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.

As constrangedoras tentativas de implantar uma plataforma de “inclusão social através da cultura” não passam de uma colcha de retalhos mal aproveitados de governos anteriores, e que sequer possui verbas destinadas a sua implantação. É o caso dos Programas Estruturantes daquela Secretaria, que nada mais fazem do que preencher com inconsistências – próprias dos que estariam melhor aproveitados em outros setores do governo – um discurso vazio; mais focado nas suas pretensões políticas do que em suas preocupações com a cultura ou com a inclusão social. Sim, porque se estivesse comprometida com uma plataforma política para o setor, certamente saberia que shows de cunho claramente racista e machista retratam apenas uma das manifestações de extratos suburbanos e marginalizados e que de “inclusão” pouco ou nada possuem, uma vez que os separa e excluem cada vez mais. Saberia, também, que as populações periféricas e menos favorecidas gostam do que conhecem, mas anseiam também pelo que não conhecem. Quê “inclusão social” é esta que nada produz e que tampouco faz circular os bens culturais financiados a expensas de incentivos fiscais? Que centraliza os aparelhos culturais apenas na capital, deixando as comunidades do interior a mercê de sua própria sorte e com escassos espaços que permitam chegar até os mais distantes moradores do RS algum tipo de entretenimento? A produção e fruição de dança, música clássica, teatro, cinema, folclore e literatura, entre outros, por si só garantem a inclusão social, desde que aportadas a todos os segmentos da sociedade. Ao invés disso a atual gestão tem-se empenhado em voltar suas ações para reforçar políticas de outras esferas, como a Segurança, Turismo e Ação Social, canalizando as ações da secretaria e os seus minguados recursos a pastas com orçamentos, em alguns casos, muitas vezes mais robustos do que o da Cultura. Além disso, as irregularidades ora propaladas como uma tentativa de “moralizar” o setor é de responsabilidade desta mesma dirigente e seus antecessores, os quais permitiram que fraudes fossem perpetradas contra o Sistema LIC, deixando que a prestação de contas dos projetos alcançassem uma passivo de mil projetos esperando na fila do Setor de Tomada de Contas.

No lugar de implantar ações que atendam ao conjunto da sociedade do RS e que permitam a existência e sobrevivência de um setor econômico de alta significância que é o da cadeia produtiva da cultura, a SEDAC, no último ano e meio, tratou de perseguir e punir os produtores culturais como se fossem verdadeiros meliantes e como se estivessem apenas interessados em usufruir para proveito próprio dos recursos da Lei de Incentivo à Cultura. Assim, de um universo de cerca de três mil produtores culturais de todo o Estado, restaram pouco mais de quatrocentos, inaugurando um período de clientelismo, dirigismo cultural e autoritarismo nunca antes vistos.

No entanto, verifica-se, através dos projetos enviados ao Conselho Estadual de Cultura, para receber recursos da Lei de Incentivo à Cultura – LIC, que a SEDAC utiliza-se deste instrumento para manter estruturas pertencentes ao próprio Estado e projetos de “interesse” do Governo, através de um elenco de empresas, associações e produtores culturais que atuam como testas de ferro, o que faz com que significativos valores que deveriam estar sendo investidos em produção cultural de caráter independente, estejam sendo dragados pela própria SEDAC, que a pretexto de fazer economia, profere um discurso inescrupuloso, irresponsável e populista, próprio de aventureiros, que sem conhecer absolutamente nada do assunto, insistem em ser dirigentes do ofício.

Por fim, e acreditando que a escolha – de tal sorte inapropriada para comandar uma pasta com tantos reflexos para qualquer gestão pública – não tenha sido feita com o firme propósito de destruir a produção e a expressão cultural do Estado, meu apelo vai à Exma. Governadora Yeda Crusius, para que devolva à cultura do RS aqueles que sempre lhe foram os seus valores mais caros: pluralidade, democracia e independência.

Por favor, Governadora, devolva-nos a dignidade!

Mariangela Grando, cineasta

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O sombra e outros tópicos muito mais ardentes

Tive aulas de português com o prefeito José Fogaça em 1975. Fiz uma semana de cursinho no IPV antes de mudar para o Mauá e ele me pareceu um bom professor. Melhor se lá tivesse ficado. Assisti duas aulas, não mais do que isso. Depois ele ficou 24 16 anos como senador em Brasília. Culpa dos gaúchos que reelegeram o autor de uma música que tornou-se uma espécie de hino informal de Porto Alegre e do pessoal do interior, sempre pronto a aderir à direita. Sou um cara que leio as notícias políticas com parcimônia e nunca ouvi nada de útil que Fogaça tivesse participado em Brasília. Acho até que ele nem foi. É muito devagar. Ontem, assisti a todo o debate entre ele e Maria do Rosário. José e Maria, Maria e José. PT x PMDB-PPS. Chatíssimo, mas Maria é melhor. A sorte dela é exatamente José que, meio cabeça de vento, não diz coisa com coisa. Há pessoas que não preservam a inteligência. Ó, M`ria, mais tu não t` aproveitasht` d`reito. Êl é um p`monha, M`ria.

Destaques para o projeto “Óleo de Cozinha” de Fogaça, o qual foi confrontado por Maria com outro projeto: o “Lixo é Luz”. Luz? Aqui em casa é cheiro. Descontente com a situação, Fogaça diz que é de seu governo o projeto “Papa Pilhas”. Deve ser mesmo. Já andei quilômetros e quilômetros em Porto Alegre atrás de um lugar onde jogar as pilhas. Acabaram no lixo seco, claro. Fogaça falou muito nos “Portais da Cidade”. Sei lá que porra é essa, só sei que Maria do Rosário andou botando mais botox que a Suélen (ou seria Pâmela?), quando pensei que esta tinha ficado finalmente torta e doente. O sorriso-só-boca de Maria está de assustar as crianças que tanto ama. Mas, pô, ela é dez vezes melhor do que o sombra.

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A FlaM comenta por e-mail que um certo Henrique Goldman, do qual nunca tinha ouvido falar, escreveu uma crônica — supostamente autobiográfica — onde conta que, aos 14 anos, forçava a empregada a transar com ele. Houve reações iradas. Henrique, mentalmente lento como Fogaça, deixou que a publicação escrevesse um notável pedido de desculpas: “Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos”. Um cara finíssimo, sem dúvida… Manteve a macheza escrota. Parabéns!

Este Goldman deveria ter utilizado a hipérbole para descaracterizar-se e não ficar na songa-monguice naturalista. Caro Goldman, sabe-se que uma das formas de se descaracterizar um tópico é recorrer à hipérbole, ou seja, intensificá-lo até o inconcebível… Você deveria perseguir todas as empregadas! Deveria ir para a cama com sua mulher sonhando com empregadas, fazer com que a mulher se vestisse de camareira para sentir tesão, tinha que sonhar com bundas de mulheres no alto de escadas, balançando fartas nádegas e peitos enquanto os vidros eram limpos… Aí sim, você tem chance de tornar-se um Hubert Hubert de domésticas. E não iria nos incomodar tanto. Mas teria que escrever assim:

Conquanto seja indispensável registrar alguns pontos pertinentes, a impressão geral que desejo transmitir é de uma porta lateral que abre violentamente numa vida em pleno vôo, deixando entrar uma negra e retumbante golfada de tempo que abafa, com suas chicotadas de vento, o grito da catástrofe solitária.

Faz aí, trouxa!

Upgrade das 16h30: Comentário da FlaM

E o babado do “colunista ficcionista” segue rendendo. Virou petição online.

O cara é uma receita para autores desconhecidos: como sair do anonimato para o estrelato da abjeção! E otário da vez!

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O criador da Hustler, Larry Flint, continua a fazer das suas. A última é um filme erótico em que Sarah Palin, Hillary Clinton e Condoleezza Rice protagonizarão cenas quentíssimas… Como uma película deste gênero requer muito roteiro e é complicadíssimo de rodar, eles iniciaram as filmagens na semana passada e esperam colocar o DVD à venda bem antes das eleições americanas… Não adianta, a gente faz uma baixaria bem grande — vide o Sr. Henrique Goldman acima — e os americanos logo nos suplantam.

Sarah Palin será vivida por Lisa Ann (36 anos) e Hillary Clinton, mais veterana, por Nina Hartley (49 anos). Não foi divulgado quem fará o papel de Condoleezza Rice. Ao lado, compare umas e outras.

Eu não inventei essa. Juro! Aqui, na Globo.com. E aqui, a notícia mais completa. Um detalhe extremamente tranqüilizador é que a obra não conterá anal scenes. Bom, baixaria por baixaria, não vejo problema algum numa anal scene com condom e muito menos com Condy. Clique no Condy aí ao lado para ver as primeiras fotos dela que aparecem no Google Images. Olha a cara de irritação! Melhor esquecer a tal cena.

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Breve Relato da Aniquilação

Tudo é movimento irregular e contínuo, sem direção e sem meta.

MONTAIGNE

Por trás de suas fantasias ou de seus atos mais simples, durante o período em que estava desperto, havia sempre presente um pensamento suicida. Acordava-se e a primeira coisa que desejava e imaginava era um tiro a atravessar-lhe o cérebro de baixo para cima. Ansiava possuir uma arma para que pudesse pôr fim àquela vida repugnante que levava ao lado da mulher que não mais amava e cuja existência o humilhava, mostrando repetidamente a cada contato que todos os seus sonhos estavam destruídos de forma irremediável. Ontem mesmo, foram ao cinema. Assistiram a um filme chamado Carrington e, durante o silencioso jantar a dois que se seguiu, ela o comparou a Lytton Strachey, o gay intelectual e imprestável para qualquer coisa de ordem prática do filme. Aquilo não fora uma surpresa, nem algo esporádico; ela considerava seu marido um incapaz e sabia que, apesar de ele não ser gay, entenderia a extensão maldosa da observação. Se ele reagisse, esta extensão seria ironicamente negada. Dialogavam através de pequenas farpas educadas e bem direcionadas, que não eram retiradas antes de apodrecer a carne em torno, nunca. Depois deste jantar, voltaram para casa de carro e ele trocou a companhia da mulher pela da babá, a qual tinha de ser levada para casa. Demorou a retornar, preferiu dar voltas sozinho pela cidade esperando que a mulher dormisse. Depois, enquanto estacionava o carro na garagem do edifício, sentiu o retorno mais forte de sua habitual companhia: a enorme vontade de morrer. Pensou no belo nome da Cantata de Bach Christ lag in Todesbanden, Cristo esteve em ânsias de morte, jogou o corpo para trás no carro e disse em voz baixa e com ódio por que não morro?, por que o ser humano não consegue fazer seu coração parar através de uma ordem peremptória do cérebro? Por que sou este animal impotente e inútil?

Entrou em casa e ouviu o ressonar alto de sua mulher. Anotou este som em sua mente para utilizar nalgum momento adequado, bem no meio de uma discussão, como uma livre-associação que lhe tivesse subitamente ocorrido. Não estava com sono e, com a finalidade de não ouvir o odioso ronco da mulher, pegou o CD de A Criação, de Haydn. Ouviu o estrondo inicial e começou a pensar sobre como fugir.

Procurou na memória alguém que o amasse e chegou, após longos minutos, a uma colega de sua turma de ensino médio. Anne havia tentado de tudo para que eles se tornassem namorados, mas ele a evitara repetidamente. Não era uma mulher desagradável ou feia – muito pelo contrário -, mas ele, sem maiores razões, não quis. Foi ao catálogo telefônico e procurou seu nome. Não encontrou nenhuma Anne Mansur. Depois, lembrou que a grafia do nome de Anne era com dois esses. Ficou feliz ao ver a curta lista dos Manssur do guia, mas não havia nenhuma Anne dentre eles. Porém, havia alguém com o nome de Santa. Recordou-se de Anne, há quase vinte anos, ter feito piadas sobre sua mãe ser uma santa e concluiu que aquele era o número que poderia levar-lhe de volta ao passado.

Desligou o aparelho de som, chegando próximo ao barulho da cama. As fanfarras estavam mais altas ainda. Cuidando para não acordar a mulher, deitou-se e dormiu.

No dia seguinte, passou o dia preparando mentalmente o que iria dizer em seu telefonema para Santa. Telefonou ao final da tarde como um ex-colega de trabalho de Anne. Simpático, arrancou com certa facilidade o número do telefone do trabalho da ex-colega.

Nunca fez a ligação.

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Uma terça-feira à noite, meses depois, avistou Anne no supermercado. Ela era mais alta e mais bonita do que ele imaginava. Vê-la assim de surpresa, provocou-lhe uma dor quase física. Todas as vantagens – beleza, elegância, calma – pareciam estar com aquela semi-desconhecida e a inevitável comparação com sua mulher era exageradamente favorável àquela que escolhia frutas e verduras para presumíveis filhos e marido. Entre as gôndolas, observou-a de longe. De calças jeans, casaco preto e camiseta branca, ela parecia muito à vontade e sem pressa, como se tivesse vindo de casa, após o jantar, a fim de comprar o que faltava e que, ali chegando, perdera-se em devaneios. Seus cabelos estavam displicentemente presos; sim, ela saíra de casa, não viera do trabalho. Pode ser até que estivessem sujos, e o contraste com o bonito rosto sugeriu-lhe que estava espreitando um momento muito íntimo e reservado dela. Viu-a olhar detalhadamente os preços de cada produto, pouca coisa ia para seu carrinho. Parecia ser daquelas pessoas que se divertiam no supermercado, escolhendo suas compras, lendo e conhecendo cada produto. Fútil? Talvez, mas transpirava uma calma extrema, transpirava tudo o que ele necessitava.

Não falou com ela; também não ligou para aquele número guardado em sua agenda. A única coisa que fez foi voltar ao supermercado quase todas as noites.

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As 100 obras essenciais da música erudita segundo a Bravo! ou Vendendo ignorância

Sou um sujeito que está sempre rindo. Morro um pouco a cada dia, mas abstraio-me autenticamente do fato. Então, às vezes quero escrever uma coisa bem alegre ou criativa, esquecendo a Mônica Leal e a Pâmela, mas não dá. Me chamam de volta para que eu meta o pau.

A lista de cem obras essenciais da música erudita da revista Bravo! parece ter sido feita… Sei lá, quem sabe por ocorrências no Google? Proponho um acerto com você, caro leitor. Acho que você concorda que é fácil fazer listas e, quanto mais longas forem, mais fácil fica, certo? Se a lista contiver alguns absurdos, você diz que é questão de gosto e fim. Pois a Bravo! conseguiu fazer a lista errada, aquela que demonstra claramente que seus autores não têm a menor vivência na audição de obras do gênero erudito. Essa lista não é questão de gosto, é questão de polícia.

Moacy Cirne, neste post, já havia destruído a relação da e com a Bravo! utilizando como arma apenas uma obra ausente, as Vésperas da Virgem, de Claudio Monteverdi. Bastou. Trata-se de uma omissão que realmente desqualifica toda a lista. Tem razão a maior autoridade brasileira das histórias em quadrinhos, uma lista de uma centena sem as Vésperas é como deixar de fora Grande Sertão: Veredas ou Cidadão Kane em listas análogas de romances brasileiros ou cinematográfica. Mas não apenas o Moacy merece divertir-se, eu também! Analisarei uma poucas coisinhas… HÁ absurdos inacreditáveis na lista.

82º) Concerto para Oboé, de Mozart: é óbvio que o autor da lista não fez teste de bafômetro. Por favor, meu caro ouvinte, ouça este concerto e depois a Sinfonia Concertante para Violino e Viola, ou quaisquer dos Concertos para Piano de 23 a 27 do mesmo Mozart. Um bêbado, sem dúvida.

71º) Tocata e fuga em ré menor: aqui, tenho a primeira convulsão séria. Obra menor de Bach, o alcoolizado autor da lista deixou de FORA TODOS OS SEIS CONCERTOS DE BRANDENBURGO!!!

57º e 83º) A Morte e a Donzela e Trio Op. 100, de Schubert: são obras excelentes, mas esquecer o Quinteto de Schubert é embriaguez de cair deitado.

49º) Missa em Si Menor, de Bach: aqui, a piada foi a de colocá-la atrás da Sinfonia Fantástica de Berlioz. Não, a piada foi muito maior. Há certo consenso que a Missa seria uma espécie de Cidadão Kane da história da música, ou seja, que seria estaria no topo de todas as listas, mas o chumbeado autor coloca-a lá no meio…

11º) Dichterliebe, de Schumann: HAHAHAHAHA, os lieder de Schubert ficaram de fora — exceção feita aos Winterreise — e o Quarteto e Quinteto de Schumann também, mas essas cançõeszinhas de Schumann, simplesinhas e humildes, quase chegaram ao Top 10 do borracho.

4º) O cachaceiro botou a Sagração da Primavera, de Stravinski, em quarto lugar. Será necessário um alongamento muito severo para que alguém razoável admita que a obra esteja colocada no Top 10. Muuuuuito alongamento.

13º) Mais risadas, um único quarteto de cordas de Beethoven está na lista e não é o 130, nem o 132, nem a Grosse Fugue, Op. 133. Estranhamente o pinguço acertou bem onde não devia: no meio. O Op. 131 é belo com seus sete movimentos e um Andante avassalador, mas convenhamos.

84º) Questão de gosto: a Pastoral não poderia estar nesta lista. Mas o bebum a trouxe.

58º) O que faz Dvorak aqui? Hein, beberrão?

38º) Sinfonia “Inacabada”, de Schubert: essa entrou no carteiraço. E a Nona, conhecida como “A Grande”, biriteiro? Em que ela é menor? É por ter sido “Acabada”?

22º) Quadros de uma Exposição, de Mussorgski, é a vigésima-segunda obra essencial de todos os tempos do ébrio…

48º) Réquiem, de Verdi: é uma surpresa encontrá-lo aqui, mas já que o gambá o conhecia, por que deixou-o apenas em 48º? Merecia o Top 20!

95º) 4`33, de Cage: bem, se A Sagração estava em quarto pela importância histórica, esta obra de Cage deveria estar nas imediações, junto de algo de Stockhausen, um dos grandes ausentes da lista, pau d`água.

93º) Intermezzo, Op. 118, de Brahms: a imensa música de câmara — sonatas para violoncelo e clarinete, trios, septetos — de Brahms está inteiramente ausente da lista… Por quê, meu Deus, o esponja escolheu isto?

76º) Carmina Burana, de Orff: sem comentários. Viu, chupa-rolha?

É absolutamente necessário rir de uma publicação dessas, senão vêm as dores de cabeça, úlceras, etc. E citei apenas os primeiros absurdos que me ocorreram, nem explorei os despautérios cometidos ao barroco. Não me perguntem onde vai parar um jornalismo cultural que orienta assim os jovens e inexperientes. O cara que fez esta lista estava desnorteado, aturdido. Menos mal que o blog P.Q.P. Bach recebe 60.000 visitas por mês. E está à distância de um clique. E não custa nada.

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A Ocasião, de Juan José Saer e Niels Lyhne, de Jens Peter Jacobsen

Eu mesmo começo este texto pensando se não seria demasiadamente absurdo comparar o argentino Saer (1937-2005) e o dinamarquês Jacobsen (1847-1885).

Quem me convenceu a ler Saer foi a crítica argentina Beatriz Sarlo, que falou sobre ele com imenso entusiasmo na Flip de 2005. Como se já não bastasse, a Rascunho do mês de agosto fez nova reverência ao escritor que morreu em Paris, há 3 anos. Comprei seu romance A Ocasião (Cia. das Letras, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman) e estou absolutamente encantado com “a transformação de cenas banais em verdadeiras apoteoses descritivas”, para usar a expressão do crítico Moacyr Godoy Moreira, da Rascunho. É um romance de frases longas, cujo tema principal é a ausência e que, em seu ritmo e pela qualidade das descrições, realiza curioso diálogo dentro de mim com o notável Niels Lyhne de Jacobsen (Cosac & Naify, tradução de José Paulo Paes), o lírico fundador da escola naturalista na literatura escandinava, morto em Thisted, na Dinamarca, há 123 anos.

Os temas de um e outro livro tocam-se levemente. Se aqui há a ausência, ali há a despedida. E é só. Seus pontos comuns estão nas descrições de precisão microscópica que fazem com que cada atitude ou objeto nos chegue de forma distinta de qualquer outro. As diferenças entre atos de mesmo gênero vêm esmiuçadas até o ponto de serem únicas. Ambos donos de impecável precisão vocabular e de arrebatador virtuosismo, Saer e Jacobsen tornam seus dois romances lentos, mas nunca pesados. Não são leituras trabalhosas ou difíceis e minha experiência com Saer demonstra que só preciso retornar algumas linhas quando o pensamento foge, pois todos os detalhes significam, completam e “empurram” a narrativa. Ricardo Piglia tem toda a razão quando declara que “dizer que Saer é o melhor escritor argentino atual é uma maneira de desmerecê-lo. Para ser mais exato, é preciso dizer que é é um dos melhores escritores atuais em qualquer língua”. Já Otto Maria Carpeaux dizia que o Niels Lyhne de Jacobsen não era um romance, seria algo que dissolvia-se em quadros maravilhosos, como uma obra episódica de altíssimo nível. O mesmo se pode dizer de A Ocasião e o crítico Moacyr Godoy Moreira escreve “que há passagens que poderiam ser contos independentes, mas que, aos poucos colam-se como retalhos, servindo de arremate ao entendimento de alguns pontos obscuros da história”. Certamente o Lyhne deixa muitos mais pontos em aberto, porém deixo que um crítico dialogue com o outro até para me certificar de que minha comparação não é tão absurda quanto me parecia no começo.

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Mônica Leal ameaça a Feira do Livro

A repelente Mônica Leal recebeu farta curtura desde o berço. Seu papai, Pedro Américo Leal, costumava berrar no rádio, na televisão e certamente em casa, ofensas àqueles comunistas que fugiam dos militares “escondendo-se debaixo da cama”. Convocando-os publicamente a um debate que nunca poderia sustentar com seu pequeno cérebro, em verdade convidava-os à tortura. Mas Mônica é hoje a primeira amiga da repulsiva governadora e acabou na Secretaria da Cultura… Não demorou a arrumar confusão. Numa secretaria onde parte dos recursos são “captados”, era óbvio que a cloacal secretária logo arranjaria uma sarna. E era óbvio que se sujaria por pouco, fazendo cocô no meio da sala ou, pior, mijando em meio a nossos livros. Havia algum na casa de Pedro Américo?

A Feira do Livro tem um orçamento de 2,4 milhões e já teve sua primeira requisição de recursos via LIC negada em 28 de agosto. Eram R$ 700 mil. Havia — surpresa? — incongruências, erros de datas e os critérios de pagamentos de cachês era obscuro. Virão os R$ 850 mil aprovados pela Lei Rouanet, federal, onde a latrinária secretária não consegue pôr as mãos. Enquanto isso, a Câmara Riograndense do Livro está resolvendo o que sai da programação inicial de Feira, pois o dinheiro da LIC… o dinheiro da LIC… não servirá à Feira de 2008 e nem aos chás das amigas.

Será uma Feira sem precedentes.


Enquanto a escultura cai em desespero, as amigas tentam explicar as obras a uma visitante no MARGS (destaque para a insinuante cruzada de pernas da governadora)

Upgrade: vejam o estado do site da Feira. Notem seus (poucos) detalhes.

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Disparate acadêmico

Ele era um sujeito correto. Nos jantares com amigos, em hipótese alguma pegava o dinheiro dos outros, pagando toda a conta com seu cartão de crédito em data mais vantajosa. Uma vez, para agilizar o pagamento num restaurante lotado, ele pegou um cheque de Bruno e fez o pagamento com cartão, porém, ao ser questionado dias depois sobre o motivo de não ter feito o depósito, respondeu:

— Só vou depositar teu cheque no data de vencimento do meu cartão, claro.

Quando o jantar era em sua casa e algum convidado trazia-lhe uma garrafa de vinho, ele ou a abria logo ou esperava pela próxima oportunidade em que o comensal voltasse. Fazia questão de dividir a garrafa com quem havia lhe dado. Enfim, um gentleman.

Era médico, clínico geral, casado com uma médica da mesma inespecialidade. Trabalhavam muito. Bruno conhecia-os através de sua mulher, também médica, só que urologista. O detalhe é que esta detestava trabalhar. Plantões e chamadas noturnas não eram fatos aceitáveis em sua vida. Então, procurou a tranqüila vida acadêmica desde o início da carreira. Aos pacientes, preferia alunos e pesquisa. Mais fácil.

Então houve um concurso para a Universidade. Bruno, leigo naqueles assuntos, ficou de fora enquanto os três estudavam e se divertiam. As tardes de estudo acabavam em mais jantares, pois a mulher do médico era uma espécie de Babette e, como sói acontecer, as Babettes são generosas. Bruno costumava chegar neste momento e, quando voltava para casa com sua mulher, ela elogiava fartamente o conhecimento, a capacidade e a experiência do casal. Estava aprendendo muito com eles.

Fizeram o concurso e, por uma anedota do destino, os três classificaram-se em posições intermediárias e consecutivas: primeiro a mulher do médico e depois a mulher de Bruno, seguida do médico. Talvez não fossem chamados. O concurso tinha validade de dois anos e eles dependiam de demasiados óbitos e aposentadorias.

Os dois anos estavam passando, alguns médicos-acadêmicos foram publicados no necrológio e outros penduraram os jalecos, mas a fila andava muito lentamente para as necessidades do trio. A angústia era grande, principalmente para a mulher de Bruno, que considerava o concurso fundamental para sua carreira. No final do prazo, houve uma súbita aceleração e a mulher do médico foi chamada perto do prazo fatal. Ela comemorou moderadamente ou, para ser mais exato, privadamente. Enquanto isso, a mulher de Bruno via com desespero os dias esvairem-se sem nada acontecer, ao menos sob sua perspectiva. Mais dez dias e o concurso se tornaria inválido. Ela começou a suplicar para todos os outros professores. Era uma injustiça, logo ela, tinha que entrar, o momento era aquele, queria dedicar-se inteiramente à vida acadêmica. Tinha que.

Convenceu o chefe do departamento que seria importante obter mais um professor para a urologia e ele foi ao Ministério de Educação em Brasília reivindicar a vaga. Contou tal fato para o amigo médico, que lhe pediu uma “força”, uma ajuda. Ela ponderou e decidiu que não era adequado pôr em risco uma vaga que ainda nem existia.

A vaga foi obtida no último dia. E ela telefonou para a mulher do médico:

— O Afonso conseguiu a vaga para mim!
— É mesmo?
— Sim, legal né? Meu Deus, que alívio!
— E o Carlos?
— Olha, eu pedi muito mas não deu.

E seguiram explicações mais circunstanciadas até que a mulher de Bruno comentou — sabe-se lá de onde tirou aquela idéia — isto:

— Sabe que Richard Strauss, o compositor, afirmava que conhecia muito mais teoria, orquestração e prática musical do que Sibelius, mas tinha consciência de que Sibelius era um compositor muito superior? Considerava que era uma questão de talento.

Aquele comentário gratuito fez a mulher do médico silenciar e a conversa morreu estranha.

No dia seguinte, a mulher de Bruno cruzou com o amigo no corredor do hospital. Ele não esperou nenhum cumprimento.

— Aproveitadora! Te ensinei tudo o que sabia sem restrições, passei anos trabalhando para que depois tu aceitasse tua vaga com a maior naturalidade, sem impor condições. Isso foi uma traição para quem te ajudou! Não tentaste fazer nada por mim, sua parasita repugnante arrivista!

A mulher de Bruno chorou dias e dias. Bruno a consolava e refletia sobre o comentário infeliz da mulher e sobre o auxílio solicitado. Ela lhe garantiu: fizera o pedido.

— Tu acredita em mim, né?

Poupou-a de sua opinião. Com o tempo, ela passou a dizer que o ex-amigo era um grosseiro mal-educado e desenvolveu a convicção interna de ter sido injustiçada por ele. Mas cruzava bastante com a mulher do médico no hospital. Fazia teorias. Dizia que eles tinham vergonha dela. Evitavam-na por conta da injúria cometida contra ela. Sentia-se coberta de razão.

Obviamente, os casais nunca superaram o episódio.

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