O Monólogo Amoroso (VIII)

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.

VIRGINIA WOOLF

Ricardo abre seu caderno e escreve.

Falo (ou escrevo) sério. Não esperava que Nina se mantivesse fiel a alguém que, com o tempo e a distância, se tornaria uma lembrança; não esperava que ela, como uma mocinha vitoriana, ficasse apaixonadamente aguardando enquanto seu amado não voltasse da guerra ou, no meu caso, me qualificasse e me divertisse na Itália. Também não acreditava que eu viesse a fazer muitos esforços para evitar quaisquer tentações italianas. Só que há esperas e esperas, promessas e promessas, compromissos e compromissos. Na minha visão, nesses casos há um acordo tácito mínimo de, digamos, confidencialidade e relativa sinceridade. Ou eu não deveria ficar sabendo de nada ou saberia através dela. O fato de ter sabido através de um amigo que “minha namorada” estava casada e com filho é uma quebra grave daquele acordo, não? Fiquei mais indignado do que pasmo; ou talvez fosse mais fácil ficar indignado do que fantasiar sobre a biografia de Nina após minha viagem. Trato de fingir para mim mesmo que sou indiferente, mas fui muito feliz com ela nos últimos dias de Porto Alegre. Mesmo sem planejar nada, contava com ela, queria voltar àquela intimidade. Tinha certeza de que aconteceria. E agora esta merda.

Antes de conhecê-la, observava Nina na rua, conversando nas escadas da frente de meu edifício, indo e vindo. Sua beleza doía como a de qualquer mulher que não podemos tocar. Quando a conheci, ela acabou despertando em mim não apenas aquilo que os meninos sentem mas o instinto pedagógico que sempre soube ter. Queria mostra-lhe e ensinar-lhe tudo o que conhecia e sabia, colhendo sua admiração. Seus primeiros dias em minha casa foram algo que nunca esquecerei: ela ficava por lá, toda feliz, comendo as porcarias que eu fazia e ouvindo tudo o que lhe dizia. Tinha (ou tem) um respeito que beira a devoção pela cultura. Acha que encontrará um livro, uma música ou um filme que mudará sua vida. E o procura. Era (ou é) muito inexperiente e tenho certeza de que proporcionei-lhe muitas primeiras vezes – a primeira cerveja, o primeiro vinho, o primeiro porre, o primeiro jantar a dois, o primeiro Bach, o primeiro Thomas Mann -, todas escondidas sob o guarda-chuva da primeira relação sexual. Aqueles dias não foram nada sofridos, nós naturalmente criamos uma terceira intimidade a dois. Então como não sentir-se afetado pelas notícias? É inevitável.

Mesmo incomodado, escrevia-lhe. Meu tom era o do amigo longínquo. Não sabia se deveria seguir escrevendo, mas outra coisa era inevitável. Internamente, eu seguia dialogando com Nina, narrava-lhe os acontecimentos, planejava como iria contar isso e aquilo, então de vez em quando escapava uma carta para ela. O tom era de amizade. Eliminei qualquer referências às saudades e era frio. Ela está longe de ser burra e estaria certa se interpretasse minhas novidades como um convite que pedisse: conte-me, esclareça com tuas próprias palavras o que já sei. Mas ela seguia mentindo. Perguntei a meu amigo se ele tinha certeza absoluta, se não estava enganado. Até que toquei no assunto com ela. Recebi uma resposta longuíssima e pouco convincente. O marido – um menino como ela – não interessava, era um ser remoto pelo qual não tinha nenhum apego, para não dizer amor… Como acreditar que o pai de sua filha não importava?

Então, agora, cometi o maior dos erros ao comentar com Fiorella sobre a namorada que deixara do Brasil. Ela me perguntou com a maior simplicidade como fora nosso rompimento. Eu fiquei sem história para contar. Confusamente desejei fazer um agrado à Fiorella dizendo-lhe que escrevera para o Brasil contando sobre nós, causando uma grande desilusão. Por que inventei aquilo? As datas não fechavam direito, pois não havia tempo para colocar a gravidez e o nascimento entre o dia em que a conhecera e hoje; então me atrapalhei ainda mais ao afirmando que a criança recém nascera, mas isso não fechava com o que dissera o amigo. Ela me fez um bombardeio de perguntas cujas respostas eram tão insatisfatórias que acabamos nos despedindo bruscamente. Fiz tudo errado. Por que entrei nesse assunto? Por que comecei minha tentativa de agrado pela descrição de uma triste despedida de dois apaixonados no Hemisfério Sul…? Para que ela me valorizasse, certamente. Um horror.

Perdemos algo, eu e Fiorella, aquela noite. Ainda mais que ela citou o fato de eu não ter ido ao Brasil em meus períodos de férias anteriores e que desta vez queria ir. Como é ela? Uma mulher como outras. Tens fotos dela contigo? Como responderia que não? Me mostra. Para quê? Quero conhecer, ora. Te mostro depois.

Não mostrei ainda, nem ela pediu novamente. Algumas pessoas gostam de se comparar, de sofrer com o desconhecido. Fiz tudo para melhorar o clima, tratava-a com atenção. Nada resolvia, nem suportar por horas uma ópera de Puccini no La Fenice. Hoje, Fiorella voltou ao assunto: disse que não tinha ciúmes e sabia que eu, quando retornasse em definitivo, retornaria sem ela (até porque ela não iria), mas fez questão de deixar claro que não merecia ouvir mentiras de mim.

Ele fecha o caderno.

4 comments

  1. Ai que liiindo!
    Como é que pode ser tão assim? Meu amigo, como vc é bom nisso de descrever essa coisa aí… ou aqui…
    bj, Flávia

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