O Monólogo Amoroso (IX)

Ela acorda muito mal. O longo tempo deitada faz suas costas doerem tanto quanto aquilo que lhe rói. Mesmo assim, ela volta a pressionar a tecle REC e grava para a filha.

Nunca dei muita importância a datas como o Natal. Gosto das celebrações de aniversários; afinal, às vezes só conseguimos ver nossos amigos anualmente nessas festas. As datas restantes são apenas feriados para mim. Mas tu estavas tão excitada com o Papai Noel que entrei junto na onda natalina daquele ano. Com antecedência, montamos a árvore, comprei presentes e organizei as pessoas para que dessem aquilo que tu querias ganhar. Meus pais diziam que tu tinhas mudado totalmente minha postura, o que era óbvio; eles viam tudo pelo benigno. Só que em minha atitude colaborativa havia a intenção de sumir algumas horas naquelas semanas de Natal, Ano Novo e de resoluções a não serem cumpridas. Era o nosso Natal. Meu e teu. Mas não imaginava quando nem como encontraria Ricardo, e nem se aconteceria mesmo. Não combináramos nada de concreto, apesar de minha imaginação criar as mais altas expectativas.

Nina pára, olha para o gravador e pensa que ele está desligado. Pressiona novamente o botão REC e recomeça.

Aquele era o nosso Natal. Meu e teu. Tu estavas excitadíssima com o que te traria o Papai Noel e eu também… Nunca dei importância a datas e comemorações, gosto apenas de aniversários, só que naquele ano eu fantasiava muito criando expectativas para ti e para mim. Acho que te deixei louca imaginando as surpresas que o Natal podia trazer. Arrumamos árvore, enfeitei tudo para o velhinho comparecer, organizei quem daria o que para ti, pensei nas comidas; fiz tudo com a antecipação necessária para ficar livre alguns turnos durante as semanas fatídicas em que Ricardo estaria na cidade. Mas não sabia se realmente o encontraria e já ia compensando a possível decepção com uma atividade febril. Quando passava por algum espelho, parava cinco minutos, me olhava bem, fazia testes com o cabelo, pensava na roupa e nos três quilos a mais pós-gravidez. E voltava à atividade. Precisava me atualizar. Tinha temor de uma conversa muito intelectual e fazia uma toalete literária, cinematográfica e musical como preparo para o encontro. Mas era só um amigo, mentia para mim. E ia para o cinema, informava-me o quanto podia lendo o Caderno B (ou seu similar) do Jornal do Brasil de cabo a rabo, dava especial atenção às críticas e tinha absoluta certeza de que aquilo era necessário e que serviria para criar uma atmosfera… Sei lá que atmosfera!

Não conseguia ler em casa. Dispersava-me imediatamente. Naquele verão, chegaram aos cinemas dois filmes: Blow-up de Antonioni (Depois daquele Beijo, no Brasil) e Persona de Bergman (Quando duas mulheres pecam, outra invenção nacional). Por que logo esses dois filmes? Blow-up, talvez o tenhas visto, é um filme filosófico disfarçado de suspense. É a história de um fotógrafo profissional de moda que vai a um parque ou campo. Um casal apaixonado atrai sua atenção e ele, ao ampliar as fotos, percebe, ao fundo, quem cometera o crime contra o homem apaixonado. Havia um homem armado, escondido na densa vegetação. É um filme de suspense e não é, porque Antonioni vai tão fundo que o filme torna-se um estudo sobre real versus imaginário. Como cenário, uma Londres (uma Europa, uma Veneza) colorida e cheia de maravilhosas mulheres disponíveis. Não era bem o que precisava ver, mas tudo sempre pode piorar.

Em Persona, uma atriz nega-se a falar. É internada e depois vai para um exílio acompanhada por uma enfermeira. Ficam isoladas. Numa praia, se não me engano. Sim, numa praia. Conversam, ficam íntimas. As duas mulheres tinham problemas relacionados à maternidade: enquanto Elizabeth simplesmente renegava o filho, Alma não aceitava o aborto ao qual fora obrigada.

Nenhuma tinha minha história, mas existiam interseções com ambas. Parecia ser a antítese de Alma: se eu desejara o aborto e não o obtivera, ela não o desejara e o obtivera. Porém sua frustração era semelhante à minha — a dissolução brusca de um sonho, de um projeto — e eu pensava compreender inteiramente Alma. (Minha filha, não estou aqui gravando estas coisas para parecer melhor do que fui. Estou falando a verdade. Além disto, o silêncio em que envolvia cada vez mais teu pai era em tudo semelhante ao mutismo de Elisabeth.) A repetida troca de identidades entre as mulheres perturbou-me muito e a surpreendente fusão de seus rostos – fato de que apenas me dei conta lendo uma crítica e que só pude constatar revendo o filme, pois na primeira só pensei em como Liv Ullmann ficara subitamente feia — foi especialmente aterrorizante.

Sempre procuro me identificar com algum personagem, em Persona esta segurança cresceu muito para esvair-se lentamente. As duas mulheres misturam-se em monólogos e há a terrível leitura da carta, principalmente daquela parte sobre a orgia com os meninos na praia, cuja conseqüência viria a ser o aborto indesejado. Sabia que meu rosto também poderia misturar-se aos de ambas na montagem de Bergman. Passei horas e horas pensando no filme ou, melhor dizendo, em mim. Voltei à época da gravidez.

A semana do Natal chegou e nada de notícias de Ricardo. Estava irritada, não podia conceber aquilo. Então, chegou mais uma carta, na verdade um envelope cheio de cola que ele pusera na caixa do correio. Reconheci a letra. Fui para meu quarto, pus uma música e fiquei olhando para o envelope sobre a mesa. Resolvi antes tomar banho. Fiz tudo lentamente. Pensei que a carta lida por Alma estava aberta, sem aquela absurda quantidade de cola. Durante o banho, planejei todas as combinações de roupas para o encontro. Sabia o que fazer se fosse um encontro matinal, vespertino ou noturno; se chovesse, se estivesse frio, quente ou se nevasse… E desconfiava que mudaria tudo na última hora. Deitei-me na cama.

“Nina.

Podemos nos encontrar dia 23, no Alaska, na esquina da Osvaldo Aranha com a Sarmento Leite, às 18h?

Saudades. Ricardo.”

No Alaska? Um bar de estudantes universitários recém inaugurado e vazio por causa das férias? E com um garçom conhecido, de nome Isake, e que diria para mim “Oi, Nina, tudo bem?”. OK. Um pouco decepcionada, mas decidida a não pensar muito a respeito, fui pessoalmente ao conhecido endereço indicado em “Remetente”, e depositei minha resposta na caixa do correio dentro de um envelope no mesmo estilo, só que com menos cola e conteúdo ainda mais sucinto:

“Ricardo.

Combinado! Estarei lá.

Nina.”

Parecia coisa de agente secreto. Todo o complexo planejamento de roupas foi alterado. Ao Alaska só se adequariam jeans e camiseta. Tudo bonitinho, novinho, apertadinho, é claro, mas nada além de jeans e camiseta. Investiria tudo no cabelo e no perfume.

Com dificuldade, ela vira-se para o lado da parede, desliga o gravador e sorri.

2 comments / Add your comment below

  1. No alaska?!
    KKKKKKKKKK
    adorei! Nnao tinha um Mario?
    será que ele vai pedir meia jarra de vinho rosé? (deixava alíngua menos tingida que o tinto, e dava a ilusão que a ressaca seria menor)
    Eu passo bem a semana, mas essa horinha em que termina o capítulo e eu penso que vou esperar até a póxima sexta, eu moooorro de ansiedade!

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