Os piores dias da adolescência de Flávio…

…foram aqueles em que sua mãe o encarou com desprezo e repugnância.

No inverno de 1969, Flávio tinha aulas apenas no turno da manhã. Porém, aquele dia, foi ao colégio à tarde jogar futebol com seus colegas. Estavam acertados para às três da tarde, mas, como sempre, alguns chegavam antes, ansiosos pela partida. Dois deles, Flávio e Marcos, vieram logo após o almoço. Flávio fora vestido de calças de brim e não tinha nada nas mãos, enquanto Marcos vinha trazendo uma bolsa onde havia calções, camisetas, meias, sabonete, xampu e pente, tudo organizado por sua mãe que, contrariamente a de Flávio, era uma dona de casa exclusivamente dedicada aos filhos e ao marido.

Começaram a caminhar pelo campo vazio. Marcos perguntou a Flávio se ele iria jogar de calças.

– Sim. Essas calças são velhas mesmo. E, olha, já tem este rasgão no joelho.

Marcos perguntou se ele não queria um de seus calções emprestados.

– Além do mais, tu vai sentir o maior calor jogando de calça. E vai ficar cuidando para não cair, não se sujar, é uma merda.

Como não estavam fazendo nada mesmo, pois o dono da bola ainda não tinha chegado, Flávio concordou. Foram aos vestuários em construção e Marcos emprestou-lhe um de seus calções, vestindo o seu. Naqueles tempos da Revolução de 1964, uma obra para uma escola pública podia ficar anos abandonada, sem maiores reclamações. Era o caso do Colégio Júlio de Castilhos. Trocaram-se, mijaram nas paredes do vestuário às escuras, sentaram-se no chão para recolococar os tênis e voltaram lentamente para o campo, onde já havia mais alguns jogadores. O calção de Marcos ficou grande em Flávio, mas assim era até melhor para correr.

Flávio voltou cedo para casa. Seus pais, quando retornaram do trabalho, encontraram-no na frente da televisão, vendo Thunderbirds, de banho tomado. Jantaram às 19h e ficaram vendo o Jornal Nacional. Quando, à noite, Flávio estudava em seu quarto, sua mãe entrou.

— Flávio, preciso que tu me expliques uma coisa.

— O quê?

— Eu quero que me digas neste exato momento de quem é esta cueca.

— Como assim?

— Esta cueca não é tua nem do teu pai. Como é que ela apareceu na roupa para lavar?

Flávio começou a ficar vermelho e gaguejou um

— eu não sei de quem é, mãe.

— E onde está a cueca que usaste hoje?

— Deve estar na roupa suja.

Na verdade, costumava contornar as dificuldades com seus pais através de pequenas mentiras, mas logo notara — pelo olhar de sua mãe — que estava indo por um caminho perigoso. Decidiu que teria de agir com naturalidade e estava se debruçando novamente sobre seu caderno quando sua mãe começou a gritar.

— Flávio! A tua cueca não está na roupa suja. Quem está é esta aqui que não é tua! De quem é?

Flávio estava dando de ombros quando sua mãe de novo trovejou.

— Então tu me aparece em casa com a cueca de sei lá quem e pensa que isto vai ficar assim? E esta coisa é usada e é grande, maior que o teu tamanho! De quem é?

— Mãe, eu juro que não sei. Deve ser de algum vizinho. Pode ter caído na área de serviço, sei lá.

— De algum vizinho… Tá bom, vou falar com teu pai. Fique sabendo que isso não vai ficar assim.

Nos dias seguintes, Flávio foi à aula cabisbaixo. Estava decidido que ele não podia mais sair de casa, a não ser para ir à escola. Sua rotina fora resumida a ir de sua casa para o colégio e do colégio para casa, sempre acompanhado por sua irmã mais velha, que abandonava-o uma quadra antes de chegarem. Ela não queria ser vista como babá de um irmão de 13 anos. Flávio ficava aliviado por livrar-se de mais este rídiculo. Não disse nada a Marcos e explicou aos colegas que não poderia mais sair à tarde para jogar bola, que estava de castigo por ter brigado em casa.

Marcos não parecia ter visto relação entre a “briga em casa” e a troca das cuecas. Disse-lhe que jogara fora a cueca do amigo. Mentira para sua mãe que sua cueca rasgara-se.

— Já imaginou o problema, meu?

Do que Flávio jamais esqueceu foi da cara de sua mãe. A pasta de repugnância, incompreensão, aversão e desgosto que era-lhe servida diariamente impelia-o a fazer simulacros de virilidade que só complicavam ainda mais as coisas.

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Explicação: Uma amiga pediu para que eu republicasse minhas histórias anti-homofóbicas. Aqui está a segunda.

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O Crime e Castigo da Lya que leu mas não entendeu

O leitor André Luiz Zambom resolveu me dar uma alegria: pediu que eu lesse a última crônica de Lya Luft na Veja. Eu sou um cara obediente e logo fui à banca comprar a coisa. O título da crônica é Crime e Castigo e este fato indignou o André. Pus-me a caminhar pela rua enquanto lia Lya. Nossa, que falta de horizontes e informação, que bisonhice. Lya fala da forma mais simples que se possa imaginar sobre “nossa sociedade enferma”. Atira para todos os lados sem fixar-se em nenhum: nossas crianças não recebem educação de boa qualidade, formamos criminosos ou inúteis, os pais não lhes dão limites e são dominados pelos primeiros, os professores são cheios de falsas teorias e parecem existir apenas para enfiar ideologias nas cabeças dos pobrezinhos dos alunos, as ruas são locais de descontrolada criminalidade e há que mudar tantas leis quanto possível, precisamos de autoridade e de punições justas.

Em um momento, a autora perde aquele tom messiânico que a auto-ajuda lhe deu e parece gritar com o leitor: “Antes de mais nada, é dever mudar as leis — e não é possível que não se possa mudar uma lei, duas leis, muitas leis. Hoje, logo, agora!”. Ela tem objeções que não acabam mais, só não consegue propor nada.

É um texto indigente demais para receber a merecer uma das melhores grifes de São Petersburgo, trata-se de uma mera exposição de lugares-comuns, é de chorar de ruim. Pretendo chegar à Raskólnikov, mas primeiro seria adequado dar uns raquetaços nos argumentos da Lya que lia e até se informava, uma dia. Lya, tu que carregas o nome do grande Celso Pedro Luft devias saber isto: aquillo que reprime o crime não é o tamanho da punição, mas sua INFABILIDADE. A atividade criminal é tão apreciada em nosso país não pela inexistência de leis, mas pela forma obtusa, eletiva e errática com que é aplicada. Quanto aos professores e pais: será que antes — quando os alunos eram punidos, ameaçados e até apanhavam — era melhor? Sobre a sociedade enferma: houve acaso alguma época em que ela foi considerada sã? “Sociedade enferma” é um daqueles truísmos que querem silenciar o debate. Ora, essas expressões são tão úteis quanto dizer que o governo X “não fez nada” (assim como o Y e Z), que os todos os governantes estão lá para se locupletar, que os negros agridem e roubam, que os judeus só roubam, etc. São coisas do mais baixo senso comum, ficam ridículas num texto.

Eu ainda acho que uma revista de circulação nacional devia se preocupar com a qualidade do conteúdo e chamar à razão os articulistas que espalhassem — “avalizassem” talvez fosse um verbo melhor — as tolices do senso comum. Mas, sei, é pedir demais para a Veja, cujo maior produto de venda é a confirmação das impressões que assaltam as mentes dos brasileiros médios, principalmente as paranóicas.

Crime e Castigo… Todos os alentados volumes de Dostoievski deveriam se revoltar e cair na cabeça da Lya sem ley. O que tem a ver uma das mais belas histórias inventadas por um ser humano com o lastimável texto de Lya Auto-Ajuda? Vejamos. O livro trata do estudante Rodion Raskólnikov. Ele é paupérrimo como o texto de Lya e, tal como ela, tem a certeza de que é um ser extraordinário. Acontece com muitos, só que Raskonikov age. Cheio de teorias confusas sobre a superioridade de uns sobre os outros, achar-se no direito de utilizar quaisquer meios para cumprir seu destino de grande homem. Tem sempre em mente o nome de Napoleão, cuja biografia seria a comprovação de que é preciso agachar-se, chafurdar na lama e mesmo matar com a finalidade de tomar o poder — o dinheiro, no caso de Raskolnikov. E ele resolve tomá-lo de uma agiota, uma velhinha que além de inútil ainda era um câncer social. Para fazer este trabalho de corrigir Deus, faz-lhe uma visita acompanhado de um machado, porém a coisa começou a se complicar quando a sobrinha Lisavieta chegou repentinamente e viu a tia caída num mar de sangue enquanto Raskolnikov pegava a grana. O que fazer senão matar também Lisavieta? E pimba nela também!

As motivações de Raskólnikov nada têm a ver com aquelas explicadas por Lya, mas e o Castigo do título? O Castigo é o mais curioso. O investigador Porfiri Pietróvitch tem diversas entrevistas com Rodion, que se compromete a cada conversa. Porfiri sabe perfeitamente que Rodion é o assassino, mas nega-se a prendê-lo. Na verdade, ele passa a admirar o pobre estudante e faz questão que ele se entregue. Diz-lhe várias vezes: “Estou esperando você na delegacia com a confissão dos assassinatos; não me faça prejudicá-lo. Sua pena será MENOR se você se entregar”. Bem, aqui a analogia da Lya Louca Por Punições se desmancha inteiramente. Assim como os professores e pais tentam compreender seus filhos, Porfiri vai com consideração e — por que não dizer? — amor à humanidade deste rapaz inteligente e cheio de febres e confusão. A pena é inevitável, o erro é irreparável e Raskolnikov irá para a Sibéria, mas o que Porfiri quer e aposta é em dobrar o estudante, dando-lhe de presente uma pena do tamanho que um ser humano pode suportar e não um castigo perpétuo. Há no livro tudo o que falta à crônica de Lya: compreensão, amor e respeito pelo ser humano. Piedade. Fica claro que o Castigo que Porfiri impõe a Raskolnikov é o de dobrar-se e admitir o erro, saindo do episódio como um homem melhor, sem as teorias alucinadas que justificaram o ato de matar (“Se não há Deus, tudo é permitido”). Tudo isso ocorre em diversos diálogos de fantástica qualidade e ironia. Eles são de compreensão bastante simples para qualquer leitor, apesar do subtexto.

(Estou passando por cima de personagens importantes como Sônia, Svidrigáilov, Lújin e outros para ficar só com o cerne da história).

Agora, eu pergunto: será que Lya Luft — a que diz “que só tudo piora” (não que eu ache que “tudo só melhora”) — não prejudica e confunde ao exigir Autoridade, Punições e Leis mais fortes, atribuindo a seu texto a grife de um marco de nossa cultura? Será que o castigo inteligente e interessado de Porfiri Pietróvitch serviria para a Valquíria da Vingança? Claro que não! O que há naquela crônica é um pensamento superficial acompanhado de um substrato de profunda ignorância. Pobre do Brasil que tem Lya Luft escrevendo para milhares, talvez milhões, de leitores. É de chorar.

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A Valquíria Punitiva finaliza seu texto assim…

Muito crime, pouco castigo, castigo excessivo ou brando demais, leis antiquadas ou insuficientes, e chegamos aonde chegamos: os cidadãos reféns dentro de casa ou ratos assustados na rua, a bandidagem no controle; pais com medos dos filhos… usw.

… mas tira fotos bem assim:

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Anotações bestas de um bom fim de semana

1. Revi A Conversação, espécie de Blow-up norte-americano, escrito e dirigido por Francis Ford Coppola. The Conversation é um tremendo filme. Fez valer a noite de domingo.

2. Assim como fez valer a de sexta-feira o filme O Grupo Baader-Meinhof. Obra tipicamente alemã, dura e séria, apesar do ritmo vertiginoso. Sensacional grupo de atores, grandes as cenas do tribunal. Este filme provocou um belo post de Diego Viana: No tempo em que a polícia batia. Foi escrito em janeiro, antes da polícia do Serra entrar na USP.

3. Acho melhor não falar sobre o Inter. Não é mais um time de futebol, é claramente um balcão de negócios. Nosso técnico Tits usa jogadores inteiramente sem condições apenas para colocá-los na vitrine. A política e o lucro mandam. Sempre foi assim? Talvez, mas nunca vi nada tão claro.

4. Obina, Obina, Obina.

5. Ser pai de uma menina de 14 anos é ser taxista de fim de semana. Quantos quilômetros não andei pela cidade levando e trazendo a Babi? Não quero nem olhar para o carro. Enchi o saco.

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J. S. Bach: A Arte da Fuga, Contraponto nº 9

Com o Emerson String Quartet.

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Facebook

Agradeço a todas as respostas de amigos e conhecidos que me aceitaram no Facebook. Li algumas coisas muito legais, fiquei feliz com as respostas. Só há um porém: não convidei ninguém.

Ontem, entrei no Facebook para responder uma mensagem de minha amiga Magaly Campelo de Magalhães. Fuçando um pouco, descobri que havia instruções sobre como gerar, no Outlook Express, um arquivo com todos os meus endereços de e-mail cadastrados. Li as instruções, fui para o Outlook e gerei o arquivo no diretório “Temporários”. E só.

Eu apenas queria ter uma lista de meus e-mails, mas, quando vi, tinha convidado meio mundo: havia queridos amigos, amigos em potencial, mas também pessoas jurídicas, hospitais, gente com as quais mantive contato uma vez há anos e nem lembro o motivo… Vi que a coisa fora grave quando recebi um e-mail dizendo que Milton Ribeiro havia feito um convite a mim.

Voltei lá no Facebook e olha, admito que possa ter esbarrado em alguma tecla, mas duvido muito. E o que é esse negócio de Dia do Amigo? Ontem nem era mais! Também não li nada que diga: “Se você criar o arquivo de endereços na janela do Outlook, o Facebook vai lá, captura e sai convidando indiscriminadamente”. O que será aquele e-mail todos@trsim… na mensagem que recebi? Será ele o culpado pela disseminação?

A Magaly respondeu amavelmente minha mensagem. Muito cuidado, vou lá agora escrever para ela.

E o que faço com os 500 convidados desconhecidos, com os que pensam que eu era louco, com os caras com os quais falei uma ou meia vez, com o sujeito que processei nas pequenas causas, com os SACs de empresas que incrivelmente aceitaram meu convite, com os amigos com os quais não mantenho contato desde o século passado? Putz, tô constrangido.

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Exclusivo: Como evitar e curar a IMPOTÊNCIA – Saiba aqui

Você passa anos pensando que as palavras mais horríveis do mundo sejam “pedofilia”, “guerra”, “câncer”, “hitler”, “grêmio”, “racismo”, “médici” para descobrir que a pior de todas é “adrenalina”. São dez letras que agora me causam medo e espanto. Faz poucos dias, durante um churrasco regado a caipirinhas e cervejas, conversava com um urologista a respeito de um excruciante assunto que muito me interessa. Ele me disse frases absolutamente lapidares, afirmativas e decididas; procurarei resumir aqui:

O maior inimigo da ereção chama-se adrenalina. Por exemplo, se eu estou operando um pênis com o paciente anestesiado, é inevitável que manipule seu pênis. Alguns entram em ereção. Então, boto um pinguinho (ele disse um pinguinho) de adrenalina e o troço fica mortinho (oh, yeah, ele disse mortinho).

A conclusão a que chego é bastante óbvia. Esses caras que se atiram de pontes presos por um elástico não se interessam por sexo, se interessam por adrenalina, ou seja, por evitar o sexo; motoqueiros velozes, idem; obviamente, os pilotos de Fórmula 1 só tem aquelas mulheres para mostrá-las — mas quem é que tem quem?, não seriam as mulheres que possuem um mirrado pilotinho em casa? É claro que um jovem pode ser viril e gostar de aventuras, provavelmente os pilotos de Fórmula 1 dão conta, porém, minha amiga, fuja dos aventureiros maduros. Provavelmente, seus frutos estarão irremediavelmente caídos. Aqueles caras que, aos 40-50 anos, fingem-se de jovens, compram motos, disputam corridas de kart, correm perigo, esqueçam. Bom mesmo é quem joga golfe, até pela mira.

Mas voltemos ao Doutor L.:

Quanto mais ansiedade, mais adrenalina. Mas, veja bem, Milton, um cara com muita adrenalina tem um afluxo normal de sangue a seu pênis, mas… é que existe como que uma válvula para prender o sangue lá dentro. Só que com a adrenalina, a válvula não fecha e o órgão sexual masculino não se dá conta de todo aquele sangue que passa por ali; ele fica ocioso. Então, não é só a prática de esportes radicais na maturidade que pode gerar impotência, mas também o estresse, os problemas profissionais, o luto, as separações, o desemprego, as falências, etc. Esses troços acabam (ele disse acabam, lembro bem) com o cara mais cedo.

Mas então os sujeitos ricos são mais felizes também nisso? Porra, mas em que merda de mundo injusto vivemos? Isto quer dizer que os funcionários públicos transam mais? Agora, leiam as palavras LITERAIS (juro) que o Doutor L. me disse:

Então, preste atenção. Você liga a TV de manhã e aparece o Alexandre Garcia: você não sente mais deu um jatinho de adrenalina; você pega o jornal e vê estampada a cara da Yeda: jato médio; tua ex-mulher liga: tu chafurdas em adrenalina; lembra das contas: jato médio e assim vai. É foda, ou antes, é pouca foda.

Bem, aqui e agora, mostrarei a solução para todos os problemas: todos os dias pela manhã, você deve ligar a TV, SEM SOM — de modo a proteger-se das más notícias –, no noticiário matinal Bom Dia Brasil com Renata Vasconcellos. É uma atitude temerária. Quando aparecer Alexandre Garcia falando de Brasília, é melhor desviar rapidamente o olhar. A menor dose do horroroso sifilítico, antes de você estar embebido de Renata, porá tudo a perder. Não desafie a adrenalina ainda. Aquele olhar risonho e vitorioso é um tal acinte a seu cérebro que até a primeira urina que chegará à privada levará consigo altos níveis do hormônio do mal.

A visão matinal desta mulher adrenalina-free salva nossa vida do estresse por largo período da manhã. Se ela estiver ao lado de Renato Machado, não haverá problema, pois Renato é um sujeito do bem, gosta de um bom vinho, uma boa mesa e não costuma alimentar-se apenas das cagadas do PT. De qualquer forma, nem consigo vê-lo direito. Meu amigo, faça o teste:

1. Primeiro, observe bem Renata Vasconcellos, embriague-se dela. Note não apenas a beleza, mas a classe. Veja como ela costuma deixar um sutil decote, deixando-nos espreitar dois argumentos matadores que infelizmente você não poderá utilizar em sua próxima discussão. Note como ela se veste diferentemente das apresentadoras mezzo jecas do Rio Grande do Sul. Ali, há tesão e classe, classe e tesão. Ela, decididamente, não veio da RBS.

2. Depois, corra até o computador e leia o um post de Rein@ldo de Azevedo. Qualquer um deles, só para provocar a adrenalina com vara curta (ops!). Garanto: ainda embebido do Efeito Renata, nenhum hormoniozinho de merda o vencerá.

3. Faça o terceiro teste.

Dará certo. Aposto! E então você poderá urrar de prazer: “Sai pra lá, adrenalina nojenta!”, “Ainda sou aquele rapagão voraz dos bons tempos!”, “Ei, adrenalina, vai tomar no c…”, etc. Nenhum cachorro dotado de osso peniano será mais efetivo do que você! Anotem aí mais uma prova da inexistência de Deus: se Deus existisse, daria um osso peniano aos cães e um problema hidráulico para nós? Hein?

E agora, para que você possa ver sua solução se mexendo ao natural, mostramos um vídeo onde Renatinha brinca com seus colegas num intervalo do Jornal Nacional que “escapou” para o YouTube. Observem detidamente… Mas evitem olhar para a tela nos primeiros 5 segundos do filme. É que aparece o horroroso sifilítico do Alexandre Garcia… A Globo é uma porcaria, mas pode curar. Mais do que o Boston Medical Group.

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Quando o discípulo revela o mestre

A meu amigo Luiz Blasi, que adora David Oistrakh

Otto Maria Carpeaux foi um intelectual muito importante na vida cultural brasileira do século passado. Foi respeitadíssimo e com merecimento. Não apenas foi o autor de uma imensa História da Literatura Ocidental em 8 volumes, como foi importante crítico literário. Escreveu também livros de crônicas, foi colunista em revistas, enfim, teve a popularidade possível a quem de dedica seriamente à cultura; ou seja, quase nenhuma. Carpeaux tinha algo de incomum: uma infalível sensibilidade para identificar já na estreia quem se tornaria destaque literário em nosso país. Tantos méritos lhe davam crédito para cometer erros imensos e raros, principalmente na tal História da Literatura. A forma como descartou alguns escritores — como, por exemplo, Laurence Sterne — certamente causa-lhe problemas póstumos até hoje.

Porém, lá pelo final dos anos 50, Carpeaux escreveu uma Nova História da Música. É um livro utilíssimo para quem está começando a gostar de música erudita, pois traz um vasto painel cronológico da evolução da música desde a época medieval, mas é curioso como as pessoas que avançam no conhecimento do assunto, passam a rejeitar o livro como se fosse um mero Eu e a Música. E com razão. Em sua história da música, ele foi bastante agressivo com alguns compositores que detestava e muito indulgente com quem adorava. (Neste mnuto, penso que minha devoção à Bach e Bartók deve-se em boa parte a ele). Sua avaliação de Tchaikovski é simples. Em mais ou menos duas páginas, Carpeaux detona o famoso russo. Diz coisas verdadeiras: Tchaikovski era mau orquestrador, desrespeitava algumas convenções — e, sendo o compositor inteiramente conservador, talvez o fizesse por ignorância –, “jogava fora” temas de uma forma meio incompreensível — por que Tchai não retoma o motivo das quatro notas iniciais de seu Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra?, aquilo é um achado!

E nos anos 70 eu era um adolescente e lia Carpeaux. E, por inexperiência, assumia todos os seus gostos. Como Carpeaux escrevia maravilhosamente e era inteligente, sedutor, radical na medida certa e sofisticado para a época, a leitura da Nova História parecia uma forma de criar uma ponte sobre minha vasta insegurança. Obviamente, assumi seu desprezo por Tchaikovski.

Muitas águas passaram e, anos depois, me apaixonei pela música de Shostakovich. Quem acompanha meu blog há mais de três anos talvez lembre daquela série que escrevi em 2006, ano do centenário de Shosta, o qual casualmente faz aniversário no mesmo dia de minha filha. (A propósito, um dia juntei tudo aquilo, deu 36 folhas A4… Talvez devesse republicar. Gostava daquilo, muita gente da área da música passou a me visitar por causa do Shosta). Bom, mas digo isso apenas para deixar claro que eu tenho vivência com a obra de Shosta, o suficiente para reouvir com atenção algumas obras de Tchaikovski e cair do cavalo.

Pois Dmitri Shostakovich não existiria sem Piotr Tchaikovski. Pois as ideias que aparecem prontas em Shosta nasceram em Tchai. Pois Shosta só pode ser tão, mas tão emocional, colorido e maluco porque Tchai fez quase o mesmo antes. Pois Tchai era o aval para Shosta ser tão expressivo e exagerado, principalmente nas Sinfonias. Pois Shosta parece justificar seu amor pela bela melodia, sempre presente em sua obra, porque Tchai fazia assim.

Relendo muitas entrevistas de Shostakovich, li o que antes pensara ser mera manifestação de ufanismo: ele conhecia minuciosamente a obra de Tchaikovski. Grande parte daquilo que Shosta desenvolveu em suas sinfonias estão em Tchai, nas sinfonias e, principalmente, na Abertura de Romeu e Julieta. Há ali todo um Shostakovich a ser amadurecido, ali está a alma russa e as melodias russas segundo Shostakovich. Resultado: não falo mais mal de Tchaikovski. Passou a ser, da noite para o dia, um compositor fundamental… Confiram! Ouçam a Abertura Romeu e Julieta e digam-me se não há nela um Shosta mais meloso, mais delicado. Hein? Hein? Nunca o amor de Shosta por Tchai foi tão tangível para mim antes de ouvir a citada Abertura. É um tapa na cara, é estupefaciente.

Abaixo, mostro um dos melhores vídeos de todo o YouTube. Trata-se de uma gravação do Concerto Nº 1 para Violino e Orquestra de Shostakovich. O violinista é David Oistrakh, a quem o concerto é dedicado. Há várias versões no YouTube. A que escolhi está completa, mas o que me interessa mostrar começa aos 4 minutos do vídeo abaixo (o 3º de cinco). É o terceiro movimento do concerto e seu segundo movimento lento. Começa altamente dramático e, aos seis minutos, torna-se perfeitamente tchaikovskiano,

e abaixo (1min50) começará a longa cadenza do mesmo movimento, notem a inversão em relação ao habitual: o movimento que começa arrebatado termina tristíssimo. Puro Shostakovich em continuidade a Tchai.

E aqui começa o típico finale de Shostakovich. Espetacular e emocionado como aquele Capricho Italiano.

Este concerto, como já disse, foi dedicado a David Oistrakh, o violinista desta gravação que vocês viram, se viram. Existe o registro do telefonema que Oistrakh fez para Shosta logo após a estreia. O tom da conversa é de amizade formal, respeitosa. O compositor diz que o concerto foi melhorado. David começa a se desculpar por ter acelerado aqui e ali, faz algumas perguntas, nota-se que está constrangido, que entendeu a resposta de Shostakovich como uma ironia e que aceitará a reprimenda. Ouve Shosta dizer:

— O concerto é teu, estava tudo certo, cada andamento. Eu não sabia que era tão bom, sabe? Você iluminou a partitura, ouvi coisas que não imaginara.
— Mas não incluí nada, Dmitri…
— Claro que não, David. Eu fiquei muito feliz, você entendeu a música melhor do que eu.

E deve ser verdade. Shostakovich foi um tremendo compositor, mas sabemos que o um grande executante pode fazer por uma música. Quem ouviu o vídeo pode comprovar.

(A gravação desta conversa — que transcrevi de memória sujeita a chuvas e trovoadas — é o último som que se ouve no filme de Alesandr Sokurov, dedicado a Shostakovich, Sonata para Viola).

Então, o título do post se manteve: Shosta revelou Tchai para mim e talvez para outros e Oistrakh revelou o Concerto para Violino e Orquestra a Shostakovich. Não, eu não revelei nada de Carpeaux.

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Qual é a melhor cara do PSDB? A de Yeda, Aécio ou Serra?

Tudo começou quando Aécio e Serra foram os derrotados no Mineirazo de quarta-feira. Aécio deu um sorriso overtudo, sabendo que estava sendo mostrado pela Globo para todo o país no dia que um time de Minas seria campeão de Libertadores. Serra ergueu a cabecinha de tartaruga e procurou a câmera, só a encontrando quando observou para onde olhava Aécio, dono da imprensa mineira. Foi um prenúncio do que a dupla verón a seguir. Uma duplinha pé-frio, sem dúvida.

Mas a cara mais acabada — nos dois sentidos — do PSDB veio à tona na manhã seguinte em Porto Alegre. Houve uma inteligente manifestação em frente à casa da desgovernadora. Digo inteligente porque todos sabemos que a ogra gosta de um barraco, gosta de responder do modo mais grosseiro, gosta de demonstrar sua vulgaridade, parece gostar de confundir informalidade com baixo nível. As amigas Yeda Crusius e Lya Luft, aliás, estão cada vez mais parecidas: uma na área financeira, outra na literária, as duas na auto-ajuda.

Ao meio-dia de ontem, liguei o rádio para ouvir se alguém noticiaria as manchetes do Olé argentino, quando vi que havia coisa muito mais divertida. Fui direto ao Weissheimer, ao Feil e à Nova Corja a fim de rir. Se até os caras do esporte da RBS falavam com voz de riso, o trio citado devia ter material. Eles não me decepcionaram. As fotos são boas demais. A pitbull resolveu expor seus netos que, coitados, decerto nem queriam mais ir à aula; afinal, entre a perspectiva de assistir a uma pancadaria entre a Brigada Militar e um buliçoso grupo de professores, sentados na sacada da casa que a vovó roubou — talvez comendo pinhão, pipoca e ananás –, e ir à aula, o que você escolheria? Olha a cara de tristeza dos meninos. Não é de dar dó?

A cara de louca da Yeda é sensacional e a da filha Tarsila — cujo nome é uma homenagem ao Ministro da Justiça — idem. Ora, no dia em que hordas de Wierzchowskistas poloneses invadirem meu jardim, vocês acham que vou chamar meus filhos para me ajudarem no enfrentamento? Nunca! Vou é mandar a Juno e a Vicentina, minhas duas terríveis cachorras, uma doce pastor alemão e a uma meiga SRD (vira-lata) se alimentarem dos manifestantes pro-Sem Acento! Achei de última categoria expor dessa maneira os herdeiros da vovó, tão rica. A Tarsila deve ser barraqueira mesmo, mas os netos sempre poderão nascer diferentes, pois estão mais afastados de Yeda e Carlos. Podem até ficar rebeldes como a Luciana. A propósito, Carlos Crusius, ex-primeiro damo, anda em shows e concertos dando o ar de sua barba. Sempre escolhe uma posição estratégica para que todos vejam que não está nem será preso. Sempre ouço pessoas rosnarem quando o veem, mas o resultado é análogo ao que fariam a Juno e a Vicentina.

Nossa governadora, hoje, voltou a ser defendida por ZH. Segundo o pasquim, ela reagiu ao cerco, seus limites foram testados, o Centro dos Professores do Rio Grande do Sul inspirou-se — ui, que perigo — no MST. E tudo isso só porque a desgovernadora quer acabar com o plano de carreira dos professores?

E enquanto a governadora lançava aterradores olhares de inteligência para os manifestantes como na foto ao lado, o ex-marido Carlos Crusius discursava na Associação de Dirigentes “Cristãos” de Empresas (ADCE) sobre o tema “A construção de um Estado moderno e justo”. Esses empresários de Deus escolhem bem a quem ouvir, não? Quem fará parte deste moderno grupelho carola?

A gente sofre, sofre até demais, mas há sobre o que rir. Yeda, apareça mais. Tu és o máximo, és a cara acabada e acabada do PSDB. Já disse que não quero teu impeachment — já pensaram na RBS apoiando o vice num governo de salvação da moralidade? –, quero tudo aquilo que a maioria BURRA dos gaúchos pediu. Dê-nos.

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Me gustan los Estudiantes

O Estudiantes de La Plata apenas perdeu a Copa Sul-Americana de 2008 na prorrogação, isso após ter sido derrotado no primeiro jogo. Recordando: ganhamos lá por 1 x 0, eles nos venceram aqui pelo mesmo placar e o gol de Nilmar, na prorrogação, deu o campeonato ao Inter. Os argentinos demonstraram incrível bravura no jogo final.

Foi esta memória futebolística que ligou minha luz de alerta vermelho. Nada estava decidido em favor do Cruzeiro. Quando o jogo começou, toda a minha simpatia foi para os argentinos. É um problema de formação, estou condicionado a torcer contra times que vestem azul. Detesto o Grêmio, o Cruzeiro, o Lazio, o Chelsea, o FC do Porto, a seleção da Argentina, a Celeste Olímpica, etc. Ainda mais se há do outro lado um time de listras vermelhas como o Estudiantes. Foi um jogão. Reclama-se que a torcida do Cruzeiro teria esfriado após o gol de empate, mas há poucas torcidas no país que carregam um time, o normal é o contrário.

Na minha opinião, o Cruzeiro preparou-se para outro gênero de partida. Decidiu fora de casa seus confrontos anteriores — contra São Paulo e Grêmio — utilizando-se de frieza e superioridade técnica. Foi o suficiente. Ontem, contra 109 argentinos loucos, a tal superioridade parecia um gênero de soberba vazia que logo transformou-se em desconcerto e desespero. É complicado entrar em campo com um plano que é desmentido imediatamente pela realidade. Os azuis queriam um futebol de aproximação e toques, porém a necessidade era de marcação e a correria. Não houve chances para os mineiros marcarem até que Henrique “encontrou” achou aquele gol casual no início do segundo tempo. Pois nem isso foi suficiente, o Estudiantes foi ainda mais heróico, apertou o torniquete e virou o jogo com certa facilidade. Creio que a chegada do Cruzeiro à final foi tão simples e natural que Adílson Batista apenas deixou o barco seguir. A impressão que ficou foi a de um time arrogante, tentando ganhar de outro que daria a vida. Foi muito, mas muito insuficiente.

Como primeiro prato, tivemos o Coritiba passeando em cima do Grêmio com o melhor centroavante ruim em atividade no Brasil, Ariel — gosto dele –, e o Inter jogando mal, mal e mal no mesmo horário de Cruzeiro x Estudiantes, mas vencendo o Fluminense.

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A cabeça do futebol, vários autores

Ganhei de presente este livro de um de seus autores, o escritor Fernando Monteiro. Trata-se de uma coletânea de crônicas futebolísticas organizada por Gustavo de Castro, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo. O time contratado é cheio de estrelas, algumas habituais na crônica esportiva, outras bem menos. Como em qualquer grupo de atletas, tivemos bons e maus desempenhos, porém o trio dirigente manteve o comando do vestiário e o time saiu amplamente vencedor, apesar de algumas derrotas que revoltaram a torcida, a qual pediu insistentemente a cabeça do técnico, pretendendo jogá-la no fundo do entulho. Porém, a Casa das Musas manteve-se firme, declarando que não pagaria multas rescisórias à preguiçosos. O treinador permaneceu e o time mudou sem mudar.

Livros assim são um perigo, pois não adianta só saber escrever, há que saber ver o futebol. Conheço torcedores apaixonados para os quais tanto faria estar dentro de um estádio ou num hipódromo. Eles querem é torcer, não se preocupam em entender o que acontece em campo; suas sugestões são tolas, equivocadas, “irritam ao erudito”… Amam absolutamente o futebol, mas eu sei que, para entendê-lo a ponto de penetrar na cabeça de alguns técnicos, para adivinhar-lhes as reações, posturas e substituições, há que ter um gênero de observação especial que, curiosamente, não grassa por aí.

O livro abre com um bom relato de um caso uruguaio a cargo do espanhol Enrique Vila-Matas. Depois, o time chega cansado de Barcelona, sofrendo uma fragorosa derrota em São Leopoldo, a cargo de Fabrício Carpinejar — um conhecedor de futebol que veio com uma poesia banal, obra do cansaço da viagem, certamente. Fabrício, inclusive, acabou expulso de campo pelo árbitro. Na Vila Belmiro, José Roberto Torero, cronista habitual da área, assinou o mais emocionante e talvez melhor texto de todos, passando a bola a Juca Kfouri que, direto dos porões paulistanos da ditadura militar, fez excelente lançamento a Samarone (com um nome desses, o que seria de se esperar?) Lima que venceu o Velez e o Boca com tranquilidade em Buenos Aires. Após algumas derrotas surpreendentes, como a de Xico Sá, que marcou até gol contra, o time retornou à senda de vitórias com a extraordinária Selma Oliveira, que nos recomprovou que o olhar feminino sobre o futebol veio para ficar. Ela deu um passe a Abel Menezes, que pisou na bola. Sorte que o rebote caiu nos pés de Juremir Machado da Silva, o qual redimiu os gaúchos com um belo gol. Bola no centro. Então, a redonda ficou com Fernando Monteiro que, com o auxílio de Camilo José Cela, obteve inédita vitória com o Íbis. Daniel Piza escreveu uma crônica cujo tamanho só pode ser explicado pelas longas concentrações. Parece que ele resolveu deitar num texto tudo o que sabe de futebol. Sabe bastante, OK, mas a maratona gerou tal série de lesões e cartões amarelos que causou uma queda de rendimento com muitos empates verdadeiramente letárgicos. O time voltou ao bom caminho nas mãos competentes de Carlos Magno Araújo (CEUB?), Hilário Franco Junior (talvez um tanto erudito demais), Sérgio Xavier Filho (bonito relato sobre o futebol praticado pelos cegos), José Castello (O Fluminense está com Amok!) e Moacy Cirne (que me enganou até o final). Surpreendente mesmo foi a goleada sofrida por Humberto Werneck, um craque fora das quatro linhas. Tal derrota fez com que nossos dirigentes deixassem seus cargos à disposição. Sorte que a Casa das Musas não aceitou e mandou-lhes voltar ao trabalho, após tacar-lhes uma multa de 60% de seus vencimentos.

Vale a pena ler!

Organizadores: Gustavo de Castro, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo.

Com Fabrício Carpinejar, José Roberto Torero, Juca Kfouri, Raimundo Carrero, Juremir Machado da Silva, Fernando Monteiro, Daniel Piza, Vladir de Sá Lemos, Inácio França, Luiz Zanin Oricchio, Luiz Martins da Silva, Klecius Henrique, Selma Oliveira, Josmar Jozino, Hilário Franco Jr., Humberto Werneck, Sérgio Xavier Filho, Abel Menezes, Moacy Cirne, José Castello, Rubens Lemos Filho, Elianne Diz de Abreu, Edmundo Barreiros, Xico Sá e o espanhol Enrique Vila-Matas.

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Spinoza: "Deus é o asilo da ignorância"

Ontem, Idelber Avelar publicou um rumoroso post MANDANDO os ateus saírem do armário. Como já estou aqui fora tomando sol e chuva faz uns 40 anos (sim, tenho 51 e uns 40 de ateísmo) e ouvi o chamado do Mestre Idelder, cá estou para dizer que, em minha opinião, Deus é uma criação humana, mais ou menos assim como, digamos, meu amado Dom Quixote. Um trecho do post diz o seguinte:

Uma pesquisa recente, da Fundação Perseu Abramo, mostra que os ateus representamos o grupo social mais discriminado socialmente. Mais que negros. mulheres, travestis, gays, lésbicas. Mais, até mesmo, que transsexuais. Eu não estou dizendo que a discriminação cotidiana que sofre, por exemplo, um ateu branco, é comparável à que sofre um negro de qualquer crença. Não é. Não é, em primeiro lugar, porque ser negro e, até certo ponto, ser gay, são coisas impossíveis de se esconder. Ser ateu, não. Mas se você perguntar a um brasileiro em qual membro de grupo social ele não aceitaria votar de jeito nenhum, os ateus estamos, disparados, em primeiro lugar. Vivemos ainda nesse estranho regime que associa a moralidade à crença religiosa, como se existisse alguma relação entre religiosidade e comportamento moral, como se não soubéssemos nada sobre a lambança feita pelos padres com as crianças e adolescentes – para não falar dos séculos de lambança obscurantista e anticientífica promovida pelas religiões.

Vou contar uma coisa para vocês. Entrei em três concursos literários até hoje: ganhei um, fui menção honrosa em outro e perdi o terceiro. Nada demais; eu estava quieto, no meu canto, só que um dia me contaram porque eu tinha perdido este concurso e me afirmaram que, se fosse possível entrar em contato comigo e se eu retirasse o trecho a seguir, teria vencido… O trecho também não é nada demais. Aqui está:

— Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá pela fraqueza, medo, culpa e imaginação de alguns, feito à nossa imagem e portador de nossos defeitos, olha por nós, pobres pecadores, que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permite que os cães com dono não nos mordam – aqui olhou para o amigo — e que as boas intenções e desespero enviados diariamente por eles a ti, retornem na forma de grandes chuvas de bênçãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza da tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales de onde jorrarão o leite e o mel necessários a nutrir teu povo…

Era uma oração. Obviamente, eu não retiraria este trecho de meu conto. Por que o faria?

Mas voltemos ao post do Idelber. Vou ser um pouco imodesto ao dizer que a parte que mais me entusiasmou no post é aquela em que ele amplifica de forma mais inteligente coisas que este que vos escreve repete há anos:

1. Que a maior TOLICE é afirmar que os ateus, ao se organizarem, criam uma seita e, portanto, tornam-se tão religiosos quanto blá-blá-blá. Cada vez que ouço alguém sofismar desse modo — sempre com aquele ar professoral que os tolos são hábeis para fingir –, saio em procura de meu copo, do livro que estou lendo ou de alguém que me salve.

2. Que os cristãos não aceitam críticas, mas metem o nariz onde não são chamados, como, por exemplo, na homossexualidade e no útero das outras.

3. Que o fato de instituições religiosas não pagarem impostos é a maior sacanagem que há contra as instituições laicas como, por exemplo, o colégio de meus filhos. Há empresas que se tornaram as maiores em suas áreas pelo simples fato de não pagarem impostos. Tenho exemplos, mas a autocensura está me pegando forte depois da agressão que sofri (vocês sabem). É claro que há alguma benemerência aqui, ali e acolá — e que são importantes –, mas as vantagens empresariais herdadas de Cristo são o sonho de todo o neoliberal.

4. Que quem é ateu e declara tal “absurdo” não tem nenhuma chance política.

E (o Idelber não afirma o que escrevo a seguir):

5. Que respeitar a religião dos outros é aceitar uma opção íntima que, se for vendida, merece imediata reação da parte do ateu, que pode, sim, fazer proselitismo em sua defesa.

E vou trabalhar. E estou de péssimo humor.

(A citação acima foi retirada de um comentário de Maurício Santos, um dos 264 que o post do Idelber gerou).

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Chega, né?

Campanha de Ery Roberto contra mais uma besteira urdida por nosso Congresso Nacional. Detalhes aqui.

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Tema recorrente

Dia desses, estava eu na sala de espera do dentista de minha filha quando vi uma Veja antiga bem do meu lado. Como sou um ser de algumas manias, comecei a folheá-la da maneira mais inteligente e correta, ou seja, de trás para diante. Logo, dei de cara com um artigo de Isabela Boscov — normalmente discordo dela — e, bem, ela estava coberta de razão. Numa crítica ao filme Katyn, de Andrzej Wajda, ela estende seu elogio a toda a geração de cineastas a qual pertence o polonês de 83 anos. É uma bela crítica, tão boa que perguntei à secretária do consultório se podia roubar a revista de quatro meses de idade. Ela deixou.

Neste ínterim, o Marcos Nunes pediu para que eu assistisse o filme Jean Charles. Não entendi bem o motivo, mas ia vê-lo de qualquer maneira. Gostei do filme de Henrique Goldman. Mais: saí do cinema quase entusiasmado. Por quê? Ora, porque vejo cada coisa ruim por aí que é bom saudar um filme com ritmo, atuações dignas e que retrata honestamente seres humanos muito reais.

O que isso tem a ver com a crítica de Boscov? Ora, tudo. Ela, após elogiar o filme de Wajda, entrou em surto fazendo uma longa digressão sobre o que fora o cinema entre os anos 50-70 e o que é hoje. Fellini, Antonioni, Bertolucci, Visconti, Bergman, Kurosawa, Truffaut, Malle, Godard, Kubrick e outros viam o cinema não somente como espetáculo. Eles tinham consciência de que tinham na mão um meio de expressão de apelo sem precedentes e tratavam de utilizá-lo como difusor de ideias — explícitas ou subliminares –, de imagens que não fossem uma derivação da publicidade, como fórum, etc. E eles foram bem sucedidos em sua tentativa de criar uma cultura relevante, tanto que seus filmes — e deveríamos citar também Clint Eastwood, Emir Kusturica, Francis Ford Coppola, Andrei Tarkovski, Hal Hartley, Alexandr Sokurov, Martin Scorcese e Werner Herzog…, misturo conscientemente seus nomes — formam talvez o mais completo referencial do que foi o século XX.

Mas não foi só o cinema que apequenou-se, foi a cultura de forma geral. Kurosawa sabia como fazer, mesmo com atores japoneses, um Trono Manchado de Sangue perfeitamente shakespeariano por ter recebido uma educação clássica ou, no mínimo, por ter estudado cada detalhe da obra original. Hoje, é tudo mais fácil. Não há necessidade de continuidade, de debate e assim vamos ficando cada vez menores.

Jean Charles é muito bom. Faz um relato seguro, honesto e até delicado de uma vida banal interrompida de forma estúpida pela paranóia e medo de um agente da Scotland Yard. Nada demais, mas talvez o máximo a que possamos aspirar nestes dias de decadência consolidada.

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Vamos pagar essa conta?

Neste post e em seus links está explicado o caso.

Basta 600 pessoas doarem R$ 50 cada uma.

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Quinteto Villa-Lobos de graça em Porto Alegre

O Quinteto Villa-Lobos traz de volta seu amor, desata macumbaria, doenças mandadas e da carne. Traz seu emprego de volta — assim como o desejo –, cura doenças e faz com que ela chame seu nome mesmo que esteja junto de outro homem. Faz tudo ao contrário e vice-versa se você for mulher.

Não perca, imbecil!

Anúncio copiado de PQP Bach.

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Loki e Stella estão em cartaz

Destaco dois bons filmes que recém entraram na minha lista de filmes vistos.

O documentário Loki – Arnaldo Baptista, de Paulo Henrique Fontenelle, me interessou tanto por suas antológicas imagens e filmes dos Mutantes, quanto pelo que tem de humano. Os Mutantes eram um trio acompanhado de baixo e bateria. Rita Lee cantava e fazia gracinhas — era fundamental ao grupo e a seu líder –, Sérgio Dias era um tremendo guitarrista e Arnaldo,  irmão de Sérgio, era o líder musical e principal compositor. A sinceridade dos entrevistados e a tentativa de Arnaldo “organizar-se” para o filme são comoventes, com destaque para a franqueza de Roberto Menescal, que diz, com todas as letras, que concordou em produzir Loki — o grande álbum solo de Arnaldo Baptista — por achar que estava participando de um momento histórico, ou seja, que colocaria seu nome na gravação do disco do drogado maluco do maior grupo de rock brasileiro.

Senti falta de algumas explicações no documentário, mas logo após recuei, pensando que o período LSD de Arnaldo deve ter sido tão insuportável para quem estava próximo que é natural seus silêncios. Rita Lee, sua demissionária mulher na época, não é entrevistada e Sérgio Dias passa ao largo de explicar as décadas (mesmo!) que passou sem ver seu irmão. Bem, se os deprimidos já são pessoas chatas para os não-deprimidos, o que dizer de um drogado que viaja à Florença a fim de avisar a um amigo que o estava nomeando para comandante de sua nave espacial… (sério!). Imagino o grau de loucura e, quem sabe, de violência que não terá ocorrido na separação de Arnaldo e Rita.

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Sou malandro velho
Não tenho nada com isso

A gente andou
A gente queimou
Muita coisa por aí

Arnaldo é um sobrevivente de bela biografia: atirou-se do quarto andar de uma clínica, passou um bom tempo em coma, foi abandonado pela família no hospital e salvo por uma fã que o visitava  diariamente e que á casada com ele até hoje. Baita história, deu um baita filme.

(Absolutamente imperdível é a apresentação dos Mutantes com Gilberto Gil no Festival da Record, com arranjo do maestro Rogério Duprat, cantando “Domingo no Parque”. O mesmo vale para Os Mutantes interpretando Panis e Circensis na TV.)

-=-=-=-=-=-=-

Em minha opinião, Stella é bastante superior a Entre os Muros da Escola a começar pelo fato de que me interessa muito mais o ontológico do que  o sociológico. Entre os Muros pode ser contado em poucas palavras; Stella, nunca. O filme narra a história de uma menina cujos pais moram com ela num bar. Eles têm um apartamento no andar de cima e o bar fica embaixo. É um bar de bêbados… Muita música e baruho. Seus pais trabalham demais,  brigam demais, bebem sem parar e fumam como chaminés. Um dia, a menina recebe uma bolsa para entrar num famoso colégio de Paris e ali começa a observar a existência de seus colegas. Primeiro, rejeita a escola; depois, faz amizade com uma judia argentina perfeitamente adaptada ao  ambiente escolar (e é a melhor aluna da turma) e a amizade cresce. O confronto entre os dois mundos — um organizado, burguês e culto; outro caótico e violento, onde está onipresente certa pressão à pedofilia — é explorado até o fim pela diretora Sylvie Verheyde, que, sem ter de apelar para longos discursos, consegue sugerir nuances a partir de interpretações pré-adolescentes.

É um filme delicado e pesado, que não dramatiza excessivamente os problemas, mas também não os evita. E, junto com O Casamento de Raquel, forma a dupla de melhores filmes que vi no primeiro semestre de 2009.

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O Inter, o Grêmio, Michael Jackson

Disseram que Michael morreu engasgado com um pé de moleque, que é a prova de que a “América” é a terra da oportunidade, pois nasceu preto e pobre e morreu branca e rica, mas nada se compara a esta bobagem enviada por e-mail pela querida Claudia Cardoso.

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Porque hoje é sábado, Claudia Lynx

No sábado passado, fui espinafrado pelo Eduardo Lunardelli. Ele reclamava do excesso de roupas.

Já tinha preparada uma resposta cheia de peitos e bundas.

Porém, de forma casual, deparei-me com o rosto da iraniana Shaghayegh Claudia Lynx.

E todos os peitos e bundas e púbis ficaram para outra oportunidade.

Nascida em Teerã em 1982, Claudia Lynx emigrou ainda bebê para a Noruega.

Aos três anos de idade fez seus primeiros comerciais: vendia fraldas na televisão européia.

É óbvio que é modelo, que tentou ser atriz e, como não devia ser das melhores, …

… acabou cantora — e modelo. As carreiras, sabemos, são previsíveis.

Na edição anterior do PHES, também fiquei contrariado com o comentário da Caminhante: …

… ela me acusava delicadamente de preferir as loiras.

Trata-se de uma blasfêmia que repudio veementemente.

A pele mais linda que conheço é aquela que os italianos chamam de olivastra.

É a pele que dá vontade de tocar, é aquele amorenado (natural, sem sol) de algumas mulheres …

… e que tende ao dourado. É olivastra. Não tem tradução, acho.

Bem, mas como é bonita esta iraniana, né? Nenhum aiatolá ousaria botar defeito.

Quantas dessas não haverá sob as burcas?

(*) Minha filha achou Claudia Lynx “plastificada” demais. Tudo bem, não interessa; vindo nesta ou naquela embalagem, tô fazendo negócio.

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Sobre Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

Quando vi Gritos e Sussurros pela primeira vez, tinha quinze ou dezesseis anos. Nunca pude esquecer a atmosfera psicológica do filme, o monte de coisas absolutamente inéditas que ele me apresentava e meu choque à saída do velho Avenida. Sentia um misto de entusiasmo pela realização de uma obra daquele porte e de amargor pelo realismo do filme. Era como se me dissessem finalmente: “o cinema pode ser algo mais interessante do que tu pensas”. Me dêem um desconto, não tinha visto nada parecido antes.

É um filme sobre duas irmãs, Karin (Ingrid Thulin) e Maria (Liv Ullmann) que temem, lamentam e ao mesmo tempo desejam a morte da terceira irmã Agnes (Harriet Andersson). Como quarta personagem principal, há a devotada criada de Agnes: Anna (Kari Sylwan). Improvisando, vou tentar colocar em tópicos fingidamente organizados o que penso sobre o filme depois de tê-lo visto muitas vezes.

As cores. Basicamente, há apenas três cores em Gritos e Sussurros: o vermelho das paredes e o branco e preto que as mulheres vestem. Ou seja, um filme que retrata a morte, o amor, o sexo e o ódio, passa-se em uma casa de paredes e chão vermelhos. Bergman disse não saber exatamente o motivo, afirmou que talvez fosse porque imaginava vermelhas as paredes do útero, assim como as da alma. Deve haver alguma verdade no senso comum que considera tal cor a representação da paixão e da raiva. O que interessa dizer é a saturação de vermelho no filme me hipnotiza, deixando-me apreensivo desde o lento início do filme.

O rosto é o palco. Bakhtin escreveu que o diálogo é o real habitat das idéias, é o local onde elas se transformam e que a mera expressão de uma idéia já bastaria para a alterar. Isto demonstra a importância da interação num mundo polifônico onde nada pode ser visto isoladamente. Bergman prova que o habitat da emoção do ator é seu rosto, fazendo com que vejamos a tela cheia de enormes rostos que falam e, principalmente, ouvem, reagindo à palavras quase sempre antagônicas. A câmara está sempre muito perto, mostrando bocas, ouvidos e olhos. A propósito, notem o título de alguns filmes de Bergman: “O Rosto” (Ansiktet), “Face a Face” (Ansikte mot ansikte) e “Persona” (máscara em grego). O homem era fascinado por rostos! O escritor Fernando Monteiro — imenso admirador de Bergman — reinvindica para Joseph von Sternberg a compreensão da força da face humana na tela. Sternberg chegou a escrever: “O cinema é a ARTE DO ROSTO”.


A seguir, elas falarão de suas infâncias.

O ódio e o afeto. A agressividade permanece em estado de latência por grande parte todo o filme, apenas explodindo aqui e ali. Mesmo o momento em que Karin e Maria se acarinham é resultado de lembranças invocadas durante a reparação a mais uma briga. Agnes é dócil e solitária enquanto suporta a doença que a vencerá, Anna é a criada fiel, amorosa e adequada à resignação de Agnes, Karin é ressentida e insatisfeita e Maria é fútil e não tem por hábito sentir remorsos. Deus é silencioso e invisível como sempre e até o pastor acaba confessando sua falta de fé: “Encomendo-a a Deus para livrá-la da angústia causada por esta terra sombria e suja, onde vagamos sob um céu vazio e cruel”.

O puro ódio. A cena em que Karin mutila seu sexo com um caco de vidro — do copo que ela antes quebrara durante uma refeição nada interessante com o marido –, passando após o sangue em seu rosto… Bem, não preciso continuar.

O filme baseia-se no mundo feminino e mais. Os homens são inteiramente inúteis. O médico e o pastor falham em sua tentativa de oferecer qualquer conforto à Agnes e os maridos de Karin e Maria não compreendem suas necessidades emocionais. Mas elas também não são apresentadas como anjos. Todas, talvez à exceção de Anna, são autênticos monstros. Agnes tem uma doença inexorável que a devora internamente; Karin odeia e odeia; Maria leva seu marido à tentativa de suicídio com suas traições e Anna falha com sua filha biológica e com Agnes, apesar do toda sua capacidade de doação. Ou seja, o filme é uma representação de pessoas normais.

As cenas clássicas. Agnes — já morta, em cena assustadora — chama Karin e Maria, sendo recusada por ambas; então Anna a abraça em imitação à Pietà de Michelangelo (abaixo). A seqüência em que Karin a Maria rememoram sua intimidade quando crianças (foto com legenda), tocando uma à outra e o final do filme são absolutamente inesquecíveis (última foto).

A câmera, o tempo e a música. A posição da câmera sempre fragmenta o corpo de Agnes ou a flagra em posições desconfortáveis, sugerindo a doença que destrói seu corpo ao longo do tempo, mostrado em vários relógios na sua faina de registrar o tempo passado. Ouçam as raras intervenções musicais, dedicadas a Bach (com Pierre Fournier, como lembrou Moacy Cirne) e Chopin, plenas de significação.

A fotografia do mestre Sven Nykvist: desnecessário comentar.

Finalizando, diria que Gritos e Sussurros é uma obra de extrema audácia dentro de uma estrutura clássica. Até mesmo a cena final, quando Anna abre o diário de Agnes e lê em voz alta um trecho sobre os tempos de felicidade das irmãs, acompanhado das imagens da foto abaixo, isto é, inclusive no único momento em que saímos da atmosfera de claustro do filme, a sensação é de estranheza, por tudo o que aconteceu antes. A presença da belo e rápido final, por mais convencional que nos pareça, causa espanto.

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O Bailão do Mano

O Corinthians jogou mais e mereceu. Na verdade, nosso primeiro tempo foi de uma constrangedora produção e não ficou nada para o segundo. Acho que o Inter poderia ter feito muito mais e até pretendo dar uns pitacos, mas é claro que todas as nossas falhas foram catalisadas pela intervenção de um adversário superior. Uma excelente defesa, um toque de bola envolvente, efetividade na frente; enfim, tudo o que sobrou ao Corinthians faltou a nós.

O esquema do Corinthians é simples, convencional e bem treinado. Quatro bons zagueiros (André Silva e William são sensacionais), dois volantes defensivos, um volante mais solto (Elias), um centrovante fixo e dois caras de movimentação (Jorge Henrique e Dentinho). Tudo ajeitadinho; sem novidades, mas tudo perfeitinho. Como sou colorado, preocupo-me e comentarei mais o Inter, mas não considero que o Inter tenha apenas perdido (ou entregue) o campeonato, foi o Corinthians quem o ganhou. Se foi fácil, deveu-se a uma enorme diferença.

Já o Inter tentou passar ao árbitro a responsabilidade de vencer o Corinthians. Foi o erro nº 1 do segundo jogo. Não dá, né? Todos sabemos que o Corinthians e o Flamengo são os queridinhos da arbitragem, porém é mais adequado tentar jogar. Tite errou em muita coisa. Se tirou o lastimável Álvaro, deveria ter tirado também Índio, que passa por má fase. Ontem, a confirmação; Índio foi vencido muitas vezes. Não creio que seja um ex-jogador, é apenas um jogador em má fase. Outro fato que nos prejudicou foi a utilização de reservas no Brasileiro. Um time tem que jogar e jogar e jogar. Entrosamento se adquire e se mantém dentro de campo, não em treinamentos, ainda mais se quem treina é o Pastor Tite. E, para completar, uma ridícula atuação de D`Alessandro: voltando de lesão e fora de ritmo de jogo, preferiu o papel de machinho argentino e demitiu-se do jogo. Foi apenas espalhafatoso e retirou-se pateticamente da partida.

O falta de reação de Tite foi evidente. Quando o Corinthians fez o primeiro gol, ele deveria ter sido rápido, retirando Glaydson para colocar Andrezinho ou Alecsandro, pois estava na cara que D`Alessandro — um grande jogador, mas que só joga quando está em forma — seria insuficiente na armação de jogadas. Só que nosso treinador é pusilânime e parece ser incapaz de raciocinar que os volantes do Corinthians estavam sem diversão.

Bom, perdemos. Agora, Fernando Carvalho afirma que, a partir deste jogo, só jogam os titulares… Tá bom.

Como curiosidade, vejam o DVD do Fernando Carvalho… Mereceram vencer, mas viver assim é melhor! Infelizmente, não nasci flamengo nem corintiano.

Ou clique aqui.

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