O Monólogo Amoroso (XV)

Se duas pessoas se amam, não pode haver final feliz.

ERNEST HEMINGWAY

Nina fica sabendo que irá para casa no dia seguinte. Bem humorada, pergunta se suas dores foram avisadas da transferência e ouve sua filha dizer que haverá três enfermeiras revezando-se para cuidá-la e lhe ministrar as medicações. “Será como aqui, mãe”, diz ela. Nina não deseja maiores informações. Depois, Ana explica cuidadosamente que gostaria de organizar uma pequena festa de aniversário para a mãe. Nina concorda com um rápido sorriso logo substituído por um conhecido esgar de contragosto, que significa: “Preferia não comemorar, mas, já que fazes questão… me submeto”. A reação deixa a filha aliviada e risonha. “Não esqueça de convidar meus médicos e enfermeiros”, recomenda a mãe. A filha ri e começa a falar sobre como são afetuosas e maternais as três enfermeiras e o trabalho que passou para escolhê-las. Nina pensa que conviver com um monte de mulheres maternais será bem chato, porém não tanto quanto o hospital com seus horários malucos de refeições e sua cautelosa gastronomia. Após a saída de Ana, ela olha pela janela e retoma o monólogo.

Para minha sorte, o Estudantil foi só da primeira vez. Depois, eu e Antônio passamos a ir sempre a motéis. Melhor. A cada sexta-feira, ele me perguntava educadamente se eu tinha algum compromisso. Raramente tinha e então ele vinha me buscar em casa. Nos sábados, era o mesmo. Tornou-se rotineiro. A única repercussão destes encontros veio de Raul que, certa vez, ao vir te buscar, resolveu dizer na tua frente que eu não ficava muito tempo sozinha. Não respondi.

Apesar de nunca falar nisso, as acusações de Raul me incomodavam. Eu pensava que a insistência dele em me qualificar como vadia talvez tivesse um fundo de verdade. Me preocupava e costumava “me examinar” do ponto de vista moral. Afinal, todas as comoções que sofria pareciam ser determinadas exclusivamente pelo desejo. Primeiro, Ricardo; segundo, a consequência de sua ausência: Raul; e agora, novamente Ricardo e Antônio. Não tinha crises, mas as palavras vadia e puta me ofendiam especialmente.

Naquela época, procurei finalmente ganhar algum dinheiro e comecei a fazer revisões de textos de trabalhos e teses; depois, porque estava decidida a me sustentar, estendi minhas aulas a qualquer disciplina do ensino básico. Aos poucos, minha casa transformou-se num entra e sai de crianças e universitários, além de mestrandos e doutorandos. O pior eram as teses, que deixava para revisar quando tu estavas com teu pai. Era necessária muita paciência e concentração. Quando eram ruins, o que era a regra, os problemas começavam na dedicatória e seguiam por todo o texto. A chateação começava pela dedicatória: depois de sempre citar uma centena de pessoas a quem se sentiam gratas – professores, todos os familiares, vivos e mortos, os animais de estimação –, os autores terminavam mais ou menos assim: “Foram tantos mais os que me deram do que aqueles que receberam! Eis o fruto do esforço e da dedicação que tenho recebido de vocês”. Um saco. O fruto era enjoativo, mal e mal expressava-se, tanto que dava vontade de devolvê-lo para ser reescrito. Só que aquilo dava um bom dinheiro. Então, eu telefonava para o autor e perguntava humildemente se ele não estaria tentando expressar o seguinte: “Todos vocês me deram muito mais do que receberam”, frase menor, mais elegante e que deixaria a dedicatória mais realista, pois o mundo não é dividido entre doadores e receptores. Às vezes, eles nem entendiam seus erros ou inconsistências. Lembro que a maioria dos mortos homenageados eram pais, raramente mães, o que só demonstra que meu câncer é uma exceção. Divertia-me mais com as crianças, apesar dos adultos pagarem mais. É incrível a energia que temos aos vinte e poucos anos. Eu não descuidava da faculdade nem de ti, estudava, brincava contigo, passava instruções à babá, dava aulas – às vezes fora de casa -, fazia revisões com prazos apertados, lia, ia ao cinema e saía à noite. Não pedia mais dinheiro a meus pais, o que gerou mais respeito em casa. E, penso, distância. Eles não ousavam mais se imiscuir gratuitamente em meus assuntos. Minha periclitante independência financeira me protegia.

E Antônio era minha companhia fora de casa. Difícil imaginar alguém mais disponível. Nossos encontros costumavam obedecer ao seguinte esquema: eu escolhia um filme, dizia o horário a partir do qual estava livre e ele decidia todo o resto. Não era apaixonado por mim ou ao menos não me demandava mais tempo, nem ser apresentado à família, essas coisas. Durante a semana mal falávamos, voltávamos a ser amigos. Tenho certeza de que eu necessitava mais dele do que ele de mim. Não tínhamos conversas íntimas especialmente carinhosas, mas íamos adiante; brincávamos um com o outro dizendo que o balcão de reclamações e desistências estava aberto 24 horas; comentávamos a respeito dos (e das) colegas com quem gostaríamos de sair, mas permanecíamos juntos. Ele morava com os pais. Não imaginava quanto ele ganhava como professor auxiliar da universidade, mas tenho certeza que grande parte de seu salário era desviado para pagar motéis, bares e discos de jazz. Conhecíamos quase todos os motéis de Porto Alegre e as noites do fim de semana costumavam terminar tarde, muito tarde. Se eu tinha trabalho, estudo, revisão ou compromisso contigo, tudo bem, Antônio ia fazer sei lá o quê; se eu estava disponível, Antônio estaria comigo. Não me fazia nenhuma exigência, não parecia ter vontades incondicionais de ver um filme, ler um livro ou conhecer algo ou alguém; seu único desejo autêntico era o de ouvir e ler tudo o que fosse relacionado a Charlie Mingus. Via uma comédia e achava legal, via Blow-up e achava a mesma coisa, não entabulava conversas sobre assuntos delicados, nem em sonho desejava “discutir a relação”, mas estava sempre a meu dispor. Por outro lado, fazia questão de escolher o restaurante ou bar onde iríamos após o filme — se eu pudesse ficar até um pouco mais tarde, é claro, pois ele sempre consultava a ocupada mamãe –, e invariavelmente dirigia seu carro a um motel — se eu pudesse ficar até bem mais tarde, é claro — após o bar. Lembro de ter desistido da programação padrão antes de ir ao bar, às vezes estava com trabalhos pendentes, mas nunca abri mão exclusivamente da última parte do programa. Aliás, após a adolescência, nunca nenhum achaque ou dor de cabeça foi suficiente para que eu evitasse dormir com alguém; quando começo a beijar, toda e qualquer dor some, talvez mesmo agora sumisse… Veja bem, Ana, a utilidade de organizar meus pensamentos nesta fita: acabo de descobrir que talvez trocássemos disponibilidades, o que era certamente um bom negócio. Ele era pouca coisa mais alto do que eu, usávamos as mesmas calças de brim, frequentemente os mesmos tênis, éramos magros e até parecidos fisicamente; ele amava seu Mingus — um brilhante compositor erudito que gostava de jazz, segundo suas palavras –, e eu meu Bach; eu com vinte anos, ele com vinte e sete. Sim, ele era um doce de pessoa.

Uma vez, ao encontrá-lo na porta de um cinema, depois de ter avançado na leitura de O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, dei-lhe um susto:

— Antônio, tu és meu amor por mim mesma. Sempre me faltou consideração por mim e agora, por um engano qualquer, ele se corporificou em ti, em vez de estar em mim. Me reconcilio comigo através de ti.

Ele me olhou surpreso. Porém, apesar de saber que aquele tipo de expansão estava na direção oposta de nosso habitual, segui em frente:

— Não tenho uma boa relação comigo mesma, o que aparentemente a maioria das pessoas têm naturalmente. Sempre cultivei relações falsas com meus namorados. Eram ilustrações de caprichos meus, fazia caricaturas deles. No fundo, sempre me relacionei com homens que não amava ou que iam me abandonar.
— Distrações temporárias? — perguntou ele.
— Sim e não, quem sabe representações da opinião que tenho de mim — respondi e ele seguiu a conversa.
— Então eu sou tua última distração? Uma distração que carrega teu amor por ti? É loucura. Quero ir agora ao balcão de desistências.

Lembre-se, Nina, nada de conversas sérias. E repliquei:

— Por quê? Nada disso, é que somos parecidos, temos o mesmo fenótipo, gostamos de nos vestir igual e eu me enxergo em ti e me gosto um pouquinho em ti. E talvez tu te gostes em mim, sei lá.

— Isto faria de nós irmãos siameses?

— Por que siameses? O que têm os gatos ou o Sião a ver com esta merda?

— Xipófagos… ou xifópagos? Nunca sei o certo — perguntou Antônio.

— É xifópagos. Mas isto é horrível. Esqueça — encerrei o assunto, rindo.

E assim íamos. Tinha a impressão de que meu sucesso junto ao público masculino era até crescente, mas jamais considerei a possibilidade de trair Antônio. Estava tranqüila, não havia tensões, tínhamos muitos amigos, foi uma época feliz.

Eu me formei e imediatamente ingressei num mestrado com a intenção de depois tentar um concurso para a universidade. Era muito agradável tratar com crianças, mas lucraria mais se um dia orientasse aquelas teses bestas. Antônio me auxiliou muito, falou com as pessoas certas. Os concursos, naquela altura do final dos anos 60 e início dos 70, sob a ditadura militar, eram uma extensão da corrupção do país. Entrava no serviço público quem conseguisse fazer com que os “canais competentes” se abrissem. Eu não tinha a mínima idéia de quem pudesse fazê-lo, mas Antônio parecia saber de tudo. Durante meu tempo de mestranda, Antônio falou de meus planos para o Prof. Roberto Simões. Ele fez algumas ligações para Brasília, criou uma necessidade, a vaga, apresentou a candidata (eu, claro) e obteve a aceitação. Serviço completo. Fui contratada. Aquilo foi surpreendente. Roberto, que logo se tornaria diretor do Departamento de Letras da universidade e que subiria como um foguete no organograma da Universidade, parecia ter o toque de Midas no trato burocrático. Pouco falou comigo, apenas ajudou, advertiu-me para não me meter em assuntos políticos, nem chegar perto de manifestações estudantis. “Afinal, todos precisamos de emprego”, completou. Não tive prurido moral algum, não queria saber de nada. Entrar na universidade, mesmo como contratada, era tudo que eu queria; significava alguma estabilidade, um salário fixo – coisa que nunca vira — depositado no fim do mês e eu, no papel de mãe solteira necessitada, aceitei tudo com a maior cara-de-pau. Porém, mesmo que não fosse uma ativista — minhas manifestações, como as de quase todos, limitavam-se a meu círculo de amigos –, era contra a ditadura e todas as pessoas que admirava eram de esquerda e ateias. Ou seja, preferi desconhecer a certeza de que estava traindo alguma coisa. O estranho é que lembrava do Prof. Roberto Simões referindo-se de forma muito pouco laudatória aos militares, ao mesmo tempo que ganhava cargos e importância… E por que me ajudou? Por que simpatizava comigo ou com Antônio? Por que sabia que eu ficaria gratíssima? Seria uma troca? E por que era fácil para ele fazer aquilo? Sei lá. O fato é que assenti à sua advertência e acabei por aceitar agradecida. Profilaticamente, não comentei com ninguém a forma como obtive a vaga e esperava mais do que tudo que não fosse necessário nada além do que ter um pouco de cuidado ao externar opiniões na universidade de que tanto gostava. E também publicamente. Logo fiquei sabendo que Antônio, que não poderia ser chamado de reacionário, também era uma invenção do Prof. Roberto.

Foi com a convicção de não merecer meu cargo, vestindo roupas mais formais a fim de parecer mais velha e competente; com a necessidade de escolher cuidadosamente as palavras, comecei a ensinar literatura.

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  1. Com sinceridade: não gosto de monólogos extensos porque considero a disposição para a autoanálise um tanto ridícula; gosto de Extinção porque, nele, a autoanálise é extensiva, abarca a história, o mundo, as coisas, as relações além das familiares. Não sou muito de perder tempo em considerações acerca do “amor”, esse amálgama de ternuras e autruísmos e solidariedade e um monte de coisa somada às carências íntimas, vaidades e nostalgias e saudades e todo tipo de abobrinha autoindulgente autocomplacente autotudo derivado do medo diante de tudo que não se compreende, que vem a ser… tudo. Teu texto é um monólogo autoamoroso? Até nisso sua personagem é ruim (em si mesma, não enquanto criatura mal engendrada). Não sabendo mais do que administrar seus desejos e suas necessidades afeto-financeiras com todo bom-sensismo pequeno burguês, realmente não é nada demais que suas simpatias esquerdistas sejam postas de lado enquanto se processa um janelamento acadêmico. Pragmatismo, essa é a marca do bom pequeno burguês, esse humano direito que se ressente dos direitos humanos, principalmente quando os últimos ferem seus privilégios. Quem é pragmático não “ama”, mas administra os sentimentos de forma a tornar o “amor” uma pecinha duma máquina retificável; nada, afinal, deve ferir o sagrado equilíbrio, a frieza funcionalista essencial. O resto é derramamento de sangue e pieguices. Quer saber: gostei do teu conto. No final de tudo, trai não a influência de Musil, Mingus ou Bach, mas de Thomas Bernhard, um certo afã de fazer da literatura uma tábula rasa de gente mais rasa ainda. Mesmo querendo ser ontológico, como já disse certa vez, termina por ser ôntico. A tragédia do ser desce às patetices de nossas formas e fórmulas de relacionamento, abarca tudo e nos tinge com as cores duma responsabilidade que fingimos não ser nossa, num mundo que nos faz sobreviver à custa de muita rendição, mesmo que nem precise apelar muito para nossa covardia. Basta uma sugestão e a gente abaixa as calças. Não é, afinal, o câncer, aquilo que nos mata.

  2. Pô, nada a ver mais acabei de saber que um dos concorrentes ao Prêmio Jabuti CONTOS & CRÔNICAS é “O silêncio dos amantes”, de Lya Luft. Torço pela vitória, pois sou capaz de jurar que ela dedicará o prêmio à Yeda, que poderia, aliás, motivar mais um inestimável volume sob o título “O estrebucho da governante”

    1. Não, tu não podes estar falando sério. A Lyeda é candidata a GANHAR o Jabuti? Isto acaba com a credibilidade que um prêmio “possa” ter.

    1. Pois justamente é o que acho. Não há muito amor ali, então. Há a amizade, a boa convivência, não tem todos os ingredientes, digamos assim.

      Agora, blasé? Isto me preocupou.

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