Mengo, campeão de 2009

Conforme, já tínhamos anunciado, o Flamengo é o campeão de 2009 e o Inter chegou a seu máximo: a classificação para a Libertadores. Imitaremos a imprensa, ignorando o que erramos em nossas previsões. Não encham o saco, acertamos o que interessa!

Se as malas brancas realmente existem, o Goiás foi o maior beneficiário. Recebeu do São Paulo para empatar com o Flamengo e deste para vencer aquele. Tal vitória decidiu o campeonato, pois colocou o time do Rio de Janeiro na liderança e o Flamengo, na última rodada, enfrentará o Grêmio, o qual já anunciou que dará férias a seus principais jogadores. Não sei se eles terão a coragem de fazê-lo, mas eu espero que façam. Gostaria que o Flamengo fizesse 8 x 1, que é como os Campeonatos Gaúchos terminam.

Motivos? Ora, em primeiro lugar, porque seu mais qualificado adversário, o Inter, não mereceu ganhar. Ontem, Mário Sérgio jogou todo o primeiro tempo com Guiñazú na lateral e Kléber no meio de campo; no intervalo, recolocou-os em seus lugares. Que mexida! D`Alessandro foi o de sempre, ou seja, nunca se sabe se estará num bom dia ou não. Não serve. O Inter tem um problema. Foi substituído por aquele que seria seu salvador, o eterno reserva Andrezinho. Na semana passada, falei com um alemão: ele disse que nos seus 2 anos de Wolfsburg, D`Alessandro alternava uma partida espetacular com outra mais ou menos e três ruins. Que coincidência! E o árbitro, que não viu o pênalti mais claro do ano, como nosso goleiro empurrando o terrível Vandinho após este ter-lhe dado um chapéu. Foi lance dos mais engraçados: o cracaço do Sport estava entrando com bola e tudo e Lauro empurrou-o em direção à linha de fundo, num dos lances mais patéticos e bem realizados do Enganão 2009.

Em segundo lugar, porque tais confusões tornam o Flamengo é o melhor time do Chinelão 2009 e, em terceiro lugar, porque a atitude do Grêmio atrairá o ódio de dois times times bastante influentes — São Paulo e Palmeiras serão igualmente prejudicados — e de todo o país menos os corintianos e os flamenguistas, que os desprezarão. E tudo isso… de graça.

Por quê? Ora, o Grêmio ganhou apenas uma partida fora de casa campeonato. E foi do Náutico, seu velho freguês, agora em versão rebaixada para a Série B. Por que ganharia do Flamengo, que é muito mais time? Por que empataria no Maracanã, sem Tcheco e se seus jogadores não podem ver a torcida adversária? Suas chances seriam mínimas, porém, em vez de fazer isso com o habitual pudor, o Grêmio resolveu anunciar a futura derrota, antecipando o nome do campeão. A torcida adorou, a diretoria achou engraçado. O presidente disse que “Ninguém vai escalar o time do Grêmio”. Como se fizesse diferença…

Sim, sou colorado, mas sei que o Entregão 2009 já tem vencedor. Eu espero que o Grêmio entre na história como o time que deu férias a seus jogadores na rodada final de um Brasileiro, mesmo jogando contra um player. Sempre aparecerá alguém para lembrar disso. É óbvio que sei que o campeonato foi decidido em 38 rodadas e que a rodada final vale os mesmos pontos de qualquer uma das rodadas anteriores. Só que este anúncio inédito fala tão mal de uma instituição que, como colorado, acho que fica bem ao Grêmio. Além disso, sou daqueles que se divertem quando vejo algo grande agindo de forma tola. O Grêmio insiste quer ser protagonista de alguma coisa, nem que seja de um absurdo. Penso que suas participações opacas já estejam irritando seus dirigentes e torcida.

Já o Juventude voltou para onde a Parmalat nunca deveria tê-lo tirado. Que lá fique em definitivo. Espero que o nome do próximo participante gaúcho da Série B atenda pelo nome de Brasil de Pelotas. É o time da maior torcida e o mais importante do interior. Mas há muito a fazer, ainda mais depois de 2009, o pior ano de sua história.

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Porque hoje é sábado, Sofía Vergara

Há gente histérica — inclusive heterossexuais do sexo masculino — …

… que reclamam das mulheres de seios grandes, de lábios carnudos, …

… como se fossem escândalos ambulantes, espalhando libido pelo mundo.

Eu não sofro disso, devo ser um anormal.

Acho legais as transformações cromático silicônicas de algumas mulheres.

Como Sofía Vergara, atriz, modelo e apresentadora nascida há 37 anos…

… em Barranquilla, Colômbia, e que atualmente mora nos EUA.

Eu a acho uma moça interessante.

Afinal, com dizia Quintana, a curva é o caminho mais agradável entre dois pontos e …

… aquilo que Sofía tem de excessos fariam a alegria de minha mão e coração.

Vocês, meus 7 leitores, puderam avaliar quão democrático sou ao …

… declarar a todos que acho Charlotte Gainsbourg também linda.

Mas voltemos à Sofía. Estupenda, não? Fazia propagandas na Colômbia quando foi …

… convidada para fazer um programa na TV americana voltado para o público hispânico.

O programa tinha um nome perfeito para a televisão: La Bomba.

Hoje, já extrapolou o âmbito hispanohablante, estrelando vários filmes americanos, até uma comédia da Disney (Big Trouble), …

… apesar de ser mais conhecida pelo apelido de Sofía Viagra.

Me digam, para que Viagra?

Se o cachimbo cair com uma mulher dessas, não será o Viagra que o erguerá.

Ela também foi tema de diversos calendários, sempre com recordes de vendas.

(Isso é uma coisa que não há no Brasil, mas na Itália todo homem tem o calendário anual …

… de sua beldade preferida). Acho ridículo.

Nunca fui um voyeur.

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Belíssima ideia, belíssimo blog

Aqui, O Silêncio dos Livros.

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Ingo Schulze

Ingo Schulze é quase desconhecido no Brasil. Tem 47 anos e sabe que já escreveu o grande romance de sua vida, Vidas Novas. O livro terá lançamento no próximo dia 30 pela Cosac & Naify. Ontem, assisti à palestra do Marcelo Backes, tradutor e coautor da edição brasileira, a respeito de Schulze e do livro.

Tenho de explicar o fato do autor ter escrito seu mais importante romance ainda jovem. Ocorre que Vidas Novas deriva de sua experiência pessoal, um ex-alemão oriental tragado pelo estilo de vida ocidental aos 30 anos. Schulze talvez tenha razão ao pensar que se trata da maior experiência e tema de sua vida. Como experiência é certamente irrepetível, como tema… Bem, Schulze estará na Amazônia nos próximos dias, realizando pesquisas para seu próximo livro, o que certamente indica uma não aceitação da confortável posição de autor-do-melhor-livro-sobre-a-reunificação.

É notável como a Alemanha divulga com orgulho seus autores. Na falta de Schulze — que estará presente no lançamento em São Paulo e Rio — , o Instituto Goethe convidou seu tradutor para falar e responder perguntas por duas horas. Vidas Novas retoma o pacto fáustico num tom de ironia e diálogo com o leitor. O autor constante na capa é Ingo Schulze, claro. Afinal, foi ele quem escreveu o livro! Porém, na primeira página, ele reaparece como personegem, na pele do organizador dos papéis e cartas de um certo Enrico Türmer, escritor e redator de jornal, que passa a atuar como empresário na nova Alemanha. Seu Diabo é um homem de negócios que se apresenta a ele de gravata e simplesmente aperta sua mão. Não li o livro e posso estar dizendo coisas nem tão verdadeiras assim, mas uma das muitas curiosidades do livro é que o organizador Ingo Schulze mostra-se muitas vezes hostil, combatendo e denunciando Türmer. E, para que o diálogo se amplificasse ainda mais, Schulze pediu ao tradutor e escritor Marcelo Backes que escrevesse livremente suas próprias notas de rodapé, com liberdade para duvidar, desacreditar, ironizar e debochar da dupla de personagens-narradores. Ou seja, Schulze pediu a seu tradutor que fosse também um personagem. Detalhe: Schulze, que conhece Marcelo pessoalmente, não sabe português, e não pediu ao tradutor que mostrasse ou explicasse suas intervenções, deixou-o livre para fazer o que bem entendesse.

Backes relatou em sua palestra que escreveu 3% do que gostaria. Obviamente, mesmo que o autor o instigasse a participar de um jogo literário entre ficção e realidade, ele não se sentia bem em “participar tanto” de uma obra que é considerada um dos três maiores romances europeus da década. Além disso, há a próprio DNA do Backes tradutor, o DNA de alguém que não deve aparecer muito nem encher o saco do leitor com notinhas…, fato que muitos críticos apressados confundirão com pura loucura de um tradutor descontrolado.

Após a palestra, caminhei longamente com Backes e uma de suas irmãs até um bar. Nossos assuntos já eram outros, Ingo Schulze só reapareceu quando Marcelo falou das vacinas que tomou para acompanhar o alemão na Amazônia. Afinal, colorados que somos, estávamos preocupados com o fim-de-semana futebolístico, comentávamos as mulheres que passavam, as do bar, coisas assim.

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Banal, piegas, fake. Paul Auster?!

Marcos Nunes me envia por e-mail uma boa polêmica: uma avaliação sobre a literatura de Paul Auster escrita pelo importante crítico James Wood. Lembro de ter achado — durante a leitura da Trilogia de Nove Iorque e de A Noite do Oráculo — que Auster era uma espécie de Woody Allen: novaiorquino, excelente narrador, cria conflitos interessantes, humanos, mas onde o conteúdo dramático costuma ser sacrificado em nome de uma elegância blasé muito sedutora e hábil para contornar os conflitos criados através de uma pieguice muito bem escondida sob engenhosos artifícios. Ou seja, minha impressão foi a de que estava lendo romances convencionais, sob um filtro agradável. James Wood, porém, é muito mais agressivo. O Charlles Campos é que vai adorar esta polêmica, suponho.

Está na “New Yorker” a leitura-obrigatória/mote-para-discussão-cabeça-em-mesa-de-bar do mundo literário desta semana. Num artigo intitulado “Covas rasas”, o crítico James Wood arregaça as mangas e vai com tudo para cima dos livros de Paul Auster. É provavelmente o mais negativo texto de crítica já dirigido à ficção de Auster na grande imprensa americana, e vai escrito pelo mais influente crítico do mundo anglófono hoje. Por certo que nos próximos dias vai repercutir por toda parte.

Resumindo bastante, o argumento fundamental de Wood é que Auster é um pós-modernista de almanaque, um diluidor que incorpora de modo ornamental e chamativo (“Atenção, eu sou pós-moderno!”) elementos como a narração autorreflexiva, o ceticismo e o pastiche a histórias que no fundo exprimem uma visão de mundo convencional, impregnada de clichê e sentimentalismo.

O livro mais recente de Auster, “Invisible”, acaba de ser lançado nos EUA, e o texto de Wood deve dar um travo amargo à recepção usualmente exclamatória que os críticos reservam ao escritor. Abaixo, os melhores momentos com o cerne dos argumentos de Wood.

Paul Auster é provavelmente o mais conhecido romancista pós-moderno dos Estados Unidos; sua “Trilogia de Nova York” deve ter sido lida por milhares que geralmente não leem ficção de vanguarda. Auster claramente compartilha [com autores modernos e pós-modernos] um compromisso com a mediação e o tomar emprestado – daí seus enredos com jeito de cinema e diálogos de segunda linha – e no entanto ele não faz nada com o clichê a não ser usá-lo.

Isso é surpreendente, a princípio, mas afinal Auster é um tipo peculiar de pós-modernista. Ou será que ele é mesmo um pós-modernista? Oitenta porcento de um típico romance de Auster procedem de modo indistinguível do realismo americano; os 20% restantes fazem uma espécie de cirurgia pós-modernista nos 80%, com frequência jogando dúvida sobre a veracidade do enredo.

(…) O que é problemático nesses livros não é seu ceticismo pós-moderno a respeito da estabilidade da narrativa, algo padrão, mas a gravidade e a lógica emocional que Auster tenta extrair do lado “realista” de suas histórias. Auster é sempre mais solene naqueles momentos de seus livros que são os menos plausíveis e os mais insípidos.

O resultado é que ele com frequência consegue o pior de ambos os mundos: realismo fake e ceticismo superficial. As duas fraquezas estão relacionadas. Auster é um contador de histórias envolvente, mas suas histórias são asserções em vez de persuasões. Elas se declaram; elas perseguem a próxima revelação. Como nada é construído de modo persuasivo, a desconstrução pós-moderna deixa o leitor em boa parte intocado.

(…) As formulações clássicas do pós-modernismo, por filósofos como Maurice Blanchot e Ihab Hassan, enfatizam o modo como a linguagem contemporânea toca o silêncio. Para Blanchot, como para Beckett, a linguagem está sempre anunciando sua invalidade. Os textos gaguejam e se fragmentam, se despedaçam em torno de um vazio. Talvez o mais estranho na reputação de Auster como um pós-modernista é que sua linguagem nunca registre esse tipo de ausência no nível da frase. O vazio é sempre muito dizível na obra de Auster. Agradáveis, algo complacentes, os livros são lançados quase todo ano, tão arrumadinhos e pontuais como selos de correio, e os resenhistas laudatórios entram na fila como colecionadores ansiosos para pegar o número mais recente.

Retirado daqui.

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entre parênteses

(

hoje, quando caminho pela rua distraído, quando divago esperando o sono chegar ou quando dirijo meu carro, carrego comigo fatias das histórias e dos textos daquelas pessoas que conheci através do blog. não sei quantos conheci; é muita gente. o que importa é que são pessoas afins e quem tem afinidade conosco é sempre alguém maravilhoso, não? peraí, esta frase foi um indisfarçado autoelogio, então deixem-me aumentar a dose de hipocrisia — de forma a não ofender ninguém — dizendo que é sempre maravilhoso encontrar alguém que guarde afinidade conosco, alguém que tenha a potencialidade de conversar de chinelos conosco, sentado em nossa cozinha com tudo por lavar ou em torno de uma mesa de bar, discutindo sobre absolutamente qualquer assunto. mas ainda não está bom; talvez fosse melhor dizer que o maravilhoso do blog é conhecer pessoas que abordam a vida de forma semelhante à nossa e sentir que ainda assim podemos admirá-las. há em todas estas tentativas de frase um forte componente narcisista, mas estamos livres disto em nossa reunião? e… onde estaríamos livres de nosso narcisismo se até na forma com que passamos a faca na manteiga há paixão, estilo e, portanto, narcisismo?

mesmo com pouco tempo disponível, não pretendo parar tão cedo. minha média diária de visitas anda muito alta para alguém com tão diminuta vocação sinfônica. ainda acho que o melhor do blog é acompanhar com atenção as fatias de vida que nos são expostas e ficar montando as pessoas. algumas já estão bem montadas, outras são vistas ainda como um quebra-cabeças espalhado pelo chão. sigamos, pois.

ah, há mais. hoje escrevo tudo durante o dia. caço assuntos, recolho impressões, penso e encontro bobagens, formo opiniões que, na verdade, só têm importância dentro da caixa de minha cabeça e que vão se transformar em outra coisa ao serem passadas para o papel e em outra ainda quando lidas. sei lá.

)

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Dois destaques

1

Ao comentário do Luís Augusto Farinatti (mais abaixo no link anterior) feito ao post História de Natal. Copio a seguir o que escreveu o Farinatti.

Milton.

O texto me emocionou. Há compaixão nele.

Sobre o culto mariano, sem querer polemizar, ao que me lembro das leituras sobre história medieval, ele ganha força apenas lá pelo século XI ou XII, junto com uma revalorização da figura humana de Jesus.

Me parece que a associação com as inúmeras divindades femininas pagãs, fossem elas romanas, celtas, germânicas ou eslavas estava presente sim. Acho fascinante perceber que isso tem longuíssima duração. Basta peregrinar pelas regiões de colonização italiana no RS. Os gringos não podem ver uma gruta que metem lá uma Nossa Senhora. Nunca um santo homem. É uma tentação aceitar a postura estruturalista de que a gruta é uma metáfora do útero e que a deidade feminina colocada ali é uma reminiscência incosciente da deusa mãe, mãe terra, gaia ou quantos mais nomes tivessem.

Poucas coisas são tão espantosas quanto a concepção e o sexo. Seria muito difícil para qualquer religião apagar o potencial de mistério, encanto e assombro dos homens diante desses momentos, por mais que o cristianismo tanto tenha insistido em dessacralizar esses atos.

Talvez tudo isso tenha mesmo algum sentido. Há um trabalho muito bom, de Maíra Vendrame, sobre os imigrantes italianos no centro do RS. Ela contraria as obras que descrevem a italianada como “pacíficos seguidores dos padres”. Eles era muito religiosos sim, mas tinham suas próprias concepções de religião, muitas delas reatualizações de crenças pagãs que esses camponeses (pagão, pagus, pago, campo, camponês) usavam para entender o mundo. Os padres ficavam furiosos e escreviam cartas indignadas a seus superiores porque os colonos queriam que eles benzessem porcos e galinhas, queriam que abençoassem os campos antes da plantação. Parecia coisa de idólatras pagãos.

A italianada respondia que, se não era para garantir prosperidade, saúde e boas safras, então para que diabos se precisa de um padre? Só para fornicar escondido com viúvas solitárias?

Aliás, a própria construção da crença em santos me parece uma adaptação de uma religião antiga, onde os deuses eram conhecidos, se sabia sua história, do que gostava e do que não gostava, se conhecia seu rosto e se sabia como negociar com eles para conseguir o que se precisava (um amor, o fim de um temporal, uma boa colheita, a cura de uma doença).

Aquele deus do cristianismo, que não tinha rosto, estava em toda parte e em lugar nenhum e precisava dos padres como intermediários era pouco acessível para os camponeses medievais. Talvez os santos tenham preenchido esse espaço. Mas isso já é chute e estou indo muito além dos meus tamanquinhos.

2

E, do blog A Origem das Espécies, de Francisco José Viegas, este curto post, publicado ontem, que fala sobre a Beleza da Criação. Da criação de Darwin e da outra. Copio aqui também:

A Origem das Espécies, de Charles Darwin, o livro que mudou a nossa forma de pensar o ser vivo e a sua relação com a Natureza, foi publicado há exatamente 250 anos, assinalados hoje em todo o mundo. Poucos leram A Origem das Espécies – é um livro surpreendentemente bem escrito, onde é visível o dom da clareza. Um retrato assim maravilhado só podia comover os criacionistas, que defendem a intervenção superior da Mão Divina (desta forma ou sob a forma do “desenho inteligente”) na criação do mundo e na evolução do ser vivo; pelo contrário, não só relativizam a importância de Darwin como, em alguns casos, o denunciam como o grande inimigo (“adversário” não basta) da religião. Não interessa. Só o facto de permanecerem imunes à beleza deste livro já é assustador.

Acho notável como dialogam os textos do Farinatti e o de Viegas, lidos por mim um logo após o outro.

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Quase erótico

Sonho de hoje. Marquei um blind date (encontro com alguém que não se conhece) com uma mulher na Internet e estava chegando ao local combinado. Era o dia perfeito: luminoso, céu sem nuvens, temperatura agradável. Agendamos para o meio-dia no Clube Jangadeiros de Porto Alegre. Quem conhece, sabe que este clube náutico fica numa ilha onde dá para chegar de carro, pois há uma pequena ponte que faz a ligação. Sempre temendo ser recebido por alguém que fosse uma mistura de Aracy de Almeida com Néstor Kirchner, atravessei a ponte a pé. Meu trabalho seria o de encontrar um Ecosport vermelho de placas X e bater em seu vidro, atrás do qual deveria estar minha surpresa. Vi o carro, fiz o combinado e saiu de lá uma bela mulher cheia de silicone nos locais ou local apropriado, apropriadíssimo. Sem dúvida, era uma mulher que poderia figurar na capa da Playboy americana. Caminhamos juntos, conversando tranquilamente sobre assuntos filosóficos, tais como nossa posição e papel no mundo mas também sobre outros, todos sisudos e assexuados, enquanto observava vagamente aquelas interessantes protuberâncias. Depois de almoçarmos, ela me convidou para passear pelo Guaíba de barco. Ela tinha o seu atracado no clube. Fomos, eu e minha pin-up erudita. Pensava difusamente em algo de ordem sexual, mas estava mais atento a nossos temas, que agora versavam sobre troca de focos narrativos nos romances de Paul Auster. Estávamos como amigos. Ela me levou a um local afastado, muito parecido com a paisagem que se vê nas praias adjacentes à Angra dos Reis, apesar de estarmos navegando no Guaíba. Então ouvi-a dizer que ficaríamos ali por um tempo, que a paisagem era belíssima e que eu tinha passado no teste. Como? Passaste no teste, meu amigo; agora vais mudar de fase. Dito isto, ela enganchou uma pequena âncora dourada com o dedo mínimo e, num gesto incrivelmente feminino e sem nunca deixar de me encarar, largou-a na água. A âncora pesava uns cem gramas, no máximo. Completou a obra informando: estás em minhas mãos; a partir de agora, és minha cobaia. Era uma ameaça, mas as cobaias costumam ter boas expectativas, creio. Descemos para o quartinho de baixo (o nome técnico daquilo eu não sei). A cama era muito pequena – imagino que tinha 1 m de comprimento por 50 cm de largura – e a operacionalização do ato era extremamente complicada. Depois de prolongados beijos e desnudamentos em pé, decidimos deitar silenciosa e apaixonadamente. A muito custo, consegui encaixar a cabeça e o tronco da desejada desconhecida no exíguo espaço e ergui-lhe as pernas, enquanto ficava com as minhas fora da cama. Então, finalmente, consegui a penetração. Aí, bem neste ponto, acordei. Estava com uma brutal dor no pescoço e até agora faço alongamentos na frente do monitor, mas este já outro assunto.

Empenhei-me em voltar ao sonho, mas o despertador do celular tocou o terceiro movimento da primeira sinfonia de Brahms. Era 6h45, minha hora de acordar. Apelei para a opção “Soneca” (quem deu este nome imbecil àquilo?), mas, 30 segundos depois, a X. me beijou e perguntou se eu queria um copo de leite. Aceitei. Liguei a TV. Novos temporais vêm por aí; o PIB do RS não acompanha o crescimento do país, claro.

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Gostei disso, como não?

Aqui.

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O Imprescindível na Música Erudita – Parte II

Continuando esta empreitada maluca e superior a mim

1722: O Cravo Bem Temperado (Vol.1) – BWV 846-869, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Um verdadeiro golpe de estado na música. O que Scarlatti fizera apenas instintivamente, Bach sistematizou. O império da separação rigorosa de tons maiores e menores começa aqui. A pureza de cada uma das tonalidades e a faculdade de se utilizar, em qualquer composição, todas as 24 tonalidades possíveis encontra aqui sua Bíblia. É uma profissão de fé a favor das tonalidades (ou temperamentos) iguais. A primeira das duas coletâneas de 24 prelúdios e fugas sob o estranho nome de “Cravo Bem Temperado” é um marco na história da linguagem musical. Trata-se de um manifesto sonoro. É a conclusão, o resultado de um século e meio de pesquisas, por meio das quais a música passou, progressiva e empiricamente, do sistema modal e de temperamento desigual, à estrutura sonora que foi utilizada desde o classicismo e romantismo até a época moderna. Só isso. Como se não bastasse, os 24 prelúdios e fugas deste volume 1 tornaram-se parte do repertório dos pianistas e cravistas por seus méritos musicais, além dos teóricos. Mesmo durante a época em que tantas outras obras-primas de Bach caíram no esquecimento, O Cravo Bem Temperado continuou a ser estudado e trabalhado por pianistas. Até hoje é assim. São modelos perfeitos de escritura polifônica para teclado. Muitíssimas gravações. Destaco as grandes e clássicas gravações de Wanda Landowska (cravo) e de Glenn Gould (piano), mas atualmente fico com a gravação maravilhosa e cheia de detalhes surpreendentes de Daniel Chorzempa (Philips, 4 CDs 446 690-2). Maurizio Pollini acaba se aventurar no volume 1 com excelente resultado.

1723: Magnificat – BWV 243, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Por que não dizer que são é a versão vocal dos Concertos de Brandenburgo, de tal forma esta música está impregnada de alegria e otimismo? Emoldurados por dois corais (inicial e final), seus movimentos são breves e de características emocionais bem definidas. É grande música; suave e etérea. Talvez tenha que pensar muito para encontrar outra música de tamanha simplicidade e exuberância. Em 1730, Bach revisou esta obra em latim, que é muito utilizada no Natal e na Páscoa pelas igrejas. Nos outros dias do ano, costuma ser ouvida em muitos templos profanos… como nossos apartamentos. A gravação da Naxos (8.550763) é barata e boa.

1723: Os Concertos para Violino – BWV 1041-1043 e 1052, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Minha mulher não deve ler isto, mas a verdade é que aqui está o melhor Vivaldi que se tem notícia. Bach passou anos estudando, transcrevendo para o órgão e arranjando os concertos de Vivaldi, Marcello e Corelli — compositores italianos que amava. Só que um dia o inevitável ocorreu: ele mesmo resolveu compor concertos italianos e os fez muito melhor que seus modelos. Há muitíssimas gravações excelentes desta música tão popular. Novamente indico a Naxos com seus CDs de bom preço. O Vol.2 dos Complete Orchestral Works (8.554603) é uma jóia. A regência é de Helmut Müller-Brühl e a orquestra é a Cologne Chamber Orchestra.

1729: A Paixão Segundo São Mateus – BWV 244, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A maior obra de Bach? Talvez. É tão dramática quanto os Oratórios de Handel, sobretudo nos coros do povo, curtos e incisivos; é da mais profunda e sincera emoção religiosa, “capaz de converter um ateu”. Seria preciso escrever muitos posts para dar idéia do terreno em que acabo de entrar. Trata-se de uma obra colossal, síntese incomparável da mística gótica, da devoção luterana e da inspiração dramática do barroco. E é, acima de tudo, acima mesmo de qualquer determinação estilística ligada a este ou àquele período histórico, como uma mensagem que nos chega de um outro mundo que por misericórdia se digna a falar nossa língua. É a Revelação , no sentido bíblico. E aqui escreve um ateu. Dois coros (mais um de crianças), duas orquestras, dois órgãos que se respondem de partes distantes da igreja – herança dos venezianos, novamente – solistas vocais e instrumentais. As árias desta música… Se começo a descrever não paro mais. Aqui serei mais firme: penso que a melhor gravação seja a que John Eliot Gardiner fez para a Archiv com The Monteverdi Choir, The London Oratory Junior Choir e The English Baroque Soloists (427648-2). É cara.

1730: Sonatas para cravo, de Domenico Scarlatti (1685-1757).

Quando alguém fala em Scarlatti, está se referindo ao pai, Alessandro, e não a Domenico, o filho. Este homem tímido escreveu 555 pequenas sonatas de um movimento para cravo e não precisou de mais nada. Durante os dez anos em que esteve ligado à corte portuguesa como mestre de capela e professor de música da jovem princesa Maria Bárbara, D. Scarlatti compôs quase toda sua obra. Há indícios de um “caso psicológico” aqui. Enquanto seu pai era vivo, Domenico escreveu óperas sem importância; depois da morte de Alessandro, enveredou por caminhos totalmente diversos e tornou-se um grande compositor. Maria Bárbara — que depois tornou-se rainha — salvou seu professor do anonimato, fazendo publicar, para seu uso pessoal, os 13 volumes das famosas sonatas, que hoje estão fora de moda. Por quê? Não sei. Entre os anos 70 e 80 gravava-se D. Scarlatti aos borbotões. É música de primeira linha, alegre, onde soam as expressões mais íntimas ao lado dos sons das festas populares ibéricas. As gravações que Ralph Kirkpatrick e Gustav Leonhardt fizeram das sonatas são extraordinárias. Difícilmente alguém encontrará melhor introdução à música erudita do que as belas sonatas no esquecido Scarlatti.

1731: Cantatas BWV 80 e 140, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Poderíamos passar horas discutindo sobre a melhor das Cantatas de Bach. Há para todos os gostos, mas, além da que já destaquei, tenho que citar estas duas. A espetacular BWV 140 trata da parábola das virgens prudentes e imprudentes, mas ouça antes de rir… O coral central (o famoso Coral dos Tenores) é esplêndido. À melodia do hino que é entoada pelos tenores junta-se uma melodia completamente diferente vinda dos violinos. É de uma doçura raramente encontrada nas cantatas de Bach: aí se descreve a graciosa procissão das donzelas saindo ao encontro de Jesus, o noivo celeste. Já disse, ouça a música antes que seu sorriso se congele. É uma obra-prima! A BWV 80 é uma festa e foi escrita para isso mesmo. Foi ouvida pela primeira vez no Festival da Reforma de 1724 e revisada depois. É música absurdamente bela, cheia de contrastes em que os temas de Bach cantam poemas do próprio Lutero. Um espanto! Só ouvindo. O primeiro coral e a primeira ária (dueto) são inesquecíveis. São cantatas facílimas de achar. A Naxos tem uma grande gravação da BWV 80, mas não sei se ela gravou a BWV 140.

1736: Stabat Mater, de Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736).

Morreu aos 26 anos. Dizem que era muito bonito e um conquistador inescapável. Uma lenda conta que um marido ciumento o envenenou. Mas outros o descrevem como feio e aleijado. Não dá para saber. Seu Stabat Mater é muito gravado e executado. Também é de pouca profundidade emocional e NUNCA deve ser ouvido após qualquer obra de Bach. Mas é tocantemente lírico e tem muitos admiradores, inclusive eu. É bonito. A polifonia passa longe de Pergolesi — ele é um melodista e, talvez, um compositor de óperas nato –; os críticos hostis gostam de lembrar que sua grande obra seria a ópera-cômica La Serva Padrona, mas isto só a Claudia, minha mulher, pode avaliar. A ópera é terreno dela. Estou fora. A gravação de 1985 de Claudio Abbado com a London Symphony Orchestra é impecável.

1738: Missa em Si Menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A maior. A campeã. Ler aqui.

Paro ao examinar quais seriam as próximas músicas. São duas obras que mereceriam posts exclusivos, assim como a Missa em Si Menor acima: o Messias, de Handel, e as Variações Goldberg, de Bach.

Bibliografia além da memória:
– Encartes de milhares de CDs e vinis.
– História da Música Ocidental, de Jean e Brigitte Massin. Editora Nova Fronteira, 1997, 1256 págs.
– Johann Sebastian Bach, de Karl Geiringer. Jorge Zahar Editor, 1985, 366 págs.
– Uma Nova História da Música, de Otto Maria Carpeaux. Alhambra, 1977, 356 págs.

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História de Natal

Aos três anos de idade, Maria foi entregue ao Templo a fim de dedicar sua vida a Deus. Era uma das muitas meninas que lá executavam todo gênero de trabalhos, desde os manuais até os de limpeza; nas horas vagas, oravam e liam as Escrituras. Um dia, aos 13 anos, notou em suas roupas as manchas vermelhas que a impediriam de continuar. Tornara-se alguém passível de contaminar a pureza das outras virgens do Templo; então, foi posta à disposição dos homens. Acostumada a não decidir sobre seu destino, não ficara muito surpresa com a resolução que sorrateiramente seu corpo tomara.

Havia uma espécie de loteria da qual participavam os solteiros e viúvos que desejassem esposas e José ganhou Maria. José era um velho — caminhava com o auxílio de um cajado — e tinha outros filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Ele não necessitava de mulher a fim de satisfazer sua rara concupiscência, mas precisava de alguém que fizesse o trabalho diário de casa e para isso Maria servia. Tendo vivido no Templo, era certamente prendada. Porém, muito magra e amedrontada, não o motivava a nada, talvez nem a seus filhos. Seria fácil manterem distância de sua mulher. Após o casamento, José deixou Maria intocada e acabou por abandoná-la por quatro longos anos, pois fora chamado a um trabalho fora da Judéia, mais exatamente em sua Galiléia natal.

Enquanto isso, ela seguia realizando o trabalho doméstico para o qual fora treinada no Templo: alimentava os filhos do marido, lavava e costurava roupas, mantinha a casa em ordem e procurava não ficar íntima dos rapazes. Sabia que sua posição de “esposa” pressupunha uma postura estranha junto aos filhos de seu marido. Era mais jovem do que eles, então retraía-se, o que para ela, crassa tímida, era fácil. Suas horas mais felizes eram aquelas poucas que passava nas feiras, trazendo a matéria-prima para as refeições do dia seguinte e admirando as roupas e tecidos. Pensava ser pecado a vaidade, mas como resistir ao colorido deles? Perguntava repetidas vezes seus preços de alguns deles, esperando até que baixassem. Comprava bastante, pois a costura fazia parte de suas funções e os homens da casa frequentemente estragavam suas vestes na lida. Como não tinham muito dinheiro, ela pechinchava, perdia a timidez e tornava-se conhecida dos vendedores. Algumas vezes, fora advertida de que as roupas que fazia ganhavam detalhes insperados, femininos. Os rapazes riam daquelas manias de menina de Maria. Gostavam dela, era como uma irmã mais nova para eles.

Certo dia, um desses comerciantes a atraiu para sua casa a fim de que ela visse alguns tecidos, verdadeiras maravilhas à preços módicos. Maria, correspondendo a seus convites, passou a visitá-lo em sua casa. Repugnava-lhe a forma como ele um dia a tratou e tinha absoluta certeza de estar fazendo algo errado, mas tinha receio do que o comerciante poderia dizer na feira. O fato repetiu-se. Os filhos de José não se davam conta de que Maria passara a possuir provisões extras de tecidos, de comida e de quinquilharias para a casa e para si. O que lhes importava é que seus serviços permanecessem de acordo com suas necessidades e neste quesito Maria era impecável. Porém, ela tinha repetidos pesadelos em que era punida severamente por seu comportamento. Neles, sempre estava presente José e seus filhos, acusando-a de ser má esposa. Muitas vezes era assassinada; outras vezes, enfrentava tribunais nos quais o comerciante a culpava por seduzi-lo e acabava condenada aos piores suplícios. Na verdade, o que Maria desejava era ter José de volta. Fantasiava com um tratamento mais viril de sua parte. Afinal, com quase 16 anos, já era uma mulher.

O anúncio do retorno de José coincidiu com a interrupção de sua menstruação e com o arredondamento de suas formas. O bico de seus seios machucavam-se contra os tecidos novos de suas roupas, os vômitos tornaram-se frequentes e sua barriga começou a adquirir um inequívoco formado convexo. José retornou e impressionou-se com Maria. Ela tinha a sua altura e, contrariamente a quatro anos, falava, dava ordens em casa e era bonita. Naquela noite, José abraçou-a carinhosamente, de um modo que fez com ela se abandonasse a ele. Ele sentiu em si o bojo crescente no ventre de Maria e perguntou-lhe o que aquilo significava. Maria abraçou-se a ele e, chorando, contou-lhe que tivera um sonho em que um anjo lhe penetrara e que, pela manhã, estava suja de sangue. Disse-lhe que o filho era daquele anjo. Só podia.

José não era um cético, longe disto, mas resolveu perguntar a seu filho Tiago — logo a ele, depois autor de um evangelho apócrifo — sobre a conduta de Maria durante sua ausência. Este assegurou-lhe que Maria era uma boa e fiel esposa, que nunca faltara-lhes nada e que ela os tratava com amor e respeito. José estava confuso, sentia-se sozinho com sua dúvida. Preocupava-se com o que os outros iam dizer de uma gravidez tão imediata a seu retorno e proibiu Maria de sair de casa. Aquela seria a solução: ninguém a veria grávida, veriam apenas a criança depois de nascida e diriam que o parto fora abreviado, que a criança nascera antes, algo assim. No fundo, depois de tantos anos longe, José queria sua esposa e seu filho, precisava da convivência e da companhia deles. Além disto, havia outros motivos para preocupações.

Herodes havia mandado matar todas as crianças da Judéia e José estava preparando-se para esconder seu filho. Jesus nasceu e José decidiu partir novamente, desta vez levando sua família. Na estrada, pararam para descansar numa estrebaria fora de uso, colocando o bebê sobre uma manjedoura. Estavam famintos quando viram três homens cambaleantes se aproximando. Seus hálitos de vinho foram sentidos por Maria e pelos irmãos de Jesus à distância. Eram bons homens que, ao verem a dificuldade daquela família, ofereceram-lhes algum dinheiro, insenso e mirra. José ficou com o dinheiro — que resolveria seus problemas imediatos — e com o insenso. Gostou do trio. Devolveu-lhes a mirra por não saber do que se tratava. Quando perguntou quem eram, eles brincaram, afirmando serem reis magos. José riu, bebeu com eles de seu vinho e dormiu, sonhando com um grande futuro para seu filho. Viu-o embrulhado num manto, vestido como se fosse uma espécie de santo. Na manhã seguinte, seguiram para a Galiléia.

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Obrigado, Grêmio! Vocês fazem parte de nosso centenário!

Somos devedores pelos grandes favores que o Grêmio nos prestou neste final de Brasileiro. Na rodada de domingo passado, eles nos permitiram passar à frente do Cruzeiro com o heróico empate que obtiveram para nós em pleno Mineirão. Neste fim de semana, ultrapassamos o Palmeiras, mas tal fato não teria sido possível sem a vitória do Imortal Tricolor sobre os verdes do Parque Antártica na última quarta-feira.

No próximo fim-de-semana, eles estarão de folga enfrentando o Barueri, porém, na última rodada, faremos novamente uso de seus préstimos contra o Flamengo para, quem sabe, acalentarmos a doce, diminuta e ainda fraca — como um pastel de Santa Clara — esperança de sermos Campeões Nacionais após 30 anos.

Hoje, graças a nosso coirmão, temos 93% de chances de ir à Libertadores e 9% de sermos campeões. Há que fazer mais e temos confiança de que esforço, competência e solidariedade não faltará ao grande time do Olímpico.

Agradecemos antecipadamente.

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Alguns vídeos raros de Shostakovich e um nem tanto de Bernstein

Shosta finalizando com uma rapidez que hoje não se usa mais seu Concerto Nº 1 para Piano e Orquestra, também conhecido como Concerto para Piano, Trompete e Cordas.

Ou aqui.

Tocando ao piano sua Sinfinia Nº 7, Leningrado, em filme russo aos pedaços.

Ou aqui.

Um filme de Shosta fumando e caminhando na rua. Ao fundo, a décima sinfonia, acho eu.

Ou aqui.

Shostakovich acompanhando o ensaio de um de seus quartetos de cordas em 1975, ano de sua morte.

Ou aqui.

E, abaixo, Leonard Bernstein mata a pau no último movimento da quinta sinfonia. Copio aqui em razão de — porra! — este vídeo ter sido visto quase 500.000 vezes no YouTube.

Ou aqui.

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Porque hoje é sábado, filósofos

Neste sábado, vou dar espaço para a carioca Fernanda Novarino. Ela publicou no Twitter uma divertida lista de filósofos seguindo o mesmo critério é o mesmo que utilizamos para a escolha de mulheres, ou seja, não estamos interessados na produção nem no cérebro. A partir de agora, passo a palavra a Miss Novarino, como Fernanda é conhecida no Twitter.

Mulherada (da uni, não daqui do trab) fez enquete sobre os filósofos “ôro”. Atenção que estamos falando de ‘shape’. Na minha lista:

10. Sem dúvida Camus:

9. Sim, eu sou das que acha o Nietzsche um chaaaaarme (ou é amor de qq jeito):

8. Dando uma força pros antigos, o Aristóteles dá pro gasto:

7. Schiller???

6. O Benjamin tá na mesma escola do Nietzsche. Eu reconheço este bigode:

5. Surpreendendo, temos Kierkegaard:

4. Merleau-Ponty:

3. O jovem Husserl:

2. Karl Popper:

1- O nosso número um é o indelével Foucault. Puro charme.

Boa foto, por sinal.

Infelizmente a caridade é impensável com Sartre, Adorno, Heidegger e o Kant (este merecidamente!). E Descartes? Neeeeeem pensar!

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Ah, um tapinha não dói

Discordo desta irlandesa debochada. Acredito que ele esteja sinceramente arrependido…

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Dramaturgia de senzala

Hoje é o Dia da Consciência Negra e é feriado em grande parte do país. Pois curiosamente, justo nessa semana, a novela Viver a Vida mostrou uma cena que despertou a ira dos movimentos afro. Além da ira, reclamam do sumiço da cena em que a personagem Tereza (Lilia Cabral) humilha e dá um tapa no rosto de Helena (a belíssima Taís Araújo). Sim, concordo; não é muito fácil de encontrar, a Globo deve ter ido à caça, dando cabo da mesma. Mas pus meus cães gugleanos à procura e eles a capturaram facilmente. Está ao final deste post. Dá até para baixar, mas meu micro não vai abrigar porcarias de novelas.

Concordo que a dramaturgia é de senzala e a qualidade do texto torna obra-prima A Escrava Isaura. Quero quer que o movimento negro se indignou mais com a dramaturgia senhor-escravo do que com o texto. Este é muito mais ofensivo àqueles que defendem o aborto, meu caso e das feministas. A CUT também opinou, mas, como tem acontecido, consigo discordar de todos.

As novelas são verdades ficcionais, então não sei se cabem protestos à Globo. Acredito que os irados estejam sendo tolos ao desconsiderarem o fato de que, certamente, Tereza se tornará uma terrível vilã comedora de afrodescendentes — coisa típica dessas “obras” — e que será rejeitada até por sua filha caucasiana. Os protestantes acham que as pessoas que veem essas novelas imaginam que estão ouvindo a razão? Ingenuidade. O que estes “representantes da sociedade” desejam dizer à emissora é que ela não pode criar personagens racistas nem utilizar católicos que sejam contra o aborto? Claro que pode! Talvez até deva, pois eles estão aí mesmo. O que a “sociedade do politicamente correto” deseja é o silêncio, a censura? Menos, né?

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A ignorância de Marco Aurélio estampada em Zero Hora

Marco Aurélio, chargista e celetista de Zero Hora, não deveria ilustrar nem jornal de grêmio estudantil, tais as tolices que comete. Ontem, ele conseguiu bater um recorde ao fazer uma “piada” sobre, presumivelmente, o Dia da Consciência Negra. Dias após escrever que “impeachment” era uma palavra francesa, o ilustrador principal de Zero Hora estampou a figura abaixo.

É engraçado? Não, né? É poético? Não. A mão azul significaria nossa nobreza, nosso “sangue azul” ao ajudar os negros? Bem, isto seria efetivamente uma piada de humor negro. É o Grêmio ajudando o Inter? Se fosse, a mão negra deveria ser vermelha, já que a gremista é azul. Mas há mais: ao escrever Leonardo como seu parceiro, provavelmente refere-se a Leonardo da Vinci, correto?

Abaixo, A Criação de Adão, obra que se encontra desde 1510 no teto da Capela Sistina. O autor, meu caro Marco Aurélio, é Michelangelo Buonarroti. Michelangelo, para os íntimos da cultura mais basicazinha da humanidade.

Outros chargistas se manifestaram:

Kayser: Mas o fato de ele assinar “& Leonardo”, como se o pobre do da Vinci tivesse algo a ver com o referido rabisco até é o de menos. O que esse imbecil quis dizer com o garrancho?!? O que é essa mão negra e a mão azul?!? É o Inter (já que colorado é sinônimo de negro para o idiota) sendo ajudado pelo Grêmio? É o Doutor Manhattan que bateu uma punheta para o afrodescendente? Mais um mistério da obra marcoaureliana…

Santiago: Vocês viram a charge do Marco Aurélio de hoje onde ele usou a figura da criação de Michelangelo e escreveu que era do Leonardo??? Que o cara é um tipo ignorante todos sabem, mas podia dar uma olhadinha no GÚguel e o editor chefe podia avisar o cara para o jornal não passar vergonha. Outro dia ele botou impeachment como palavra francesa.

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Bela entrevista de Celso Bandeira de Mello

Retirado daqui.

Trecho:

Trinta anos depois, juízes e autoridades italianas ainda manifestam muito ódio em torno do caso. Ofenderam o ministro da Justiça brasileiro (“ele disse umas cretinices”) e o presidente chamando-o de “cato-comunista”. Isso é de uma grosseria impensável. Falaram em boicotar produtos brasileiros e o turismo no Brasil, caso a decisão no caso Battisti fosse contrária aos seus interesses. Isso é inaceitável. Disseram ainda que o Brasil é um “país de bailarinas”, uma descortesia monumental, grosseria inominável. Afirmações melodramáticas e ridículas que só depõem contra seus autores e a favor da decisão do ministro da Justiça brasileiro. Se, trinta anos depois, esse é o clima, imagine o que era quando Battisti foi julgado e que risco ele corre hoje se for extraditado. Por isso, a decisão do ministro da Justiça foi correta quanto ao refúgio.

Cabe agora ao presidente da República decidir. Se eu estivesse na pele dele, depois de tanta pressão e insultos por parte de autoridades italianas, eu não cederia. Ninguém disse aqui, por exemplo, que o parlamento italiano é mais conhecido pela Cicciolina. Ninguém disse também que o sr. Berlusconi é mais conhecido por seu apreço por jovenzinhas do que por sua intuição política. Nenhum parlamentar ou autoridade brasileira disse isso. Se dissesse, estaria tomado por uma fúria total. Seria uma grande grosseria. O que dizer, então, de um prisioneiro que é objeto de tamanha sanha?

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Kill Bill, o pop que satisfaz

Estava examinando meu blog anterior — que não está mais disponível na rede — e encontrei estes posts de 2004 e 2005. Visto de hoje, meu entusiasmo e o da maioria das pessoas por Kill Bill é algo surpreendente. No texto, falo um pouco sobre meus fillhos que tinham, na época, 13 e 10 anos.

Penso que, no cenário pop contemporâneo, não haja ninguém mais competente que Quentin Tarantino. (Retiro deste time o Almodóvar dos últimos filmes.) Seu quarto filme, Kill Bill, é entusiasmante, apesar de inferior a Pulp Fiction. Fui vê-lo duas vezes: a primeira serviu para que conferisse se meus filhos poderiam vê-lo e a segunda para a diversão em família. Há sangue prá todo lado, mas não há situações de grande terror psicológico. Também não há lugar para comentários existenciais ou morais — ops, alguém esperava isto? Tarantino conhece seu respectivo tamanho e área de atuação, e o produto final é um pop deslumbrante. Seu senso de estilo é o que deveria ser analisado e não… Bem, mas não vamos adiantar as coisas.

Segunda-feira fiz um spam cujas vítimas foram os coitados que habitam meu “Catálogo de Endereços”. Abaixo, estendo a polêmica aos 7 leitores deste blog, colocando primeiramente o conteúdo de meu e-mail, seguido de algumas respostas, todas muito boas, inteligentes, diferentes, engraçadas, fechando com as explicações da Meg a alguns críticos. Alterei-as um pouco a fim de retirar as observações e recados destinados apenas a mim. Divirtam-se!

Meu e-mail:
Amigos (Atenção, Ivonete!). Vi Kill Bill duas vezes para me certificar. Mas não precisava tanto para voltar a me surpreender com a burrice interpretativa da maioria dos críticos dos jornais brasileiros. Hoje, após ler o César Miranda, criei coragem. O que o César escreveu? Ora, o óbvio. Kill Bill é uma cidade onde se encontram Sérgio Leone, o tigre e o dragão, Poquemon e Uma Thurman maravilhosa. O filme é sobre a vingança de uma mãe, não de uma noiva… O que tinha lido antes? Ora, que era um filme de ação e grande violência baseado em histórias em quadrinhos, que a estranheza do filme era a presença de uma mulher dando porrada em todo mundo e depois sobre um monte de detalhes técnicos divertidos. Violência? Pelamordedeus! O filme é protagonizado por uma mulher porque só mulheres são mães; os pais são, no máximo, pães. É incrível que “os espectadores profissionais de filmes” tenham ignorado a cena na qual Uma Thurman acordando desesperada do coma, apalpa sua barriga vazia e o que ela diz para Bill antes do tiro e a cena final, onde Bill — preocupado — fala na filha. E por que o apelido de Uma é “A Noiva”? Ora, pela mesma razão que Psicose não se chama O Filho Que Também Era Mãe! Prá que contar a principal parte do filme chamando a personagem de Uma de “A Mãe”? Não li ninguém escrever sobre isto, só sobre os 1600 litros de sangue falso utilizados e sobre Bruce Lee, Jaspion e outras coisas que há no filme mas que são secundárias. Quem discordar que discorde mas creio que Kill Bill é uma ode à mulher que briga por seu filho.

Algumas respostas:

Andréa, do Literatus: Posso botar lá na minha comunidade do Orkut, Milton? Estamos discutindo justo isso. Se vc deixar coloco, tá? bjim querido, angel.
Réplica: Claro que pode!
Tréplica: Meu herói! 🙂 bjimm angel

César Miranda: Grande Milton, obrigado pelo elogio assim na frente de tanta gente. Quem seria tão parvo a ponto de fazer aquele barulho todo por causa de um “casamento”?!?! Tem que ser muito idiota, né não? Já uma mãe por um filho, faria até mais. Outro segredo é não ler crítica de filmes, segundo o Millôr a principal função de um crítico de cinema é nos fazer de bobos. Sei do que uma mãe é capaz (para o bem e para o mal), inclusive essa bobagem que é uma vingança sanguinária daquelas, eu, particularmente torço contra a Uma. Se o Tarantino tiver alguma coisa na cabeça, vai fazer aquela saga ser um uma comédia de erros do meio para frente. Não é bom fazer apologia da vingança. Não há nada mais inútil do que uma vingança. Um grande abraço, César.

Ivonete Pinto: Exato, Milton. O mesmo que propunha Alien (o último, se não me engano). Com a diferença que este (Kill Bill) é divertido e não se leva a sério. Vc gostou de Diários de Motocicleta? Vou escrever sobre ele pra próxima Teorema. Tô com vontade de chamar de Kill Walter…

Tiagón, do Bereteando: O que me surpreendeu em Kill Bill – ah, peraí, muita coisa me surpreendeu, tenta outra vez – o que mais me surpreendeu em Kill Bill foi constatar que, depois de horas de luta e espadas, as cenas mais chocantes do filme não têm sangue: são as que tu citaste e o encontro de Uma com a filha de Vernita Reid, a recém-órfã. E concordo contigo. Mas também acho que “Kill Bill vol. 1: A Mãe” não seja exatamente um bom título… Embora quem costuma assistir Tarantino vai até se o filme se chamar “O Urso que Comeu meus Escorpiões”. No mais, saí do cinema extasiado. Não tem uma cena que não seja linda; a luz, os contraplanos, a sonoplastia de videogame… ih, nem vou começar a falar, porque me empolgo. Quinta-feira eu vou rever, e vou levar a família. Então escrevo um post enorme no Berê. Abraço!

Gustavo Souto Maior: Concordo plenamente com você, apesar de não ter conseguido “juntar as pedras” quando assisti ao filme pela primeira vez. Porém, agora, ao ler a sua análise, aquilo que tinha ficado no ar tornou-se certeza! Obrigado! Um abraço, do Gustavo.

Roberto Maxwell: KILL BILL VOL. 1 foi uma grata surpresa. E poderia comparar, no meu universo cinematográfico, Tarantino a Lars Von Trier. Ambos sádicos e cínicos. Claro que a mocinha tarantinesca não é vista penando como a de Von Trier. Este último é dos piores, daqueles que gostam de torturar os bonzinhos. Identifico-me com ele. Tarantino parece acreditar na justiça, concessão a qual Von Trier se entregou em DOGVILLE. Mas ambos acreditam na justiça-feita-com-as-próprias-mãos e, nesse sentido, são implacáveis. Mas não se deve comparar A Noiva/Grace a Chuck Norris. As mulheres vingativas são muito mais sangrentas. Além de terem uma dose de charme. Isso sem contar o fetiche de vê-las embebidas de sangue e com armas nas mãos. Aí acabam as semelhanças entre Tarantino e Von Trier, entre KILL BILL VOL. 1 e DOGVILLE. O americano entrega as armas a sua mocinha desde a primeira seqüência e, melhor ainda para os púberes, seu primeiro adversário é outra mulher, a vitaminada Vivica A. Fox. Indescritível, sob pena de estar fazer a descrição incompleta, a primeirona é uma das melhores de seqüências de um filme recheado de bons exemplos delas. Todas repletas de clichês (o que é a seqüência de animação com a origem da personagem da Lucy Liu?) muito bem colocados por sinal. Dificilmente se verá um filme com tantas referências cinéfilas escancaradas e sutis. Tarantino é o papa do pop. Nem Andy Warhol foi tão longe. (Perdão, Senhor, por este pequeno pecado!) Frustrante é saber que KILL BILL VOL. 2 só estará entre nós em outubro. Nem preciso dizer que as locadoras-ao-ar-livre já estão abertas e o mesmo se pode dizer para os bits & bytes. Mas eu só vou ver no cinema. Garanto que é muito mais programa!

Meg, do Sub Rosa: Nem é preciso dizer o quanto o filme de Tarantino me deixou feliz… E o que me diverte mais ainda, se é que é possível, é a inveja e a má-vontade dos críticos (?!) com o awesome “SAN” Quentin. E como se não bastasse, graças aos Céus, Tarantino gosta de mulher , I mean, as mulheres são fortes, poderosas, lindas, e sabem manejar uma espada… hohoho. Aliás, Uma Thurman está lindíssima – o tempo todo – e Daryl Hannah -a Elle Driver – quase numa ponta neste v. 1 – nos poucos minutos em que aparece…uau!!!!!! Um amigo meu disse que Tarantino revela uns fetiches: pés, por exemplo…:-) Só uma coisa me irrita: é quando dizem que o filme é violento… Não este! Oh my! Não me façam recorrer aos gregos para explicar que uma das formas de se descaracterizar um tópico é recorrer à hipérbole, ou seja intensificá-lo até o inconcebível… Exagero, figura tão conhecida dos lógicos:-). Vão por mim (hohoho) o filme é uma delícia… A turma que esteve comigo, matemáticos, filósofos e pessoal da Science Po, pisc* – se divertiu a valer… Eu, como não entendo de assunto nenhum, fiquei vidrada naquela inacreditavel…hahahah… Gogo Yubari. Go…gorgeous ! Hoho! Aliás, em matéria de cinema, Tarantino sabe tu-dê-ó-dó, tudinho: fotografia, montagem, MÚSICA, oh my gosh!… e até o cast é sempre impecável. Ou haveria melhor Jackie Brown que Pam Grier ?:-) De modo que o sangue que jorra (para não dizer mais) torna tudo absolutamente *fake*. Como diria e disse – em comentário a um dos posts, o também crítico, um dos melhores, as matter of fact, Julio Gomes. Gente, violento é o Mel Gibson 😉 Kill Bill violento? Na-na-nè-re!

Agradeço a todos os que colaboraram neste post. Pedi a quase todos os citados permissão para fazê-lo. Eu escrevi QUASE… Se alguém quiser retirar seu texto ou alterá-lo, me avise.

-=-=-=-=-

Se você chegou aqui desavisado e não gosta do cinema de Quentin Tarantino, aconselho-o a abandonar este post exatamente neste ponto. Um abraço e volte sempre! Os outros, os que gostam de Quentin, também recebem meu abraço e devem voltar sempre aqui; porém, neste momento, gostaria que continuassem a ler este post.

Bem, já que estamos entre fãs, começo dizendo que também gostei demais do segundo filme da série. Saí do cinema dizendo que era melhor que o primeiro. Lá, tínhamos mais ação e poucos diálogos; aqui, temos o contrário. Tarantino, em Kill Bill II, deu o espaço necessário para a Noiva tornar-se humana. O filme é mais lento, dando um tempinho tempo para os personagens se darem a conhecer, dialogando e tergiversando da forma curiosa que Tarantino já utilizava em Pulp Fiction. O que mais me surpreendeu no Volume 2 foi o fato de este ser totalmente diferente do primeiro. Estilística e visualmente é outro filme, tem personalidade própria. Dizem que haverá em DVD uma junção dos dois filmes, formando uma espécie de “versão do diretor”, o qual teria sido dobrado pelos produtores não apenas para diminuir a parte 2, como também não lançar um só filme de imensas proporções. Depois de ver a continuação, não acredito muito venhamos a ver esta versão única.

Talvez Kill Bill seja um filme para cinéfilos. Claro que ele se sustenta mesmo para aquele espectador que, como eu, não reconhece nem 10% do referencial utilizado pelo diretor, mas sentimos enorme prazer quando vemos colocadas dentro do filme citações de A Noiva Estava de Preto de François Truffaut, Rastros de Ódio de John Ford — que recebe não apenas uma citação, mas do qual vemos cenas na TV de Bill — e outros. Uma Thurman disse que cada cena de luta, que cada golpe é retirado de algum daqueles “clássicos” filmes de luta orientais pelos quais Tarantino tem fixação. Como não vi nenhum deles — nem os de Bruce Lee — fico imaginando o que alguém “mais erudito” possa fruir.

Kill Bill II não é tão oriental quanto o primeiro. Só voltamos ao oriente durante o flash-back que mostra o treinamento da futura Noiva, isto se aquilo ocorreu mesmo no Japão, ou na China, sei lá… mas estou atropelando as coisas. O filme recomeça de onde parou o primeiro e o próximo a ser morto é o irmão de Bill, Budd (Michael Madsen). Durante a vingança, há duas grandes interrupções em flash-back: a primeira para voltarmos detalhadamente ao casamento frustrado e a segunda para vermos o citado treinamento a que a Noiva havia se submetido antes de tornar-se aquela fera.

A seqüência do treinamento com o mestre Pai Mei (Chia Hui Liu) é sensacional. Utilizando um rigor absoluto e caricatural, Pai Mei submete Beatrix Kiddo (sim, a Noiva tem este nome) a uma longa série de torturas. Apesar de tal postura, Pai Mei está decididamente entre os personagens cômicos do filme, pois Tarantino passa todo o tempo sublinhando seus trejeitos com exageradíssima sonoplastia e com aqueles súbitos zooms tão caros às produções baratas japonesas.

Voltemos a Budd. No começo, ele leva grande vantagem, chegando a enterrar Beatrix num cemitério próximo. Neste ponto, há mais uma seqüência notável. Quando o caixão é pregado, “entramos” nele junto com Uma Thurman, a tela fica escura e ouvimos o caixão caindo no buraco, depois ouvimos a terra caindo sobre no caixão e os sons externos cada vez mais indistintos; no final, só resta o silêncio. É uma espantosa e original repetição daquilo que fez Lars von Trier no começo de Dançando no Escuro.

Não vou contar como ela sai desta, mas a continuação da cena ao estilo “A Volta dos Mortos Vivos” é engraçadíssima. O cinema vem abaixo quando ela atravessa a estrada. Então, ela volta para “assombrar” Budd, mas só tem a chance de encarar Elle Driver (Daryl Hannah), pois esta já tinha feito presunto daquele. O enfrentamento com Elle Driver é o grande momento de luta da segunda parte. Todos esperávamos por esta cena e Tarantino não nos decepciona. Surpreendentemente, a Noiva não a mata, apenas deixa-a mutilada, acompanhada de uma cobrinha venenosa. A atuação de Hannah é digna de menção. Ela está terrível, tudo nela é ódio e força. O fato de não termos visto sua morte talvez seja o grande gancho para um Kill Bill III. (Outro gancho seria a filha de Vernita Green (Vivica A. Fox) contra a filha d´A Noiva, mas isto já seria muito delirante…)

Depois disto, vamos à procura de Bill (David Carradine). Aí, há algo inesperado. O encontro é tenso, mas não há grande violência. Beatrix conhece a filha com 4 anos (ela lhe pede para ver Ninja Assassino antes de dormir…) e mantém um diálogo com Bill que é um estranho simulacro de um casal discutindo a relação.

O filme é finalizado num quarto de hotel onde Beatrix e a filha BB Kiddo (a gracinha Perla Haney-Jardine), ambas com roupas de dormir, assistem a um filme infantil. Antes disto, Beatrix entrega-se a uma crise de choro no banheiro.

Depois, ainda temos a surpresa dos créditos, onde o “estilo Truffaut” é revisto, servindo para que lembremos de cenas do filme (Vols.1 e 2). Bem no final, depois do último crédito, há um extra meio bobo, mas que não perdemos, pois ficamos no Arteplex – só nós e os faxineiros -, tentando ler, entre uma varrida e outra, todos os créditos.

P.S.- Outra coisa. Carro bonito, para mim, sempre foi sinônimo de Karmann-Ghia, o resto é bobagem. Agora, adivinhem qual é o carro de Uma Thurman?

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Milton Ribeiro's Blogger Gallery of World's Finest Arts II


Ghirlandaio

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