Dia de provocar (light)

A eleição do Cristo Redentor como uma das sete maravilhas modernas só me afetou ontem, quando meu filho me apresentou a Estátua da Mãe Rússia, erguida em 1967 na cidade de Volgogrado, ex-Stalingrado. (Bernardo costuma viajar pelo mundo com o Google Earth). Logo pensei nas linhas retas e sem graça de nossa falsa maravilha, comparando-as com as de uma estátua muito maior, mais bonita e de significado mais concreto que o das linhas retas e sem graça do sólido “realismo socialista” de nosso Cristo. Do alto do Corcovado, temos uma vista deslumbrante de 360 graus, mas é melhor esquecer aquele cara de braços abertos sobre a Guanabara.

Então, além de ser muito mais bela, heróica e trabalhada, além da vantagem de não ter o significado rarefeito de um monumento religioso, a Mãe Rússia mede 85 metros contra os 30 do Cristo.

Vejam:

Sim, falta o Corcovado, mas sobra estátua. Ela foi construída em homenagem aos mortos da Batalha de Stalingrado.

As formiguinhas na foto acima são pessoas… E mais uma foto, esta tirada do parque que circunda a colina Mamayev, onde está localizada a estátua.

Mother Russia 10 x 0 Cristo Redentor. E não me venham com os 45 metros da Estátua da Liberdade (aquela mulher em posição de árbitro de futebol apresentando um cartão vermelho ao mundo), nem com os 67 metros do obelisco bonairense (um taxista me disse que era uma homenagem aos políticos argentinos — todos os veem, mas ninguém sabe para que servem).

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Apesar de toda a simpatia — literária e política — que tenho por Flávio Tavares, seu livro-reportagem O Che Guevara que Conheci e Retratei é fraquíssimo. É um livro de fã, sem nenhuma postura crítica. Só supera mesmo sua antítese: a “reportagem” que o “jornalista” Diogo Schelp escreveu para a revista Veja. Desculpem a comparação; afinal, Flávio é um sujeito decente e não mentiu nem ofendeu como Diogo, só babou de paixão.

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Momento de gargalhada do fim de semana. Este post, recebeu o comentário que segue:

Essa criança não será como Jesus nosso Salvador, será apenas uma criança a mais no mundo, pois Jesus foi gerado pelo Espirito de Deus e essa criança pelo sangue apenas.

22 ideias sobre “Dia de provocar (light)

  1. Duas velas

    Depois de três meses clandestino em uma confecção no Vigário Geral, trabalhando e morando em um cubículo três por dois e meio, o boliviano conseguiu um dia de folga, uma passagem numa van e a visita que há muito programara, ao morro do Corcovado, não tanto para ver o Cristo Redentor, do qual não era devoto, mas a panorâmica da cidade do Rio de Janeiro, praia, Três Irmãos, Pedra da Gávea e Maracanã incluídos, além das favelas tão grandiosas e diferentes daqueles de La Paz.

    Sua fisionomia de índio e sua camiseta estampada com a pose clássica de Che Guevara produziram encanto em uma turista francesa que, à base do monumento, acendia uma vela e rezava, cristã de freqüentar a Basilique du Sacré-Cœur, ou a Basílica do Sagrado Coração, que é de Jesus, o Redentor, bem como eleitora de Martine Aubry, que esperava candidata nas próxima eleições para derrotar Sarkozy.

    O boliviano percebeu que seu charme bugrino afetou a sensibilidade da esquerdista cristã, mas a fisionomia da senhora de quase cinqüenta anos, pálida, magra e de descoloridos cabelos castanhos afastou qualquer pretensão sedutora do indígena, cuja fisionomia fechada produziu inverso efeito na francesa, ainda mais rendida à força telúrica do nativo original das Américas.

    Entre a feiosa estátua monumental de Cristo e o cândido retrato de Che, uma distância ainda maior conduziu o boliviano de volta ao casebre em Vigário Geral, e a francesa, lamentosa, no bonde de volta ao Cosme Velho, onde lhe indicaram visitas ao Largo do Boticário e a uma das residências do célebre escritor Machado de Assis, desconhecido por ela, mas, como mulato, figura que sentia urgência em cultuar, enquanto legítimo talento natural da terra, fruto da miscigenação. Infelizmente, já lhe faltavam velas.

      • Ficaria mais se tivesse que olhar pro Cristo todos os dias, como eu (a coisa é compulsiva). Restou-me tirar sarro do francês que esculpiu a cabeça do monumento transportando-a para a feiura da francesa. Direto sobre a comparação, zero a zero, pois detesto todo e qualquer monumento, sem exceção à regra – não confundir com as esculturas que, embora possam ter dimensões monumentais, são obras de arte móveis expostas pelo mundo afora, ou fixadas em prédios públicos (inclusive igrejas) e integradas em diferentes contextos onde o monumental é sempre o prédio e a escultura é adereço que pode ser ou não a cereja do bolo. O monumento soviético é um horror em seu triunfalismo obtuso – se é para tirar o chapéu para a luta de um povo, que o seja reconhecendo esse povo como origem e destino dos esforços humanos, e não bucha de canhão nas guerras e braços explorados à exaustão por força de um plano quinquenal qualquer ou ação imperialista pelo mundo afora, essas coisas que governos de todo matiz ideológico propagam que nem praga. Pô, fiquei até puto. Sério?

  2. pra escolherem o Cristo Redentor não votaram na obra, mas no cartão-postal. só pode! mas com aquela paisagem na frente até um busto do almirante tamandaré ganhava uma eleição dessas.

  3. Acho que a eleição do Cristo carioca tem mais a ver com demonstração de força católica, exatamente como sua construção.

    Coisa de tempos em que um governo que se diz de esquerda assina acordo com o Vaticano.

    O Cristo foi posto lá no início do governo Vargas, após o terrível isolamento político sofrido pela igreja na República Velha. Além do Cristo, os católicos indicaram o ministro da Educação Gustavo Capanema, que foi o mais longevo no cargo e garantiu a implantação de um sistema educacional disciplinador e civista, ao arrepio dos ideais escolanovistas e dos movimentos educacionais mais modernos.

    Acho que aquela estátua feiosa explica muito do projeto de modernização que foi implantado do Brasil. De modo que qualquer outra estátua que você escolher aqui vai me parecer mais bonita. Um dia ainda vamos demolir este símbolo do atraso. Mas acho que vai ter que ser depois das olimpíadas…

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