História de Natal

Aos três anos de idade, Maria foi entregue ao Templo a fim de dedicar sua vida a Deus. Era uma das muitas meninas que lá executavam todo gênero de trabalhos, desde os manuais até os de limpeza; nas horas vagas, oravam e liam as Escrituras. Um dia, aos 13 anos, notou em suas roupas as manchas vermelhas que a impediriam de continuar. Tornara-se alguém passível de contaminar a pureza das outras virgens do Templo; então, foi posta à disposição dos homens. Acostumada a não decidir sobre seu destino, não ficara muito surpresa com a resolução que sorrateiramente seu corpo tomara.

Havia uma espécie de loteria da qual participavam os solteiros e viúvos que desejassem esposas e José ganhou Maria. José era um velho — caminhava com o auxílio de um cajado — e tinha outros filhos: Tiago, José, Simão e Judas. Ele não necessitava de mulher a fim de satisfazer sua rara concupiscência, mas precisava de alguém que fizesse o trabalho diário de casa e para isso Maria servia. Tendo vivido no Templo, era certamente prendada. Porém, muito magra e amedrontada, não o motivava a nada, talvez nem a seus filhos. Seria fácil manterem distância de sua mulher. Após o casamento, José deixou Maria intocada e acabou por abandoná-la por quatro longos anos, pois fora chamado a um trabalho fora da Judéia, mais exatamente em sua Galiléia natal.

Enquanto isso, ela seguia realizando o trabalho doméstico para o qual fora treinada no Templo: alimentava os filhos do marido, lavava e costurava roupas, mantinha a casa em ordem e procurava não ficar íntima dos rapazes. Sabia que sua posição de “esposa” pressupunha uma postura estranha junto aos filhos de seu marido. Era mais jovem do que eles, então retraía-se, o que para ela, crassa tímida, era fácil. Suas horas mais felizes eram aquelas poucas que passava nas feiras, trazendo a matéria-prima para as refeições do dia seguinte e admirando as roupas e tecidos. Pensava ser pecado a vaidade, mas como resistir ao colorido deles? Perguntava repetidas vezes seus preços de alguns deles, esperando até que baixassem. Comprava bastante, pois a costura fazia parte de suas funções e os homens da casa frequentemente estragavam suas vestes na lida. Como não tinham muito dinheiro, ela pechinchava, perdia a timidez e tornava-se conhecida dos vendedores. Algumas vezes, fora advertida de que as roupas que fazia ganhavam detalhes insperados, femininos. Os rapazes riam daquelas manias de menina de Maria. Gostavam dela, era como uma irmã mais nova para eles.

Certo dia, um desses comerciantes a atraiu para sua casa a fim de que ela visse alguns tecidos, verdadeiras maravilhas à preços módicos. Maria, correspondendo a seus convites, passou a visitá-lo em sua casa. Repugnava-lhe a forma como ele um dia a tratou e tinha absoluta certeza de estar fazendo algo errado, mas tinha receio do que o comerciante poderia dizer na feira. O fato repetiu-se. Os filhos de José não se davam conta de que Maria passara a possuir provisões extras de tecidos, de comida e de quinquilharias para a casa e para si. O que lhes importava é que seus serviços permanecessem de acordo com suas necessidades e neste quesito Maria era impecável. Porém, ela tinha repetidos pesadelos em que era punida severamente por seu comportamento. Neles, sempre estava presente José e seus filhos, acusando-a de ser má esposa. Muitas vezes era assassinada; outras vezes, enfrentava tribunais nos quais o comerciante a culpava por seduzi-lo e acabava condenada aos piores suplícios. Na verdade, o que Maria desejava era ter José de volta. Fantasiava com um tratamento mais viril de sua parte. Afinal, com quase 16 anos, já era uma mulher.

O anúncio do retorno de José coincidiu com a interrupção de sua menstruação e com o arredondamento de suas formas. O bico de seus seios machucavam-se contra os tecidos novos de suas roupas, os vômitos tornaram-se frequentes e sua barriga começou a adquirir um inequívoco formado convexo. José retornou e impressionou-se com Maria. Ela tinha a sua altura e, contrariamente a quatro anos, falava, dava ordens em casa e era bonita. Naquela noite, José abraçou-a carinhosamente, de um modo que fez com ela se abandonasse a ele. Ele sentiu em si o bojo crescente no ventre de Maria e perguntou-lhe o que aquilo significava. Maria abraçou-se a ele e, chorando, contou-lhe que tivera um sonho em que um anjo lhe penetrara e que, pela manhã, estava suja de sangue. Disse-lhe que o filho era daquele anjo. Só podia.

José não era um cético, longe disto, mas resolveu perguntar a seu filho Tiago — logo a ele, depois autor de um evangelho apócrifo — sobre a conduta de Maria durante sua ausência. Este assegurou-lhe que Maria era uma boa e fiel esposa, que nunca faltara-lhes nada e que ela os tratava com amor e respeito. José estava confuso, sentia-se sozinho com sua dúvida. Preocupava-se com o que os outros iam dizer de uma gravidez tão imediata a seu retorno e proibiu Maria de sair de casa. Aquela seria a solução: ninguém a veria grávida, veriam apenas a criança depois de nascida e diriam que o parto fora abreviado, que a criança nascera antes, algo assim. No fundo, depois de tantos anos longe, José queria sua esposa e seu filho, precisava da convivência e da companhia deles. Além disto, havia outros motivos para preocupações.

Herodes havia mandado matar todas as crianças da Judéia e José estava preparando-se para esconder seu filho. Jesus nasceu e José decidiu partir novamente, desta vez levando sua família. Na estrada, pararam para descansar numa estrebaria fora de uso, colocando o bebê sobre uma manjedoura. Estavam famintos quando viram três homens cambaleantes se aproximando. Seus hálitos de vinho foram sentidos por Maria e pelos irmãos de Jesus à distância. Eram bons homens que, ao verem a dificuldade daquela família, ofereceram-lhes algum dinheiro, insenso e mirra. José ficou com o dinheiro — que resolveria seus problemas imediatos — e com o insenso. Gostou do trio. Devolveu-lhes a mirra por não saber do que se tratava. Quando perguntou quem eram, eles brincaram, afirmando serem reis magos. José riu, bebeu com eles de seu vinho e dormiu, sonhando com um grande futuro para seu filho. Viu-o embrulhado num manto, vestido como se fosse uma espécie de santo. Na manhã seguinte, seguiram para a Galiléia.

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  1. A mirra, claro! Mas é uma homenagem, uma citação, assim como a de Chico Buarque ao final. O Ramiro saberia melhorá-la, retirando aquela rima — horrível num texto.

  2. Apocalipse

    Fim do mundo, Juízo Final. Hilton percebe que a fila não anda, o calor está insuportável e ninguém dá qualquer informação. Nada de novo, mas justo por isso se exasperava. Sobre ele, nada. Não há céu azul, noite escura, estrelas, nada. Não há cor. Um infinito transparente de vaga e imprecisa luz. Ouviu alguém dizer “Eu bem que me admoestava, Alípio, para de beber, para de beber, e agora, e agora?!”. Que falta de dignidade, hombridade, honra. Para o bem ou para o mal, eu sou eu, Nicuri é o diabo, cantou Hilton frase final, de uma antiga canção agreste.
    Repentinamente, ele se vê diante de uma figura espectral que, para sua consternação, possui a fisionomia clara e enrugada do Erasmo Dias. Pior, a voz também é a mesma; com certeza é ele.
    – Herético. Diz na sua ficha que você é culpado de heresia.
    – Bobagem. Sou, quer dizer, era apenas um escritor. Ficção não é heresia, é só invenção, por piores que sejam suas intenções, e…
    – Pois piores eram! Sua ficha é das piores que passaram pela minha mão. Você deve se lembrar do tratamento que pessoas como vocês recebem!
    Banho em ferro escaldante? Vinho de enxofre? Choques elétricos? Pau-de-arara? Temer por atos e palavras. Por que não temer por pensamentos? Eles seriam ilegíveis para o Ser Supremo? A um hipócrita a Eternidade seria franqueada a toques de cornetas? Ou seriam berimbaus? Hilton só sabe que Erasmo Dias encara-o com a fisionomia mais cruel que existe. Como pode?
    Há mais mistérios entre os céus e a terra do que supõe sua vã filosofia, lhe ensina o sujeito de barbicha atrás de si, na mesma fila. Pois eu prefiro, responde Hilton, aquela segundo a qual A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando lhufas.
    – Você está perdido na tradução, lhe corrige o homenzinho de barbicha; ato contínuo, recebe nas mãos uma ficha, e quem lhe dá é uma jovem loira de aspecto muito mais que provocante; ela, em seguida, sorri com a boca mais cheia de dentes desse mundo, e senta-se no colo do Erasmo Dias.
    Nem nos meus piores sonhos poderia adivinhar uma ante-sala do Inferno como esta, pensa Hilton, e recebe como resposta:
    – Pois é justo este que agora imaginas, filho meu!
    Assustado, vítima de mais um processo, este a correr em sua própria consciência, Hilton apaga de imediato seu último conto. Mesmo assim, o medo permaneceu: temia que seu texto, copiado por alguém, passasse a integrar, sabe-se lá, algum livro, ou até pior, algum Evangelho apócrifo. Vade retro!

    1. Se eu chegasse ao Erasmo com um evangelho apócrifo… Meu Deus!

      Sabes que Tiago, irmão de Jesus, escreveu um evangelho que foi rejeitado pela igreja? Ou não escreveu, ou nem existiu? Só Deus sabe essas coisas.

      1. …é, mas chegaste ao Erasmo com uma heresia contrária à Imaculada Concepção, seu herege!

        Bah, tem um filme italiano (estrelado pela Penélope Cruz…) em que Maria supostamente é vítima de um estupro e, para esconder a tragédia e a vergonha, articula-se a hipótese divina, inclusive para proteção da sanidade de Maria, depois do estupro incapaz de se aproximar ou se deixar tomar por um homem. É uma hipótese também a considerar.

        Evangelhos apócrifos são uma diversão para filólogos amadores, estímulo a discussões bizantinas, babaquices afins. Esses troços eu só considero como base para gracejos, como a croniqueta acima.

      2. Não tive nenhuma intenção neste texto escrito faz uns 5 anos que não fosse dar uma “humanizada” na figura desta Maria tornada santa. Acho que Maria é das figuras mais “modernas” e adaptáveis da colcha de retalhos escamoteável que é a Bíblia Sagrada. Ela me interessa.

        1. Por razões semelhantes Thomas, o Mann, escreveu José e seus irmãos. São Jerônimo, tradutor da Bíblia, considerava o estilo da Bíblia muito seco, sem brilho mesmo, embora as histórias fosse notáveis – principalmente exemplares – mas a estilo ligeiro conspirava contra o diálogo com o leitor. Por isso cada leitor escreve para si uma Bíblia e colore aquela secura digna de Terra Prometida com prismas paradisíacos.

  3. Milton, a virgindade de Maria – diga-se de passagem, um dogma inclusivamente católico- sempre me incomodou. Lembro-me que tal questão nunca me desceu pela goela, mesmo na adolescência. Mas o tempo foi passando, passando… Passou!
    Um dia estava eu – com os meus botões- junto à minha filha Débora (à época, adolescente), num dia de visita (sou divorciado), num shopping assistindo a um filme do padre Marcelo (pode acreditar, Milton, porque eu não acredito!).
    Pois bem, não é que fiquei emocionado com o raio do início do filme! Talvez tenha sido o fundo musical… Realmente não sei. Resultado: comecei disfarçadamente a chorar… Mas era estranho: enxugava uma lágrima de um lado, pintava outra do outro; enxugava de um lado, molhava de outro… Tal processo durou alguns minutos. Inexplicavelmente, comecei a esboçar, declamando para mim mesmo, um dos poemas que mais amo. Ei-lo:

    CATASSOL
    by Ramiro Conceição

    O poeta fora prometido ao Deus da Vida;
    porém, sem saber, engravidou de poesias
    por ação do espírito humano.
    E o Deus da Vida, seu marido prometido,
    que era justo, não o denunciou
    porque sabia que o artista trazia frutos
    ao seu passado-presente-futuro.

    O poeta concebeu em sua língua
    para ensinar — em muitas línguas —
    sua linguagem estética, política
    e ética.
    E a lira não se quebrou.
    E um catassol cantou:

    “Sou um ruminante cérebro mutante,
    um ser que considera o ser maior que o ter,
    um lento catassol — sobre a leitura —
    que sabe que ler é conceber com ternura.

    Sou uma repetição, uma aliteração,
    uma especiaria para condimentar iguarias,
    uma hortaliça que plantei em nossa horta.
    Sou homenagem póstuma a estrelas mortas!

    Perdi a hora de tudo.
    Meu relógio marcou todos os fusos.
    Sou a maçaroca no fuso do mundo.

    Cada vez mais,
    torna-se claro
    que sou feito
    d`outra história;
    não desta,
    mentirosa
    e sem memória.

    Cada vez mais,
    tenho a certeza
    de que pertenço
    ao mar bravio
    pois sou um peixe
    que não pertence
    a este aquário vil.”

    1. Muito bonito, Ramiro. A primeira estrofe é esplêndida.

      O poeta fora prometido ao Deus da Vida;
      porém, sem saber, engravidou de poesias
      por ação do espírito humano.
      E o Deus da Vida, seu marido prometido,
      que era justo, não o denunciou
      porque sabia que o artista trazia frutos
      ao seu passado-presente-futuro.

      -=-=-=-

      Ao que eu saiba, a riqueza da história de Maria nunca foi bem explorada por um não-cristão. Não estou me candidatando, mas acho que é um ícone que mereceria maior atenção. Tenho visto uma inversão das coisas: Maria no centro de tudo, de forma inclusive superior a deus. A Virgem nunca recebeu tanta atenção. Comemo-la!

  4. O ROSÁRIO

    Historicamente e teologicamente, a questão de Maria é fascinante porque não há nada nos evangelhos que corrobore sua adoração. Tudo é justificado por uma passagem: Jesus já em extrema agonia olha para Maria e João (de acordo com as escrituras era o apóstolo que Ele mais amava) e diz aproximadamente (estou a fazer a citação de memória): “Mulher, eis teu filho.” Homem, eis a tua mãe.” Acredite ou não, Milton, em cima dessa passagem a Igreja Católica justifica, essencialmente, o culto à Maria.
    Num mergulho teológico mais profundo, Maria significaria o lado feminino da Divindade, inexistente no Judaísmo. Ou seja, o lado feminino associado ao sagrado em todas as grandes mitologias sempre se fez presente, de um jeito ou de outro. Desta maneira, penso-sinto que os históricos teólogos católicos tentaram (e tentam) preencher tal lacuna no cristianismo.
    Outro fato interessantíssimo sobre Maria é que suas “aparições”, apoiadas sempre safadamente por todo o podre poder eclesiástico, aconteceram (ou acontecem) em comunidades extremamente ignorantes e sob a bota de algum ditadorzinho (ou ditadores ) de plantão, que passa ideologicamente a adotar a Virgem como protetora de suas rapinagens.
    Numa análise semiótica, o culto à Maria é muito próximo daquele que aconteceu na Alemanha de Hitler ou na pátria assassino-burocrática de Stalin. Arrisco a dizer que o culto à Maria, no catolicismo, é um dos exemplos mais contundentes do paroxismo da alienação. É um culto ao invés da vida, ao invés da alegria, ao invés da sabedoria e, paradoxalmente, ao invés da própria religião que não é o ateísmo!, mas a perpetuação da miséria humana como substrato à dominação do humano pelo humano.
    A pieguice indecorosa, a demagogia maligna, a caridade hipócrita, a inveja pérfida, a ira dissimulada, a luxúria mascarada de inocência, a avareza mistificada com pitadas de bondade, a gula disfarçada em cestas básicas doadas, o trabalho voluntário a acobertar a vagabundagem de poderosos – tudo isso, caros amigos, está em cada parte do rosário mariano.

  5. Uia! Voces sabem tudo de literatura, música clássica e cinema, mas quase nada de história, pelo que parece. O dogma da “conceição imaculada” e a santidade de Maria só surgem no catolicismo no ano 300 da Era Cristã. Acho que foi no Concílio de Trento, mas não tenho certeza; principalmente depois de 02 doses de Jameson e 02 latas de Antártica.:)
    A igreja resolveu santificar Maria como uma forma de sincretismo: a apropriação do mito da deusa mãe, que era parte das culturas celtas. Em “As Brumas de Avalon”, a autora explica que os celtas não tinham reis, tinham rainhas. O marido da rainha era o “Dux Belorum”, comandante dos exércitos. Isso porque eles cultuavam uma deusa, pois é a figura feminina que dá a vida; e era a deusa que abençoava as colheitas. Por isso os rituais de fertilidade do início da primavera, que Marion Zimmer Bradley denomina “fogueiras de Beltane”.
    Espertamente, a Igreja Católica santificou Maria, para que ela pudesse ser a figura a ser adorada em substituição à deusa pagã (pagã na doutrina católica, bem entendido). Acho que uma boa matéria a respeito pode ser encontrada na revista Época, em uma edição de uns 05 ou 06 anos atrás.
    Sobre “As Brumas de Avalon”: para quem não conhece, é a saga do Rei Arthur contada pela ótica feminina. Eu gosto tanto da história que minha filha mais nova se chama Igraine. De todas as mulheres do livro, é a única que tem um final feliz.

    1. Jorge, não chegas a te contrapor ao Ramiro. Vcs dois falam na necessidade de preencher uma lacuna.

      Já assumi minha ignorância histórica e religiosa acima, com ou sem Antárticas e Jamesons. Tanto que achei que a adoração à Virgem fosse algo recente.

      Abraço.

      1. É exatamente isso, Milton e Jorge:

        “Num mergulho teológico mais profundo, Maria significaria o lado feminino da Divindade, inexistente no Judaísmo. Ou seja, o lado feminino associado ao sagrado em todas as grandes mitologias sempre se fez presente, de um jeito ou de outro. Desta maneira, penso-sinto que os históricos teólogos católicos tentaram (e tentam) preencher tal lacuna no cristianismo.”

        E, Jorge, bem lembrado, é exatamente o Concílio de Trento. Estou com preguiça de pesquisar, mas creio que seja o ano 400 da era cristã.

      2. Milton.
        O texto me emocionou. Há compaixão nele.

        Sobre o culto mariano, sem querer polemizar, ao que me lembro das leituras sobre história medieval, ele ganha força apenas lá pelo século XI ou XII, junto com uma revalorização da figura humana de Jesus.
        Me parece que a associação com as inúmeras divindades femininas pagãs, fossem elas romanas, celtas, germânicas ou eslavas estava presente sim. Acho fascinante perceber que isso tem longuíssima duração. Basta peregrinar pelas regiões de colonização italiana no RS. Os gringos não podem ver uma gruta que metem lá uma Nossa Senhora. Nunca um santo homem. É uma tentação aceitar a postura estruturalista de que a gruta é uma metáfora do útero e que a deidade feminina colocada ali é uma reminiscência incosciente da deusa mãe, mãe terra, gaia ou quantos mais nomes tivessem.
        Poucas coisas são tão espantosas quanto a concepção e o sexo. Seria muito difícil para qualquer religião apagar o potencial de mistério, encanto e assombro dos homens diante desses momentos, por mais que o cristianismo tanto tenha insistido em dessacralizar esses atos.
        Talvez tudo isso tenha mesmo algum sentido. Há um trabalho muito bom, de Maíra Vendrame, sobre os imigrantes italianos no centro do RS. Ela contraria as obras que descrevem a italianada como “pacíficos seguidores dos padres”. Eles era muito religiosos sim, mas tinham suas próprias concepções de religião, muitas delas reatualizações de crenças pagãs que esses camponeses (pagão, pagus, pago, campo, camponês) usavam para entender o mundo. Os padres ficavam furiosos e escreviam cartas indignadas a seus superiores porque os colonos queriam que eles benzessem porcos e galinhas, queriam que abençoassem os campos antes da plantação. Parecia coisa de idólatras pagãos.
        A italianada respondia que, se não era para garantir prosperidade, saúde e boas safras, então para que diabos se precisa de um padre? Só para fornicar escondido com viúvas solitárias?
        Aliás, a própria construção da crença em santos me parece uma adaptação de uma religião antiga, onde os deuses eram conhecidos, se sabia sua história, do que gostava e do que não gostava, se conhecia seu rosto e se sabia como negociar com eles para conseguir o que se precisava (um amor, o fim de um temporal, uma boa colheita, a cura de uma doença).
        Aquele deus do cristianismo, que não tinha rosto, estava em toda parte e em lugar nenhum e precisava dos padres como intermediários era pouco acessível para os camponeses medievais. Talvez os santos tenham preenchido esse espaço. Mas isso já é chute e estou indo muito além dos meus tamanquinhos.

  6. É necessário que fique claro. Não tenho nada contra a figura histórica de Maria. Pelo contrário, a respeito com um silêncio solene. Outra coisa, deve-se fazer justiça às escrituras católicas: quando ocorre alguma interpretação teológica a mesma fica translúcida nas notas do texto.
    O que abomino é que, apesar disso, o alto poder da Igreja faz de conta que não sabe ler (algo parecido com um fumante que despreza o aviso de perigo contido no maço de cigarros – e olha: sou fumante!).

  7. Uma curiosidade: Maria é a figura feminina mais citada.. no Alcorão.

    Mais do que a esposa de Maomé, ou qualquer outra.

    E sempre de forma respeitosa. Claro, lá não se repete ipsis literis a narativa bíblica, mas não é tão diferente. Ela também engravida “por um decreto de Deus”, mas nunca se diz que a criança é “filho de Deus”.

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