O homem que sabia demais

Não deixe de ver este vídeo curiosíssimo (e bem editado). Como escreveu o Rodney Torres no twitter, o lance foi digno do Renan do Inter.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Gilmar Mendes volta a assombrar o país

Com uma conduta digna de um aluno qualquer da 5ª série de primeiro grau, Gilmar Mendes interrompeu ontem a sessão do STF que estava decidindo pela não obrigatoriedade de que os eleitores mostrassem dois documentos na hora de votar. O placar era de 7 x 0 pela não obrigatoriedade, mas com o pedido vistas, Gigi pode enrolar a decisão até segunda-feira, sem sofrer punições, pois o prazo está definido no regimento do STF.

É uma coisa divertida essa de pegar a bola do jogo e voltar para casa porque mamãe chamou para o banho. A mamãe, segundo descobriu-se hoje, é careca e atende pelo nome de José Serra. O candidato tucano, que será derrotado provavelmente no primeiro turno, quer divertir a turba com um segundo. Como? Vejamos: ele sabe que são exatamente os eleitores de menor renda e escolaridade os que costumam andar por aí sem lenço e sem documentos e as pesquisas que sussurram nos ouvidos de Serra que os pobres estão em esmagadora maioria com Serra. A matemática fica simples: dimunuido os eleitores de Dilma, talvez tenhamos segundo turno, certo?

Dizer que Gilmar é um filha-da-puta de um traiçoeiro é chover no molhado. Ontem, quando vi que ele deitaria seu voto em certamente copiosas palavras, como sói acontecer com esta estranha gente, fiquei aliviado, claro: afinal, a coisa ter chegara ao insidioso num 0 x 7 irremediável. Irremediável uma merda! Após o telefonema de Serra, Gigi agiu rapidamente, puxou o fio da tomada e mandou todos os togados pra casa. Simples assim.

(Vocês viram a sessão? Viram as pernas que apareciam atrás daquele barbicha mais jovem? Viram as pernas daquela mulher? Pois olha, eram per-fei-tas! Foi a única vez que eu torci para que um juiz não calasse a boca).

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

E agora, uma vênia cloacal

Os discursos de Pepe Mujica não costumam seguir as regras da sucessão de lugares-comuns. Menos brilhante do que este aqui, Mujica, abaixo, faz uma pequena homenagem aos militantes. Encontrado, produzido e dirigido por Mestre Cloaca.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

(suspiro matinal de quarta-feira)

Dio ha creato la donna: Monica Bellucci
(Com a devida vênia ao melhor blog do mundo)
Detalhe: beber Martini é o fim do mundo.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Hoje é o Dia do Aborto

Hoje é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Nossa região é uma das mais atrasadas do planeta em matéria de legislação do direito ao aborto. É importante dizer que a mulher ou o casal não fazem um aborto por prazer. É uma decisão dolorosa, mas muitas vezes as consequências de uma gravidez indesejada são ainda piores.

Quando uma mulher não pode ter filho, ela faz o aborto de qualquer forma, usando agulhas de tricô no banheiro de casa ou com “especialistas” de fundo de quintal, que fazem o aborto perigosamente. As mulheres que têm situação econômica mais privilegiada, muitas vezes têm condições de pagar por serviços que não colocam suas vidas em risco. Porém, segundo a Organização Mundial da Saúde, quase a metade dos 50 milhões de abortos realizados mundialmente, todos os anos, são feitos de forma ilegal e em péssimas condições, resultando na morte de, aproximadamente, 90 mil mulheres, por ano, vítimas de infecções, hemorragias, danos uterinos e efeitos tóxicos de agentes usados para induzir o aborto.

Meu último aborto

Ela veio até minha mesa e disse:

— Depois preciso falar com o Sr. em particular.

Era uma de nossas estagiárias, a que fazia um misto entre auxiliar de escritório, substituta da secretária e telemarketing. Só os três estagiários me tratavam como “senhor”. Nossa empresa era pequena – quatorze pessoas – e ela, com 16 anos, era de longe a mais jovem. Todos nós trabalhávamos muito e acumulávamos funções muitas vezes díspares. Sendo um dos sócios, além de alguns trabalhos técnicos, responsabilizava-me pela parte financeira e de pessoal.

— É assunto urgente?

— Sim.

Ao final da tarde, enquanto os outros funcionários iam embora, fechei-me com ela na sala de reuniões.

— Olha, seu Flávio, preciso de um adiantamento.

Era só o que faltava, a estagiária de 16 anos e que mora com os pais pedindo adiantamento. Só lhe daria se fosse para algo relacionado com seus estudos. Comecei a pensar na desculpa. Porém, na realidade, sempre deixava algum valor reservado para esses pedidos. Os solteiros raramente solicitavam adiantamentos, os casados sem filhos também não, só os que tinham filhos ou estavam a ponto de tê-los é que vinham pedir-me valores para serem descontados no dia do pagamento dos salários. Éramos uns duros, mas estávamos crescendo. Quando ouvira a reclamação de que não tinham dinheiro para almoçar, fizemos vales-refeição para todos. Quando financiara o parto da mulher de um funcionário, colocamos todos em planos de saúde. Quando houve problemas com os altos preços dos remédios, fizemos cartões de farmácia cujos valores eram descontados ao final do mês. Mesmo assim, e apesar de que, considerando o mercado, pagávamos bons salários e raramente perdíamos funcionários, havia sempre os apertos de última hora. Era difícil evitar dar algum adiantamento, pois éramos todos muito próximos e eu tenho o coração mole, costumo assumir o problema dos outros, apesar das reclamações de meu sócio.

— De quanto tu precisa? — perguntei; afinal, ela ganhava apenas R$ 450,00 e talvez pudesse pagar do meu bolso.

— Preciso de R$ 2.000,00.

Tomei um susto e quase ri de sua pretensão.

— Mas, Mariana, tu recebe R$ 450,00 mais transporte e refeições…

— É, só que eu preciso mesmo! Tenho um grande problema.

Que saco, ela quer que eu pergunte qual é.

— Mariana, eu não posso adiantar um valor que é quatro vezes o teu salário. Além do mais, tu não tens vínculo empregatício e como é que vais passar os próximos meses sem receber?

— É que eu preciso fazer um aborto e o cara que faz isto direito, numa clínica, com higiene, cobra isso.

É, ela desejava realmente dizer qual era seu problema. E que problema. Nada mais típico; um caso de gravidez na adolescência. Sentindo-me cada vez mais desconfortável e sabendo que não deveria me envolver, fiz o contrário:

— E o pai?

— O pai? Bom, seu Flávio, não tenho bem certeza, mas acho que é o Chico.

— Chico? Ai, meu Deus, o nosso melhor analista estava comendo a menina. Ao menos era solteiro.

— Ele sabe?

— Sim, mas o Chico quer ter o filho. Eu não quero. Imagine, não tem nada a ver, eu com uma criança na casa dos meus pais em Guaíba. Meu pai me mata. E não vou ficar cuidando de filho nessa idade. A barriga é minha. E eu, casada? Brincadeira, né?

Dizia para mim mesmo: não te envolvas, mas… Acabei falando uma besteira.

— Mas o Chico tem um apartamento.

— É um cu – respondeu, fazendo um círculo com o polegar e o indicador — e eu já disse que não quero ser mãe agora! – Só não fala com ele, ele vai vir com o papo de que é filho dele, que é contra o aborto, vai falar em religião, etc.

— Vou ver o que dá para fazer; não posso te dar um adiantamento desses sem falar com o Leonardo.

No outro dia, não falei com Leonardo, meu sócio; porém Chico sentou-se a minha frente.

— A Mariana veio te encher o saco?

— Não entendi.

— A Mariana não te pediu dinheiro?

— Pediu.

— Quanto?

— R$ 2.000,00.

— Pois é, cara, e eu nem sei se o filho é meu. Essa guria trepa com meio mundo, cheira e fuma de tudo, deu para um colombiano que vende artesanato na Praça da Alfândega e o filho é meu?

— Chico, eu não tenho nada a ver com essas histórias, mas também não quero que a empresa vire uma novela mexicana, nem colombiana.

— Sou contra o aborto. Não vou à igreja, mas sou católico. E é um crime. As clínicas são clandestinas. E se ela morre?

Fiquei em silêncio.

— Eu propus assumir a criança, mas ela está louca. Chegou a levar cocaína lá para casa, só para mostrar como era irresponsável. Brigamos e ela foi para Guaíba de madrugada.

— Ela é drogadita mesmo?

— Claro — disse ele, num simulacro de riso. -– Mora na periferia, é difícil ser diferente.

Fiquei em silêncio, pensando idiotamente em qual seria a frequência dos ônibus para Guaíba de madrugada.

— Ela passa muitas noites lá em casa. Sai com as amigas e depois vai para lá. Bate no porteiro à uma, duas da madrugada. Às vezes só deita e dorme.

— Chico, e se ela persistir com a intenção de tirar a criança? Eu não vou emprestar essa grana para ela. Tenho que ser um pouquinho profissional.

Chico era muito importante em nosso trabalho. Sempre ficava com a parte mais difícil dos projetos. Tinha formação sólida e era competente, interessado.

— Chico, olha aqui. Fala com ela. Vocês têm que resolver. Não querem que eu decida, né?

— Tá bom, mas tu farias um aborto?

— Sei lá. Não sou eu quem deve resolver.

— Tá, mas eu quero ouvir a tua opinião — insistiu Chico.

— Já sou responsável por muita coisa. Pára com isso.

— Mas uma namorada tua fez aborto há duzentos anos atrás, tu falaste nisso uma vez.

— Sim, mas nada a ver com vocês, cara, resolve – disse-lhe.

Passaram-se duas semanas, Mariana faltou ao trabalho e Chico veio conversar:

— Fizemos a porra –, disse ele. — Ela vai ficar hoje em casa.

— Tu foste com ela?

— Não, só paguei. Ela foi com a irmã.

Meu papel parecia ser o de ficar quieto. No dia seguinte, Mariana estava toda feliz e dava saltinhos de felicidade pelas salas. Logo depois, sumiu por uma semana sem dar explicações. Retornou dizendo que estivera em Santa Catarina, numa praia. Achei a coisa verdadeiramente engraçada e tivemos uma longa e divertida conversa ao final da qual lhe disse que tinha que suspender seu estágio. Ela riu, deu-me dois beijos e despediu-se de todos.

Hoje, nove anos depois, Chico é casado e sua mulher está grávida do primeiro filho, que será, segundo ele, um menino torcedor do Internacional. Há dois anos, vi Mariana na rua quando ia almoçar. Estava magérrima, estranha. Fingiu que não tinha me visto, mas, por puro acaso, reencontrei-a uma hora depois no elevador. Nossos olhares se cruzaram rapidamente e não a cumprimentei, pois não sabia se ela queria ser reconhecida, mas notei um sorriso nascente e fiz-lhe um sinal com a cabeça. Ela perguntou se o escritório tinha se mudado para aquele edifício. Respondi que sim. Saímos juntos do elevador no meu andar e conversamos. Ela estava agitada, contou-me que coisas “muito loucas” tinham acontecido, que passara três anos na Suíça, que fazera faxinas e participara de colheitas, que sabia como viver lá com pouco dinheiro, quase sem pagar comida nem locomoção e que queria voltar logo, nem sabia por que estava aqui. Como se ainda trabalhasse conosco, pediu-me uma grana, qualquer coisa. Dei-lhe R$ 50,00. Eu queria me livrar dela. Aquele encontro estragou meu dia.

Contei o encontro ao Chico, que ainda trabalha conosco. Muito emocionado, disse-me que Mariana tivera aquela criança e que ela estava abandonada na casa de sua mãe. Ele soubera por uma amiga comum e procurou Mariana; só depois de muito esforço conseguiu um contato telefônico. Ele queria fazer um exame de paternidade. Ela o mandou se foder, mas Chico foi a Guaíba e encontrou a menina em situação miserável. A avó deu graças a Deus achando que finalmente ia livrar-se daquele peso que sua filha tinha-lhe deixado. Foi fácil convencer a velha a fazer o teste, só que o resultado apontou para outro pai. Mesmo assim, Chico insistiu com sua mulher para adotar a criança ou para dar mensalmente algum dinheiro à família, porém isso quase custou-lhe o casamento. Então voltou a Guaíba, deu um monte de roupas e presentes para a criança e ouviu a mãe de Mariana dizer que ele era um desgraçado de um pau no cu.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Sexta-feira Nordestina – Uma Coincidência

Fato Nº 1 (Sexta-feira, 17h40): Recebo um comentário apressadíssimo de Márcia Maia. Ela me deixa um beijo de comecinho de primavera. Também pudera, ela, autora de dois livros e das grandes pequenas histórias de seu blog — às vezes deliciosamente fora do politicamente correto –, estava com o filho de aniversário. Mas, como era o dia dos nordestinos, ela veio.

Fato Nº 2 (Sexta-feira, 18h30): Estava dirigindo para casa quando o celular tocou. Li o número de quem me ligava antes de cometer a infração de trânsito. Era muito esquisito, pois começava com três zeros. Depois, ficou ainda mais estranho. Eu disse “alô” e como resposta só ouvi risadas. Repeti o “alô” mais duas vezes antes de ouvir uma voz muito forte perguntando se eu era Milton Ribeiro. Poucas vezes pude perceber meu nome sendo dito com sotaque mais nordestino e não fazia a mínima idéia de quem fosse:

— Milton, é Nora Borges.

Nora Borges é uma querida amiga. Tinha dois blogs: o primeiro era um dos melhores blogs íntimos que conheço, com longos posts que tratavam de assuntos pessoais, familiares e amorosos. É uma tremenda escritora. O segundo era turístico. Recentemente, Nora começou a unificação dos dois na Verbeat.

Fato Nº 3 (Sexta-feira, 18h45): Entrei em casa e vi que chegaram várias correspondências. Acabou a greve dos Correios e minhas contas voltarão a chegar pontualmente. Mas dentre elas estava o livro A Casa Miúda de Theo G. Alves. Theo é de Currais Novos (RN). Fico entre o orgulhoso e o constrangido ao ver que tenho em mãos o exemplar autografado de número 2. É uma edição artesanal onde estão algumas das histórias que Theo criou para seu ex-blog O Centenário, que foi criminosamente deletado por seu dono. Ele acaba de montar um novo blog aqui (por enquando só tem um post), mas há um tesouro aqui.

Theo, modestamente, descreve seu livro:

A Casa Miúda. Este é o nome do invento. Dia 22 de julho foi a inauguração oficial do imóvel minúsculo, sem garagem, sem área de serviço e sem quarto para a empregada. A Casa Miúda reúne alguns textos que estiveram publicados em O Centenário, blogue do qual alguns amigos mais antigos talvez se lembrem, somados a um ou outro palavreado inédito. Os textos foram revisados, ou refeitos, batizados novamente, reinventados, tudo na tentativa inútil de torná-los um pouco mais decentes.

(…)

Volto sempre a dizer: as publicações artesanais são uma maneira extrema de se fazer ouvir. Não há romantismo nessa história. Pelo contrário. Como bem disse o amigo Fábio Ulanin, “(esse processo) é extremamente realista, duro e cruel. Ele tem razão.

A Casa Miúda faz com que eu não me cale. É meu jeito de contribuir (talvez desnecessariamente) com esta vida.

Fato Nº 4 (Sexta-feira, 18h46): nada mais natural do que abrir o livro do Theo e dar da cara com um belíssimo prólogo escrito pelo poeta Moacy Cirne, figura procuradíssima por este blog. Os conhecimentos deste homem sobre tudo o que me interessa — literatura, música, cinema e política — são inacreditáveis. Querem saber? Na minha opinião, Moacy não existe, trata-se de um nome fantasia que representa algum colegiado de sábios. Há muitos Moacys para cada área.

Fato Nº 5 (Sábado, 2h12): Chega um comentário do pernambucano Manoel Carlos. Conheci o blog do Manoel através de Nora Borges e, meses depois tive a sorte de conhecê-lo pessoalmente no Rio de Janeiro. O que está mais longe deste homem é a arrogância, tanto ao vivo como por escrito. Sempre indica bons artigos e apresenta a este preguiçoso novos blogueiros. Manoel Carlos gosta de polêmicas civilizadas e os comentários a seus posts sempre devem ser lidos. Paradoxalmente, apresenta posições firmes em tom de conversa. É homem de muitos amigos. Atualmente, estamos contemplativos, encantados com nossas opções futebolísticas: seu time, o Santa Cruz de Recife, é líder da segunda divisão, enquanto que o meu é líder da primeira. Temos aquela conversa arrogante — não, arrogante é impossível –, digo, superior. De quem está no topo, entende?

Finalizando, tenho que dizer que, há uns dois anos, o escritor Fernando Monteiro escreveu-me num e-mail que gaúchos e pernambucanos tinham, de fato, uma ligação “meio misteriosa” que os fazia invariavelmente entender-se muito bem. Viu, mana? Nem precisava tanto álcool…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Gustav Mahler e Jordi Savall

esta Wer hat dies Liedlein erdacht uma das canções do Des Knaben Wunderhorn, de Mahler. (Gosto de lavar a louça sob algo como Mahler ou Bruckner, a todo volume…) Era a gravação de Anne Sofie von Otter com Claudio Abbado, bem mais rápida do que esta da dupla Lucia Popp e Leonard Bernstein. Abaixo, com a zombeteira Lucia Popp e Bernstein uma versão um tantinho mais dura do que a de Abbado com von Otter. Mesmo assim dá para dançar. Ah, podemos afirmar tranquilamente que não bailamos com qualquer porcaria não… A canção é belíssima!

Ou clique aqui.

O grande mestre catalão Jordi Savall, mostra-nos seu instrumento, a viola da gamba, que se originou na Espanha no século XV e caiu em desuso no final do século XVIII, quando o aparecimento das grandes orquestras condenou a delicada gamba ao silêncio. Jordi Savall é um tremendo pesquisador e gambista que, a partir de documentos históricos, recupera o som de um dos mais incríveis instrumentos que conheço. O som da viola da gamba é mais impressionante, na minha opinião, do que o do violoncelo. No vídeo abaixo, ele toca um pouco, explica coisas sobre a gamba (perna, em italiano) e sobre a música em geral. Bom domingo para todos!

Ou clique aqui.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Minha filha Bárbara faz 12 anos

Publicado em 25 de setembro de 2006. As fotos se perderam junto com o blog antigo

É tempo de homenagens. Hoje é o centenário de Shostakovich, mas é também o dia em que minha filha completa uma dúzia de anos. Então, publiquei ontem a última parte da série sobre o compositor russo, a fim de abrir espaço para o níver de minha filha. Questão de justiça? Não, questão de amor mesmo.

Querida filha.

O dia 25 de setembro de 1994 foi um domingo. Dias antes, eu tinha assistido a um filme sueco chamado “Crianças de Domingo” no qual dizia-se que as crianças nascidas em domingos eram as mais felizes. Espero que seja verdade. Tu eras esperada para umas duas semanas depois, mas uma bolsa rota determinou que aquele seria o dia. Foi rápido. Chegamos ao hospital por volta das 17h30 e tu foste retirada da barriga da tua mãe às 19h35. Não lembro do que diz na certidão, lembro ter olhado para o relógio ao ouvir um berreiro sensacional de criança saudável e ver que eram 19h35. Lembro da pediatra saindo da sala de parto contigo e que fui atrás, caminhando rápido. Enxerguei uma enorme boca de uma guria vermelha de tanto gritar, adornada de cabelos lisos e pretos. Mas teu irmão era loiro! Eras bem mais morena do que a rigorosa brancura do teu irmão e os cabelos de índia até combinavam contigo. Mas logo os cabelos pretos caíram e, para a surpresa dos familiares, foram substituídos por cabelos encaracolados e loiros. Bárbara, a ex-índia.

Repetia contigo as brincadeiras que fazia com teu irmão, porém contigo elas não faziam muito sucesso. É que eras uma menininha que não gostava de movimentos bruscos e muito menos de ser atirada para o alto. A coisa tinha que ser mais afetuosa e dava ainda mais certo se acabasse em abraços e beijos. Nossa, como tu gostavas de balanço; lembro de ficar sábados e domingos te balançando por horas, horas mesmo! Sabes este Walkman da Sony que tenho até hoje e que levo aos jogos de futebol? Pois é, comprei para ouvir alguma coisa enquanto te balançava. Para mim era meio chato, mas tua cara de felicidade fazia com que eu permanecesse horas te empurrando. Devia ser legal ver o mundo se mexendo para cá e para lá, para cá e para lá; ficavas em silêncio, com aquela cara embevecida, e se eu parasse para ouvir melhor alguma música na Rádio da Universidade ou o jogo do Inter, logo ouvia “quero mais, papai”. Para ir embora, no mínimo uma hora depois, tínhamos que entrar em acordo. Tu querias que eu contasse, um a um, mais mil impulsos no balanço, eu contrapropunha dez e fechávamos por vinte. Pai sacana.

Tempos depois, a brincadeira preferencial era na tua cama, antes de dormir. Ficávamos no escuro, debaixo das cobertas. Tinhas uns cinco ou seis anos e eu te dizia que ia pedir para tu fazeres uma conta, uma conta difícil, tão difícil que ia quebrar tua cabeça. Tu entravas para baixo das cobertas, simulando medo e eu dizia lento e soturno: “treze menos cinco”. Entravas em pânico, dizias várias vezes “Espera!”. Eu ficava ouvindo tua vozinha cochichando os números enquanto contavas nos dedos. Via que tu tinhas dificuldade por não possuir treze dedos e não sei mesmo como fazias para simulá-los. “Espera, papai!”. Talvez concluísses que era mais fácil tirar os três dos cinco e fazer dez menos dois. “Espera, só mais um pouquinho!”. E, olha, Babi, às vezes demorava mesmo… Então descobrias a cabeça rapidamente e eu via vagamente os contornos de um sorrisão e tu respondias sempre, mas sempre com uma pergunta: “Dá oito?”. Claro que eu ficava triste por não conseguir te fazer errar e propunha outra conta terrível que também acertavas. Uma merda, aquilo.

Um pouco antes desta época conheceste a Luísa Cunha. Era uma menina muito alegre e legal e eu tenho a tese secreta de que só pais legais criam crianças legais e que se eu não vou com a cara e com as atitudes de uma criança é porque não vou gostar dos pais. É uma tese tranqüilizadora; nunca fiquei preocupado em te deixar visitá-la. Eu me parabenizo até hoje por ter sempre concordado com essas visitas que acontecem desde o maternal até hoje, quando vocês vão para a praia, durante o inverno, invadir o jardim de casas desconhecidas e fazer soar os alarmes, para fazer aparecer a empresa de segurança enquanto vocês fogem para casa e ficam jogando cartas, olhando a confusão pela janela…

Bem, mas isto é coisa de agora. Estou misturando tudo. Vamos voltar ao fim-de-semana em que aprendeste a ler. Minha apreciada veia pedagógica estava desligada e não me dava conta de como te explicar as sílabas. Tu colocavas uma só consoante para cada letra e dizias “Pronto”. Mandava tu escreveres CASA e tu escrevias CS. Foi então que teu irmão, que estava perdendo minutos fundamentais de sua vida porque não conseguia me fazer jogar futebol com ele, veio ajudar e te disse, com aquela má vontade e indulgência peculiar dos irmãos mais velhos, que uma letra só muito fraca para fazer um som decente, desses de palavras, e que precisava de uma daquelas cinco letrinhas para ajudar. Disse mais, mostrou que o número de duplas de qualquer palavra podia ser descoberto batendo palmas. “Bo-la”, viu? Batemos palmas duas vezes. Pai, diz agora para esta idiota escrever banana!”. Tu bateste palmas três vezes e… deu certo, escreveste ba-na-na! Viste o que a paixão pelo futebol faz?

Ah, tiveste algumas dificuldades no colégio, mas eu também tive no meu tempo. E, também como tu, era um dos mais baixinhos da turma até me estabelecer como médio. Cresci tarde para chegar a meus incríveis 1,71m. Teu irmão também é um ex-anão, né? Só crescemos depois dos quatorze, ele bem mais do que eu. Quando fomos ao médico para ver tua idade óssea deu quase dois anos a menos. Então, acho que vai dar para ganhar da tua tia, das tuas avós e das tias-avós anãs, passando fácil dos 1,60m. Maldade com elas, né?

Olha, li uma vez que, oficialmente, a Unicef considera que a adolescência começa aos doze anos e acaba aos dezoito. Confesso que conheço pessoas que já passaram dos quarenta e que refutam eloqüentemente este cálculo arbitrário, mas consideremos que ele seja verdadeiro. Então, hoje, às 19h35, todo aquele teu mau humor matinal, aquela recusa de dar justificativas para certas atitudes, aquele azedume repentino e inexplicável, aquele choro ou grito que não se sabe o motivo, aquele fechar-se no quarto, tudo, mas tudo mesmo, estará inteiramente esclarecido: será a abominável aborrecência. Ho, ho, ho.

Mas ela não há de mudar assim tão rápido teus sonhos de andar a cavalo todos os dias, de ficar mais tempo comigo, tuas vontades de comer eternamente pastel à noite, de ver filmes de terror com a Claudia, de visitar cemitérios com a mesma doida varrida, de dizer que odeias ler para depois elogiar os livros e sentir pena quando acabam e de criares agendinhas mentais e rotinas para todas as tarefas do dia.

E por falar em tarefas, anote aí. Não esqueça que te busco hoje lá pelas cinco, te dou o presente e vamos ao supermercado comprar as bebidas para a festa de hoje, que terá horário rigoroso para começar e nenhum para terminar e que acabará numa negociação assim:

– Pai, posso dormir uma hora mais tarde hoje?
– Não.
– Então meia hora?
– Não.
– Então, quinze minutos?
– Dez.
– E que horas tu vai me acordar amanhã?
– Às 6h40.
– Ah, eu posso chegar atrasada no colégio amanhã?
– Não.

Ah, as fotos. Como sei que nunca leste o meu blog – apesar de achá-lo “muito massa” –, botei um chamariz, entende? O que é chamariz? É um tipo de propaganda bem direcionada, meio que só para ti, em que vais ver a tua cara e talvez te sintas a fim de ler isto aqui, sua pentelha.

Um beijo do pai, minha linda guloxinha.

P.S. – Ontem, fomos ao jogo só eu e ela. Um diálogo:

– Pai, sobre o que tu e o Dado tanto conversam durante os jogos? – Dado, ou Bernardo, é o irmão.
– Sobre os jogadores, a tática.
– Quero que tu converse também comigo sobre isso.
– Tá bom.

Up-grade: Atendendo a pedidos, uma foto da Bárbara saltando:

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

A mais bela mulher da TV brasileira ataca Serra

Certo, ela é da Globo, mas quaisquer pruridos ideológicos caem e sobe… Bem, nossa consideração por uma grande mulher. Sim, por uma grande mulher que atacou Serra com inédita voracidade. Leiam abaixo a transcrição das perguntas de Renata Vasconcelos ao candidatinho ontem pela manhã, no Bom Dia Brasil.

Renata – Além do salário mínimo e da aposentadoria, o senhor fez outra promessa ou anúncio, como o senhor disse. Um 13º para o Bolsa Família, como se o programa de assistência fosse uma espécie de emprego. O seu partido defendia uma porta de saída para quem é dependente do Bolsa Famíla. Eu gostaria de saber o que aconteceu, o senhor mudou de opinião?

Serra – Não. Primeiro, nós criamos as bolsas. Eu criei a bolsa alimentação no governo Fernando Henrique… (e enrolou …)

Renata – Justamente, a ideia então é? (Insistiu a deusa)

Serra – Exatamente para que a renda possa se elevar. (?????? Enrolation rides again …)

Renata – Candidato, muitos dos seus aliados criticam a sua postura nessa campanha porque dizem que o senhor não defende, como deveria, os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso e prefere, por exemplo, por a imagem do presidente Lula, inclusive na sua propaganda de TV. O senhor tem receio de ser oposição?

Serra – Não, não. Essa coisa do Lula, foi bom você ter perguntado, porque se repete muito. Não estou dizendo que é o seu caso, mas muita gente que pergunta não viu. Passou durante três segundos na televisão, ou quatro segundos. (Ah, OK…)

Renata – Então, por que esconder Fernando Henrique Cardoso?

Serra – Agora, com relação ao Fernando Henrique, ninguém mais do que eu tem defendido… (mais enrolação)

Ah, e ela tem uma irmã gêmea! Já imaginaram as possibilidades matemáticas disso?

Obs.: as perguntas e respostas foram copiadas do site da Rede Globo.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Minhas Falsas Primaveras

Publicado em 23 de setembro de 2005

Há aqueles que, quando ouvem alguém contar algum problema pessoal, respondem com outro seu, normalmente muito mais grave. É um egoísmo que torna a conversa um campeonato de lamentações. E este gênero de pessoas não admite perder. Não sou assim, raramente reclamo. Mas aviso que, atualmente, é mau negócio querer competir comigo. Tenho um leque muito variado para apresentar.

Muitos e solucionáveis problemas — com maior ou menor sofrimento, com maior ou menor investimento de angústia — estão se desdobrando e, durante este período, tenho esquecido aniversários, não tenho respondido muitos e-mails e os compromissos não fundamentais são deixados a uma duvidosa auto-resolução.

Àqueles que sabem das preocupações que tenho com minha mãe, aviso que ela está melhor e que fizemos algumas reformas em sua casa, além de alterarmos sua medicação junto com minha irmã — que é médica — e os médicos da Dra. Maria Luiza. Mas nada foi fácil e ela resistiu o que pôde à retirada da banheira. Fim.

Mas há a parte boa, quase primaveril. A casa-edifício que estamos construindo parece subir a cada dia, a garagem está lá no térreo, nosso futuro apartamento está acima dela, já possuindo chão e algumas paredes. É preciso imaginação para visualizar o apartamento da família do irmão da Claudia mais acima, mas logo ele será concreto. E, como nosso apartamento será de tamanho razoável — enorme, se considerarmos as construções de preço médio atuais –, brevemente a Claudia poderá voltar a promover suas festas. Ah, e haverá uma edícula para recebermos amigos e blogueiros de passagem por Porto Alegre, além dos maridos eventualmente chutados. Aguardem!

No final de novembro, a Claudia tem que ir à Itália por motivo de trabalho. Eu vou acompanhá-la. Será ótimo, apesar da temporada curta de 10 dias, mas não é ainda a primavera, pois, no hemisfério norte, será o final do outono . Muitos de vocês deverão morder-se ódio, pois vou conhecer pessoalmente a Nora Borges e o Flavio Prada. Eu e o Flavio participaremos do III Grande Encontro de Blogueiros na Itália, com certamente com o dobro de participantes do primeiro. A reportagem sobre o I Encontro pode ser lida (e vista) clicando-se aqui. Infelizmente, o outro representante de blogueiro brasileiro na Itália, o Allan ficou meio fora de mão em nosso breve percurso. Mas, com o trabalho que a Claudia faz, o que não vai faltar são oportunidades.

Antes, no dia 12 de novembro, às 15h30, no Memorial do RS, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, estarei autografando o livro do Blog de Papel. Trata-se de uma obra coletiva onde haverá contos e crônicas de Alê Félix, Alexandre Inagaki, Ane Aguirre, Arquimimo Moraes, Edson Marques, Fabio Danesi Rossi, Fal Vitiello de Azevedo, Maira Parula, Marco Aurélio Brasil, Marco Aurélio dos Santos, deste que vos escreve, mais Nelson Moraes, Nelson Natalino e Ticcia Antoniete. Às 16h30 do mesmo dia, na sala “O Retrato”, do Centro Cultural Erico Veríssimo, haverá uma mesa sobre Literatura e Internet com a participação de André Dahmer e dos autores gaúchos do Blog de Papel – eu, a Ane e a Ticcia – com mediação do escritor Armindo Trevisan.

E no dia 19, às 18h, haverá o lançamento em São Paulo, na Oca (Parque do Ibirapuera), com a presença de toda a galera.

A renda obtida com nosso livro não irá garantir a independência financeira dos autores, mas será destinada à APAE de Lagoa Vermelha (RS), que tem um blog desde junho de 2004.

Tá bom, vá lá, estas últimas notícias são, para nós, uma primavera inteira.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

O mau amigo de Marcelo Backes

Pois minha atividades no Sul21 andam tão açambarcantes que eu acabei esquecendo de avisar que Três traidores e uns outros, do meu amigo Marcelo Backes, teve lançamento na Livraria Travessa, no Rio de Janeiro, no último dia 16. Li Três traidores ainda antes da revisão final. Enchi o saco do Marcelo num longo e-mail em que corrigia principalmente erros de digitação… Ontem, para minha enorme culpa, recebi o volume da Editora Record pelo correio. Sim, terrível, esqueci. Não que meu blog vá fazer alguma diferença para o sucesso do livro, é que estamos todos tão empenhados na evolução do Sul21 que acabamos — eu, a Nubia, a Rachel, o Igor, o Prestes, o Bruno e o Seadi — deixando de lado a vida pessoal.

Ontem, comecei a ler o livro do Marcelo. Está tão diferente que nem parece o mesmo. Desconheço sua forma de trabalho; apenas vi que as coisas parecem muito organizadas em seu computador, mas penso que tenha recebido uma primeiríssima versão. O primeiro capítulo já foi um conto que li faz uns dois ou três anos. Ele reaparace muito modificado e melhorado, apresentando um narrador mais presente, o qual deverá tomar conta do livro. O Backes escreveu num de seus livros que Milton Ribeiro era o “melhor leitor não profissional” que ele conhecia, mas minha primeira leitura de Três traidores e uns outros foi um fracasso. Por algum motivo, quando abri o arquivo com o romance, li a relação de capítulos como se fosse uma relação de contos  — culpa talvez de lido o primeiro capítulo com um conto no passado — e acabei lendo-os em intervalos de 10 ou 15 dias, pelo simples fato de que costumo carregar livros comigo e não folhas A4. O resultado é que simplesmente não me dei conta de que o personagem principal era o mesmo, narrando quatro episódios de sua vida em sentido cronológico inverso.

A sensação que tive ontem à noite foi a de ler outro livro, não aquele de há quase dois anos. Logo que terminar, mando notícias para este blog, OK? E, bem, peço descupas ao Marcelo. Devo estar no título do livro no papel de uns outros.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Óia – NOVAS DENÚNCIAS CONTRA DILMA SACODEM O PAÍS

A Óia desta semana está imperdível, prometendo uma verdadeira BOMBA VIRA-ELEIÇÃO. Veja as estarrecedoras manchetes!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Gostar de quem conta histórias

Na semana passada, entrevistei Paixão Côrtes para o Sul21. Não sou ligado ao Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas adoro quem se dedica a contar histórias, principalmente se for um velho cheio delas. Hoje, neste feriado estadual, a entrevista foi publicada. Acho que ficou boa e o maior mérito é do próprio Paixão e do fotógrafo Bruno Alencastro, que fez um belo trabalho dentro da casa do entrevistado e ainda foi lá no Laçador complementar.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Pequena Missa Solene, de Gioacchino Rossini

Abaixo, temos a versão original do movimento de abertura, Kyrie, da Pequena Missa Solene (Petite Messe Solennelle) de Rossini. Depois, após o pequenérrimo conto que este coitado escreveu, há uma versão que não é a original, mas que é cantada por um coral muito melhor. Então, entre as duas versões, há um antigo conto meu que usa a Pequena Missa de Rossini como personagem. Bom divertimento!

Todos os pecados perdoados

A Fernando Monteiro

Eu estava estudando na Itália, mas o tema de maior interesse, aquele sobre o qual me debruçava com verdadeira afeição, era Antonella, minha pequena e saltitante romana. Um dia, tivemos uma discussão acerca de algumas grosserias que, segundo ela, eu cometera, e ela rompeu nossa ligação.

Dias depois, telefonei-lhe e convidei-a para assistirmos à Pequena Missa Solene de Rossini, que estaria sendo apresentada na Parrocchia dell’Assunzione, no Tuscolano. Depois de alguma hesitação e surpresa – ela não esperava uma ligação minha, ainda mais sem referências a nosso impasse -, ela aceitou. Antonella amava a música de tal forma que eu não tinha como saber se a aceitação do convite significava um perdão ou a mera impossibilidade de recusar a missa de Rossini.

Caminhamos lado a lado, sem nos tocarmos. Tive todo o cuidado em ser verbalmente o mais gentil com ela, já que as circunstâncias não permitiam nada além. Quando a Missa começou, ela se riu. Disse em meu ouvido que achara engraçada a pobre instrumentação que Rossini utilizara. Passaram-se alguns minutos e notei que Antonella estava muito emocionada. Abracei-a e ela apoiou sua cabeça em meu peito. Enquanto lhe acariciava o rosto, sentia suas lágrimas molhando meus dedos. Soube que estava perdoado.

Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Então, aos 37 anos – enfadado do freqüente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores -, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover freqüentes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de um certo compositor anônimo… O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas extraordinárias peças sacras – o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) -, além de peças para piano. Tais obras foram agrupadas sob o título genérico de Péchés de vieillesse.

Fomos a meu apartamento, onde nos amamos e dormimos como fazem os casais. Quando acordei, não vi Antonella. Havia somente um bilhete em italiano sobre meu criado-mudo. Meu amigo, fomos engolfados por um dos “pecados da velhice” de Rossini. O que aconteceu não tem nada a ver com nossa situação. Não me procure mais. Antonella.

Nunca mais vi minha pequena Antonella. Porém, ontem, recebi de um amigo uma gravação da missa de Rossini. Comecei a ouvi-la, mas logo interrompi a audição por pudor. Deixei todos dormirem para religar o aparelho de som. Então, enquanto minha mulher dormia, ouvi toda a gloriosa Missa, imóvel, sentado no escuro, sentindo a presença de minha adorável Antonella e de uma outra vida perdida.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Apoie, divulgue, porra!

Celso Roth já disse que não vai dar para deixar o bigode, que o ornamento era de uma época em que ele era muito jovem e queria fazer-se respeitado… História. Bigode já!

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Uma utilização nobre para aquele tapume idiota da Praça da Alfândega

O tapume que impedirá a realização normal da Feira do Livro começou a ser utilizado de forma mais nobre nos últimos dias.

Fotos enviadas por Sergio Gonçalves

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Mera constatação, mas verdadeira pra mais de metro

Quando a ascensão social causa medo e perplexidade de Luiz Carlos Azenha.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Dois tópicos cinematográficos

AUTO-AJUDA ENTRE SEMIDEUSES E A CAIXINHA BERGMAN. Tenho desmedida admiração por Ingmar Bergman e Johann Sebastian Bach. O que não sabia, até anos atrás, era da admiração que Bergman nutria pelo alemão. Nos livros do diretor sueco, há referências diretas a Bach. Não são observações triviais ou meramente elogiosas, são observações de profundo conhecedor, de alguém que estudou inclusive o complexo simbolismo numérico que perpassa várias obras.

Ele diz ter utilizado a música de Bach nas cenas mais importantes de seus filmes ou, pelo menos, naquelas em que achava que a atenção do espectador pudesse ser dividida com a música. A escolha era quase sempre entre Bach ou o silêncio. No livro “Lanterna Mágica”, Bergman transcreve uma longa conversa que teve com o ator Erland Josephson. Nela, nos revela que, nos momentos de maior desespero, costuma contar para si mesmo uma história vivida por Bach.

Johann Sebastian havia feito uma longa viagem de trabalho e ficara dois meses fora. Ao retornar, soube que sua mulher Maria Barbara e dois de seus filhos haviam falecido. Dias depois, profundamente triste, Bach limitou-se a escrever no alto de uma partitura a frase que serve para consolar Bergman: Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim.

Bergman escreve em A Lanterna Mágica:

Eu também tenho vivido toda a minha vida com isto a que Bach chama “a sua alegria”. Ela tem-me ajudado em muitas crises e depressões, tem-me sido tão fiel quanto meu coração. Às vezes é até excessiva, difícil de dominar, mas nunca se mostrou inimiga ou destrutiva. Bach chamou de alegria ao seu estado de alma, uma alegria-dádiva de Deus. Deus meu, faz com que eu não perca a alegria que há em mim, repito no meu íntimo.

Às vezes eu, o limitado e ateu — tal como Bergman — Milton Ribeiro, repito esta frase. Ela me emociona, me acalma e me faz pensar que minha alegria ainda está ali comigo, tem de estar. É um grito infantil que reconheço facilmente e que ainda não me abandonou.

Deve ter sido um íntimo grito infantil o que bradei quando vi uma caixa com 4 filmes de Bergman à venda na videolocadora. Fiquei louco e arrematei O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela e Gritos e Sussurros. São filmes que conheço quase cena a cena. Só não entendo uma coisa: por que a caixa traz 3 filmes do final da década de 50 e um filme de 71? Por que esta confusão? Ao final dos 50, Bergman fez 5 filmes de enfiada que são a maior seqüência que um cineasta já realizou:

1955: Sorrisos de uma Noite de Verão,
1956: O Sétimo Selo,
1957: Morangos Silvestres,
1958: O Rosto e
1959: A Fonte da Donzela.

Então, por que tirar 2 e substituí-los por Gritos e Sussurros? Gritos está entre os meus 10 mais de todos os tempos, mas qual a razão desta falta de critério? Poderiam ter feito outra caixa com, por exemplo:

Gritos e Sussurros (1971),
O Ovo da Serpente (1976),
Sonata de Outono (1977),
Da Vida das Marionetes (1979),
Fanny e Alexander (1981) e
Infiel (que foi dirigido por Liv Ullmann mas possui texto, cor e pedigree deste grupo de filmes bergmanianos).

E outra com os muito citados e pouco vistos:

Através do Espelho (1961),
O Silêncio (1962),
Persona (1965),
A Hora do Lobo (1966) e
A Paixão de Ana (1968).

Chega de delírios!

INDICAÇÃO DE FILME BOM. Quero elogiar um tremendo filme. Trata-se Reconstrução de um Amor, criativa tradução de Reconstruction, filme dinamarquês de 2003, dirigido por Cristoffer Boe. A sinopse do filme nos leva a pensar em algo já visto: “Homem e mulher se conhecem e tentam se desvencilhar de seus relacionamentos para ficarem juntos.” O inédito do filme são os artifícios utilizados na montagem. Não pretendo estragar o prazer de ninguém, mas prestem atenção à voz do narrador quando ele diz: “Tudo aqui é montagem, mas mesmo assim dói”. Alguns comentaristas compararam o papel do escritor que há no filme (representado pelo ator Krister Henriksson) com alguns personagens de Bergman. Pode ser… É, talvez não tenha sido tão casual o fato de eu ter lembrado tanto do velho Ingmar nos últimos dias…

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Os dias mais felizes de minha vida futebolística

O critério é puramente emocional. Mas há cada golaço aí embaixo…

1. 05/12/1976 – Inter 2 x 1 Atlético-MG – Brasileiro de 1976 (Semifinal) – Um jogo dificílimo, muito bem jogado por duas equipes no auge de suas possibilidades. No final da partida, aos 45 minutos, um gol mágico de Falcão, ocorrido bem na minha frente… A jogada foi iniciada por Figueroa e Dario, sendo finalizada por Escurinho e Falcão. A final contra o Corinthians foi muito mais fácil.

Ou veja aqui.

2. 16/08/2006 – Inter 2 x 2 São Paulo – Libertadores de 2006 (Segunda partida da final) – Estava tão tenso que não vibrei com nenhum dos gols. No primeiro, achei que o juiz poderia dar falta em Rogério Ceni (não houve falta); no segundo, vi que o árbitro dirigiu-se a Tinga para coibir sua comemoração exagerada e pensei que ele, novamente, estaria anulando o gol. Aqui, o gol de Tinga.

Ou veja aqui.

3. 13/12/1979 – Palmeiras 2 x 3 Inter – Brasileiro de 1979 (Semifinal, novamente) – Mais uma final antecipada. Falcão marcou duas vezes. Um dos gols, só vendo. Foi a melhor partida de sua carreira. A final contra o Vasco foi mera formalidade.

Ou veja aqui.

4. 17/12/2006 – Inter 1 x 0 Barcelona – Mundial de 2006 – O destino foi irônico e nos premiou com um gol de Gabiru… Vale a pena rever a cara do Ronaldinho depois do gol. Nunca o vi tão bonito e pasmo.

Ou veja aqui.

5. 07/12/1975 – Fluminense 0 x 2 Inter – Brasileiro de 1975 (Semifinal, adivinhão!) – O Maracanã curvou-se ante nosso supertime de 1975. O zagueiro Silveira deve arrepender-se até hoje de ter cruzado seu destino com o de Carpeggiani. O seu pé direito está procurando até hoje aquela bola. Este jogo nos levou à final contra o Cruzeiro e ao primeiro título brasileiro.

Ou veja aqui.

6. 14/12/1975 – Inter 1 x 0 Cruzeiro – Final do Brasileiro de 1975 – Uma semana depois, a final. O gol não foi bonito e a falta que o originou nem existiu, mas foi o gol de Figueroa e as defesas de Manga que determinaram o maior upgrade para o futebol gaúcho, antes provinciano e sem títulos.

Ou veja aqui.

7. 20/05/2010 – Estudiantes 2 x 1 Inter – Quartas-de-final da Libertadores da América de 2010 – Pura sorte. O Inter não fazia por merecer a classificação, mas estava escrito que nosso amuleto Giuliano nos daria a chance de chegar à semifinal, à final e ao título, muito mais fáceis do que este jogo terrível na Argentina.

Ou veja aqui.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

As mãos de Karajan no Allegretto da Sinfonia Nº 7 de Beethoven

As mãos de Karajan… OK, é um belo vídeo e o Allegretto da 7ª é estupendo. Houve até um sujeito que escreveu um continho do qual o Allegretto era o cerne… Leia abaixo.

Ou clique a seguir, se a imagem insistir em não surgir em seu monitor.

Da Pretensão Humana

É sempre da mais falsa das suposições que ficamos mais orgulhosos.
SAUL BELLOW

Alexandre chegou apressadamente a seu consultório antes do horário habitual. Sentou-se na confortável cadeira em que ouvia seus pacientes e pegou o telefone. Aguardando que a respiração se apaziguasse, revisava mentalmente tudo o que desejava dizer a ela — àquela bela mulher que conhecera através de amigos na noite anterior. Limpou a garganta e discou. Tinha planejado uma postura que poderia ser descrita como seria gentil, agradável, carinhoso, inteligente, divertido, interessado e, dependendo do andamento da conversa, também picante. Era cedo, ela devia ainda estar em casa. Porém, a voz que tanto ansiava reencontrar chegou-lhe burocrática, pedindo-lhe para deixar um recado logo após o sinal. Tomado de agitação, procurou em seus pensamentos algo espirituoso. Depois de alguma confusão, finalizou a mensagem:

— Dora, se queres me conhecer melhor, ouve o segundo movimento da Sétima Sinfonia de Beethoven. Sou eu…. Alexandre. Um beijo.

Desligou o telefone sentindo-se um idiota. Permaneceu primeiramente avaliando aquele “Sou eu, Alexandre”. Dora pensaria que sua intenção seria a de dizer que o segundo movimento da Sétima descrevia a pérola de homem que ele era ou concluiria tratar-se apenas da assinatura final do recado? Ou, de forma mais benigna, será que Dora presumiria que o intento de Alexandre seria o de proporcionar-lhe uma lembrança agradável ou de fazer uma piada? Mas antes, ele dissera “…se queres me conhecer melhor, ouve…”. Como assim? Poderia alguém ser descrito por uma sequência de notas musicais? E Beethoven retrataria alguém como Alexandre logo por aquelas notas? O que Dora pensaria? Tinham conversado bastante na noite anterior a respeito do concerto a que assistiam com amigos comuns. No intervalo, ela disse ser uma ouvinte contumaz de Beethoven, também declarou que, em sua opinião, faltava aos barrocos do concerto daquela noite o drama e as afirmativas curtas e repetidas de seu compositor predileto.

— Vim a este concerto por insistência da Carla e do João. Há meses fico em casa com meu filho. Sou uma descasada recente.

Alexandre ficara instantaneamente apaixonado, transtornado mesmo. Desejava aquela mulher linda e inteligente, queria ser admirado por ela, mas, sentado em sua sala, começava a desesperar-se com a evidente bobagem que deixara gravado. O que significava aquilo de comparar-se ao compositor que ela amava? Ontem, para agradar a Dora, ele tinha derramado todo o conhecimento musical que lembrava sobre o compositor alemão. Ao final do intervalo, trocaram seus telefones a pedido dele. Agora, ainda sentado, pôs a cabeça entre os joelhos e disse em voz baixa que até a megalomania tinha que ter seus pudores.

E Dora? Acreditaria que toda a perfeição daquele segundo movimento pudesse ser uma representação de Alexandre? Iria recusá-lo por pretensioso? Ficaria constrangida e oprimida? Fugiria por não ser-lhe digna? Faria piadas com os amigos? Ou será que pensaria que ele, romanticamente, ambicionava ombrear-se aos semideuses para ser-lhe digno?

— Burro, burro, burro – pensou Alexandre, caminhando pela sala.

Dora ligou dali a três dias. Alexandre procurou marcar um jantar, porém foram-lhe impostas tantas restrições de horário, fosse para um jantar, fosse para um almoço ou café… Enfim, ela parecia ter tantos compromissos — principalmente para cuidar de seu filho — , que ele logo pensou tratar-se de uma negativa e despediram-se sem marcar um reencontro.

— Não surpreende — disse para si mesmo ao desligar.

Dali a dias, durante a festa do Dia dos Pais, Alexandre, um pouco alcoolizado, perguntou a seu pai:

— Pai, se tu quisesses conquistar uma mulher e tivesses a ideia de sugerir uma música para ela ouvir, que música poderia te representar?

— Ora, meu filho, sugeriria que minha futura amada ouvisse aquela música que a Maria Bethânia canta.

— Que música?

— Gostoso demais.

Sem dúvida, há megalomanias e megalomanias.

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!