Este homem está transtornado: Grêmio JÁ É favorito à Libertadores 2011

Qual sera o alucinógeno que a RBS põe no café de seus funcionários? Leiam o inacreditável texto de Diogo Olivier. Deixo aqui registrado para que confiramos em junho-julho do ano que vem.

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Grêmio pinta como favorito na Libertadores 2011

O futebol é traiçoeiro, esta á uma lição que se aprende logo. Então, dali a pouco o Botafogo de tantos azares e tragédias nas últimas décadas apronta para cima do Grêmio no domingo.

Ou o Goiás se enche de brio e festeja o título da Sul-Americana na Argentina contra o Independiente, o que seria uma zebra vistosa e lustrosa. Como não acredito nem na primeira, e menos ainda na segunda alternativa, penso que dá para dizer o seguinte.

O Grêmio é muito candidato ao título da Libertadores do ano que vem.

Delírio? Não creio. Entre os brasileiros que representarão o país em 2011, o Grêmio é o que está jogando mais. Ganha fora de casa (os 3 a 0 sobre o Guarani foram de uma naturalidade espantosa), ganha no Olímpico, faz gols de todas as maneiras, praticamente não os toma, tem o goleador, o melhor goleiro, o técnico do campeonato e não deve perder ninguém para o próximo ano.

O time está pronto. Se contratar pontualmente (um lateral-esquerdo, um zagueiro e um volante) jogadores de qualidade superior, terá time titular e grupo de fazer inveja. Isso sob o comando de Renato Portaluppi, obviamente.

Renato é o mágico deste show que foi o Grêmio no segundo turno. E não é tiro curto. Renato já enfrentou as mais variadas situações e tirou todas de letra (desfalques, expulsão, desvantagem no marcador, armadilhas táticas).

Para completar, os dois superclubes da Argentina estão fora: Boca Juniors e River Plate. O Estudiantes mostra sinais de cansaço. Os times uruguaios tornaram-se medianos, distantes daquelas esquadras de até os anos 80. Restamos brasileiros, e entre os brasileiros quem vem jogando melhor é o Grêmio.

Se o Grêmio ficar mesmo com a quarta vaga e contratar dois ou três reforços, talvez nem isso, é favorito ao título da Libertadores.

Que virada de ano surpreendente no Olímpico, que se viu preparando o rebaixamento a certa altura.

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A Chegada de António Barbeiro ao Brasil (I)

À guisa de explicação: António Barbeiro é um personagem criado pelo blogueiro português Romasi (Rogério Simões), meu amigo e que mantém o curioso Poemas de Amor e Dor. Ele permitiu que eu desse continuidade à história de seu personagem António, um notável escritor de cartas e, é claro, barbeiro. Transcrevo a seguir — em itálico — um pequeno texto do Romasi no qual ele nos apresenta António Barbeiro. Logo após – em caracteres convencionais -, está a primeira parte de minha história. Rogério jamais imaginaria onde António foi reaparecer…

O António da minha imaginação era um homem notável — barbeiro de profissão e médico-enfermeiro nas horas vagas. António buscou o saber nos velhos livros de medicina e, porque era letrado — poucos na sua Aldeia aprenderam a escrever — , escrevia e lia as cartas do povo. Mas António “Barbeiro” gostava de ouvir! (Os barbeiros escutam sempre e nem sussurram as confidências!).

E, mal tardasse a noite, pé ante pé como se fosse um salteador, acendia o velho aparelho que sintonizava a Rádio Moscovo. António era um homem prevenido. À noite colocava por cima do rádio um copo de água e no silêncio das quatro paredes se a telefonia emitia uns silvos esquisitos, baixava o som até quase não ouvir:

— Não viesse por ali algum “bufo”para o denunciar ou agente da polícia politica para o levar.

Mas o “Barbeiro” que sabia tanto… procurava descobrir na onda curta, da telefonia, o que as emissoras oficiais não lhes contavam. Foi por isso que ouviu dizer que os comunistas iriam libertar o povo e que as mulheres iriam votar…

Talvez por isso que o António, barbeiro de profissão, enfermeiro e escritor nas horas vagas, escrevia “abusivamente” nas entrelinhas, algumas linhas, com recados pessoais para quem eram dirigidas as cartas. Certa noite, de intensa tempestade, o António Barbeiro desapareceu e ninguém mais o viu vivo! Dizem na Aldeia que conhecia os caminhos como ninguém!

António chegou de navio ao Rio de Janeiro num dia ensolarado de verão. Gostava do calor e, após hospedar-se, saiu a passear pela cidade. Em frente à Biblioteca Nacional, comprou um mapa do Brasil e começou a procurar por Antares, no Rio Grande do Sul. Tinha lido “Incidente em Antares”, de Erico Verissimo, e decidira que moraria novamente em uma pequena cidade, exatamente aquela. Só que ele não encontrou Antares no mapa, concluindo logo que tal cidade só existira na mente de Erico. Voltou à pensão para — dentre as poucas coisas que trouxera às pressas de Portugal — procurar seu exemplar do livro. Amaca Erico. Descobriu que o autor nascera em Cruz Alta, no mesmo Rio Grande do Sul. Era uma cidade pequena. Iria para lá.

Comprou passagens para o sul e, dois dias depois, estava chacoalhando dentro de um ônibus. Dormiu uma noite em Porto Alegre e embarcou em novo ônibus com destino à cidade natal daquele escritor que fazia os mortos saírem de suas tumbas a fim de enfrentar os poderosos do dia, pois só eles teriam coragem para tanto.

Cruz Alta era como ele imaginara. Caminhou pelas ruas tranquilas e sentou-se na praça principal. As pessoas que passavam o cumprimentavam. Não havia ali espaço para o anonimato e logo sentiu-se alvo de olhares. Pensou que deveria entabular conversação com alguém que não lhe criasse problemas, mas que havia tempo para fazê-lo com calma. Em frente à praça, havia um consultório dentário onde se lia: João Nepomuceno Cunha Filho — Cirurgião Dentista. Gostou daquele nome e algo difuso — talvez a cor da casa, sua localização, as letras da placa de metal — , dizia-lhe tratar-se de alguém confiável, de boa instrução, amigo; alguém semelhante a Erico. Falaria com aquele homem.

Esperou até o final da tarde e, quando concluiu que o último cliente entrara, sentou-se na ampla sala de espera. Ao despedir-se de sua vítima, o Dr. João Cunha surpreendeu-se com aquela figura desconhecida e sorridente encarapitado no sofá.

— Como vai? — disse o dentista.

A resposta de António fez com que João Cunha risse, pois o que menos esperava era ouvir aquele sotaque puramente português.

— O senhor fala como meus amigos de Portugal!
— Ah, sim? O doutor tem muitos amigos portugueses?
— Sim, tenho amigo por todo o lado sem nunca ter ido muito longe daqui. Sou rádio-amador.
— Que interessante!

O português tinha boa conversa e João convidou-o para ir fumar na praça. Lá ficaram até às oito da noite, quando Débora, a esposa do dentista, veio chamar-lhe para o jantar. A curiosidade era mútua; António interessou-se por aquele dentista interiorano que desejava ser cosmopolita, enquanto João ficara encantado com aquele português tão informado que fora parar ali apenas por amor ao famoso filho da cidade.

— Onde o senhor está hospedado? — perguntou-lhe João Cunha.
— Estou no Hotel Santa Helena – respondeu António. – Convido o senhor a visitar-me. Devo encontrar um Adriano na cidade para oferecer-lhe.

João Cunha riu.

Ao entardecer do dia seguinte, o dentista abriu as cortinas de sua casa e viu António na praça com um jornal enrolado nas mãos. E assim ocorreu dia após dia. António passou a frequentar a casa do doutor — às vezes ficava operando sozinho o rádio-amador — , brincava com seus filhos e até passou a fazer-lhe a barba e a cortar o cabelo de seu filho João Reinaldo, sempre na cadeira de dentista. Em Cruz Alta, o rádio-amador servia de sucedâneo para as cartas que tinha deixado de escrever, mas tinha receio de procurar a Rádio Moscou. Com jeito, sem informar seu nome, perguntava aos rádio-amadores portugueses sobre as novidades do país. O que informavam — com todo o cuidado e muitas vezes através de intrincadas analogias — era deprimente. Certo dia, João perguntou-lhe se ele não desejava voltar a trabalhar.

Era o que António queria ou, mais exatamente, precisava. Não tinha vindo de Portugal com tanto dinheiro e necessitava voltar logo à ativa.

– Adoraria, João.
– Há uma barbearia perto do 17º Regimento de Infantaria. A casa é de minha familia e o barbeiro me paga aluguel. Quer dizer, paga quando quer e pode. Há dois quartos atrás que estão desocupados. O homem que trabalha lá — de nome Orlando — é um bêbado e os milicos não o suportam. Dou um jeito de te colocar lá. Vocês podem trabalhar lado a lado. Haverá freguesia para isto.

– Este homem tem família?
– É sustentado por uma santa, a Dora. Vou resolver o caso para ti.

Alguns dias depois, António voltou a trabalhar. A princípio trabalhava pouco, pois os militares o preteriam em favor do conhecido Orlando. Com António a seu lado, Orlando teve seu último período de abstinência, voltando a trabalhar sóbrio; depois, quando percebeu que António “roubaria” pouco a pouco a maior parte de sua clientela, voltou a beber. A qualidade principal de um barbeiro, segundo António, era, além de proporcionar um bom corte, a audição. António, que não apreciava muito os militares, logo notou que os dirigentes do país adoravam fazer bravatas e confidências que, somente em suas bocas, tinham o poder de alterar o rumo da vida de toda a gente. O que António não sabia é que sua amizade com o Dr. João Cunha e o pouco que falava sobre livros e Europa estavam tornando o barbeiro português uma respeitável figura da cidade. Todos queriam seus serviços, o que significava, para António, que todos desejavam ser ouvidos por ele.

E António ouvia.

(continua)

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OSPA: a verdade que salva e liberta

Sim, eu sei. Meus sete leitores vêm aqui sempre em busca da verdade que salva e liberta. Então lhes digo que o primeiro clarinetista da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), Augusto Maurer, acertou na longa argumentação onde defendeu a ausência de regente titular na OSPA a partir de 2011. O músico fê-la publicar (chupa, Machado!) na edição de hoje do brioso Caderno de Cultura de ZH na forma de uma Carta Aberta ao futuro Secretário de Cultura do Estado, Luiz Antônio de Assis Brasil. Seu texto chegou convenientemente a nossa caixa de e-mails há mais ou menos uma hora.

O fato é que a discussão estava em banho-maria até o concerto da última terça-feira, quando o nervosismo da Orquestra fez entornar a água que aquecia o destino da Orquestra, deixando a coisa, para dizer o mínimo, bastante mais quente. Metemos nossa colher torta no debate e houve reações de diversos calibres – de Piaget a Pinochet, de Ademir da Guia a Edinho. Traduzo: houve reações compreensivas, reflexivas e serenas e outras surdas, truculentas e inábeis.

Comprovando que o dedo deste comentarista e de outros têm penetrado em locais bastante desconfortáveis do corpo da Orquestra, tivemos reações que merecem cuidadoso catálogo, apesar de que será mantida a identidade dos manifestantes em obsequioso sigilo, pois estamos cansados de processos, uf.

1. A ala Pinochet: Houve quem ressuscitasse a Segunda Escola de Viena ao flautear que estranhava nossa arrogância ao ousar fazer críticas aos andamentos do último concerto, ainda mais por serem advindas de um simples melômano, donde concluo que sou inadequado para criticar a Orquestra e, consequentemente, de ouvi-la, pois os seres humanos insistem em estabelecer juízos críticos mesmo sobre aquilo que não dominam e, mesmo sendo um reles melômano daltônico e cambota, ainda me classifico entre os seres humanos, até por gerado ter dois deles. (Não lhes disse que hoje dotei-me do poder de apenas declinar nestas linhas a verdade que salva e liberta?). O que mais nos estarrece neste grupo é a forma calorosa com que recebe nossos elogios, o que diz muito mais sobre a natureza humana do que toda a Obra de Paulo Coelho.

2. A ala Piaget: Mesmo hostis a este comentarista, a ala Piaget busca compreender nossas razões e a aqui declino outra verdade que salva e liberta: “Quem compreende perdoa”. Obviamente, é possível conversar com esta ala articulada da Orquestra que busca com seus arcos algum resquício de lógica em nossas opiniões e que, espertas, respeita os sete leitores que nos visitam.

3. A ala Ademir da Guia: esta ala é assim chamada pela serenidade e concordância com nossas teses. Como sou um ser humano dotado de falhas, inclino-me a achar inteligentes as pessoas que concordam comigo. Como pontuou Marcelo Backes em tempestiva manifestação, Serenidade é alegria, tranquilidade, sabedoria e clareza, tudo isso num som que ecoa o azul do céu e a claridade do éter. Parece a descrição do futebol de Ademir da Guia, não? Bem, esqueçam. O fato é que a bloco hostil (ver 1 e 2) foi furado de forma consistente quando músicos disseram que, sim, os andamentos estavam rápidos – bem como eu disse – talvez em função da péssima acústica. Este argumento é duplamente inteligente e não é por concordar comigo: (1) ele encaminha uma explicação e (2) projeta a discussão a outro nível, o da absurda e obscena penúria de uma instituição que os gaúchos dizem amar. (Imaginem o que fariam se a odiassem!!!). Os Pinochets não veem que o importante está logo ali atrás da questiúncula!

4. A ala Edinho: Jogando com três volantes na proteção da zaga, esta ala é irremediavelmente retranqueira e acha que os problemas da Orquestra devem ser discutidos reservadamente, como se não fossem “coisa pública” e sim pura magia. Não sei, mas acho que os gabinetes não têm sido legais à OSPA, que – e agora deixamos de lado as brincadeiras para adquirimos o cenho sério de quem vai falar grosso – está sem teatro, sem local para ensaios, sem regente, com defasagens pecuniárias, necessitada de mais músicos e, voltando à verdade que salva e liberta, cansada de tudo isso, tal como os ouvintes. Pois lhes afirmo que o cansaço é audível sim.

O catálogo acima deve servir como demonstração de que, quando a confusão impera, cada um corre para o lado que melhor lhe apraz, enquanto fala pelos cotovelos. Então, procuraremos objetivar para que nossos leitores, já sabedores do esquema das pequenas tragédias que cercam a OSPA, entendam o que há por vir.

Augusto Maurer pede para que Isaac Karabtchevsky seja substituído parcialmente em suas funções como regente e diretor artístico. Ele sugere Celso Loureiro Chaves ou Ney Fialkow para a direção artística da OSPA e a extinção da figura de regente titular. Concordo 100% com ele neste último quesito. Sobre os nomes sugeridos, tenho certeza de que o primeiro é excelente. Sei que ele não deixaria a Orquestra neste marasmo de repertório que é seu habitat atual. Só conheço Ney como pianista, então não posso nem cantar suas qualidades nem expor-lhes os defeitos. Mas o Augusto sabe julgar, posso garantir.

Mas você pergunta: por que é ruim ter um regente titular? Ora, além das razões explicitadas pelo Augusto abaixo, eu, como arauto da verdade, digo-lhes: os regentes titulares privilegiam seus concertos, além de terem a tendência de estender seus corpos na maldita “zona de conforto”, local inadequado para artistas, como vocês sabem.

Mas você ainda pergunta: esta é a maior das vicissitudes da OSPA? Não sei, porém, em minha opinião, é a primeira a ser tratada e então urge resolvê-la com critério, bom senso e caldo de galinha. Depois, há o repertório (argh!), os concursos, o teatro e a glória perdida. Como há um longo caminho para percorrer, certamente será melhor deixarmos o rebotalho e o regente único em casa. E, antes de nos despedirmos, somos obrigados a deitar aqui mais uma verdade daquelas que salvam e libertam: estaremos sempre ao lado da Orquestra, pois, não obstante nossas críticas aqui e ali, amamos a música e quem a faz. Podem contar conosco.

~o~

Carta Aberta ao futuro Secretário da Cultura do Rio Grande do Sul, por Augusto Maurer

“Sempre defenderei o regime estatutário de contratação pública por ser o único sob o qual se pode dizer o que se pensa.”

LUIS OSVALDO LEITE, quando presidente da OSPA

Caro secretário,

não é preciso muita imaginação para adivinhar que, desde que sua participação no próximo governo do Estado foi anunciada, o senhor tenha se tornado alvo de intenso assédio por parte de uma variada gama de aspirantes a cargos de confiança vinculados a sua pasta. É, assim, igualmente fácil adivinhar que a corrida aos cargos com lotação na administração da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre também já esteja a pleno vapor, ainda que, compreensível e estrategicamente, distante dos olhares da mídia.

No delicado momento de transição governamental, em que mazelas e vícios administrativos facilmente se perpetuam ao mesmo tempo que virtuosos e legítimos anseios se postergam por, na melhor das hipóteses, ao menos mais quatro anos, tomo a liberdade de lhe falar franca e abertamente sobre a natureza e particularidades da gestão artística de corpos sinfônicos.

Pelas razões e circunstâncias abaixo, penso que as últimas coisas das quais a Ospa precisa, em nome da qualidade de sua programação e de seu progresso artístico, sejam mais um regente titular e outro maestro de carreira como seu diretor artístico.

Instituições públicas, dentre elas as culturais, são corpos volumosos cuja evolução é tremendamente limitada pela forte inércia de tradições caducas, por vezes blindadas à crítica e à atualização. É sabido, também, que em nosso sistema político a participação na esfera pública é muitas vezes não mais do que uma figura de linguagem exclusivamente presente na retórica eleitoral – já que, quando se trata de ocupar os cobiçados assentos de um governo, políticos eleitos costumam se voltar não à sociedade mas, invariavelmente, a quadros ociosos de sua base partidária de apoio – as honrosas exceções, neste caso, apenas confirmando a regra.

Ocorre, então, que, na pirâmide descendente de confiança decrescente das administrações direta e indireta, acabamos governados por afiliados e/ou afilhados políticos que jamais obteriam o consentimento social para o exercício das funções que desempenham. Não quero aqui, no entanto, falar de política, mas de suas nefastas implicações na gestão da coisa pública cultural, musical em geral e sinfônica em particular.

Qualquer músico que tenha tocado por algum tempo em orquestras sinfônicas públicas e, gosto de acreditar, ao menos a parte mais atenta de seus ouvintes percebe que uma orquestra qualificada toca melhor e mais motivada sob variadas batutas igualmente qualificadas do que quando submetida ao pulso tirânico, imutável e entediante de uma única. É claro que essa regra não vale para a escassa categoria dos regentes exponenciais, sonhos de consumo de qualquer orquestra – cujos honorários artísticos, no entanto, são comumente cotados muito além do cacife da grande maioria das orquestras, na qual a Ospa está incluída. Quando, todavia, uma orquestra de média magnitude logra, contrariando quaisquer expectativas, contratar para uma longa residência um desses salvadores, o resultado é, quase sempre, o seguinte.

O ás da batuta contratado como salvador logo se entedia da lida corriqueira com os mesmos músicos (a menos, é claro, que estivéssemos falando da Filarmônica de Viena ou similares). Como corolário, não tarda a descobrir (se já não sabia) que o melhor caminho para a superação deste quadro depressivo é o portão de embarque do aeroporto. Com efeito, regentes exponenciais são cidadãos do mundo, vivendo em hotéis e flertando com os melhores conjuntos do planeta a lhe disputar a agenda. Daí se tem que mesmo orquestras respeitáveis, como, por exemplo, a Filarmônica de Los Angeles sob Gustavo Dudamel, tendem a cair em abandono quando confiadas a salvadores notáveis.

Descartados, desse modo, os gênios, os prognósticos são ainda menos auspiciosos quando batutas públicas são delegadas apenas às mãos de um único regente suficientemente bom. Por uns poucos meses, o jovem, ambicioso, aplicado e, talvez, inocente maestro cativará orquestra e audiência até que, inevitavelmente, seu repertório se esgote – quando, então, também tomará, por pânico ou ambição, o caminho do aeroporto. Só que, não pertencendo ao concorrido jet set dos astros da batuta, terá sua arena de atuação limitada a orquestras geridas por pares pertencentes a sua rede de contatos, às quais se fará convidar mediante convites recíprocos para reger a orquestra que lhe foi confiada. Tal prática pode ser facilmente comprovada mediante o simples cruzamento entre a agenda do regente titular e as dos convidados de uma orquestra. Um exame mais cuidadoso das mesmas também revela que titulares itinerantes se valem amiúde de orquestras às quais atribuem menor prestígio (provincianas, como alguns as designam) como plataforma de treinamento para enfrentar repertórios mais exigentes diante de audiências mais cosmopolitas.

Nesse cenário pessimista, muitos já anteviram, como uma luz no fim do túnel, a possibilidade, jamais posta em prática no âmbito da OSPA, do não preenchimento, pela Secretaria de Cultura e pela Presidência da Fundação, de seu cargo de regente titular – ficando, neste caso, a qualidade da programação e o entusiasmo do conjunto assegurados mediante realização de uma temporada de concertos a cargo de regentes convidados para residências de curta duração – contratados, por sua vez, com os próprios recursos, geralmente volumosos, outrossim alocados à manutenção de titulares onerosos e de curta validade. Neste modelo, que já me resignei a considerar como utópico, repertórios, solistas e regentes convidados seriam fruto de um consenso viabilizado pela existência e atuação, de fato e de direito, de uma entidade colegiada com força deliberativa composta paritariamente pelo poder público, a orquestra e sua audiência. Gosto de pensar nisso como uma instância ideal do tão alardeado e nem sempre aplicado controle social.

Feito isso, restaria ainda ao secretário de Cultura e ao presidente da Fundação a complexa atribuição de designar para a Ospa um diretor artístico. Como amante e artífice das letras, talvez não lhe seja estranha uma passagem da formidável novela Árvores Abatidas – Uma Provocação (trad. Lya Luft, 1985), do grande Thomas Bernhard, em que o herói e alter-ego do autor cinicamente prevê, num banquete cultural em Viena, o inexorável declínio do prestígio de um incensado diretor artístico recém designado para um importante teatro em razão direta do desgaste inerente ao exercício do próprio cargo. Tivéssemos aqui mais tempo, traçaríamos sem dúvida deliciosos paralelos entre O Homem Amoroso e a novela de Bernhard.

Devo, no entanto, me ater, por hora, ao futuro da Ospa e, indo direto ao ponto, chamar a atenção para o fato de que a escolha de seu diretor artístico não deve de modo algum se restringir àqueles que sejam também maestros por ofício (empíricos) e/ou formação (diplomados). A tradição de que diretores artísticos de orquestras sejam, quase sempre, profissionais da batuta se deve exclusivamente ao fato de que, para atrair salvadores, tidos por muitos gestores como escassos, organizações sinfônicas recorram com freqüência ao duplo expediente de lhes permitir o acúmulo de vencimentos por ambos os cargos (de regente titular e de diretor artístico) – lhes garantindo, ao mesmo tempo, a centralização das decisões que lhe afetam a programação (uma moeda valiosíssima, como vimos acima).

Onde e como procurar, então, dentre os não maestros, aqueles com o perfil mais recomendável para exercer a direção artística de organizações sinfônicas? Evidentemente, entre os que mais conhecem música, isto é, músicos, compositores, musicólogos, críticos e, last but not least, ouvintes – desde que, é claro, comprometidos com a premissa anterior de gestão social da coisa artística pública. Pois, é bom lembrar, assim como a Osesp recorreu a Arthur Nestrovski para (espero) varrer o ranço autoritário de Neschling, penso que aqui Celso Loureiro Chaves (oxalá aceitasse!) ou Ney Fialkow, para citar uns poucos e apenas à guisa de exemplo, poderiam realizar, dada a magnitude de sua autoridade musical, um trabalho excelente e sem precedentes entre maestros diplomados ou empíricos à frente da gestão artística da Ospa.

Por isso, apelo para sua sensibilidade sem ser ingênuo em relação a forças políticas que se sobreponham eventualmente a seu cargo. Lembro, no entanto, que não raro esferas artísticas sirvam de contextos propícios ou mesmo ideais para movimentos em direção ao progresso social – como, por exemplo, na célebre instância em que o grande Kurt Masur chegou a ser cogitado para exercer o cargo de chanceler da Alemanha recém unificada.

Deste modo, se tiver a oportunidade e o apoio necessários para inovar em relação à gestão social e participativa da Ospa, dará um grande passo tanto no âmbito da cultura como no da política em nosso estado. Senão, terá sido para mim ainda assim um prazer debater e amadurecer ideias progressistas com alguém de sua estatura humanística.

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A Indústria do Elogio e A Arte do Combate

Publicado em 9 de outubro de 2003

Ia escrever sobre o blog português O Meu Pipi, mas, por pura sorte, entrei antes no blog do Inagaki e vi que ele já o fizera. Fica prá próxima, pois assunto é o que não falta.

Sempre me preocupa o fato de que há um sistema de “compra de comentários elogiosos” na blogosfera. A coisa funciona assim: eu visito um blog e escrevo um elogio, então o recebedor do afago fica em dívida comigo e se obriga a retribuir minha visita; nesta ocasião, ele convenientemente se desmancha de amores por meu último post. É isto. Gosto muito de visitar blogs e de deixar comentários neles. Fico feliz quando abro qualquer de meus blogs preferidos e vejo que há post novo. Estou no esquema, mas tenho muitas restrições.

Vou fazer uma confissão: confesso que – algumas vezes – me comportei como Machado de Assis quando escrevia sobre as obras de seus amigos: busco algo de positivo nos posts que leio e deixo de lado o que me desgosta. E, quando não encontro nada de positivo, simplesmente vou embora. Não creio ter sido hipócrita a ponto de elogiar o que detestei ou o que não li. Mas já fiquei muitas vezes intrigado ao receber comentários laudatórios que ignoravam e até contrariavam a tese defendida por meu texto. Ou seja, os autores das pequenas notas não haviam lido o post… Isto é uma temeridade, pois o maior interessado em ler o comentário é a pessoa que mais conhece o post.

Voltando a meu assunto. A esmagadora maioria dos blogueiros só comenta para louvar. Entramos nos blogs alheios como se entrássemos numa sala de estar desconhecida e formal, onde devemos nos comportar com fineza. Temos apenas sorrisos para nossos anfitriões e, se eles cometem uma gafe, voltamos pudicamente o rosto para o lado. Só que não estamos entrando na sala de estar de outrem, o blog é um espaço público onde há exposição e pode haver, eventualmente, críticas. Qualquer um que se exponha está sujeito a críticas, seja ele artista, jogador de futebol ou blogueiro. Se não temos intimidade com o anfitrião, é natural que sejamos educados, agradáveis e indulgentes, mas não é muito natural mantermos esta postura para quem não está “fazendo sala” para nós, mas sim opinando, poetizando, fantasiando, inventando, criando. Isto é, ficamos sorrindo para um anfitrião que se comporta como um louco. Em quatro meses de blog, posso dizer que recebi apenas um comentário discordante, obra do citado Inagaki. Ele foi veemente ao defender uma opinião contrária à minha. Não houve ofensa, nem repercussão, apenas discordamos cordialmente e permanecemos amigos e leitores mútuos. Outro blogueiro, o Zadig, me confidenciou que evita deixar comentários quando não gosta do post, é uma opção que o protege da hipocrisia.

Já eu devo ter lido centenas de posts que achei detestáveis, mas somente combati quando percebia que o dono do blog era muito inteligente e aberto ao contraponto. Ousei discordar do genial Pro Tensão – e não aconteceu nada -, do Ladeira da Memória (que espero seja reativado logo) – e não aconteceu nada -, do Literatus – a Andréa até agradeceu a interferência e, dias depois, convidou-me para escrever um artigo para o site literário de uma de suas clientes -, etc. Ou seja, não precisamos viver da indústria do elogio. Nossos grupos de comentários se ampliarão ou diminuirão com ou sem eles.

Mas por que estou pensando nisto? Por analogia à obra que meu amigo Marcelo Backes – um imenso intelectual gaúcho que está morando na Alemanha – lançará nos próximos dias pela editora paulista Boitempo. Ele abandonou temporária ou definitivamente suas excelentes traduções de Kafka, Goethe, Heine, etc., e escreveu o livro “A Arte do Combate”. No ano passado, durante sua visita anual ao Brasil, ele me comentou que julgava asquerosa a forma como os escritores gaúchos falavam da genialidade de seus colegas, por literariamente díspares e intimamente hostis que fossem. Não interessa a obra, o escritor X publica elogios rasgados a Y e fica esperando que venha a contrapartida. Um dia ela virá. Backes recusa-se a participar deste esquema, pois a eliminação da crítica e da pluralidade de opiniões não servem à literatura e só se justificam para enganar o público, fazendo-o comprar obras de segunda categoria. Na Alemanha, segundo Backes, a coisa é muito diferente. Os escritores combatem por suas opiniões e o resultado é uma das melhores literaturas da Europa, certamente muito acima da francesa e italiana, por exemplo. Não sou ingênuo a ponto de achar que apenas isto crie uma grande literatura, mas acredito que eventuais “combates” entre seus protagonistas não a prejudiquem.

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Mônica acorda, Paulo pragueja, Adriana seduz, Marcos viaja (fragmento)

Mônica acordou lentamente com a luz da manhã entrando por sua janela. Deitada ainda, seu rosto estava voltado para o céu nublado, o que fazia seus olhos parecerem muito úmidos e claros. Tinha 40 anos e gostava deste despertar lento e preguiçoso. Sempre evitara trabalhar cedo; alguns pensavam que ela ou tinha dificuldades para dormir ou tinha uma vida noturna movimentada demais para sair de casa cedo. Raramente alguém estranho a tinha visto em pé antes das 10h da manhã.

Sem virar o corpo, tateou atrás de si para assegurar-se da ausência do marido. Estava sozinha e a comissura de seus lábios denunciaram um leve sorriso. Durante o dia, aquele era o único momento todo dela, em que podia ficar apenas lendo, ouvindo música muito baixo ou pensando… Movo-me no vago plano estético da literatura. O que o autor desejará de mim hoje? Sorrindo a tais pensamentos, conjeturava sobre a agenda do dia, até que os barulhos da casa começam a chegar até ela. Reconhece o som de sua mãe caminhando pelo corredor, depois o da porta do banheiro, descarga, pia, escovar de dentes, porta do banheiro novamente e o som da cadeira de balanço. Por que sentou-se antes de tomar café?

Decide não preocupar-se com isto e estende o corpo para pegar a biografia do pianista Glenn Gould que está sobre o criado-mudo. Abre o livro na página 105 e lê. Desde o início de sua carreira de concertos, Gould falava bastante em abandoná-la. Fecha o livro e vira-se, deitada agora de costas, olhando o teto. O silêncio do quarto era um obstáculo às palavras.

~o~

Sou um homem pequeno, culto e pacífico. Raramente altero meu tom de voz gentil e cortês. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mantenho uma postura tranquila. Na verdade, minha gentileza é tão completa que tenho o costume de atrair todas as desgraças e culpas para minha pequena pessoa. Isto me torna alguém muito adequado para certos amigos e mulheres. Esta disposição é belamente ornamentada por meu aspecto físico. Parece ser mais simples culpar alguém que — além de gentil — é pequeno. Minha extrema gentileza retarda ou extingue qualquer reação de minha parte e, mesmo que reagisse descontroladamente — com uma agressão física, por exemplo — penso que causaria mais surpresa do que lesões a um homem comum. Há momentos em que me torno irritadiço e exacerbado. Mas só consigo chegar a este estado quando solitário.

É bom que lhes diga que tenho absoluta necessidade de não criar uma imagem própria que seja muito diferente da realidade. Da que represento. Às vezes, me atrapalho ao oscilar entre a gentileza de não querer magoar e a franqueza de não distorcer, coisas que estão entre minhas mais imperiosas necessidades internas. Tão imperiosas que muitas vezes hesito e deixo minhas frases pela metade.

Estou vivendo temporariamente com uma mulher bem maior do que eu, em todos os sentidos. Sim, meus amigos, ligar minha vida a alguém fisicamente tão abundante, com uma personalidade tão magnífica, com uma inteligência tão abrangente e com um poder econômico tão avassalador foi, no mínimo, uma imodéstia, pois sou diminuto em todos estes quesitos. Deixei-me levar pela euforia de ter-lhe conquistado a confiança. Ela queria um filho imediatamente, estava na idade de tê-lo. Temos um filho.

(continua?)

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O Questionário de Proust (V) – Responde Flavio Prada

Publicado em 14 de fevereiro de 2007

Amigos.

Na última quarta-feira, por pura sorte do blog, pedi a vários amigos para responderem a este questionário. Digo “por pura sorte do blog” porque, se não fosse o fato de muita gente tê-lo respondido, isto aqui estaria provavelmente parado. O que houve? Ora, no dia seguinte, minha mãe desabou sozinha em sua casa, batendo fortemente a cabeça. Desde então está hospitalizada. Ela tem 79 anos e a queda deixou-lhe alguns sangramentos cerebrais ainda não absorvidos. Talvez não precise de cirurgia, mas está muuuuuito confusa. Meus dias têm sido uma correria. Há o trabalho e há minhas três mulheres: uma no hospital, outra me auxiliando como pode e outra esperando – numa boa – alguma diversão durante suas férias comigo. As duas últimas não cobram nada. São uns amores. O problema é minha ânsia em atender a tudo e a todos com qualidade. Olha, normalmente sinto-me muito bem sendo filho, amante e pai; quando isso pesa, é porque não estou bem. Amanhã de manhã, depois de ter levado a Bárbara na equitação – sua maior paixão – e depois de marcar outras aulas em todas as próximas manhãs (cavalos não pulam carnaval), vou me sentir melhor e ainda vai faltar a Claudia…

Enquanto isso, vou mostrando para vocês as respostas. Hoje, vou de Flavio Prada. Bobagem explicar quem é. Vão a seu blog que vale – e como! – a pena. Conheço-o pessoalmente. Talvez vocês não imaginem quão multimídia esse cara é: arquiteto, artista plástico, guitarrista, tecladista, cineasta caseiro, escritor e cozinheiro. Garanto que ele é ótimo nas duas últimas funções. Na casa dele, só me sobrou lavar a louça. Achei suas respostas engraçadas e às vezes um tantinho mal-humoradas… Mas quem é que manda encher o saco dos outros com questionários, porra?!

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

O pior defeito das outras pessoas é que elas não são eu mesmo.

Como gostaria de morrer?

Quando estivesse ainda vivo.

Qual é seu estado mental mais comum?

Frio e preciso. Ou seja, “frio” porque o espaço vazio é sempre mais frio. E “preciso” porque preciso entender o que é “estado mental”.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Eu mesmo.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Ficar atento à respiração, da manhã até à noite.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Mario.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Recorro à faculdade de nao responder algo que possa me comprometer legalmente.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

O mais plausível ao retornar depois de morto: ossos.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando digo: “pra falar a verdade…”

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Nao responder à perguntas.

Qual é seu maior medo?

Receber perguntas para responder.

Qual é seu maior ressentimento?

Esquecer guarda chuvas nos lugares.

Que talento desejaria ter?

Pergunta inútil.

Qual é seu passatempo favorito?

Olhar o relógio.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Pergunta inteligentíssima, mas eu não posso.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Crianças com fome.

Onde desejaria viver?

O que quer dizer? Eu já estou vivo!

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Não sei o que isso quer dizer.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Preciso de muito tempo pra responder isso.

Quando e onde você foi mais feliz?

O “mais” da pergunta objetiva excluir todos os outros bons momentos que tive e tenta me obrigar a eleger apenas um, como se fosse lógico que uma vida pudesse encontrar sentido em algum píncaro de glória, em algum fugaz átimo de ilusória alegria. Querem me reduzir a um ansioso infeliz, na verdade. Vão tomar no cu.

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O Questionário de Proust (IV) – Responde Luís Graça

Publicado em 12 de fevereiro de 2007

Luís Graça tem 44 anos e nasceu em Lisboa. Jornalista de profissão, é atualmente freelance. Freqüentou recentemente um workshop de criação teatral com o dramaturgo José Sanchis Sinistierra, no Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa.

Como obras individuais publicou “A Idade das Trovas” (Editora Universitária, 1999, poesia), “Meia-Dúzia de Maldades”, teatro, Inatel, 2000), “De boas erecções está o Inferno cheio, Polvo, 2004, poesia), “O homem que casou com uma estrela porno e outros contos perversos” (Polvo, 2003), “Neura 2004” (contos, Oficina do Livro, 2004) e “Fado, Futebol de Farpas, uma ventura psicadélica” (edição de autor, 2006, romance).

Começou a publicar no DN-JOVEM, suplemento literário para jovens até 25 anos, criado pelo “Diário de Notícias”. A sua escrita abarca os campos do romance, contos, poesia lírica e satírica, teatro, ensaio.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

A hipocrisia.

Como gostaria de morrer?

Tranqüilamente, durante o sono. A olhar um pôr do sol, como os índios, afirmando: “Está um belo dia para morrer”; de espada na mão, como um viking.

Qual é seu estado mental mais comum?

Actualmente, bastante irritado, com o momento actual do mundo. O termo mais correcto será revoltado. Algumas vezes, deslumbrado com as pequenas pérolas de que desfruto, seja no cinema, no teatro, na televisão, nos livros, nos CD, nos sorrisos das mulheres bonitas, nos afagos dos cães e dos gatos.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Corto Maltese, de Hugo Pratt. Simboliza o romantismo, o herói rebelde e muito humano, recheado de mundo e de vida.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Ter oferecido 40 cravos a 40 mulheres desconhecidas, no dia dos meus 40 anos, partindo de uma florista do Mercado da Ribeira (Cais do Sodré, Lisboa, junto ao Tejo) e acabando à porta de minha casa. E até encontrei uma pessoa que ia para um funeral e pretendia saber onde podia comprar flores. Acabei a dar-lhe os pêsames e ela a dar-me os parabéns.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Não tenho tempo para decidir entre um vasto rol de políticos portugueses e estrangeiros.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

É igualmente difícil decidir. Mas ainda hoje estive no lançamento de mais um livro do alpinista português João Garcia. É um herói. Já perdeu amigos nas escaladas, já arriscou a vida para tentar salvá-los. Continua a subir, sempre a subir. E não deixa de ter os pés na terra. Sempre humilde e disponível.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Um golfinho. Jim Clark. Leif Eriksson.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Nas ocasiões em que uma mentira é mais ética que a verdade.Nas ocasiões em que a verdade é demasiado dolorosa para ser dita. Nas pequenas mentiras do quotidiano, para evitar conflitos, como forma de auto-defesa.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Uma ilha tropical, um pôr-do-sol, um grande livro na mão, a Miss Universo deitada numa rede ao nosso lado, um fabuloso par dançando o tango na linha do horizonte, o tema musical seria “The fool on the hill”, dos Beatles.

Qual é seu maior medo?

O sofrimento físico. A perda das nossas memórias. Tornar-me num homem cada vez mais amargo.

Qual é seu maior ressentimento?

Não sei.

Que talento desejaria ter?

Gostava de ser um maravilhoso pianista de jazz.

Qual é seu passatempo favorito?

Ler.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Muita coisa. Mentalidades, atitudes, acções e omissões.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

A fome a a doença.

Onde desejaria viver?

Sydney.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

A beleza física.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

A solidariedade, a hombridade, a ternura.

Quando e onde você foi mais feliz?

Três dias em Sierre, Suíça, (1994), num festival de BD. A descer uma pista rápida de waterslide em Alcantarilha (Algarve 1988) e em Riccione (Itália), em 1995; sempre que cheguei ao topo do Monte Atalaia (Venda do Pinheiro, Malveira, a 30 km de Lisboa) e consegui vislumbrar ao longe, por entre a névoa, o Palácio da Pena, em Sintra. No dia em que me abracei a um cão Samoiedo e senti aquele pelo todo fofo ao meu redor, vendo apenas a sua cauda a abanar.

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O Questionário de Proust (III) – Responde Sandra Pontes

Publicado em 11 de fevereiro de 2007

Sorrio quando vejo que Sandra Pontes escreveu um post cujas linhas iniciam por travessões. Ela é mestre nos diálogos rápidos e inesperados. Suas figuras femininas têm algo da Maitena e isto é um grande elogio partindo de quem costuma pegar emprestado as revistas da argentina. Diz que é uma paulistana suspeita. Nasceu no bairro da Lapa, perdeu-se numas cidades estranhas pelo interior do estado, ama a capital cearense, mas tem o coração fincado em Osasco.

Segue dizendo que teve a idéia de montar o primeiro blog após relembrar as notas altas que obtinha nas aulas de redação. Achou que poderia, com meia dúzia de toques num teclado, prender a atenção dos outros em suas conversas alucinadas com seu amigo imaginário, montar post de ajuda na cozinha ou arranhar meia dúzia de rimas.

Completa declarando que pode ficar brava com a gente, mas é igual chuva de verão: faz um barulhão antes, espalha para tudo quanto é lado durante, mas, depois, passa. Não duvido. E adoro quando ela entra à noite no MSN descrevendo o cardápio recém construído.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Intriga, veneno, puxada de tapete para se promover. Deplorável querer crescer depreciando o trabalho alheio.

Como gostaria de morrer?

Dormindo. Simplesmente parar de respirar…

Qual é seu estado mental mais comum?

De uma menina de 12 anos.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Martin Riggs (Mel Gibson) em Máquina Mortífera. “Nervosinho”, mas brincalhão. Alguma semelhança???

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Três semanas na Europa e US$ 525.00 de excesso de bagagem (Na volta. As compras, é claro!) mesmo distribuindo a “muamba” na bagagem de mais duas pessoas.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Político. Qualquer um.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Idoso. Com uma aposentadoria de merda, remédios caros, maltratado e ainda assim, sorri para você.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Acho que num cachorrinho de madame. Comer, brincar e dormir num tapetinho persa…

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando não quero ir a algum lugar ou compromisso e insistem. Aí invento uma mentirinha branca…

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Ter carro, casa, férias de 30 dias, sem precisar fazer orçamento mensal. Tudo isso só com a venda de sanduíche natural na praia.

Qual é seu maior medo?

Ficar sozinha quando envelhecer.

Qual é seu maior ressentimento?

Ver meu filho crescer sem a presença do pai biológico.

Que talento desejaria ter?

Ter coordenação motora para tocar bateria.

Qual é seu passatempo favorito?

Era dormir. Agora é tentar não ficar acordada tanto tempo durante a noite!

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Eu mesma. Mudaria o comportamento que tanta dor de cabeça deu a tanta gente.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Crianças catando comida em lixões e aterros sanitários.

Onde desejaria viver?

Numa ilha. Pequena, nada de luxo, mas tranqüila.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Solicitude. Ninguém pode ser solícito 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Esquecer. Mais importante que perdoar. A gente perdoa, mas pode não esquecer jamais. O esquecimento absorve o perdão.

Quando e onde você foi mais feliz?

Na barriga da minha mãe. Quente, com alimento e sem dor física, espiritual ou moral. Sem preocupações, aborrecimentos. Só tranqüilidade e proteção.

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O Questionário de Proust (II) – Responde Theo Alves

Publicado em 9 de fevereiro de 2007

Fiquei felicíssimo com a receptividade ao questionário. Quase todos responderam. Como isto é um blog pessoal e às vezes até publico coisas minhas, vou divulgar os questionários à razão de uns quatro por semana, OK? Recebi vários que me entusiasmaram seja por sua originalidade, por sua extrema franqueza ou por serem reveladores. Claro que tive vontade de publicá-los imediatamente, mas vou respeitar a ordem de chegada em minha Caixa de Entrada. Portanto, hoje é a vez do excelente Theo Alves – que já foi homenageado por mim neste post, amanhã será o “Porque hoje é sábado”, domingo será a descoordenada baterista Sandra Pontes e segunda ou terça-feira – dependendo de minha vontade de postar – o escritor português Luís Graça, cuja última resposta levou-me a uma das mais felizes lembranças que tenho de minha infância em Cruz Alta.

Importante: quando mandei os e-mails propondo o questionário, não obedeci a critérios nenhuns. Como estava no Outlook Express, primeiro peguei alguns amigos que recém tinham comentado aqui no blog, depois fui para a base de endereços de e-mail, subindo e descendo indiscriminadamente. Dentre os que não convidei, não houve grandes irritações: o Tarsis respondeu nos comentários, mas acho que vou deletá-lo para que entre na fila de publicação. Ah, o Ery está no mesmo caso. O Guga Alayon mandou suas respostas por e-mail e também terá seu dia. Profilaticamente, aviso que não criei um clubinho fechado de respondedores de questionários, que não tenho os e-mails de todos e que estou aceitando adesões…

Agora, Theo Alves. Para quem não o conhece ainda, Theo vive em Currais Novos, interior potiguar, coração do deserto seridoense. Publicou dois livros de forma artesanal: “Loa de Pedra”, de poemas, e “A Casa Miúda”, de contos. Há ainda o livro inédito de poemas “Doce Azedo Amaro”, que recebeu menções honrosas nos concursos de poesia Luís Carlos Guimarães e Othoniel Menezes. Theo tenta evitar as palavras, mas o faz sem sucesso. Tem como sonho recorrente ser Federico Fellini, mas sabe que não conseguirá. Theo Alves edita o blogue “Museu de Tudo”, que andou meio abandonado, e editou o espetacular e deletado “O Centenário” que virou em parte livro, deixando saudades na blogosfera.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Me causa horror o elogio em boca própria. Sempre achei que a masturbação, seja do corpo ou do ego, é coisa que se faça só ou em companhia rara.

Como gostaria de morrer?

Aceitaria bem morrer de qualquer forma, exceto de vergonha.

Qual é seu estado mental mais comum?

O estado de sítio.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Dom Quixote, mas não Dom Alonso Quijano.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Creio que não ter uma tatuagem ou um piercing hoje em dia seja uma extravância enorme que cometo diariamente.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

O dom do esquecimento não me permite recordar seu nome. Assim sou mais feliz.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Estar vivo já é naturalmente admirável.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Insistiria em não voltar. Recorro ao Saramago diante da ressureição de Lázaro: ninguém pecou tanto que mereça morrer duas vezes.

Em quais ocasiões costuma mentir?

Eu nunca minto. Invento uma verdade ou outra, que alguns insensatos ousam chamar de mentira.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

A música, um filme do Fellini, a companhia de meus queridos, sem a presença do tempo.

Qual é seu maior medo?

A memória.

Qual é seu maior ressentimento?

Os esforços práticos que a vida exige diariamente me deixam ressentido.

Que talento desejaria ter?

Qualquer um, sinceramente.

Qual é seu passatempo favorito?

Televisão.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Eu teria percebido mais cedo o quanto pareço com minha família.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

Toda manifestação de miséria me parece abjeta.

Onde desejaria viver?

Às vezes aqui, em Currais Novos; outras vezes longe daqui, de Currais Novos.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

A praticidade.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

O bom humor.

Quando e onde você foi mais feliz?

Hoje, aqui.

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E a discussão foi para o Facebook…

Gostava mais quando as discussões eram aqui, mas o Facebook não quer saber e leva as coisas para lá mesmo. Sobre o post abaixo:

Francisco Marshall, historiador, coordenador do Studio Clio: A OSPA vive uma enorme crise. A comunidade, distanciada da orquestra, espera que sobreviva, pois tem 60 anos, o Érico disse aquilo, é um órgão público, etc, etc. A verdade, porém, é que está no fundo do poço, sem regente titular, desmotivad…a, com salários baixos, sem casa, com um projeto de teatro novo que poucos conhecem e quem conhece não gosta (cafona, horrível), sem associação de amigos, sem escola… que que falta? Tocar pagode? Daqui a pouco diremos no além-Mampituba: “Eu venho de uma cidade que teve uma orquestra sinfônica, e fechou.”

Elena Romanov, violinista da OSPA: Discordo completamente. A Nona de ontem foi emocionante!
Fiquei muito orgulhosa de fazer parte desta Nona… espero que a maioria dos colegas sente o mesmo orgulho. E Karabtchevsky continua sendo Karabtchevsky, mesmo gripado e criticado.

Francisco Marshall: Bueno, eu não ouvi, e vou por ti, Elena, quanto à música. Parabéns!
O que falo diz respeito à situação política, social e administrativa da OSPA, muito preocupante.

Elena Romanov: à situação política, social e administrativa da OSPA, muito preocupante…
Com isso não posso não concordar… infelizmente.

Milton Ribeiro: Elena, é estranho. Ouço a Nona há anos (claro!) e tomo por base o que tenho ouvido. Concedo que a má interpretação do Scherzo pode ser impressão, apesar de que não estava nada divertido, porém o Adágio estava muuuuito rápido. Não estava nad…a delicado, tenho convicção de que estava ruim e conheço n gravações onde ele aparece muito mais interessante e… lento. A concepção me pareceu antiquada.

Mas estou longe de me considerar o dono da verdade e posso estar erradíssimo, apesar do que dizem meus ouvidos. Minha opinião so tem validade absoluta dentro do perímetro do meu cérebro, dali pra fora…

Abraço.

Elena Romanov: Pois é, Milton. Todos nós gostamos algo mais e algo menos… isso é normal e humano. Mas a OSPA deu seu melhor ontem. Ao vivo. Numa acústica terrível. E estava de aniversário.
Merecemos um Parabéns sem as criticas 🙂

Milton Ribeiro: Elena, eu acho que OSPA merece todos os parabéns e mais 60 anos de vida. O que fiz foi uma crítica a uma interpretação. Nunca seria estúpido (pois é esta a palavra) de desconsiderar a instituição. Ao contrário, sinto enormes saudades dos te…mpos de Komlós, David Machado e Eleazar. Sinto saudades, sobretudo, de REPERTÓRIOS MAIS AMPLOS, da música moderna, dos compositores brasileiros, da fuga da atual zona de conforto e estou disposto a lutar pela melhoria da situação. Sinto saudades dos tempos em que a orquestra me parecia mais disposta a desafios e que era a melhor do país. Sobre o esforço de vcs: minha nossa, sei que deve ser imenso. Vcs são músicos que ensaiam e tocam em locais de acústica lastimável. Mas sou público ouvinte e essas pessoas têm a mania de cobrar qualidade mesmo que as circunstâncias sejam precárias.

Sim, temos discordâncias sobre a Nona. Sou um ouvinte de longa vivência (deves conhecer aquele blog de múisca erudita que mantenho, não?) e tu és uma musicista. É claro que tua opinião é mais abalizada do que a minha e que tu estás sendo bondosa ao me poupar de explicações técnicas. O que desejo deixar claro é frequento a OSPA desde criança, adoro a orquestra e tanto sinto-a como minha que fico envergonhado pela “situação política, social e administrativa” dela.

Agora há colegas teus que têm reações as mais estranhas: enquanto um diz que o Scherzo da Nona é sério — o que é uma piada involuntária, me faz imaginar Beethoven escrevendo uma peça bem humorada que fosse inteiramente despretensiosa (fato impossível) e me faz pensar em Scherzi bem mais sérios como os de Bruckner –, houve outro que me fez um sinal de que gostaria de vomitar e isto em pleno concerto! (não diria seu nome nem sob tortura, OK?). Ou seja, há opiniões e opiniões, mesmo dentro da orquestra.

Abraço.

Claudia de Ávila Antonini: Acho vocês músicos uns heróis.
Não sei onde encontram motivação tendo que ouvir antes do concerto notícias sobre pagamentos atrasados e estando sem casa própria, sem local adequado para ensaios e sem verba para a manutenção dos instrumentos… e trajes. Haja magia…
E que vergonha isso para nós portoalegrenses!
Sobre o ex-titular, desculpe mas me é antipático, não consigo não vê-lo como um turista pretensioso que queria ser o Neschling do Sul mas só se não desse muito trabalho…
Espero que os novos ares mudem estes rumos em breve e que sejam vocês músicos a cortar a fita de inauguração do novo teatro.

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Entre promessas e constrangimentos, OSPA é homenageada e faz mau concerto

Durante o concerto comemorativo aos 60 anos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), nesta terça-feira, ouviu-se não apenas a 9ª Sinfonia de Beethoven, mas vários discursos.

Quando o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, declarou a OSPA como “Bem Cultural de Natureza Imaterial” da cidade, houve certa reação de uma plateia que conhece a história recente da Orquestra. Ouviram-se murmúrios, para dizer o mínimo. A Ospa está há anos sem sede. Após ter sido rejeitado por algumas associações de moradores — houve o célebre caso dos Histéricos da Gonçalo de Carvalho que desejam proteger o ecossistema da rua… — , o projeto da sede, hoje, só se materializa no papel e em tapumes no Parque Maurício Sirotsky. Como se não bastasse, a verba indenizatória para manutenção de instrumentos e indumentária dos músicos está defasada, o regente titular está demissionário, o local de ensaios é totalmente inadequado – um armazém no cais do porto – e o Conservatório Pablo Komlós está desativado. Sob esta perspectiva, o ato de registrar a OSPA como Bem Imaterial foi ouvido como uma fina ironia involutária, porque “bens materiais” é tudo que lhe falta.

Porém, a reação maior veio quando o Secretário de Cultura do Estado, César Prestes, discursou, representando o Governo do Estado. Ao referir-se a uma suposta boa convivência da Secretaria com a Orquestra, Prestes ouviu algumas risadas em tom de escárnio. Apesar do secretário ignorá-las, o constrangimento foi geral. Depois, foram chamados para discursar o deputado estadual Adão Villaverde (PT). Ele tentou tranquilizar a plateia, garantindo que os recursos para a construção do novo teatro estão na previsão do futuro governador Tarso Genro e da bancada federal gaúcha para o próximo ano. Porém, o presidente da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Ivo Nesralla, após citar a presença do futuro Secretário da Cultura, Luiz Antônio de Assis Brasil, do ex-governador Olivio Dutra, do deputado Raul Pont (PT), do secretário municipal da Cultura, Sergius Gonzaga, e de outras autoridades, fez retornar o clima pesado ao dar a boa notícia de que finalmente as verbas para manutenção dos instrumentos e da indumentária seria reajustada e paga. Só que o bom anúncio foi feito com tal falta de entusiasmo que os murmúrios voltaram à plateia. Só foram interrompidos por Beethoven, regido por Isaac Karabtchevsky em seu último concerto e que recebeu uma interpretação apenas correta, bem abaixo da capacidade dos músicos.

Se no primeiro movimento a orquestra somente tratou de bater o ponto, um Molto Vivace (Scherzo) duro e estranhamente militar deu o pontapé inicial para a  tragédia. Há que ter humor para tocá-lo e parecia que não havia muito disponível em estoque.  Obs.: Scherzo significa “brincadeira”. O Adagio molto e cantabile veio em inusitada velocidade, como se Karabtchevsky quisesse jantar logo. Desde que Karl Böhm passou a tocar este movimento em 18 minutos lá pelos anos 70 — contra os 14 de Karajan, por exemplo — que a concepção mais rápida do Adágio da Nona ficou abalada. Hoje, poucos o interpretam da forma escandalosamente açodada que ouvimos ontem e conheço muitas gravações dele, pois é meu movimento preferido da Nona. O Coral final esteve realmente perfeito, mas foi só. Falando com franqueza, acho que o internacional Karabtchevsky não tem mais ambiente e já vai tarde.

Por falar em tarde, hoje à tarde, a Assembleia Legislativa do Estado homenageou a OSPA por seus 60 anos. No Plenário da Assembleia Legislativa, ouviram-se novas promessas de apoio à instituição. Fala-se em recursos federais de R$ 30 milhões para o início das obras, mas não há confirmação de valores.

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Do El País de hoje

Essa não é do El Roto, mas é genial. Foi enviada pela amiga Helen Osório. A mesma lembra que a Portugal e Irlanda já foram modelos para muitos jornalistas brasileiros que criticavam a política econômica do governo Lula. Hoje, o debate lá é ir ou não ir ao FMI.

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Uma Incrível Coincidência (Fernando Monteiro, Herbert Caro, eu…)

Post publicado em algum dia de 2003 em meu antigo blog

Tenho certeza de que você que lê já leu Herbert Caro. Certeza absoluta! Mas você terá que chegar ao terceiro parágrafo para comprovar.

Estava dialogando por e-mail com o escritor pernambucano Fernando Monteiro – importante: minha imensa admiração por Fernando precede nosso contato, vim a conhecê-lo após elogiá-lo aqui neste blog e não o contrário, OK? -, quando fiz uma carinhosa referência a meu falecido amigo Herbert Caro. Conheci o Dr. Caro numa loja de discos eruditos de Porto Alegre, a King`s Discos. Lá, eu, ele, o Júlio – que trabalhava na loja – e outros, tínhamos um encontro não marcado mas sempre repetido aos sábados pela manhã. Nós, o grupo dos tarados por música, ficávamos ouvindo as novidades e aprendendo com a inacreditável sabedoria do velho. Quando o conheci, ele já devia ter mais de 70 anos. Não lembro em que ano morreu, deve ter sido entre 1986 e 1990. Creio que Caro não viu a falência do jornal Correio do Povo, onde por décadas publicou suas compreensivas (expressão dele) e lindamente escritas críticas musicais. Como convivi com ele entre meus 20 e 30 anos, era tratado pelo mestre como a criança curiosa que era. Ele tinha atenção especial para comigo e o Júlio, os jovens do grupo, e gostava de me orientar na obra de meus amados Bach e filhos, Mozart, Brahms e Beethoven. Deu-me alguns discos, sempre sob o pretexto de servirem como comprovação de suas opiniões, nunca pelos motivos reais, que eram a consideração, a amizade e o carinho. Era alemão.

Chamávamos o Dr. Caro de “Doktor Carro”, apelido de duplo sentido, pois ao mesmo tempo em que nos referíamos a seu forte sotaque, homenageávamos o grande tradutor de Doutor Fausto (Doktor Faustus) e A Montanha Mágica de Thomas Mann, Auto-de-fé de Elias Canetti, A Morte de Virgílio de Hermann Broch, O Lobo da Estepe e Sidarta de Hermann Hesse, etc. Ele era conhecido por ser de difícil trato, mas gostava de nós e creio que nos levava livres – a mim e ao Júlio – por receio de nossa ironia. Uma vez, pareceu-nos que ele auto-elogiava a tradução (a qual é impecável, insuperável) de A Montanha Mágica (uma obra-prima!) e nós começamos a falar sobre a inutilidade de se traduzir uma bosta de livro em que nada acontecia, em que as pessoas ficavam falando sobre o tempo, doenças, guerra e que inaugurava o riquíssimo e “arborescente” gênero do erotismo tuberculoso… (Se você não entendeu isto, leia o livro!) Depois começamos a falar sobre a “metáfora da Europa” contida na obra e a bobajada alcançou níveis planetários. Viram? Para nós, era facílimo conversar com ele. Ele primeiro ficava com aquela cara escandalizada de alemão rígido: estão-brincando-com-algo-que-é-sagrado-para-mim. Depois dava gargalhadas conosco. Voltava todos os sábados para nos ensinar e, eventualmente, para apanhar mais um pouquinho.

Pois bem, no meu e-mail para o Fernando, falei qualquer coisa sobre o velho e ele me respondeu assim:

(…)
Caro: que coincidência você ter sido amigo do Caro, personagem num capítulo (que estou anexando) de “As Confissões de Lúcio”. Se o quiser, pode divulgar o capítulo – ou a parte do Caro, nele – no blog.
(…)

Quer dizer que Fernando Monteiro, lá de Recife, põe como personagem em seu romance inédito As Confissões de Lúcio meu amigo Herbert “Carro”? Abaixo está a comprovação. A seguir, pois, tenho a honra de apresentar-lhes um trecho do capítulo Falenas na Sombra, de As Confissões de Lúcio. Notem (1) como o personagem Lúcio Graumann apelida Caro de “Herr Graal” – é claro que Fernando e Lúcio ignoravam o “Doktor Carro”! -, (2) como o Fernando refere-se em seu texto à “metáfora da Europa” e (3) aproveitem para medir o calibre do escritor Fernando Monteiro:

Essa anotação eu lera ainda na praia da Paraíba. Havia sentado sobre o papel, na rede de Acaú (Lúcio o deixara amassado sob o calor de febre do seu corpo magro naquele descanso menos estreito do que parecia, e mais cheio de areia e detritos do que se esperava). Quando descobri o papel, pensei – não sei porque – nas três ou quatro vezes (um recorde!) em que havíamos saído para beber no bar de um alemão, próximo da redação do Correio porto-alegrense… o que não era garantia nenhuma de conversa fluente, de piadas, do humor leve de sextas-feiras nas quais você ouve e é ouvido sem grande atenção, alguém entra, você acena, retoma o fio da conversa que não se crispa e o mais. Não, com Lúcio talvez nunca fosse assim, ao contrário, embora não fosse um “chato” (eu, pelo menos, não achava), mas ao se usar a palavra “chato” talvez alguém quisesse referir aquela intensidade dos prisioneiros, isto é, uma conversa meio fixa e fiel a coisas que seguiam no centro do seu interesse, indiferente à indiferença da bebida, da diversão “organizada” como uma suspensão sem maior responsabilidade: um balão desinflado com fritas, uma coisa que pudesse ser esquecida como um jornal dobrado no banco de trás de um táxi. Claro, ele tinha humor – mas seu humor respondia só às convocações rápidas, breves. Herbert Caro compreendia bem esse humor – quando brigavam dentro e fora da redação do Correio cheia de falsos “humorados”. Caro muitas vezes alongou o jogo dos jogos de palavras que fazia com Lúcio, ao tempo das traduções que “Herr Graal” (como ele o chamava) admirava e, eventualmente, corrigia aqui e ali, em algum tijolaço do idioma de Mann fundindo dois vocábulos com a sombra do terceiro como a águia sobre os picos nevados da montanha mágica disputando a visão da alma ingênua de Hans Castorp que não tinha humor, acusava Graumann, e Herbert respondia que era burrice de Lúcio não ver o humor de Mann naquele grau de exarcebação do “espírito monótono” que, no fundo, era de Heinrich e não de Thomas, como se poderia pensar do nariz degaulleano do prêmio Nobel refugiado na América para escapar da “parentada” de Graumann (uma estocada de Caro, suponho que dirigida aos ascendentes maternos, aos Braun cheios de loura burrice responsável por queimar livros em praças públicas)…

Seria um verdadeiro sanatório – e não uma metáfora da Europa – se a vertente “Heinrich” houvesse escrito o livro fascinante justamente por ser de um homem destinado a compreender tudo tarde, depois que as coisas se tornavam irremediáveis (respondia Caro, seriamente, às provocações de Graumann), e Lúcio poderia sorrir, mudar de assunto, contar uma piada – isso não seria o esperado e, contudo, quando a contasse, seria com inesperada graça, sem grande empenho, é verdade, mas com certa graça engraçada até por ter um quê de deslocada… sem no entanto riscar o vidro daquela intensidade do humor que se oculta na “seriedade” – o mesmo caso de Mann? – e que corresponde bem a uma pitada de humor secreto (não sei se isso poderá ser perfeitamente entendido por quem tenha sempre procurado ou preferido os amáveis palhaços de um escritório, Graumann não teria sido jamais um deles) manifestando-se no meio de uma roda como aquela do Correio dos velhos tempos, posso até rever a cabeça inclinada de Caro e a de Lúcio, por sua vez, no seu “ponto de parada”, naquilo que não correspondia a uma dessas pausas que se faz buscando a “aprovação” de algum raro conviva ainda mais ensimesmado, ou surpreendendo – então – por qualquer participação súbita e perfeitamente ajustada…

Observação aos incautos: Heinrich Mann é, por assim dizer, o irmão escrachado de Thomas Mann. É autor do livro Professor Unrat que, rebatizado para O Anjo Azul (Der Blaue Engel), tornou-se o filme-base da carreira de Marlene Dietrich.

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Weblogger e E-mail Surpreendente

Publicado em 30 de setembro de 2003. Vejam como são as coisas…

Sexta-feira, num momento de loucura, resolvi tornar-me assinante do Weblogger. Por R$ 9,90 mensais, eu seria feliz, receberia suporte e serviços diferenciados. Como prêmio pela assinatura, imediatamente os comentários de meu blog deixaram de funcionar. O problema verificou-se na própria sexta e estendeu-se por todo o fim de semana. Quem deu o sinal foi minha irmã, que iria viajar, mas antes desejava deixar um carinho para a Bárbara nos comentários. Não conseguiu. No dia seguinte, telefonei para o Terra atrás do “suporte diferenciado” e eles lavaram as mãos: o Weblogger é uma parceria deles e eu teria que deixar uma mensagem no “Fale Conosco” do site. Até domingo à noite, eu tinha sido olimpicamente ignorado. Somente hoje, segunda-feira, recebi um atencioso e-mail dizendo que tudo estava regularizado. Vou testar.

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Porém, na madrugada de sábado para domingo, fui ver se havia novidades no blog e na caixa de correspondência. O blog continuava na mesma, mas alguns de meus 6 leitores haviam mandado e-mails na impossibilidade de comentários. Havia um novo entre eles… Era simplesmente de Fernando Monteiro, escritor brasileiro, autor do grande Aspades, ETs, etc. (1997). Ele agradecia uma pequena referência (de meia linha) que lhe havia feito no blog e dizia que tinha lido alguns de meus textos. Elogiou-os com imerecida sabedoria, demonstrando claramente que os lera e ainda desejou um feliz aniversário para Bárbara… Inflei, subi aos ares e, feliz como o diabo, dirigi-me ao berço como Linda Blair em “O Exorcista”. Acordei a Claudia para contar-lhe a novidade – ela fez ahã para tudo (no outro dia não lembrava de nada) – e fui dormir muito bem.

Aspades tem trajetória e argumento curiosos. Depois de escrevê-lo, o pernambucano Fernando Monteiro submeteu-o a diversas editoras brasileiras. A maioria delas nem se dignou a responder. Ele ficou a ver navios e, talvez inspirado por eles – os navios, bem entendido -, enviou seu livro a uma editora portuguesa. De lá, não somente recebeu atenção, recebeu também aceitação, e depois publicação e elogios. Só então a brasileira Record resolveu lançar o “inédito” em nosso país… Não fosse triste, daria para rir. Aspades ficou famoso em Portugal, enquanto nós nem imaginávamos sua existência.

A parte principal do livro é a biografia íntima de um cineasta fictício, Vasco Aspades do Carmo. A história pessoal de Aspades se embaralha com sua obra. Acabo de usar o verbo “embaralha” e este talvez nos faça pensar num livro obscuro e complicado, mas não é nada disto. Sua vida e intenções como criador nos são apresentadas em texto de primeira linha, elegante, poético e livre de lugares comuns. Depois, há uma narrativa que seria parte do espólio intelectual do cineasta, já morto. Ao final, há uma série de narrativas curtas, aparentemente desconectadas de Aspades, e que devem ter deixado os editores brasileiros transtornados, apesar de sua perfeita lógica interna. Para esta parte do livro, talvez seja melhor acolher o conselho de Isak Dinesen e aceitar que, em contato com literatura genuína, não é mau renunciar à total compreensão de um texto. O fato de ter sido multirejeitado diz muito sobre a inteligência de nossas editoras. Se fosse você, eu leria Aspades, ETs, etc. não só para estabelecer contato com a obra de Fernando Monteiro, mas para ter o ganho secundário de constatar até onde a burrice e a falta de convivência com a cultura nos pode levar.

Outros livros de Fernando Monteiro:
– A Cabeça no Fundo do Entulho (1999) – Prêmio Bravo! de Literatura
– T. E. Lawrence: Morte num Ano de Sombra (2000)
– A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (2001)
– O Grau Graumann (2002)

(Um amigo bastante confiável recomendou-me os dois últimos, principalmente Graumann. Acabo de comprá-los.)

Abaixo, coloco trecho de uma entrevista com Fernando Monteiro, onde ele nos explica o surgimento de Aspades. Ciao, até a próxima.

Em outubro de 1995, num sábado, sentei diante do micro e comecei a escrever sobre uma pessoa fictícia, um português, cineasta, intelectual – assim como se iniciasse um ensaio sobre Antonioni, Resnais, Manuel de Oliveira… Vi o homem, claramente: podia dizer onde tinha nascido, como penteava o cabelo com a mão espalmada… e logo estavam vindo os títulos de alguns dos seus filmes. Escrevi 22 laudas nesse primeiro sábado – e, como estava estreando no manejo do computador, acionei algum comando errado… e apagaram-se todas as 22 páginas. Fiquei desesperado. Achava que tinha começado uma “obra-prima”, que tinha perdido o começo do livro definitivo… Entrei em pânico. E resolvi desistir da história, perdida, do cineasta fictício.

No sábado seguinte, no entanto, sentei de novo diante do teclado do micro, e, aí, mudando completamente o tom que havia usado na primeira tentativa, refiz um caminho de pedras, sem nada da sensação estranha daquelas 22 páginas escritas sem quase levantar da cadeira. Reencontrei o cineasta Vasco Aspades pelo caminho pedregoso do esforço cerebral e consciente, e ele foi voltando a tomar corpo diante de mim, eu sinceramente acreditando na “sua” vida, nos “seus” motivos, nas “suas” idéias sobre os filmes e a vida.

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Teoria Geral do Caos (Revisitada)

Post publicado em 19 de abril de 2006

Dizem os matemáticos e físicos que, se colocarmos em uma caixa de fundo plano um grupo de bolinhas em movimento chocando-se elasticamente entre si e as paredes, sem atrito contra a superfície, o resultado será o caos. Ou seja, será impossível calcular as posições futuras que as bolas tomarão. E elas nunca pararão de bater-se umas contra as outras e as paredes. Esta é uma das comprovações da Teoria do Caos. Agora vai outra.

Acordo. Penso confusamente há quanto tempo não mantenho relações sexuais e meio que me desespero. Procuro com o braço minha mulher na cama e ela não está mais lá. Levanto. Procuro-a com os olhos e vejo que ela está no computador. Diz que está ali desde às 4h15 da madrugada, que não conseguiu dormir preocupada com as coisas da construção da casa e com outras do escritório. Olho para ela e concluo que sua libido também não deve estar grande coisa e isto diminui um pouco minha culpa. Apenas nos abraçamos. Vamos tomar café e noto que o leite acabou, pois teima em negar-se a vir sozinho do supermercado até nossa geladeira. Anoto mentalmente que tenho que comprar leite, tenho que comprar leite, que as crianças irão dormir conosco à noite e que não tem leite em casa, não tem leite em casa. Reviso os e-mails e noto que meu filho escreveu um depoimento para mim no Orkut. Não gosto do Orkut e penso que ele deve ter escrito alguma ironia. Divertindo-me, tenho dificuldades em achar as porras dos depoimentos. Encontro-os e, não sem antes de dizer baixinho uns palavrões, tomo um susto: O Father me ensinou quase tudo o que sei sobre o que me interessa. Aquelas mesmas lágrimas voltam a marejar meus olhos. Mas como elas raramente saem, melhor esquecê-las. Como é que alguém pode ser amado vivendo com um tumulto desses na cabeça? Engano quase todo mundo, até meus sete leitores são iludidos, mas sei que minha mulher e irmã sabem que minha tranqüilidade é apenas uma atuação. Olho para a TV e vejo que o filme apresentado no começo de Os Sonhadores, de Bertolucci, é mesmo Paixões que Alucinam, da Samuel Fuller. Penso em como amei este filme e no fato de seu nome original ser Shock Corridor. Mais e-mails de gremistas tirando sarro da minha cara. Saímos de casa. Ligamos para a arquiteta e ficamos sabendo que a concretagem da laje será feita quarta-feira à tarde. À tarde? Mas o ideal seria fazer pela manhã! Ligamos para a empresa que trará as bombas e ficamos sabendo que a arquiteta demorou para combinar o horário e que aquele é um “encaixe”. Claudia implode. Reclama em voz muito alta no escritório ainda vazio e, com toda a educação, liga de novo para a arquiteta. Quando desliga, implode novamente, antes de ligar para a empresa, suplicando que a concretagem seja feita pela manhã. Ouço suas súplicas enquanto ouço a voz de nosso empreteiro no celular. É, seu Milton, não é o melhor horário, eu avisei, mas já que foi marcado assim… Vamos fazer assim. É a minha vez de dizer palavrões. Volto para minha sala. Escrevo um e-mail para a Leila e telefono para o Rafael a fim de me acalmar. Saio do escritório para buscar dinheiro para minha mãe. Reflito sobre a resistência física e financeira que uma pessoa velha tem que ter para suportar tantos remédios e que sempre lembro das senhas bancárias de minha mãe por um triz. Penso que tenho que ir à academia e baixar meu colesterol, mas tais pensamentos são desviados pela constatação da falta de dois e-mails em minha caixa de entrada. Alguém não mandou o texto semanal do Cidades Crônicas e um cliente não me respondeu um e-mail épico que lhe escrevi ontem. Por que as coisas não funcionam se a gente não pressiona? Funcionariam sozinhas sem a gente? Claro que não. Se a concretagem não for feita amanhã, o banco que financia a obra não terá nada para ver e não liberará a segunda parte do dinheiro. Bosta! Vejo uma mulher com um maravilhoso par de tetas pairantes atravessando a rua na minha frente e quero imediatamente transar com ela. Volto para o escritório e procuro os e-mails. Encontro um de minha mulher para a empresa de concretagem com cópia para mim. Daiane, conseguiste (pelo amor de Deus!) mudar o horário da nossa concretagem para o período da manhã? Sei que te ligaram somente na quinta à tardinha mas é muito importante! Não precisaríamos correr nenhum risco, se houvesse empenho de todos. Temos que obrigatoriamente completar uma etapa da obra por causa do financiamento que estamos recebendo e que está vinculado à finalização de cada uma das etapas. Peço-te encarecidamente que nos auxilie a resolver esta situação. Muito obrigada pela paciência e por tentar nos ajudar. Surtou de vez. Está pior do que eu. Lembro daquela psiquiatra que me disse que é importante que os casais façam planos juntos. Então este inferno deve ser o caminho correto. Entro no Internet Banking, que está lento, é claro. Pago uma conta e meu celular toca. Minha mãe diz que está sem dinheiro e que é para eu tirar dinheiro da sua conta e levar-lhe. Respondo-lhe que já fiz isso e que ela espere tranqüila, bem calminha. Mais um e-mail, este do Marcelo Backes. O cliente segue me ignorando. Penso que, quinta-feira, é a minha vez de publicar no Bombordo. Ah, merda. Nem consigo ler o blog, como vou publicar nele? Abro o site do Terra e leio que Tom Cruise irá comer a placenta de seu filho. Para dizer ou fazer isto, algo deve andar pouco nutritivo em sua carreira. Telefone. O cliente! Não, é um amigo pergunta se vou ao jogo. Digo-lhe que sim e combinamos um encontro lá. Almoço tranqüilo com as crianças. Levo a Bárbara à equitação. Pelo caminho, um ataque pelo celular. Ligam minha mulher, o empreiteiro, a arquiteta e o sócio da arquiteta, todos combinando o horário da concretagem. É quando liga também o cliente. Marcamos reunião para o dia seguinte. Para ter um momento de paz, vejo minha filha treinar. De novo o celular, desmarcam um compromisso meu que seria na tarde de amanhã, faço rapidamente sua substituição por outro. No final da aula, ela sobe o morro com o cavalo e some por meia hora. Quando volta, estou meio puto; ela diz que sobe para poder galopar sem ninguém incomodando nem ditando regras. Acho que ela é uma gracinha e que puxou ao pai. Chego em casa decidido a não pensar. Vamos todos ao jogo. Ganhamos por 4 a 0. Como a felicidade não tem graça por escrito, não descrevo nada aqui. Volto para casa, mando as crianças dormirem e me dá vontade de escrever este post.

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Teoria Geral do Caos

Post publicado em 30 de setembro de 2004

Dizem os matemáticos e físicos que, se colocarmos em uma caixa de fundo plano um grupo de bolinhas em movimento chocando-se elasticamente entre si e as paredes e sem atrito com a superfície, o resultado é o caos. Ou seja, é impossível calcular as posições futuras que as bolas tomarão. E elas nunca pararão de bater-se umas contra as outras e as paredes. Esta é uma das comprovações da Teoria do Caos. Agora vai outra.

Saio de casa pela manhã. Tenho uma agenda apertada e determinada. Enquanto dirijo para o centro, ligam para meu celular. Um corretor me diz que querem finalmente alugar minha sala e é preciso providenciar alguma documentação com urgência. Acho que dá para conseguir para hoje. Chego ao escritório e recebo um e-mail do meu sócio pedindo-me alguns folders antigos de nossa pequena empresa. Ele não quer os novos, acha os antigos servem melhor a suas intenções… Respondo-lhe que datam de 1997 e que duvido que tenhamos mais do que um exemplar no arquivo. Ouço meu celular miando, querendo me dizer que a bateria já já vai me deixar na mão. Entra um gremista na minha sala e tenho meu momento de alegria ao falar na nova derrota de seu time e nas delícias da segunda divisão. A pessoa com quem farei a primeira reunião do dia chega e me repassa algumas tarefas fáceis, mas que demandam tempo. Escrevo no Multiply para o Zadig. Tiro um xerox e vou à imobiliária. Fico sabendo que o pretendente quer que eu baixe o preço; deixo para pensar depois, mas na pindaíba em que estou já sei que aceitarei. O celular mia novamente, volto à empresa e começo a reescrever o folder no Word. Abro o blog e engulo feliz e minuciosamente todos os comentários. A primeira versão do folder que tento refazer é de matar. Entro no Internet Banking que está lento, então divirto-me com os novos posts da Mônica e do Fábio Ulanin. Pago as contas e meu celular mia. Não quero recarregá-lo porque já vou sair. Tenho que ir para o restaurante. Vou. Ligam-me no caminho: tem alguém que quer marcar uma festa lá. Ótimo, mas não consigo consultar a agenda, telefonar e dirigir ao mesmo tempo. Digo que ligo depois. Vejo uma mulher com um maravilhoso par de tetas pairantes atravessando a rua na minha frente e quero imediatamente transar com ela. O celular faz três vezes miau e morre. Chego ao restaurante e fico sabendo que estamos quase sem Cocas, pois ontem teve um inexplicável superconsumo, então peço para comprar mais, ponho o celular para carregar e lembro que tenho de ir ao correio mandar Uma Confraria de Tolos para a Rosele mas hoje não vai dar, um caminhão pára na frente e começa a tocar um jingle horroroso e laudatório ao candidato Ôôôônix Lorenzooooni pego o telefone fixo e acerto a festa para o dia 13 de outubro enquanto folheio o abandonado Paul Auster à minha frente volto ao folder e vejo que a coisa começa a tomar forma Diana escreveu to everyone no Multiply mas hoje não não não os clientes começam a chegar e todo sorridente os recebo e hoje é 29 dia do gnocchi Claudia me liga para dizer que vão cantar todas as árias de A Flauta Mágica no Teatro Renascença às 21h Ônix berra que mudar faz bem promete paz e canta coisas que estão longe de Mozart o corretor liga para dizer que a sala tem um problema no registro da água um cliente depois de comer me conta um filme em que tem uma espetacular cena de perseguição desmarcam um compromisso meu à tarde e rapidamente o substituo por outro vou ao banheiro e me dá vontade de escrever este post saio e sento no computador e escrevo enquanto almoço ligeiro tenho que revisar esta coisa à noite que termina assim mesmo sem ponto

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O Questionário de Proust (I) – Responde Fabrício Carpinejar

Em fevereiro de 2007, minha mãe estava no hospital e eu mal podia postar. Não tinha muito tempo. Passei a tarefa a alguns amigos e eles me responderam rapidamente, preenchendo o espaço deixado por mim.

Este é um questionário clássico. Já foi respondido por muitos escritores e, minutos atrás, distribuí alguns e-mails propondo-o a amigos. Expliquei que desejava fazer uma série com eles. Espero que dê certo. E já deu, como vocês lerão no terceiro parágrafo.

Sobre o nome do questionário: Proust respondeu-o duas vezes, em idades diversas e de forma inteiramente diferente. Eu o resumi um pouco, o original é imenso e eu temia que ninguém se motivasse a enfrentá-lo… Algumas perguntas são fáceis, outras são irritantes. É um jogo. A idéia veio daqui. Admiro demais Roberto Bolaño (1953-2003), um gênio.

Desnecessário apresentar o poeta Fabrício Carpinejar. Seu e-mail partiu às 22h39 e a resposta chegou às 22h57. Dezoito minutos. Inaugurar esta série com Fabro é uma enorme honra para mim e meu pequeno blog.

Qual é o defeito que você mais deplora nas outras pessoas?

Deploro quando vejo os meus defeitos nelas.

Como gostaria de morrer?

Sem marcador de página.

Qual é seu estado mental mais comum?

Excitado, prestes a dizer algum segredo.

Qual é o seu personagem de ficção preferido?

Riobaldo: a dor o tornou sábio para a alegria de narrar.

Qual é ou foi sua maior extravagância?

Tomar banho nu numa festa.

Qual é a pessoa viva que mais despreza?

Já morreu para mim.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

Millôr Fernandes.

Se depois de morto tivesse de voltar, em que pessoa ou coisa retornaria?

Vibrador, terminaria com meu complexo de inferioridade (risos).

Em quais ocasiões costuma mentir?

Quando a verdade não encontra saída.

Qual é sua idéia de felicidade perfeita?

Dormir colado ao cheiro de minha mulher. E acordar com o cheiro dela mais do que com o meu.

Qual é seu maior medo?

Morcegos.

Qual é seu maior ressentimento?

Perder amigos por incompreensão.

Que talento desejaria ter?

Tocar violino.

Qual é seu passatempo favorito?

Jogar futebol.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Aprenderia a fazer churrasco.

Qual é a manifestação mais abjeta de miséria?

O ressentimento.

Onde desejaria viver?

Vivo onde gosto.

Qual a virtude mais exagerada socialmente?

Falar.

Qual é qualidade que mais admira num ser humano?

Ouvir.

Quando e onde você foi mais feliz?

Quando minha filha leu um poema meu de um orelhão, com a voz de quem recém aprendeu a ler. Quando minha mulher disse que não mais conseguiria ficar longe de mim. Quando meu filho perguntou por que a couve era flor, se não cheirava bem.

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José e Pilar e os outros

Foi um belo fim-de-semana. Começou lá na sexta-feira com o jantar com a dupla Nikelen Witter e Luís Augusto Farinatti e terminou com o esplêndido documentário José e Pilar. Os dois casais foram entremeados por um filme notável: Código Desconhecido, de Michael Haneke, que, se não é o maior diretor de cinema vivo, merece figurar em qualquer lista que utilize a contundência como critério. Este Código e A Fita Branca são filmes de qualidade indiscutível, penso.

Mas voltemos à sexta-feira. Eu estava exausto de um dia de ar condicionado estragado no Sul21, porém a conversa inteligente, o vinho e a gentileza novamente viraram o jogo a favor de todos. Foi tudo muito agradável e civilizado. Minha filha Bárbara fez o resumo da noite dizendo que achava muito bom ouvir pessoas cultas conversarem. OK, só que acho que a sedução que exercemos sobre ela (já me incluí no “exercemos”, né?) é a de que falamos sobre política e temos posições que já são as dela. De certa forma, nós — apesar de não sermos nada grandiosos — mais ou menos justificamos aquilo uma forma de pensar o mundo. Fico me sentindo culpado por não ter feito referência nenhuma à visita do Ramiro Conceição lá no início do ano, mas aquela era uma fase triste de minha história recente…

José e Pilar não é um filme que fale muito da obra de Saramago, fala mais da repercussão dela, da rotina de um Nobel famoso e de seu relacionamento com a mulher amada, Pilar del Río. Olha, é um documentário estupendo como cinema. Resultado de quatro anos de filmagens — entre 2006 e 2009 — tem como pano de fundo a criação da romance A Viagem do Elefante e a doença do escritor. Saramago, absolutamente inteligente e erudito em suas palestras e livros, mostra uma face mais relaxada e íntima no excelente filme de Miguel Gonçalves Mendes. O filme me foi 100% satisfatório, mas tenho a impressão de que o diretor considerou que o público tivesse conhecimento prévio da vida do autor. Fica inexplicada a forma peculiar que tomaram com Saramago as eternas restrições portuguesas e brasileiras àqueles que se distinguem, fica inexplicado o justificado ódio com que Pilar del Río trata um jornalista português — merecia muito mais — , assim como a natureza de certo silêncio que o “Portugal oficial” tratou de cercar Saramago.

A mim isto não fez falta nenhuma, mas talvez um observador inexperiente ou marciano não entenda bem o gênero da estupidez envolvida. O fato é que “minhas mulheres” resumem muito bem tudo. Na saída do cinema, a Claudia, encantada com o filme, disse: “Como é bom a gente ouvir alguém brilhante que pensa parecido com a gente!”.

Finalizando: por falar em estupidez, o cinema nacional agora trata de investir na religião. Os trailers pré-José e Pilar foram todos dedicados a espécimes do novo cinema religioso nacional. Comparados aos argentinos, estamos cada vez mais fodidos — saímos da chanchada para a religião. Nada mais próximo. O contraste dos trailers com os 125 minutos seguintes de Saramago foi absolutamente desconcertante. Para sofrer este choque estético, vá ao Arteplex 2 de Porto Alegre antes que mudem.

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John Zorn e grupo no Festival de Marciac, França, 2010

Marc Ribot, guitarra
Jamie Saft, órgão
Trevor Dunn, baixo
Kenny Wollesen, vibrafone
Joey Baron, bateria
Cyro Baptista, percussão

Gosto muito de John Zorn. Simples assim.

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Dmitri Shostakovich (VII) – Os Anos Finais e a Fixação na Morte

As obras do período final da vida de Shostakovich foram compostas sobre um e apenas um assunto: a morte. Ele parecia inteiramente fixado no tema e não é exagero nenhum dizer-se que todas as obras, a partir do opus que comento abaixo, são fundamentalmente sobre a morte. E notem que algumas sinfonias e outras obras anteriores também o eram. O compositor sofreu um ataque cardíaco em 1966, mas desde antes já sofria de uma doença degenerativa que ainda hoje é tema de discussões médicas. A propósito, no dia 27 de setembro de 2006, dois dias após o centenário de seu nascimento, haveria em Londres um seminário sobre sua obra dentro do qual, entre eventos mais agradáveis, médicos se reuniriam com o público a fim de revelar new medical evidences. Ou seja, ninguém sabe exatamente do que sofria Shostakovich. O que se sabe é que, no final dos anos 50, o compositor deixara o piano por dores e descontrole dos movimentos de sua mão direita. Sabe-se mais: o grande Robert Craft, ao conhecer Shostakovich em 1962, disse que “ele era o mais tímido e nervoso ser humano que jamais conhecera”, que “passava todo o tempo mexendo com as mãos e ajeitando os óculos” e que “às vezes, parecia feliz para, no minuto seguinte, estar pronto para chorar”. Rostropovich declarou que, em seus anos finais, Shostakovich apenas desejava “a presença de uma pessoa de quem gostasse, sentada com ele em silêncio, em seu quarto”. Enquanto a doença e a angústia progrediam, Shostakovich era adulado e aclamado em todo o mundo. Não apenas Craft foi conhecê-lo, mas também Benjamim Britten ia visitá-lo e acabaram tão amigos que a Sinfonia Nº 14 é muito influenciada por Britten.

Estes paradoxos entre doença acrescida de angústia e homenagens de onde surgiam novas amizades permaneceram até final da vida de um compositor que seguia produzindo música da melhor qualidade, porém, repito, inteiramente voltada para a morte. A partir da Sinfonia Nº 11, o que temos é a maior e melhor produção de música lúgubre, com explosões de alegria e sarcasmo aqui e ali. Dentro deste espírito, seguem as obras-primas.

Sinfonia Nº 14, Op. 135 (1969)

A Sinfonia Nº 14 — espécie de ciclo de canções — foi dedicada a Britten, que a estreou em 1970 na Inglaterra. É a menos casual das dedicatórias. Seu formato e sonoridade é semelhante à Serenata para Tenor, Trompa e Cordas, Op. 31, e à Les Illuminations para tenor e orquestra de cordas, Op. 18, ambas do compositor inglês. Os dois eram amigos pessoais; conheceram-se em Londres em 1960, e Britten, depois disto, fez várias visitas à URSS. Se o formato musical vem de Britten, o espírito da música é inteiramente de Shostakovich, que se utiliza de poemas de Lorca, Brentano, Apollinaire, Küchelbecker e Rilke, sempre sobre o mesmo assunto: a morte. O ciclo, escrito para soprano, baixo, percussão e cordas, não deixa a margem à consolação, é música de tristeza sem esperança. Cada canção tem personalidade própria, indo do sombrio e elegíaco em A la Santé, An Delvig e A Morte do Poeta, ao macabro na sensacional Malagueña, ao amargo em Les Attentives, ao grotesco em Réponse des Cosaques Zaporogues e à evocação dramática de Loreley. É uma música que trabalha para a poesia, chegando, por vezes, a casar-se com ela sílaba por sílaba para torná-la mais expressiva. Há uma versão da sinfonia no idioma original de cada poema, mas sempre a ouvi em russo. Então, já que não entendo esta língua, tenho que ouvi-la ao mesmo tempo em que leio uma tradução dos poemas. Posso dizer que a sinfonia torna-se apenas triste se estiver desacompanhada da compreensão dos poemas – pecado que cometi por anos! Ela perde sentido se não temos consciência de seu conteúdo autenticamente fúnebre. Além do mais, os poemas são notáveis. Não está entre minhas obras preferidas, porém são indiscutíveis seus méritos musicais e sua extrema sinceridade. Me entusiasmam especialmente a Malagueña, feita sobre poema de Lorca e a estranha Conclusão (Schluss-Stück) de Rilke, que é brevíssima, sardônica e — puxa vida — muito, mas muito final.

Quarteto Nº 13, Op. 138 (1970)

Um pouco menos funéreo que a Sinfonia Nº 14, este quarteto foi escrito nos intervalos do tratamento ortopédico que conseguiu devolver-lhe do parte do movimento das mãos e antes do segundo ataque cardíaco. O décimo-terceiro quarteto é um longo e triste adágio de cerca de vinte minutos. O quarteto foi dedicado ao violista Vadim Borisovsky, do Quarteto Beethoven, e a viola não somente abre o quarteto como é seu instrumento principal. Trata-se de um belo quarteto cuja tranquilidade só é quebrada por um pequeno scherzando estranhamente aparentado do bebop (sim, isso mesmo).

Sinfonia Nº 15, Op. 141 (1971)

Sem dúvida, a Sinfonia Nº 15 é uma de minhas preferidas no gênero. É difícil estabelecer um conteúdo programático para ela. Trata-se de uma música muito viva, com colorido orquestral atraente, temas facilmente assimiláveis e nada triviais, clímax e pausas meditativas que empolgam e mantém o ouvinte permanentemente atento. E com os contrastes inesperados característicos de Shostakovich. Parece um roteiro de Shakespeare passado à música, trazendo o trágico ao festivo, empurrando a reflexão para junto da zombaria. Bom, já viram que sou um apaixonado desta sinfonia. O primeiro movimento (Allegretto) é uma curiosidade por manter sempre ativo o motivo da cavalgada da abertura Guilherme Tell, de Rossini, e pela participação incessante da percussão. O segundo movimento (Adagio) é circunspecto. Os metais trazem uma melodia sombria, para depois o violoncelo completá-la com um solo dilacerante, a cujas cores será acrescida, mais adiante, a ressonância do contrabaixo. Um novo Alegretto surge repentinamente do Adagio, retomando o clima do primeiro movimento, mas desta vez somos levados pelos solos do fagote, violino, clarinete e flautim. O movimento final, outro adagio, é enigmático. A simbologia está presente com a apresentação de imediato do Prenúncio da Morte, composto por Wagner para a Tetralogia do Anel. O ouvinte wagneriano fica desconcertado ao escutar de imediato esta música conhecida, parece tratar-se de um equívoco, de um erro de partitura. Ao pesado motivo de Wagner são contrapostos temas executados por setores “mais leves” da orquestra, porém, a todo instante, o sinistro aviso retorna e, mais adiante, os metais refletirão angustiada exasperação… A sinfonia esvai-se em delicados sons de percussão, deixando um ponto de interrogação no ar. É desconcertante. O significado do Prenúncio da Morte é óbvio, porém, o que significam a percussão, a orquestração e as melodias jocosas que o cercam? Uma simples experiência sinfônica? Impossível. O desejo de felicidade de alguém cuja vida se encerra? Ou, voltando a Shakespeare, que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa (*)? Porém, a significação, a intenção exata de uma obra instrumental é tão importante? Ou seria mais inteligente fazer como fez Shostakovich, levando-nos bem próximo ao irrespondível para nos abandonar por lá?

(*) Macbeth, William Shakespeare.

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