Para não falar de todas as mulheres

Ela e três rapazes estavam sentados em torno de uma mesa do Velho Quintino, restaurante de Porto Alegre. Tinham, presumivelmente, entre 20 e 25 anos e faziam muito barulho com suas conversas e risadas. A moça e um dos rapazes dirigiram-se para a fila do buffet. Ela não tinha um rosto muito bonito, porém seu corpo silenciaria qualquer crítica nascente; a natureza fora-lhe pródiga: era alta, magra sem ser anoréxica e um observador maldoso diria que a natureza recebera um auxílio para que os seios tivessem aquele tamanho e formato. Entrou na fila com o rapaz atrás. Ficaram em silêncio e, neste ínterim, o narrador entrou na fila depois deles. Com uma voz especialmente impostada, o moço perguntou:

— Quando é que nós vamos sair, Luana?

Ela sorriu compreensivamente para ele e disse que poderiam sair qualquer dia, mas que ele poderia ir logo perdendo as esperanças em algo além de um cineminha.

— Mas por que toda essa resistência?

Ela fez um ar de enfado e disse que só se interessava por homens de mais de 40 anos e, ao olhar surpreso e interrogativo do moço, explicou calmamente:

— Vocês -– sim, ela disse “vocês” –- não sabem como tratar uma mulher. Não me interesso por jovens. A mim só atraem homens mais velhos.

Ele a mirou por alguns segundos como quem fosse contestá-la. Mas, hesitante e subitamente falando com certo descontrole, perguntou:

— Quantos anos tu tens?
— Vinte e quatro.
— Eu tenho vinte e dois.

O rapaz passou a servir-se em silêncio. Ela também. O narrador, esquecido de encher seu prato, seguia a cena desejando que aquele não fosse seu final. Mas o silêncio persistia. Luana já estava quase no final do buffet e o rapaz demorava-se. Ela terminou de servir-se e esperou. Quando ele se aproximou, trazendo um prato quase vazio e este narrador à reboque, ela jogou a cabeça para trás, fez um movimento para deixar os cabelos em posição mais confortável e ordenou:

— E tu, Juliano, não vai ficar com essa cara de quem perdeu o pai, né?
— Que cara?
— Essa cara de menininho que não ganhou o brinquedo. Detesto!

Voltaram à mesa. A conversa seguia, porém com uma voz a menos. Juliano parecia em estado de choque, seu rosto mostrava que não perdera somente o pai, mas a mãe e toda a família, num acidente de avião, subitamente, no meio do mato. Era uma tristeza imensa. Parecia que seu rosto inchara. Talvez seu videogame também tivesse sido roubado.

O narrador não era maldoso e procurou não olhar muito para ele. Fixava-se em Luana, em sua perfeita naturalidade, rindo e conversando com os restantes, ao lado do rapaz feito criança. Será que ele lhe era insuportável?

Quando levantaram, ela se voltou rapidamente para ele, que estava de cabeça baixa. Fez um olhar de pena. Saíram primeiro os dois outros amigos, seguidos de Luana e de seu admirador. O narrador pensou num cortejo fúnebre.

Como o restaurante é envidraçado por fora, o narrador viu quando os dois aproximaram-se e caminharam lado a lado. Só ela falava.

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