Para não falar de todas essas mulheres (continuação)

(Continuação daqui)

Publicado em 17 de julho de 2007

Juliano voltou ao escritório transtornado. Era um tímido que passara dias sonhando com Luana e que, no momento da abordagem, apesar de todas as divagações sobre uma confluência tranqüila e galante, acabara, com a súbita coragem dos medrosos, por ceder ao primeiro momento em que estiveram “a sós”, realizando tudo de forma desastrada, inaceitável, simplória, na frente do buffet de um restaurante. De uma forma intensa e particular, Juliano estava verdadeiramente apaixonado por sua colega de trabalho.

Ignorou as tarefas da tarde e ficou imaginando o que estaria passando pela cabeça de Luana, algumas mesas adiante da sua. Ele ficara surpreso com sua resposta absolutamente curta e afirmativa – ou negativa -, detera-se humilhado. Juliano, Luana e os outros participantes do almoço estavam desenvolvendo um projeto juntos e teriam que reunir-se novamente à tarde, mas ele decidiu que hoje seria impossível. Avisou ao coordenador que tinha um compromisso e deixou-se ficar sentado em sua mesa. Desesperou-se em silêncio, ruminando sua falta de jeito e a idéia que Luana, a amante dos homens maduros, teria sobre as pretensões dele, um menino incompetente. Teclou algumas coisas no computador e enfim chamou o editor de textos.

Luana.

Peço desculpas por ter falado tão daquela forma no restaurante, porém estava apenas dando fraca expressão à fatos com os quais convivo diariamente e que tentarei deixar agora por escrito.

Quando de nosso primeiro contato na W., te reconheci imediatamente. Já tinha te visto na universidade. Ao conversar contigo, ao te ver de perto, falando e se movimentando, vi mais do que um belo rosto, eu intuí um pouco do que ele carregava e que, com o tempo, foi se confirmando.

Primeiro, que tu eras mais inteligente e competente do que eu. Segundo, que era melhor ter cuidado, pois as palavras ditas e ouvidas por ti possuíam peso de decisão e não de “depois a gente vê”. Terceiro, que acostumada a sair vencedora das discussões, eras teimosíssima. E mais: que podias te enfurecer rapidamente, que era fácil fazer-te rir, que apreciavas comentários maldosos ou mesmo perversos, que podias ficar conversando horas e horas e… que eu gostava muito de tudo isso.

Assim, fui confirmando aquelas impressões e também outras, bem mais complicadas de se escrever. Se a vaidade feminina tem boa observação e memória, notaste como não te fiz nenhuma pergunta naquela nossa última visita ao cliente. No caminho, conversávamos sobre nossas famílias; então, de repente, me fizeste umas dez perguntas pessoais em seqüência – algumas inesperadas. Porém, apesar da minha enorme curiosidade a teu respeito, não me saiu nenhuma pergunta. Estava feliz com tua atenção e aquilo me bastou.

Uma vez, quase sem querer, falando no telefone, escapou-me dizer que tu me eras uma pessoa especialmente agradável. Deveria ter continuado na mesma linha e terminado com um convite, mas, sem estar preparado, deixei passar a oportunidade e decepcionei-me quando tu voltaste a um meio-tom profissional chamando-me, rindo, de um bom colega…

Agora, só consigo ficar repetindo para mim mesmo: “Que droga, que droga, que droga”.

Beijo.

Deixou o esboço assim mesmo e o enviou por e-mail para Luana, com cópia oculta para seu endereço pessoal. Cogitou em mandar flores com um pedido de desculpas, mas concluiu que seria um gasto inútil.

Quando estava quase resolvendo-se a subir para a reunião da equipe do projeto, viu chegar a resposta de Luana.

Juliano, meu amigo.

Bobagem pedir desculpas! Li com atenção teu e-mail agora que nossa reunião foi cancelada. Olha, preferia que não me tivesses dito nada, nem escrito. Se quiseres conversar em outro momento, podes contar comigo. Talvez pudéssemos almoçar amanhã.

Tchau, Luana.

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