O Salário Moral de um Dia Triste

Publicado em 1º de junho de 2006

Comecei o dia lendo no jornal a pior das notícias. Morrera o pai do melhor amigo de meu filho. Acordei-o e dei-lhe a notícia quando saía do banheiro. Fora uma uma longa doença, o fato era esperado, mas ficamos muito tristes, é claro. Daniel Herz era um jornalista e intelectual, mas antes disso era alguém doce, que gostava de conversar e que tinha recebido o Bernardo em sua casa por centenas de vezes, assim como recebemos o Guilherme. Gostava de conversar com ele. Era alguém inteiro.

Macambúzios, descemos antes das sete da manhã para que eu levasse os meninos à escola. Nosso carro, pela primeira vez em anos, não ligou. Bateria, motor de arranque, alternador? Não sei. Fomos de táxi até a casa de minha santa sogra – santa mesmo! – para pegar seu carro emprestado. Os guris chegaram atrasados na aula.

Depois de um compromisso que me tomou metade da manhã, voltei para devolver o carro e fui em casa ver o que tinha acontecido com o nosso. Com meus inexistentes olhos de mecânico, achei tudo normal. Chamei o seguro e fui ver meus e-mails. Havia este:

(Para tudo! Antes tenho que contextualizar meus sete leitores para que compreendam o e-mail:

Um dia, pelo MSN, Paulo José Miranda, escritor português e meu amigo, contou a história de uma pequena grande livraria da cidade de Aveiro, em Portugal. Esta livraria, chamada O Navio de Espelhos não é um estabelecimento comercial trivial. Ela tem como donos pessoas que conhecem livros e que, além de promover encontros entre leitores e escritores em ambiente agradável, patrocinam uma programação diária de serões de narração, noites de poesia, serões de contos, debates, comunidades de leitores, etc., tudo entre chás e bolos. Até aí tudo muito civilizado. O incivilizado começa agora. Ao lado da livraria, foi inaugurado um shopping e, no shopping, uma destas megalivrarias onde não há espaço para nada disso e muito menos para livreiros cultos. Então, Paulo propôs uma reação ainda mais civilizada. Sugeriu que fossem distribuídos aos leitores contos inéditos de escritores amigos da Navio de Espelhos. Aí entrei eu. Completo dizendo que Aveiro – cidade que não conheço – é a cidade onde nasceram meus avós paternos.)

Agora o e-mail que li:

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Caríssimo Milton,

Antes de mais, muito obrigada por nos ter enviado um inédito seu.

Nós imprimimos numa edição caseira, que temos a “petulância” de achar muito bonita. Imprimimos 50 exemplares à vez aqui na nossa “oficina”. Depois vestimos, cantamos, dizemos, pintamos o seu texto e os demais. Fizemos “quase” tudo. Na prática esta ideia do Paulo fez-se gente e está a crescer devagarinho mas de forma preciosa. É uma história dos afectos.

Esta ideia dos inéditos é uma história de amor. Do que se pode fazer quando se quer lutar por alguma coisa incondicionalmente.

Obrigada por participar.

Envie-nos, por favor, a sua morada e nós enviamos o seu inédito impresso por nós e também os outros inéditos, a fazer de conta que nos veio visitar.

Mais uma vez,

Obrigada.
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Fiquei absolutamente feliz, mas não pude responder porque tinha que tratar do carro – que foi rapidamente consertado – e de buscar meu filho a fim de levá-lo ao velório. Foi com um misto de pressa e cuidado que respondi quando cheguei ao escritório.

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Querida Sónia.

Talvez seja difícil imaginar o que esta proposta do Paulo teve de “afetos” também deste lado do mundo. Nunca fui à Portugal, mas meus avós vieram de Aveiro. Tua cidade é a única de Portugal com a qual tenho ligações afetivas. Sempre penso: “E Aveiro? Quando?”.

Quando o Paulo me falou sobre a idéia dos inéditos e tua livraria, aderi imediatamente ao plano e o farei sempre que desejares. Podes (e deves) usar e abusar daquilo de bom (ou ruim…) que eu venha a produzir. Nunca senti tão fortemente aquilo que Borges chamava de “a nostalgia do desconhecido”. Anteontem, o Paulo avisou-me que nossos livros estavam na vitrine (montra) de tua livraria. Logo pensei: puxa, estou em Aveiro. Adoraria – e como! – receber o exemplar de minha modesta farsa de tuas mãos, dentro da tua livraria, mas… Já que não é possível, vamos a meu endereço:

Outra coisa: muitas vezes escrevi – e até comentei certa vez com o Luís Graça – sobre as grandes livrarias sem personalidade, com caras de shopping e com atendentes que parecem nunca ter aberto um livro. São uma praga. Nego-me a fazer compras nestes lugares da pressa e da falta de contato humano.

E mais: se considerares que tens poucos exemplares dos outros inéditos, por favor, não os envie. De forma alguma gostaria de deixar um de teus clientes a ver, por assim dizer, navios. Mas faço questão de ter o meu! Afinal, quero a minha parte nesta história de amor….

Um beijo carinhoso e muito obrigado.
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A expressão “salário moral” do título me foi trazida por outro escritor amigo, o pernambucano Fernando Monteiro. Significa aquilo que ganhamos em centímetros quando um fato nos envaidece. Creio que ele poderia nos explicar melhor nos comentários.

Observações Finais:
1. Não dei o nome da livraria porque ainda não pedi autorização a seus donos para contar esta história.

Up-date das 9h: Recebo outro e-mail de Aveiro:

Milton, venho secretamente trabalhar nos papeis quando o resto da cidade ainda tem a cara encostada ao lençol. É nesse instante que abro o seu e-mail. Bela maneira de começar o dia.

Autorização concedida.

Muito obrigada.
Sónia.

2. O conto que está sendo publicado é uma versão corrigida e ampliada deste aqui. Minha mulher e a revisora não gostam dele. Eu o acho divertido. Aqui no blog está sua primeira versão.

3. Além do site cujo link coloquei acima, a livraria O Navio de Espelhos – nome mais português impossível! – ainda tem um blog aqui.

Grenaica

Publicado em 12 de abril de 2006

A Idelber Avelar

Minha filha foi comigo ao Grenal de domingo. Ela tem 11 anos e aquele era o quinto – segundo ela, pois para mim é o terceiro – jogo a que assistia em estádio. Estava encantada com tudo. Lia as faixas, ria dos palavrões, juntava-se aos coros altamente ofensivos ao adversário, falava muito e transpirava certezas. Para mim, a experiência de ir a campo com ela foi a de travar contato com a mais escabelada passionalidade. As faltas cometidas em nossos jogadores eram agressões dignas de dar cadeia, o juiz era um imbecil e os gremistas, idiotas. Se um dia fui assim, esqueci. Talvez eu vá ao estádio pela beleza plástica do jogo e de sua tática (na TV não é tão bonito, nem tão interessante) ou por simples amor ao Inter, mas acredito que a verdadeira razão é a de que o futebol é um gênero de espetáculo que pode ser visto com maior variação de humores e participação do que qualquer outro disponível por perto. Por exemplo, se você for a um concerto, provavelmente não poderá ofender o artista. Vou a muitos concertos; sei que escolho bem e, quase sempre, saio feliz. Às vezes, ele é apenas aceitável. Há possibilidades bem piores, é claro, porém elas raramente incluem a vaia, chamar o artista de filha-da-puta ou a disposição de odiar-se a ponto de desejar a própria derrota – em outras palavras, de desejar o próprio fracasso.

Estou enrolando para dizer isso: um concerto ou qualquer outro espetáculo que aconteça dentro de um teatro são representações mais incompletas da vida do que um jogo de futebol. Pronto, disse! Talvez não consiga dormir hoje. Os fantasmas de Shakespeare, Pirandello, Tchekhov, Bergman, Sófocles e de tantos outros me perturbarão a noite. Sei que os aspectos culturais envolvidos fariam o futebol perder de goleada nos primeiros minutos de uma discussão, mas experimente olhar de frente para uma torcida de futebol com o jogo se desenvolvendo à nossas costas. O sofrimento, a alegria, a expectativa, a frustração e quase todos os sentimentos são coisas presentes, visíveis a ponto de serem quase fenômenos físicos. Talvez até o amor romântico tenha representação no futebol… No teatro elisabetano – época de Shakespeare -, os assistentes manifestavam-se, podiam gritar e fazer piadas sobre Otelo, Iago e Desdêmona, mas, hoje, fazer isto seria uma tremenda falta de educação e até eu concordo. Pô, já imaginaram um cara berrando ao nosso lado, fazendo-nos perder as falas?

A possibilidade de amar, de ser indiferente ou de detestar o próprio time, de ridicularizar ou sentir medo do adversário, de aplaudir ou desejar a própria derrota é exercida plenamente apenas quando estamos no estádio. Acho ridículo sentir tanta coisa na frente da TV. Aparentemente, a Bárbara concorda, pois nunca vê jogos de futebol em casa, não vê emoção naquilo; intuitivamente, sabe que a maravilha está no campo de batalha e no leque de opções por ele oferecidas. Na proximidade do fato e no oscilar entre o píncaro da glória e o possível funeral está o fascínio da coisa.

No caso do jogo de domingo, fomos enterrados. Faltando cinco minutos para o final do jogo, todos estavam em pé e meu filho sentou. Ele não queria seguir assistindo aquela tremenda exposição de incompetência de nosso técnico. Eu e a Bárbara ficamos aguardando o momento mágico e improvável da sorte. Com o jogo terminado, ficamos todos paralisados, sem nos movermos do estádio. Bernardo me perguntou sobre o que estava acontecendo. Disse-lhe que o jogo acabara e que tínhamos perdido o campeonato mais fácil dos últimos dez anos, que eles eram os campeões. Quando olhei para a Bárbara, ela chorava.

Já no papel de pai, fiz com que ela sentasse sobre minha perna e expliquei-lhe que aquilo era uma diversão, que mesmo para mim o futebol era a mais importante das coisas desimportantes e que, enfim, aquele fato não era digno do choro dela. Fomos embora passando entre torcedores boquiabertos, que pareciam hipnotizados vendo a pequena torcida do Grêmio comemorar. Eu falava sem parar. Não queria que ela visse tantos adultos chorando, contradizendo minha argumentação.

Obs. 1: tenho a leve impressão de ter roubado o título deste post de alguém. Se tivesse que chutar, diria que o furto foi feito ao Tiago. Mas é muito tarde para averiguar. Vou dormir. Update matinal: foi sim, foi tirado daqui.

O que eu ia publicar anteontem

Publicado em 21 de agosto de 2005

Observação importante: Este é o texto que ia publicar no dia de meu aniversário (19/08), mas houve a invasão do post abaixo e, agora que timidamente retomo o controle de meu blog, posso finalmente publicá-lo. Achei simpático o post de livres-associações que escrevi e, por isso, sigo falando um pouco mais em aniversário. Agradeço comovido às felicitações e manifestações de carinho de todos os que comentaram, escreveram e-mails e telefonaram.

Abro minha agenda e vejo que não falam em mim. Leio que hoje é o Dia Internacional da Fotografia, o Dia da Aviação Agrícola e o dia em nasceram Bill Clinton, Aracy de Almeida, Francisco Alves e Marcos Palmeira. Fotografia? Nunca seria um grande fotógrafo, meu daltonismo impediria. Aviação Agrícola? Sou inteiramente urbano e concordo com Cortázar quando ele diz que o campo é o lugar onde os bois passeiam crus. Clinton? Até simpatizo com ele, mas nunca fui criativo com charutos. Aracy? Como ela, adoro Noel Rosa, mas não faria aquele lamentável papel de jurada de programas de televisão que ela fez no final de sua vida. O cantor das multidões? Mal conheço, mal ouvi. Marcos Palmeira? Um ator bonito que fez um péssimo Villa-Lobos e um bom Bentinho no cinema.

Informam-me que 1957 foi o ano em que o primeiro ser vivo foi lançado ao espaço sideral. Foi um cão ou, mais exatamente, a cadela Laika, uma vira-latas soviética.

Depois de Laika, veio o primeiro ser humano. Um cara bem pequeno (tinha 1,58m) e gordinho (69 Kg) chamado Yuri Gagarin, que viajou apertadíssimo por 1h48min pelo espaço numa mini-nave, a Vostok I. Quando retornou, depois de uma queda livre a uma velocidade de 30.000 Km/h, estava perturbado e disse aquela frase infeliz que deixa os gremistas felizes até hoje: A Terra é Azul. Ora, não poderia ter dito outra coisa qualquer?

Mas isto já foi em 1961. Em 68, o simpaticíssimo Gagarin foi para a segunda divisão, digo, morreu, num desastre aéreo. Laika tornou-se selo.

Gagarin também.

Minha mãe era ainda menor que Gagarin, tinha 1,55m e hoje tem menos. Talvez tenha dançado, abraçadinha com meu pai, o grande sucesso de 57 — Love Me Tender, com Elvis Presley — que, dizem, ainda está vivo, apesar de também já ter virado selo.

Naquele ano, aconteceram coisas lamentáveis. Os negros lutavam contra o racismo nos Estados Unidos e tinham iniciado um forte protesto contra o governo do estado de Arkansas. Acontece que a Suprema Corte mandara abrir aos negros as escolas antes freqüentadas exclusivamente por brancos em todo o país. A revolta começou quando o fabuloso governador Orval Faubus contrariou a ordem federal e usou tropas militares para impedir a entrada dos negros. Com o clima de violência instalado, a Casa Branca ordenou que mil pára-quedistas saltassem sobre a cidade de Little Rock para restabelecer a ordem. Paradoxalmente, este débil metal, Faubus, acabou imortalizado por um negro, Charlie Mingus,

que compôs uma obra-prima em sua “homenagem”. A música chama-se Fables of Faubus e você deveria conhecê-la. Se não conhece, faz-lhe falta, estou certo disso. Faubus não virou selo e nem terá sua cara estampada em meu blog (ele é muito inferior a Laika, por exemplo), Mingus sim.

Nasci em 19 de agosto de 1957 e, para facilitar seus cálculos, vou logo dizendo que completo hoje 48 anos. No final dos anos 50, tinha esta cara aí.

E hoje tenho esta aqui.

E sou feliz, vivendo ao lado desta gente e de um grande (e crescente, muito crescente) grupo de amigos.

Bom, por hoje era apenas isto.

Feliz aniversário

Publicado em 19 de agosto de 2005, com minha irmã entrando em contato com os administradores da Verbeat. Eles “invadiram” e publicaram no meu blog sem eu saber

Por Iracema Gonçalves

Querido irmão!

Desculpe-me a intromissão, mas não resisti. Desde o momento em que teu álbum de fotografias de infância pousou em minhas mãos, pensei em fazer uma surpresa. Aliás, imaginavas perdido, não é?

Quero partilhar com teus amigos alguns momentos de tua/nossa meninice.

No dia 19 de agosto de um já distante ano de 1957, a menina da boneca ganhou um irmãozinho. Lembro-me bem do dia em que te conheci. Engomada, usei minha melhor roupa para ir ao Hospital Beneficiência Portuguesa. Só não esperava que tu estivesses tão “amassadinho”. Apesar disso, contextos como esse sempre sugerem uma dose de encantamento. Fazer o quê?

Com o tempo, tu te tornaste um lindo menininho. Parafraseando nossa mãe, “eras impossível”!

Certo dia, contrariando ordens superiores, fui até o centro da cidade depositar um rótulo de achocolatado para concorreres a um uniforme dos Patrulheiros Kresto. Qual não foi a surpresa? Acabaste ganhando. E eu tive que explicar direitinho como teu nome apareceu na urna. A partir daquele dia, o Edifício Paraíba passou a ter um xerife… e eu fiquei pra lá de orgulhosa com o feito!

Com o desenrolar da vida, as traquinagens deram lugar as tuas paixões – livros, música e o Internacional. Entre uma lida e outra, lembro das noites em que tu e o pai disputavam o espaço sonoro da casa, sem falar daquelas em que narravas futebol dormindo, com direito a gols, xingamentos, etc. Nossa mãe ficava apavorada… “Teria ele um parafuso a menos”?

Lá em casa, uma coisa que nunca faltava era rádio ligado, inclusive em cima de carros como este Skoda. Isso era mais evidente ainda nos dias de jogos do glorioso Internacional. Os comentários esportivos faziam parte de todos almoços e jantas e as bandeiras coloradas iam até para as areias de Tramandaí. Que honra para essa praia, hein?

A clássica posição de leitura – deitado – é a que sempre me vem à memória. A paixão pelos livros manifestou-se bastante cedo e lembro que, muitas vezes, a mãe reclamava, cheia de orgulho, de que a culpa era dela. Dizia que havia exigido muito de ti e que agora tu tinhas te viciado em literatura.

Na verdade, acho que sempre fomos uma família muito unida e as poucas brigas ocorridas eram disputas de espaço para ficarmos cada vez mais juntos. Indignada, eu costumava reclamar dos rádios e toca-discos que ocupavam a atenção dos homens da casa, bem como do enorme Correio do Povo – naquela época, tipo “Folha de São Paulo”.

Sempre foste um cara mais caseiro em relação ao nosso pai. Tínhamos que dividi-lo com o Jockey Club e com os jogos de damas. Neste último, ele era um craque e costumava fotografar-se com suas medalhas, o que pode ser conferido nesta foto. Já com os cavalos…

O tempo foi passando e o menininho, meu companheiro, deu um jeito de multiplicar-se. Os resultados foram estes sobrinhos maravilhosos, bonitos, inteligentes, carinhosos e cheios de vida! E, como se não bastasse, tu és um pai exemplar! Para quem não entendia como uma pessoa pode ficar tão boba com seu filho recém-nascido, eis o tira-teima.

A seguir, estamos nós no Natal de 2004! Confesso que já estávamos meio “altos”, mas lembro que foi na casa dos pais da Claudia… Ops! Ainda não falei dela. Esta é a mais nova integrante do clã. Foi uma “aquisição” e tanto, meu caro irmão. Ela é simpática, alegre, agregadora, está sempre disposta a ajudar e tem calor humano para dar e vender. Sem ela, esta invasão virtual não teria sido possível. Além disso, costuma deixar muito gourmet de queixo caído. Por favor, cuida bem da minha cunhada!

A pedido, destaco também teu querido sobrinho, que também tem em ti um grande amigo e companheiro.

Milton, um grande abraço de aniversário e votos de muiiiiiitos anos de vida!

Beijos da irmã que te adora!

Aforismos e Minicontos de Primeira Linha

Publicado em 23 de março de 2006

Marcelo Backes acaba de lançar, pela Editora Record, o surpreendente e inclassificável volume Estilhaços. No livro, pertinho do impagável Pequeno Dicionário Nostálgico de Meu Futebol Missioneiro, há, exatamente na página 89, o que segue:

A inteligência vem do berço?

Bernardo, filho do meu amigo Milton Ribeiro
– o melhor leitor não-profissional do Brasil -,
gosta de documentários.
Aos cinco anos de idade,
ao ver três funcionários
do departamento municipal de limpeza urbana
inspecionando as canalizações de esgoto em
Porto Alegre
perguntou:
“Pai,
São paleontólogos?”.

O resto livro também vale a pena. Juro que não há mais elogios a mim… A amizade cria exageros. Uma prova? Bem, na contracapa do livro há isto, simplesmente:

Princípio

Viver
é escrever
para não
matar…

Novo Referendo

Publicado em 30 de outubro de 2005

Você é a favor da proibição da comercialização de campeonatos de futebol no Brasil?

1- NÃO
2- SIM

Será que desta vez o SIM vence? Vote nos comentários abaixo.

Obs.: Post inspirado em e-mail escrito por Elias Dill (Maurício).

Acrescentado às 9h40 do mesmo dia:

A colorada Elenara Iabel Cariboni nos envia uma importante e curiosa contribuição ao debate: uma crônica escrita por Graciliano Ramos em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto, na qual ele defende a tese de que o Brasil não tinha vocação para o esporte, e sim para a rasteira. A rasteira? Sim, a mesma que levamos do Dr. (?) Luiz Zveiter, 84 anos depois, ao acordarmos, num domingo, manhã de jogo importantíssimo, sem a liderança do campeonato. Se hoje os comentários sobre esportes e outras previsões de Graciliano só nos provocam riso, ele acerta em cheio ao escrever que “desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, (…) todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.”

TRAÇOS A ESMO
GRACILIANO RAMOS – Publicado pela primeira vez em “O Índio”, em Palmeira dos Índios (AL), em 1921, sob o pseudônimo de J. Calisto.

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idéia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês.

Pois quê! A cultura física é coisa que está entre nós inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve é a orelha, graças aos puxões maternos, mas não está provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro também possui consideráveis apêndices auriculares, o que não impede que o considerem, injustamente, o mais estúpido dos bichos. (…) Fisicamente falando, somos uma verdadeira miséria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lástima! Pálpebras caídas, beiços caídos, braços caídos, um caimento generalizado que faz de nós um ser desengonçado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: “Me deixa…” Precisamos fortalecer a carne, que a inação tornou flácida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercúrio escangalhou.

Consolidar o cérebro é bom, embora isto seja um órgão a que, de ordinário, não temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque é ótimo. Convencer um adversário com argumentos de substância não é mau. Poder convencê-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaçador, é magnífico. (…)

Para chegar ao soberto resultado de transformar a banha em fibra, aí vem o futebol.

Mas por que o futebol?

Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo? Não é que me repugne a introdução de coisas exóticas entre nós. Mas gosto de indagar se elas serão assimiláveis ou não.

No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituição alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho híbrido que possa viver cá em casa. De outro modo, resignemo-nos às broncas tradições dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol não se adapta a estas boas paragens do cangaço. É roupa de empréstimo, que não nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um país é necessário, não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena. É preciso, pois, que vá preencher uma lacuna, como diz o chavão.

O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído. (…)

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão. As cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o ópio, a cocaína, a morfina; por aqui há pessoas que ainda fumam liamba. (…)

Estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os músculos, rapazes, ganhem força, desempenem a coluna vertebral. Mas não é necessário ir longe, em procura de esquisitices que têm nomes que vocês nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!

Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro – e a rasteira nos salva.

Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.

Muito útil, sim senhor.

Dediquem-se à rasteira, rapazes.

Robert Wise (1914-2005)

Publicado em setembro de 2005

Foi uma enorme honra receber hoje um e-mail do escritor Fernando Monteiro, acompanhado da seguinte mensagem: “Escrevi o texto abaixo especialmente para teu blog (se vosmicê generosamente quiser divulgá-lo).” Imagina se não! Além de publicar em primeira mão um artigo do Monteiro em meu blog, ele ainda vem bem ao encontro disto aqui.

Um cineasta americano acaba de falecer, em Los Angeles. Robert Wise, que parecia já ter morrido — há cinco, dez anos? — “disse adeus ao mundo” (na linguagem-clichê dos jornais), ontem, aos 91 anos.

A notícia vem em fôrma burocrática, e alguns textos destacam, desenxabidamente, que “Wise foi amigo de Orson Welles”. (E daí? Não entendi.) Robert Wise assinou a montagem de Cidadão Kane e, sem seu trabalho, o mais célebre filme de Welles seria outra coisa, bem menor (detalhe: em muitas ocasiões, ele esteve manipulando o material sozinho, sem a presença do diretor ainda dormindo ou dedicado a alguma outra tarefa, dentre as dezenas que Orson tocava, ao mesmo tempo, como um chinês rolando vinte pratos, simultaneamente, com uma varinha). Enquanto Wise se encontrava sempre enfurnado na sala da moviola, desde cedo, criando lá a sintaxe perfeita para as cenas do Kane, genialmente fotografadas por Greg Tolland seguindo o muito inspirado roteiro de Herman Mankiewicz etc. Bem, o filme revolucionário (de quem?) ficou para trás, incrustrado para sempre na história das revoluções da linguagem do cinema, e Robert Wise seguiu criando, na condição de diretor, filmes seminais como The Set-up (“Punhos de Campeão”), westerns psicológicos como “Honra a um homem mau” (1955), musicais da grandeza artística de “Amor, Sublime Amor”, e mais 36 filmes perfilando quase todos os gêneros praticados na Hollywood da idade de ouro hoje soterrada.

Esse diretor americano foi — como o inglês David Lean — uma espécie de “Mister Cinema”, para quem nada do que dizia respeito a filmes lhe era estranho. Os jornais brasileiros não parecem saber disso, e apelam até para lembrar o dispensável A noviça rebelde, por ele produzido e dirigido quase no final da carreira (e como se o musical com Julie Andrews pudesse ser um cartão de apresentação do diretor do realmente belo O canhoneiro do Yang-Tse)…

Morreu um grande cineasta. Um autor de notável modéstia e encanto pessoal, que sabia dirigir atores como ninguém. Desapareceu um mestre do cinema que não recebe, mesmo na morte, nenhum dos elogios espargidos sobre a cabeça do rasteiro imitador Spielberg et caterva. Coisas do nosso tempo de incultura gritante, grosseria triunfante e burrice espetacular.

FERNANDO MONTEIRO

Ai, que preguiça

Publicado em setembro de 2005

E tenho tanta coisa para fazer! Hoje eu quero apenas… uma pausa de mil compassos. E ver esta menina de Leonardo da Vinci surgir. Uso “menina” apenas para continuar parafraseando a Paulinho da Viola, pois esta é La Dama Scapigliata (A Dama Escabelada) de Leonardo da Vinci. Haveria algo melhor para esta tarde chuvosa em Porto Alegre?

Os daltônicos como eu devem ter uma idéia muito diferente do comum sobre as artes plásticas. Gosto disto:

Estou ali, de roupa clara, olhando para você. Dia chato. Com licença, vou trabalhar.

Tiau.

Um esboço sobre minha irmã

Publicado em 31 de julho de 2005

Na minha opinião, estará equivocado aquele que pensar que o melhor de 1952 foi Os Brutos Também Amam ou o musical Cantando na Chuva. Estará mais errado ainda quem lembrar-se daquele ano pelas músicas Índia ou Sassaricando ou pelas Olimpíadas de Helsinki.

Vejam a foto da menina acima. Notem como ela, em fevereiro de 1956, aos 3 anos e meio, precisava de um irmão. Observem o carinho com que ela segura aquela boneca horrorosa. A coitadinha ficava sozinha na escada, sonhando com as alegrias que um maninho lhe daria. Seu olhar é presciente e indica com clareza as delícias do porvir; pois ele chegou:

E, mesmo que a foto de 1958 esteja comida pelas traças, vocês podem ver que sua simpatia, beleza, inteligência e alegria eram autênticas… Tivemos uma infância muito feliz e – fato incrível – nunca brigávamos. Ela sempre foi a melhor aluna da aula, a de melhor caligrafia, a de maior conhecimento, a de melhores dentes e, segundo um rapaz de sua escola, a de melhores beijos e abraços.

Meu pai, quando soube que sua filha de 15 anos estava namorando o Sylvio, perguntou a ela:

– Mas, minha filha, é um namoro platônico, não?

Não chamaria de platonismo aquilo que acontecia lá no sofá de casa, mas era adequado a um pai dos anos 60 fingir cuidar da virgindade de sua pimpolha. O que o pai nunca imaginaria é que ela, em 31 de julho de 2005, amanhã, estaria comemorando seu 53º aniversário e que o jantar da festa de hoje estaria sendo preparado pelo mesmo rapaz sorridente e de calças de atravessar riacho da foto. Hoje, bem mais calvo e de cabelos brancos, esperamos que ele nos prepare um grande jantar.

Nunca soube de outro namorado, mas, naqueles anos em que o rock and roll parecia produzir apenas obras-primas, há registro de festas de arromba e de certa resistência à nova música. Vejam o conflito geracional estampado nesta foto de 1969:

Meu pai faz questão de protestar silenciosa e eloqüentemente contra a música, enquanto minha mãe experimenta os efeitos do barato provocado por uma overdose de laquê e nossa heroína olha para o outro lado com os cabelos alisados e achando tudo aquilo um saco.

O casamento com o Sylvio rendeu-lhe um dividendo barulhento e agitado. Quando Filipe caiu em suas vidas

eu não sabia que estava ganhando – além de um sobrinho -, um companheiro de futebol e nem sonharia de que ele organizaria um site sobre o Sport Club Internacional e que eu seria o comentarista!

Como é inevitável, a vida seguiu seu curso e chegou a minha vez de aumentar a família. Ela recebeu um sobrinho que a adora.

E, depois da morte de nosso pai, recebeu uma sobrinha que, se não tinha seus cabelos castanhos, era crespa como ela e veio com o mesmo olhar, o mesmo jeito, o mesmo comportamento.

Hoje, espero que esta bela jovem senhora nos prodigalize uma grande festa de aniversário.

Afinal, toda esta gente tem que beber bastante e ser bem alimentada.

(Ira, feliz aniversário! Do irmão que te ama.)

Mulheres, me ajudem!

Postado em 16 de agosto de 2005

Sou bastante antiquado e romântico para acreditar que muitas crianças, diante das circunstâncias certas, são leitoras naturais até o momento em que esse instinto é destruído pela mídia.

Harold Bloom, no prólogo de Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades.

Minha filha Bárbara, que está quase com 11 anos, precisa de indicações de livros para meninas pré-adolescentes. Minhas caras leitoras, ela é uma menina como vocês foram: é inteligente, sonhadora, altamente romântica, apaixonada pelas coisas e revela certa tendência para escrever. Nunca pertenci a seu maravilhoso sexo e, apesar de amá-lo incondicionalmente e de dedicar grande parte de meu tempo a entendê-lo, não pretendo mudar. Prova disto é que nem as visitas periódicas e obrigatórias ao proctologista tiraram-me de meu caminho. Assim, sempre li livros para meninos e, até hoje, prefiro o futebol ao balé. Não vou indicar-lhe Os Meninos da Rua Paulo, que foi meu livro mais querido na pré-adolescência, assim como de meu filho. Minha mulher lia uma inacreditável biblioteca para moças de sua avó. São livros da primeira metade do século XX e, se funcionaram para a Claudia, não funcionariam para a Bárbara. Minha ex-mulher, que se chama Suélen (ou Pâmela, não lembro), mal fala comigo.

Por favor, deixem-me comentários salvadores. Quais os livros que você indicaria antes que minha filha seja trucidada pela mídia? Tenho certeza que o fantástico grupo de leitoras que possuo — apenas como leitoras, infelizmente — não me deixará sozinho.

P.S.- Bárbara está gostando de Clarissa, de Erico Verissimo.

Comentários:

–> E tenho dicas de livros que são ótimas, pois tenho 11 anos e leio todos:Agenda de Carol Diário de Débora Agenda de Carol Fala sério mãe! Rita está crescendo Todos os cinco são muito legais. Vale a pena!
Luiza     Mulheres, me ajudem!     Jun 27 2007
–> Oi, td bom? Encontrei esse seu pedido desesperada por acaso, buscando por um dos livros citados pelas leitoras no google. Eu recomendaria os livros da série vagalume, são uma graça e podem agrdar a Gregos e Troianos. Se ela é romântica, então sem dúvida um livro de contos de Clarice Lispector ou de Lygia Fagundes Teles é um ótimo começo! Contos, pq os romances de Clarice já são bem densos… Mas se ela gostar de aventura ou suspense, aconselho Edgar Alan Poe. Ah, e se vc achar alguma versão pra adolescentes, um clássico tipo “Sonhos de uma noite de verão” seria maravilhoso. Bem, citei esses livros pq eu cresci com eles, mas tenho lido Harry POtter e apesar da mídia ser muito exagerada em cima dele, é um livro legal pra adolescentes da idade dela. Eu sinceramente recomendo! Um abraço e boa sorte!
Roberta     Mulheres, me ajudem!     Sep 1 2006
–> Gostaria de conhecer outras obras suas.
Ruama     Mulheres, me ajudem!     Dec 23 2005
–> Milton, Carolina adorava uma coleçao de contos chamada “Para gostar de ler” com seleçoes de autores muito bons como Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Rubens Campos, Mário Qintana, Cecília Meireles, etc. Também gostava de poesia que copiava em seus cadernos e sabia de memória!´ De minha época eu lia o que encontrava pela biblioteca do Lorde:e os que mais gostava eram os de Érico Veríssimo, Garcia Marques, Ariano Suassuna, Pablo Neruda. Gostava muito também de ler biografias… Bueno, mas vc já teve assessoria demais! Beijinhos na Bárbara.
nora borges     Mulheres, me ajudem!     Aug 25 2005
–> Postado por Milton após sugestão de Leila Couceiro e “roubo” (meu) das Garotas Que Dizem Ni: A leitura daqueles tempos As capas eram chamativas. O tamanho da letra, grandão. As páginas eram poucas e ilustrações apareciam sempre. Tudo isso acabava sendo chamariz para minha curiosidade quando eu era criança. Naquele tempo, bastava ver uma brochura esperando para ser degustada na prateleira “Infanto-Juvenil” que eu já sacava da frase favorita dos petizes: “Compra, mãe?”. Se bem que hoje eu continuo fuçando nas estantes mais coloridas da loja. A única diferença é que não caibo mais nas mesinhas e cadeirinhas disponibilizadas para a leitura dos pequenos – e sou chamada de “tia” por eles. Apesar do apelo natural que um livro voltado ao público infantil carrega, acender a vontade de ler é trabalho árduo quando se tem apenas um punhado de anos. Como competir com videogame, Internet, televisão e brincadeiras com os amigos? E olha que a escola também não colabora muito. Acho o fim aquelas leituras obrigatórias de apenas uma opção – ou seja, todo mundo vai ler exatamente o que a professora acha legal. Eu passei por tudo isso. Confesso que muitas vezes preferia tentar quebrar meu recorde no Enduro a passar a tarde lendo. Mas não há administradores de tempo melhores do que as crianças. O dia, para elas, possui umas 36 horas. Dá para fazer de um tudo – ler, inclusive. Eu conseguia. E, apesar de não haver Harry Potter naquela época, a magia era certa com… … O Gato do Mato e o Cachorro do Morro De Ana Maria Machado Existe um título infantil mais delicioso do que essa riminha aparentemente boba? O Gato do Mato vivia brigando com seu maior inimigo, o Cachorro do Morro, para decidirem quem era o mais valente e destemido da dupla. O problema é que do nada surge um leão para botar o rabinho dos dois entre as pernas. Nas minhas lembranças confusas, este livro figura como o primeiro. … O Gênio do Crime De João Carlos Marinho Quando chegamos naquela fase em que histórias de fadas e bichos viram “coisa de criança” (como se ainda não fôssemos isso), a melhor pedida é esse causo de mistério que fez parte da infância de muita gente – uma vez que foi publicado, pela primeira vez, em 1969. Foi a chance de brincar de detetive mirim e adivinhar quem estava por trás do esquema de falsificação de… figurinhas! … O Menino do Dedo Verde De Maurice Druon Era o meu “Pequeno Príncipe”. O personagem também é descrito como um menino loiro de olhos azuis e que vivia em um mundinho só dele. O dom de Tistu era, claro, o dedo verde – tudo o que ele tocava ganhava vida, principalmente as plantas. Tipo aquela cena de “E.T. – O Extraterrestre” em que o alienígena faz uma flor reviver. E a história, como no cinema, tem final triste e inesperado. … A Curiosidade Premiada De Fernanda Lopes de Almeida Toda criança já passou pela fase dos “Por quês”: para a gente era divertidíssimo saber por que a água é molhada e por que o fogo é quente; para os adultos, porém, deve ser dose. Essa brochura mostra bem o assunto levado até as últimas conseqüências. Glorinha é uma peste que quer saber tudo e incomoda muita gente com tanta curiosidade. Mas consegue, com isso, fazer até os pais aprenderem. … O Escaravelho do Diabo De Lúcia Machado de Almeida Se eu fosse falar de todos os livros que li da “Coleção Vaga-Lume”, precisaria de pelo menos um mês inteiro só versando sobre o tema. Como nem eu nem você agüentaríamos, vou me ater apenas ao principal. A história dava conta de uma série de assassinatos de pessoas ruivas que recebiam um pequenino escaravelho pouco antes de comerem capim pela raiz. Dava medo, mas era ótimo. … A Bolsa Amarela De Lygia Bojunga Outro dia vi esse volume em um sebo e amaldiçoei os céus por não ter um troco sequer na carteira para comprá-lo. Tudo bem: prometi a mim mesma voltar lá depois para reviver a saga da menina que mistura o dia-a-dia com histórias fantásticas de amigos imaginários que só uma criança sensível e imaginativa consegue criar. Faz muito tempo, mas lembro de ter devorado cada página. … Quem Manda Já Morreu De Marcos Rey Outro favorito da coleção “Vaga Lume”. Perceba que eu já adorava histórias tipo “C.S.I” desde pequena. Ali, o herói era o Edu, um rapaz que ajudava seu tio detetive – conhecido como Palha – a desvendar mistérios. O maior deles era a identidade de um tal de Boss. Depois de ler e reler e reler mais uma vez, ainda fiz com letra caprichada todo o suplemento de atividades. Sem a professora mandar. … História Meio Ao Contrário De Ana Maria Machado É tudo de trás pra frente, de ponta-cabeça. E como era divertido! Primeiro, o livro começa com “E eles foram felizes para sempre” e termina com “Era uma vez…”. Depois, a princesa se recusa terminantemente a casar-se com o príncipe encantado. A autora colocou um conto de fadas no espelho e recriou tudo assim, maluco, para a alegria dos pequenos que, como eu, tiveram a sorte de ler. … Marcelo, Marmelo, Martelo De Ruth Rocha Três histórias em um só volume: uma sobre Marcelo, um menino que resolveu criar seu próprio idioma, digamos, básico (cachorro era “latildo” e colher era “mexedor”); uma sobre Teresinha e Gabriela, duas garotinhas bem diferentes, mas que no fundo eram iguais; e uma sobre Carlos Alberto, um moleque mimado e egoísta que não gostava de perder. E tudo isso assim, de uma vez. Maravilha. … O Menino Maluquinho De Ziraldo Certamente o meu livro infantil favorito de todo o universo. Tanto que eu ainda o guardo, apesar da capa rasgada, das folhas soltas, do cheiro de mofo e dos rabiscos de canetinha que meus irmãos fizeram nele quando eram bebês. E o pego de vez em quando para falar oi ao menino que era maluquinho como todos nós éramos, mas que virou um adulto muito legal. Como eu espero ter virado.
Milton Ribeiro     Mulheres, me ajudem!     Aug 21 2005
–> Igual à maioria das mulheres aqui, também li muito e de tudo (inclusive bulas de remédio, livros “de menino” e “de adulto”, enciclopédias, dicionários, revistas da National Geographic), primeiro sem discriminação, e depois aprendendo a discriminar sozinha. Acho que o melhor é ter, em casa, uma biblioteca enorme e variada, e deixar que ela mesma entre lá e pegue o que quiser. Pode até ser que ela leia Lolita ou Grande Sertão : Veredas sem ter total capacidade para entendê-los, mas a gente não ama só o que entende completamente, talvez seja até um pouco o contrário, né ? ;o)
Cynthia     Mulheres, me ajudem!     Aug 20 2005
–> Milton, preste atenção nas bancas de revistas…sai ainda esse mês o lançamento dos Clássicos da literatura brasileira em quadrinhos para o público infanto-juvenil. Uma meia-forma de incentivo à leitura. Beijus
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 19 2005
–> Amigo, eu pensei uma boa parte do dia no seu post, que preferi responder hoje. Estou dando um curso sobre rodas de leitura para professores, e seu post me fez reencontrar algumas questões importantes. Puxa, lembrei de tanta coisa boa dessa idade… A sua ansiedade e vontade de acertar como pai é simplesmente uma graça… E comove, de tão sincera. Cristo disse uma vez, “não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal.” Infelizmente, não fugimos da mídia… Pelo contrário, precisamos conhecê-la bem para saber combatê-la. E discordo de quem diz que somos tão frágeis ao ponto de ter nossas personalidades distorcidas profundamente. Temos uma porta interna que, se tivemos uma boa formação de caráter e personalidade, só abrimos para quem não vai nos desvirtuar. Ser curioso e sentir necessidade de conhecer de tudo a toda hora é muito comum nessa idade… E como é. Eu me lembro de ter sido assim. E foi aí que eu me lembrei que, na idade da sua filha até os meus 18 anos, eu li de tudo. Li o “Clarissa”, que a sua menina gosta… Li vários livros que falavam de adolescência ( feitos para adolescentes ), como “A Hora do Amor”, e “A marca de uma lágrima”. Li sobre sexo, li contos de mistério, li toda a obra da Agatha Cristhie e todas as bobageiras de banca daquelas Sabrinas e Biancas. E li também Machado de Assis, Maquiavel e Oscar Wilde. E todos eles, dos bons aos ruins, formaram quem eu sou hoje. Mas te digo – o melhor de ler tudo isso foi tê-los eu mesma escolhido. Então… Dê a sua filha a chance de escolher entre muitas opções. Respeite as escolhas dela… E se ela é ótima, como eu acredito que seja, encontrará por si só o seu caminho, o seu estilo, amadurecendo a seu tempo a leitora e a escritora que ela é. Agora, se você quer ser útil nessa hora, penso que o melhor é que mostre a ela o que você gosta e conte da sua paixão por este ou aquele livro. Meu avô fazia isso comigo, e eu me sentia conquistada sem que ele nunca tivesse entregado um livro em minhas mãos. E não há questões de gênero na literatura… Acho que tudo é para todos. Não é não? Perdoe o tom “professoral” da resposta… rs Ando tão chata que nem mesmo me animo a escrever pra não irritar a outros. rs Mas olha, meu coração diz que seu amor pela menina Bárbara é sempre o melhor conselheiro… O amor é sábio. Se é! Beijo enorme, pra você e pra menina. E olha, se não conhece ainda, tente o livro “Como um Romance”, do Daniel Pennac… Acho que ele pode te servir muito. 🙂
Karina     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Oi milton! agora estou vendo sua pergunta. Olha, meu livro Caixa Postal 1989 ganhou todos os prêmios , ele é da José Olympio editora. Ele é um livro adorado pelos jovens. Principalmente pelas meninas. O livro foi escrito em 89, ganhou o jabuti em 93, entre outros prêmios, e até hoje recebo mails de leitores. Há até comunidade de fãs no Orkut. Infelizmente eu não tenho nenhum exemplar em casa pra te enviar, senão, seria um prazer. Tenho outros livros em casa. Se você me passar o endereço terei prazer em presentear.
Angela     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Meu coloradinho favorito, aproveito para dizer que sou bem mais crítico do que tu em relação ao manoel de oliveira! Agora em relação aos conselhos de leitura para a tua filha, permite que te diga que sou homem e, como tu, amante das mulheres, mas não percebo porque é que só por ser homem sou excluído. Pois não me parece que as sugestões que aqui vou deixar sejam inferiores às sugestões das tuas respeitáveis leitoras: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. As aventuras de Gulliver. Evidentemente, aconselho os mesmos livros ao pai da aconselhada (aproveito ainda para ir reler, pela enésima vez, o primeiro dos livros que sugeri). Abraço, Paulo
Paulo José Miranda     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Mílton, experimenta Minha vida de menina, da Helen Morley, ela deve gostar. Li o Monólogo até onde foi publicado, eu acho (V parte?). Queria ler o final, mas não achei. Bjins
adelaide     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Milton, compre urgente para ela: – Os livros de Karen Cushman: “Aprendiz de Parteira”, “Catarina, a Menina Passarinha”, “A Balada de Lucy Whipple” e “Matilda do Osso”; – “Ella Enfeitiçada”, de Gail Carson Levine; – A trilogia para jovens de Isabel Allende (A Cidade das Feras, O Reino do Dragão de Ouro e A Floresta dos Pigmeus); – A trilogia de Pippi Meialonga, de Astrid Lindgren, que alguém já sugeriu; – “Harriet, A Espiã” (um clássico!! mas esqueci o nome da autora…) – “O Caçador”, de Ana Lúcia Merege (hehehe); – Se ela for do tipo brincalhão, os livros da série “Witch”, tipo “Como se dar Bem com seus pais”, “Como se dar bem na escola”… – Se ela for do tipo romântico, livros de Marina Colassanti, mas só os de contos voltados para jovens. E nunca mais deixe de me consultar em assuntos importantes como esse, viu? Beijos, me visita! Ana
Ana Lúcia Merege     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Bom como hoje em dia uma menina de 11 anos ja sabe muito bem o q quer pq tenho uma q tem 12, acho q deve seguir um conselho ja dito antes leve ela em alguma livraria e deixe ela mesma escolher sua leitura. beijos
marcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Nossa, que coisa complicada. Mesmo pq eu não tenho gdes livros nessa época da vida. Mas aconselho o Mahabharata de Claude Carrière.
Charô aka Suricata     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> ..quanto aos livros ainda não sei,mas qto ao comentário sobre a Rádio imaginária (em teu coment. no Zadig) aqui tens uma locutora voluntária em prontidão! bjo na palma da mão!
Bugra     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> oLÁ Milton, Um dos livros modernos para meninas é o ” O mundo de Sofia” provavelmente você ja o conheça http://www.ime.usp.br/~cesar/projects/lowtech/mundodesofia/ Beijos Stella
Stella     Mulheres, me ajudem!     Aug 18 2005
–> Engraçado que minha filha de 11 a Amália ama, lê e relê as aventuras de Pipi meiolonga, os contos nordicos, russos, árabes. E por conta do filme leu toda a coleção Desventuras em série. De quebra ainda dei as duas O Genio do crime. Eu vi outro na FNAC que as duas pequenas pediram. Amália tem 11 e Roberta 9. É auqle livro da menina que entra no armário e conta histórias.. agora esqueci.. Mas no geral os contos, ela amou. Beijos Odila
Maria Odila     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu concordo, a mídia anda destruindo a vontade de ler.
Pedro     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, pedirei que Flora opine, mas tenho uma posição quanto a ler: o importante é ler, qualquer coisa, mesmo o que possamos considerar subliteratura, pois após o desenvolvimento do hábito de ler o próprio leitor passará a selecionar bons livros; atualmente meninos e meninas lêem livros comuns, como os de J. R. R. Tolkien, Catherine Clément, Eoin Colfer, Alice Sebold e até mesmo, por estranho que pareça, Mark Twain, Charles Bukowski e Stephen King, preferencialmente os contos destes três últimos autores; por falar em contos, os mini contos de Marina Colassanti costumam fazer sucesso entre a garotada e as crônicas de Veríssimo também. Em tempo: ambos ficamos decepcionados com a Cobra Coral em Porto Alegre, não é?
Manoel Carlos     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Tem uma fase que a leitura cai um pouquinho, por mais que elas gostem de ler; é que o pensamento vagueia e vai longe… Olívia! Eu li toda a coleção Vagalume, da Ática. E todos os clássicos brasileiros. Se fosse eleger um livro mais atual e que as meninas gostam, sem dúvida seria “O mundo de Sofia”, mas diferente da maioria nada contra o “Harry Potter”. Beijus,
Luma     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, minha filha adora Clarice Lispector, Ana Cristina Cesar e Caio Fernando Abreu, mas já tem 18 anos…. Acabei de falar com ela e lembramos que ela leu e adorou “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder quando tinha 11 anos. É uma excelente opção, também dei a ela, nessa época, vários livros de Vinícius e Drummond, acho que são ótimas pedidas, leves, agradáveis de ler…. Lembro que também comprei uns livros infanto-fuvenis de autores clássicos, tinha uma coleção dessas com James Joyce, Fitzgerald, Goethe, tudo com historinhas leves (por incrivel que pareça hehehe), ainda deve existir algo do tipo. Agora, nunca me rendi a esses para-didáticos horriveis que a escola obriga a ler. procurando a gente encontra coisas bacanas e compreensíveis pras meninas. ps.: quando digo para-didáticos, não estou me referindo, claro aos classicos brasileiros, mas umas coisas novas horrorosas que apareceram nos ultimos anos.
Denise Arcoverde     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu li todo José de Alencar, li o Tempo e o Vento (amei, li umas cinco vezes depois de novo) – eu era uma menina de fazenda, me identificava com essas coisas – e sexo não assusta não, é melhor a novela (inevitável) com o Veríssimo do que sem ele. Li tanta coisa que não consigo lembrar…acho que ainda repetia uns Lobatos de vez em quando, vício adquirido aos seis. Júlio Verne. E um monte, inesgotável, de coisas menos famosas, que eu ia catando e lendo. Acho que nessa idade, o importante é dar coisas com muito conteúdo de conhecimentos gerais, porque a memória é fantástica. Eu juro que passei no vestibular por ter lido uma porcariada de escoteiros em férias no Rio Paraguai, Verne, essas coisas. Literatura de verdade eu curtia, mas é claro que depois que reli mais velha eu percebi que não tinha entendido nada. Então vejamos, acho que tem duas coisas: uma são os fatos e informações concretas que nunca mais esquecemos, que podem ser adquiridos em todo tipo de livro, e com maior concentração em literatura “light”, tipo Verne; outra coisa é a noção das coisas humanas, do sentido da vida, essas coisas mais profundas. Para isso, para mim, foi bom ter lido literatura “adulta” quando criança, mesmo sem entender tudo. (por essa razão tenho certo “pé atrás” com Harry Potter e afins, não ensinam muita coisa prática nem muitas coisas humanas – acho que o Lobato tem uma medida mais equilibrada de fantasia e realidade, apesar de as relações humanas nele serem fraquinhas)
Julia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Eu lia Júlio Verne, Dumas, a Condessa de Ségur e, depois, M. Deli. Além de todo o Monteiro Lobato. O que eu daria a ela? Capitães de Areia, de Jorge Amado. Os Harry Potter, sem a menor dúvida. Li os dois primeiros, são muito interessantes e tenho uma porção de pacientes-amigos que não perdem um. Acho que os ‘antigos’ clássicos tipo de Júlio Verne, Dumas, etc, ainda a atrairão. Há umas edições adaptadas por gente como Cony e Ferreira Gullar, se não me engano. No mais, leve ela pra Livraria Cultura ( ou outra assemelhada) e deixe que ela mesmo fuce e descubra os livros que quiser ler. Faço isso com minha sobrinha de 9 anos, e ela adora. Uma coisa é certa: ler é experiência de cada um. A gente ajuda, mas ela é quem irá escolher. Beijo grande, Márcia
Márcia     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Milton, meu dileto amigo. Ah, as leitoras que possuímos!! Nossa salvação. Os proctologistas, ô agrura dos cinquent’anos… Como o pedido de socorro só se estende às leitoras, aguardemos, cavalheiros… Amitiés, BetoQ. P.S.: Dia 19 se aproxima, hem?! Festa à vista nos Verbeats. Queria muito estar aí. Milton responde: Calma, Zadig, para que tanta pressa? Serão 48, apenas.
Zadig     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005
–> Minha primeira sugestão seria Mme Deli, como a Cláudia. Gostei aos 10 anos, de Os desastres de Sofia da Condessa de Ségur ( rss). Bom, a escola nos obrigva a ler os citados pela Cláudia, mas aos 12 eu lia ( escondido) Jorge Amado! Beijão
Mônica     Mulheres, me ajudem!     Aug 17 2005

Rascunho

Publicado dia 28 de julho de 2005

(É muito chato falar sobre as tragédias de nosso país. Nem o Collor me deixou deprimido como estou agora com a roubalheira e as mentiras dos governantes que receberam meu voto… É, meu voto.   Melhor mudar de assunto. Bem, então vou falar de uma coisa boa.)

Vou falar sobre uma ilha de resistência que deveria orgulhar a todos os que amam os livros. O jornal Rascunho, que chega ao número 63 neste mês de julho, é uma publicação mensal de 32 páginas dedicada exclusivamente à literatura. Prestem atenção, 63 meses significam 5 anos e três meses de vida. Para um jornal independente, voltado exclusivamente à literatura e que sempre fez questão de qualidade, é muito.

O escritor pernambucano e colaborador do Rascunho Fernando Monteiro costumava me enviar cirúrgica e gentilmente as edições do jornal que julgava pudesse haver algo de meu interesse; porém, este mês, pensei que talvez até a cortesia de meu amigo  conhecesse limites e resolvi finalmente assinar o jornal. Também pudera! Fernando Monteiro está iniciando a publicação de um romance inédito e completo em suas páginas. <i>O Inglês do Cemitério Inglês</i> chegará aos leitores do Rascunho da mesma forma que se fazia no século XIX, capítulo a capítulo, mensalmente. Não vou comparar Fernando a Machado ou Dostoiévski, mas ele deve estar satisfeitíssimo com o convite do editor Rogério Pereira para secretar, mensalmente e em pleno século XXI, os capítulos de seu novo livro. No mínimo, bem no mínimo, será acrescentado um enorme charme ao Rascunho, além de acenar com uma longevidade ainda maior para um jornal que, repito, dedica-se exclusivamente à literatura.

Como em qualquer publicação onde as pessoas expressam opiniões, o Rascunho gerou polêmicas, algumas tolas, outras pertinentes. O saldo positivo é muito alto. Por exemplo, fiquei muito feliz quando li que o jornal resolvera discutir a obra de João Gilberto Noll. Foram publicadas, lado a lado, uma crítica favorável e outra nem tanto. Como estou entre os “nem tanto”, gostei; afinal, não estou sozinho no mundo. Houve a polêmica sobre Sebastião Uchoa Leite e a revista – coisa inédita – desculpou-se. Já imaginaram a Veja fazendo isso?

Se algum de vocês se interessar, a edição 63 traz duas grandes entrevistas com Affonso Romano de Sant`Anna e Marina Colasanti, e um monte de artigos: um enorme sobre a obra de Mario Quintana, outro sobre Osman Lins (Avalovara), mais Carpinejar, Machado, etc., etc. e até uma crítica sobre o último livro do homem que aquela revista mais detesta no mundo, o homem que quer mamar nas tetas do Estado, o hediondo e repugnante Marcelino Freire.

Não recebo comissão, mas se algum de meus sete leitores quiser assinar o jornal é só mandar um e-mail para rascunho@onda.com.br, aos cuidados de Rogério Pereira. Custa R$ 30,00 por semestre. Quando ele  chegar pelo correio – o jornal, não o Rogério -, vocês verão que é baratíssimo. Tenho alguns amigos em Curitiba que já estavam me deixando na dúvida, mas depois do Rascunho, ficou provado definitivamente: não há só bundões em Curitiba.

Relatório Pessoal sobre a Flip 2005

Publicado em 13 de julho de 2005

Quando saímos de Porto Alegre, o termômetro que temos em frente de casa indicava 3 graus, mas quando chegamos a São Paulo estava quente e eu já suava. A Mônica, do Crônicas Mônica, e seu marido vieram nos buscar em Cumbica e fomos direto a Parati. Viagem boa, conversa fácil. Compramos os ingressos para as mesas que nos interessavam e finalizamos o primeiro dia indo ao show de Paulinho da Viola. Um espanto. Duas horas de clássicos e de algumas músicas novas. Nem deu para sentir o inimigo insidioso que preparava-se. Quando saímos do espetáculo, ele já estava armado: um inesperado frio de rachar. Mesmo querendo dar uma de gaúcho e desejando dizer que tantos agasalhos era frescura de cariocas, não havia como negar. Eu tremia e representava mal a coragem gaúcha para o frio.

Então, começamos a nos aquecer com a pinga de Parati. Para quem não está acostumado a beber álcool, aquilo tinha um efeito muito confortável. O frio passava e já não sabia se nossos amigos Mônica e Luiz eram realmente agradáveis e engraçados ou se era apenas mais um dos efeitos das Salinas, Nêgas Fulos, Coqueiros e Santa-Não-Sei-O-Quê que bebíamos. O resultado no outro dia? Nada. Nenhuma dor de cabeça, só uma vontade louca de dormir que nos fez perder as primeiras palestras da FLIP.

Conseguimos apenas assistir à mesa 3, às 15h do dia seguinte. Marina Colasanti, Vilma Arêas e Benedito Nunes falavam sobre Clarice. Apesar do enorme conhecimento de Vilma, foi médio. Ficou a impressão de que se ela estivesse sozinha, seria fantástico. Depois pulamos para a mesa de David Grossman e Michel Ondaatje, que foi monótona para quem não conhecia suas obras. Eles se referiam demasiadamente a questões judaicas bem conhecidas e Grossman parecia muito ressentido com o mundo, enquanto Ondaatje queria falar sobre poesia. Havia um chiado preocupante que parecia sair dos altos falantes. Uma falha técnica? Não! Era a chuva, que viera para acompanhar o frio. Fomos para o Restaurante do Fogo. Ali, eles flambam tudo com cachaça e é aquele fogaréu. Entramos molhados pela chuva fria e começamos a função tomando uma Gabriela, que é uma cachaça licorosa, com cravo e canela. Muito boa. A comida era excelente, apesar das porções resumidas. Resolvemos reforçar o estômago com uma sobremesa. Entramos num bar em que havia música esplêndida de jazz e bossa nova. Os caras eram ótimos mesmo. Não sei quem eram. Comemos e ficamos assistindo ao grupo acompanhados novamente daquele líquido, agora em versão incolor, apesar do apelido de “branquinha”. Ficamos com sono – eu e a Claudia – e fomos para o hotel. Perdi o grande momento em que a Mônica foi convidada a cantar desafinada, ops, Desafinado, Garota de Ipanema e todo o cerne do repertório jobiniano. Ela costuma cantar enquanto caminha, enquanto anda de carro, enquanto come, ela está sempre cantando. Tem uma voz grave, rouca e afinada. Cantava em sua mesa no bar e foi chamada ao palco. O problema é que seu marido começou a fazer gestos indicando que o couvert teria de ser dividido entre ele – agora travestido de empresário – e os músicos; desta forma, sua carreira foi abortada por uma dispensa entre risos. Perdi tudo isto! E, para completar, as fotos estão sob inflexível censura.

No dia seguinte, tornamo-nos intelectuais sérios. Assistimos à melhor palestra da FLIP: Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz (Um Lugar para as Idéias). Deveria ter sido gravada. Foi uma inesquecível lição sobre Jorge Luis Borges, Machado de Assis, engajamento, compromisso intelectual e Juan José Saer.

Fomos almoçar no Bartolomeu, que tem boa comida e uma loira gostosa que olhava para mim e que provocou ciúmes não na Claudia, mas no Luiz, pois ele não fora aquinhoado com os mesmos olhares… Depois chegaram outras mulheres lindas – lindas mesmo – e ele dizia: tudo bem, me dá a pior e eu fico satisfeito! Eu e a Mônica ficamos boiando enquanto ele e a Claudia conversavam de forma minuciosa sobre comida. Antes de 2002, não conhecia pessoas assim. A Claudia estava encantada, porque o Luiz “pensava” a comida de forma semelhante a dela. Trocavam receitas e receitas, inventavam pratos, faziam variações mentais a respeito e elas pioravam ou melhoravam. Concordavam em tudo e reviravam os olhos de prazer, enquanto eu e a Mônica observávamos. E informo-lhes que estavam sempre sóbrios. (Descobri um fato que desconhecia. Esses chefs em potencial escolhem seus restaurantes pelo cheiro. É ele que determina se a comida oferecida é boa. Estou definitivamente fora desta especialidade. Sou um insensível.)

Deixamos minha loira e fomos para Orhan Pamuk (Mar de Histórias II: As Mil e uma Noites). A Flip tinha engrenado. O turco Pamuk é uma metralhadora informativa. Explicou-nos a imensa influência de Borges na divulgação das Mil e Uma Noites no mundo e a visão do oriente e do ocidente sobre o livro. Pamuk não esperava pelas perguntas, interrompia o entrevistador, sorria aparentemente sem motivo, mexia pernas e mãos para falar, era de tal forma agitado que era difícil manter a atenção em seu discurso. Depois de uma hora, a Claudia irritou-se e disse que não conseguia mais fixar sua atenção naquele maluco. Foi embora, enquanto eu jogava o corpo para a frente, tentando não perder nada do diferenciado conhecimento daquele homem que estava física e intelectualmente sobre aquela ponte de Istambul que é Àsia de um lado e Europa de outro e que tomava os dois mundos num só olhar. Outra grande palestra. À noite, assistimos a um recital es-pe-ta-cu-lar de Hamilton de Holanda. Garanto-lhes que o homem é um gênio e que nunca tinha visto alguém tocar bandolim daquela maneira.

O dia seguinte começou com a concorrida mesa de Arnaldo Jabor e do rapper MV Bill. Não a assisti, mas toda Parati estava lá. A mesa seguinte teve uma Parati desatenta e dispersa, mas foi do mesmo nível da de Schwarz e Sarlo. Chamava-se Zona de Conflito e foram entrevistados os correspondentes de guerra Jon Lee Anderson (Guerra do Iraque) e Pedro Rosa Mendes (Guerra de Angola). O educadíssmo americano Anderson cedeu grande parte de seu tempo para que o português falasse sobre uma guerra desconhecida e sobre o seu multi-premiado livro Baía dos Tigres, que descreve a guerra. Desculpem, não dá para resumir. Ouvimos um tremendo documento humano sobre uma população paupérima – e em grande parte mutilada pelas minas – subjugada por interesses de vários países, entre eles Portugal, Estados Unidos, Cuba e Brasil (Petrobrás e Odebrecht) e curvado por interesses tribais e de grupos armados como UNITA, MPLA, FNLA, FRELIMO, RENAMO, etc., etc. etc., além de por ditadores riquíssimos que dominam o cenário, o qual é literalmente tão minado e estropiado que criou uma cultura dantesca. Por exemplo, alguns angolanos cortam suas vacas a fim de tirar-lhe alguns bifes, depois, costuram alguns pontos e tratam de recuperá-la, pois não podem sobreviver sem ela. Assim, todos são mutilados. Lembrei do Holy Grail (do Monty Phyton), lembrei daquele guerreiro que quer lutar sem braços e pernas, mas aqui não tratava-se de comédia.

Saímos de lá e vimos a Sílvia Chueire. Estava acompanhada do escritor português Paulo José Miranda, que me presenteou com um livro de sua autoria onde a ficção entrelaça-se com metáforas sempre musicais. Li um pouco e parece tratar-se de algo muito bom. Recebeu alguns prêmios, mas esqueci-me deles. Desculpa, Paulo. Os dois foram encantadores e Paulo fez-nos dar risadas com suas histórias, além de revelar-se um exímio conhecedor de futebol.

** Atualização feita no mesmo dia, às 14h40. Nos comentários a este post, o Paulo explica: O prémio que esqueceste é o primeiro prémio José Saramago (que é extensivo a todos os países de língua portuguesa). Mas não tem problema, não! Problema mesmo é essa sua fixação pelo SLB (Benfica). Abraço, Paulo. **

À noite, chegou a vez de Salman Rushdie (O Equilibrista), que fez uma mesa muito alegre, inteligente e comovente. Fez a platéia emocionar-se – é um perfeito ator! – durante a leitura de um trecho de seu último livro em que refere-se a sua Caxemira natal, depois endureceu dizendo que só um idiota escreveria um simples livro pastoril de memórias sobre a Caxemira, que a literatura deve espelhar a realidade e que impôs-se a destruição daquela Caxemira, tal como o fizeram indianos e paquistaneses. Disse que chorava ao escrever a segunda parte do livro e perguntava-se a cada momento se valia a pena torturar-se daquela forma, mas concluíra que tinha de ir em frente. Naquela noite, não houve festa, pois a Claudia e a Mônica tombaram de cansaço.

No último dia, almoçamos num indiano ótimo (Ganges) que a Claudia descobrira pelo cheiro, é claro… Foi nossa melhor refeição, não foi, Luiz? Depois, assistimos à palestra O Sabor da Letras, de Anthony Bourdain, ex-chef do badalado restaurante “Les Halles”, de Nova York, e que escreve sobre gastronomia, além de trafegar na área da literatura policial. O cara, que é excelente escritor, já era conhecido do Luiz e, por sugestão deste, era a leitura da Claudia durante a FLIP. Ela engoliu as 400 páginas do livro Cozinha Confidencial em tempo recorde e chegou entusiasmada, como todos nós, para assistir à mesa. Mas a entrevistadora era uma débil mental. Acho que foi ela quem tornou o excelente Bourdain tão desbocado e desmotivado.

Tiagón perguntou-me ontem: o chef que a Claudia engoliu é o Bourdain? Essa era a mesa que eu mais queria assistir. Li Cozinha Confidencial umas dez vezes… Viram? O cara tem leitores realmente qualificados.

Foi uma boa Flip. De resto, houve as merecidas babações para Clarice, o contínuo frio estranho que impediu as escunas de saírem e que nos atirou para dentro dos restaurantes, bares e casas de espetáculos (todos os músicos bons estavam lá, incrível!) e… para a pinga salvadora. Ah, e houve o susto de Parati, pois a prefeitura de Ouro Preto quer desesperadamente sediar a próxima edição. Porém Liz Calder já disse: no way, ficamos em Parati. O evento é daqui. Alívio dos nativos.

Como no ano passado, retiramos-nos já com saudades e planejando a Flip 2006. Porém, é indiscutível que o fato principal da edição 2005, do ponto de vista pessoal, foi a presença da Mônica. Ela é a pessoa com quem tenho a relação mais curiosa da blogosfera. Em dois anos de amizade, tivemos duas enormes brigas. A primeira, causada por um comentário horrível e desajeitado que fiz em seu blog, durou uma semana; a segunda durou muito mais, houve um afastamento de uns quatro meses e conseguimos conversar somente após a providencial intervenção de sua irmã . Não éramos obrigados a reatar, não somos parentes e nem nos conhecíamos pessoalmente, mas os vínculos que a blogosfera e as palavras criam não podem ser chamados de fracos ou descartáveis. Já amiguinhos de novo, acertamos a viagem dos dois casais através do MSN e foi a decisão mais correta. Estas viagens são de alto risco; podem ser chatas pelo contato intensivo, pelo comportamento inesperado de alguém, pelas manias que se revelam, por coisas que não sabemos avaliar previamente, etc. Fazíamos juntos as refeições e o festerê, mas hospedamo-nos em hotéis separados. Quando a coisa parecia demais, ou seja, quando já estávamos muito tempo juntos, o casal Mônica e Luiz sumia como que por encanto (como eles adivinharam a hora certa?), a ponto de eu pensar se não tinha cometido nenhuma grosseria (quem não é um pouquinho paranóico?). Depois, nos reencontrávamos e a mágica se restabelecia. A Claudia e o Luiz são pessoas encantadoras e tranqüilas, e demonstraram perfeita disponibilidade para conhecerem-se e conviverem, com cachaça ou sem. Sempre houve um sincero interesse de uns pelos outros, rimos muito (o Luiz é um piadista nato) e tudo foi simples como conversar com velhos amigos num bar conhecido. Passamos a noite de domingo na belíssima casa deles em São Paulo e, ao saírmos de madrugada (3h45) para ir ao aeroporto, pisamos – eu, a Claudia e o taxista – em volumosos cocôs de cachorros que decoravam a calçada. Dizem que é sorte.

(Mais, melhor e a origem das fotos: aqui.)

Dia dos Pais de Alma Lavada

Ganhei um presente, o mais doce deles. Copio aqui o post que minha filha escreveu em seu blog:

ISSO É UMA HOMENAGEM AO MEU PAI:
Pai eu te amo muito eu não te troquaria por nada nesse mundo!!!!!!!!!
Eu te amo vc q me ajudou todos esses anos!!!
Nunka vou deixar de amalo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Eu te amo!!!!!!!!
Sempre me compriendeu!!!!!!!!!!!
Meu amor eu ti AMO!!!!!!
I LOVE YOU!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pai vc é muito especial para mim!!!!!!!!!!!
Fasso qualquer coisa por vc!!!!!!!!!!!!!
EU TE AMO!!!!!!!!!!!!!Papai!!!!!!!!!!
Lindo efofo e gulochinho!!!!!!!!!!!!
Eu te adoro!!!!!!!!!
Meu amor!!!!!!!!!!!!!!

Bjs especialmente para o meu pai!

Digam-me: ainda preciso de presente? E no blog dela chegam comentários… É um carrossel de emoções…

Hate post

– Meu computador pessoal ou, mais especificamente seu disco rígido, desistiu de viver. Há cópias de segurança, mas a última é do dia 20 de junho. Como nunca perdi meus arquivos, fazia cópias muito raramente. Um técnico está tentando salvar alguma coisa. Estou num notebook que não é meu. A coisa está toda desconfigurada e sem os programas aos quais me escravizei. Sem meus “Favoritos”, tive que ligar para o Gejfin, pois nem sabia mais como postar.

– Se alguma lista de “Melhores CDs de Rock de Todos os Tempos” não incluir Odelay, do Beck, você saberá que a lista é anacrônica. Não perca tempo com ela.

– Fantástico o último post do Tiagón (link ao lado) sobre masturbação feminina. A franqueza de alguns comentários é surpreendente. Bom isto.

– Meus três próximos posts – a sexta parte do “Monólogo Amoroso”, um diálogo em que um Oficial de Justiça vem intimar uma mulher por ter fingido seus orgasmos por 15 anos (a ação fora impetrada por seu marido) e alguma anotações sobre música – estão (estavam) no disco que foi para o espaço.

– Um arquivo com um projeto importante para meu trabalho profissional também está (estava) lá.

– Para me acalmar, vou correr uns 8 Km em vez de almoçar. Fui.

Atualização das 15h40:

– Não é o HD. Não se sabe o que é. O computador às vezes carrega o S.O.; outras vezes, não. Pode ser a fonte, talvez a memória, etc. Enquanto isto, meus arquivos permanecem seqüestrados.

– Corri 4,8 Km em 28 minutos. Aí, eram mais ou menos 12h40 e me deu uma grande fraqueza. Voltei ao escritório para tomar um banho – há chuveiro aqui – e almoçar. Aconselho todos a correr. Dizem que faz bem para a saúde e, enquanto corremos, organizamos nossa vida, agenda e preparamos posts. Ninguém nos interrompe. Depois, o cansaço é tanto que dá até para receber telefonemas da ex-mulher sem reagir nem pensar e muito menos registrar (o que é ainda melhor para a saúde).

A Baixinha, a FLIP

Publicado em 5 de julho de 2005

Ela tinha 1,55m. Agora deve ter no máximo 1,50m. Recebeu educação rigorosa em colégios internos de Santa Maria e Porto Alegre. Tão rigorosa que era proibida de tocar tangos no piano do colégio da capital. Uma vez, pegaram-na tocando aquela música do demônio. Seu professor – que hoje está devidamente morto e é até nome de conservatório em nossa cidade – veio por trás e fechou violentamente a tampa do piano sobre suas mãos. Uma bela educação, com efeito. Inesquecível. Ela diz ela que doeu por muito tempo, que talvez tenha quebrado algum osso. Depois, formou-se dentista numa época e num estado onde somente outras três mulheres o eram. Foi trabalhar em Cruz Alta, mas veio outro dentista e a levou casada para Porto Alegre. Trabalhou a vida toda e teve dois filhos, que criou com cuidados (muitos) e preocupações. À noite, ora arrumava as roupas do filho mais novo que jogava futebol a tarde inteira, ora tomava as lições dele e de sua irmã. Muitas vezes ela, de tão cansada, dormia durante as lições e nós ficávamos paradinhos, torcendo para que ela não acordasse. Não sei de mãe melhor e não lembro de nenhum tapa; fomos criados sem as exemplares atitudes do defunto maestro Leo Schneider. Éramos uns duros, pois meu pai gastava horrores no turfe, mas nunca faltou nada em nossa casa, nem amor ao perdulário, que, aliás, era adorado por todos. Eu detestava vê-la bem arrumada, era sinal de que iria ao cinema com meu pai e que ficaríamos sozinhos. Odiava aqueles perfumes e casacos de pele. Ela tinha algumas curiosidades: a liberação de verbas era ilimitada se fosse para comprar livros ou qualquer coisa para nossa educação; porém, se fosse para aquilo que considerava bobagens, poderia haver vetos. Uma vez, eu tinha uns 18 anos e meus pais foram para a praia deixando-me em casa. Chamei uma namorada e passamos a noite juntos. Pela manhã, ouvi meus pais brigando na frente da porta do meu quarto. O tempo estava chuvoso e eles tinham retornado. Minha mãe dizia para meu pai, enquanto protegia a porta do meu quarto e tentava conter a voz: “Ele é um adulto e não interessa se está dormindo com alguém ou não. Sai daqui! Já!”

Parabéns à Dra. Maria Luiza Cunha Ribeiro, minha mãe, que hoje faz 78 anos e que me ajudou em tudo, até em minhas ereções adolescentes.

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Há uma série de autores que me interessam nesta FLIP. E eles não se chamam Jabor, Jô, Suassuna e muito menos Ondaatje. Pretendo assistir a duas palestras por dia, encontrar alguns amigos e respirar a atmosfera da cidade, tão especial durante a FLIP. Se der, pego carona em qualquer escuna e tomo um banho dedicado a meu filho Bernardo, que ama aquelas águas; depois, culpado, ligo para minha filha. Das estrelas, só Rushdie me interessa. Mas há muito mais: o fantástico Roberto Schwarz, o turco Pamuk, o português Pedro Rosa Mendes, o chef Bourdain, o cubano Latour, Paulo Henriques Britto e outros, além de Paulinho da Viola e do bandolim de Hamilton de Holanda. Se a festa permitir, pretendo escrever pequenos posts diários a respeito. Mas os cybers de Parati são de matar. Quem quiser me achar deve procurar aqui:

Pousada do Príncipe
Av. Roberto Silveira, 289
Telefone: (24) 3371.2120

Um descansado post de feriado

Publicado em 26 de maio de 2005

Me passam esta corrente sobre cinema. OK, lá vão minhas respostas:

1. Qual o último filme que viste no cinema?

A Queda – Os Últimos Dias de Hitler, de Oliver Hirschbiegel.

2. Qual a tua sessão preferida?

A das 8 da noite, seguida de um bom jantar.

3. Qual o primeiro filme que te fascinou?

O Rosto, de Ingmar Bergman.

4. Para que filme gostarias de te ver transportado(a)?

Para qualquer filme onde eu fizesse par romântico com Juliette Binoche. Escolheria aquele onde houvesse mais cenas de amor… A Insustentável Leveza do Ser, provavelmente. A seu lado, receberia de bom grado a visita dos tanques soviéticos.

5. E já agora, qual a personagem de filme que terias gostado de conhecer um dia?

Damiel, de Asas do Desejo, filme de Wim Wenders. Revisei uma imensa lista de mais ou menos 1400 filmes que mantenho e avalio há uns 15 anos – já escrevi sobre esta esquisitice… – e, casualmente, escolhi um personagem vivido no cinema por Bruno Ganz, o mesmo ator que faz o papel de Hitler no primeiro filme citado neste post.

6. E que actor(actriz), realizador(a), argumentista ou produtor(a) gostarias de convidar para jantar?

Convidaria Juliette Binoche, ora. Além de lindíssima, ela é simpática, inteligente, sensível e uma surpreendente piadista, qualidades que costuma demonstrar de sobra em suas entrevistas. É perfeita! O cardápio e o local não interessam.

7. A quem vou passar isto?

Não vou intimar ninguém. É feriado. Repasso a quem queira responder.

Respondendo a uma pergunta

Me fizeram uma pergunta daquelas nos comentários. De onde tirei a citação engraçadíssima de Heine com que encerrei o post anterior? Tenho a mania de copiar, em um arquivo do Word, citações que poderei utilizar um dia. Só que eu tinha esquecido de copiar a fonte daquela de Heine. A citação era esta:

Eu tenho uma mentalidade pacífica. Meus desejos são: uma cabana modesta, telhado de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga; em frente à janela, flores; em frente à porta, algumas belas árvores. E, se o bom Deus quiser me fazer completamente feliz, me permitirá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos nelas pendurados. De coração comovido eu haverei, antes de suas mortes, de perdoar todas as iniquidades que em vida me infligiram – sim, temos de perdoar nossos inimigos, jamais antes, porém, de eles serem enforcados.

Depois de algum trabalho aqui está: a citação foi retirada de “Pensamentos e Idéias” (Gedanken und Einfälle) e encontrei-a no prefácio de “Noites Florentinas” (Florentinische Nächte), Mercado Aberto, 1999, tradução de Marcelo Backes.

“Noites Florentinas” é uma excelente novela e o restante de minhas anotações – um pouco bagunçadas – sobre o livro é este:

É muito prazerosa a troca de papéis que Heine faz em relação ao modelo das 1001 Noites. Se nas 1001 Noites, Sherazade – uma mulher – conta histórias e mais histórias a fim de não morrer, nas NF Maximilian – um homem -, faz o mesmo para que Maria sobreviva. Sei lá se o Rei das 1001 Noites dormiu durante alguma história; mas posso dizer que fiquei quase escandalizado ao descobrir que, ao final da primeira noite, Maria dormia. Eu estava acordadíssimo. Outra surpresa é o clima erótico sugerido por Heine. A história se passa ao pé do leito de Maria e o escritor eleva a temperatura diversas vezes. Relembremos a passagem na qual os amigos “…olharam-se em silêncio por longo tempo. Em ambas as almas surgiam pensamentos que cada qual tratava de dissimular ao outro. A mulher segurou de súbito a mão do homem e a cobriu de beijos ardentes”, depois há o toque dos lábios de Max nos pés de Maria e a frase “Sorrindo cheio de afeto ao olhar afirmativo de Maria…”. Se tais trechos não servem àquilo a que a Playboy se propõe, pelo menos nos fazem sonhar. Alguns capítulos depois, a história de Mademoiselle Laurence também vai fundo neste sentido, apesar do onírico da situação. O trabalho do tradutor-prefaciador Backes é impecável.

Festa no Apê e outro tópicos menos eruditos

Publicado em 15 de fevereiro de 2005

FESTA NO APÊ: Sábado, enquanto respondia e-mails e comentava no blog da Meg, cantava “Festa no Apê” em altos brados. Dificilmente haverá quem mais depreze música ruim do que eu, só que a coisa colou na minha cabeça e sou uma natureza canora. Para me auxiliar – tenho certeza -, a Claudia ameaçou separar-se de mim imediatamente. Atiraria minhas coisas pela janela. Não deu certo. Depois, mais razoável, pôs a Pequena Missa Solene de Rossini em um volume ensurdecedor para qualquer vivente sem lesões auditivas. Isto fez passar a crise. Na semana passada, li esta frase em um e-mail: “Bons tempos aqueles em que uma festa no apê só incomodava os vizinhos“. Nada mais verdadeiro.

A ORAÇÃO DO ATEU: De sexta para sábado, tive um sonho em que via e ouvia um padre falar mais ou menos assim: Ó Pai, que estás nos céus, colocado lá por nossa fraqueza, medo, culpa e imaginação, feito a nossa imagem e portador de nossos defeitos, olhai por nós, pobres pecadores que não usamos teu nome para nada e que vivemos pelo mundo como cães sem dono. Permita que os cães com dono não nos mordam e que a bondade e desespero enviada por eles a ti, retornem na forma de grandes chuvas de bençãos e não como tens feito ultimamente. Que a beleza de tua figura, formada em cada poro e célula por nosso afeto a nós mesmos e nosso horror ao vazio, possa espalhar-se pelo mundo e transformar-se em vales onde jorrarão o leite e mel (*) necessários a nutrir teu povo… (Aqui acordei conjeturando se isto não daria um post…)

(*) “Vales onde jorram o leite e o mel…”. Da letra de Chico Buarque em Sobre Todas as Coisas, lembram?

O FRACASSO DA LITERATURA: Além de Perto Demais (Closer) – analisado espetacularmente pela Meg e respondido com argúcia ainda maior por mim (*) enquanto cantava Festa no Apê para a Claudia; bem, dizia eu que, além de Perto Demais, você deveria ver urgentemente Menina de Ouro (Million Dollar Baby), de Clint Eastwood. Acho uma pena isto, mas o cinema – e não a literatura – tornou-se nosso maior background cultural comum. Então, a gente tem que correr logo aos bons filmes para não ficar fora das discussões! Vê-se um filme em duas horas, lê-se um livro em alguns dias. As apresentações dos filmes nos cinemas são efêmeras, o livro espera na cabeceira ou na estante até a hora em que você decida-se a lê-lo. É mais difícil, pois, sincronizar leituras, enquanto os filmes são assistidos por muita gente numa mesma época. Discutamos filmes, então.
Observação: Tópico escrito com o auxílio etílico de Jussara Mussi e Ricardo Branco.

(*) Brincadeirinha, Meg. Sabes que só repeti o que disseste.

GÊNIOS ABSOLUTOS: Em minha opinião, William Shakespeare foi o maior gênio do século XVII; no século XVIII, elejo tranqüilamente Johann Sebastian Bach como o maior de todos os homens; já no século XIX, deixaria a láurea (fifty-fifty) nas mãos de Karl Marx e Charles Darwin e, no vizinho século XX, daria o prêmio a Sigmund Freud. Para o século XXI, tenho um candidato por ora imbatível: Hugo de León, técnico do Grêmio. Só um gênio imortal consegue fazer aquele grupo de cabeças-de-bagre jogar. Insuperável!

FIASCO: Se o Inter continuar jogando deste jeito, dedicar-me-ei ao hipismo ou ao golfe. Alguém aí conhece as regras do badminton? Ou seria badmilton?