Quem pagar R$ 100 mil, leva Andressa Mendonça Cachoeira em prisão domiciliar

Andressa Mendonça foi detida sob suspeita de tentar corromper um juiz.

Há pessoas verdadeiramente profissionais neste mundo!

Para piorar a coisa, o escritório do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos…

… decidiu deixar a defesa do marido de Andressa, o ridículo Carlinhos Cachoeira.

Para ser libertada (oh!), Andressa deverá pagar R$ 100 mil de fiança em dinheiro.

Porém, se alguém pagar 34 mil e deixar dois pré-datados de 33 mil cada um, …

poderá levá-la em prisão domiciliar. Olha, gente, eu não tenho essa grana, …

… mas não acredito que faltarão candidatos.

Dizem que um empresário ligado à Abril e à revista Veja,

fará seu lance em dinheiro na Justiça. Aguardem!

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A aventura de Cesare Battisti em Caxias do Sul

É claro que a livraria Do Arco da Velha não é obrigada a comprar brigas que não são suas, mas deveria ter tomado uma posição clara e firme em relação aos ataques que sofreu na semana passada. Uma livraria deve ser sempre um espaço de civilidade e esta deve prevalecer, mesmo numa situação difícil. Explico: a Do Arco da Velha, de Caxias do Sul, tinha marcado no último sábado uma sessão de autógrafos com Cesare Battisti, que acaba de publicar seu 18º livro, Ao pé do muro (Martins Fontes). Porém, dias antes do evento, deixou-se intimidar por um bando de malucos que, no Facebook, prometeram hostilizar e até matar o italiano Cesare Battisti, ex-militante do PAC italiano (Proletários Armados pelo Comunismo) e desistiu do evento marcado. É claro que ninguém mataria Battisti. Todos seguiriam vivendo suas vidas, uns mais mal humorados do que outros. Na minha opinião, a livraria deveria ter ignorado publicamente os ataques e mantido a sessão — não sem antes avisar a polícia porque poderiam acontecer manifestações. Seria uma atitude contra o obscurantismo, a intolerância e o provincianismo. Tenho certeza de que nem manifestações ocorreriam.

Não interessa se Battisti é um bom autor. Não interessa se ele matou. Não interessa se foi julgado à revelia. Nosso país formou-se a partir de imigrantes e, se eles estão aqui legalmente, devem ter liberdade de trabalhar honestamente e produzir, sem serem ameaçados. Não entendo o gênero de conspurcação que a cidade sofreria com a presença do ex-militante e atual escritor. Caxias está no Brasil, assim como Battisti.  Queiram ou não, ele está no país legalmente, escreveu 18 livros — 15 na França, em liberdade — e, se quisesse, poderia processar quem o chama de assassino. Afinal, o STF liberou o homem, que pode ir a vir.

A manifestação da livraria caxiense no Facebook foi pusilânime, para dizer o mínimo. Lavou as mãos, como se o convite tivesse sido enfiado goela abaixo pela Martins Fontes:

Na maior parte dos casos não somos nós que buscamos um ou outro autor em específico para um lançamento, mas as editoras ou os próprios autores nos procuram para estes eventos. No caso do autor Cesare Battisti, a editora Martins Fontes do Rio de Janeiro que publica sua obra, nos procurou, pois a vinda do autor estava certa para o estado do Rio Grande do Sul, com um lançamento programado para Porto Alegre. Eles quiseram aproveitar e incluir um lançamento na cidade de Caxias do Sul. Entendam que não estamos trazendo ele a Caxias do Sul, estamos cedendo o lugar para o lançamento do livro e sessão de autógrafos.

O que é isso??? Lamentável manifestação, a qual foi complementada pelo cancelamento da sessão de autógrafos, sem aviso no Facebook. A livraria deveria defender Battisti, fazendo frente à truculência e à barbárie. Lembro que uma vez, há uns trinta anos atrás, num churrasco na casa de um amigo, este fez uma série de ironias com um convidado, o qual ficou visivelmente constrangido e incomodado. Não respondeu. Pois o dono da casa, pai do autor das ironias, reagiu fortemente:

— Meu filho, aprenda de uma vez por todas uma coisa. Todos os convidados, em nossa casa, todos, sem exceção, são sempre recebidos com educação. São convidados e não merecem sentir-se excluídos.

O churrasco acabou bem e jamais esqueci daquilo. Cumpro em minha casa. A Palavraria recebeu Cesare Battisti normalmente aqui em Porto Alegre. Quem quis ir, foi; quem não quis, ficou em casa, assim como quem detesta o escritor como um terrorista assassino. É simples assim.

Alguns caxienses organizaram outra sessão de autógrafos e leituras do livro. Foi ao livre, numa residência da cidade. O escritor chegou simpático e sorridente. Foi bem recebido.   Lá tinha mais luz do que na tal livraria. Quem quis vê-lo, viu. É assim que se faz.

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Heleno de Freitas: a mais solitária das estrelas

Publicado originalmente no Sul21 em 6 de de abril de 2012

Uma tragédia fica caracterizada onde não há apenas seriedade e dignidade, mas também conflitos com instâncias superiores, sejam elas metafísicas, como com deuses ou o destino, ou tangíveis, como com as leis e a sociedade. No caso de Heleno de Freitas o algoz foi o destino, o qual, como nas tragédia grega, não se deixou dobrar em nenhum momento. Pode-se dizer que Heleno cumpriu minuciosamente todo o papel trágico que lhe cabia, saindo da glória para a loucura e a morte em linha reta, com a convicção demonstrada sobejamente em Heleno, filme de José Henrique Fonseca, em cartaz nas principais cidades brasileiras.

A obra, rodada em gloriosa fotografia em preto a branco, deixa-nos por duas horas livres de quaisquer vestígios de ciúmes sobre a qualidade do cinema argentino, apesar da presença do hermano Fernando Castets dentre os roteiristas. Mais: não é necessário gostar de futebol para gostar de Heleno. Advogado, jogador de futebol dos bons, galã, boa vida, viciado em éter e lança-perfume, intratável, inteligente e vítima da sífilis, Heleno de Freitas traz todos os ingredientes de um grande personagem de tragédia. Vitimado pelos vícios e pela sífilis diagnosticada tardiamente — e que ele se negava a admitir ou tratar — , Heleno também foi vitimado pela celebridade e arrogância. É uma história triste, claro.

O craque e seu cabelo bem repartido

Heleno foi o primeiro grande encrenqueiro do futebol brasileiro e talvez mantenha-se no topo até hoje. A Adriano Imperador falta não apenas classe. O comportamento de nosso contemporâneo é uma brincadeira boba e monotemática frente a alguém que foi o principal jogador do Botafogo por oito anos — que fez 209 gols em 235 jogos no Bota, além de 19 em 24 jogos pelo Vasco e 15 em 18 jogos pela Seleção — , que desprezava seus companheiros pelo fato de serem um bando de pernas-de-pau (e que dizia e repetia isso para quem quisesse ouvir, a imprensa deliciava-se), que conquistava as mulheres que bem entendia, que se irritava por nada, que deu um nada metafórico tiro no pé ao tentar acender um fósforo enfiado na unha (John Wayne foi sua inspiração), que tinha amigos empresários, juristas e diplomatas e que acabou louco. Como definiu seu biógrafo Marcos Eduardo Neves:

Ele era temperamental como Edmundo, bonito como Raí, mulherengo como Renato Gaúcho, artilheiro como Romário, boêmio como Ronaldinho Gaúcho, inteligente como Tostão, de boa família como Kaká, elegante como Falcão e problemático como Adriano.

(Faltou dizer que ele torrava dinheiro e era explorado pelos amigos como Garrincha).

Rita Hayworth no papel de Gilda

Seu gênio irascível e predador de mulheres rendeu-lhe o apelido de Gilda, analogia com a célebre personagem de Rita Hayworth, também bela e incontrolável. O apelido foi criado pela torcida do Fluminense. As noites de Heleno eram no Copacabana Palace, no Cassino da Urca ou na boate Vogue, tudo o que de melhor que a noite do Rio oferecia. Porém, assim como Rita Hayworth dizia que “todos os homens que já tive foram para a cama com Gilda e acordaram comigo”, Heleno dormia no Copacabana Palace e acordava no Botafogo. E o Botafogo era ruim demais, só Heleno se salvava. O time era tão ruim que Heleno nunca foi campeão carioca pelo time.

Em 1948, a contragosto, foi vendido ao Boca Juniors na maior transação do futebol brasileiro até então. Deixou a mulher grávida no Rio e seguiu fazendo seus gols até dar o tal tiro no pé. Voltou para conquistar seu único título carioca pelo Vasco, no ano de 1949. O técnico do Vasco era o exigente Flávio Costa, que também comandava a Seleção Brasileira. Aliás, a Seleção tinha por base o Vasco. Assim, era quase inevitável que Heleno jogasse e fosse Campeão do Mundo em 1950. Mas não gostava dos treinos, coisas chatas e cansativas após as noitadas. Um dia, irritado, ameaçou Flávio Costa com uma arma descarregada e acabou apanhando. Ficou fora da Copa, claro. E acabou partindo para a Colômbia, que pagava os mais altos salários do continente. Com a camisa do Atlético Barranquilla, “El jugador”, com era conhecido, encantou um jovem jornalista chamado Gabriel García Márquez.

Durante a Copa do Mundo, Heleno esteve na Colômbia. Quando soube da derrota, numa das melhores cenas do filme, Heleno comemorou a perda do título, finalizando a festa como sempre: com bebedeira e mulheres.

Fora de forma e falido, viciado em éter e lança-perfume, mas com os sintomas da sífilis já absolutamente presentes, teve uma passagem pelo Santos — nunca entrou em campo — e voltou ao Rio em 1953 para jogar em seu novo clube, o América-RJ. Jogou apenas alguns minutos. Foi expulso no primeiro tempo e nunca mais entrou em campo. Foi internado em 1954 na Casa de Saúde São Sebastião. Emagreceu, perdeu dentes e cabelo e o que lhe restava de sanidade. Ouvia vozes e agia de forma violenta.

O cuidadoso mosaico que o filme vai montando é formado por cenas alternadas da ascensão, glória, decadência e fim do craque, sem respeito à linha de tempo. É perfeito ao mostrar como que sua vida fora do campo foi lentamente matando o craque. Rodrigo Santoro, no papel de Heleno, voltou a demonstrar que não é apenas mais uma carinha bonita. Poucas vezes se viu no cinema nacional uma imersão tão radical num personagem. Basta dizer que o ator perdeu 12 quilos para viver as cenas finais do filme, já louco num sanatório. Santoro começou as filmagens pesando entre 80 e 82 quilos e chegou a 68, 69, fruto de uma dieta rigorosa ou, segundo declarou, da fome. Também tomou aulas com o bailarino Marcelo Misailidis para ganhar leveza e agilidade, características do jogador. O treinamento com bola foi feito com o ex-jogador Cláudio Adão.

O trio principal de atores é completado por Alinne Moraes, como Sílvia, esposa do jogador, pela colombiana Angie Cepeda, uma de suas amantes, e por Erom Cordeiro, que faz Alberto, o melhor amigo de Heleno e que acaba ficando com sua mulher… Heleno foi a mais solitária das estrelas.

Heleno é um filme rigoroso, não é moralista e muito menos piegas. Mesmo a música que acompanha a degenerecência mental do craque não busca lágrimas. É um movimento da 5ª Sinfonia de Mahler. O diretor Fonseca diz que gostaria que os espectadores soubessem da biografia de Heleno antes de verem o filme, pois considera que as cenas mostradas sejam insuficientes. Pedimos licença para discordar. O que é mostrado nos deixa tão fascinados que é impossível não sair do cinema e dar uma olhadinha no Google.

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A mais hedionda das fotos?

O genocídio armênio ou holocausto armênio é como é chamada a matança e deportação forçada de centenas de milhares ou até de mais de um milhão de armênios que viviam no Império Otomano, com a intenção de exterminar sua presença física e cultural durante o governo dos chamados Jovens Turcos, de 1915 a 1917.

O genocídio teria inspirado Hitler no extermínio de judeus. Hitler teria dito que as pessoas esqueceriam do fato — Afinal quem fala hoje do extermínio dos armênios? O genocídio caracterizou-se pela inédita violência, além de prisões e assassinatos, houve a utilização de marchas forçadas para a deportação, o que levou milhares de armênios à morte. Foi uma política de extermínio semelhante àquela que os nazistas impuseram aos judeus e a que os judeus impõem hoje aos palestinos. Historicamente, está estabelecido que houve o genocídio, há documentação e a certeza de um plano organizado de eliminar sistematicamente os armênios. Adota-se a data de 24 de abril de 1915 como a do início do massacre, por ser a data em que dezenas de lideranças armênias foram presas e massacradas em Istambul.

O governo turco rejeita o termo genocídio e também que as mortes tenham sido intencionais. Quase cem anos depois, ainda persiste a polêmica, tanto que o Nobel Orhan Pamuk entrou em rota de colisão e passou a ser perseguido pelo governo turco e por parte da opinião pública do país ao admitir o genocídio, em entrevista concedida a uma revista suíça.

No último dia 7, o presidente francês, François Hollande, afirmou que “continua com a intenção de propor um projeto de lei para reprimir a negação do genocídio armênio”. Haveria uma pena para quem o negasse.

O Genocídio -- cena durante uma das marchas de deportação: com um pedaço de pão, um oficial turco provoca crianças armênias famintas (Clique para ampliar)

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Fernandão e o difícil caminho da simplicidade

É, o difícil é fazer o simples
Bruno Zortea, no Facebook

O time está perfeito, espetacular? Claro quer não. Vamos patrolar o Vasco? Olha, se alguém passar por cima de alguém é mais provável que estejamos SOB o Vasco no próximo sábado. Mas o Inter melhorou muito, basta (re)ver o jogo de ontem. Fernandão e seu auxiliar não tiveram tempo para grande treinamentos. Acertaram apenas a escalação e tiveram a sorte de pegar dois adversários fracos — Atlético-GO e Figueirense. Mas só o fato de terem abandonado algumas invenções de Dorival e principalmente por não fazerem o gênero de substituições tolas como as do ex-treinador, fizeram o time crescer. Mudou muito? Não, negativo, porém Fernandão fixou o excelente Fred como titular na ausência de outros meias e evitou aquelas dorivalices de escalar um monte de “confirmados” (segundo ele) ou um monte de jovens, sem mesclar. Estes têm que entrar um a um, apoiando-se nos mais experientes.

A melhora do time reforça minha tese de que o melhor treinador é o que tem bom senso. É óbvio que eu não poderia treinar um time de futebol mesmo sabendo escalá-lo — pois desconheço a rotina de correções de posicionamentos, posturas, ajustes finos, controle do grupo, etc., mas penso que qualquer auxiliar de uma Comissão Técnica possa assumir o posto de técnico desde que lhe seja dado apoio e que haja organização e uma política de futebol. Por favor, chega de figurões, de magos. O Inter tem uma vaga política futebolística, mas Fernandão tem boa postura e apoio. É um ídolo do clube e isto lhe bastou para esta arrancadinha. Fundamentalmente, está longe de ser um tolo: como sabe que não é treinador — por enquanto é apenas um bom escalador de time — fez o Inter trazer do Catar um auxiliar técnico muito respeitado: Josué Teixeira, que trabalhava com Abel Braga, este sim um técnico de futebol.

O trabalho começa com duas vitórias que não garantem nada, mas já sabe melhor do que o de Dorival. Fernandão não perde os jogos na véspera, desculpando-se com desfalques por lesões, convocações ou cartões. Disse quando assumiu: o time que eu escalar é o Inter e será cobrado como o Inter é sempre cobrado. E foi esperto o suficiente para não tentar ser gênio. Apenas botou em campo a escalação que a gente imagina a mais equilibrada. E fim.

E é óbvio que desejo a Fernandão toda a sorte do mundo.

Com a simplicidade de Fernandão, até Elton voltou a parecer um jogador de futebol

.oOo.

A tabela do Brasileiro de 2012 é completamente diferente das dos anos anteriores. Vários clubes dispararam e a necessidade de pontos para a Libertadores será muito maior. Um campeão como o Corinthians, vencedor com menos de 66% dos pontos, está fora de questão. O Atlético-MG tem 85% e o Vasco 81%. O Grêmio, com pontuação de líder (66%), está em quarto lugar e os rebaixados têm o mais baixo percentual de aproveitamento dos últimos anos. A tabela não está achatada, muito pelo contrário. O site de estatísticas Chance de Gol avisa que os pontos necessários para a Libertadores não são mais os 63, 64 dos últimos anos, mas 74.

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Vertigem II

Não, não é uma montagem. É uma foto do início dos anos 30, da construção do edifício Empire State. Claro que muitos operários morriam. Dizem que centenas. Mas os construtores admitiram apenas 5 mortes. Os trabalhadores, em sua maioria emigrantes da Europa e do Canadá, não tinham qualquer equipamento de proteção, cintos, cordas, etc. A foto é de Lewis Hine.

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Ospa: tudo é bom quando acaba bem

O programa de ontem da Ospa oferecia duas obras bem diferentes, um aquecimento com o subwagneriano Franz Schmidt (o Intermezzo da ópera Notre Dame) e um portento de Gustav Mahler, a Sinfonia n°4.

O tal Intermezzo era bem curtinho. Brumas wagnerianas adentraram o palco da Reitoria. Porém, logo foram desfeitas pelas cordas tentando tocar em uníssono. Não funcionou nada bem, mas perdeu-se pouco: o Intermezzo é um daqueles longos clímaces (plural de clímax, por favor?) que parecem desaguar em algum local muito longínquo, bem longe do Bonfim e de suas famílias judias. Mas vamos ao que interessa.

A Ospa estava preparada era para Mahler. A quarta sinfonia é uma pequena e leve composição quando comparada com suas irmãs. É uma sinfonia distinta das outras do compositor, assim como o são a sarcástica 9ª na obra de Shostakovich ou a haydniana 8ª na de Beethoven. Os temas da 4ª fluem com facilidade e humor. Porém, a orquestra não tem vida fácil. A orquestração é via de regra rarefeita; a música é levada por sub-grupos solistas que se revezam em diferentes combinações. Não é apenas música de primeira qualidade, é uma coisa interessante de ser assistida ao vivo, pois as melodias que começam aqui são continuadas ali; depois, são feitas variações timbrísticas acolá e finalizadas algures. A plateia perce que está num jogo de tênis, virando a cabeça a cada momento. É que, nesta sinfonia, Mahler fugiu dos grandes efeitos de massa, escolhendo combinações de câmara e o contraponto como fator de equilíbrio da obra. Os músicos estavam todos muito concentrados, sem os habituais saracoteios daqueles que regem e motivam a si mesmos. E o resultado foi maravilhoso.

Há muito a destacar. Começo pelo spalla Emerson Kretschmer e pelo concertino Omar Aguirre. Foram perfeitos em seus muitos solos. As intervenções do trompista Alexandre Ostrovski e da oboísta Viktória Tatour foram absolutamente impecáveis — sempre são! — , assim como as dos clarinetistas Augusto Maurer e Diego de Souza e as dos flautistas Klaus Volkmann, Leonardo Winter e de mais um do qual também não sei o nome. Impressionante a forma como os violoncelos cantaram no terceiro movimento sob o domínio da precoce aposentada Inge Volkman, que fazia… Sua última apresentação com a Ospa? Ah, brincadeira, né?

(Intermezzo: Querida Inge. Parabéns. Mas não pare de trabalhar. Mantenha projetos e siga tocando cello. A aposentadoria pode ser uma coisa terrível e digo isso por vários exemplos familiares. Mantenha-se ativa, até porque é um crime deixar tanto talento de pijamas ou chinelinhas em casa. Nada de ficar vendo TV e acompanhando séries americanas. Isso emburrece, certo? Fim do intermezzo).

Porém, meus amigos, nada foi comparável à regência compreensiva do imenso Kiyotaka Teraoka e, principalmente à delicadeza, à presença e ao canto do soprano Sara Kobayashi. Céus, aquilo foi espantoso desde a entrada — uma aparição saída dentre os violinos. Além de ser uma moça belíssima, Sara tem excelente voz e sabia que estava cantando A Vida Celeste palavra por palavra. Foi um momento arrepiante e inesquecível. É muito difícil fazer o simples que o lied parece exigir e tenho certeza que todos os que estiveram lá levaram bem gravada em seus olhos a imagem e a voz de Sara Kobayashi cantando o final da 4ª. Foi o máximo.

Sem dúvida, uma grande noite.

Sara Kobayashi (Foto de seu site)

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Vertigem I

Nasci em 1957 e, quando era criança, lembro de que meu pai gostava de ir e de nos mostrar espetáculos onde pessoas corriam grande perigo: equilibristas que iam de um prédio a outro em grande altura sem proteção — a não ser a de uma vara para garantir o equilíbrio — e outros doidos varridos, que apresentavam sua “arte” sem redes no caso de uma queda. Hoje este tipo de coisa seria inadmissível. Na época, não vimos nenhuma desgraça acontecer, mas deve ter ocorrido algumas vezes. Mas as fotografia destas loucuras são bonitas, não? Tenho muitas no meu micro.

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Juliette Binoche fala de prostituição e casamento burguês

De “O Globo”

“No colégio, tive amigas que se prostituíam para sobreviver”

BERLIM – A imprensa francesa se refere a ela como “La Binoche” — e não há ironia na expressão. Entre seus compatriotas, Juliette Binoche é tratada como patrimônio nacional, a grande dama do cinema de sua geração, dona de um currículo sólido, recheado de personagens ora líricos, ora controversos, como a jornalista do drama “Elles”, em cartaz nos cinemas da cidade. No filme da jovem diretora polonesa Malgorzata Szumowska, Juliette interpreta uma repórter de uma revista que, ao mergulhar no mundo da prostituição, passa a questionar sua existência burguesa, ao lado do marido e dos filhos.

Aos 48 anos, a atriz continua inquieta como nos primeiros anos da carreira, quando empolgou como um dos vértices do triângulo amoroso de “A insustentável leveza do ser” (1988) ou a jovem amante de um membro do parlamento inglês de “Perdas e danos” (1992). Ela continua fiel a seus instintos mesmo depois da bajulação decorrente do épico “O paciente inglês” (1996), em que ganhou o Oscar de atriz coadjuvante.

— Busco projetos que me façam sentir a necessidade de fazê-los. Gosto de ser convencida a fazer um papel, mesmo sem saber exatamente a razão — diz a atriz, sentada no canto de um barulhento café de Potsdamerplatz, durante o Festival de Berlim, onde “Elles” foi exibido na mostra Panorama. — Nós, atores, sempre esperamos que o trabalho afete nossas vidas. Queremos ser comovidos por uma experiência nova, explorar coisas dentro de nós que, ao mesmo tempo, também nos é exterior. Sinto vontade de me despir da minha pele e entender melhor não só a mim mesma, mas também a sociedade em que vivo.

Neste aspecto, “Elles” tem muito a oferecer, embora parte de sua controvérsia seja exagerada. O filme confronta o estilo de vida da jornalista, que vê o relacionamento com o marido e os filhos se deteriorando dentro de seu confortável apartamento parisiense, com o das duas jovens prostitutas que entrevista. À guisa de pesquisa, a produção do filme ofereceu a Juliette um documentário sobre universitárias que vendem o corpo para pagar os estudos, feito durante a fase de confecção do roteiro.

Um desafio: cenas de nudez aos 48 anos

A atriz achou o material muito informativo, mas ela já estava familiarizada com o assunto:

— No colégio, tive amigas que se prostituíam para sobreviver. Não as julgo, porque sei como é difícil estudar sem apoio financeiro da família ou do estado — conta. — O documentário que vi ajudou a me atualizar sobre o tema. A prostituição entre jovens é um fenômeno mundial, principalmente por causa da internet. O que me impressionou foi descobrir que parece ser muito fácil entrar na prostituição para quem está do lado de fora dessa vida. Mas, aos poucos, descobre-se que não é tão fácil assim, as pessoas idealizam muito a profissão das prostitutas. Elas se expõem a perigos reais nessa atividade.

“Elles” impôs pelo menos um grande desafio a Juliette, à beira dos 50 anos: fazer cenas de nudez. Na mais polêmica delas, sua personagem se masturba no chão do banheiro. Amparada pelas mulheres atormentadas que interpretou no passado, Juliette não se abalou.

— No final das contas, foi até divertido (filmar nua) — diz, pontuando a frase com uma sonora gargalhada. — Porque estabelecia um contraste, sabe? No final do dia, Anne, a minha personagem, põe um bom vestido, como uma prostituta sedutora. É como um espelho para ela: depois de ouvir todas as histórias das prostitutas, de conviver com elas, Anne volta para o casamento burguês para enfrentar as perdas dentro de casa, mas dentro de uma roupa elegante. Gosto dessa contradição. É como fumar um cigarro depois do sexo e descobrir na TV que o mundo está acabando em algum lugar lá fora.

Mãe de Raphael, de 18 anos, fruto de sua união com o mergulhador Andre Halle, e de Hannah, de 12 anos, filha do ator Benoît Magimel, Juliette mora numa confortável casa de Vaucresson, subúrbio luxuoso de Paris. Solteira e com os filhos já mais ou menos encaminhados no mundo, a atriz se sente mais à vontade para os projetos que quiser. Há dois anos, foi para a Itália com o diretor iraniano Abbas Kiarostami rodar “Cópia fiel”, produção que lhe deu a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010.

Ano passado, voou para o Canadá, onde rodou uma pequena participação em “Cosmópolis”, de David Cronenberg, no qual interpreta uma das amantes do galãzinho Robert Pattinson.

Nas telas, amante de Robert Pattinson

Por razões financeiras, parte de “Elles” foi rodado na Alemanha. O nome de Malgorzata lhe foi sugerido pelo diretor de fotografia Slavomir Idziak, que conheceu no set de “A liberdade é azul” (1993).

— Perguntei ao Slavomir o que estava acontecendo de interessante no cinema polonês, que já nos deu Polanski, Kieslowski e Wajda, e ele me disse que a única grande cineasta da geração atual era Malgorzata. O nome dela ficou na minha mente. Umas duas semanas depois dessa conversa eu recebi o roteiro de “Elles” — lembra. — Achei um assunto forte, especial, arriscado. No nosso primeiro encontro, Malgorzata chegou a dizer que não nos daríamos muito bem, porque ela tem personalidade forte e eu também tenho personalidade forte, e blá, blá, blá… Mas, no final das contas, foi ótimo, foi como se dançássemos juntas no set.

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Leveza e a ousadia mozartianas em Ulisses

São Pedro Claver em ação. Maiores detalhes no link ao lado.

Ontem, fiquei comovido com a beleza e a irreverência de uma pequenina cena do Ulisses (ou Ulysses), na terceira tradução de Galindo. Estava no ônibus voltando para casa. É muito simples e está entre as páginas 385 e 388 do livro da Cia. das Letras e Penguin. O padre Conmee caminha pelas ruas de Dublin pensando nas almas dos negros, pardos e amarelos. São milhões de almas humanas criadas por Deus a Sua semelhança e a quem a fé não tinha sido trazida. Um desperdício, ele conclui. Seus pensamentos obviamente vão até a obra de São Pedro Claver e seguimos pelas ruas acompanhando seus pensamentos.

A passagem de Dom John Conmee tem reflexos nos passantes. O monólogo interior passa de um a outro com extrema leveza. Uma senhora apática, não tão jovem, o vê. Ela pensa: quem poderia saber a verdade? Quem avaliaria se ela tinha ou não cometido adultério por inteiro? Seu confessor? Ela confessaria pela metade se não tivesse pecado por inteiro. Mas só Deus sabia, além dela e do irmão de seu marido.

Depois ele olha uns meninos brincando quando um rapaz surge através de uma fenda que se abre de uma sebe. Bela imagem. Atrás dele vem uma moça com margaridas do campo na mão. Ele põe o boné, ela limpa da saia “com lenta atenção” um graveto que grudou-se ali. O padre abençoa a ambos com gravidade.

No final, uma citação em latim: Principes persecuti sunt me gratis: et a verbis tuis formidavit cor meum. Algo como: e os príncipes me perseguiram sem causa, e no temor de tuas palavras o meu coração. John Conmee foi reitor do Clongowes Wood College, quando Joyce era um estudante lá. Ele também aparece no Retrato do Artista Quando Jovem: Stephen Dedalus o procura após ter sido injustamente punido pelo padre Dolan. Joyce trata o Conmee-personagem com carinho.

É lindo como o sexo liga os personagens em Ulysses. E era isso. Vou trabalhar.

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Desconstruindo JÚNIOR, Dorival


Dorival Junior durante um treino do Inter | Foto: Marcos Nagelstein / Vipcomm

Por Alexandre Perin

Avassalado por críticas, o técnico Dorival Júnior foi confirmado nesta quinta-feira pela diretoria do Internacional como treinador do time. Por enquanto. Quando um treinador entra em rota de colisão com torcida e jogadores, é apenas questão de tempo a sua demissão. Até lá, o Inter já estará distanciado da liderança do Brasileirão e qualquer sonho do tetracampeonato estará condenado.

Em sua defesa, o treinador disse que “não é mágico” e indiretamente reclama dos desfalques e do grupo de jogadores que tem disponível. Isto tem fundamento, mas não justifica pois as críticas são de longo prazo. Uma análise detalhada deixa claro que seu ciclo se encerrou em Porto Alegre.

Um treinador sobrevive sobre um tripé: resultados, bom futebol e comando de vestiário. Dorival fracassa nas três. Dorival tem a seu favor, dois títulos: um 3×1 em seu terceiro jogo no comando que garantiu o título da Recopa Sul-Americana. Neste jogo, fez um trabalho impecável e mereceu os louros. O outro é o Gauchão, um campeonato que Grêmio e Inter tem sempre a obrigação. Mas no Brasileirão e Libertadores, as competições mais difíceis, seu desempenho é discutível.

Em agosto de 2011, o técnico assumiu o time na 7º colocação, 14 pontos atrás do líder e 7 atrás do G5. Se manteve exatamente ali por mais de um turno, exceto nas 3 últimas rodadas quando foi 4º, 6º e finalmente 5º. Um ano depois, na mesma competição, o Inter está na 8º colocação, 9 pontos atrás do líder em 10 rodadas. Ou seja, um desempenho medíocre para quem almeja o título, 32 anos atrasado.

Dorival reclama dos desfalques, algo que todos os times possuem. Mas muitos dos jogos de pior desempenho ocorreram com time quase completo, como no 1×1 contra o Bahia ou no 1×2 para o Botafogo. Ele não cita que a maioria absoluta das lesões são causadas por problemas musculares, com a preparação física de responsabilidade de seu auxiliar Celso de Rezende, bastante criticado nos bastidores.

Na Libertadores, seu rendimento foi catastrófico. Em 10 jogos, 3 vitórias (todas em casa), 4 empates e 3 derrotas. Se classificou com a pior campanha da 1º fase em um grupo tenebroso com Juan Aurich e The Strongest, além do Santos (que, aliás, passeou e fez a 3º melhor campanha da 1º fase). O Inter só teve duas partidas convincentes, contra o Once Caldas na estréia e contra o The Strongest também no Beira-Rio.

O Estadual não foi muito diferente. Depois de uma primeira fase boa, acabou eliminado pelo Grêmio em casa com uma atuação medíocre na Taça Piratini. No returno foi melhor, eliminou o Grêmio na final, levantando a Taça Farroupilha e garantido na decisão contra o Caxias. Em dois jogos de rendimento bem ruim, perdia o título em casa até 20 do 2º tempo quando o Inter empatou e virou o placar. Mesmo assim correu riscos de perder o título nos minutos finais, salvo por Muriel.

Vamos ao outro baluarte de um treinador: bom futebol. Eventualmente um time pode não obter os resultados plenos mas agradar seus torcedores. Vimos a união “títulos+show” em times como o Inter dos anos 70 ou o Grêmio de 2001. Mas já apreciamos, mesmo em nível clubístico, times que jogaram muito bem e ainda assim não se sagraram campeões, casos do Inter de 2009 e do Grêmio de 2002.

Pior que os resultados colorados sob o comando de Dorival são as atuações nada convincentes: nenhuma sequência de 3 vitórias em competições nacionais e/ou Libertadores. Se comparado com temporadas anteriores é um desempenho medíocre. Por exemplo, o Inter de 2009 teve ALGUMAS sequências com 4 ou mais vitórias consecutivas. Um futebol envolvente, 156 gols em um ano. Alguma vez, o torcedor colorado teve, sob a batuta de Dorival Júnior, uma sequência de jogos que pudesse dizer: “nossa, como o time tá jogando legal, empolgante”? Negativo.

Não existe um padrão técnico e tático, jogadas que se possa dizer: “isto é a cara do treinador, um trabalho bem feito”. Os treinamentos são desperdiçados em inúteis treinos contra adversários invisíveis e rachões sem fim. O time não consegue jogar pressionando o adversário, nem mesmo na saída de bola do visitante, algo absolutamente incomum em se tratando de Internacional.

Porém o pior de tudo para um técnico é perder o vestiário. Isto é, perder a confiança dos atletas com seu trabalho. Desde agosto, são diversos casos de indisciplina dentro e fora dos gramados. Jogadores reclamando abertamenta, inclusive na imprensa. Algo raro no Beira-Rio nos últimos anos, que se tornou rotina nos últimos meses. Muitas punições com afastamento do time, punindo o clube e também a torcida.

Mas o que mais incomoda aos atletas é a incoerência. Por mais que tenha seus defeitos, Bolatti não pode ficar fora do banco de reservas em jogos sem limite de estrangeiros esgotados, algo praticamente inexistente em 2012 por lesões ou convocações. O tratamento injusto de Dorival desagrada os atletas, que vivem uma “roleta russa”: ora são titulares nos treinos, depois ficam fora do banco, aí titulares em um jogo nem concentram para a partida seguinte.

Esta semana vimos isto: Marcos Aurélio era titular, nem concentrou, depois voltou a ser relacionado. Já Maurides e João Paulo, primeiras opções e de razoável rendimento o 0x0 contra o Santos, sequer viajaram para Belo Horizonte. Fred, que se destacou em todos os jogos que entrou e treina com os profissionais desde maio, foi preterido por Lucas Lima, que chegou no clube há 1 mês e estava no Inter-B (e que até teve rendimento satisfatório) para o jogo contra o Santos.

Também vejo nas redes sociais e mesmo na imprensa algo que não condiz com a verdade. Muito se fala de que “D’Alessandro derrubou técnicos”. As demissões de Falcão e Fossatti foram pela diretoria, Mário Sérgio encerrou seu contrato, enquanto Roth caiu pela torcida. Apenas Tite se ‘enquadraria’ nesta análise.

Porém o competente técnico gaúcho sempre teve problemas a longo prazo, sem administrar direito o vestiário. Com seu discurso extremamente emocional, Tite acaba apegado a jogadores, prejudicando o time mantendo titulares em má e péssima fase, enquanto jogadores que estão “voando nos treinos” acabam invariavelmente fora da equipe, não importa o desempenho. Se na ocasião, o presidente Vitorio Piffero e o Vice-Presidente Fernando Carvalho tivessem interferido de maneira mais forte no vestiário, dando respaldo para Tite mas exigindo mudanças no time em nítido decréscimo técnico após um primeiro semestre esplendoroso, o resultado talvez tivesse sido diferente.

D’Alessandro errou muito naquele semestre, mas poucos se lembram que mesmo com Mário Sérgio dando total apoio ao atleta, seu rendimento não melhorou. Andrezinho terminou 2009 jogando muito mais que D’Alessandro, inclusive sendo titular na reta final do Brasileirão.

Ou seja, Dorival já tem seu destino traçado: a demissão em um futuro próximo.
Os resultados não dão embasamento para sua permanência.
O grupo de jogadores não confia no seu trabalho. E não consegue ser motivado por seu treinador.
A torcida quer sua cabeça.
A diretoria do Inter saberá tomar a decisão correta?
Fica a questão, com a palavra: Giovanni Luigi, Luciano Davi e Fernandão.

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Não aguento mais as entrevistas de Dorival Junior

Dorival não mostrou o dedo do meio para o dono do blog porque estava ocupado se desculpando.

“O _________ é uma excelente equipe. Tem excelentes jogadores como o _________, o _________ e também o _________. Fez uma ótima campanha no campeonato _________. O treinador deles é o competente __________. Nossa equipe está com desfalques importantes como o _________, o __________ e o __________. E o ________, voltando de lesão, ainda não está 100% em ritmo de jogo, precisa de mais tempo. Estamos aguardando as estreias de _______, _______ e ______, apesar de que eles também precisarão de tempo. Quer queiramos ou não, não podemos determinar um prazo para a equipe crescer. Eu acho que vai crescer. Apesar de que agora em diante vai faltar tempo para treinos porque teremos jogos quartas e domingos.”

Na minha opinião e na do Vicente Fonseca, com os jogos quarta e domingo e sem os treinos de Dorival, a tendência é de crescimento. Ah, o Vicente escreveu hoje: “O Internacional não perde para o Atlético-MG há quase 10 anos. A última derrota foi em outubro de 2002, 3 a 2”. Então, hoje do Rival tem a chance de quebrar um tabu.

Cópia da primeira parte e inspiração: Alberto Mario da Rosa, no Facebook.

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Ospa: concertos para pianistas, festa e fogo na noite de terça

Faltavam uns 5 minutos para eu chegar e já meu amigo Ricardo Branco me ligava perguntando se eu estava ou não atrasado. Não estava. Estava quase lá na Reitoria. Quando fiz a curva para entrar na Paulo Gama, cruzei um sinal amarelo e pensei que estava fazendo tudo aquilo para ver Rachmaninov pela terceira vez em 90 dias e que tal postura poderia ser qualificada sem dramas de masoquismo. Encontrei os amigos e anunciei que não jantaria após o concerto. O Branco e a Jussara reagiram:

— Mas o que interessa hoje é o jantar. Isso aqui…

Rachmaninov (Kastchei) vai ao ataque. No fundo, como diria James Joyce, apenas um melacueca.

Pois é. Rachmaninov tinha mãos grandes e vinte e oito dedos. Rach é seu apelido, mas ele não tem nada a ver com o Pai da Música; é um compositor de terceira linha que privilegiava um virtuosismo vazio. Andava de carro por Nova Iorque, de avião e elevador pelos céus dos EUA, mas tentava compor como se fosse Tchaikovsky ou Schumann. Costumava e, infelizmente, ainda costuma entupir nossos ouvidos de ciclamato, mas o concerto de ontem era estranho. No Concerto Nº 4 para pianista e orquestra — digo assim por tratar-se de um concerto para o pianista e não para o piano –, Rach estava meio perturbado pelo jazz e as novidades. Incrível, havia um mundo lá fora! Era simplesmente o ano de 1925 e seu colega de aristocracia Stravinsky já tinha composto o Pássaro de Fogo e a Sagração; Gershwin tinha lançado uma Rapsódia cujas cores batiam de longe a melíflua pecinha de Rach sobre Paganini e Bartók até já tinha escrito dois concertos para piano que nossa senhora. (Aliás, há tantos concertos monumentais para piano no século XX… Tantos Prokofiev, Ravel, Shosta, Bartók e a Ospa nos enfia três RachsKitsches goela a abaixo… É muita besteira).

Kastchei mostra o caminho para a Ospa: CHEGA DE RACHMANINOV

Bem, mas Rach estava meio fora de si e fez um primeiro movimento simplesmente pavoroso, um monstro de três narizes — um a 120º do outro –, seis pernas, treze braços e enormes mãos. Era a comprovação de que mel estraga e azeda. No segundo movimento, há uma tentativa de aproximação com a realidade através do jazz. Ele acerta no ângulo com um ostinato simples e bonito que é logo desfeito pelo monstro das mãos grandes. O terceiro movimento é uma longa peroração ao público. Ele solicita aplausos e um bom pagamento através das contorções do pianista e do uso de habilidades demoníacas. Sim, o público aplaudiu muito, o que fez o excelente pianista georgiano Guigla Katsarava voltar algumas vezes ao palco até conceder um bis. Com ele e Chopin, começou a música. Intervalo.

A Abertura Festiva de Shosta é obra escrita em cima da perna. Não dá para levá-la à sério. Foi escrita em três dias de 1954 para saudar mais um aniversário da Revolução de 1917. OK, Shosta é muito bom e fez uma peça divertida e acessível — “música fuleira”, disse o Branco. Foram cinco minutinhos que serviram de introdução para

a Suíte Pássaro de Fogo de Stravinsky. Em 1910, Strava já era muito mais moderno do que Rach jamais pensou ser. Talvez Igor já gostasse de dinheiro, mas sempre fez música, mesmo quando queria apena$ afago$. A orquestra deu um banho. Leonardo Winter e Artur Elias tinham acordado especialmente canoros e ofereceram penas de fogo para uma plateia embevecida e desconfiada de que aquilo era música de verdade. O único problema é que, quando Ivan vê as treze virgens no castelo do monstro Kastchei, ou seja, quando aparece o monstro… Seu rosto e garras eram os de Rachmaninov. Claro, a gente lembrava da primeira parte do concerto!

(Intermezzo)

O Pássaro de Fogo, pelo artista japa Shirisaya

Kastchei, o monstro de Pássaro de Fogo, é um ogro verde de terríveis garras, uma personificação do mal, a cara do Rach. Sua alma não habita em seu corpo disforme, ela é cuidadosamente preservada do alcance de qualquer dano em um caixa toda decorada — pura bichice do Diaghilev.  Enquanto a caixinha permanece intacta, Kastchei é imortal e mantém o seu poder para o mal, mantendo donzelas virgens em cativeiro e transformando os homens que desejam libertá-las em pedra. A redenção das moças só pode ser alcançada pelo acesso e destruição da caixinha e da alma do ogro. Adivinhem se o Pássaro de Fogo não vai dar uma mão para Ivan? Adivinhem! Adivinhem se o Ivan não vai ficar com uma das virgens?).

(Fim do Intermezzo)

E fim da resenha. O regente Kiyotaka Teraoka mereceu toda a alegria e o bater de pés com que a orquestra o brindou. E, ah, na semana que vem HABEMUS MUSICA. O refrigério virá por Mahler, Sinfonia Nº 4, e pelo mesmo maestro Teraoka. Estaremos operando em modo Rach Free.

P.S.– Saí para jantar com os amigos, claro. Pensei que merecia depois de meu terceiro concerto para piano e orquestra de Rach de 2012.

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As verdadeiras cores de Van Gogh

A Vinha Encarnada, único quadro que Van Gogh conseguiu vender em vida

Por Milton Ribeiro

Daltônico

Em 17 de março de 1901, era inaugurada a hoje famosa exposição de Van Gogh (1853-1890) em Paris. A mostra ocorria onze anos após a morte de um artista absolutamente obscuro. Nela, havia 71 quadros de alguém que vendera uma única tela em vida – A Vinha Encarnada – , por 400 francos (atualmente cerca de R$ 800,00). Cem anos após sua morte, em 1990, um de seus trabalhos, O Retrato do Dr. Gachet, foi vendido por US$ 82,5 milhões. Van Gogh não é um caso único. Por exemplo, Johann Sebastian Bach era considerado apenas um bom músico e um compositor antiquado no século XVIII;  Franz Kafka era tímido e problemático demais para apresentar seus trabalhos – tendo pouco publicado em vida e feito seu amigo Max Brod prometer que destruiria o restante, promessa não cumprida – ; porém talvez Van Gogh seja o caso de maior contraste entre uma vida secreta e uma unânime consagração póstuma.

Vincent Van Gogh nasceu em 1853 na localidade de Groot Zundert, no interior da Holanda. Seu pai era um pastor calvinista que deu aos filhos a mais severa das educações. Van Gogh teve dois irmãos – Theodorus, apelidado de Theo, e Cornelius — e três irmãs — Elisabeth, Anna e Willemina. Seus biógrafos descrevem a casa onde cresceram como fria, úmida e escura e a infância, triste.

As telas sombrias

Aos 16 anos, Vincent mudou-se para Haia a fim de trabalhar como representante comercial de livros de arte com um tio. Conheceu boa parte do país, mais Bruxelas e Londres, porém seu sonho era conhecer Paris, na época o grande centro cultural da Europa e do mundo. Em 1875, aos 22 anos, conseguiu uma transferência para a cidade. Foi feliz por lá, conheceu artistas, visitou galerias, fruiu da vida cultural da cidade – e acabou demitido por não trabalhar.

Deprimido e sem perspectivas, Van Gogh voltou à casa dos pais, onde sofreu sucessivas crises nervosas. Místico, passou a dedicar-se à religião, conseguindo uma posição como pastor, assim como o pai. E foi pregar numa mina de carvão na Bélgica. Porém, como pouco pregava, preferindo ocupar seu tempo em conversas com os mineiros miseráveis, acabou afastado da missão religiosa em 1879. Tinha 26 anos e era um fracasso completo de acordo com o senso comum. Não constituíra família, não se sustentava sozinho e não parecia vocacionado a nada. Consideremos que tinha 26 anos, nenhuma obra e apenas pouco mais de dez anos de vida, internações e produção artística.

A cadeira de Gauguin com seus apetrechos

Naquele ano, seu irmão Theo já morava na cobiçada Paris, exercendo um alto cargo na galeria de arte do tio. Ele o incentivou a pintar. Passou a lhe enviar dinheiro para a compra de tintas e pincéis. Vincent dedicou-se, então, ao estudo da perspectiva e da anatomia. E pintou várias telas sombrias, nas quais retratava mineiros, camponeses, trigais e campos.

Porém, as crises se repetiam. Duravam de duas a quatro semanas, período no qual Van Gogh não conseguia realizar nenhum gênero de trabalho, revelando-se propenso a atitudes violentas, resultado de alucinações e da impressão de que todos os perseguiam a fim de prejudicá-lo. Havia alta incidência de doenças mentais na família Van Gogh. Theo sofria com a depressão e faleceu de uma certa “demência paralítica”, uma complicação rara da sífilis. Sua irmã Willemina era esquizofrênica, tendo vivido 40 anos no mesmo asilo onde Van Gogh foi depois internado e o outro irmão, Cornelius, cometeu suicídio aos 33 anos de idade.

A Cadeira de Van Gogh

Neste ínterim, Van Gogh foi internado várias vezes em sanatórios. Nos intervalos, criava as obras que vemos hoje e procurava levar sua vida. Durante algum tempo, dividiu seu ateliê com Gauguin em Arles, mas também se desentendeu com ele. Gauguin e Van Gogh partilhavam de mútua admiração, mas a relação entre ambos estava longe de ser pacífica e as discussões eram frequentes. Para representar as relações abaladas entre os dois, Van Gogh pintou a A Cadeira de Van Gogh e a A Cadeira de Gauguin, ambas em dezembro de 1888. As duas estão vazias, com objetos que representam as diferenças entre os dois pintores. A cadeira de Van Gogh é sem braços, simples, com assento de palha; a de Gauguin possui assento estofado e braços.

“Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz devido à incompatibilidade de temperamentos”, queixou-se Gauguin a Theo. Sentia-se incomodado com as variações de humor de Vincent e não era para menos. Em 23 de dezembro de 1888, após Gauguin sair para uma caminhada, Van Gogh o seguiu e o ameaçou com uma navalha. Gauguin decidiu não voltar ao atelier, pernoitando em uma pensão. A fim de demonstrar seu arrependimento, Vincent cortou um pedaço de sua orelha direita, que embrulhou em um lenço e o levou, como presente, a uma prostituta sua amiga. Depois, Vincent retornou à sua casa, indo dormiu  como se nada tivesse acontecido. A polícia foi avisada e o encontrou desmaiado, totalmente ensanguentado. Gauguin então enviou um telegrama para Theo e viajou imediatamente a Paris, julgando melhor não visitar Vincent no hospital.

A orelha foi entregue a uma prostituta

Van Gogh passou 14 dias internado, ao final dos quais voltou à casa. Em seu retorno, pintou o Auto-Retrato com a Orelha Cortada. Porém, quatro semanas depois, apresentou novos sintomas de paranoia,  imaginando que seria envenenado a qualquer momento. Os cidadãos de Arles, apreensivos, solicitaram seu internamento definitivo. Sendo assim, van Gogh tornou-se paciente e preso no hospital de Arles. Os especialistas que o trataram diagnosticavam uma epilepsia, ainda que o diretor do asilo, Dr. Peyron, fosse inteiramente despreparado para diagnosticar qualquer doença que fugisse ao óbvio. As crises repetiam-se, sempre precedidas de sonolência e seguidas por apatia.

Rejeitado pelo amigo Gauguin e pela cidade, descartados todos os seus planos artísticos, sua depressão voltou a agravar-se, ele que agora tinha como único amigo seu irmão Theo. O casamento de Theo constitui-se em fonte de nova inquietação para Vincent, que temia o afastamento.

O Dr. Gachet: o tratamento não funcionou, mas a imortalidade foi garantida

Em maio de 1890, Vincent deixou a clínica, passando a residir na periferia de Paris (em Auvers-sur-Oise), onde estaria mais próximo do irmão e consultaria o Dr. Paul Gachet. Gachet — aquele mesmo cujo retrato seria vendido por 82,5 milhões de dólares — não foi bem sucedido. Mas, em Auvers, Van Gogh produz rapidamente cerca de oitenta pinturas, em média uma por dia.

Repentinamente, seu estado piorou e, em 27 de Julho de 1890. Van Gogh saiu da cidade para disparar um tiro contra o próprio peito. Arrastou-se de volta à pensão onde se instalara e onde morreu dois dias depois, ao lado de Theo. As suas últimas palavras, dirigidas ao irmão, teriam sido: “La tristesse durera toujours” (em francês, “A tristeza durará para sempre”).

O quarto em Arles

Dias depois, no sótão da galeria de arte do tio, mais de 700 pinturas aguardavam compradores.

Vincent Van Gogh revolucionou a história da pintura. Embora tenha sido influenciado pelos pintores impressionistas, sua obra é muito pessoal e solitária. Usava cores opostas, como o azul e o amarelo, para aumentar a vibração de suas imagens. Também se utilizava de formas distorcidas e exagerava na perspectiva para aumentar a expressividade de suas composições. Outra característica era o uso de camadas espessas de tinta. Críticos de arte costumam dizer que não é a cor em si que me chama a atenção, mas o movimento, a inquietude de formas e cores em conjunto, porém…

A questão do daltonismo

O azul, o amarelo

Embora a vasta bibliografia a respeito de Van Gogh, são raros os estudos sobre a cor em seus trabalhos. Na verdade, a questão das cores chamou a atenção não tanto dos historiadores da arte, mas de neurologistas e oftalmologistas que encontram nele sinais claros de discromatopsias, as dificuldades na percepção de cores de que sofrem os popularmente conhecidos como daltônicos. Assim, se alguns biógrafos tratam rapidamente da expressividade de van Gogh — raramente referindo-se a ele como um “revolucionário da cor” — como algo característico seu, os oftalmologistas o tratam como franca e claramente daltônico.

Hoje, cresce a corrente daqueles que afirmam que o uso original da cor não se devia a nenhuma consequência da epilepsia ou de qualquer outra doença, mas de um reles daltonismo e van Gogh aparece habitualmente nas listas dos portadores da doença. Portanto, apenas as pessoas daltônicas – doença chamada atualmente nos EUA de color blindness ou cegueira de cores – poderiam ver seus quadros da forma como ele os imaginou.

O oftalmologista e biotecnólogo japonês Kazunori Asada desenvolveu um programa (há versões para iPhone, iPad, iPod e Android), que simula a visão dos três tipos conhecidos de daltonismo. Van Gogh sofreria do tipo mais comum de daltonismo, a protanopia, que resulta na impossibilidade de discriminar cores no segmento verde-vermelho do espectro. O professor Asada também acredita que Van Gogh sofria deste tipo de daltonismo e, abaixo, temos a aplicação de seus programas de filtragem de cores às pinturas do holandês. Assim, podemos comparar as pinturas como elas são (sempre as primeiras) e como Van Gogh as via (abaixo). Com isto, o cientista pretende mostrar às “pessoas normais” como o autor via seus quadros. Alguns autores apenas citam a forma como Van Gogh evitava o verde, o verde vivo, o vermelho, o rosa e o bege. As cores que mais usa são o amarelo e o azul, que são vistas da mesma forma por quem é ou não daltônico. Os pares de imagens, assim como as observações abaixo delas são do artigo Mirando las obras de Van Gogh con sus propios ojos.


“A Colheita”. No original, o que deveria ser um campo de trigo, é de cor laranja, e acima temos linhas verdes em que mesclam à luz solar. Para os daltônicos, a sombra no trigal dá profundidade à cena. O sol poente tem um ar mais outonal. “


Em “A Noite Estrelada” a força está no contraste da obscuridade e das estrelas. As nuvens e a paisagem são iluminadas pela luz branca da lua. “


Cada uma das pedras da calçada parece mais sólidas. O terraço da cafeteria emerge com mais profundidade na noite sem lua.


A cena do jardim adquire uma realidade fotográfica. Ganha profundidade, dá a impressão de estarmos num mirante.


Aos nossos olhos na pintura da dama com sombrinha cruzando a ponte, esta se reflete no rio de forma surrealista. No entanto, na simulação, tudo se torna mais realista. A superfície da água brilha nas pequenas ondulações. “


Auto-retrato. Dá a impressão de um homem pouco sociável. É uma figura sofrida, distante e orgulhosa.

Nota: O simulador pode ser baixado gratuitamente aqui. É possível utilizá-lo em quaisquer fotos ou imagens em “.jpg”.

Nota final do autor: Sou daltônico — sofro também de protanopia — e posso garantir que percebo quase nenhuma diferença entre as imagens. Dá para dizer que são pares de cópias perfeitas. Desde pequeno, pintava noites com o céu roxo e minhas professoras me advertiam que não era bem assim… Eu ficava muito contrariado. Então, as observações a cada dupla de fotos foram resultado de tradução de artigo Prof. Asada e de discussões em casa e na redação do Sul21. Não opinei, claro. Como o faria?


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Será que é por isso que eu tenho tantos torcicolos?

É minha posição habitual em sebos. Caminho lateralmente com o pescoço desse jeito aí. E, como trabalho numa zona com muitos deles, costumo dar uma verificada quase todo meio-dia.

Chico França

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Crítica gonzo ao On The Road (Na Estrada) de Walter Salles

Eu gosto dos filmes de Salles e costumo defendê-lo em rodas de amigos, mas creio que Na Estrada — adaptação do célebre On the road ,de Jack Kerouac — , tenha tantos defeitos que… Olha, amigo Salles, desta vez vou ter que atacar. Antes gostaria de citar algo curioso: a produção, de fria recepção no Festival de Cannes, foi coberta por um estranho silêncio, os comentadores davam pistas de sua decepção, mas negavam-se a falar mal dela. Agora os compreendo. O filme não é ruim nem bom, tem antes o efeito de uma ducha de água fria, de uma mulher que nos alega estar com dor de cabeça, de um homem que alega cansaço — o filme promete e não cumpre. Após a sessão, eu olhei para minha filha Bárbara. Ela me fazia uma careta interrogativa e a mais terrível das acusações (que repasso a Salles):

— Tu não tinhas me avisado que o filme tinha 3 horas.
— Não dura 3 horas, dura 137 minutos. É que é chato mesmo.

Chato. Exatamente. Os atores realizam boas atuações, o filme é muito bonito e aí temos o primeiro problema. Salles não se afastou de seu elegante cinema de belas imagens, mesmo contando uma história onde as amizades, amores e parcerias são submetidos a alongamentos que rompem quaisquer fibras. E eram um bando de drogados, alguns com objetivos, outros não. Então, o drama deveria ser contado sob som e fúria e, quando há fúria, a fotografia não precisa ser de propaganda de cigarro. Salles cometeu o pecado mortal de não conseguir ser visceral como Kerouac exige e contou uma história fora do tom, tornando a música incompreensível e deixando os personagens meio bobos em meio daquilo que deveria ser — e é no livro — um decisivo drama existencial. Como se não bastasse, há o tamanho da história: o romance de Kerouac é uma verdadeira avalanche narrativa com fatos e opiniões e, bem, não cabe no filme.

Ou seja, o principal ingrediente do On the Road original era sua forma narrativa e esta não recebeu resposta. Como os encontros entre os personagens são espaçados por meses e nunca há um conflito latente para precipitar-se no próximo, depois de 90 minutos a gente pensa que o filme acabará a qualquer momento numa daquelas interrupções. Quando achamos e até desejamos que a cena do estacionamento seja a final, Dean resolve ir para o México e o filme segue por mais mais meia hora… A gente fica meio desesperado. Isto é, estrutura do filme faz com que pensemos “agora acaba, agora acaba”. Sai daí a sensação de “três horas” da Bárbara.

A única ilha de perfeição do filme tem nome e cena. O nome é Kirsten Dunst, que faz uma papel menor em Na Estrada, e a cena é aquela em que ela rompe com Dean Moriarty após mais uma bebedeira com Sal Paradise. Sozinhos num quarto, com um bebê no berço e outro na barriga, Dunst quase salva o filme. É mesmo uma excelente atriz, mas que só pode exercer seu papel num quarto, sem paisagens e em enorme conflito. A cena está tão fora do padrão do filme que não encontrei fotos dela no mar de fotografias de divulgação. Mas é a coisa mais Kerouac de Na Estrada.

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A indiscutível superioridade das analogias perfeitas

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Drogadito em Uli… Ops, Ulysses

O último Bloomsday e a necessidade de falar sobre o livro me fez ler a segunda tradução de Ulisses no Brasil, a de Bernardina da Silveira Pinheiro (888 páginas). E, logo depois do evento, comecei a ler a terceira, a de Caetano Galindo, que chama o livro de Ulysses. Quando li Ulisses pela primeira vez, no final dos anos 70, lembro de ter pensado que era um livro com excesso de personagens homens e da curiosa música da prosa de Joyce por Houaiss. Detestava falar sobre o livro, pois achava que minha leitura era muito inferior do que a requisitada por Joyce. Eu tinha perdido o jogo, simples assim. Perdi o pudor ao ler Bernardina e minha impressão foi a de que havia sexo em tudo, permeando, ligando e afastando personagens. Agora, faço ainda outra leitura: capto muito humor na tradução de Galindo. Isto é causado por mim ou pelos tradutores?

E qual é a melhor tradução? Não sei responder. O que sei é que me apaixonei três vezes por Ulysses e que nunca estarei à altura dele, mas que isto não é de todo mau. Trata-se de um romance, de uma obra de arte, não de um quebra-cabeças. Estou bem feliz na página 285. Ao mesmo tempo levo um livro de Eliane Brum e outro sobre o Vaticano na bolsa, só que o desafio de Ulysses torna boba a concorrência e, quando abro o zíper, sempre vou no livrão. Amanhã, no ônibus, vou de novo nele.

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O super-treino de Dorival Junior

Nada escapa a Dorival | Foto: Marcos Nagelstein / Vipcomm

Em treino realizado hoje, o time reserva do Inter tocou 4 x 0 no titular, gols de Maurides, Lucas Lima, D`Alessandro e Ygor. Time titular jogou com Muriel; Nei, Bolívar, Índio e Fabrício; Guiñazú, Elton, Marcos Aurélio e João Paulo; Dagoberto e Jajá. Reservas: Renan; Ratinho, Moledo, Dalton e Zé Mário; Ygor, Josimar, Bolatti e D`Alessandro; Maurides e Lucas Lima. Quem viu o coletivo, disse que a zaga de Moledo e Dalton nem foi incomodada.

Outro que não incomodou foi Dorival. Passou o tempo conversando com auxiliares ao lado do campo, sem intervir. Isso é que é treinador! Na metade, ele tirou Maurides dos reservas, colocando-o no time titular na vaga de Jajá. Foi o momento racional do treino. Afinal, o guri é atacante enquanto Jajá é um meio-campista lento.

No final, Dorival deu uma bronca nos titulares, mas nada de orientá-los. Uma pérola este homem.

Nilmar

Mas há mais fatos inacreditáveis, e desta vez o Dorival está fora. Soube agora que o Inter tinha se acertado ontem à noite com o Villarreal e com o empresário de Nilmar. Hoje, o empresário desfez o negócio. Motivo: achou que estava negociando os salários de seu jogador em valores líquidos e não brutos… E reclamou de sua comissão em entrevista. É muita baixaria. Talvez seja melhor desistir do cara.

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Professor Hariovaldo e o Congresso Humanista Secular do Brasil

Lendo o meu Google Reader, sempre reservo um tempinho para ler sobre a verdade mais profunda, sobre aquilo que se esconde sob os fatos, algo apenas possível no blog do Professor Hariovaldo. Já estive a ponto de colocá-lo várias vezes no blogroll do Sul21, mas sempre cedi ao receio de que seu tipo de humor seja levado a sério.  Há leitores realmente apressados. Obviamente, o problema não é o sábio professor e seus asseclas; obviamente, o problema é que nossa direita é tão, mas tão involuntariamente engraçada, que a crônica habitual nos grandes jornais guarda muitos pontos de contato com o ínclito Hariovaldo, sempre cioso em seu combate ao comunismo ateu e na defesa da família cristã.

Hariovaldo deixou seu blog sem atualização por quase dois meses, fato que me preocupou muito. Foram dois meses em que permaneci sem rumo nas mãos da Búlgara Escarlate e daquele maldito Retirante, mas agora o blog voltou e pude interpretar melhor  o dia de ontem no Senado — um dia verdadeiramente negro.

Por falar em comunistas que combatem a verdade, não sei como anda a organização I Congresso Humanista Secular do Brasil. Eu não sou sócio da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) e sim da Atea. Não devem ser entidades inimigas. Da programação do evento, o que me pareceu mais interessante é o sábado à noite, a tal Taverna Cética em Porto Alegre. O resto do pessoal já é bem conhecido do Bule Voador e de outras plagas. Não se o Sul21 (internamente conhecido como um site “revanchista, ateu e que anda de bicicleta”) vai querer cobrir o Congresso, mas já imagino quem seria escalado… Afinal, fui o autor da frase messiânica de que a religião é inextirpável, mas que a conquista mais importante do século XXI será o estado laico e o recuo das religiões a uma posição de opção pessoal. Não gostaria de criticar o evento, mas acho que está sobrando ciência e faltando gays no Congresso. Por serem grandemente agredidos pelas religiões, são eles que estão na ponta-de-lança do ateísmo, obtendo a retirada de símbolos religiosos do Judiciário e atacando as religiões em seus eventos. Há que unir.

Há a Dra. Maria Berenice Dias, mas alguém como Naiara Malavolta, articuladíssima articuladora estadual (RS) da Liga Brasileira de Lésbicas, deveria estar no evento, não? Ou há outro alguém que vai tocar no assunto?

Bem, são ideias que jogo aí.

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