Os Velhinhos (um filme de Polanski por escrito)

Há trechos de cinco filmes de Polanski neste conto. Divirtam-se procurando, se quiserem.

Os familiares conversavam entre si, fingindo normalidade, enquanto ele observava a porta da megalivraria. Evitava seus olhares, sentado atrás da mesa adornada por uma pilha de exemplares de seu primeiro livro. Até aquele momento, apenas autografara para a família e uns poucos amigos. Penalizados com a ausência de público, alguns de seus familiares ficaram zanzando por ali a fim de ocupar mais espaço. Os amigos foram rapidamente embora, talvez assustados com sua cara de enterro ou, quem sabe, com receio de que o insucesso fosse contagioso. Ou por ambos os motivos. Então, inesperadamente, uma pequena fila se formou. Três senhores de idade deram seus nomes e receberam os autógrafos. Logo vieram outros, todos velhos. O autor pensou que uma caravana da terceira idade tivesse aberto suas portas em frente à livraria. Era inusitado e ele se comoveu pelo interesse daqueles senhores por seu simples volume de prosa poética, Liber Amoris. Sim, ele era old fashioned, na verdade, um indignado contra as modernidades, porém jamais imaginaria que seu livrinho – meu modesto opúsculo, dizia – falaria tão de perto à velha geração, àquela que sabia o que era efetivamente bom.

Ficava cada vez mais eufórico com a afluência dos idosos. Seus parentes também, tanto que recuaram de suas posições anteriores para não atrapalhar. Os integrantes da fila obtinham seus autógrafos, cada vez mais longos e carinhosos, e permaneciam em torno, caminhando lentamente, olhando as estantes. Enfim, um respeitável senhor chegou-se à mesa e, após receber de volta o livro, pediu-lhe para assinar uma folha avulsa. Parecia um contrato, mas era escrito em caracteres desconhecidos. Ouviu o senhor dizer: “Meu filho, assine aqui”. Feliz com o sucesso geriátrico de sua noite de autógrafos, o autor jogou o corpo para trás, libertando o sorriso que guardava dentro de si há alguns minutos.

Ao jogar o corpo para trás, percebeu um sujeito pequeno, de aproximadamente quarenta anos, cabelos castanhos encaracolados, usando uns óculos redondos sobre sobrancelhas grossas, abaixo de cujo centro partia um nariz de consideráveis proporções. Era Roberto Bolaño que, de longe, fazia-lhe sinais inequívocos para assinar o contrato. O senhor voltou-se para ver o que chamava atenção do autor.

– É um de nossos contratados – disse.

Obviamente, o escritor experimentou leve perturbação, mas nada turvaria seu humor facilmente; além do mais, não acreditava em “sinais”, acreditava em Deus mas não nas religiões, nunca vira ETs, discos voadores, nem temia cemitérios. Decidiu que sua alucinação visual era um augúrio e, sorridente, apôs sua firma ao documento.

Chegou em casa com dores estomacais. Devia ser a emoção. Tomou um analgésico e foi dormir. Pela manhã, foi presa de verdadeiro milagre criativo. Depois da grande noite, sentia forças para finalmente empreender uma obra de fôlego. Recusou o primeiro conto que escreveu — achou-o uma derivação da literatura de Carver. O segundo já tinha sua voz e o terceiro era uma demonstração tão eloquente de virtuosismo que decidiu sair à rua para uma caminhada. Estava cansado. Quando chegou ao parque, as dores voltaram. Sentou-se num banco, aguardando por uma trégua. Observou uma criança que estava próxima, num carrinho de bebê: o menino tinha aproximadamente um ano – já podia estar livre do carrinho – e atirava para longe seu brinquedo a fim de que a mãe, já definitivamente entediada da maternidade, buscasse. Era insuportável. Como era de se esperar, a mãe desistiu de abaixar-se para pegar o chocalho e ouviu-se o berreiro de decepção do menino. Aquilo irritou de tal modo o Escritor que ele ergueu-se, dirigiu-se à criança, deu-lhe um sonoro tabefe e gritou

– Nojentinho!

com voz alterada. Seguiu seu caminho meio curvado pelas dores, mas ainda assim falava em voz alta, explicando aos circunstantes que a vaca daquela mãe não deveria ter tido um filho se o estava criando para a neurose. A mãe reagiu protestando contra a grosseria, mas o Autor apenas voltou-se para ela e sorriu de longe. Interessou-se por seu rosto desfeito, era-lhe inspirador.

Voltou para seu quarto com uma descoberta. Grande parte das obras imortais eram escritas por raiva, contra alguém ou alguma coisa. Pensou num argumento para uma novela, hoje clássica, sobre dois casais que têm filhos apenas para satisfazer seu relógio biológico e que logo cansam deles, indo resolver suas culpas em psiquiatras. É da sua autoria a tese sobre a má utilização da culpa: esta só serviria para provocar uma dor admitida e calculada a quem certamente causara sofrimentos muito maiores. Era uma novela cheia de ódio e que fez imenso sucesso. Escreveu suas 53 páginas de um só fôlego, sem dores, e, quando foi dormir, foi visitado por sonho.

Reviu Bolaño e desta vez compreendeu o sinal que este lhe fizera na noite de autógrafos. O chileno pegava sorridente um volume de 2666 e o mostrava. O detalhe é que sua mão direita tapava o número 2. Acordou sorridente, planejando um longo romance de formação, com 100 personagens, que seria um amálgama da severidade alemã, da ironia inglesa, da auto-ironia judaica, do drama platino e da sensualidade nacional. Batizou-lhe provisoriamente de A Grande Pornofonia Brasileira. Quase não saía mais de casa. Um livro de contos e outro de novelas deram-lhe dois Jabutis e dois Portugal Telecom e ele já tinha como sustentar-se por alguns anos sem pensar em patrões. Sua única providência fora do âmbito criativo foi mandar queimar todos os exemplares de Liber Amoris. Renegava seu primeiro livro, o qual tornara-se relíquia de colecionadores — agora sua obra iniciava-se pelo seminal livro de contos Abra e Leia!, não pelo enjoativo Liber Amoris. Retirou-se da Flip à simples pergunta do entrevistador:

– Gostaríamos que você falasse sobre Liber Amoris, sua primeira obra.

Após o lançamento de A Algaravia dos Ignaros (ex-Pornofonia), planejou de um dia para outro sua obra magna, As Repartições Suprimidas, livro inspirado pelo serviço público brasileiro e que inaugurou o movimento literário e filosófico da Regurgitação, uma reação saudável ao Politicamente Correto, que passou a ser considerado fascista e anacrônico. Novamente mal saía de casa, sua saúde ia de mal a pior – os médicos não tinham diagnóstico para as malditas dores – , estava relegado a uma cadeira de rodas e era atendido por uma bela estudante de letras francesa, Catherine, que assumira as funções de secretária, pesquisadora, porta-voz e massagista. Ela dizia que o Autor sentia terríveis dores cada vez que se retirava de casa, mas que essas eram suportáveis enquanto trabalhava. Sua única missão, completava, parecia ser a de produzir e deixar uma grande obra. Foi nesta época que ocorreu o lançamento de A Alegria do Mundo, romance antirreligioso que ensinava que tais crenças eram tão inerradicáveis quanto o nascimento de idiotas. De leitura tão vertiginosa quanto violenta, iniciava com um parágrafo de 203 páginas tratando do assassinato ritual de uma adúltera grávida de oito meses por um grupo de evangélicos; finalizava com outro parágrafo de 312 páginas, que descrevia com naturalidade e poesia um coito de um homem de 44 anos com uma menina de 13, cujo pai tinha subornado um juiz e um padre a fim de permitir-lhe o casamento aos 12 e assim, legalizar a pedofilia.

Foi quando a desgraça ocorreu. A vaidade, sempre a vaidade! A Algaravia tinha recebido um prêmio nos Estados Unidos e o Autor, apesar de doente, quis recebê-lo in loco, fazendo um discurso e recebendo em contrapartida os salamaleques aos quais seus compatriotas raramente têm direito. Ao chegar aos EUA, os grupos religiosos não foram nada receptivos e pressionavam a organização para retirar o prêmio ao autor de A Alegria do Mundo. Um homem de barba, com jeito de hippie e olhar alucinado, deu-lhe um tiro pelas costas.

No dia seguinte, alguns dos idosos liam os jornais brasileiros. Sorriam às manchetes de que o Brasil perdera um provável futuro Nobel de Literatura e aos Cadernos de Cultura que choravam aquele estranho e violento artista. Depois, começaram a telefonar um para o outro.

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