O espantoso mural do Hotel Itaimbé de Santa Maria

Tudo foi perfeito na festa de aniversário da Nikelen Witter, em Santa Maria, para onde fomos no fim-de-semana. Boas conversas, gentilezas e nem vou entrar nos temas gastronômicos. Acho que basta dizer que ganhei 1,3 Kg em dois dias.

Mas houve um momento de choque. Foi quando entramos para tomar o café da manhã no Hotel Itaimbé ou, de forma mais real e pernóstica, no Itaimbé Palace Hotel. A primeira coisa que vimos foi um enorme mural com ninfas de Botticelli tão bombadas quanto as nadadoras da ex-Alemanha Oriental. Uma delas, talvez a famosa Kornelia Ender, curiosamente pilotava uma bicicleta.

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Devido aos faltos trajes da moça, pensei no papel que o selim pudesse ter, mas deixa pra lá. Rindo muito, a querida Elena Romanov quis sentar de costas para a telona. Mas este fotógrafo não perdoou e registrou o fato com alegria. Vejam a moldura, a beleza botticeliana de minha fotografia.

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E estava se divertindo à beça com as bobagens que eu dizia. Elena é violinista e, casualmente, aparecia um de cartola, bem a seu lado.

DSC00232Porém, quando a avisei do moço que tocava de cartola sobre seu ombro esquerdo, a expressão que ela apresentou não foi assim tão feliz.

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James Joyce, 1938

Fotografia tirada em 1938, por Gisèle Freund, mostrando James Joyce e seu neto em Paris.

James Joyce 1938

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As contribuições de Carpeaux, Caro e Zweig, ilustres imigrantes que chegaram com a guerra

Carpeaux chegou em 1939 e foi trabalhar numa fazenda

Quem conheceu Otto Maria Carpeaux descrevia-o como uma espécie de monstro. O escritor José Roberto Teixeira Leite era seu amigo e desenhava assim a figura do austríaco: “Carpeaux foi um dos homens mais feios que conheci. Sua aparência neandertalesca, todo mandíbulas e sobrancelhas, fazia a delícia dos caricaturistas: parecia um troglodita, mas um troglodita que lia Homero e Virgílio no original, que se deliciava e ensinava sobre Bach e Beethoven, que diferenciava e palestrava sobre Rubens e Van Dyck”. Carpeaux também era gago. Carlos Drummond de Andrade, outro amigo, disse que, numa viagem de carro, ele foi citar Kierkegaard. “Começou a falar quando saímos de Juiz de Fora, Ki… Ki… Ki… e só completou o nome do autor dinamarquês em Barbacena, uns 80 quilômetros adiante’.

Antes de ser Otto Maria Carpeaux no Brasil, ele foi Otto Karpfen, um austríaco que estudou filosofia (doutorou-se em 1925), matemática (em Leipzig), sociologia (em Paris), literatura comparada (em Nápoles) e política (em Berlim); além de dedicar-se à música. Mesmo gago, ele falava e escrevia em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata. Mas não sabia muito da língua portuguesa quando chegou ao Brasil no final de 1939, fugido da Alemanha nazista. Tinha pai judeu e mãe católica. Identificava-se como católico. Quando chegou, foi trabalhar no interior do Paraná, numa fazenda, no campo.

Stefan Zweig veio para uma série de palestras, voltou e morou com a esposa em Petrópolis.

O austríaco Stefan Zweig chegou aqui já famoso. Era um romancista muito popular. Judeu e austríaco, foi também poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo. Para as gerações mais antigas, Zweig era principalmente o autor de biografias. Escreveu várias: de Dostoiévski, Dickens, Balzac, Nietzsche, Tolstoi, Stendhal e uma famosíssima na primeira metade do século XX, de Maria Antonieta. Conseguiu o reconhecimento como romancista nas décadas de 20 e 30. Neste período, destacam-se os romances “Amok” (1922), “Angústia” (1925) e “Confusão de Sentimentos” (1927).

Em 1934 deixou o país e passou a viver na Inglaterra, entre Londres e Bath, onde se naturalizou cidadão britânico. Com o início da Segunda Guerra Mundial e o avanço das tropas de Hitler, o casal atravessou o Atlântico em 1940 e se estabeleceu nos Estados Unidos. Em 22 de agosto do mesmo ano, veio pela primeira vez ao nosso país. Ao todo, Zweig e sua esposa Lotte fizeram três viagens ao Brasil. Durante a primeira, entre 1940 e 1941 para uma série de palestras, escreveu:

“Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante. Hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta), as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso — , a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz — uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora”.

É uma visão sociologicamente ingênua, mas demonstrava algum amor pelo país que adotaria.

Caro veio para o Brasil porque lhe disseram que era barato

O judeu Herbert Caro veio da Alemanha para Porto Alegre. Tinha em comum com Carpeaux a cultura literária enciclopédica e o profundo amor pela música. Na Alemanha, fora impedido de exercer a advocacia devido à promulgação das primeiras leis antissemitas pelo governo nazista. Primeiramente, refugiou-se na França, onde estudou Letras Clássicas na Universidade de Dijon. Para sustentar-se, dava aulas de latim e pingue-pongue – Caro havia integrado a seleção alemã de tênis de mesa durante seis anos e sido um dos dirigentes da federação de 1926 a 1933. Permaneceu um ano na França. Pressentindo a proximidade da guerra, buscou novo exílio. O Brasil surgiu como a melhor opção. Afinal, um amigo dissera que era um país barato de se viver. E Herbert Caro chegou a Porto Alegre em 7 de maio de 1935. Na mala, pouca coisa; no cérebro, um vocabulário de cerca de três mil palavras que aprendera em algumas aulas de português antes da viagem.

O vocabulário permitia que ele entendesse o Correio do Povo e pedisse informações na rua sem compreender perfeitamente a resposta. O ouvido ainda não estava acostumado. Seus conhecimentos de Direito eram inúteis e o doutorado em Filosofia também pouco valia na Porto Alegre da década de 30. O domínio de várias línguas proveu a subsistência nos primeiros anos e direcionou sua vida.

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Os maiores livros de todos os tempos, votados por 125 autores

Ao Farol (To the lighthouse), de Virginia Woolf

Ao Farol (To the lighthouse), de Virginia Woolf

Mais uma lista. Discordo de muitas coisas, mas há lembranças interessantes.

TOP TEN WORKS OF THE 20TH CENTURY 

Lolita by Vladimir Nabokov
The Great Gatsby by F. Scott Fitzgerald
In Search of Lost Time by Marcel Proust
Ulysses by James Joyce
Dubliners by James Joyce
One Hundred Years of Solitude by Gabriel Garcia Marquez
The Sound and the Fury by William Faulkner
To The Lighthouse by Virginia Woolf
The complete stories of Flannery O’Connor
Pale Fire by Vladimir Nabokov

TOP TEN WORKS OF THE 19th CENTURY

Anna Karenina by Leo Tolstoy
Madame Bovary by Gustave Flaubert
War and Peace by Leo Tolstoy
The Adventures of Huckleberry Finn by Mark Twain
The stories of Anton Chekhov
Middlemarch by George Eliot
Moby-Dick by Herman Melville
Great Expectations by Charles Dickens
Crime and Punishment by Fyodor Dostoevsky
Emma by Jane Austen

TOP TEN AUTHORS BY NUMBER OF BOOKS SELECTED

William Shakespeare — 11
William Faulkner — 6
Henry James — 6
Jane Austen — 5
Charles Dickens — 5
Fyodor Dostoevsky — 5
Ernest Hemingway — 5
Franz Kafka — 5
(tie) James Joyce, Thomas Mann, Vladimir Nabokov, Mark Twain, Virginia Woolf — 4

TOP TEN AUTHORS BY POINTS EARNED

Leo Tolstoy — 327
William Shakespeare — 293
James Joyce — 194
Vladimir Nabokov — 190
Fyodor Dostoevsky — 177
William Faulkner — 173
Charles Dickens — 168
Anton Chekhov — 165
Gustave Flaubert — 163
Jane Austen — 161

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Frases ouvidas hoje pela manhã

— Meu gato está sofrendo de carência terminal.
— A folga que me deram foi um presente de vida.
— Google, pelamor, espere eu apertar o “Enter”.
— O Windows não está respondendo. Além de lento, é mal educado.

Um início criativo de dia.

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Ospa em dia de Shostakovich, Ligeti e Lutoslawski

O trompetista Elieser e a pianista da Domenici fizeram um Shosta pra lá de bom.

O trompetista Elieser e a pianista Domenici fizeram um Shosta pra lá de bom | Foto: Augusto Maurer

Era quase 25 de setembro, dia do aniversário de minha filha e de Shostakovich, e ele foi o ponto alto de um programa que também comemorava o centenário de Lutoslawski (1913-1994) e os 90 anos de Ligeti (1923-2006).

Tudo começou com o polonês. Como não sou original, gosto do neoclássico Concerto para Orquestra de Lutos. Ele é um compositor originalíssimo, que trafegou do tango ao dodecafonismo, do foxtrot à música aleatória. Os Jogos venezianos, para pequena orquestra, apresentados ontem à noite, são o ponto da virada na carreira de Lutoslawski, quando ele abraça o princípio aleatório. O resultado é bem complexo e sujeito a um acaso controlado pelo esqueleto organizado por Lutos. É daquele tipo de obra em que os músicos combinam: “Vai cada um prum lado e nos vemos em 15 minutos, tá?” Eu curti a obra mais pela cara dos músicos, alguns loucos para rirem, fato confirmado logo após o concerto — com exceções. Jogos venezianos parece trilha sonora de um mau filme de terror. Bem diferente do caso de…

A coisa ficou MUITO mais bonita com Lontano, para grande orquestra. Pelo lado da frente, é uma música de interessantíssima textura, bela como um tapete árabe; vista por trás, é densa e ultramicrocosturada em sua polifonia. Trata-se de um jogo de sombras composto de harmonias mahlerianas com reflexos de Bach. A música de Ligeti — ao menos as obras menos sarcásticas deste grande compositor — paira acima de nós, fora do alcance. Não é para menos que Stanley Kubrick utilizou-a em momentos cruciais de 2001 (com Lux Aeterna) e de O Iluminado — justamente com as lentas transformações de Lontano. A Musica ricercata também foi utilizada em De olhos bem fechados. Foi a primeira vez que a Ospa apresentou uma obra de Ligeti, Saiu-se bastante bem.

O excelente programa foi finalizado com o aniversariante de hoje, Dmitri Shostakovich. Espécie de condensado de Shosta — incluindo lirismo, bom humor, ecos populares e militares, além de um daqueles moderati dilacerantes, tudo em versão curta –, o Concerto Nº 1 para piano, trompete e cordas é maravilhoso. Shostakovich foi bom pianista. Poderia ter feito carreira como tal, mas, para nossa sorte, escolheu compor. Foi o vencedor do internacional Concurso Chopin de 1927 e fazia apresentações regulares executando seus trabalhos. O pequeno número de gravações do próprio compositor como pianista talvez deva-se ao fato de ele ter perdido parcialmente os movimentos de sua mão direita ao final dos anos sessenta. Há registros no YouTube de Shostakovich tocando como um velocista o Finale deste concerto.

Trata-se de uma obra espetacular. Era uma boa época para os concertos para piano. O de Ravel aparecera um ano antes, assim como o 5º de Prokofiev. É coincidente que os três sejam alegres, luminosos, divertidos mesmo. É formado de quatro movimentos, sendo o primeiro muito melodioso e gentil, os dois centrais lentos e o último capaz de provocar gargalhadas. A participação de um trompetista meio espalhafatoso é fundamental, assim como de um pianista que possa fazer rapidamente a conversão entre a música de cabaré e a música militar exigidas no último movimento. Vi ontem como as pessoas sorriam durante a audição deste movimento. Não há pontos baixos neste concerto.

A pianista Catarina Domenici saiu-se muito bem, assim como o trompetista — da Ospa — Elieser Fernandes Ribeiro. Este aliás, é tão bom que a orquestra deveria explorá-lo mais. O que o homem toca não é brincadeira. O regente Antônio Borges-Cunha é das poucas pessoas de Porto Alegre que têm coragem de encarar um repertório desses. Só por isso já merece elogios. Afinal de contas, de mesmice basta eu.

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Sempre arranjando mais tempo para o trabalho

relogio-de-bolso-omega-de-prataE tirando da vida pessoal. Eu preciso urgentemente voltar a frequentar alguma academia, a escrever mais para o blog, a ler mais, a ouvir mais música. Estou me sentindo fraco e burro. Das três metades da minha vida, há uma muito feliz, outra em estado de espera e outra, a profissional, que só cresce em demanda. Mas…

Talvez seja apenas uma impressão minha. Acho mesmo que a culpa disso é minha. Quem se desorganizou fui eu. Ninguém me pediu para fazer isso. Chego em casa e sigo trabalhando. E sou uma daquelas pessoas que se deixa escravizar pela rotina. É um antigo e conhecido algoz anti-hedonismo. Só me causa desprazer. Como passo o dia no computador editando matérias para o Sul21 e tenho computador em casa, fica fácil não parar. Hoje pela manhã, às 6h45, tive que me impedir para sair não publicando uma coisinhas. Isso que não tenho smartphone, essas coisas.

Outra coisa: muita coisa que fazia por prazer acabou virando obrigação. Por exemplo, vou a um concerto para ter um bom momento, só que virou obrigação escrever um comentário a respeito. Precisa mesmo? Acho que ninguém morrerá se eu for a um concerto ou ler um livro e não escrever minha irrelevante opinião depois, certo?

Bem, tenho que me reprogramar totalmente. Então, começo por terminar este post agora.

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Bom dia, Dunga

Que tal fazer como o Mano, Dunga?

Que tal fazer como o Mano, Dunga?

Na boa, meu amigo, acho que deu pra ti. Não que eu ache que és o único culpado — não és nem o principal deles –, mas o Luigi e sua equipe de abobados não irão apertar coletivamente o botão de EJECT. Que chamem Mano Menezes, Abel Braga ou até o Celso Roth para fechar o ano — só assim mesmo para contratá-lo, claro.

Porque, Dunga, a bagunça de ontem, contra a pobre Portuguesa, foi inexplicável. No intervalo, tiraste o Airton para que não fosse expulso. E, aos quatro minutos do segundo tempo, Índio é expulso de forma colegial… O time voltou nervosinho, não? Então, ficamos com Muriel; Gabriel, Juan e Fabrício; Josimar — que às vezes concedia tornar-se zagueiro –, Alex e D`Alessandro; Caio, Scocco e Damião. Alan só entrou aos 27 min… Céus, Dunga, andas alucinando, fumando alguma coisa antes dos jogos? Viraste o mais improvisador e ofensivista dos técnicos?

Tu dizes que não tens tempo para treinar, mas acho que todos os nossos jogadores têm experiência e noções táticas para não ficarem como baratas tontas em campo. Falta tranquilidade. E isto não é apenas visto nas expulsões e cartões, mas também nos incríveis erros de conclusão a gol. Agora, quinta-feira, temos o Atlético-PR pela Copa do Brasil e, depois, domingo, o líder do Brasileiro, Cruzeiro, ambos em casa. Tenho medo de fazer previsões, ainda mais que perdemos todos os jogos que fizemos sem D`Alessandro e ele estará fora contra o Cruzeiro. O que devo colocar no Bolão do qual sou líder, Dunga? Cruzeiro, né?

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Where the hell is Dudamel? Está aqui, ó

Maestro titular em Los Angeles e Gotemburgo, Gustavo Dudamel ainda viaja pelo mundo inteiro, além de gravar para a Deutsche Grammophon. Muitas vezes, o público de Los Angeles reclama da ausência de seu regente perguntando Where the hell is Dudamel? Pois o encontramos na França, regendo a Sinfonia Nº 1 de Brahms.

http://youtu.be/xARnZ6_8bYI

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Às 17h44, acaba o inverno — reflexão irresponsável de domingo de manhã

Hoje é o dia do equinócio de setembro. Então o dia e a noite terão a mesma duração, dando início à primavera. A partir de agora até o solstício, a cada 24h, o dia ficará mais longo e a noite irá encurtando, aumentando, assim, a insolação do hemisfério sul. O calor voltará, infelizmente. A estação começa às 17h44 e vai até o solstício de 21 de dezembro, quando começa o verão.

Quem vive na Porto Alegre de Fortunati e vai ao trabalho de ônibus, só pode detestar a simples ideia de que um novo verão está a três meses de nós. Voltar para casa no verão é um suplício. Ou se sai antes das 18h para sofrer mesmo, ou se espera até bem mais tarde tomando chopes. Um happy hour cultural no centro de Porto Alegre não seria má ideia, né? Um local com ar condicionado que criasse uma programação que envolvesse bar, música, cinema, enfim, saraus, talvez desse muito certo. Afinal, talvez seja fácil segurar o pessoal que vai ao centro da cidade por mais algumas horas.

No mais, só gosto de verão na praia.

Estação das flores... Arrã.

Estação das flores… Arrã.

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Porque hoje é sábado, Emily Shaw

Chove e faz frio em Porto Alegre.

Emily Shaw

Dizem que choverá por todo o fim-de-semana.

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Como disse Drummond,

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desejo a vocês,

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domingo sem chuva,

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segunda sem mau humor,

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sábado com seu amor.

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Ospa com Copland, Rossini e Brahms no Dante Barone…

Milan Rericha: sensacional

Milan Rericha: sensacional

Lembro do Augusto Maurer em Capão da Canoa. Eram os anos 80, éramos jovens e às vezes íamos para a praia no inverno. Ficávamos na casa de uma namorada dele. Eles faziam a comida, eu lavava a louça. Eu lia, ela estudava e o Augusto ensaiava. E o que o Augusto mais ensaiava era a cadência do Concerto de Copland. E o fazia de um modo muito estranho, dando voltas em nossa quadra vazia da praia. Eu o localizava pelo som do clarinete.

Ontem, a Ospa iniciou seu excelente programa justamente com o lindo Concerto para Clarinete de Aaron Copland. O virtuose checo Milan Rericha é um caso à parte. Toca demais, tem som e musicalidade impressionantes. Trata-se de um sujeito sorridente e com o ar zombeteiro de quem vai abrir uma cerveja para beber conosco. Toca sorrindo, dando a impressão de fazer tudo com facilidade. A obra de Copland é formada por dois movimentos unidos pela citada cadência. O primeiro movimento é lento e lírico. A cadência dá ao solista a chance de mostrar seu virtuosismo, introduzindo temas jazzísticos — não esqueçam de que a peça foi dedicada a Benny Goodman. O segundo movimento é alegre, dando seguimento ao jazz e puxando aplausos. Rericha deu um banho.

Tanto que nem precisava da xaroposa Introdução, tema e variações para clarinete e orquestra de Gioacchino Rossini. Mero vetor de virtuosismo, desta feita sem mérito artístico, a obra serve apenas para brilhaturas do solista. Sim, o público adorou. Eu apenas pedi aos céus que a peça fosse curta. Fui atendido.

Após o intervalo, tivemos a Sinfonia Nº 1 de Johannes Brahms (1833-1897). É uma das melhores sinfonias que conheço e, dia desses, estava brigando por ela no Facebook como uma das cinco melhores de todos os tempos. Só que… Olha o Dante Barone não dá! O esforço dos músicos é comovente, não sei o que os metais e as madeiras fizeram para salvarem-se mas, desculpem, o resultado final não foi o que Brahms merece. Acho que o jeito é tornar os concertos na AL cada vez menos sinfônicos, privilegiando as instrumentações rarefeitas. O Copland estava até bem, mas quando a orquestra teve que fazer “barulho”, tudo nos chegava empastelado. Não dá. Simples assim.

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Anotações desorganizadas sobre Anna Magdalena Bach

Dizem que esta era Anna Magdalena...

Dizem que esta era Anna Magdalena…

Estou pautado para escrever sobre Anna Magdalena Bach (1701-1760) para o próximo fim-de-semana. Ela foi a segunda esposa de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Quase todas as mulheres dos grandes homens do passado foram pouco mais do que nomes, meras sombras. Anna é bem mais do que uma sombra. Foi muito citada por Bach e só podia ser muito talentosa. Bach deu-lhe dois presentes musicais muito famosos. São os chamados Cadernos de Notas de Anna Magdalena Bach. O primeiro deles datava de 1722 e continha somente composições de Johann Sebastian Bach. O segundo é de 1725 e é uma compilação de obras de Bach e de seus alunos. Além da excelente qualidade musical, o interessante deste livro é a possibilidade que nos dá de espreitar a música doméstica que era ouvida na casa deles. É uma coleção de pequenas peças como árias, minuetos, rondós, polonaises, prelúdios, gavotas, etc., mas, no primeiro primeiro livro também estão quase todas as Suítes Francesas, peças nada fáceis que hoje fazem parte do repertório bachiano.

Anna nasceu na Saxônia, numa família de músicos. O pai era trompetista e a mãe também era filha de músico. Ela trabalhava como cantora e conhecia Bach há algum tempo. Maria Bárbara, a primeira esposa de Bach, faleceu inesperadamente em 1720 e, dezessete meses depois, Bach casou-se com Anna Magdalena. Estávamos em 1721: ele tinha 36 anos; Anna, 20. O amor do compositor por suas duas esposas pode ser depreendido através de suas cartas e dos vinte filhos resultantes — sete com a prima Maria Bárbara e treze com Anna Magdalena, entre os anos de 1723 e 42.

Sete ficaram na alta mortalidade infantil da época. Dentre os sobreviventes estavam os também compositores Johann Christian Bach e Johann Christoph Friedrich Bach. Parece ter sido um casamento feliz. Ela transcrevia suas músicas e, na época em que moraram em Leipzig, a casa de Bach tornou-se regular local de saraus onde o casal organizava noites em que toda a família cantava e tocava juntos com alunos do compositor e amigos.

Mas é claro que tudo vai acabar em desgraça. As histórias felizes não têm mesmo graça… Após a morte de Bach, em 1750, seus filhos brigaram e se separaram. Anna Magdalena permaneceu com suas duas filhas mais jovens e uma enteada do primeiro casamento de seu marido. Mulheres sozinhas no século XVIII eram sinônimo de caridade ou ruína. Ninguém mais da família as ajudaram economicamente. Anna Magdalena ficou cada vez mais dependente dos auxílios do conselho da cidade. Morreu quase indigente.

E céus, vou ter que tornar essa história mais interessante. Há um livro chamado Crônica de Anna Magdalena Bach, mas é ficcional.

E agora, quem poderá me defender?

Dizem que esta é uma gravura de Johann Sebastian e Anna Magdalena. Estilizadinha, não?

Dizem que esta é uma gravura de Johann Sebastian e Anna Magdalena. Estilizadinha, não?

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Amor por duas mulheres

Tenho / tinha em minhas mãos todos os ingredientes para estar vivendo uma das quadras mais podres de minha vida, mas, se fosse reclamar, seriam lágrimas de crocodilo, pois sou beneficiário do amor de duas mulheres. Só posso pensar que, se for mesmo uma pessoa boa e grata, quando olhar para trás, pensando nesta época de separação, vou me lembrar mais delas, de minhas duas mulheres, do que de qualquer outro.

Prova de que o recente calor provocou brotações em Porto Alegre, ambas mudaram recentemente seu status no Facebook para “Em um relacionamento sério com…”. Uma é minha filha; a outra não sei bem o que será, mas bem a quero e bem sei o que desejo que seja. Uma é mais pequena; a outra não chega a ser grande. Uma me dá conselhos com certa rispidez; a outra é cheia de modos. Uma me provoca a tapas; a outra o faz mudando subitamente de assunto, deixando pelo caminho vagas frases com mil reticências. Estou acostumado com o espanto de ver a primeira delas repentinamente a meu lado desde há duas décadas; a outra vai e volta e, por mais que me esforce, sou obrigado a pensar que chegou pelo ar. Uma me defende de forma indignada; a outra pede que eu cultive a tranquilidade. Uma corrige meus escritos; a outra diz ouvi-los. Uma tem um piano cheio de cupins; a outra morre de saudades do seu. Uma gosta dos filmes pesados; a outra, dos leves. Uma costuma me soquear de brincadeira; a outra … Bem, uma diz palavrões — Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?, perguntava Drummond — ; o que escandalizaria a outra — se esta os ouvisse. Uma é brasileira de Porto Alegre; a outra, bielorrussa de Mogilev. Porém, nas poucas vezes em que se encontraram, uma elogiou a outra; no que foi retribuída (e sou a solitária testemunha disso).

E eu nisso tudo? Olha, eu trato de, cuidadosamente, receber um pouco da vida de cada uma delas e devolver tudo na forma de boas memórias. Acho que é isso que devo fazer..

A quase um mês da primavera, flores já colorem Porto Alegre

A quase um mês da primavera, flores já colorem Porto Alegre

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Grupo de Dança Terpsí

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro (ao fundo, à direita, Natália Karam).
Onde: no espetáculo Casa das Especiarias, dentro do Porto Alegre em Cena.

Natália Karam

Natália Karam (aqui e na última foto)

nome

Angela Spiazzi

nome

Francine Pressi

Natália Karam

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Porque hoje é sábado, Victória Guerra e Zsuzsanna Ripli

Por desapego ao personagem principal

— seja em livros, filmes e até aqui no PHES —

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resolvi fazer uma PHES em dupla.

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A primeira parte com as castas fotos da bela portuguesa

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Victória Guerra (Faro, 1989) e a segunda

Victória Guerra

com a bem mais quente e húngara Zsuzsanna Ripli (Szigetvár, 1981).

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Não dá esperar muita explicitude de uma portuguesa que é atriz e modelo.

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Ela simplesmente não deixará ver o que só ela vê

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deixando-nos a ver navios

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sobranceira.

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Já a Hungria é outro país.

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Há o Danúbio passando entre Buda e Peste,

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e as mulheres aparecem mais ousadas

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e sorridentes.

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O mundo é assim.

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Os 10 melhores poemas de Fernando Pessoa

Vergonhosamente copiado da Revista Bula.

Pedimos a 20 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Fernando Pessoa. Cada participante poderia indicar entre um e 10 poemas. Escritor e poeta, Fernando Pessoa é considerado, ao lado de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. O crítico literário Harold Bloom afirmou que a obra de Fernando Pessoa é o legado da língua portuguesa ao mundo.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Sua última frase foi escrita na cama do hospital, em inglês, com a data de 29 de Novembro de 1935: “I know not what tomorrow will bring” (Não sei o que o amanhã trará).

Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares. Álvaro de Campos, por exemplo, era um engenheiro português com educação inglesa e com forte influência do simbolismo e futurismo. Ricardo Reis era um médico defensor da monarquia e com grande interesse pela cultura latina. Alberto Caeiro, embora com pouca educação formal e uma posição anti-intelectualista (cursou apenas o primário), é considerado um mestre. Com uma linguagem direta e com a naturalidade do discurso oral, é o mais profícuo entre os heterônimos. São seus “O Guardador de Rebanhos”, “O Pastor Amoroso” e os “Poemas Inconjuntos”. Em virtude do tamanho, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados. Eis a lista baseada no número de citações obtidas.

Fernando Pessoa

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

O guardador de rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Ode marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É – sinto-o em mim como o meu sangue –
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Bom dia, Dunga (ou Luigi)

Luigi: quando a coisa está indo bem, ele complica

Luigi: quando a coisa está indo bem, ele complica

Estava acompanhando todos os jogos do Inter e, por isso, estava escrevendo uma série de posts na qual fingia dirigir-me diretamente a Dunga. Mais elogiava do que criticava. Só que… Ora, nunca tive paciência com a diretoria do Inter e com suas decisões flagrantemente equivocadas. Como escreveu o Alexandre Perin num e-mail de ontem, a derrocada do Inter no Brasileiro começou com a trágica decisão política de poupar jogadores num jogo contra o ridículo Náutico. Eram três pontos certos que foram perdidos para o último colocado da competição. Então, veio um Gre-Nal de 0 x 0 e fomos caindo na tabela. Aquele um ponto de seis possíveis parece ter desmobilizado o grupo.

Essas decisões de ópera bufa parecem estar associadas a Giovanni Luigi de forma muito consistente. E me irritam muito. A coisa vai indo bem até que um fato novo e bobo chega para atrapalhar. É como se alguém de fora desligasse a energia pelo simples prazer de ver o recomeço. Esse mito de Sísifo com o qual Luigi gosta de se envolver desmotiva muito. Ele leva a pedra morro acima e, em determinado momento, apraz-lhe deixá-la descer. Agora estamos com um baita grupo de jogadores e lá embaixo.

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Vamos invadir a Livraria Cultura

O time: SC Internacional
O livro: Inter Hoje e Sempre
Autores: Daniel Cassol e Douglas Ceconello

Acho que não dá para ser melhor.

Lançamento amanhã, 11/09, às 19h, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping.

inter-hoje-e-sempre

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Objeto de Desejo

Para ela, os cheiros sempre foram importantes. Percebia grande parte do mundo através deles. Ao chegar a um restaurante, por exemplo, rapidamente notava a qualidade da comida; ao chegar o prato, adivinhava seus condimentos e a forma como fora preparado; ao retornar para casa, reconhecia o cheiro de banho do marido ao deitar — o mesmo há 30 anos –, assim como o cheiro da cama ao acordar. Havia também os cheiros ruins, que a afastavam. Ela dizia que baratas tinham determinado odor, assim como o pó da casa. Seu marido balançava negativamente a cabeça… Ora, cheiro de barata…

Impossível dizer se era seu sentido mais importante, mas era aquele do qual mais se orgulhava; sabia que o fato de ser excelente cozinheira devia-se à habilidade olfativa, um talento discreto e pouco considerado, mas que nunca a abandonara ou fora-lhe hostil. Tudo começou em sua infância no interior; corria à cozinha para sentir mais forte o cheiro do pão que sua mãe fazia para vender nas padarias; ficava feliz ao sentir entrar pelas janelas as delícias da terra molhada no início da estação das chuvas. Até hoje, quando os primeiros pingos batiam na janela de seu apartamento na cidade grande, sua memória trazia-lhe a fragrância da terra carente e dos telhados empoeirados, sugerindo felicidade e risos.

Hoje, ao acordar, veio-lhe à memória um cheiro inesquecível. O do perfume “Toque de Amor”. Ainda hoje, o vidro é o mesmo de sua trinta anos atrás. Ela o tinha visto pela primeira vez no quarto da irmã mais velha de uma amiga.

Avon Toque de AmorNuma quente tarde de sábado, conseguiu entrar sozinha no quarto da moça. Estava com um pouco de medo, mas era-lhe necessário olhar de perto aquele perfume. No quarto havia uma penteadeira algo aristocrática para a simplicidade daquela gente e lá estava, bem no meio, uma bombinha para borrifar perfume, algo lindíssimo, com uma cordinha púrpura na ponta. E, ao lado, o vidro de “Toque de Amor” da Avon. Aos quatorze anos, sua pele ainda não conhecera um perfume de verdade, apenas sabonetes e talco, quando havia. O maior luxo de sua família de raras posses permitia-se era a Água de Colônia, apenas usada com parcimônia em ocasiões especiais. Ela olhava o vidro e sentia pela primeira vez o desejo irrefreável de caminhar rente às pessoas pelas ruas da cidadezinha, deixando uma leve fragrância que as faria voltarem a cabeça.

A partir daquele momento, o vidrinho passou a povoar sem tréguas sua imaginação. Dali a dois meses depois, haveria a de formatura do ginásio. Iria usar um vestido novo, amarelo, com pequenas tranças de tecido realçando o decote, uma obra de carinho costurada por sua mãe. Mas sua noite de princesa seria incompleta sem o “Toque de Amor”, garantia absoluta de sucesso.

Criou coragem e foi falar com a privilegiada proprietária do perfume; expôs a importância de uma leve borrifada do “Toque”. Sua resposta foi um fraco não, disse que, se cedesse, teria também que aspergir ou pingar ao menos uma gota em cada irmã, que até então não tinham merecido tamanha distinção. Jurou segredo absoluto, mas a outra não aceitava. Passada uma semana, ela lhe propôs não apenas um, mas três borrifos.

Em troca, ela apenas precisaria levar uma carta até um endereço comercial na Pinheiro Machado. Fácil demais! No grande dia, deu uma passadinha na casa da amiga e pôs na bolsa do colégio o desejado aparato. “Três borrifadas só”, ouvi-a repetir, “se colocares mais, fica insuportável de tão forte. Não dá para chegar perto!”. Então, já vestida para o baile, recebeu de si mesma as três gloriosas borrifadas e foi para a festa de formatura. No salão de festas do colégio, sobre o piso vermelho de cimento queimado, dançou embalada por um conjunto estreante da própria cidade: eles arrasaram em covers de “Renato e seus Blue Caps” e Jerry Adriani.

Foi uma noite inesquecível. Dançou “Feche os Olhos” com um menino que nunca tinha visto e que certamente sentira o “Toque de Amor” em seu pescoço e no colo cheio de trancinhas amarelas aspergidas.

Feche os olhos e sinta um beijinho agora
De alguém que não vive sem você
Que não pensa e não gosta
De outra menina e tem medo de lhe perder

Na semana seguinte, pagou a dívida. O homem era gerente da agência do Banco do Brasil da cidade. Era bonito, de meia idade. Muito velho, em sua opinião.

Dois meses depois, toda a cidade comentava. A esposa traída fez todo alarde possível. A patrocinadora do perfume, aos 19 anos, foi expulsa de casa. Passou a morar com uma tia na capital e o moço acabou transferido. Nunca mais se soube da moça e ela nunca mais usou “Toque de Amor”.

Publicado em 2008. Tinha esquecido dessa historinha simples.

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