Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nikolai Leskov

Leskov Lady MacbethEsta novela ficou muito famosa pelo fato de Shostakovich tê-la adaptado para a ópera. A versão musical — espetacular, chamada apenas de Lady Macbeth de Mtzensk — foi proibida por Stalin, juntando escândalo a escândalo. Sim, porque a novela é espalhafatosa, um verdadeiro paroxismo de maldade, bem no estilo do modelo shakespeareano tomado por Leskov. Não há nenhuma hesitação, nenhuma incerteza, nenhum retroceder na mulher. Ela é ainda menos reflexiva do que a Lady Macbeth de Shakespeare.

E é neste ponto que vejo seu único problema. São noventa páginas divididas em quinze capítulos que cobrem a violenta vida amorosa de Catierina Lvovna, nossa Lady Macbeth. Em cada um deles, há um clímax onde algo de hediondo é tramado ou realizado. Isto dá ao livro um ar mais de roteiro do que de novela. Tudo ocorre sem muita preparação e Shostakovich, ao lê-la, deve ter pensado: “Nossa, mas isso é um libreto de ópera pronto!”. É mesmo. Porém, não pensem que Leskov fez isso por inabilidade. Foi uma opção tomada por um autor sofisticado. Do tipo desta vez vou ser tosco, tá?

Não obstante os quinze clímax sem preliminares, a história é excelente e é impossível largá-la antes do final, tal o impressionismo solar de cada uma delas. As cenas que apavoraram Stalin — que chamou a ópera de “pornofonia” antes de censurá-la, colocando Shostakovich em temporária desgraça –, estão todas no livro, plenas de desejo e ódio. Deixo de lado meu incondicional ateísmo para pedir aos céus nunca cruzar com uma Catierina Lvovna, Deus me livre delas! O próprio Leskov considerava a história perturbadora e dizia ter medo dela. Esqueça. Vale a pena ler essa história tosca do nada tosco Leskov.

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Isso é esporte?

Eu arrumaria a perna dele e depois o prenderia sob a a acusação de debilidade mental perigosa e exploração da estupidez da maioria silenciosa (e violenta).

Juca Kfouri: “Esquecem os defensores da barbárie dos objetivos de cada prática”.

ANDERSON SILVA

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Porque hoje é sábado, Fanny Ardant

Fanny Ardant volta aos cinemas com Os Belos Dias, onde faz uma sessentona aposentada que namora um sujeito da idade de suas filhas. Esperto esse sujeito. Aos 64 anos, Fanny ainda é uma mulher belíssima, como vocês podem conferir na foto abaixo, tirada na estreia do filme…

ardant

… e nesta outra, do próprio filme:

Fanny-Ardant

Então, em homenagem a esta bela mulher que soube envelhecer linda e sem plásticas envilecedoras, faço ressurgir este post de 2010.

.oOo.

Fico feliz quando ela sorri.

Não, eu fico MUITO feliz quando ela sorri.

Pois Fanny Ardant dá uma impressão de felicidade.

Ela pode ser classuda,

pode ter perdido Truffaut para um

câncer idiota,

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Roberto Carlos mostra toda sua admiração pelo ditador Augusto Pinochet

E esse cara segue incomodando o Brasil a cada Natal…

No Brasil, RC também demonstrou sua admiração pelos milicos

No Brasil, RC também foi fã da milicada

via

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Ser escritor no Brasil é a mais patética das profissões, diz jornal americano

Vanessa Bárbara está fazendo fortuna com a literatura

Vanessa Bárbara está fazendo fortuna com a literatura

The New York Times cita ainda dificuldades de professores, matemáticos e historiadores

Do R7

O jornal norte-americano The New York Times afirmou, em reportagem publicada em seu site no último fim de semana, que ser escritor no Brasil é a “mais patética de todas as profissões”.

O diário inicia a reportagem dizendo que os escritores brasileiros participaram de diversos encontros literários em países como Alemanha, Suécia e Itália, mas, mesmo assim, a carreira é desprezada no País.

O The New York Times adverte que, se você for ao Brasil, “não conte a ninguém sobre seu real ofício”. A publicação afirma que “não apenas vão negar seu cartão de crédito na mercearia, mas certamente eles irão rir de você e ainda vão questionar”.

— Não, sério, o que você faz para sobreviver?

A publicação, porém, lembra de Paulo Coelho, que é visto como dono de uma vasta, útil e lucrativa coleção de livros publicados.

O jornal destaca ainda que os escritores não estão sozinhos nessa jornada. Segundo a edição 2013 do ranking Global Teacher Status Index (Indicador Global de Professores, em tradução livre), referente à qualidade de vida dos educadores, o Brasil figura próximo da última posição na lista que reúne 21 países.

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O que aconteceu quando Milt Jackson encontrou Gary Burton

Em A Night In Tunisia, com o Milt Jackson Quartet e Gary Burton (1995).

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2013, ano das gratuidades e das mudanças

Para mim foi um ano de acontecimentos gigantescos: enormes decepções, enormes dúvidas, enormes decisões, enormes responsabilidades, enormes bizarrices, enormes mudanças, enormes surpresas, enormes tristezas e enormes alegrias.
Agradeço à vida por este ano e vou pedir ao bondoso Papai Noel só uma coisa para o ano de 2014: por favor, menos. Se for possível, claro.
Feliz Natal e um ótimo 2014 para todos! Abraços!

Elena Romanov em seu Facebook

Este é o melhor resumo de 2013 também para mim, que convivi boa parte dele — infelizmente bem menos da metade — com Elena. Do ponto de vista pessoal, acrescentaria “enorme gratuidade” imediatamente após as decepções, pois houve muito disso. Com a palavra, não quero dizer que tenha sido um ano em que não paguei nada, muito pelo contrário. Uso gratuidade no sentido daquilo que não é justificado, do que é natural e espontâneo em outrem, do que é gratuito na acepção de infundado.

Mas não reclamo do ano. Afinal, todos os amigos e minha pequena família estão aí alive and kicking; o trabalho idem e a saúde surpreende após um ano tão maluco. Em junho e outubro parecia que ia me dar um piripaque, mas até o colesterol, no meu caso sempre nas nuvens, apareceu no mês passado em inéditos 169. (Obrigado, seu Lípitor!)

E 2013 foi o ano da felicidade minimalista. Nada grandiosa, nada estável, mas muito satisfatória até aqui. Tanto assim que vamos fazendo planos. Li hoje uma frase incrivelmente verdadeira e aparentemente nada a ver com o que escrevo: a de que só agora estamos aprendendo a ser contemporâneos de James Joyce. Estamos chegando cada vez mais perto dele e um dia alcançaremos e entenderemos o sublime, genial, neologista, poliestilista e desbocado autor de Ulysses. O fato acontece casual ou inexoravelmente à medida que o tempo passa. No passado, lembram?, alcançamos os últimos quartetos de Beethoven, que dizia com toda a razão a seus críticos: “No futuro, entenderão”. No meu caso, 2013 foi o ano em que aprendi muito a meu respeito — mais do que a respeito de outros. E mudei um pouco. Na base da porrada, me parabenizei por alguns méritos e quase me destruí identificando defeitos. Acho que fiquei mais silencioso, mais amante da lentidão. De alguma forma muito secreta, me aproximei alguns centímetros não sei do quê. Mas é assim mesmo, a gente vai mudando de forma contínua e imperceptível, só que as crises catalisam as alterações, mesmo que não garantam rumos. Então, sejamos lentos na vida e nos passeios de fim de tarde pela Redenção, certo, Elena?

De tudo isso, a única tristeza absoluta é a de ver menos a Bárbara, mas a gente dará um jeito, imagina se não.

Joyce examina meu raciocínio sem entender porque me referi a ele.

Joyce examina meu raciocínio sem entender porque me referi a ele.

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Carlota na Redenção

Em versão ultra-light, certamente hipócrita e insincera de tão light, o autor deste blog aparece tranquilamente dando migalhas de pão para os pássaros, peixinhos e tartarugas do Parque da Redenção, em fotos de Elena Romanov. Nas fotos, como alguns sabem, não está presente todo o ambiente envolvido, tal como, por exemplo, o calor senegalês de nossa cidade. Senti-me como a Carlota do Werther de Goethe, dando pão com manteiga às criancinhas, esperando retribuição nenhuma. É minha postagem de Natal, gente!

Ao final da tarde, o autor do blog voltara à normalidade.

Que todos se embebedem pelo Menino Jesus!

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Ela ama o Juarez, eternamente

Dentro do espírito natalino, roubamos esta imagem numa fila, durante o findi. Não sei seu nome e torço pelo casal, apesar de achar a afirmativa uma temeridade.

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Os 200 anos do genial e ainda polêmico Richard Wagner

Na próxima quarta-feira, 22, Richard Wagner completa 200 anos de nascimento

Publicado em 19 de maio de 2013 no Sul21

Uma mente madura deve ser capaz de admitir a coexistência de dois fatos contraditórios: que Wagner foi um grande artista e, segundo, que Wagner foi um ser humano abominável.

Edward Said, em Paralelos e Paradoxos (obra escrita em parceria com Daniel Barenboim)

Cinquenta anos após a morte, a biografia de qualquer autor costuma recuar em favor de sua obra. Isso se ele for se bom nível; se não for, ambos desaparecerão. Porém, nos anos 30 do século passado, a biografia e as opiniões pessoais do compositor Richard Wagner reapareceram em função de um grande fã que divulgava sua obra onde ia e sempre que podia: Adolf Hitler. O ditador não apenas amava Wagner como tinha sempre à mão um toca-discos com uma versão de Parsifal. O aparelho servia para que Hitler demonstrasse a seus assessores o verdadeiro espírito alemão. Tudo isto está muito bem documentado; então, desde a época da ascensão do nacional-socialismo, Wagner deixou de ser um fenômeno apenas musical para tornar-se também geopolítico.

Para nós já é possível eliminar as conexões de Wagner e enterrar de vez os cadáveres? Será que já podemos esquecer seu antissemitismo a fim de deixar a música falar por ele? Talvez não. Há dez dias, uma ópera de Wagner — Tannhäuser — transposta para a época do nazismo foi retirada de cartaz na Alemanha. Muitos protestaram violentamente, outros sentiram-se mal. Antissemita, misógino, defensor da pureza racial reivindicada pelo nazismo, Wagner ainda tem sua herança política, social e musical em debate.

Tela retratando o artista. Revolucionário na arte, Wagner influenciou grandemente a sociedade alemã

Nascido em Leipzig no dia 22 de maio de 1813, Wagner faleceu em Veneza em 13 de fevereiro de 1883. Seu empenho era no sentido de renovar a ópera tradicional pela introdução da chamada “melodia contínua” e do leitmotiv (motivo condutor). O projeto foi acompanhado pelas concepções filosóficas do autor, fundadas na admiração pelo mitos do drama grego e na força irracional da música, que haveriam de resultar em uma nova arte alemã. O aspecto nacionalista deste projeto prestou-se a uma utilização ideológica e deturpada por ocasião do Terceiro Reich, a Alemanha de Hitler. Se Wagner já estava morto há cinquenta anos quando Hitler subiu ao poder, é certamente um equívoco considerá-lo um precursor do nazismo. Quando o grande maestro judeu Daniel Barenboim finalmente regeu a abertura de Tristão e Isolda em Israel, no dia 7 de julho de 2001, houve protestos, porém não gostar de Wagner por motivos políticos não é uma exclusividade israelense ou judaica.

E Wagner não pode ser simplesmente ignorado, tendo seu nome riscado da história da música. Ele é efetivamente incontornável por ser um elo na evolução musical que desaguou na revolução do início do século XX. Com Richard Wagner, a linguagem musical e a própria concepção da música, sua função e o papel do compositor, passaram por uma transformação tão grande que demarcam toda a música ocidental posterior. Pode-se dizer que muitos compositores do século XX partiram dos procedimentos e da estética de Wagner mais do que da herança clássica.

Uma montagem moderna de Tristão e Isolda, em Dublin, Irlanda

Ao radicalizar, por meio da infiltração do cromatismo, as tentativas já esboçadas no século XIX de abalar os alicerces da todo-poderosa música tonal, Wagner preparou a transgressão. A dissolução da tonalidade pelo cromatismo em Tristão e Isolda foi um acontecimento histórico que deu impulso às pesquisas dos compositores da Escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern) e de outros no século XX.

Embora sua produção inclua lieder (canções), sonatas para piano, sinfonias, um poema sinfônico, marchas, etc., foi na ópera que Wagner manifestou mais intensamente sua capacidade de inovação. Wagner queria buscava a “obra de arte total” e esta iria na contramão dos limites impostos pela Arte até o século XIX, que considerava apenas as linguagens artísticas de forma separada. Wagner acreditava que a pintura, a música e a poesia já haviam alcançado o fim de suas evoluções e que, para inovar, seria necessário combinar as linguagens em uma Gesamtkunstwerk. Elaborou então um projeto pioneiro: construiu um edifício projetado especificamente para suas óperas, criando uma entidade unificada entre a orquestra e o palco. A “obra de arte total” necessitaria também a formação de um novo ouvinte, bem mais atento que costumavam ser seus contemporâneos.

Imagem “comemorativa” dos 200 anos de Wagner, encontrada na Internet…

Como Wagner “tornou-se nazista”

Mesmo no terreno da ópera, com a necessidade de se contar uma história, fazer “poesia”, ser teatro e música ao mesmo tempo, é complicado fazer teses. Mas é bom lembrar que Shostakovich, durante o stalinismo, provocava estranhamentos, comunicava intenções e protestava com música instrumental, sem palavras, conseguindo muitas vezes ser censurado. No caso de Wagner, há Wagner e Wagner, o autor e o homem. Inteligentemente, ele deixou quaisquer referências diretas aos judeus fora de sua música. É curioso o mecanismo de ocultamento que faz alguns autores escreverem pequenos ensaios como Das Judenthum in der Musik (O Judaísmo na Música, de 1850) – caso de Wagner – mas deixarem suas obras maiores livres de referências seculares. Também Céline, Hamsun e Pound – todos simpáticos ou apoiadores do nazismo – não entremearam sua obra com referências antissemitas ou nazistas, deixando essas coisas para os panfletos e jornais.

O opúsculo “O Judaísmo na Música”, de Richard Wagner (clique para ampliar)

Foi Hitler quem trouxe Wagner ao centro da discussão, tornando-o o maior dos antissemitas, mas é indiscutível que, em Das Judenthum in der Musik, o compositor vai longe. Primeiro, ataca a influência dos judeus na música e cultura alemãs, descreve os judeus como ex-canibais de fato e agora canibais das finanças. Afirma também que são de natureza muito pouco profunda, acusa-os de corruptores da língua alemã e ataca Meyerbeer e Mendelssohn, compositores judeus que considerava inimigos. Em uma carta para Lizst, Wagner confessa: “Sinto um ódio, por muito tempo reprimido, contra os judeus e esta luta é tão necessária a minha natureza como meu sangue… Quero que deixem de ser nossos amos. Afinal, não são nossos príncipes, mas nossos banqueiros e filisteus”.

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Dois anos sem o furioso, brilhante e desigual Ernesto Sabato

O escritor argentino Ernesto Sabato, falecido em 2011, a menos de dois meses de completar 100 anos.

Publicado em 5 de maio de 2013 no Sul21

Toda a obra de ficção é catártica.
(Ao menos para) Ernesto Sabato

A última terça-feira, 30 de abril, marcou o segundo aniversário de morte de um dos maiores mestres da literatura latino-americana, o argentino Ernesto Sabato. O autor de Sobre Heróis e Tumbas nasceu em 1911 e morreu em 2011, a menos de dois meses de tornar-se centenário. Vista em perspectiva, a trajetória de Sabato – brilhante, desigual e surpreendente – não está nada longe de seus personagens tortuosos. Jogador de futebol na juventude, comunista, físico de grande futuro, súbita desistência da carreira científica, ficcionista, artista plástico, equívoco e espetacular correção de rumos frente à ditadura argentina, o que não fez Sabato?

Sabato com Jorge Luis Borges: a amizade foi diversas vezes interrompida com críticas de parte a parte

Aos 22 anos, estudante na Faculdade de Ciências Físico-Matemáticas de La Plata, foi um dos fundadores o Grupo Insurrexit, de tendência comunista, que atuava na reforma da universidade. Ainda no mesmo ano de 1933, foi eleito Secretário Geral da Juventude Comunista e conheceu Matilde Kusminsky Richter, uma estudante de 17 anos que abandonou a casa de seus pais a fim de viver com ele.

Quando jovem, Sabato foi um promissor físico. Aos 25 anos, trabalhava no Laboratório Curie de Paris, realizando estudos sobre radiação atômica, e um ano depois, já estava no renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology) nos EUA. Trocou Paris pelos Estados Unidos antes do início da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, retornou à Argentina para ser professor na Universidade de Buenos Aires e, em 1943, em crise existencial — ele cita que via “um vazio de sentido” naquilo que fazia — , desistiu das ciências exatas pela literatura e pintura.

Sabato era torcedor e ex-jogador do Estudiantes de la Plata

Os romances e ensaios de Sabato não traem o cientista que ele fora, nem o humanista que sempre demonstrou ser. O poeta, romancista e ensaísta Fernando Monteiro chama-o com toda a razão de “o último dos renascentistas”. Dotado de uma vasta cultura, escreveu sobre os mais variados assuntos como se deles tudo soubesse – e parecia sabê-lo. Politicamente, causou espanto por ter sido um anti-stalinista de primeira hora. Sua posição, mais facetada e complexa a que a do comum dos militantes, fez com que fosse atacado como imperialista pela esquerda e como comunista pela direita. “Não vou ser complacente com o stalinismo e o que ele representa, não sou comunista de salão”, disse na época. Também o intelectual não traía a paixão mais chã pelo futebol – ele era um interessado hincha do Estudiantes de Plata – e pela música popular. Na música popular, há uma história recente contada pelo grande compositor e músico sérvio Goran Bregovic numa entrevista ao El Pais.

Disse Bregovic: “Ao chegar a meu hotel em Buenos Aires, me deram um pacote da parte de Ernesto Sabato, escritor que conhecia muito bem. Ele continha sua obra-prima Sobre Heróis e Tumbas, além de uma carta em que me pedia desculpas por não poder ir ao concerto em função da idade. Me explicava que minha música o havia salvado em momentos de depressão. Aquilo era incrível. Quando eu cumpria o serviço militar em Niš, na época do comunismo da Iugoslávia, roubei um exemplar deste livro do quartel. Era um romance extraordinário! Eu tinha o livro na biblioteca de minha casa em Sarajevo. Com a guerra perdi tudo, inclusive a biblioteca. Você pode começar uma nova vida, mas não pode começar duas vezes uma biblioteca”.

Um almoço para esquecer: com Videla, líderes militares, religiosos e Borges (clique para ampliar)

Mas Sabato também cometeu erros incríveis: levado por seu ódio ao peronismo, dois meses após o golpe militar de 1976, participou de animado convescote com Jorge Rafael Videla, representantes religiosos e Jorge Luis Borges. Sabato elogiou a cultura de Videla, a quem tomou por um líder moderado. Escritor à antiga, Sabato manteve sempre uma independência que não levava em conta quem eram os beneficiários ou as vítimas de suas opiniões.

Porém, quando deu-se conta de onde tinha embarcado, retirou imediatamente seu apoio e, após o final da ditadura, colocando-se a 180 graus da posição inicial, tornou-se o presidente da Conadep (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas) que teve por objetivo investigar as graves e reiteradas violações aos direitos humanos durante o Terrorismo de Estado entre 1976 e 1983. Sabato foi o responsável por reunir o testemunho e a documentação de 8960 desaparecimentos, assim como da existência de 340 centros de detenção e tortura. A Comissão recebeu milhares de declarações e depoimentos, verificando in loco a existência de centenas de locais de tortura e prisão em todo o país. Foi este o instrumento que permitiu o início dos processos e a condenação dos responsáveis máximos das juntas militares, começando justamente por Jorge Rafael Videla. Foi uma correção e tanto de rumo.

Sabato não foi um escritor prolífico. Em 1945, publicou seu primeiro livro, Nós e o universo, uma série de artigos filosóficos nos quais critica a neutralidade moral da ciência e alerta sobre os processos de desumanização nas sociedades tecnológicas.

Sabato, presidente da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas, entrega a Raúl Alfonsin um informe bem mais circunstanciado que o célebre ‘Informe sobre cegos’.

Em 1948, publicou a novela O Túnel, a qual fez com que os hofolotes se voltassem para ele a partir do entusiasmo de Albert Camus pela narrativa. Trata-se de uma curiosa história policial, narrada pelo autor de um assassinato, o artista plástico Juan Pablo Castel. Seu tema é a solidão e a incapacidade de criarmos conexões com outras pessoas. A obra termina com uma oração que diz “Senhor, livra-me de mim”. O Túnel é uma espécie de um longo desabafo — de notável fluência e eficiência — que reconstrói os fatos e os sentimentos que levaram ao crime. Castel apenas busca que alguém, “ainda que uma só pessoa”, compreenda seu ato. Logo, o leitor entende que Castel matara a “única pessoa” que poderia ouvi-lo, Maria. “Adotei a narrativa em primeira pessoa depois de muitas tentativas, porque era a única técnica que me permitiria passar a sensação da realidade externa a partir de um coração e de uma cabeça, a partir da subjetividade total…”.

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Abel e a cabeça tola e nostálgica de Luigi

Abel, vai ser feliz,  te desprega do Luigi.

Abel, vai ser feliz, te desprega do Luigi!

Abel Braga voltou ao Internacional. É um vencedor dos mais chatos e teimosos. Lembro que ele amava de paixão o jogador Michel, o que deixava a arquibancada doida. Após Abel, Michel foi do Inter para o limbo, claro. Mas é um treinador que normalmente dá padrões interessantes de jogo a seus times. E que costuma dar certo no Inter. Basta dizer que faltam 62 jogos para que se ele se torne o técnico com mais partidas disputadas em toda a história do clube. Mas devagar, né?

Certamente pilhado por Luigi Calvário — que adora a História do Futebol, apesar de entender tão pouco a respeito dele –, Abel saiu falando num monte de jogadores velhos. Não vamos palmilhar o mesmo caminho dos últimos anos, com o time se arrastando lamentavelmente em campo puxado por atletas de vasta biografia, sem mais nada a provar ou ambicionar. Na boa, a política de trazer os velhos ídolos nos deu pouco. Para que falar em Edinho? É bom jogador, mas começa a decair. Chega, Abel. Precisamos de volantes cumpridores, mas talvez o ideal não seja mais um jogador passado dos 30 anos. Outro fato a ser considerado é que agora podemos ter até 5 estrangeiros em campo. Ora, se olharmos os nossos, temos só D’Alessandro. Scocco é uma incógnita, Forlán só jogou bem no estadual — o que significa absolutamente nada — e Bolatti é um fracasso ainda maior. A preços e salários menores que os praticados no Brasil, há argentinos, uruguaios e colombianos a serem observados. E, cheios de vontade, deve haver joias nas divisões inferiores do clube. Dali saem e saíram nossas maiores vendas, inclusive. Então, por favor, chega de seguir a tola cabeça nostálgica de nosso presidente Luigi Calvário. Ou, quem sabe, a gente traz Figueroa para acertar a defesa e Valdomiro e Lula para dar velocidade ao ataque? Não Abel, vamos chegar ao futuro não pelo passadismo, mas pela perspectiva de uma nova geração vitoriosa. Pense no nosso time de 2005 e 2006. Era velho? Não, de modo algum. De velhos, bastamos eu e tu.

P.S. — Será que o Luigi sabe que o Keith Richards faz hoje 70 anos?

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Os desenhos de Henri Matisse para uma edição do Ulysses de James Joyce em 1935

Uma delícia para quem, como eu, releu o livro há pouco tempo. É o mais sexual e divertido dos romances.

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Atenção mulheres: Namorem caras que escrevem (sempre!)

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Namore um cara que escreve. Não um cara que te manda poesias do Drummond ou que te manda letras do Chico com foto de pôr do sol. Namore um cara que escreva ele mesmo para você. Um cara que escreve irá perceber os detalhes entre vocês dois, e assim escrever cartas e textos pessoais que falem especificamente sobre vocês dois, não cartas de amor genéricas catadas no limbo da internet. Namore um cara que, ao invés de comprar um cartão de dia dos namorados com um poema do Vinicius, vai escrever um texto para você no seu computador enquanto você toma banho para irem jantar.

Um cara que escreve vai, ao mesmo texto, fazer você rir, chorar, sorrir e querer abraçá-lo como se ele fosse dez centímetros mais alto, dez quilos mais magro e tivesse mais dois dígitos na conta bancária. Positivos. Namorar um cara que escreve é namorar alguém autoconfiante, que sabe que a pena é muito mais forte que a espada, ainda que a pena dele responda pelo nome de teclado. Namore um cara que ficará orgulhoso ao ser comparado com o Veríssimo ou ao Pessoa, e não se comparado ao Vitor Belfort ou ao Rodrigo Santoro. (Ok, o Santoro é covardia).

Namorar um cara que escreve significa ter um namorado que, ao te descrever, vai fazer você se achar a própria Angelina Jolie, e suas amigas, ao lerem, vão achar que ele descreveu alguma princesa de contos de fadas. Por falar em amigas, namorar um cara que escreve é matar suas amigas de inveja dos seus textos lindos, das suas cartas emocionantes e engraçadas. Namore um cara que escreve e garanta textos engraçados para quando você estiver triste, textos amorosos para quando estiver carente e cartas inesperadas durante um dia de trabalho rotineiro.

Namore um cara que escreve e massageie seu ego vendo outras mulheres dizerem que adorariam que os namorados delas escrevessem assim. Namorando um cara que escreve você não vai entender como suas amigas conseguem namorar engenheiros, médicos e analistas de sistemas, nem como elas conseguem achar bonitas aquelas frases copiadas de algum “As cem melhores frases de amor de todos os tempos”.

E por fim, namorar um cara que escreve é namorar um cara descolado, que sabe que “namorar um cara que escreve” não é a forma correta, e sim “namore um cara que escreva”, mas, mesmo assim, ele acha que do primeiro jeito fica muito mais bonitinho e descolado.

Obs. do dono do blog: Este post é a prova definitiva da grande sabedoria de Elena Romanov.

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Andreas Staier interpreta Muffat

Espantosas: obra e interpretação!

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Seu Hélio: Que missa de um ano de falecimento que nada!

Depois, quando eu digo que meus amigos são os melhores… Em termos de festas originais, tive uma no sábado que concorre com a do aniversário de Igor Natusch e a da célebre master class de Bernardo Ribeiro.

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Tratava-se da inauguração da despensa da casa da Astrid Müller e do Augusto Maurer, sucedâneo da tradicional Missa de um ano de falecimento. A homenagem seria para os pais do Augusto, Carmen e Hélio Maurer, principalmente para o Seu Hélio, que parecia não poder viver sem uma despensa, como está explicado no novo mural da entrada da despensa.

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Abaixo desta introdução, está um texto deste que vos escreve, amigo da família a obscenos e felizes 30 anos.

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Pois vocês acreditam que eu não tirei fotos da parte interna da despensa? Pois é, nem tudo é perfeito. Depois, nós tivemos o jantar in memoriam, que contou apenas com amigos da Carmen e do Hélio, fazendo com que eu me sentisse um garoto. Infelizmente, a Elena não pode comparecer, mas eu fiz uma fotinho com a capa do cardápio e a a fichinha dos nossos lugares na mesa.

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No cardápio, tudo o que o Hélio gostava.

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Sem palavras ante esta obra-prima

E a capa do vinil do Chico mudou…

Chico Buarque Uruguai Brasil

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Daniel Defoe, o grande cronista da Londres do século XVII

Publicado em 21 de abril de 2013 no Sul21.

Imagem anônima criada durante a Grande Peste de 1665

A chamada Grande Peste de Londres (1665-1666) foi uma epidemia que vitimou entre 75.000 e 100.000 pessoas, ou seja, um quinto da população da cidade. Um Diário do Ano da Peste (A Journal of the Plague Year) é um livro muito enganador escrito por Daniel Defoe (1660-1731), escritor e jornalista que completa mais um aniversário de morte neste domingo, 21 de abril. Até Gabriel García Márquez, que não é exatamente um tolo, quando se encantou pela obra, caiu no conto de que era uma reportagem da lavra do grande jornalista que o inglês também era. Sua perspectiva alterou-se muito ao ser informado de que Defoe tinha entre quatro e cinco anos de idade quando ocorreu a peste bubônica londrina. O autor descreve a peste como um repórter gonzo que, espicaçado pela curiosidade, vive de rua em rua cada drama, apesar do receio de contrair a doença. Como Defoe conversa com famílias que contam seus dramas em detalhes, é óbvio que se trata de um relato parcialmente ficcional. Defoe também era um ficcionista de mão cheia e estilo bastante original: num ambiente em que os escritores eram cheios de floreios e de citações à mitologia, ele era o escritor simples e direto que criara o livro mais mais vendido da Inglaterra três anos antes: Robinson Crusoe.

Os locais onde os mortos eram queimados

No livro, todo o esforço é para que o contato com os doentes seja minimizado a fim de que fosse evitada a transmissão da peste. Casas eram fechadas com doentes dentro. Também eram tomados cuidados extremos com a água. A angústia do leitor moderno aumenta muito ao saber que tudo aquilo era em vão. Os contemporâneos do escritor ignoravam como a peste bubônica era disseminada: a doença contaminava os ratos, as pulgas sugavam sangue contendo bacilos e as mesmas atacavam homens, inoculando-os. A contaminação dava-se de rato para homem através da pulga. O incrível é que Defoe faz referências aos grande número de ratos, mas não chega a apontá-los como um potencial problema. Os sintomas eram dor de cabeça, frio, dores nas costas, pulso e respiração aceleradas, febre alta e grande inquietação. Em 70% dos casos, a morte acontecia entre três e quatro dias.

Daniel Defoe (1660-1731)

Daniel Foe, de pseudônimo um pouco mais nobre – Daniel Defoe –, foi o autor, dentre outros, de três livros extraordinários: além de Um Diário do Ano da Peste e do conhecidíssimo Robinson Crusoe, Defoe foi o autor do igualmente clássico Moll Flanders, outro exemplo de romance realista “com interesses práticos e imediatos, não clássicos e remotos”, como escreveu Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânia). Com efeito, sua formação foi o jornalismo. Pode-se dizer que a primeira versão de Defoe foi a do jornalista combativo e posicionado. A segunda foi ainda jornalística: ele percorreu seu país em busca de relatos rápidos, curiosos e despretensiosos. Será que eram todos ficção? A pergunta se justifica. Afinal, às vezes, Defoe trazia entrevistas surpreendentes com criminosos à beira do patíbulo. Ninguém testemunhou nenhuma delas, mas tais “confissões” ainda quentes, presumivelmente saídas da boca do inferno, faziam enorme sucesso.

Aos 43 anos de idade, na época da Rainha Ana, Defoe — um dissenter, nome dado aos protestantes ingleses não anglicanos — passou a atacá-la em razão de ela ser anglicana. O escritor acabou preso e condenado à exposição no pelourinho. Voltou a liberdade mas, dez anos depois, voltou ao cárcere em razão de outros panfletos contrários ao governo. Cansado das lutas, quando já tinha mais de 60 anos, veio a terceira versão e ele passou a dedicar-se exclusivamente ao romance. Mas mesmo o romancista não abria mão do jornalista. O estilo de Defoe é direto e abre mão de floreios e das demonstrações de erudição e outros que tais, tão apreciados por seus colegas. Ele sempre utilizou o verídico e o crível como apoio.

Capa do DVD de uma das versões de Robinson Crusoe: capa de gosto duvidoso

Em 1719, ele publicou Robinson Crusoe. Naquela primavera, esgotaram-se quatro edições do livro, revelando-se um excelente negócio para Defoe, que o considerava uma mercadoria, uma ficção popular, algo que dava mais lucro que o jornalismo. A história é conhecida. O personagem-título é um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical, encontrando índios – alguns deles canibais – e todo o gênero de aventuras pelo caminho. De grande sucesso, o livro recebeu considerações inclusive de Karl Marx, que escreveu que Crusoe não representava aquilo que diziam dele – uns diziam que ele seria uma representação do homem universal, outros da superioridade do homem branco – e sim o homem capitalista em seu momento heroico. A leitura de Marx, assim como as outras citadas podem ser facilmente reconhecidas no livro de Defoe.

Mas seus grandes livros são Moll Flanders e Um Diário do Ano da Peste. Na época de Defoe, os romances tinham títulos enormes. O de Moll Flandres diz quase tudo a respeito:

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120 anos do catalão Joan Miró, o mestre da simplicidade e alegria

Joan Miró (1893-1983)

Publicado em 20 de abril de 2013 no Sul21.

Joan Miró nasceu há 120 anos, no dia 20 de abril de 1893, na cidade de Barcelona. Este catalão costuma ser classificado entre os surrealistas, mas sua simplicidade e alegria parecem alheias àquela escola. Na verdade, Miró foi influenciado por várias correntes. Os cubistas, os dadaístas e os abstracionistas podem ser facilmente identificados em seus trabalhos.

Apesar da insistência de seus pais, Miró não completou os estudos. Após chegar ao esgotamento nervoso no escritório onde trabalhava quando jovem, seus pais aprovaram que entrasse numa escola de arte em Barcelona. Tinha 19 anos. De 1912 a 1914, estudou com Francisco Galí, que o apresentou às escolas de arte moderna de Paris, transmitindo-lhe sua paixão pelos afrescos de influência bizantina das igrejas da Catalunha e o introduzindo-o à fantástica arquitetura de Antonio Gaudí.

Entre os anos de 1915 a 1919, Miró trabalhou em Montroig, próximo a Barcelona, e em Maiorca, onde pintou paisagens, retratos e nus. Depois, passou a alternar Paris e Montroig. De 1925 a 1928, influenciado pelo dadaísmo, pelo surrealismo e principalmente por Paul Klee, pintou cenas oníricas e paisagens imaginárias.

No fim da sua vida, Miró simplificou sua pintura, reduzindo-a a pontos, linhas e passando a usar basicamente o branco e o preto.

Na década de 1930, fez cenários para balés, e seus quadros passaram a ser expostos regularmente em galerias francesas e americanas. As tapeçarias que realizou em 1934 despertaram seu interesse pela arte monumental e mural. Estava em Paris em meados da década, quando explodiu a guerra civil espanhola, cujos horrores influenciaram sua produção artística desse período.

Apesar da alta qualidade de sua obra, Miró é bastante desigual. Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe extremo cuidado, e esse contraste também aparece em suas esculturas. Às vezes, o artista procurava mostrar a realidade de uma forma simplificada, quase infantil, simbólica, sem a complexidade e o mistério do surrealismo; outras vezes tomava caminho inverso.

Miró foi célebre em vida. Expôs seus trabalhos, inclusive as ilustrações feitas para livros, em vários países. Parece haver consenso de que sua mais importante obra é “Números e constelações em Amor com uma Mulher”.

Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra. Joan Miró morreu em Palma de Maiorca, Espanha, em 25 de dezembro de 1983.

Abaixo, algumas de suas principais obras:

Com informações do site http://www.arteducacao.pro.br/

Números e constelações em amor com uma mulher (1941)

Maternidade (1924)

O voo da libélula sobre o sol (1968)

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20 anos da morte de meu pai

Hoje faz 20 anos que meu pai morreu. Estou afastado das fotos de família, tudo a que tenho acesso está num disco externo que tenho aqui comigo e que possui o conteúdo do HD de minha ex-casa. Mas lá tenho uma mala e uma frasqueira — sim, isso mesmo — com muitas fotos não digitalizadas, em papel, e hoje me deu vontade de fuçar naquilo. Mas é só simples desejo, passa. Há pouco, conversando com a Elena na cozinha, notei que leio livros como ele o fazia com seus jornais, marcando as linhas com um caneta. Como alguém consegue ler sem uma caneta, hein? Os jornais do Dr. Milton… Aprendi a ler no colo dele, pela manhã, enquanto tomávamos café com o Correio do Povo. Claro que a primeira palavra que li foi a do nome do jornal do Dr. Breno Caldas. Mas sua maior herança, aquela que grudou em mim, foi mesmo a música. Ele passava as noites ouvindo seus discos em uma louca sequência. Sempre misturava erudito e popular, Pixinguinha e Beethoven, Chopin e Chico Buarque, chorinho e tango, mazurca e polca, em sucessões que nunca me perturbaram, pois nasci com elas.

Meu filho Bernardo, eu e meu pai. Ele se chamava Milton Cardoso Ribeiro; eu, Milton Luiz Cunha Ribeiro

Meu filho Bernardo, eu e meu pai em meados de 93. Ele se chamava Milton Cardoso Ribeiro; eu, como alguns sabem, sou Milton Luiz Cunha Ribeiro.

Ele reclamava que eu o fizera voltar ao futebol. Ele me fez colorado, mas logo eu passei a amar o futebol muito mais do que ele, passei a amá-lo como ele amava o turfe. E nós, eu e o Sylvio, marido de minha irmã — fizemos com que ele voltasse aos estádios de forma tão cabal que ele assistiu a final do Brasileiro de 1975 e eu não, pois estava estudando para o vestibular. Acho que eu não precisava me punir daquela forma — passei fácil no exame, glória juvenil — mas ele me contou que, quando Figueroa fez o gol que nos deu o título, ele se sentou com as mãos na cabeça na arquibancada do Beira-Rio, enquanto todos comemoravam, culpando-me por tê-lo tornado aquele fanático que quase morreria com cada chute de Nelinho — e defesa de Manga — nos minutos seguintes.

Talvez pela identificação, ambos homens e pais, penso muito no Dr. Milton. Acho que ele gostava mais de minha irmã do que de mim, assim como minha irmã escolhia minha mãe e esta a mim, que preferia meu pai. Nunca tinha pensado nisso! Será que era mesmo assim? Vamos organizar: Dr. Milton que amava Iracema que amava Maria Luiza que amava Milton (eu) que amava o Dr. Milton? Na verdade, acho que nós todos nos adorávamos, mas penso que as afinidades eletivas eram as que citei. Ou não? Tenho que consultar minha irmã a respeito.

schubert abbado sinfonia #9E, bem, o dia 11 de dezembro de 1993 foi o mais triste que vivi até hoje. No dia 10, à noite, tínhamos nos encontrado no Zaffari da Ipiranga. Ele comentou uns discos que comprara, dentre eles uma gravação da Nona Sinfonia de Schubert, a Grande, sob a regência do Abbado. Estava animado, feliz. Na manhã seguinte, às 6 horas de um sábado, minha mãe me ligou dizendo que ele estava caído no banheiro. Um ataque cardíaco fulminante, um velório num fim-de-semana, lotadíssimo. Fiquei inconsolável, mas nada ficou de mais terrível do que o último beijo que lhe dei. Aquilo me estragou para sempre. Ele estava frio, totalmente esquecido dele, de mim, de Schubert e do gol de Figueroa.

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