Adaptações

CorridorComo quase sempre acontecia, naquele fim-de-semana ela ficara sozinha em casa. Porém, durante a manhã de domingo, ouviu baterem violentamente a porta. Quem chegara tinha ignorado a campainha, percutindo a madeira com toda a força. Era uma batida que não admitia dúvidas, quem estava lá fora queria entrar ou fazer uma reclamação, no mínimo. Quem seria? O que ela teria feito? Ela — que assistia na TV a um filme inglês em que rei e rainha seriam decapitados dali a minutos — saiu correndo da cama, enquanto vestia um chambre. Foi até a porta e olhou pelo olho mágico. Viu um desconhecido no corredor. Decidiu não abrir, claro. O homem bateu novamente. Ela teve medo de que a porta cedesse. Taquicárdica, mas procurando manter a respiração inaudível para quem estivesse do outro lado, observou melhor o rosto de quem batia. Não, não conhecia. Em seguida, viu-o sair da entrada de seu apartamento e fazer o mesmo em outra porta. Aquilo a apavorou. Tanto fazia, o homem desejava entrar em qualquer apartamento. Ficou mais assustada ainda quando ele passou a correr de uma porta a outra, tentando arrombá-las. Ele tomava distância e arremessava-se contra as portas, sempre sem sucesso. O som de seus gritos e o das portas dobrando-se era-lhe aterrador.

Repentinamente, o homem voltou-se para sua porta e gritou:

— Tô vendo a tua sombra. Abre a porta, porra!

Ela se afastou do olho mágico e voltou trêmula ao quarto. Fez cara de choro quando ouviu o homem atirar-se contra sua porta. Cada vez mais amedrontada, começou a chorar enquanto via vagamente na TV a jovem rainha, vivida por Helena Bonham-Carter, ser destituída por uma bruxa velha chamada Mary. Ela não se deu conta de destituição nenhuma, estava em pânico. Ligou para o 190 e o policial atendeu:

— Brigada Militar, bom dia.

— Há um homem dentro do meu edifício que quer entrar a todo custo em qualquer apartamento. Ele está se atirando contra todas as portas, tentando arrombar alguma, mas acho que ou todos estão escondidos com medo ou estou sozinha no prédio.

Enquanto falava, ouvira várias vezes o homem explodir contra a porta. Ia acabar entrando, ela precisava imediatamente de socorro. Foi quando ouviu o homem gritar

— quero algo para comer, estou com fome!

Ela foi para perto da porta a fim de ouvi-lo melhor e notou que ele falava mais baixo.

— Eu só quero um pouco d`água e um pão. Não me deram nada hoje, não consegui nem na porta da igreja. Eu posso ficar no meio do corredor, o senhor confere olhando pelo buraco da porta. Então, o senhor, se tiver alguma comida e água, abra a porta, por favor, deixe a coisa do lado de fora e eu só me aproximo para comer quando o senhor fechar a porta. Pode ser?

O homem expressava-se com clareza. Ela, ainda trêmula, voltou ao olho mágico. Ele estava a meia distância e viu sua sombra. E disse

– olha, eu dou mais três passos para trás.

Ela foi à cozinha e, momentos depois, ouviu uma leve batida na porta. O homem falava, agora em voz alta.

— O senhor foi na cozinha buscar alguma coisa para eu comer, né? Por favor, eu preciso.

A voz agora era branda, educada, quase sedutora. Ele disse que não era perigoso, que estava fazendo barulho só para chamar atenção, que tinha ficado desesperado quando pensou que não tinha ninguém em todo o edifício que pudesse remediar-lhe a fome. Ela foi até a porta e perguntou:

— O senhor gosta de manteiga com ou sem sal?

— Meu nome é Francisco, pode me chamar de Chico. Como o pão como a senhora quiser.

— E o café? Preto ou com leite?

— Com leite, por favor.

— Açúcar ou adoçante?

— Açúcar, por favor, dona.

Ela foi até a cozinha. Na passagem, viu Helena ser decapitada. Decidiu que aquilo não era um sinal e que tentaria dar o café da manhã a Francisco, desde que ele permanecesse à distância quando ela abrisse a porta. Preparou lentamente o café. Aqueceu a xícara no microondas. Com dificuldades, abriu o pão congelado com a faca e cortou alguns tabletes de manteiga, colocando-os lado a lado dentro do pão. Trocou o café com leite do forno pelo pão; sabia que, em 20 segundos, o pão cacetinho ficaria no ponto, com a manteiga desmanchando-se por toda sua extensão. Decorrido metade do tempo, retirou o pão para incluir presunto e queijo.

Voltou à porta, deixou a bandeja no chão e pediu para que Francisco recuasse. Através do olho mágico, viu-o ir até o meio do corredor. Em resposta, ela destrancou a porta; voltou a observar a posição do homem e falou em voz alta:

— Vou abrir agora.

— Por favor — ele respondeu.

Ela abriu a porta alguns centímetros e empurrou cuidadosamente a bandeja com o pé, sem deixar nunca de olhar para o homem. Ele ficou parado, alertando-a de que não faria nenhum movimento brusco; então perguntou se ela estava sozinha em casa.

— Sim, eu moro sozinha.

— A senhora é corajosa. Obrigado.

— De nada.

— Já morou com alguém?

— Não vem ao caso.

Ele se calou e ela recuou, fechando a porta. Francisco enfim avançou, sentou-se com as costas apoiadas na porta e começou comer o pão, empurrando-o com o café. Do outro lado da porta, ela ouvia sua respiração. Preocupou-a a rapidez com que ele comia e bebia. Devia ser uma fome de dias. Ela se sentou no chão,   com as costas na porta, ficando separada dele por apenas três centímetros. Ouviu a si mesma sussurrar.

— Quer entrar?

— Como? — respondeu ele.

— Quer entrar, tomar um banho, almoçar mais tarde, algo assim?

— Sim, quero.

Ela sabia a loucura que estava cometendo. Via na TV. Sabia de crimes, estupros, violência e também que tinha recém ligado para o 190, mas cometeria a insânia. Levantou-se e abriu a porta. O homem aguardava com a bandeja na mão. Entregou-lhe e entrou, olhando para os lados. Parado no meio da pequena sala, viu um sofá todo puído; acima dele, montes de fotos presas com percevejos num mural de cortiça; no quarto, ao fundo, um colchão com lençóis amarfanhados e o som da televisão. Viu a mulher sair do quarto trazendo uma toalha de banho e algumas roupas de homem, visivelmente velhas e fora de moda; recebeu a camiseta preta com a estampa de Syd Barrett — que parecia um sino de tão usada e notou à esquerda uma estante de livros construída de ripas de madeira apoiadas em tijolos. Ela falou:

— Acho que tu gostaria de tomar um banho antes do almoço.

— Obrigado, muito agradecido.

Ele entrou no banheiro. Ela correu ao telefone para dizer à polícia que não precisava mais vir, que o homem tinha saído do edifício. Sentada no sofá, ela o esperou. Francisco saiu e, com roupas imensamente mais largas que ele, sentou-se sobre um mocho de madeira, afastado dela alguns metros. Perguntou se poderia ficar com aquelas roupas, afinal, tudo o que ele tinha fora vendido. Ela pensou logo em drogas, sentiu um calafrio e respondeu desajeitadamente que aquelas roupas eram dele.

Almoçaram gentil e tranquilamente, com toda a civilidade. Ela disse que era jornalista, que tinha 43 anos; ele contou que era um estudante de medicina — ela ficou estupefata — que há um ano trancara sua matrícula no oitavo semestre. Morava na garagem da casa de sua mãe. Falou que a garagem só tinha saída para fora, pois seus irmãos não gostavam que ele fosse fazer rapina na casa. Ela ouvia tudo aquilo enquanto pensava em como gostaria de ser abraçada por ele.

— A senhora quer que eu saia agora, certo?

— Sim, claro.

— Não tem mais nada que eu possa levar? Algo estragado ou fora de uso?

— Não, não tenho dinheiro.

Ele perguntou se podia levar mesmo as roupas, foi ao banheiro pegar as suas e, com elas na mão, despediu-se com um sorriso. Dez minutos depois, ela lavava a louça, porém logo interrompeu o trabalho para sair à rua. Deu várias voltas pelas quadras próximas, procurando pelo rapaz. Depois, de volta ao quarto, teve uma crise de choro.

7 comments / Add your comment below

    1. Gostei muito da virada no foco narrativo quando o sujeito entra no apartamento. Só então, vendo pelos olhos dele, o leitor poderá conhecer mais e de modo concreto a solidão dela, através dos objetos que são descritos no apartamento. É aí que um passo importante do encanto do conto acontece.

  1. Milton,
    seu conto,
    que já
    conhecia,
    levou-me
    ao poema…
    *
    *
    CANTINHO
    by ramiro conceição
    *
    *
    O cantinho bonito da alma
    é onde sempre bate o Sol.
    *
    Às vezes é um mar gentil.
    Em outras um simples rio.
    *
    Às vezes é uma praça florescida.
    Em outras… um beco sem saída.

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