Luciana e o hedonismo

Sexta-feira à noite. Finalmente chegara o dia que Luciana temia: aquele no qual, depois de meses desempregada, deixaria de pagar suas contas. Na sua frente, sobre a mesa da sala, estavam o aluguel, a luz, a água, algumas faturas de cartões de crédito e outras assombrações. Viu que sua conta bancária estava quase chegando ao limite do cheque especial – faltavam apenas R$ 15,59 para encostar lá -, e decidiu que segunda-feira trataria de entrar em contato com seus futuros credores para evitar o que pudesse ser evitado, sabe-se lá como.

Acordou no sábado ainda com os documentos sobre a mesa. Seu desalento era completo. Precisava de um dinheiro qualquer e procurou na agenda do celular algum amigo que pudesse emprestar-lhe o necessário para a comida e o gás de cozinha. Ligar para sua mãe estava fora de cogitação. Enquanto passava por nomes de conhecidos, viu, num cantinho, sob a papelada remexida no dia anterior, um cartão. Pegou-o. Era um cartão de crédito recebido meses atrás, quando ela ainda tinha emprego. Um desses que a gente recebe sem pedir, pelo correio. Revirou-o de um lado para outro. Digitou no celular o número do desbloqueio. A ligação era gratuita. Recitou seus dados para a atendente e ocorreu o milagre. Nascia a possibilidade de gastar mais R$ 4.000,00.

Foi ao supermercado e pôs no carrinho boas quantidades dos produtos de consumo básico. Leite em pó, arroz, feijão, frango para congelar, sabonete, detergente, pasta de dentes e o último chocolate, uma extravagante caixa de Bis ao custo de R$ 3,97. Eram estes seus víveres para a guerra que tinha pela frente. Caminhou em direção ao caixa e pagou R$ 346,32 com o novo cartão. Funcionou! Foi auxiliada por um funcionário do supermercado no transporte das compras, mas antes avisou que não tinha dinheiro para gorjeta.

– Não tem problema, moça. Eu levo assim mesmo.

No caminho, pensou naquele blogueiro que tinha a mania de estampar belas mulheres todos os sábados. Para ele o sábado devia ser uma festa, é o dia em que ele pode enfim gastar os milhares de reais ganhos em uma semana de trabalho. Deve ser rico, o filha da puta. Rico e machista. Só como vingança, eu deveria publicar fotos de homens no meu blog, para mostrar que também tenho desejos. E grandes desejos – de uns 15 cm, no mínimo – e pesados – de 70 Kg para cima. Merda. Vou ver quem ele colocou hoje.

Chegando em casa, não resistiu a dar R$ 2,00 ao menino, guardou as compras e sentou-se frente ao computador. Tenho que vender esta porcaria antiquada, refletiu. Olhou o blog do infeliz e viu várias fotos de uma peituda. Credo, como os homens são patéticos, mas bem que eu gostaria de um que tivesse um emprego. Decidiu não deixar comentários no post, o Milton que se fodesse.

Saiu a caminhar pela rua pensando no que fazer com o cartão e em como arranjar logo emprego e companhia. Mais víveres? Talvez. Achou que o cartão poderia ajudar também na companhia. Iria ao bar do Beto naquela noite; suas amigas diziam que qualquer mulher saía de lá casada, se quisesse. Deixaria todos os pruridos de lado, podia ser um velho grisalho, carente e impotente que ela agarraria do mesmo jeito. Passou por seu antigo colégio e pela igreja que frequentara na infância. Subiu a longa escadaria da Igreja das Dores e entrou, buscando tranquilidade e inspiração. Fazia anos que não entrava numa e achou cômica uma velhinha de preto ajoelhada no confessionário. Que pecados poderia estar expiando? Provavelmente tinha envenenado o gato da vizinha.

Sentou-se e bocejou longamente. Viu a velhinha levantar-se e, para pasmo próprio, levantou-se e ajoelhou-se no confessionário.

– Bom dia, padre.

– Bom dia, minha filha.

– Padre, eu preciso de uma solução urgente para minha vida. Estou desempregada e caindo em desespero.

– Como é seu nome?

– Luciana, mas me chame de Lu.

– Lu, pense em Cristo que morreu por nós…

– Padre, por favor.

– Sim?

– Sou uma mulher adulta, não vou perder meu tempo com carolices e preces. Quero conversar.

O padre silenciou por instantes. Então ela o ouviu dizer:

– Vamos conversar, então.

– Quero uma opinião pessoal.

– Vou lhe dar a opinião pessoal de um padre, de um religioso, de alguém que dedicou até hoje sua vida ao Criador.

– Que seja.

– …

– Bom, acabo de decidir que vou utilizar um cartão de crédito apenas em atividades que me levem ao prazer. Acho que o prazer de ir à bares poderá me levar ao prazer de obter companhia masculina e isto pode significar, se eu for competente e legal com o cara, financiamento da minha comida, ao menos. Além disso, se eu gastar um pouquinho… ou melhor, esqueça… Não, é que acredito que o prazer de comprar algumas roupas poderá me levar a ter uma melhor apresentação e me auxiliará a encontrar um emprego. E um homem, quem sabe.

– Um hedonismo útil?

– Sim, é uma boa definição, padre.

– Lu, o hedonismo pode consistir em prazer sensorial imediato ou em prazer moral. Epicuro, por exemplo, não liga a idéia de hedonismo ao prazer imediato e fugaz. Este, o hedonismo sensorial, seria inferior; o espiritual é inequivocamente superior. Esta é uma das razões pela qual abracei a religião.

Seguiu-se um longo silêncio que foi quebrado pelo padre.

– E o verdadeiro hedonismo só existe se houver sofrimento.

– Como?

– O prazer se tornaria chato e até o evitaríamos se fosse seguido sempre de mais prazer.

– Ah, padre, não sei não. Se o Sr. soubesse da minha pindaíba não diria isso!

– Se você não conhecesse a pindaíba, se conhecesse apenas a segurança, talvez te tornasses desinteressada e entediada, que são outras desgraças a serem evitadas. Talvez inventasses problemas e deixarias tua segurança, digo, teu dinheiro, no psiquiatra, como tantos fazem.

– Para com isso, meu! Queres dizer que a segurança é tão ruim quanto a insegurança? Esse papo só serve para o conservadorismo da igreja.

– Não, Lu. Eu só estou te explicando…

– Que a felicidade não existe?

– Preste atenção, veja minha missão: aqui onde estou, neste confessionário, há tanto a necessidade do Mal quanto do Bem. O pecado é tão dialeticamente necessário quanto os bons atos.

– O Sr. quer dizer que o hedonismo, para ser hedonismo, precisa do sofrimento para justificar-se, como um contraste para que o hedonismo possa ser hedonismo?

– Certamente.

– O hedonismo não teria a menor graça se não fosse seguido de desprazeres ou de algo menor? Ou pior?

– Muito pior, Lu. Senão não teria graça.

– O Sr. é padre mesmo ou invadiu a casinha aí?

– Sou padre sim. Mas acredito em dialética. O que há de errado nisso?

– Não sei. É que o Sr. abandonou a bobajada católica com tanta facilidade….

– Não diga isso, Lu.

– … que mais parece um livre-pensador.

– Nenhum de nós é livre-pensador, Lu. Isso não existe, nenhum de nós é independente, só a indiferença é livre, todos temos compromissos. Aliás, outrora, eu mesmo contava uma piada sobre esse tema. É curta: “O mais feliz dos subordinados na Terra é o Papa de Roma, porque todos os dias pode contemplar seu chefe crucificado!”.

Lu deu uma gargalhada que ecoou na igreja. O padre não gostou.

– Lu, que desrespeito!

– O quê, minha risada?

– Claro.

– Culpa sua. Não devia contar piadas, só abençoar e mandar rezar.

– Não era isso o que você queria.

Novo silêncio, desta vez quebrado por Luciana.

– O que devo fazer com meu cartão?

– Não posso entrar na sua vida privada.

– Como não? É o que a igreja faz sempre! Se eu lhe perguntasse se deveria transar com uma amiga o Sr. teria resposta. Por que não pode falar sobre o cartão?

– Luciana, Luciana. Não vou te explicar os conceitos fundamentais da religião católica.

Após dizer isto ele riu, como se estivesse deliciando-se previamente com o que iria dizer. Porém, Luciana ouviu um simples

– corrijo dizendo que não devo entrar em tua vida econômica.

– Karl Marx disse que a economia está em tudo. E está.

– Deus está em tudo, Lu.

– …

– Tudo bem. Dialeticamente, já expiaste tua dor analisando tuas contas e tuas terríveis perspectivas. Não foi uma anedonia, que é o contrário perfeito do hedonismo, formando uma unidade dialética com ele, mas, enfim… dou-te uma penitência inversa. Beba, dance e compre belas roupas. Só não diga que um padre te aconselhou a isso.

– E o Sr. me abençoa? O Sr. reza para que a anedonia não me invada?

– Claro, minha filha. Rezarei também para que um dia você respeite e receba os prazeres morais em tua vida.

– Mas o hedonismo moral não oferece ganhos econômicos, padre.

– Talvez sim, secundariamente.

– É, pode ser.

– Agora vá, rezarei por ti.

– Tá bom, padre. Obrigado.

– Mais uma coisa. Por que a igreja oferece este serviço?

– Porque tanto o pecado quanto a virtude nascem de ideias e o habitat das ideias é o diálogo, é onde se transformam e são testadas. Nós, confessores, não fazemos nada. És tu quem – ouvindo tua própria ideia,  vinda de tua própria voz – faz a correção e a punição.

– Chega, padre. Muita filosofia prum sábado de sol.

igreja das dores

Luciana ficou sentada nos degraus de Igreja Nossa Senhora das Dores por mais de uma hora. Olhava a rua que se descortinava à sua frente com o Guaíba ao fundo e os passantes na Rua dos Andradas. Refletia com o cotovelo no joelho e a mão no queixo. O que faço? De repente, ouviu sons de passos atrás de si, voltou-se e viu um padre descer lentamente as escadas, passar por ela e ir em direção à rua. Seria o padre dialético? Fez uma aposta consigo: se ele dobrasse à esquerda, hedonismo; se à direita, víveres para a guerra.

O padre atravessou a rua e seguiu em linha reta.

Luciana levantou-se e finalmente decidiu: víveres para a guerra, mas hoje, hedonismo! E ligou a cobrar para seu amigo Doni, o escolhido para sua primeira abordagem hedonista. Ele seria a vítima.

6 comments / Add your comment below

  1. A linha do meio… , mesotes, Aristóteles! Consultando a Ética a Nicômacos encontro “Com efeito, a excelência moral se relaciona com o prazer o o sofrimento; é por causa do prazer que praticamos más ações, e é por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobilitantes”. Ao contrário de Rousseau, do homem bom por natureza, acho que estamos impregnados ou atolados no mal.

  2. Milton, conto magistral… Parabéns. Quantas Lucianas e Lucianos conhecemos?… Quantos deles, ou delas, são/foram nós mesmos?… Sabe de uma a coisa, Milton, desejaria que a Luciana e o Doni, pela primeira vez, estivessem diante da INOCÊNCIA provável à existência efetiva do Amor… Sim, Esse que aparece e desaparece entre silêncio das estrelas…
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    CINCO POEMAS
    by ramiro conceição
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    Certa feita, li uma coletânea dos 100 maiores poemas do mundo. Antes de cada escrito, aparecia um aforismo do escritor homenageado. Dos muitos, ficou-me um que dizia: qualquer poeta deveria considerar-se recompensado se em sua existência concebesse cinco poemas indispensáveis.

    Mas… O que é um poema indispensável? Perguntinha difícil, pois o que é imperativo hoje, amanhã poderá ser insubstancial. Consequentemente, não há respostas peremptórias que, paradoxalmente, é uma afirmação categórica.

    Labirintos… Labirintos… Labirintos… Essa é a saga do artista, do escritor e do cientista: para cada alegria aqui, há outras tristezas acolá; para cada certeza bem-vinda, há dez incertezas macabras; para cada amor que começa, outro finda. Labirintos… Labirintos… Labirintos… Sempre labirintos.
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    SONHO DE UM CADÁVER
    by ramiro conceição
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    Quando teu olhar vestiu-me, soube
    que não poderia mais… despir-me.
    Foi qual um mar a batizar-me,
    a dar-me um verdadeiro nome.
    Agora padeço de uma sina:
    te perder na curva de uma esquina
    e tornar-me o sonho de um cadáver
    que dorme… quando a alma some.

      1. ELÍPTICO
        by ramiro conceição
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        Que instante é esse
        onde um maduro olhar de amor
        alumia… por inteiro…o escuro?

        Com matemática e fantasia,
        estou a aprender uma astronomia
        que explica o porquê que, elíptico,
        o meu olhar gira em torno do seu.

        Então me beija, amor, enquanto é
        tempo dos efêmeros crisântemos
        pois, depois, tudo é incerto,
        longo………………..e lento.

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