A culpa é do Boff

A culpa é do Boff

Domingo, publiquei no Sul21 aquele texto — agora famoso — chamado Je ne suis pas Charlie. Como quase todo mundo, pensava que o autor fosse Leonardo Boff. Resultado: passei boa parte do domingo apanhando nos comentários do site. Era uma chuva de merda sobre minha cabeça. Logo descobri que os leitores atentos do site mais querido do RS tinham razão. Fui ao blog de Boff e ele já estava se desculpando, pois cometera o equívoco de publicar a coisa sem dar o nome do autor. Acontece com todo mundo.

Mas a internet já decidiu de forma injusta: o texto não é de Rafo (Rafael) Saldaña, é de Leonardo Boff. Só que não.

Quanto a meu erro, gente, a culpa é do Boff. Até recebi este presente do Latuff.

A culpa e do Boff

A primeira fase da reforma da CCMQ está efetivamente terminada?

A primeira fase da reforma da CCMQ está efetivamente terminada?

Em 20 de dezembro de 2013, a Casa de Cultura Mario Quintana estava assim:

Foto:
Foto: http://www.cultura.rs.gov.br/

Hoje, após as obras de restauro da fachada, quanta diferença!

ccmq 2015 01 08

Informações da própria CCMQ dão conta de que a primeira fase do restauro — fachada, esquadrias, aberturas e telhado — estaria finalizada. A próxima fase será dedicada à acessibilidade e sinalização. Mas… O telhado está realmente finalizado?

Porque hoje é sábado, Tina Casciani

Porque hoje é sábado, Tina Casciani

Chove muito sobre Porto Alegre; então, decidimos retornar a nosso mantra dos sábados.

previsao do tempo

Fazia tempo que não tínhamos nossa festejada coluna conhecida como PHES.

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Hoje reaparecemos com esta bela magrelinha estadunidense,

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a — para variar — atriz e modelo Tina Casciani.

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Eu não sei nada a respeito dela e não vou pesquisar.

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Meus sete leitores (creio) não estão interessados nem nas informações biográficas,

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nem na trajetória da moça, a qual desejamos que seja uma boa atriz.

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As trajetórias que os interessam são, literalmente, as linhas mostradas no monitor plano

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que os fazem imaginar como tudo seria em três dimensões.

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A leitura de tais linhas, conforme o dia de meu leitor,

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pode transformar a compreensão em drama, romance, comédia ou amor.

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Ou quem sabe ele usa as linhas para buscar as entrelinhas, onde se lê

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o que não está escrito, o que ficou por dizer, o silêncio?

Da recusa à complexidade

Da recusa à complexidade

Quando disse que não trabalharia para a Charlie Hebdo, Carlos Latuff estava apenas sendo coerente consigo, coisa que nem todos apreciam. Ele, assim como eu, é ateu, não antiteísta. A Charlie Hebdo é antiteísta, o que não justifica, obviamente, qualquer agressão a ela. Acho que há profundas e milenares questões culturais a serem respeitadas antes de serem combatidas sem maiores cuidados. Mas a maioria dos leitores são desatentos e incompreensivos. Muitos acham que a menor crítica à Hebdo significa “relativizar o assassinato de jornalistas”. Aliás, muita gente também confunde-se sobre posições políticas de Latuff. Como tenho a honra de ser seu amigo pessoal e de ter jantado e principalmente tomado carradas de cafés com ele — o dele sempre com leite — sei de seus posicionamentos. O cara é anti-sionista, mas não é contra os judeus. E, na raiz de todas as suas opiniões, está a crença de que não há democracia no mundo e de que a humanidade provavelmente acabará antes de ver isso. E, bem, sou tão cético quanto ele e acho que, se ele não duvidasse de tudo, não seria o chargista brilhante e planetário que é. Charge boa é contra, não a favor.

Charlie Hebdo

Aprovo tanto o assassinato do pessoal do Charlie Hebdo quanto aprovo que entrem atirando aqui no Sul21, onde estou neste momento. Por favor, não façam isso. Agora, como disse o César Miranda, os caras do Hebdo não eram tão bons de piada assim. Eram bons para chocar. Não acho engraçado botar a virgem Maria chupando um pau ou Moisés masturbando um porco. Na minha opinião, muito do que circulava no jornal era de mau gosto. O mesmo não vale para o engraçadíssimo A Vida de Brian, do Monty Python, só para dar um exemplo de sátira religiosa de primeira linha.

No mais, quero dizer que sou ateu, que acho o avanço das religiões na política um sinal claro de atraso, que acho que a religião deve se manter no âmbito pessoal, que não gosto que tentem me vender religião e que penso que tais superstições sejam inextirpáveis da humanidade. Um mundo sem religião é uma utopia.

Quando coloquei esta opinião no Facebook, teve gente que me acusou de dizer que “os caras da revista mereceram o atentado”. Se você também achar isso, digo você não é um bom leitor.

E agora, fala sério, você trabalharia na Charlie Hebdo?

hebdo ff

Um local de Porto Alegre: o Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges (fotos)

Um local de Porto Alegre: o Viaduto Otávio Rocha, o viaduto da Borges (fotos)

Publicado em 13 de Julho de 2014 no Sul21

Nubia Silveira e Milton Ribeiro (texto) e Flavia Boni Licht (consultora técnica)

Um dos cartões-postais de Porto Alegre, localizado no cruzamento da Borges de Medeiros com a Duque de Caxias, o exuberante Viaduto Otávio Rocha abriga lojas de discos, lancherias, sebos, ourives, sapataria, barbearia, lanchonetes, floras e artesanato sob seus arcos e escadarias. Não é um simples viaduto para a passagem de carros e pedestres, pois ele possui, em ambos os lados da avenida Borges de Medeiros, amplas escadarias de acesso até o nível do viaduto, sustentadas por grandes arcadas, sob as estão os pequenos estabelecimentos comerciais e instalações sanitárias que citamos.

É um local de visitação obrigatória para quem procura discos raros em nossa cidade.  Ainda no âmbito cultural e ao lado das escadarias, há o lendário Teatro de Arena e teve o Tutti até pouco tempo.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Vitor Murari, do Movimento Amigos do Viaduto, falou ao Sul21 relatando a preocupação do movimento em manter a identidade do local como um ponto de cultura. “Há sempre boatos de que a sistemática que regra a relação dos permissionários com a prefeitura vai mudar, mas atualmente nossa preocupação é mesmo com as infiltrações de umidade”, disse.

“Nós cobramos a manutenção da prefeitura, que é a responsável, mas isso muitas vezes demora”. Vitor trabalha no Espaço Cultural Qorpo Santo, sala 1 do Viaduto, onde comercializa CDs, discos, livros e gibis.

Em 19 de setembro de 2008, uma lei municipal determinou que o espaço público superior do Viaduto Otávio Rocha passasse a ser chamado de “Passeio das Quatro Estações”. Cada uma das quatro escadarias passou a ser identificada por placas com o nome das estações do ano:

— Passeio Verão – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Outono – com início na Rua Jerônimo Coelho e fim na Rua Duque de Caxias, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Inverno – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado direito do Viaduto, no sentido norte-sul,

— Passeio Primavera – com início na Rua Duque de Caxias e fim na Rua Coronel Fernando Machado, lado esquerdo do Viaduto, no sentido norte-sul.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

História

O Viaduto Otávio Rocha foi inaugurado em 1932. As obras começaram em 1926, durante o mandato do intendente Otávio Rocha (1924-1928), apesar de já estarem previstas no Plano Diretor de 1914. A decisão de abrir a Avenida Borges de Medeiros, ligando o Centro à Zona Sul da cidade, e construir o Viaduto foi de Otávio Rocha e do presidente do Estado, Borges de Medeiros. Naquela época, o número de porto-alegrenses não ultrapassava os 200 mil.

O viaduto visto do lado sul l Foto: portoimagem.wordpress.com

O projeto é dos engenheiros Manoel Itaquy e Duílio Bernardi. Os elementos ornamentais foram criados pelo escultor Alfredo Adloff. A estrutura do Viaduto é de concreto armado, sendo que o vão central mede 19,20 m. “Por suas marcantes características arquitetônicas e urbanas, bem como pela sua relevância sócio-cultural, o Viaduto foi tombado como patrimônio de Porto Alegre em 1988”, afirma Flavia.

O ator Paulo José, que ajudou a criar o Teatro de Equipe e em 1961 trocou o Rio Grande do Sul pelos palcos paulistas, lembrou do Viaduto Otávio Rocha, no discurso feito em 1999, ao receber da Câmara Municipal o título de Cidadão Porto-Alegrense:

“A família vinha de Bagé, de carro, era noite, eu cochilava no banco traseiro. Acordei quando entrávamos na Avenida Borges de Medeiros, ao lado da Avenida Praia de Belas, e aí eu vi imponente, monumental, maior do que a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora e a de São Sebastião juntas, mais alto do que a Ponte Seca, mais bonito do que a casa do meu avô, o Viaduto Otávio Rocha. Depois, pela vida afora, vi outros espaços monumentais impressionantes: a Piazza San Marco, Veneza, o Arco do Triunfo, o Coliseu de Roma, o Palácio de Westminster, mas nenhum deles me fez o coração disparar como aquela visão dos meus oito anos. O Viaduto Otávio Rocha foi o meu primeiro alumbramento.”

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Viaduto foi declarado patrimônio em 1988 |Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Lei do patrimônio

O presidente Getúlio Vargas e o ministro da Educação Gustavo Capanema assinaram em 25 de novembro de 1937 o Decreto Lei número 25, que organiza o patrimônio histórico nacional. A legislação define como patrimônio histórico e artístico nacional “o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”. Hoje, o tombamento de bens materiais imóveis (prédios) e móveis (mobiliário, obras de arte e elementos de uma construção como um lustre, por exemplo) e o registro de bens imateriais (festas, processos de criação, como o de rendas) ocorrem em quatro níveis: municipal, estadual, nacional e internacional, por meio da Unesco. Alguns bens têm sua importância reconhecida em todos ou quase todos os níveis. O Theatro São Pedro, de Porto Alegre, é um dos bens imóveis que estão tombados pela EPAHC – Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre, IPHAE – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul e IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Débora Magalhães da Costa, diretora da EPAHC, lembra que “muito antigamente só bens excepcionais, grandes monumentos, eram considerados patrimônio histórico”. Hoje, diz ela, são enquadrados nesta categoria “bens que fazem parte da vida de uma comunidade, que representam uma comunidade, uma etnia”. Para reforçar esta ideia, tanto Débora quanto Ana Beltrani, coordenadora técnica do IPHAN, citam o tombamento de 48 casas de madeira da cidade de Antônio Prado, na Serra Gaúcha, que contam a história da imigração italiana, feito pelo Estado e a União.

O bem tombado, ressalta Eduardo Hahn, diretor do IPHAE, não “pode ser destruído ou descaracterizado”. Isso não significa que não possa sofrer algumas intervenções, quando necessário, desde que aprovadas pelo órgão responsável pelo tombamento. Débora dá um exemplo: a Casa Torelly, reconhecida como patrimônio histórico pela Prefeitura, em 1987, hoje sede da Secretaria Municipal de Cultura, precisou passar por algumas adaptações para o seu uso atual. “Tombamento – ressalta Eduardo – não é desapropriação. É reconhecimento”.

Responsabilidades e vantagens

O proprietário particular de um bem tombado ou registrado é responsável pela sua conservação, manutenção e recuperação. O Estado, porém, é corresponsável. E, segundo a lei, se o proprietário não tem condições de cuidar do patrimônio, ele deve abrir um processo, provando a sua situação financeira. Neste caso, os cuidados ficarão a cargo do governo municipal, estadual ou nacional.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

No caso de ter um imóvel tombado pelo município de Porto Alegre, o proprietário pode escolher entre dois benefícios: solicitar o não pagamento do IPTU ou a transferência do índice potencial construtivo, o que lhe dá o direito de construir em outra parte da cidade o equivalente em metros quadrados que poderia ter construído no local tombado. Neste caso, o imóvel passa para a Prefeitura. Mas, como o município não tem interesse em ficar com os imóveis tombados, a Prefeitura retransmite o prédio para o proprietário por meio de um Termo de Cessão, afirma Débora.

Para as edificações privadas que estão na área de preservação do Programa Monumenta – em Porto Alegre, os arredores das praças da Alfândega e da Matriz — são oferecidos empréstimos a juros baixos para a conservação ou recuperação do local. Eduardo Hahn diz que no caso dos bens tombados pelo Estado, o que os proprietários podem ganhar é a isenção do IPTU, se a prefeitura do município concordar. É o caso dos proprietários das casas de Antônio Prado. O Estado também se propõe a investir por meio de renúncia fiscal, através da LIC – Lei de Incentivo à Cultura. Aí, é preciso ter paciência para fazer um projeto, apresentá-lo à Secretaria da Cultura e esperar pela aprovação.

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fiscalização

Este é um ponto sensível nos órgãos de patrimônio histórico. Todos se queixam de falta de estrutura para fazer uma fiscalização correta. Falta pessoal, faltam recursos, falta transporte. “A fiscalização é feita dentro do possível”, afirma Eduardo. “A equipe do Patrimônio Histórico é muito reduzida”. Ana Beltrani reconhece que nem sempre conseguem fiscalizar os bens tombados no interior do Estado. “Muitas vezes, por falta de carro”, diz.

Apesar da Lei de 1937 prever sanções e multas em réis, a moeda da época, Eduardo declara que atualmente “não há legislação que imponha multa ao proprietário que não cuidar do bem tombado”. Pode ser aberto um processo administrativo e, depois de muito tempo, ele ser condenado a fazer obras. Se provar que não tem recursos para isso, o Estado terá de fazê-las.

Mais fotos atuais:

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
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Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
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Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Fotos históricas:

 Otávio Rocha e Borges de Medeiros tomaram a decisão de abrir uma nova avenida l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Otávio Rocha e Borges de Medeiros tomaram a decisão de abrir uma nova avenida l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
 Em 1928, começava a nascer o Viaduto da Borges l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1928, começava a nascer o Viaduto da Borges l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
 Construção foi prevista pelo Plano Diretor de 1914 l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
A construção foi prevista pelo Plano Diretor de 1914 l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
O escultor Alfredo Adloff criou os ornamentos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
O escultor Alfredo Adloff criou os ornamentos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
 Obra foi concluída em seis anos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Obra foi concluída em seis anos l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
 Quando da construção do Viaduto, a população de Porto Alegre era de aproximadamente 200 mil habitantes l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Quando da construção do Viaduto, a população de Porto Alegre era de aproximadamente 200 mil habitantes l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
 Viaduto Otávio Rocha: ligação entre o Centro e a Zona Sul de Porto Alegre l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Viaduto Otávio Rocha: ligação entre o Centro e a Zona Sul de Porto Alegre l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Projeto do Viaduto é dos engenheiros Manoel Itaquy e Duílio Bernardi l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Projeto do Viaduto é dos engenheiros Manoel Itaquy e Duílio Bernardi l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
As obras começaram durante o mandato do intendente Otávio Rocha l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
As obras começaram durante o mandato do intendente Otávio Rocha l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1932, a obra foi inaugurada l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo
Em 1932, a obra foi inaugurada l Foto: Fototeca Sioma Breitman, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

Sete dias e sete disparates de 2015

Sete dias e sete disparates de 2015

1. Cora Rónai, de quem tinha tinha até esquecido, iniciou o ano ofendendo a presidente, mas depois desculpou-se. A filha de Paulo Rónai, este sim um grande cara, criticou até o andar desajeitado e deselegante de Dilma. Cora foi a grande estrela do feriadão de ano novo. Deve caminhar de forma ir-re-sis-tí-vel.

2. Outra estrela foi o novo governador gaúcho. O homem que não gosta de falar à imprensa suspendeu pagamentos de fornecedores por seis meses. Na verdade, acho que o gringo quer renegociar os débitos. Ao lado deste começo austero, Sartori pode sancionar aumentos para ele mesmo, seu vice, deputados e secretários. Aguardemos.

3. Anteontem, Vitório Piffero reassumiu a presidência do Inter. Ele parecia ter várias contratações na manga, mas não tinha não. Nós, os vermelhos, estamos passando opacas férias futebolísticas. Dizem que hoje o clube apresentará o lateral-direito Léo, reserva no Flamengo. Putz.

4. Kátia Abreu disse que não há latifundiários no país. Ela é Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e latifundiária.

latuff KA

5. Hoje um grupo muçulmano invadiu a redação de um jornal satírico em Paris, mais exatamente do Charlie Hebdo. Matou dez pessoas. Como parte da imprensa nanica e revanchista, fiquei preocupado.

6. Ontem, o piso dos professores foi reajustado em 13,01%, passando para R$ 1.917,78. O reajuste — corretíssimo e acima da inflação — torna cada mais longínquos os sonhos de Sartori e do secretário Vieira da Cunha. Novamente, ¡no pagarán!

7. O último disparate já foi citado por este blog: é a proposta de retorno do mata-mata no Campeonato Brasileiro, articulada pelo presidente do Grêmio Romildo Bolzan Jr. Detalhe: todos os outros campeonatos no Brasil já são mata-mata e sem público.

todays date

8. Mas ontem à tardinha tivemos uma bela notícia. Só que é pessoal, gente.

Vá entender! Grêmio articula a volta do mata-mata

Vá entender! Grêmio articula a volta do mata-mata
Romildo Bolzan: o mais novo chato a propor retrocessos
Romildo Bolzan Jr, inicia sua gestão propondo retrocessos. Não seria melhor montar um time para o Grêmio?

“Dá muito mais emoção, audiência e equilíbrio técnico ao campeonato”, disse de forma inacreditável o novo presidente do Grêmio, Romildo Bolzan Jr.

Equilíbrio técnico? Ele deve estar brincando, não? Pois, obviamente, o modelo mais simples e consagrado mundialmente, o de pontos corridos com jogos lá e cá, é o mais equilibrado e justo. Além do mais, já há vários torneios mata-mata em nossas vidas: a Libertadores, a Sul-Americana, a Copa do Brasil e até os famigerados Regionais.

Segundo Bolzan, a luta pelas “vaguinhas” na Libertadores e na Sul-Americana é a única coisa interessante nos pontos corridos. Ele esquece simplesmente das duas pontas: a do campeão e a do rebaixamento. Esquece também dos clubes que ficarão fora dos play-offs, obrigados anteciparem as férias em um mês, chorando a falta de renda e o prejuízo com as folhas de pagamento a vencer sem o time jogar. E mais, acho uma piada o Cruzeiro colocar em risco um Brasileiro após permanecer por meses na primeira colocação.

Na minha opinião, mata-mata é coisa para a TV, é para o telespectador, para aquele torcedor que só aparece na hora da final, o torcedor de ocasião. Quem acompanha os pontos corridos — aqui e na Europa — sabe que cada jogo, desde o início, é uma final. Mas, sei, é complicado explicar isso para quem não gosta muito de futebol. Ademais, esquecem que no mata-mata um time pode também disparar e ficar jogando na banguela, só esperando e escolhendo o melhor cruzamento. Pois o mata-mata torna meramente classificatórios os jogos de ida e volta .

E quem compraria um campeonato inteiro na TV se só um mês interessa?

Ora, Dr. Romildo, vai fazer time e não encha o saco.

Mônica Salmaso tem o melhor CD de 2014

Mônica Salmaso tem o melhor CD de 2014

Após equivocar-se lamentavelmente numa questão sobre o crossover porto-alegrense há duas semanas, o jornalista de ZH Juarez Fonseca voltou a seu nível habitual fazendo publicar neste sábado uma bem fundamentada lista de melhores discos de 2014. Ele convocou uma série de críticos da área que chegaram à conclusão de que Corpo de Baile foi o melhor CD de 2014. Ganhou fácil, alcançando o dobro de votos dos segundos colocados. Fiquei feliz com o resultado, ainda mais considerando o grupo de votantes e mais ainda se pensar que comprei somente um CD de música popular em 2014 e este foi exatamente Corpo de Baile, de Mônica Salmaso. Pois é, não acompanho muito os lançamentos não eruditos.

(Fiquei também satisfeito ao ver a presença de meu amado Beck dentre os melhores do ano. Vou atrás de Morning Phase).

Corpo de Baile é um CD sensacional formado por 14 canções compostas pelos veteranos Guinga e Paulo César Pinheiro. Os arranjos são camarísticos e luxuosos, incluindo quarteto de cordas, violões, viola caipira, piano, madeiras e metais, além de baixo acústico e percussão. São assinados por gente como Dori Caymmi, Tiago Costa, Nailor “Proveta” Azevedo, Teco Cardoso, Luca Raele, Nelson Ayres e Paulo Aragão.

Mônica Salmaso e Guinga
Mônica Salmaso e Guinga

Mônica Salmaso é uma cantora sofisticada e que não faz concessões ao fácil. Não é uma cantora “pra cima”, não levanta o povo, mas é capaz de deixar uma plateia hipnotizada com sua técnica e musicalidade. Alguns destaques de um disco fantástico são o fado Navegante, a indígena Curimã, mais Sedutora e Fim dos Tempos. Boto a primeira e a última abaixo.


Tive duas vezes o prazer de ver Mônica Salmaso em ação — a primeira vez em Paraty, cantando músicas de seu repertório pré-2006, e a segunda no Theatro São Pedro de nossa leal e valerosa, interpretando exclusivamente Chico Buarque. Na primeira vez, em Paraty durante uma Flip, fui falar com ela após penar numa longa fila de autógrafos. Naqueles minutos em que esperei pensei em dizer algo marcante a ela, que é uma mulher comunicativa e simpaticíssima. Foi um considerável trabalho para meu limitado cérebro. Pensei ter encontrado a solução quando ecoei uma frase de Adoniran Barbosa que Mônica recém dividira de forma brilhante, conseguindo que sua tristeza e humor ficasse longe do patético, permanecendo dentro do habitat poético que merecia. Resumi e decorei direitinho o que devia dizer e, quando entreguei-lhe o CD para a assinatura e depois de dizer meu nome, despejei meu discurso. O efeito foi monumental. Ela se levantou subitamente como se o botão de eject tivesse sido abruptamente acionado, deu a volta na mesa e lançou-se sobre mim num daqueles abraços em que a gente fica balançando como se fosse um João Bobo. Parecia um reencontro de velhos amigos, separados há uma década.

— Ai, que felicidade ouvir isso. Aquele trecho é dificílimo, é o centro, o cerne da música e foi o maior trabalho entender como devia ser cantada. Fiquei anos tentando! Você é músico?

Na época, eu ainda não sabia que era um blogueiro recalcado e desqualificado, então respondi que era apenas um melômano.

E ficamos conversando por alguns minutos, pouquíssimos para mim e longos para o resto da fila, que ficou comentando quem era aquele cara que tinha alugado a Mônica… Depois lhe disse rindo que viera a Parati só para ouvi-la. Ela deu uma gargalhada:

– Ô gaúcho mentiroso. Você veio pra FLIP!

É.

Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas

Tornar-se um Robinson Crusoe, uma boa ideia para jornalistas
Moyenne Island Seychelles
Moyenne Island Seychelles

As Ilhas Seychelles estão perdidas no meio do Oceano Índico. Antigamente, eram muito visitadas por piratas. Não há nada próximo. A Moyenne é uma pequena ilha do arquipélago. Tem 9 hectares e fica ao lado da maior das ilhas. De 1915 até os anos 70, o local ficou abandonado, até sua compra por parte de Brendon Grimshaw, um bem-sucedido editor de um jornal de Yorkshire, Inglaterra. O que havia na ilha? Nada nem ninguém.

Até sua morte, em julho de 2012, aos 87 anos, Grimshaw foi o único habitante da Moyenne. Ele comprou a ilha por £8.000 em 1962 e, poucos anos depois, começou a fazê-la habitável. A obra foi feita pelo ex-editor com a ajuda de um local, Rene Antoine Lafortune. Após a primeira ajeitada, eles passaram a cobrar o correspondente a 12 euros por visita, o que daria aos visitantes a chance de vagar pela ilha, jantar com Brendon e relaxar na praia.

Enquanto isso, Grimshaw e seu amigo plantavam dezesseis mil árvores, abriam 3 Km de trilhas naturais, traziam e criavam tartarugas gigantes. Fizeram tudo sozinhos. Também deram respeitosa direção à incrível variedade de vida vegetal e de pássaros naturais da região. A tartaruga mais velha das atuais 120 chama-se Desmond e tinha 76 anos de idade, de acordo com Grimshaw em 2012. Ele a chamava de seu afiliado.

Hoje, a ilha vale 34 milhões de euros. Para melhorar, Grimshaw fez duas grandes escavações e encontrou indícios de esconderijos de piratas, mas nada de ouro. Atualmente, a Moyenne é um Parque Nacional e pode ser visitada como parte de viagens organizadas.

Pois é, após 20 anos de persistência, Grimshaw e seu assistente alcançaram seu objetivo de fazer Moyenne um Parque Nacional, agora conhecido como o Parque Nacional de Ilha Moyenne. Ele abriga mais espécies por metro quadrado do que qualquer outra parte do mundo. A ilha está a 4,5 quilômetros de distância da principal ilha.

Dizia Grimshaw: “Lentamente, as árvores cresceram e consegui água, luz e um cabo de telefone. No começo, nós não estávamos fazendo isso para tornar a ilha em um parque nacional ou qualquer coisa assim. Nós estávamos fazendo isso para torná-lo habitável para mim. Desde o momento em que pus os pés na ilha, sabia que era o lugar certo para eu morar”.

Brendon não foi um recluso. Ele adorava os visitantes e lamentava não ter casado. “Como eu poderia pedir a alguém para viver aqui? Nós não tivemos água corrente durante anos!”.

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Brendon e Rene
Brendon e Rene

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