Muitos olhares longos e o beijo

Eu trabalhava há quase um ano ali. O papo era ruim de doer. Talvez eu fosse a mais dedicada de nosso setor por causa disso, não perdia tempo com conversas e até evitava as reuniões em torno da cafeteira. Era discreta, acostumara-me assim; talvez tivesse de ser assim. Desde que minha família descobrira, soube que não podia mais contar com eles; então, meus empregos eram as coisas mais importantes da minha vida na rua. Como eu não era concursada nem nada, tratava de me comportar. E então o chefe começou a me destacar. Elogiava meu trabalho e seriedade, tanto que eu estava a ponto de pedir um aumento. Sabia que a Contabilidade não andava sem mim. Mas logo ele deixou de lado os elogios à produtividade e passou a me olhar como “mulher”. Aquilo era mais do que chato, aquilo era perigoso, pois a Vivian era muito ciumenta e por qualquer coisinha punha fogo no mundo. Será que eu ia ter que dar para aquele idiota? Ele não parecia um mulherengo, minha esperança era a de que ele fosse vítima daquela lentidão e culpa que fazem alguns caras casados empacarem, ficando só no flerte.

Eu evitava e evitava o olhar do homem, mas ele inventou alguns trabalhos para serem feitos com ele, na sala dele, na mesa dele, com ele. Então, eu elaborava desde pautas de reuniões importantes até as mais inúteis planilhas. Quantos carros vendíamos, quanto era pago à Ford, quanto ficava para a empresa. Eu sabia que tudo aquilo era informado pelo sistema da fábrica e o que fazíamos era redundante, mas enfim, ele pedia. O jeito dele era assim: quando estava perto de mim, parecia normal, convivia numas de camaradagem; porém, quando se afastava, lançava olhares compridos, nostálgicos, insistentes, fixos. Às vezes, por exemplo, eu parava desatenta no xerox e cruzava com seu olhar de peixe morto. Era habitual captar que de alguma forma era observada. Não incentivava aquilo e comecei a usar roupas mais largas e a sentar de pernas abertas como se estivesse num galpão do interior gaúcho; vinha despenteada, às vezes com o cabelo sujo, mas, por mais defunteada que eu aparecesse, ele me lambia com o olhar. Um dia em que eu estava em sua sala digitando umas daquelas brilhantes planilhas, ele resolveu grudar-se a meu lado. Notei que a porta da sala estava fechada, levantei e disse

— vou ao toalete.

Quando voltei, depois de uns 15 minutos, ele estava exatamente na mesma posição. Cuidei para deixar a porta aberta. Havia o monitor com a minha cadeira na frente e ele na cadeira ao lado, sem fazer nada, só me esperando. Por que não fazia alguma coisa para se distrair? Ih, hoje vou me incomodar, pensei, sentando em minha cadeira. Quando pus o traseiro no assento, falei alguma coisa bem irritada sobre o trabalho. Então ele nem deixou eu recomeçar, engatou a primeira marcha e declarou que sua vida estava uma merda, que tinha que se separar da mulher, que havia as crianças, a família, a religião (aqui, não resisti a um suspiro), enfim, o papo de sempre. O papo de sempre sim, mas eu comecei a sentir pena do cara, apesar de pensar mais na mulher dele, que devia estar carente ao lado daquele bolha. Ele tinha cara de bebê, era uma espécie de Brad Pitt pós-atropelamento, talvez sua mulher me apetecesse. Mas começamos a conversar sobre sua questão pessoal e acabei ficando curiosa com a história deles, perguntei como se conheceram, sobre o filho… Pô, quem não gosta de uma história cheia de humanidade, mesmo meio podre?

Porra, e ele me convidou para sair. Arranjei dez compromissos, falei em aulas de inglês, de dança, academia, família, tudo; não podia simplesmente dar um chute no cara, ele era meu chefe. Mas o cara insistia e insistia. Foram duas semanas de chateação. Como uma criança que conseguiu mudar de fase em seu joguinho, ele perdera parte de seu pudor e agora me convidava a toda hora para sair. Eu não sabia como mostrar-lhe um “Game Over” de forma educada. Podia inventar um namorado, mas ele não ia acreditar, eu estava sempre sozinha nas poucas festas da empresa em que fui. Seguia me fingindo de louca? Dava para ele? Aquilo ia dar merda.

Então, num fim de semana, eu estava almoçando com Vivian e ele entrou com sua família. Eu e minha namorada tínhamos passado a manhã andando de bicicleta pelas ruas e parques e estávamos muito eufóricas. Ele me cumprimentou de longe e foi sentar sei lá onde. Não parecia infeliz ao lado da mulher, que era bonitinha, e do filho, que tinha cara de joelho. Não disse nada para a Vivian e este foi um grande erro. Quando fomos nos servir da sobremesa, ela se colocou atrás de mim e me chamou. Virei rapidamente o rosto para atendê-la e ela me deu um rápido beijo na boca. Foi aquele beijo de casal em fila de buffet, se me entendem. Aquele beijo que se dá ou se recebe quando estamos ociosos e satisfeitos, o beijo rotineiro, de carinho antigo e conhecido. Fiquei vermelha, procurei o idiota e ele, é claro, estava me olhando. Vivian me perguntou porque eu ficara tão sem jeito.

Contei a história a ela, que ficou mezzo puta. Ela não entende, pois é concursada e só será despedida se urinar na mesa do chefe. Pensando melhor, se só urinasse, permaneceria; teria de fazer mais para conseguir uma demissão.

Na segunda-feira, ele não me chamou a sua sala; na terça, idem; na quarta, conversamos sobre um assunto de trabalho e ele estava de cara fechada. Depois, achei que tinha sido paranoica, que o mundo girara e que não havia motivo para preocupar-me, só que, um mês depois, a diretoria resolveu cortar umas cabeças, coisa que faziam habitualmente para incentivar a produção, e pediu para que cada chefe reduzisse sua equipe de um funcionário. Havia alguns indicadores de produtividade por funcionário e eu sabia que estava bem colocada, mas aí, na hora de escolher a cabeça para cair na cesta adivinhe quem foi a escolhida?

Vivian está satisfeita. Ganha o suficiente para nós duas, me sustenta e agora tem uma mulher em casa. Eu acho uma bosta. Faço comida, pago contas, cuido das plantas, sou a rainha do lar. O jardim está uma beleza! Procuro emprego.

Obs. do autor: Este despretensioso conto — datado de 2007 — estava esquecido no micro. Esqueço mesmo deles. Para mim foi uma surpresa como a história termina. Me acontece muito deixar pedaços de textos aqui e acolá (hoje, encontrei um com o qual me diverti muito: “Ninguém gosta mais de Charlie Mingus do que eu!”).

À guida de ilustração: Betty Faria beija Leila Diniz na praia em foto de 1969
À guisa de ilustração: Betty Faria beija Leila Diniz na praia em foto de 1969

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