Lupicínio Rodrigues, os 100 anos do homem que chamava de Vingança seu carro

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Foto: CP Memória

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Publicado em 20 de setembro de 2014 no Sul21

Lupicínio Rodrigues foi um caso único de compositor de sucesso a viver na região Sul do Brasil durante as décadas de 30, 40 e 50, isto é, no auge da era do rádio. Para dar ideia da dimensão de seu talento, podemos dizer que ele era conhecido como compositor de sambas-canção intimistas numa época em que reinava o samba-exaltação e os boleros de tenores gritadores. E, se quisermos deixá-lo ainda mais fora do mainsteam, podemos acrescentar que Lupi vinha com canções que, apesar de belas, traziam sombras de tragédias íntimas. Outra particularidade sua, era o fato de ser cru nas situações conjugais que descreve. O quadro de originalidade se completa no exame do cantor – de voz pequena, intimista e embargada – e do instrumentista, que nunca foi além da percussão na caixa de fósforos.

A inusitada veracidade dos casos de amor descritos por Lupicínio Rodrigues permitiram que ele criasse a expressão de uso comum “dor-de-cotovelo”. Esta é brilhante, pois une a dor aguda de uma boa batida no cotovelo, assim como caracteriza as pessoas que perderam seus amores e vão aos bares apoiarem-se nas mesas e balcões de bar, afundando suas mágoas em largas doses de uísque. Ela é o melhor resumo da temática principal da obra de Lupi, unindo amores perdidos, dores e a boemia. As canções mais famosas de Lupicínio são variações sobre o tema do amor perdido, como o leitor do Sul21 pode conferir abaixo:

Lupicinio_Rodrigues_05

Em Nervos de Aço, ele canta

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer.

Em Vingança,

Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar.

Em Cadeira Vazia,

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia.

Em Esses Moços,

Esses moços, pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam, não passavam
Aquilo que já passei.

Em Nunca,

Nunca
Nem que o mundo caia sobre mim,
Nem se Deus mandar,
Nem mesmo assim,
As pazes contigo eu farei
Nunca
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei.

Em Aves daninhas,

Se eu vou a uma festa sozinha
Procurando esquecer o meu bem
Nunca falta uma engraçadinha
Perguntando, ele hoje não vem?

Em Se acaso você chegasse,

Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher
Que você gostou.

Em Volta,

Volta
Vem viver outra vez a meu lado
Não consigo viver sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado.

Em Quem há de dizer,

Quem há de dizer
Que quem você está vendo
Naquela mesa bebendo
É o meu querido amor
.

Nascido em 16 de setembro de 1914, Lupi foi aprendiz de mecânico na Carris, mas nas horas vagas só queria saber de samba. Atrasava-se sistematicamente. Depois serviu no Exército, onde teve de cumprir várias detenções por indisciplina. Motivo: chegava de ressaca nos alojamentos. Como poderia largar seus compromissos imperativos com a boemia e os versos musicados? Para deixá-lo mais comprometivo, naquela época, no começo dos anos 30, o mais importante elogio que recebera viera da parte de Noel Rosa.

— Esse garoto é bom. Vai longe!

Lupicinio_Rodrigues_02Já fora do Exército, Lupi conseguiu emprego como bedel da Faculdade de Direito. Mas 1935 não foi apenas o ano do início de seu trabalho na UFRGS e da briga com com seu grande amor, Iná. Foi o ano em que ele venceu o concurso de músicas da Prefeitura com Triste história, escrita em parceria com Alcides Gonçalves. Eram 2 contos de réis a mais no orçamento. Aliás, Alcides era o maior divulgador da música do boêmio Lupicínio. Enquanto Lupi ia de bar em bar, sem sair de Porto Alegre, ele cantava Quem há de dizer, Maria Rosa, Cadeira Vazia e Castigo, entre outras, em seus shows.

Outro canal de difusão era bem mais curioso. Quem levou Se acaso você chegasse ao Rio de Janeiro foram os marinheiros que visitavam a “zona e a zona boêmia” de Porto Alegre, onde suas canções eram bem conhecidas. A música chegou aos ouvidos dos executivos da RCA carioca, que quiseram saber quem era o autor. E Se acaso você chegasse foi gravada em 1938 por um cantor iniciante, Ciro Monteiro.

Foi nessa época que ocorreu o rompimento mal explicado com Alcides Gonçalves. Sempre vítima — fingida ou não — de mulheres enganadoras e volúveis, Lupi seguia compondo com qualidade. Mas a distância dos escritórios das gravadoras, localizados na ex-capital federal, ainda atrapalhava. A forma para driblar a dificuldade foi a de utilizar um recurso muito comum na história da MPB: dar parceria a alguém que não compusera nada, mas que tivesse as chaves das portas das gravadoras.

Foi a consagração. Francisco Alves alcançou grande sucesso com Cadeira Vazia, Nervos de Aço, Esses Moços, Pobres Moços. Mas o maior exito foi o suprassumo da cornitude: Vingança. A canção foi lançada em 1951 pelo Trio de Ouro e logo depois imortalizada com escárnio e ódio de Linda Batista. Na época, vários casos de suicídio foram atribuídos à carga emocional da canção.

Lupicinio_Rodrigues_01Com Vingança, Lupícinio não apenas libertou-se das parcerias de conveniência, mas viu-lhe abertas as portas das boates paulistas e cariocas. O fluxo inverteu-se: agora eram os cantores que procuravam Lupi. Isaurinha Garcia (Nunca), Nora Ney (Aves daninhas), Luiz Gonzaga (Jardim da Saudade) foram alguns dos cantores famosos que obtiveram canções do compositor.

Aposentado por motivo de saúde da Faculdade de Direito, Lupi passou a uma vida folgada do ponto de vista financeiro. Permaneceu o mesmo boêmio que chegava em casa sempre antes das 4h da manhã por imposição da esposa, mas agora voltava em seu carro, apelidado de Vingança. Segundo relatos, quando casou com Cerenita Azevedo, chegou à cerimônia dormindo, pois passara a noite em monumental farra de despedida de solteiro.

Cantando paixões em seus sambas-canção, teve a morte de sua arte várias vezes anunciada. Em 1960, a Bossa Nova acabaria com Lupi. Só que apareceu Elza Soares e relançou brilhantemente — com direito a scat singing e a todos os recursos vocais da futura mulher de Garrincha — Se acaso você chegasse. Num tempo em que ninguém mais tentava suicídio com Vingança, a regravação de Elza fez sucesso internacional.

No início dos anos 70, o tropicalismo e o rock acabariam com Lupi. Mas quem veio abraçá-lo? Em 1971, João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa gravaram Quem há de dizer? No ano seguinte, Gal Costa lançou uma afinadíssima e emocionante Volta. Em 1974, Caetano matou a pau com uma versão de uma canção de Lupi que já tinha 43 anos de idade: Felicidade. Dias depois, Gil fez o mesmo com Esses Moços, Pobres Moços. E, para completar, Paulinho da Viola deu-nos a versão definitiva de Nervos de Aço.

Quando o grande Lupicínio Rodrigues morreu, no mesmo ano de 1974, era popular não apenas entre os velhos ouvintes do rádio dos anos 30 e 40 como entre os jovens.

http://youtu.be/mXBy5NihSN0

* Fonte consultada:
— Fascículo dedicado a Lupicínio Rodrigues da História da Música Popular Brasileira

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4 ideias sobre “Lupicínio Rodrigues, os 100 anos do homem que chamava de Vingança seu carro

  1. Diante disso

    http://tijolaco.com.br/blog/?p=26237

    E já que estamos a tratar de vingança,
    então, só resta isso:

    PESQUISA À MODA DO FRIAS
    by Ramiro Conceição

    Corrupção é corrupção;
    sonegação é sonegação;
    esculhambação é esculhambação;
    datafrias é datafrias; e a batata assada ou frita
    do Frias se come quente; mas trouxeram-ma fria;
    queixei-me; queria quente a batata assada ou frita,
    mas trouxeram-ma à moda do Frias:
    uma baita batata – mas sempre fria!

    P.S.: perdoem-me, Pessoa e Lupícinio…

  2. DUAS SENHORAS
    by Ramiro Conceição

    Sou diabético… Mas adoro pizzas…
    Terrível é o paradoxo de comer e existir,
    esses irmãos siameses que se flexionam
    em pessoa, número, tempo, modo e voz.

    Ah, os verbos são processos de ação, de estado,
    de fenômenos, de contingências e principalmente
    de desejos… No fundo, no fundo, fomos nós que
    os inventamos – diante da nossa necessidade de
    compreensão tão pequena… à frente do tamanho
    do céu.

    Portanto, se sou diabético
    e adoro pizzas, preciso da
    melhor solução econômica
    pra tal contradição, se não
    a senhora sombria, que não tolera
    zombarias, encontrar-me-á antes…
    do combinado.

    Diante do exposto, também confesso – sou complexo:
    um ser político; um socialista; um petista que detesta
    medularmente comer dessas tais pizzas ditas políticas,
    pois a política é a arte – por que não dizer a ciência? –
    de providenciar com cuidado o sadio convívio humano.

    Consequentemente, se sou um ser político, sem comer pizzas
    políticas, preciso dentro do possível da melhor solução humana
    associada a tal contradição, se não a senhora sombria, que não
    tolera zombarias, encontrar-me-á antes… do combinado.

    Finalmente, confesso que sou um poeta,
    um filho daquela contida na folha que cai,
    com todas as luzes, porém explicando-me
    o encontro com outra,
    conforme o combinado.

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