Um dia glorioso de trabalho em Montevidéu

Elena Romanov, Roberto Markarian e eu na sala do reitor
Elena Romanov, Roberto Markarian e eu na sala “del Rectorado”

Fizemos uma bela entrevista com Roberto Markarian, Reitor da Udelar, Universidade da República do Uruguai. Na entrevista, fica claro o que é uma ‘pátria educadora” e a dimensão humana de um sistema gratuito e laico de ensino. Foram 63 minutos de perguntas e respostas, mas a Elena disse que o conteúdo equivale a um livro. Pedi ajuda a vários amigos acadêmicos para melhorar minhas perguntas e o resultado foi estupendo.

Acho que vou dividir a entrevista em duas partes para que não seja cansativo para o leitor e lhe dê certo tempo para refletir sobre modelos totalmente diferentes — e mais racionais — dos nossos. Tive a sorte de conhecer o genial Markarian durante os anos 80 quando ele fazia mestrado em Porto Alegre após sete anos de prisão durante a ditadura militar uruguaia. A mim, resta agora ser digno de Markarian, dos amigos e da Elena, que me ajudou com fotos, sugestões 100% aceitas e também com alguns questionamentos..

O exagero gastronômico de Montevidéu

O exagero gastronômico de Montevidéu
Parrilla para dois
Parrilla para dois

Aqui, nós sempre erramos o tamanho do prato. Ou vem uma coisa diminuta — fato bem mais raro — ou vem o mundo. Isso ocorre sempre, com exceções que podem ser contadas nos dedos de uma mão, com sobras. Por mais que conversemos com os garçons, ficam faltando uma ou duas perguntas. Hoje, voltamos a um pequeno restaurante ao lado do Parque Rodó, o La Cocina del Parque. Pedimos uma Parrilla para dos. Impossível comer tudo, mal chegamos à metade mesmo tendo antes atravessando a cidade desde o Palácio Legislativo. Talvez seja este o mistério de tantos cães e cocôs pelas ruas da cidade. Sobra muita comida boa nos restaurantes.

Agora chove, são 16h15 de terça-feira e vamos às 19h30 ao Solís ver a Orquestra Filarmônica de Montevideo com o saudoso e excelente maestro Nicolas Rauss, que a Ospa deixou de convidar em função da tal oxigenação. O programa é foda:

Bélá Bartok: Concierto para Piano N°2
Bohuslav Martinu: Sinfonía N° 4

Nicolás Rauss
Sara Davis Buechner, piano

Certamente será ótimo. O problema será depois, quando formos a um restaurante. Bem, ao menos o tamanho do café será o esperado.

E, amanhã, em grave descumprimento laboral — pois em meio às férias — entrevistarei o Reitor da Udelar, Universidad de La República del Uruguay, meu amigo Roberto Markarian. Tenho um roteiro pronto e acho que o Sul21 ganhará uma bela “entrevista de férias”. Já visitamos os Markarian e está tudo em ordem.

Cinco sábios judeus nos explicam porque é tudo tão ruim

Cinco sábios judeus nos explicam porque é tudo tão ruim

Coisas de férias… (fonte)

einstein

O primeiro sábio judeu disse que é tudo tão ruim para as pessoas, porque aqui (apontando para a testa) está tudo ruim. Este foi Moisés.

O segundo sábio judeu disse que é tudo tão ruim para as pessoas, porque aqui (apontando para o coração) está tudo ruim. Este foi Cristo.

O terceiro sábio judeu disse que é tudo tão ruim para as pessoas, porque aqui (apontando para o bolso) está tudo ruim. Este foi Marx.

O quarto sábio judeu disse que é tudo tão ruim para as pessoas, porque aqui (apontando para o baixo ventre) está tudo ruim. Este foi Freud.

Mas um quinto sábio judeu disse que nem tudo é tão ruim para as pessoas, porque tudo é relativo.

Engraçado que eu contava uma piada parecida:

O século XVII foi de Shakespeare e Cervantes. O século XVIII foi de Bach. O XIX foi de Marx e Freud. O XX foi de Joyce e Einstein. O XXI… Olha, verdade, esqueci do fim da piada…

Bom dia, Diego Aguirre (veja os gols de Tigres 3 x 1 Inter)

Bom dia, Diego Aguirre (veja os gols de Tigres 3 x 1 Inter)
Aguirre, vou dar uma dica: MUDA HOJE  teu preparador físico
Aguirre, vou te dar uma dica: MUDA HOJE teu preparador físico

Os sete leitores que me acompanham sabem que eu dizia — basta conferir nas postagens anteriores que não éramos os favoritos. Sim, o Inter fez uma péssima parada para a Copa América, nunca apresentou um preparo físico comparável a de seus adversários e, bem, o Tigres é um timaço.

Gostaria de deixar claro que não sou apocalíptico. Sigo pensando que Aguirre é um excelente técnico, mas a direção do clube precisa intervir na questão do preparo físico. O responsável pelo setor tem de ser trocado ou então tem de obedecer a ordens de alguém que conheça mais do assunto. O time não apenas não corre como bate recordes de lesões musculares. Ontem, o desempenho físico de Nilmar foi uma verdadeira piada. O do resto foi quase a mesma coisa.

Aliás, outras coisas têm de ser revistas. O que são nossos laterais? William iniciou bem sua carreira e hoje chafurda em suas próprias confusões. Géferson… Géferson? Bem, este Dunga pode levar e guardar para sempre.

Ernando merece reavaliação também. Foi imperdoável o primeiro gol do Tigres. Ele abandonou o setor para Gignac (1,86m e forte) pular com William (1,76m e magrela). Aliás, já fizera isso no gol do Tigres em Porto Alegre, deixando Ayala cabecear livre em seu setor. Duvido, mas duvido mesmo, que Réver cometersse tal “ausência”. Só que Réver é uma das vítimas de nosso preparador físico… E… D`Alessandro no meio com Valdívia pela direita? Por quê, Aguirre?

Para 2016, temos que fazer um Brasileiro digno e olhar bem se algumas promessas, como Valdívia e Dourado, são tudo isso mesmo. Ambos foram engolidos pelo Tigres. Quando lhes falta espaço, erram mais da metade dos passes.

No mais, é chorar a derrota de hoje e aprender com ela sem partir para um esquema de terra arrasada. Há muito de positivo no Inter de hoje. Venceremos.

(A propósito, como disse meu filho, ontem ganhamos o Campeonato Gaúcho de 2016…)

https://youtu.be/vlEqqs4coN8

O que o conforto pragmático me disse ontem sobre a Ospa

O que o conforto pragmático me disse ontem sobre a Ospa

Um violoncelista, virtuose internacional que me honra com sua amizade, contou-me que nos Estados Unidos e em parte da Europa, as orquestras e os intérpretes agradecem por escrito as críticas que recebem — mesmo as mais ácidas e debochadas. Sabem que qualquer menção é melhor que o silêncio. Há pragmatismo e boa noção de divulgação no hemisfério norte. Aqui na Ospa é justamente o contrário. O narcisismo, a infantilidade e a insegurança – palavras de Francisco Marshall — tornam o terreno pantanoso. Paradoxalmente, não há serenidade no recebimento de críticas por parte de pessoas que se expõem em público.

Então decidi que, a partir de agora, apenas vou escrever sobre os concertos mais marcantes, sobre aqueles que me tocarem de alguma forma — por serem muito bons ou demasiado ruins. Aviso a meus sete leitores: não esperem mais relatos de cada concerto. Os insignificantes e opacos — a maioria — me obrigam a um esforço que realmente não preciso fazer. Vou ficar com os que me satisfazem ou irritam, pois os primeiros merecem saudação e os últimos resultam em textos cômicos. Na verdade, o fundo de minha decisão é o fato de que estou ficando enfastiado dos trajes escuros do vilão que repete quão desafinados ou dispersos são alguns naipes. Sei que não vou corrigi-los e também mereço uma zona de conforto semelhante.

Também quero andar por aí sorridente, vestindo um terno branco com um elegante lenço colorido no bolso. E achando graça do que vejo e ouço. Vou me dedicar mais a outros assuntos. Tenho que me liberar de coisas que dão pouco prazer e retorno. Os concertos deste ano foram de qualidade tão duvidosa — com raras exceções, casos de Valentina e Petri, por exemplo — que muitas vezes sinto-me desconfortável e sem adjetivos para descrevê-los. Ou seja, o que era divertido tornou-se esforço.

(A coisa está tão preta que muitas vezes nem os músicos da orquestra divulgam os concertos em seus perfis do Facebook. É um termômetro infalível, conforme um membro da orquestra me ensinou. Cada vez que isso acontece, já sei o que vou escrever no dia seguinte e fico previamente deprimido).

Mais um item para meu Projeto Gambardella. Afinal, não sou tão jovem, “para perder tempo fazendo coisas que não quero fazer”.

Cena de "A Grande Beleza"
Cena de “A Grande Beleza” com Jep Gambardella (Toni Servillo)

Algumas abordagens a Eduardo Cunha e um desejo

Algumas abordagens a Eduardo Cunha e um desejo

Ontem, finalmente, Eduardo Cunha retirou-se da capa do Sul21. Não, espera! Não é verdade. Ele estava lá numa fotinho e a manchete dizia que ele parara de falar à imprensa. Então falemos um pouco dele neste espaço ultimamente pouco político. Afinal, não acredito que ele nos dê por muito tempo o alívio de seu silêncio. Pois ele parece ser a encarnação do mal, do sujeito religioso de direita que trama para impor ao país sua visão tacanha. Idelber Avelar escreveu um longo texto sobre Cunha e eu gostaria de pinçar um trecho literário — até porque creio que somente a ficção arranhe a realidade, o resto não. “Cunha é aquele personagem-vampiro, o intriguento do romance do século XIX, cujo poder depende da escuridão. Nos bastidores e com o regimento, sim, ele pode ser mortal, especialmente em um país homofóbico governado por um Executivo covarde. Mas basta um pouquinho de luz do sol para que o sujeito desmorone”. É exatamente isso, Cunha é um representante das trevas, cujas ameaças são eficientes nos bastidores, mas que ficam muito feias em público. Deve ser um achacador dos bons, um cara que conhece como funciona a política interna dos partidos fisiológicos onde nasceu e cresceu, fazendo de seu conhecimento.

Leio que alguns dizem que ele está morrendo politicamente. Não penso assim. Afinal, com o apoio de empresários, Cunha ajudou a financiar a campanha de mais de cem deputados. São cem pessoas que devem $ a Cunha, entendem? O malvadão é poderoso, tem gente que come na sua mão e não é homem de ficar acuado.

Não parece o chefe de uma gangue?
Figura adequada a um romance convencional do século XIX. Não parece o chefe de uma gangue? 

Eduardo Cunha é um legítimo representante de nossas elites ignorantes e endinheiradas. Guindado por doações milionárias e tendo que fazer o serviço que lhe foi encomendado, Cunha exagerou a dose e apavora até a direita e os religiosos que o colocaram lá. Idelber também usa outra bela imagem. Diz que Cunha chegou lá “graças à extrema covardia de um Executivo tão acostumado a ceder anéis que já não consegue diferenciá-los dos dedos”. Verdade.

E tudo seria comédia se não fosse com nosso rabo. Para acentuar e comprovar o descontrole do deputado, a revista Veja desta semana desembarcou do impeachment a la Cunha. Publicada na última página, a coluna de Roberto Pompeu de Toledo é um claro recado para todos aqueles que ainda contavam com a famiglia Civita. Pompeu nos dá sete razões para apoiar a permanência de Dilma até 2018, ou seja, o último ano de seu mandato. Vamos a suas palavras:

1) “Convém não sacudir demais o barco Brasil”. Ele argumenta que o impeachment faria mal à jovem democracia brasileira.

2) “Não há vislumbre de composição política capaz de propiciar sucessão razoavelmente suave, como a formada em torno de Itamar Franco quando Collor foi deposto”. Ou seja, sem unidade na oposição, não se faz impeachment.

3) “O PT desponta como o único beneficiário possível, a esta altura, da queda de Dilma”. Em razão da bagunça da oposição, Lula pavimentaria seu caminho de volta ao poder, segundo Pompeu..

4) “A herança de Dilma será pesada demais”. Para Pompeu, a direita não faria a economia voltar a crescer rapidamente.

5) “Impeachment à moda de Cunha é mais do que o país pode suportar”. O ato não pode ser decidido como vingança de políticos envolvidos na Lava Jato, ou seja, por gente envolvida em corrupção.

6) “Presidentes não podem ser afastados porque são ruins, ou porque não se gosta deles”. Reconhece que não há nenhuma acusação consistente contra Dilma.

7) “O pós-impeachment arrisca ser ainda mais tumultuado que o momento atual”. Pompeu sinaliza que o atual clima de radicalização é muito descontrolado.

Provavelmente os leitores da revista ficaram perplexos com o anúncio de Pompeu. Está claro que a publicação segue na oposição, mas sem falar mais em impeachment, talvez por medo da loucura de Cunha.

No mais, tenho medo do Dudu Cu. Em alguns momentos da última semana, ele parecia ser todo o Congresso indo na direção contrária de coisas tão óbvias que não sei nem como explicar. E tudo como se fosse um tsunami. Em poucas semanas, ele e seus asseclas conseguiram aprovar a terceirização para qualquer atividade nas empresas, uma contrarreforma política, o aumento dos benefícios fiscais para templos e igrejas — falsa base de apoio de Dilma –, medidas provisórias que retiraram direitos trabalhistas e a redução da maioridade penal.

Cunha é grato e fiel a que o pagou. A votação, por exemplo, do financiamento privado de campanhas eleitorais foi uma forma de garantir aos empresários poder de influência dentro do Congresso Nacional. Com a terceirização, favoreceu novamente os empresários, que deixam de ter a obrigação de manter seus funcionários do modelo CLT de contratação. Caso a medida seja aprovada no Senado e sancionada, qualquer atividade poderá ser terceirizadas.

Na boa, espero que ele morra politicamente, mas duvido muito.

Bom dia, Diego Aguirre (veja os frangos de Renan)

Bom dia, Diego Aguirre (veja os frangos de Renan)
Eles já "ganharam", Aguirre.
Eles já “ganharam”, Aguirre.

Mas que sorte tem esse teu time reserva, não? Na troca de jogadores entre Inter e Goiás, Sasha levou vantagem sobre Renan de uma forma, digamos, constrangedora para nosso ex-goleiro, campeão da Libertadores de 2010. Renan tomou dois gols em frangos perfeitos, ambos com duas patas, olhos, ossos, miúdos, bico, penas, peito, coxa, sobrecoxa, coração e vísceras. E o segundo foi doado justamente a Sasha, que jogou no Goiás em 2013.

Tais resultados servem para diminuir a pressão sobre os titulares, que viajam hoje para Monterrey a fim de tentarem uma muito difícil classificação contra os mexicanos do Tigres.

Tenho ouvido e lido as declarações vindas de lá. Há uma total certeza de que o Inter vai tomar uma escovada. Mas, sabe, Aguirre?, nesta Libertadores o Tigres empatou dois jogos em casa, contra River Plate (2 x 2) e Universitario Sucre (1 x 1). Ou seja, nem sempre são tão espetaculares em casa.

O que não gostaria é de perder para eles só no preparo físico. Mesmo com o calor de Monterrey, os caras vêm de férias, Aguirre, férias!

É certo que perdemos o favoritismo, mas acho que nossa história recente — vide a classificação em 2010 contra o Estudiantes — nos dá certa esperança. A esperança é um sentimento meio ridículo e de agonia sempre horrível, mas desistir dela é como morrer na véspera. O importante é manter a compostura e mostrar para eles que o futebol brasileiro não acabou e que eles são apenas mexicanos que nunca chegaram a lugar nenhum.

https://youtu.be/19UQzM7751w

Antes da improvável penitência, o Carnaval, Carnis Valles, ou os prazeres da carne

Antes da improvável penitência, o Carnaval, Carnis Valles, ou os prazeres da carne

Publicado no Sul21 em 14 de fevereiro de 2015

Ramiro Furquim / Sul21
Ramiro Furquim / Sul21

Tal como o Natal, o Carnaval é uma festa anterior ao Cristianismo. É comemorado há pelo menos 10 mil anos. Existia no Egito, na Grécia e na Roma antigos, sempre associado à ideia de fertilidade da terra. Era quando o povo comemorava a futura boa colheita, a proximidade da primavera e a generosidade dos deuses. A festividade começou pagã e trouxe até nossos dias parte de suas características originais: os rostos pintados, as máscaras, o excesso, a extravagância e a troca de papéis.

Em Roma, o mais belo soldado era designado para representar o deus Momo do Carnaval. Era coroado rei e permanecia três dias nesta condição. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade para servir como símbolo da fartura e reinar por três dias. Esta troca de papéis durante o carnaval foi extensivamente analisada por Mikhail Bakhtín no clássico A Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Segundo Bakhtín, o carnaval permitia a inversão da ordem estabelecida, a fuga temporária da realidade. Seria um espaço de suspensão da rotina que ofereceria aos homens um grau de liberdade não experimentado normalmente. Se Bakhtín visava descrever a Idade Média e o Renascimento com a frase anterior, também descreve o que ocorre hoje, aqui, agora.

Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval, pela sua própria natureza, existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com suas leis, isto é, as leis da liberdade.

Mikhail BAKHTÍN

Jonathan Heckler / PMPA
Jonathan Heckler / PMPA

O antropólogo Roberto Da Matta, em sua obra Universo do Carnaval: imagens e reflexões, traz a obra de Bakhtín ao encontro da realidade brasileira. Se não há uma inversão completa da ordem, é o momento em que os mais pobres, organizados, invadem o centro da realidade, estabelecendo um “mecanismo de liberação provisória das formalidades controladas pelo estado e pelo governo”. Durante o carnaval, há toda uma encenação em que se desmancham as subordinações – os pobres vestem ricas e escandalosas fantasias tomando o lugar da elite –, em que há outras inversões de papéis – homens travestindo-se de mulheres e vice-versa — e a celebração da abundância – de riqueza, de brilho, de música, de dança, de energia – em contraposição à rotina e à austeridade. Voltando à Bakhtín: “É a violação do que é comum e geralmente aceito; é a vida deslocada do seu curso habitual”.

Evandro Oliveira / PMPA
Evandro Oliveira / PMPA

A Igreja Católica defendeu por muitos anos que a festa surgiu a partir da implantação da Semana Santa, no século XI. A Semana Santa ou, mais exatamente, a Sexta-feira Santa, é antecedida pela Quaresma, período de 40 dias que começa exatamente na Quarta-feira de Cinzas. A Quaresma seria um longo período voltado à reflexão e onde os cristãos se recolheriam em orações e penitências a fim de preparar o espírito para a chegada do Cristo ressurreto. Mas, antes, festa total! O longo período de privações teria incentivado as festividades nos dias anteriores à Quarta-feira de Cinzas. A palavra “carnaval” estaria também relacionada à ideia dos prazeres da carne e a etimologia vem a nosso auxílio: carnaval deriva da expressão carnis valles, carnis significa “carne” em latim e valles significa “prazeres”. Então, se há a devoção a Cristo, antes há a devoção aos prazeres da carne. E não é nada de espantar a nudez das pessoas durante o período…

A passagem de uma data para outra, do Carnaval para Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, foi tema para o grande Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569) no quadro A Luta entre o Carnaval e a Quaresma (1559), onde são mostrados dois grupos frente a frente, o dos penitentes e o carnavalesco. É curioso notar que a genial gravura confronta dois grupos diversos e não uma mudança de postura das mesmas pessoas. Se há realismo no quadro do flamengo, havia dois grupos, o dos festeiros e o dos religiosos. À direita, vem o grupo de religiosos; à esquerda, o de carnavalescos.

fight-between-carnival-and-lent-1559

Acima, ‘A luta entre o carnaval e a Quaresma’, obra de Pieter Brueghel, O Velho. Clique na imagem para ampliar.

O dia anterior ao fim do Carnaval é a Terça-feira Gorda, em francês Mardi Gras, nome do Carnaval de New Orleans.

No Brasil e em todo o mundo onde há Carnaval, são verificadas características das manifestações antigas. O que são os trios elétricos senão cortejos que carregam milhares de pessoas que cantam, dançam e bebem numa verdadeira celebração dionisíaca? O que é o desnudamento aliado à luxúria, garantindo um cenário altamente propício à liberdade sexual, senão o clima tão bem descrito em Concerto Barroco, romance histórico do cubano Alejo Carpentier que se passa na Veneza de Vivaldi (no início do século XVIII)? Tais excessos, que normalmente acabavam em grandes orgias eram condenados pela Igreja, mas arrebatavam a nobreza. Bakhtín chama de “realismo grotesco” tal conjugação de materialidade e corpo, onde as satisfações carnais (comida, bebida e sexo) têm lugar de destaque.

Ramiro Furquim / Sul21
Ramiro Furquim / Sul21

Apesar da Quaresma ser quase desconhecida e pouco sentida em nossos dias, a catarse coletiva, o exagero e os efêmeros dias de festa contínua seguem e certamente seguirão por séculos. Na “sociedade do espetáculo”, como diria Guy Debord, o Carnaval se transforma em desfiles monumentais transmitidos pela TV, onde o que se vê é ainda o exagero, a troca de papéis e as alegorias e paródias que vêm desde há 10.000 anos, quando os homens afastavam os maus espíritos de suas plantações através de máscaras. A catarse atual não ocorre depois do longo inverno do hemisfério norte, nem é causada pela perspectiva de um longo período de penitência, mas é a data estabelecida no imaginário popular como a do verdadeiro início do ano, depois da qual tudo volta ao normal, entronizando finalmente o cotidiano que reina pelo resto do ano. Muito pensadores marxistas veem o carnaval como uma válvula de escape para as tensões do cotidiano, permitida, controlada e estimulada pelos grupos dominantes a fim de, depois, manipular e reforçar a ordem vigente, mas não sejamos tão revanchistas no dia de hoje. Dioniso não ficaria feliz.

Mato substitui flores na Ospa

Mato substitui flores na Ospa

Há um ano havia flores. Eram magníficas. Mas agora só vemos mato. Ele está presente nas doze fotos tiradas por nosso intrépido fotógrafo Guilherme Santos, o qual invadiu a floresta ospiana apesar dos 3 cachorros que habitam o local. As feras são de propriedade de um cuidador de carros que mora dentro de um veículo estacionado ao lado do portão da futura (?) sede da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Além dos cães, o morador possui um amigo humano, um companheiro. No momento das fotos, enquanto um cuidava dos carros, o outro encontrava-se cozinhando uma gostosa refeição dentro do alojamento dos operários que trabalhariam no local.

Nosso brioso fotógrafo não teme vento nem tempestade. Ele ri da intempérie e faz pouco da Brigada Militar, mesmo quando das reintegrações de posse ou manifestações. Mas tem medo de cachorros. Nem ousou registrá-los. Trêmulo, disse-me que um deles ergueu suas orelhas e ficou parado, observando seu trabalho. Deve ter sido aterrador.

Foi o modo que encontramos de falar sobre a Ospa dos últimos 20 dias. Se a música capenga, o mato viceja.

Com nosso governador Polentón da Massa e seus cortes de gastos e congelamentos de salários, quero ver tirar o mato de lá.

Abaixo, o belo trabalho de Guilherme.

Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
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Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
Guilherme Santos / Sul21
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Guilherme Santos / Sul21

Bom dia, Diego Aguirre

Bom dia, Diego Aguirre
Com o cabelo, Valdívia esconde a bola de um mexicano |Alexandre Lops
Com o cabelo, Valdívia esconde a bola de um mexicano |Alexandre Lops

Uma mui distinta senhora, amiga de anos, escreveu no inbox do Facebook que teve uma caganeira durante o segundo tempo do jogo de ontem. Uma caganeira, Aguirre. Veja o que o futebol faz com as pessoas.

Vamos para o México com uma vantagem diminuta. Sabemos que tu gostas de contra-atacar, então tens aí uns dias para armar teu time naquele estilo Peñarol-like: fechadinho, saindo de trás rapidamente. O Tigres é muito bom time. Sabe armar e defender-se, além disso, faz tudo com fluência. O time é alto e forte. Sóbis e Gignac são estupendos lá na frente. Já Nilmar parece ter sentido a parada. Sua velocidade será fundamental em Monterrey. Eles vão vir para cima, mas têm que ser punidos por nossa velocidade.

Ao final da partida, vi muita gente brocha com a vitória por escassos 2 x 1. O fato do Tigres ter jogado 30 minutos com 10 homens e ter não somente segurado o Inter, como também criado boas situações, deixou-nos muito incomodados no Beira-Rio. Mas, pensem bem, eu acho que jogamos demais tendo em vista os jogos imediatamente anteriores dos chamados titulares. O que me preocupa é o preparo físico. Ao final da partida, o Tigres é que parecia estar em maior número em campo. Isto pode resultar numa calamidade se pensarmos que a partida decisiva das semifinais será jogada sob os 30ºC noturnos de Monterrey. Também não entendi o ingresso de Rafael Moura. Se tínhamos 11 contra 10, não era hora de botar um centroavantão. Era hora de tocar a bola.

Mas o bom do futebol são as eventuais caganeiras, a absoluta indefinição que acaberá apenas na quarta-feira. O jogo decisivo é talhado para teu estilo, Aguirre, mas jamais diria que somos favoritos para passar. Muito pelo contrário; se passarmos, vou ficar tão agradavelmente surpreso quanto fiquei com aquele gol de Giuliano contra um Estudiantes muito superior a nós na Libertadores de 2010.

E o bom de ser colorado é ver confirmado nosso realismo nas redes sociais. Li várias pessoas dizendo que saíram do estádio com o gosto da eliminação da boca. Então, a única coisa que te peço é: surpreenda-nos, Aguirre! Boa caçada aos Tigres! Vá armado de forte marcação e fulminantes contra-ataques!

Os gols de ontem:

Lia e Belle

Lia e Belle

Cocker

Para Liana Bozzetto

Lia era uma respeitável e emotiva senhora de setenta e cinco anos que há dezesseis vivia com Belle, uma cachorrinha da raça cocker. Ela tinha cinco filhos que a visitavam raramente, ao passo que Belle nunca tivera uma ninhada, pois sempre vivera no pequeno apartamento acompanhada apenas por sua dona. Quem as conhecia sabia que se amavam. Belle seguia Lia onde quer que ela fosse, latia para os estranhos, pedia colo e, devido à pouca mobilidade de sua dona, engordava. Comiam a mesma comida, descansavam no mesmo sofá e dormiam uma ao lado da outra, Lia na cama e Belle no tapete, junto a um par de chinelos. As reclamações das dores da idade, da ausência dos filhos, das fofocas dos vizinhos, dos preços da farmácia e do supermercado eram acompanhadas atentamente por Belle com o olhar triste e compreensivo dos de sua raça.

Numa madrugada gelada, Lia foi ao banheiro (ia muitas vezes durante a noite) e notou não ter sido acompanhada por Belle. Ao retornar, procurou sua cachorra ao lado da cama. Belle estava tranqüila, de olhos abertos e morta.

A perda fez Lia sofrer como nunca. Nem quando seu marido faleceu sofrera tanto. O amor que sentia por aquele bichinho era imenso. Dependia daquele amor, assim como Belle dependia dela para comer e permanecer limpa, sem pulgas e perfumada. Porém Lia não desejava ser ridicularizada por amar tanto a um cão. Era cheia de pudores e discreta. Dessa forma, passou o primeiro dia fechada em casa, chorando e se perguntando sobre o que seria de sua vida sem a querida cachorra. Quando um de seus filhos lhe telefonou, procurou esconder o luto. O filho nada notou; ademais, não queria saber de nenhum problema que o fizesse perder tempo. Tudo o que desejava era que sua mãe estivesse bem e normalmente era atendido.

No segundo dia, bateram na porta. Era Dalva, a vizinha do lado. Ela tinha achado a casa de Lia muito silenciosa e resolvera bater. Lia sorriu:

— Não, Dalva, não morri ainda, mas Belle se foi.

Em resposta, a coetânea apenas perguntou:

— E o que vamos fazer com o corpo da coitadinha?

As duas velhas cuidavam uma da outra. Não que conversassem muito, mas davam-se bom dia e sabiam das rotinas e dos sons de ambas as casas. Acordavam cedo. Dalva ligava a TV; Lia, o rádio. Logo após o café, Lia ia comprar alguma coisa para o almoço no armazém, Dalva fazia o mesmo no final da manhã. Quando uma delas ia demorar na rua ou sair por uns dias, avisava a outra. À noite, o mesmo. Lia sabia que, quando a vizinha não desligava a luz da sala era sinal de que adormecera ali mesmo, no meio da novela. Lia via pouca televisão, gostava mais do rádio. Acompanhava o futebol, mas evitava a TV. Ficava nervosa.

Lia concordou, algo teria de ser feito com corpo de sua companheira, mas não sabia o quê. Enterrar no jardim? Dalva achou graça. Não, melhor levar para o hospital veterinário, eles enterram. Corajosa, foi rapidamente em casa, trazendo um saco plástico grande, preto, dos de lixo. Enquanto Lia, com os olhos umedecidos, escancarava a boca no saco rente ao chão, a vizinha erguia levemente o corpo do animal, pedindo-lhe para avançar. Dalva fez questão de um segundo saco. Lia estava agradecida à amiga pelo senso prático. Depois, acondicionaram o corpo na caixa de papelão que fora da TV do quarto, preenchendo os espaços vazios com jornais velhos. Fecharam tudo com fita adesiva e observaram a obra.

— Acho que está bom. Agora é só levar – disse Dalva.

Lia ficou sozinha com aquela caixa sobre a mesa da cozinha. Finalmente, saiu de casa com Belle. Era difícil carregar a caixa, a cachorra era pesada e ela precisava pegar um ônibus para ir ao hospital. Com esforço, chegou à parada. Apesar do casaco grosso, do blusão de lã, da camiseta de algodão, da caixa e dos jornais, parecia sentir nos braços o pelo de sua companheira de anos. Sob o olhar de má vontade do motorista, subiu no coletivo equilibrando-se e, por sorte, conseguiu um lugar para sentar e descansar. Ainda bem que, na sua idade, não precisava pagar. Podia entrar e sair pela porta da frente.

O ônibus estava cada vez mais lotado e Lia levantou-se a fim de ficar mais próxima à saída. Perto da porta, estava um rapaz bem apessoado e educado que se ofereceu para segurar o incômodo fardo até que o ônibus parasse. Lia aceitou e, com o olhar embaçado, confidenciou-lhe que, naquele volume, iam algumas de suas melhores lembranças. O olhar risonho do moço pareceu consolador à velha que, contida, lutava contra a emoção quando a porta do ônibus abriu e o homem simpático disparou correndo, carregando consigo as tais lembranças.

Algumas pessoas soltaram exclamações de indignação, o motorista proferiu alguns palavrões, porém Lia, fiel a seu estilo, não fez escândalo. Disse-lhes que não se preocupassem, sentou-se novamente e foi até o fim da linha, voltando para casa no mesmo ônibus. Pensava no homem, no roubo e na surpresa que ele teria ao abrir o embrulho. Tinha que contar aquilo para Dalva. Exibia discreto sorriso.

Republicado após uma revisadinha.

Explicando parte da genialidade de Van Gogh

Explicando parte da genialidade de Van Gogh

Self-portrait_with_Felt_Hat_by_Vincent_van_GoghVan Gogh teve uma vida marcada por fracassos. Ele falhou em todos os aspectos importantes para sua época. Foi incapaz de constituir família, custear a própria subsistência ou até mesmo manter contatos sociais. Aos 37 anos, sucumbiu a uma doença mental, cometendo suicídio.

A sua fama póstuma cresceu especialmente após a exibição das suas telas em Paris, em 17 de março de 1901.

Abaixo, um pequeno e divertido filme que dá ideia da genialidade do pintor.

Algumas gárgulas

Algumas gárgulas

As gárgulas são desaguadouros, ou seja, são a parte saliente das calhas de telhados que se destina a escoar águas pluviais a certa distância da parede e que, especialmente na Idade Média, eram ornadas com figuras monstruosas, humanas ou animalescas. O termo se origina do francês gargouille, de gargalo ou garganta.

Acredita-se que as gárgulas eram colocadas nas Catedrais Medievais para indicar que o demônio nunca dormia, exigindo a vigilância contínua das pessoas.

Gargula 3

Gargula 6

Gargula 1

Gargula 7

Gargula 8

Gargula 9

Gargula 4

Gargula 2

Gargula 5

Boa sorte quarta-feira, Diego Aguirre (com os gols e melhores lances de ontem)

Boa sorte quarta-feira, Diego Aguirre (com os gols e melhores lances de ontem)
Réver: Deus nãop teve nada aver com tua bela cabeçada | Foto: Alexandre Lops
Réver: Deus não teve nada a ver com tua bela cabeçada | Foto: Alexandre Lops

Réver fez seu gol e saiu agradecendo a Deus. Não sei a quem agradece quando toma gols ou perde. Mas ele, Réver, e Vitinho foram os melhores em campo na vitória do Inter contra o fraco Joinville, franco favorito ao rebaixamento neste 2015. O jogo de ontem pouco interessava, contudo está sendo usado como catalisador para o jogo contra o Tigres. É uma estratégia mística e aceitável no mundo esportivo. Sem chances no Brasileiro, só nos resta ficar fora do grupo dos cadentes, coisa que pode ser feita a qualquer momento, dada a ruindade do grupo. Fiquei feliz vendo Réver jogar bem e com força física. É nosso melhor zagueiro depois de Juan.

O que interessa mesmo é o jogo contra o Tigres na próxima quarta-feira. O departamento médico está esvaziando, mas há gente que recém voltou e que deve estar fora de ritmo de jogo. Acho que tu, Aguirre, colocarás Dourado e Aránguiz de volantes e sobrariam quatro vagas para esses cinco: D`Alessandro, Valdívia, Sasha, Nilmar e Lisandro López. Talvez possamos dizer que Dale e Nilmar estejam escalados por serem de nível superior aos restantes e então sobrariam duas vagas para serem disputadas por Valdívia, Lisandro e Sasha. Aposto nos dois primeiros. Creio que Anderson está fora dos cogitados para iniciar a partida, assim como Réver. O fundamental é que o Sobrenatural de Almeida jogue do nosso lado e que Jorge Henrique assista o jogo da arquibancada.

Ontem, a máquina do Flamengo, que nos destroçou no Beira-Rio, perdeu por 3 x 0 do Corinthians. Isso em pleno Maracanã. Nossa façanha foi perpetrada pelo time titular. Quarta-feira, uma semana depois, temos que esquecer o passado recente e ver o jogo como uma continuação das disputas contra o Atlético-MG e o Independiente Santa Fe. Sim, não será fácil, vamos ter que fazer pegar no tranco um carro cuja bateria parece estar sem carga. A torcida e o feitiço da Libertadores será fundamental para dar força e entusiasmo a uma equipe que tem surgido combalida e sem espírito de competição.

Perdemos o favoritismo, mas a taça ainda está lá, nas mãos de ninguém, Aguirre.

Breve registro de um recital inesquecível de André Carrara

Breve registro de um recital inesquecível de André Carrara
Eu e Elena no recital de André Carrara | Foto: Augusto Maurer
Eu e Elena no recital de André Carrara | Foto: Augusto Maurer

Não há exagero no título. Na última quinta-feira (9), no inacreditável horário das 17h30, assistimos o recital do pianista André Carrara no Auditório Tasso Correa, do Instituto de Artes da Ufrgs. Para os padrões do local e apesar do horário, tinha muita gente na plateia. Foi uma noite que poderia ser chamada de europeia. Um recital impecável, seguido de um esplêndido jantar. Mas esqueçamos do jantar por ora. Quem conhece Carrara e suas interpretações de Chopin, largou o que estava fazendo e foi até o centro de Porto Alegre para ver de perto.

Em seu recital, ele interpretou, nesta ordem, os quatro Improvisos, os quatro Scherzi e as quatro Baladas do compositor polonês Frédéric Chopin (1810-1849), ícone do piano romântico. São três coleções bem distintas e que compuseram um concerto de crescente densidade emocional.

Chopin era um romântico inovador. Trabalhou novas formas musicais como a Balada, a Polonaise, o Noturno, o Improviso, o Estudo, etc. Carrara deu personalidade clara e própria a cada quarteto de peças. Em um recital que nunca abandonou o mais alto nível, o grande destaque foram as Baladas. A poetisa Orides Fontela devia estar presente ali, pois me vieram à mente suas palavras:

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta

Teve gente bem próxima a mim que chorou. Depois do recital, enquanto jantava, eu refletia sobre a heterogeneidade dos músicos da Ospa, pois, ao lado de Carrara e outros grandes instrumentistas, há outros que têm relações infantis com seus instrumentos. Imaginem que Carrara tocou tudo de cor, sem recorrer a partituras!

Não sou um grande adepto do romantismo, mas há casos em que somos convencidos de nossos erros de forma tão cabal que só nos resta a vergonha. Na última quinta-feira, Carrara fez nossa noite, nosso dia e nossa semana e seria injusto que eu, que publico tanta besteira, não escrevesse estas linhas sobre aqueles sublimes 90 minutos que ecoam até agora.

Como disse Carrara nesta entrevista: “O repertório erudito é música para ‘gente grande’. Para ser apreciado, exige um estado reflexivo que está sendo cada vez mais esquecido. Estamos muito reativos e pouco reflexivos. Tem um sentido expressivo na música que estamos perdendo”. Recuperamos algo deste sentido na última quinta-feira.

Carrara mandando bala no IA | Foto: Augusto Maurer
Carrara mandando bala no IA | Foto: Augusto Maurer

Top 10: Os melhores filmes do ano

Top 10: Os melhores filmes do ano

Publicado no Sul21 em 28 de dezembro de 2014

Foi com certo esforço que selecionamos os dez melhores filmes de 2014. Conversamos com diversas pessoas da área e a conclusão geral era a de que fora um ano muito fraco. Foi complicado chegar ao implacável número dez. Então, podemos dizer que selecionamos oito filmes e colocamos dois intrometidos no final.

Para nossa sorte, A Grande Beleza estreou em 17 de janeiro de 2014. O italiano forma o pódio com outros dois excelentes filmes, o argentino Relatos Selvagens e  o indiano The Lunchbox. O cinema brasileiro está na lista com três filmes: o gaúcho Castanha, o suspense O Lobo Atrás da Porta e documentário Os Dias com Ele. Os três foram pouco vistos, infelizmente.

Segue a lista:

~ 1 ~
A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

A Grande Beleza
A Grande Beleza é uma ressurreição — quiçá efêmera — do cinema italiano. Trata-se de uma estupenda releitura tanto de A Doce Vida, de Federico Fellini, como de A Noite, de Michelangelo Antonioni, transposta para a berluscolândia atual, palco do vazio e do carreirismo. Há dois lados no filme: o desconsolo, a necessidade de arte, sentido e inspiração que sente o debochado escritor Jep Gambardella (Toni Servillo) e a vida dos novos ricos e quem eles exploram, um leque do que há de pior na elite romana, maculando o cenário milenar da cidade. O formato vertiginoso escolhido pelo diretor Sorrentino cabe perfeitamente para contar a história do escritor Gambardella, que reflete sobre sua vida durante um verão romano. Com 65 anos de idade, não concluiu nenhum outro livro desde o grande sucesso do romance O Aparelho Humano, escrito há décadas. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e privilégios da fama. Um dia, fica desorientado, chafurdando no tédio e na nostalgia. Quando lembra de sua juventude, Jep pensa finalmente em mudar sua vida. Talvez saia do vácuo e volte a escrever. Um tremendo filme.

~ 2 ~
Relatos Selvagens, de Damián Szifron

ricardo darin
A distância entre o cinema e a arte em geral brasileira e argentina talvez nunca tenha sido tão grande. Basta comparar qualquer comédia nacional com o humor sofisticado e inteligente deste que é o filme de maior sucesso comercial argentino dos últimos anos. Nada de flatulências ou eructações como em nossas comédias globais, apenas bom roteiro, direção, atores, etc. São histórias simples sobre fatos rotineiros que por isso provocam identificação quase imediata. Com ironia, Szifron faz um comentário tão inteligente quanto engraçado sobre a falta de civilidade e a selvageria urbana. São personagens unidas pelo fato de estarem fora de controle, dispostas a fazer justiça pelas próprias mãos: um músico reúne todos os seus inimigos em um só lugar, uma garçonete que tem a chance de se vingar do homem que arruinou sua família, uma briga de trânsito, um engenheiro indignado com uma multa indevida e a burocracia sem limites, um milionário que tenta livrar o filho da cadeia, uma noiva que descobre a traição do marido. E um filme espetacular.

~ 3 ~
The Lunchbox, de Ritesh Batra

The LUNCHBOX
Os Dabbawalas indianos são as pessoas, que fazem parte de um complexo sistema de entrega que recolhe marmitas de comida recém feitas pelas esposas no final da manhã e faz a entrega aos maridos no horário de almoço, em seus locais de trabalho. São utilizados vários tipos de transporte, com predomínio de bicicletas. As marmitas retornam vazias para as esposas ao final da tarde. É considerado um sistema infalível, onde circulam milhões — sem exagero — de refeições diariamente. The Lunchbox recebeu, compreensivelmente, Prêmio do Público no Festival de Cannes de 2013. Uma entrega equivocada coloca em contato uma jovem dona de casa e um desconhecido já no fim da vida. Ela enviara quitutes especiais para o marido, porém, quando este chega em casa, não comenta nada. No dia seguinte, ela envia um bilhete junto com a refeição e recebe outro, só que de um estranho. Então, começam uma inusitada troca de mensagens nas marmitas. A conversa é cheia de interesse humano. Filme delicado e cheio de detalhes.

http://youtu.be/RZdpPui8DqY

~ 4 ~
Castanha, de Davi Pretto

castanha-pedro-cupertino-2
O ator João Carlos Castanha tem 52 anos, trabalha no teatro, faz participações em filmes e, à noite, se apresenta em boates gays de Porto Alegre como transformista. Vive com a mãe, Celina, de 72. Dia após dia, João passa a confundir a realidade que vive com a ficção que interpreta. Este é o mote e a marca do filme, que tem as situações da vida do ator — vividas ou imaginadas — como roteiro do documentário ficcional. A linha entre o real e o possível é delineada de forma fluida, e a intenção do diretor, Davi Pretto, não é deixar claro o que do que está na tela realmente aconteceu. Complementam o dia-a-dia de filho e mãe a morte como fantasma presente na figura do pai, internado em um asilo, e a do sobrinho viciado em crack, que interfere na rotina dos dois. (Roberta Fofonka)

~ 5 ~
Boyhood: Da Infância à Juventude, de Richard Linklater

boyhood
Para gravar Boyhood, o diretor Richard Linklater trabalhou doze anos, acompanhando o crescimento do ator Ellar Coltranem, que interpreta o protagonista do filme. Ele gravou poucos dias por ano com o elenco, a fim de contar a história do menino que cresce em meio à separação dos pais, dos cinco aos 18 anos de idade. Mesmo se não fosse muitíssimo aclamado pela crítica, ainda valeria a pena ser visto pela sua forma de filmagem peculiar. Feito de maneira inédita, o filme ainda tem o mérito de retratar com verossimilhança a passagem do tempo e as mudanças que ela provoca, tanto no âmbito coletivo e político (ao mostrar a evolução dos celulares e tecnologias com o passar dos anos, por exemplo), quanto no âmbito particular. (Débora Fogliatto)

~ 6 ~
O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

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Um excelente e surpreendente thriller de suspense brasileiro, gênero praticamente ignorado no país. Talvez Hitchcock ficasse em dúvida entre chamar o filme de um whoduint (ou who done it?, quem fez isso?) ou de um macguffin (filme onde onde todos procuram o alguma coisa, apelidado de macguffin), pois O Lobo é tanto um quanto o outro. Quem fez o sequestro? Onde está a menina? Uma criança é sequestrada, o que faz seus pais, Bernardo (Milhem Cortaz) e Sylvia (Fabiula Nascimento), irem até uma delegacia. O caso fica a cargo do delegado (Juliano Cazarré), que resolve interrogá-los separadamente. Logo descobre que Bernardo mantinha uma amante, Rosa (Leandra Leal), que é levada à delegacia para averiguações. A partir de depoimentos do trio, o delegado descobre uma rede de mentiras, amor e ciúmes. Há drama nas cenas entre os pais e comédia nas cenas da delegacia. Grande final. Extraordinária estreia em longa metragem do diretor Fernando Coimbra.

~ 7 ~
Ninfomaníaca I e II, de Lars von Trier

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É uma convenção — é até chique — falar mal de Lars von Trier, mas o criador de Ondas do Destino, Dançando no Escuro, Dogville, Anticristoe Melancolia é um enorme e provocativo artista. E ele não chega de outra forma com este Ninfomaníaca. Os cartazes são impressionantes, o marketing associado é muito diverso do habitual, mas talvez as exigências do diretor sejam ainda mais: ele exigiu que os atores praticassem as relações sexuais do filme e não apenas as simulassem. Um filme erótico? Ora, a crítica do The Guardian tem uma frase que resume bem esta faceta: Contains sex in abundance, but is often rigorously unsexy. O Volume 1 tem duas horas, o 2, outras duas. A exibição integral, de seis horas, só foi vista no Festival de Berlim. Joe (Charlotte Gainsbourg na maturidade, Stacy Martin na juventude) confessa-se a Seligman (Stellan Skarsgard), que a encontrou desacordada e ferida num beco. Ela se vitimiza ao contar sua história de vida, ele é racional e age como um terapeuta sem sê-lo. O distanciamento e certos aspectos burlescos produzem não somente espanto, mas reflexões de que, na verdade estamos assistindo a um filme sobre… Bem, vá e veja!

http://youtu.be/Bd5dnx-eAgA

~ 8 ~
Os dias com ele, de Maria Clara Escobar

os dias com ele
Os dias com Ele, de Maria Clara Escobar, é um grande documentário. A cineasta tenta fazer um filme com seu pai, Carlos Henrique Escobar, intelectual auto-exilado em Portugal, com quem teve uma relação mínima. Nesse filme, a diretora quer resgatar a memória da ditadura em seu pai, relacionando-a com a memória ausente da relação dos dois. Logo na primeira cena, as regras do jogo se esclarecem: Carlos afirma não querer fazer uma entrevista convencional; Maria Clara, fora de quadro, tenta guiar o pai para conseguir o que deseja. Ao aviso da realizadora, seu pai, assume uma personagem, formal, articulada, fria — o intelectual que Maria Clara quer derrotar para alcançar seu pai. Carlos não quer fazer o filme proposto por Maria Clara; e esta não quer o filme que seu pai está disposto a fazer. Os dias com Ele é uma luta em pai e filha, o conflito é o motor de condução do filme. Assim, o filme parte da força dessas duas personagens que vão pouco a pouco mostrando suas armas, questionando-se mutuamente, expondo-se, colocando em perigo a existência do filme.

~ 9 ~
Mommy, de Xavier Dolan

mommy
Canadá, 2015. Diane Després (Anne Dorval) é surpreendida com a notícia de que seu filho, Steve (Antoine-Olivier Pilon), foi expulso do reformatório onde vive por ter incendiado a cafeteria local e, com isso, provocado queimaduras de terceiro grau em um garoto. Mãe e filho voltam a morar juntos, mas Diane enfrenta dificuldades devido à hiperatividade de Steve, que muitas vezes se torna agressivo. Os dois apenas conseguem encontrar um certo equilíbrio quando a misteriosa vizinha Kyla (Suzanne Clément) entra na vida de ambos. A trama se passa em um Canadá fictício, onde uma lei permite que pais infelizes com o comportamento de seus filhos problemáticos, possam interná-los em um hospital. O diretor Dolan é um fenômeno: de apenas 25 anos de idade, já conta com seis longas-metragens. No Festival de Cinema de Cannes de 2014, o jovem realizador foi não só o mais jovem da competição, como também foi uma das grandes sensações. Conquistou o Prêmio do Juri e teve a maior ovação do público, sendo aplaudido efusivamente de pé.

~ 10 ~
Filha Distante, de Carlos Sorín

dias de pesca
Carlos Sorín retorna com mais um belo filme. Autor de Histórias Mínimas e O Cachorro, o diretor volta à Patagônia neste Filha Distante, confusa tradução do título original argentino Días de Pesca. Marco Tucci (o excelente Alejandro Awada) é um homem de 50 anos, que está largando o álcool e que decide viajar à Patagônia para reencontrar a filha Ana (Victoria Almeida). Nesta tentativa de restabelecer os vínculos familiares, Tucci procura a filha, pesca em cenário belíssimos da região e acaba por… Os sofrimentos passados são sutilmente destacados. Há uma cena absolutamente tocante em que Alejandro canta uma ária que habita a memória da filha. Mas não espere grande arroubos. Sorín é um cineasta e roteirista sutil, que narra suas histórias de forma quase silenciosa.

Bom dia, Diego Aguirre (veja os gols e melhores lances do novo fiasco)

Bom dia, Diego Aguirre (veja os gols e melhores lances do novo fiasco)
Ei, vai devagar pra não te machucar!
— Ô rapaz, vai devagar pra não te machucar!

Aguirre, saiu barato o 2 a 1 para o Flamengo ontem à noite, muito barato. Nosso destreinado e desembocado time titular tomou um baile de uma equipe que ocupava a zona de rebaixamento e que agora está à frente do Inter pelos critérios de desempate, pois tem mais vitórias. Bem, e devemos descer ainda mais no próximo domingo, quando entraremos em campo novamente com a baba para perder em Joinville. Será a quarta derrota consecutiva.

O presidente Píffero convidou todos os torcedores foram ontem ao jogo para assistir o próximo jogo do Inter no Beira-Rio, dia 18, contra o Goiás, de graça. “O de hoje não valeu. Não jogamos”, desabafou. Não muda nada, os pontos estão perdidos, mas o presidente admite nossa debilidade atual.

Não jogamos nada, estamos fora de ritmo e o favoritismo que tínhamos foi pras cucuias. Vi o Tigres atuar e, se não houver uma verdadeira revolução e um apoio alucinado da torcida, iremos a Monterrey para cumprir tabela, talvez com os reservas, como tu tanto gostas, Aguirre.

É a mesma receita aplicada recentemente pelo Abel: preservar para perder. Não entendo o Barcelona, o Real e o Bayern. Por que jogam sempre com os titulares? Querem matar os jogadores?

Agora, a pressão para vencer a Libertadores será enorme. Se perdermos, vamos tentar um campeonato de recuperação para chegar novamente ao G-4, tarefa complicadíssima para um time que está num patamar tão baixo. Na minha opinião, as únicas partidas que justificam a utilização de reservas são aquelas imediatamente anteriores a um jogo da Libertadores. Jamais esperaria ver atletas preservados durante a folga da Taça.

No jogo de ontem, Dourado sentiu o adutor — mais uma comprovação de que há problemas no preparo físico — e Rafael Moura entrou no lugar de Allison Farias. Não vi ainda dois centroavantes darem certo, a não ser que um deles seja hábil e generoso para com o outro. Sabe-se que os caras desta posição são normalmente egoístas e até devem ser assim.

O resultado de tanta bobagem acumulada, Aguirre, é que vamos entrar nervosos e sob a desconfiança da torcida na próxima quarta-feira. E será um dia de provável radicalismo, seja para o lado que for.

Boa sorte.

https://youtu.be/W54eWp9oENo