O Marabá está morto

Não há quase mais cinemas de rua em Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram em shoppings ou em Centros “Culturais”. À noite, não se vê mais placas luminosas de letras quase sempre tortas ou faltantes anunciando filmes. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Já faz tempo que desapareceram aquelas imensas salas em que funcionários com lanterninhas nos indicavam os lugares livres, pois lotavam… A televisão, o VHS, o DVD, o Now, o Netflix, aliados à falta de espaço, de tempo e charme transformaram nossas salas em coisas diminutas e bonitinhas, mas com pouco a mostrar na tela. Os filmes mudaram, tornaram-se infantis, acelerados, meio bestas. Suas fórmulas passaram a se repetir como os sapatos à venda nos shoppings e alguns são criados como em série, como Big Macs.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. Ou no bairro mais próximo a ele, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era frequentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, fora construído para passar reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que lá vi foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e — como esquecer dos gritos da mocinha? — A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém por lá enlouqueceu por lá e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões — uma iniciava às 14h e outra às 20h — mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana (*), de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão “programa duplo”. É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao lúgubre Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h; formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) em direção ao cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, muitas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada; quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto em frente a sua casa, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo — afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá — ou em duas, mais precisamente — que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa… Voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey) e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), evento que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição. Ou seja, a glória do Marabá, um cinema de 1800 lugares fundado em 1947, era sua agonia, a agonia de um querido dinossauro.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre e também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos o egoísmo do DVD, resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, nem a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem — perversão minha — o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos automóveis e pelos gritos dos manobristas.

(*) Aquele Viridiana tinha uma curiosidade que muito nos fez pensar. O filme começava com todos os atores falando espanhol, depois, subitamente, todos aderiam ao francês. Só as legendas permaneciam na língua de Camões. Alguns espectadores desejavam discutir esta característica do filme. Descobrimos depois, conversando no saguão do cinema, que houvera uma troca de rolos por parte da distribuidora e que naquele momento, em Recife, talvez Fernando Monteiro estivesse vendo o filme com sua primeira metade em francês e a segunda em espanhol.

A Cel. Genuíno hoje. Ela é a da direita.

30 comments / Add your comment below

  1. Baita inveja do teu querido Marabá, Milton. O dono desse cinema assumiu algum cargo público ligado à cultura, no teu Rio Grande? O bicho deveria ser nome de rua, estátua em praça pública. Sei lá!
    Curiosidade: Milton, você conhece a origem da palavra Marabá? Provém do tupi, e significa: mestiço de francês com índia; filho-das-ervas; filho de pai desconhecido: filho da puta! Engraçado, não? A língua sempre a nos pregar peças.
    Voltando. Os cinemas da minha adolescência-juventude foram todos da zona leste paulistana: “Piratininga”, “Aladim”, “São Luis”, São João”, “São José”, “Roxi” etc. Certamente, nenhum deles se aproximou da programação de teu Marabá. Por outro lado, todos tiveram destinos semelhantes ao teu Marabá. A maioria virou templos evangélicos ou, simplesmente, puteiros! Por exemplo, o ex-cine Roxi, durante muito tempo, foi a sede mundial da “igreja universal do reino de deus” (quando o Bispo era bispo!). Outro fato a ressaltar é que todos eram do tamanho do teu Marabá: 1800-2000 lugares! E o trágico é que, praticamente, não há teatros na periferia de São Paulo.
    Agora pensando com os meu botões, todo esse processo de degradação cultural se deu durante a ditadura, principalmente nos anos 70, e foi finalizado, nos 80, com o aparecimento dos colossais manicômios metropolitanos: os shoppings da vida!

    É, meu caro gaúcho, somos sobreviventes nesta terceira guerra mundial que já começou: a guerra da desinformação!!!!!

  2. Aproveitando aí a nota do rodapé, lembro também o ti-ti-ti sobre a mistura de cenas coloridas e em p&b no “Um Homem, Uma Mulher”. Boa parte da crítica dizia que havia uma conotação psicológica nisso tudo, onde a cor respeito à extroversão e o preto e branco tinha a ver com profundidade existencial. Até o Lelouch dizer, em entrevista, que rodou colorido até onde o dinheiro deu, e então completou com película p&b. Parece que teve crítico que até mudou de profissão depois dessa. 🙂

  3. Flávia: vingativa! :¬)))

    Ramiro: filho de pai desconhecido? Curioso. Tais filhos são podem ser FDPs, mas nem sempre, né?

    Beijo e abraço.

  4. Nada disso, Milton: exigente. E principalmente: aquela que conversa.
    Meu nome é reciprocidade. Meu conversar é recíproco na definção. Pergunte ao poeta… (e a alguns outros blogueiros)
    E tb estou bem ocupada hj, teria que entregar um artigo amanhã. estou bem atrasada, pq escrevi muitos comentários para vc…
    vingativa, não. exigente sim, chantagista, sim
    pensei algumas coisas sobre seu post. mas não sei se lhe interessa…
    KKKKKK

  5. Miltones, quando estive aí dei uma cirandada por um desses centros culturais e vi o “Farenheit 11/09”. Acabei gostando, mesmo porque, cinema de rua só lembro do meu tempo de ver “O cangaceiro trapalhão” no cinema de bairro perto da minha casa, nos anos 80. Quanto ao mais vc chamou minha atenção para uma infeliz e involuntária referência no título do meu último post ao caso Isabella.

  6. tb veja a música de julio reny http://www.youtube.com/watch?v=p6COZcnZ20E

    CINE MARABÁ
    No cinema Marabá
    Ali sentado urubu, logo depois surgir Sartana
    Com seus dois Colt 45
    Despachando todo mundo,
    Para o inferno eu dava um soco na cabeça do calmo(?)
    E era aquele rolo, aquele rolo, aquele rolo,

    No cine Marabá, no cinema Marabá.

    Às vezes aparecia na grande tela uma bela loira, bebendo um drink
    E a garotada toda delirava, suava, delirava
    Quando o lanterninha se lembrava que a gente tinha
    quebrado o pau na primeira sessão
    e despachava nossa turma pro meio da rua

    No cine Marabá, no cinema Marabá.

    Com meus bolsos cheios de balas
    E a minha inseparável funda calibre 32
    eu era o pistoleiro mais rápido da cidade

    Os duelos do Marabá
    Os duelos do Marabá
    Oiga tchê!

    Bandos de mocinhos todos remendados jurando vingança
    Os mortais (?)batiam palmas,
    E o assoalho tremia, tremia
    Mas que azar pra mim porque eu sempre torcia pelo o bandido
    Acabava eu, o mexicano feio, apanhando do Giuliano Gemma

    No Cine Marabá
    No Cinema Marabá

    Já saindo com bolso vazio, mas a mão na cintura e a cara de mau
    Todo mundo se achando o tal
    e pensando que ainda era o mocinho do último filme

    Mas a janta, na segunda a escola,
    E esperar pelo domingo para recomeçar tudo de novo.

    No Cine Marabá
    No Cinema Marabá
    No velho Marabá
    No velho Marabá

  7. Este teu texto me trouxe belas lembranças de minha infância e adolescência, Milton. Na cidade em que cresci haviam dois cinemas, ambos transformados em centros comerciais, mais tarde. Mas na cidade vizinha, Mafra, havia o cine Emacite, uma sala imensa, talvez 1000 poltronas, isso numa cidade que não tinha ainda 20 mil habitantes. Nosso programa do domingo de tarde eram as matinés, sessões duplas que começavam as duas horas, mas não havia intervalo entre as sessões, pois a segunda passava logo em seguida à primeira. Era o tempo de ir ao banheiro, tomar água, comprar bala. E para quem fumava, claro, apesar de que na época não haviam tantas restrições com relação ao cigarro. O pessoal acendia seus cigarros no meio da sessão, sem maiores problemas.
    Confesso que eu fazia parte de uma turma que costumava infernizar os lanterninhas. Guerras de balas eram comuns. Um dos filmes sempre era de artes marciais de Hong Kong, (O Dragão de Xao Lin contra alguma coisa) e um faroeste (Trinity, Santana, Django, Dólar Furado, os famosos westerns – spaghettis). Os lançamentos passavam na sessão da noite. Lembro-me de que quando foi lançado o Gandhi, do Atenbourogh, tiveram de fazer sessões extras, pois creio que a cidade inteira veio assistir. Esta sala foi fechada, virou igreja, mas tive a grata surpresa de saber algum empresário a reabriu.
    Quanto aos cinemas do centro de São Paulo, frequentei muito as salas do Olido, ali no Largo do Paissandu, a Sala São Luiz (imensa) na av. do mesmo nome, e a maioria dos cinemas ao redor deste centro velho, como o Cine Ouro, Roxy, entre outros, tinham sessões corridas de filmes pornôs, ou então resgatavam cópias dos filmes do Mazaropi. Isso no final dos anos 80 e início dos 90. Não sei o que aconteceu com elas. Agradeceria se me informassem, pois saí de São Paulo há 18 anos.

  8. Milton

    O Marabá passou a exibir filmes mais categorizados depois que foi reformado, acho que em 1970. O seu vizinho Capitólio também foi reformado e melhorou a qualidade dos filmes, mas mudou o nome para Premier. Havia também o Avenida, na João Pessoa, e o Garibalbi (mudou o nome para Premier), na Venâncio Aires, que foram igualmente reformados e e melhoraram as exibições. Não esqueçamos do Baltimore, na Osvaldo Aranha, que passou pelo mesmo processo. Infelizmente, todos morreram e nos deixaram na saudade.

  9. Que belíssimo texto!
    Emocionante.
    E o pior é que esse não é um fenômeno isolado. No Brasil inteiro, os cinemas sucumbiram – quem não virou templo da Igreja Universal, virou da Igreja Renascer.
    Em São Luís-MA não foi diferente. Hoje, se você quer ir ao cinema, tem que ir ao shopping – e ali só passa blockbuster. Cinema de arte nem pensar. Bons tempos aqueles!
    Abração, Milton – e parabéns pelo ótimo blog (se tiver um tempinho, por favor, dê uma passada no jazz + bossa prá conhecer, ok? O endereço é: http://www.ericocordeiro.blogspot.com )

  10. Muto bom o texto! Me fez lembrar de minha infância e de um filme que me marcou muito e que assistí no Marabá. No filme o sol era roubado pela bruxa do norte. Nunca consegui saber o nome e se conseguiria rever mas fiquei muito impressionado na época.

  11. Tenho 54 anos e passei boa parte da adolescência assistindo as sessões duplas ( nos domingos) no cine Marabá. Aliás, fiz os dois primeiros anos do então curso primário no Grupo Escolar Rio de Janeiro, que ficava ao lado do cinema (também não mais existe). Voltando às sessões de cinema aos domingos, começava às 14 horas com intervalo de cerca de 10 ou 15 minutos entre o primeiro e o segundo filme. Muitas vezes, no intervalo, atravessávamos a rua e comprávamos sorvete na sorveteria que ficava em frente. O cinema não primava pelo conforto, com os encostos das poltronas ainda de madeira. E se você sentasse na poltrona ao lado do corredor, via durante a projeção do filme ratos passarem entre as filas. Por isso, muitos assistiam com os pés levantados.
    Na verdade, o cinema funcionou até 1979 (fui com a minha mãe, em uma espécie de despedida, em uma das suas últimas sessões), os últimos três anos meio no arrasto. Era um cinema enorme que passou os seus dias derradeiros ocupado por 20 ou 30 pessoas em cada sessão.

  12. Puxa, Milton, como tem nostálgicos nessa cidade. Um daqueles debiloides que vivem falando em nicho de mercado, deveriam pensar em recriar um cinema de rua com programas duplos. Toda essa gente que comentou teu texto e eu, é claro, iríamos encher esta sala, é claro, desde que não fosse do tamanho do Marabá ou do Castelo. Aproveitando a onda, a primeira vez que fui no Marabá foi para ver um filme argentino sobre um cara que jogava na seleção deles. Me lembro do apelido do jogador. “Come Unha”, porque roía as unhas. O Goida, com seus arquivos implacáveis, talvez saiba o nome do filme. Programa duplo, o América, no fim da linha do bonde IAPI, também tinha todos os dias. Vi lá muitos bons filmes com o meu falecido amigo, o ator e dramaturgo Enio Gonçalves.

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