Porto Alegre, beira do Guaíba, hoje

O novo prefeito saúda seus eleitores.

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A genial ‘Modesta Proposta’ (1729), de Jonathan Swift – Texto Completo

Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para torná-las benéficas para a República

Tradução de Helena Barbas

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É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola.

Estas mães, não sendo capazes de trabalhar para angariar honestamente a vida, vêem-se forçadas a gastar todo o tempo que têm a andar por ali, a mendigar o sustento para os seus filhos desprotegidos. E estes, depois de crescerem, ou se tornam ladrões por falta de trabalho, ou abandonam o seu querido país natal para se irem alistar num exército inimigo, ou se vendem como emigrantes para os Barbados.

Penso que todos os Partidos Políticos estão de acordo que este número prodigioso de crianças – nos braços, às costas, ou aos calcanhares das mães, e frequentemente dos pais – na atual e deplorável situação desta república, é uma lástima enorme e suplementar.

Portanto, quem quer que possa encontrar um método justo, barato e fácil para transformar estas crianças em membros saudáveis e úteis à comunidade, deverá não só merecer a aprovação do público, como ver ser-lhe erguida uma estátua como salvador da nação.

Porém, a minha intenção está muito longe de se confinar apenas a prover pelas crianças dos pedintes confessos. É de âmbito muito mais vasto, e deverá, no geral, incluir a totalidade do número de crianças de uma certa idade que nascem de pais, de facto, tão incapazes de as sustentar como os que pedincham a nossa caridade nas ruas.

No que me diz respeito, tendo dedicado os meus pensamentos a este importante assunto durante muitos anos, e tendo ponderadamente pesado as várias propostas de autores de outros projetos, achei-os sempre grosseiramente errados na computação.

Na verdade, uma criança acabada de sair da barriga da sua mãe pode ser sustentada pelo leite dela durante um ano solar, exigindo pouco mais de outro tipo de alimentação. No máximo, nunca acima da importância de 2 xelins que a mãe poderá decerto conseguir, além do valor dos farrapos, pela sua legal ocupação de mendicante.

É exatamente com um ano de idade que proponho prover por estas crianças, de tal modo que, em vez de serem uma carga para os pais, ou para a paróquia, ou em vez de virem a necessitar de comida e roupa pelo resto das suas vidas, pelo contrário, acabem a contribuir para a alimentação e, em parte, para o vestuário, de muitos milhares.

Existe igualmente uma outra grande vantagem na minha proposta, que irá prevenir os abortos voluntários, e aquelas horríveis práticas das mulheres que assassinam os filhos bastardos. Infelizmente, um costume demasiado frequente entre nós, que suscita lágrimas e piedade no peito humano mais selvagem. E julgo que sacrificam os pobres bebés inocentes mais para evitar a despesa do que a vergonha.

Sendo o número de almas neste reino normalmente avaliado em um milhão e meio, calculo que entre estas devem existir cerca de duzentos mil casais cujas mulheres são férteis. Deste número subtraio trinta mil casais com meios para manter os seus próprios filhos embora, dadas as atuais misérias da nação, eu julgue que não possam existir tantos. Todavia, assegurado isto, restarão cento e setenta mil parideiras. De novo subtraio cinquenta mil por conta das mulheres que abortam, ou cujos filhos morrem por acidente, ou doença, durante o primeiro ano. Restam apenas cento e vinte mil filhos de pais pobres a nascer por ano.

Portanto, a questão é saber como criar e sustentar este número, o que, como já disse, na atual situação das coisas, é totalmente impossível por qualquer dos métodos até agora propostos. Não podemos empregá-los nem em fábricas, nem na agricultura. Também não construímos casas (quero dizer, no país) nem cultivamos a terra: muito dificilmente poderão ganhar a vida a roubar antes de chegarem aos seis anos de idade – a não ser como cúmplices –, embora deva confessar que aprendem os rudimentos do ofício muito mais cedo. Porém, é um período durante o qual só podem ser considerados como aprendizes, tal como me informou um cavalheiro importante do condado de Cavam, que me garantiu nunca ter conhecido mais do que um ou dois casos abaixo da idade dos seis anos, mesmo numa parte do reino tão famosa pela mais rápida proficiência nessa arte. Foi-me garantido pelos nossos comerciantes que um rapaz, ou uma rapariga, antes dos doze anos de idade não é mercadoria vendável. E, mesmo quando chegam a essa idade, não poderão vir a render no mercado mais do que três libras, ou três libras e meia coroa no máximo. Uma verba que não chega para dar compensação nem aos pais, nem ao reino, dado as despesas com a alimentação e com os farrapos que custam, pelo menos, quatro vezes aquele valor.

Passarei agora, humildemente, a apresentar os meus próprios pensamentos os quais, segundo espero, não serão susceptíveis de merecer qualquer objeção.

Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que poderá igualmente ser servida de fricassé ou num «ragout».

Portanto ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já computadas, se possam reservar vinte mil para criação. Desta parte, apenas um quarto deverá ser de machos – o que já é mais do que permitimos às ovelhas, ao gado bovino e ao suíno. A minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito considerada pelos nossos selvagens, pelo que um macho será suficiente para servir quatro fêmeas.

Deste modo, as restantes cem mil, com um ano de idade, poderiam ser oferecidas para serem vendidas às pessoas de qualidade e fortuna reino fora – advertindo sempre a mãe para que as deixe mamar à vontade no último mês a fim de as tornar rechonchudas e gordas, dignas de uma boa mesa. Uma criança dará duas doses numa festa de amigos; e se for a família a jantar sozinha, os quartos da frente, ou de trás, proporcionarão um prato razoável. Se temperada com um pouco de sal ou pimenta e cozida, estará ainda bem conservada no quarto dia, especialmente no Inverno. Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará 12 libras e, se aceitavelmente tratado, durante um ano solar aumentará para 28 libras.

Concedo que esta comida venha a ser de certo modo cara e, portanto, estará muito adequada aos senhorios – e dado que estes já devoraram a maior parte dos pais, poderão ter direito de preferência sobre os filhos.

A carne dos bebés estará dentro do prazo o ano todo, mas será mais abundante um pouco antes, e depois, de Março. Pois foi-nos dito por um autor sério, um eminente médico francês que, sendo o peixe uma dieta prolífica, nos países católicos romanos há mais crianças nascidas cerca de nove meses depois da Quaresma do que em qualquer outro período. Assim sendo, calculo que um ano depois da Quaresma os mercados estejam mais abastecidos do que o normal, pois o número de crianças neste reino é de, pelo menos, três papistas para uma protestante – o que oferecerá ainda a vantagem colateral de reduzir o número de papistas entre nós.

Também já calculei as despesas para alimentar cada filho dos pedintes (em cuja lista incluo todos os que vivem em barracas, trabalhadores rurais, e quatro-quintos dos lavradores) que será de cerca de dois xelins per annum, trapos incluídos. E creio que não incomodará nenhum cavalheiro pagar dez xelins por uma boa carcaça de criança gorda, a qual, como já disse, dará quatro pratos de carne, excelente e nutritiva, quando tiver apenas um amigo particular ou a sua própria família a jantar consigo. Assim o proprietário rural aprenderá a ser um bom senhorio, aumentando a sua popularidade entre os seus rendeiros; a mãe terá uns oito xelins de lucro líquido e estará apta a trabalhar até produzir outra criança.

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Celso Juarez Roth volta a esculachar e Inter apenas empata contra o lanterna

Se eu não fosse colorado estaria dando gargalhadas em razão da total falta de sentido das coisas que são feitas no Inter. Desde o Gre-Nal, Celso voltou a mostrar sua face Juarez escalando William, um dos melhores laterais do país, no meio-de-campo — como se ele fosse um craque como Júnior, Marinho Chagas ou Leonardo. Na nova posição, William afundou nos três jogos que fez, nossos três últimos. Empatamos dois e perdemos um.

Antes, com William e Ceará nas laterais, o time vinha crescendo. Mas Roth é Roth, é Juarez e inventor. Só interesses desconhecidos podem explicar os motivos que fazem nossa diretoria bancar este retardado, com sua notória incompetência e seus péssimos trabalhos recentes em vários clubes. Por algum motivo, o Inter de 2016 cheira a sacanagem, ou interesse. Dentro do estádio, os torcedores falam em mau caratismo no trato com Seijas, cuja não escalação ninguém compreende. A incompreensão geral faz com que as ofensas tornem-se pessoais.

O notável é que preservamos os titulares no meio da semana. Preservamos para fazer este fiasco, um 1 x 1 em que estivemos muito próximos da derrota. Pouparam um monte de jogadores contra o Atlético-MG pra empatar com o Santa Cruz no Beira-Rio, sendo que o Santa Cruz vinha de sete derrotas consecutivas.

O gol do Santa Cruz foi de um completo ridículo. Uma falta no meio-de-campo. A cobrança foi demorada, mas deixaram o lateral do SC — que estava no ataque — completamente livre. O jogador mais próximo do Inter estava a uns dez metros. Ele recebe a bola e cruza para um outro jogador que está entre cinco defensores nossos. Ninguém o incomoda. Ele cabeceia com os dois pés no chão, livre, dentro da pequena área, com uma plateia de zagueiros colorados.

Desorientados | Foto: Ricardo Duarte

Desorientados | Foto: Ricardo Duarte

Sobre quarta-feira, o Blog Vermelho acertou ao dizer que hoje o Inter é um clube que não quer ganhar, um clube que desiste de um campeonato importante na semifinal, escalando reservas para preservar seu time titular. Hoje, os “preservados” entraram desorganizados, mal escalados, e seguiram assim até o fim. Como entender? E não venham me dizer que a coisa piorou muito com a expulsão de Eduardo Henrique. Não, ela já estava péssima antes da ação destrambelhada do jogador.

Deixar Seijas, Valdívia e Anderson no banco para escalar Alex, Sasha e William — este fora de posição, repito — só pode ser explicado pelos interesses da empresa de Fernando Carvalho e de seu parceiro Juarez. Será que nossa queda pode dar lucro a alguém? Só isso explicaria a teimosia em escalar Alex, um cara que deixa o time lento. Será que vão vendê-lo para a China ou para o mundo árabe no fim do ano e precisam que ele esteja em atividade? Sei lá. E Sasha, será que vai finalmente para a Europa e precisa de vitrine?

O que sei é que quero ver Piffero e seu grupo, Carvalho e seus amigos empresários de futebol, Juarez e sua incompetência sejam varridos do Beira-Rio em 2017. É um grupo de pessoas ultrapassadas e que está cagando para a situação do clube.

Bem, empatamos com o Santa Cruz e agora a situação é a seguinte: com 38 pontos, somos o 16º lugar e o primeiro time fora do Z-4. Faltam 5 partidas, todas mais complicadas do que o Santa Cruz no Beira-Rio. Já no Z-4, o Vitória é o 17º com 36 pontos, apenas dois a menos que nós.

Jogos em casa: Ponte Preta (2), Cruzeiro (4).

Jogos fora: Palmeiras (1), Corinthians (3), Fluminense (5).

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O 3º Concerto para Piano e Orquestra de Béla Bartók e a historinha da Carol

Este é um Concerto que desmente a fama de fria que a música moderna carrega. Composta quando Bartók já estava condenado pela leucemia, a obra deveria servir de presente de aniversário, além de aumentar o repertório e os ganhos de sua mulher, a pianista Ditta Pásztory. Na época, em 1945, nos EUA, ambos eram pobres exilados. Mais simples que o Primeiro e Segundo Concertos, o Terceiro compensa pela altíssima temperatura emocional e por mostrar que o húngaro e socialista Bartók ainda carregava em si alguma alegria e esperança no mundo. Esta é uma das obras que mais amo e um dos motivos pelo qual sempre brinco que meus três compositores preferidos têm seus nomes começando pela letra “B”. São eles Bach, Beethoven, Brahms e Bartók.

Deixo aqui para vocês o Concerto inteiro, nos movimentos Allegretto, Adagio religioso e Allegro Vivace.

Martha Argerich, piano
BBC Symphony Orchestra
John Adams

.oOo.

Vou contar uma historinha para vocês. Aconteceu na Padaria Pasquali, no bairro Cavalhada, em Porto Alegre.

Eu entrei na fila e comecei a fazer uma coisa que sempre faço quando não há músicos por perto — comecei a cantar: “Daram, daram, dararam, da-ra-ra-ram”.

Claro que vocês, pessoas inteligentes, já sabem o que eu estava cantando. Bem, foi quando uma menina que estava na minha frente, virou-se para mim e disse:

— O começo do terceiro concerto de Bartók…

E ficou totalmente vermelha, envergonhadíssima. Me apresentei, conversamos uns cinco minutos e ela perguntou se eu sabia o motivo pelo qual Bartók, um ateu e socialista, chamara de Adagio Religioso o segundo movimento. Não soube responder.

Trata-se de uma aluna de piano de 16 anos que, depois de perder a vergonha, resumiu brilhantemente o concerto:

— Tio, esta música é tudo!

E ela tem toda a razão. É tudo mesmo.

Um beijo do tio, Carol.

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Porque hoje é sábado, Bárbara Evans

Três de meus sete leitores

fizeram veementes reclamações em nosso SAC.

O PHES estaria por demais casto,

implícito, obrigando os “leitores” a usar a imaginação.

Então, hoje,

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Janaína, tô pronto!

Foto: Nikolay Romanov

Foto: Nikolay Romanov

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Inter perde mas joga bem, emitindo sinais de que segundona é só para os outros

Milagre! Anderson jogou bem! | Foto: Ricardo Duarte

Milagre! Anderson jogou bem! | Foto: Ricardo Duarte

Mesmo se deixarmos de lado o fato de que jogamos com um time lotado de reservas, fizemos uma excelente partida contra o Atlético-MG. Fora o gol, tivemos sete chances claras para marcar. Mas perdemos por 2 x 1. Não gosto de dizer que um resultado foi injusto, pois não posso desconsiderar o óbvio: o resultado foi justo e adequado à categoria de Pratto e à incrível sucessão de milagres do goleiro Victor. O resultado também foi justo e adequado à ruindade de Alan Costa, transformado em mingau no primeiro gol mineiro. Se nós tivéssemos um ataque mais efetivo, transformaríamos em gols nossas inúmeras chances, correto? Mas não temos e por isso nossa vida é tão complicada.

Como perdemos em casa com o adversário fazendo dois gols, estamos praticamente eliminados da Copa do Brasil. O que talvez seja bom. Nosso campeonato é o da rabada do Brasileirão, nossa vida atual é a de tentar não cair para a 2ª divisão, local que não conhecemos, mas que deve ser uma coisa repugnante.

Nosso objetivo é o de vencer o Santa Cruz sábado para chegarmos aos 40 pontos. Então, faltarão mais 5 nos últimos 5 jogos. Se a tarefa é fácil, também é fundamental para a vida do clube.

Apesar de Celso Juarez Roth, melhoramos muito em campo. Diria que estamos jogando no mesmo nível dos times do G-6. Porém, muita coisa está errada. Ontem entramos com Fabinho na lateral e William no meio-de-campo. Espero que não estraguem o belo e raro lateral que William é, colocando-o no meio-de-campo. Alex também foi escalado, deixando Seijas na reserva. O venezuelano vai acabar saindo para ser titularíssimo em outro clube. É bom jogador. Muito melhor do que este final de Alex. Ontem, por exemplo, Alex errou tudo. Pior, é o homem que bate todas as faltas…

Surpresas são as boas atuações de Géferson. Espero que ele bote finalmente a cabeça no lugar. E Anderson também fez excelente partida.

Bem, sábado, às 18h30, jogamos contra o Santa Cruz. Isto sim é importante neste momento. O que falta? Temos 37 pontos e estes são os nossos jogos até o final.

Jogos em casa: Santa Cruz (1),  Ponte Preta (3), Cruzeiro (5).

Jogos fora: Palmeiras (2), Corinthians (4), Fluminense (6).

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Aconselhamento de casais: o último pingo é necessariamente das cuecas?

Uma leitora de nosso blog — autodenominada “Nojentinha” — observou atentamente seu marido quando este entrou desnudo no quarto. Recém saído do banheiro, ele se deitou ao lado dela. Ela então viu que na ponta do seu pênis havia uma gotinha de cor amarela. Pior, havia pentelhos polvilhados de gotículas de mesma coloração. Houve choque, gritos, rejeição. O pobre homem foi chamado de nojento, assim como toda a raça masculina — a nossa, imaginem. Sem dúvida, um sério problema matrimonial. Ela me pergunta se tais fatos são normais na vida de casal.

Ora, Nojentinha, infelizmente minha resposta é SIM. Trata-se de um simples problema hidráulico. Imagine uma mangueira com um dos lados fechado. Não adianta atirá-la para todos os lados a fim de que a água saia. Não funciona nem para o mangueirão do jardim nem para a mangueirinha de seu marido.

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Então você provavelmente perguntará: se o porco do meu marido não consegue livrar-se dos pingos logo após a mijada libertadora, por que eles molharão a cueca dali a alguns minutos?

A explicação é simples: a coisa é lenta, Nojentinha. Na medida que algum mililitro (ml) de líquido seja reabsorvido pela uretra marital (ou na medida em que o líquido evapore), estará criada a condição para que o pingo seja substituído pelo ar. Então, quando o pênis ficar em determinado ângulo favorável à entrada de ar, o pingo marital, amarelo e brilhante, pingará sobre a cueca. É tão inevitável quanto a mangueira de seu jardim, que fica mijona após alguns minutos.

Há duas soluções: (1) o seu marido permanecer no banheiro aguardando por todos os pingos ou (2) troque-o por uma mulher.

Os leitores que desejarem outros esclarecimentos sobre a vida adulta podem usar a caixa de comentários. Eu explico tudo.

Ele pode ser maravilhoso, mas vai pingar sua Mash.

Ele pode ser maravilhoso, mas vai pingar sua Mash.

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Valeu a pena ver Ian McEwan ontem no Araújo Vianna

Ontem, fui assistir à palestra de Ian McEwan no Fronteiras do Pensamento. Foi uma boa palestra sobre seu projeto de literatura realista. O que me encantou é que foi uma fala de ficcionista, com as teses explicadas através de exemplos curiosos e engraçados. O resultado foi claro e elegante. McEwan não tentou dar soluções para o mundo, limitando-se ao campo da literatura, que já é suficientemente vasto. Muito tranquilo e pausado, de fala mansa, ele é um inglês que demonstra um surpreendente espírito italiano para se expressar. Mexe-se e usa os braços.

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Falou sobre a importância dos detalhes. Relatou que, para escrever Sábado, passou dois anos seguindo um amigo neurocirurgião. Muitas vezes, acordava às 6h e dirigia-se para o hospital a fim de observar a rotina do cara. McEwan contou que um dia estava numa sala tomando notas, vestido com um jaleco, e foi abordado por duas residentes de neurocirurgia que queriam assistir ao procedimento e o confundiram com o médico. Para saber se já havia aprendido o suficiente, ele conversou com elas por cinco minutos como um especialista o faria. Quis saber em que nível elas estavam e explicou-lhes a cirurgia. Elas não notaram nada de estranho nele.

Também seguiu uma juíza especialista em direito de família para criar Fiona Maye, narradora de A Balada de Adam Henry, uma respeitada juíza do Tribunal Superior da Inglaterra.

E falou dos erros que tais detalhes podem causar. Seus personagens já viram estrelas que só eram possíveis de ver no hemisfério sul em julho. Estavam em Veneza. Também em Sábado, seu médico fala de características que não existem em seu carro, um certo modelo de Mercedez Benz. Contou a história de William Golding e de seu O Senhor das Moscas, onde o menino de óculos tinha um problema visual que era corrigido por um tipo de lente que não poderia concentrar os raios solares para fazer fogo, mas que no livro fazia. Falou das cartas de leitores que apontavam estes erros e que ele os corrigia todos nas novas edições, mas que Golding negava-se.

Defendeu o realismo e os detalhes usando o exemplo da primeira página de A Metamorfose. Há algo extraordinário acontecendo, mas aquilo só se torna crível quando Kafka cita as perninhas. Há o sensacional início: “Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Mas o final do parágrafo é que joga a “realidade” na cara do leitor: Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. Sim, o detalhe é que torna tudo crível.

Ao falar do humor, disse que não gostava das comic novels. Parece que o escritor está continuamente fazendo cócegas no leitor para que este ria. Ele prefere o humor que surge naturalmente, como consequência inevitável. Cria-se a situação humorística e a questão do quanto explorá-la.

Ao comentar seu último livro, Enclausurado, defendeu sua ideia de realismo:

— É biologicamente impossível que um feto narre histórias, mas considero que meu romance é realista, porque depois dos primeiros parágrafos, onde deixo claro o acordo que desejo estabelecer com o leitor, tudo o mais é escrito na tradição do realismo. Por exemplo, como a mãe bebe, o feto passa a fazer comentários avaliando a qualidade dos vinhos ingeridos e estabelece seus gostos como sommelier. E ouve um crime sendo preparado.

Também criticou acidamente Hollywood, dizendo que lá estão as piores pessoas. Como vários escritores, tentou enfiar à fórceps profundidade e inteligência em filmes para o grande público, mas disse que isto era muito raro e que foi vítima de uma traição em seu roteiro para O Anjo Malvado. “Em Hollywood, as pessoas são más como Maquiavel descreveu em O Príncipe. É como se tivéssemos penetrado na corte de César Bórgia”.

Bem, não vou resumir tudo. Vou apenas completar dizendo que a inabilidade do entrevistador Daniel Galera ia contra a boa qualidade do evento. Não é proibido ficar nervoso, mas é inaceitável não ouvir o palestrante. Galera conseguiu fazer perguntas amigáveis que sugeriam a negação daquilo que McEwan recém falara em sua palestra. Ou seja, devia estar tratando seu nervosismo ao invés de ouvir o inglês. Não tem o traquejo do entrevistador que leva mil perguntas pré-prontas e que evita aquelas que não contribuirão ou que farão a estrela repetir coisas. Galera é bom escritor e será complicado evitar tais eventos, mas tem de ser melhor orientado. Tulio Milman, mesmo desculpando-se por não ser um expert em literatura, foi muito mais interessante ao perguntar sobre o Nobel de Dylan, o Brexit, os filmes baseados em suas obras e sobre como despedir-se de um livro — esta talvez tenha sido uma pergunta da plateia.

Foi muito bom ver McEwan e comprar alguns volumes que faltavam, além de presentear a Bárbara com o esplêndido Na Praia. Também foi ver o Araújo Vianna quase lotado para ver um escritor, mesmo que nem todos saibam se comportar.

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Bom resultado para o Inter. E empates ultrapassam Grêmio na história dos Gre-Nais

O juiz e Dourado, o localista e o injustiçado | Foto: Ricardo Duarte

O juiz e Dourado, o localista e o injustiçado | Foto: Ricardo Duarte

Não reclamo. Foi um ponto conquistado fora de casa, mas poderiam ser três se o juiz Francisco Carlos do Nascimento tivesse um pouco mais de compostura e amor à verdade.

Não vi o primeiro tempo. Meu amigo Farinatti disse que nada aconteceu durante os primeiros 45 minutos. Jogo trancado e chato, a única novidade era que o Inter não estava apenas se defendendo.

No começo do segundo tempo, perdemos dois gols com Vitinho e Sasha. A sorte começava a nos sorrir quando houve as expulsões. A decisão que Francisco Carlos do Nascimento deveria ter tomado era clara: ele expulsar Kannemann e Vitinho (por atitude anti-desportiva e por terem iniciado a confusão) e Edilson (por agressão a socos). Só que ele optou por ignorar Kannemann, dar amarelo para Vitinho, e expulsar Edilson e Dourado (?). Uma piada de juiz localista.

A expulsão de Dourado — ocorrida minutos depois, ainda dentro da confusão, em óbvio desejo cessar as reclamações azuis — foi uma tremenda injustiça para quem tomou três socos bem na frente do árbitro e não reagiu.

Com um jogador a mais, haveria grandes chances de vitória nossa, mas a decisão da arbitragem retirou um de nossos principais jogadores e uma lateralzinho meia-boca do Grêmio, deixando as coisas tão chatas como provavelmente estiveram na primeira etapa.

De qualquer maneira, um bom resultado. O Infobola já nos dá apenas 19% de chances de queda. O Chance de Gol dá 14%.

Agora, a estatística dos Gre-Nais aponta 154 vitórias do Inter, 129 empates e 128 vitórias do Grêmio. É o clássico Gre-Pate. Uma disputa duríssima em que os empates ultrapassaram o Grêmio! Já a posição do Inter não deve ser ameaçada durante o resto de minha vida.

Em momento de autobullying, antes do jogo, soube que a torcida tricolor gritou a esmo “ão, ão, ão, segunda divisão”. Em resposta, gargalhadas coloradas.

 Neurose: gremista em pleno autobullying. Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

Neurose: gremista em pleno autobullying. Acho horrível assistir à agonia de uma esperança | Foto: Luiz Eduardo Robinson Achutti

A principal constatação do jogo é a de que o Inter melhorou um pouquinho e já é igual ao Grêmio.

Inter x Santa Cruz, no próximo sábado às 18h30, no Beira-Rio, tornar-se um jogo-chave para nossa tranquilidade neste final de Brasileiro.

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Porque hoje é sábado, o ideal e a realidade

Celeste Barber, uma genial comediante australiana,

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está de volta com uma série na qual recria fotos dos Instagrams

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dos famosos e famosas deste mundo. Ela as recria como uma pessoa normal,

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dessas que a gente vê na rua; como eu, certamente, e você, provavelmente.

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As fotos são hilárias

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e críticas

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pois permitem que a gente pense

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sobre muita coisa ao mesmo tempo que ri,

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objetivo maior da comédia.

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Por exemplo, eu posto fotos de mulheres lindíssimas aos sábados

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e sou um sujeitinho para o qual nenhuma delas olharia.

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Outra coisa, por que a crítica ao machismo e à objetificação não investe mais no humor?

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O humor é algo muito combativo e

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uma das maiores lorotas dos ignaros é dizer que ele é alienado.

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Eu sempre faço o elogio do humor e a crítica do sisudo.

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O humor e a arte são os filhos prediletos da criatividade,

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do conhecimento, da inteligência e do artifício

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e todos estes itens guardam parentesco maior com a alegria.

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Então, quando quiserem criticar alguma coisa bem criticadinha, para detonar mesmo,

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busquem una poca de gracia,

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porque senão

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ninguém lê.

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Dois poemas de Wislawa Szymborska

Mais, aqui.

O terrorista, ele observa

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.

Quarto do suicida

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta — um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos.

E não era sem saída este quarto,
ao menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo — ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma —
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

Wislawa Szymborska (1923-2012)

Wislawa Szymborska (1923-2012)

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Estranhamente, com os reservas e sem sofrer muita pressão, Inter vai às semis da Copa do Brasil

Foi uma noite gaúcha na Copa do Brasil. O Grêmio fez o que tinha que fazer contra os reservas do Palmeiras e o Inter, também com seus reservas, venceu o Santos sem muitos problemas. Claro que Danilo Fernandes fez grande defesa ao final do primeiro tempo, mas não houve aquela baita pressão de fim de jogo. Nós, colorados, esperávamos a pressão do Santos, pois sempre acabamos as partidas com o cu na mão. Mas nosso time, estranhamente, desta vez não ficou só se defendendo após a vantagem inicial.

Com raríssima lucidez, Celso Roth manteve seus atacantes enquanto o Santos tentava atacar mais e mais, tirando volantes e até zagueiros. Desta forma, o Inter acabou punindo o Santos com contra-ataques rápidos. Em um deles Sasha fez o segundo gol.

Esse Ricardo Duarte tá demais | Foto: Ricardo Duarte

Esse Ricardo Duarte tá demais | Foto: Ricardo Duarte

Aylon — comemoração na foto acima — tinha feito o primeiro aos 6 minutos do primeiro tempo. Acho que o Santos vai contratá-lo. Só assim ele vai parar de fazer gols no Peixe. Adora fazer isso.

Na próxima fase da Copa do Brasil, enfrentaremos o Atlético-MG, parada duríssima para um time tão frágil como o nosso. Mas o futebol anda tão nivelado que basta jogar um pouquinho para equilibrar as coisas. O Grêmio vai fazer seu mata-mata contra o Cruzeiro.

Inter e Cruzeiro têm algo em comum, ambos precisam se preocupar antes em se livrarem da ameaça de rebaixamento no Brasileiro. Então, digamos que Atlético-MG e Grêmio sejam os favoritos para fazerem a final da Copa do Brasil.

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O Peido

Conheci Tchékhov na coletânea de contos O Beijo, em gloriosa tradução de Boris Schnaiderman. Apenas duas consoantes diferenciam o título desta ocorrência real do conto do russo, mas vocês verão como uma pequena alteração pode ser dramática. Minha história não aspira ser doce ou amorosa. O que posso dizer em meu favor? Nada. Fatos são fatos e não podemos discutir com eles.

Era o mês de janeiro e eu e Elena estávamos na Pousada Oceânica, em Zimbros, no litoral catarinense. Nossa vida era aquela coisa de acordar, dar uma caminhada na praia, tomar café, ler um pouco, almoçar, ler ou dormir, mais um café, praia, banho e jantar. Muitas vezes não conseguíamos cumprir tão dura rotina e acabávamos por dormir e comer mais.

O local onde ficamos hospedados era um conjugado de quarto e banheiro bastante adequado, mas sem grande espaço para a privacidade individual. Tivemos vários vizinhos durante nossa temporada. No início, os da porta ao lado nos deixaram preocupados. Eram uns argentinos que bebiam e riam até tarde. Mas logo foram embora para serem substituídos por algo pior: paulistas. Eles trouxeram uma caixa de som que cuspia sertanejo universitário. Reclamamos para o dono da pousada e ele os calou. Passaram a nos olhar de longe, coisa que não nos preocupou. Queríamos apenas preservar nossas férias. Depois veio um casal com filhos já crescidos. Educadíssimos e quase silenciosos, às vezes faziam churrasco e nos ofereciam. Nós ficávamos loucos para aceitar, mas, a fim de manter nossa vida preservada, agradecíamos e declinávamos.

Um dia, eu estava lendo uma coletânea de contos de Luís Augusto Farinatti no chamado espaço gourmet. Ele tinha me mandado o material num arquivo word para que eu os avaliasse. Eu lia e pensava em como eram bons. Melhores ainda se comparados com algumas merdas que via publicadas e nas quais nem é bom falar. Foi quando meu vizinho se aproximou e se apresentou. Magro, em forma, com aproximadamente 50 anos, revelou que seu nome era Joaquim Pedro e que sabia que meu nome era Milton, pois era leitor deste blog. Ele também sabia de Elena. Disse que era um admirador meu. Conversamos o tempo exato. Um pouco sobre futebol, um pouquinho sobre o que eu publicava aqui, outro pouco sobre quem ele era, o que fazia e onde morava. Residia em Concórdia (SC). O homem era mesmo um gentleman e não queria incomodar nem ser incomodado. No final, disse que conhecera a pousada também por causa do blog. Eu tinha escrito algo aqui a respeito.

No dia seguinte, sua esposa me perguntou se Joaquim tinha falado comigo. Respondi que sim e ela me afirmou que ele estava na dúvida se deveria dizer que me lia há anos, etc. Tudo muito simpático. Eu estava envaidecido.

Pois pode não parecer, mas sou gentil. De manhã, por exemplo, quando estou num hotel, vou ao banheiro geral da pousada, deixando o do quarto para a Elena. Então, certo dia, saí cedo para meu passeio ao segundo banheiro. Mapeei bem a coisa. A Elena estava fechada no banheiro, a pousada com todos os hóspedes em seus quartos com os ares-condicionados a pleno vapor. Senti que estava em plena segurança acústica e resolvi que poderia expelir meus gases ali mesmo, sem ser notado, no varandão aberto em frente aos quartos. Sim, tinha profundos desejos de flatulência, aspirava por uma boa ventosidade, também conhecida por peido.

E comecei. Olha, foi longo e em quatro movimentos, como uma sinfonia de Haydn: Grave-Allegro, Adagio, Minueto e Presto-Finale. Um alívio. Um alívio e um show. Quando virei para o lado esquerdo, notei um movimento bem próximo de mim: sim, o educado, recatado e principalmente silencioso Sr. Joaquim Pedro estava de joelhos, passando parafina numa prancha de surf. Ele era tão discreto que estava de costas para mim, mas certamente ouvira tudo.

Eu estava exatamente ali, na frente daquela rede

Eu estava exatamente na frente daquela rede que mal se vê na esquina do térreo da pousada. O banheiro 2 é aqui à esquerda das bicicletas. Longe, né? | Foto: site da Pousada

Fiz a volta pelo outro lado para não ter contato visual com o vizinho e voltei para o quarto morto de vergonha. Mas minha tragédia não parou aí. Quando entrei no quarto, Elena me denunciou: “Pensa que eu não ouvi? Mas que coisa horrível!”. E caiu na risada.

Gente, às vezes é melhor não acordar. E saímos para nossa caminhada. Para minha sorte, não cruzei mais com o Sr. Joaquim Pedro, ao qual peço desculpas nove meses depois, nesta manhã chuvosa em Porto Alegre. Ele foi embora logo depois. Espero que ele não tenha se decepcionado muito comigo e que ainda leia este blog.

Vista da janela do Espaço Gourmet da Pousada Oceânica | Foto: Milton Ribeiro

Vista da janela do Espaço Gourmet da Pousada Oceânica | Foto: Milton Ribeiro

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O Inverno e Depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil

o_inverno_e_depoisDepois de Música Perdida (2006), eu tinha desistido de Assis Brasil. Sendo mais claro: sempre lia os livros do autor gaúcho em busca de algo tão vivo quanto O Homem Amoroso (1986), mas ele permanecia perdido em romances históricos que me pareciam difíceis de engolir, seja pela artificialidade de algumas situações, seja pela linguagem clássica e perturbadoramente deslocada daquilo que descrevia — normalmente o Pampa inculto e romantizado –, seja por minhas manias e gostos de velho leitor, certamente a razão mais forte.

Mas aí veio o excelente escritor, crítico literário e amigo Carlos André Moreira. Ele escreveu bobamente que gostaria de ler uma resenha de Milton Ribeiro sobre o recém lançado O Inverno e Depois. Espero que tenha se lembrado que isto aqui é um blog onde apenas me coleciono de um jeito meio estabanado. Bem, mas moço obediente que sou, liguei para a Ladeira Livros pedindo o romance. E o livro é ótimo.

A narrativa tem seu foco em Julius, um violoncelista que se isola numa estância que herdou de seus pais — e que não visitava há 40 anos — para estudar uma obra pela qual é obcecado desde seus estudos na Alemanha, o Concerto para violoncelo e orquestra, de Dvořák. Ele tem um concerto marcado como solista e quer ser digno da grande música que escolheu.

Logo no início do livro, enquanto é descrita a longa viagem de carro entre Porto Alegre e a fronteira com o Uruguai, já deu para notar que tudo estava muito bem encaixado: humor, linguagem e tema. Durante a jornada, Julius, que nascera no mítico Pampa de Assis Brasil e que mudara-se criança para São Paulo, divaga sobre seu passado. A viagem vai sendo descrita paralelamente à história de vida de Julius e, quando vi, estava totalmente envolvido. Aprendi que o maior sinal de que o livro é bom é quando abro novos espaços de tempo para apressar a leitura. Isso aconteceu e passei a achar legal que o volume tivesse 350 páginas.

Hitchcock não era escritor, mas sabia como poucos o que era uma narrativa bem feita. Na imensa entrevista que concedeu para Truffaut, disse uma coisa fundamental: um profissional vê o mundo a partir de sua profissão e trata de influenciá-lo e defender-se a partir e com o que faz. Lembram do fotógrafo de A Janela Indiscreta defendendo-se de Lars Torvald com “flashes”? Há algo mais crível do que aquilo? Ou queriam que ele pegasse em armas?

Pois Julius pensa e vê o mundo a partir do violoncelo. Foi o instrumento que o levou à Würzburg (Alemanha) e depois fez com que se fixasse em São Paulo. Suas opiniões e amores são mediados pelo violoncelo. Ele não conheceria a amiga Klarika, seu professor Brand, seu amor Constanza e talvez nem a esposa contadora sem ele. Um bom romance realista deve ter surpresas, mas não pode conter sinais de artificialidade. E Assis Brasil aceita o fato de tal forma que não recua em dar detalhes técnicos do instrumento e das peças com que Julius se debate. Os desentendimentos que ocorrem também são típicos do mundo musical. (Lembrem que sou casado com uma violinista da Ospa, conheço o ambiente).

Outro elogio que faço ao livro é o de sua arquitetura narrativa. A linguagem é aquela clássica que Assis Brasil nunca abandona, aquela que mira a clareza e a elegância. Mas aqui a construção é muito bem feita, as narrativas paralelas funcionam bem e nos levam a boas cenas simétricas, como a do recital de Constanza e a do concerto de Julius. Porém…

Algumas vezes Assis Brasil pisa a linha do melodrama e até dá um passeio por lá. A descrição da morte do professor Brand é menos digna do que poderia e algumas coisas funcionariam melhor se deixadas a cargo da imaginação do leitor. Também é surpreendente que Julius, ao retornar do outro lado da fronteira, tenha perdido todos os medos — algum artista que sofre de medo do palco pode perdê-lo 100%? —  e tenha ido de peito aberto, surpreendendo até o maestro com seu risoluto. Creio que, na cena final, ele pudesse ter deixado claro o medo inicial e a sua diminuição à medida que Julius observava a plateia e criava vínculos com Antônia, Maria Eduarda, Sílvia e Constanza. Pô, nem uma visitinha às pressas ao banheiro antes de entrar do palco? Sua súbita segurança pareceu meio mágica, como se ele tivesse incorporado Starker.

Mas isto são detalhes. É o varejo no meio de um atacado de acertos. Eu comi o livro. O romanção me convenceu fácil, fácil. E não pensem que eu não quero que Constanza e Julius vivam felizes para sempre. Garanto-lhes: fazem um belo casal!

Recomendo.

luiz-antonio-assis-brasil

(Livro comprado na Ladeira Livros).

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Com enorme apoio da torcida, Inter começa a reverter tendência de queda

Pra que tirar a camisa, Vitinho? Bem, jogando desse jeito, pode tirar sim.

Pra que tirar a camisa, Vitinho? Bem, jogando desse jeito, pode tirar sim.

A torcida, a torcida, a torcida e o mitinho Vitinho levaram o Inter a uma estrondosa e inesperada vitória sobre o Flamengo. Tão estrondosa que os sites de estatística já dão ao colorado apenas 25% (Infobola) e 17% (Chance de Gol) de chances de queda, quando este número já foi de 74%. Empurrar um time com Géferson na lateral esquerda, Paulão na zaga, mais Alex e a piada Ferrareis “armando o jogo” é trabalho pra leão. Mas a gente vai lá e empurra a lixeira. O resultado é que, com grande atuação de Vitinho, bem assessorado por Valdívia e Sasha, obtivemos uma vitória que não é definitiva, mas que atrapalha demais a tarefa dos secadores.

(Minha mulher é uma violinista bielorrussa e quando ouviu-me dizer pela primeira vez que eu ter uma noite de secador — o Grêmio jogava pela Libertadores –, ficou muito espantada).

Foi um jogo espetacular. 2 x 1 de virada, com todos os gols no segundo tempo. O Flamengo foi melhor na primeira etapa e o Inter na segunda. Vitinho foi o melhor em campo, marcando o segundo gol e dando grande trabalho à defesa adversária. Melhor tentar comprá-lo no fim do ano. O cara não apenas joga como demonstra muita vontade de não participar do inédito fiasco da queda.

Nosso time é fraco, com jogadores errando passes e batendo cabeça a cada momento. Se não fôssemos colorados, daríamos risadas da enorme ruindade. Mas há a arquibancada.

Ontem, Roth escalou mal e mexeu mais ou menos bem. A saída do atacante Ferrareis, que está sendo escalado há meses sem nenhum resultado, para a entrada de Sasha, melhorou muito o time. E a entrada de Valdívia também. É claro que Roth foi chamado de burro e com razão: quem deveria ter saído era Alex e não Seijas, mas deu certo. All’s Well That Ends Well, como diz a peça de Shakespeare.

Aliás, os colorados sabem perfeitamente quem são os culpados pela situação de estarmos lutando contra o rebaixamento. Roth é sempre vaiadíssimo, Piffero e Carvalho são chamados de todos os palavrões possíveis e de Argel ninguém lembra, mas sabe que foi ele quem destruiu o Inter. Aliás, Argel treinou três times neste Brasileiro. Penso que dois deles, Vitória e Figueirense, cairão. E merecem.

Já o Inter talvez se salve e o motivo é o verdadeiro vendaval que fazemos no Beira-Rio a cada jogo. Nós na arquibancada e mais alguns poucos e bons como Vitinho, William, Dourado, Ceará, Danilo Fernandes e Valdívia. São caras que, como nós, estão realmente indignados, sem aceitar que jogarão a segunda divisão. A torcida também lembrou do episódio da briga entre William e Anderson, dando apoio ao colorado.

Agora ficou mais fácil. Mesmo com a ameba Roth e esta SWAT de opereta, não vamos cair. Precisamos de 9 pontos em 7 jogos.

Jogos em casa: Santa Cruz (2),  Ponte Preta (4), Cruzeiro (6).

Jogos fora: Grêmio (1), Palmeiras (3), Corinthians (5), Fluminense (7).

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Porque hoje é sábado, 10 fotos de Brooke LaBrie + algumas de outros, com poema de Benedetti

Piernas, de Mario Benedetti

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Las piernas de la amada son fraternas

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cuando se abren buscando el infinito

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y apelan al futuro como un rito

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que las hace más dulces y más tiernas.

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Pero también las piernas son cavernas

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donde el eco se funde con el grito

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y cumplen con el viejo requisito

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de buscar el amparo de otras piernas.

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Si se separan, como bienvenida,
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Porque Bob Dylan não deveria ter ganho o Nobel

dylan

Sexta-feira é o pior dia da semana de trabalho no Sul21. É muita coisa para preparar, tendo em vista que há sempre, inexoravelmente, um sábado e um domingo após um dia como hoje. É também o dia em que indico filmes e outras coisas para os leitores. Não parece, mas é tenso. Às vezes reclamam de mim — e com razão! Então, como não tive tempo de preparar nada para o blog, coloco aqui a postagem que Idelber Avelar fez sobre a premiação do Nobel de Literatura.

A postagem cita outra fonte, a romancista Anna North. Claro que eu não gostei da premiação e exigiria um Grammy compensatório para Philip Roth… Isso apenas para citar o atual injustiçado maior de um prêmio que já não foi concedido a Tolstói, Freud, Nabokov, Borges e Greene, para ficar apenas nos primeiros que me vem à mente.

Escritores não são tão notórios quando rock stars. Completando o que escreve North, digo que jamais conheceria Pamuk ou Aleksiévitch se fosse o Nobel. Como me escreveu o Heitor de Lima, já estávamos esperando aquelas edições luxuosas da Cia. das Letras para o queniano Ngũgĩ wa Thiong’o ou o sírio Adonis ou para um desconhecido talentoso. É uma tradição que começa a cada outubro. É uma pequena prova de que North tem razão: Bob Dylan não precisa de um Prêmio Nobel de Literatura, mas a literatura precisa de um Prêmio Nobel. E este ano, não teve.

Anna North, que além de romancista, escreve editoriais para o New York Times, publicou ontem um texto intitulado “Why Bob Dylan shouldn’t have gotten a Nobel” (http://nyti.ms/2e0YdYn). O texto seria só mais uma repetição do velho argumento de que aquilo que escrevem os letristas da canção não é literatura — discussão tediosa e tautológica, particularmente no Brasil, em que a letrística da canção tem um papel tão decisivo e os guardiões do cânone são tão preocupados — se não fosse por um momento em que a autora elenca a razão pela qual, segundo ela, Dylan não precisa de um Nobel, mas a literatura sim. Diz North:

“As reading declines around the world, literary prizes are more important than ever. A big prize means a jump in sales and readership even for a well-known writer. But more than that, awarding the Nobel to a novelist or a poet is a way of affirming that fiction and poetry still matter, that they are crucial human endeavors worthy of international recognition.”

O mérito do texto é explicitar o que em outros lugares, como na prosa acadêmica, costuma ficar escondido: é importante que o prêmio seja recebido por um romancista ou um poeta porque assim afirmamos que a ficção e a poesia ainda importam, que são empreitadas humanas que merecem reconhecimento. O fechamento do texto repete essa ideia: “Bob Dylan does not need a Nobel Prize in Literature, but literature needs a Nobel Prize. This year, it won’t get one.”

Pode ser que a ficção e a poesia importem ou não importem; pode ser que elas importem hoje para proporcionalmente menos gente que outrora; pode ser que alguns papeis sociais que chegaram a cumprir um dia, hoje elas já não cumpram.

Mas o problema aqui, claro, é o que sabe todo escritor: a literatura, no que ela tem de mais próprio, sempre foi e avessa ao que se promove em prêmios, coquetéis, cerimônias e homenagens. No dia em que a literatura depender de algum prêmio para sobreviver, é porque a sua própria existência já não vale mais a pena, é porque ela já se transformou em outra coisa.

Um livreiro amigo, o célebre Mauro Messina da Ladeira Livros,  acaba de escrever em seu perfil do Facebook:

(…) com a indicação do Sr. Zimmerman, os negócios serão prejudicados, pois toda a vez que indicam um Nobel,ou morre algum autor conhecido ou ainda se um filme baseado alguma obra literária faz sucesso as vendas aumentam. Foi assim com o Poderoso Chefão um livro que estava nos saldos e o seu autor no anonimato, quando o filme estourou, as edições esgotaram rapidamente e o Puzo voltou para as manchetes. Quando morreu o Levi-Strauss, foi durante uma Feira do Livro, o seu livro Tristes Trópicos vendia no máximo um por Feira, foi o Antropólogo falecer a mídia comentar e os Tristes Trópicos foi um dos campeões de venda.

Para finalizar, em 2014, Patrick Modiano ganhou o Nobel de Literatura, não digo que era saldo, mas ficava muito tempo nas prateleiras a um preço baixo e por vezes nas pontas de estoque, após o anúncio do Nobel a livraria não mais nenhum exemplar em acervo, todos os Modianos tinham vendido.

Infelizmente esse ano não teremos essa possibilidade, venderemos alguns songbooks. algumas biografias e era isso, mas em compensação o nosso final do dia será regado a chimarrão e a mister tambourine man…

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Inter acelera em direção à Segundona

Valdívia, perdido no meio

Valdívia, perdido no meio

Ainda embasbacado com o Nobel concedido a Bob Dylan, escrevo sobre outro absurdo: o time do Inter. Acho que Roth (o incompetente Celso, não o gênio Philip, bem entendido) não sai mais. Quem sai é o Inter, que só com muita sorte não cairá para a segundona.

Tudo está pequeno no Inter. Por exemplo, ao final da partida, todos reclamavam da marcação do pênalti. Na verdade, não houve um pênalti contra o Inter, houve dois: primeiro Eduardo derruba Sassá e depois toca na bola com a mão, prendendo-a contra o chão. Isto é tão claro que me constrangeu enormemente ouvir as entrevistas pós-jogo. O negócio é se esconder sob fatos menores e repetir que jogamos bem. Nada mais falso.

Também me constrangeu ver Alex formando a linha de três pela esquerda, com toda a sua velocidade. Juarez colocou sua opção mais veloz, Valdívia, no meio, para pensar o jogo. É muita falta de noção. E Seijas, que começou todos os jogos que o Inter venceu ultimamente — conferi, todos! –, iniciou o jogo na reserva… E Paulão, sempre fora do lugar. Procurem-no no contra-ataque que resultou no pênalti. Estava passeando no ataque.

Só Danilo Fernandes, William e Vitinho salvara-se do naufrágio. Ah, por incrível que pareça, Anselmo fez boa partida. O grupo terá de ser inteiramente refeito e isto leva tempo e dinheiro. A formação de jogadores também fica complicada, pois serão recebidos por um arcabouço em ruínas.

Bem, só a sorte poderá nos salvar. Faltam 8 jogos e, sendo benigno, precisamos de 12 pontos. Precisamos que os outros se atrapalhem.

Jogos em casa: Flamengo (1), Santa Cruz (3),  Ponte Preta (5), Cruzeiro (7).

Jogos fora: Grêmio (2), Palmeiras (4), Corinthians (6), Fluminense (8).

Matematicamente, é bem possível de não cairmos, mas vendo o time em campo não dá para ter grandes ilusões. Um amigo meu disse ontem que era um alívio quando a bola saía pela lateral. Verdade. É o pior Inter que vi na vida e acompanho atentamente futebol desde o final dos anos 60.

Parabéns, Piffero, Affatato, Carvalho, Argel e Celso Juarez Roth. Espero vê-los bem longe do clube em 2017.

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Já que é dia santo, uma obra-prima de Drummond procês: Romaria

Romaria, de Carlos Drummond de Andrade

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não possui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

carlos-drummond-de-andrade

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