O gol mais bonito de 2016

O gol é de Luis Suárez para o Barcelona em cima do Espanyol, mas o que Messi com a bola faz apenas comprova, mais uma vez, que ele não é humano. Aquele último e inesperado drible com o pé direito… Vejam clicando aqui.

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O melhor vídeo que vi no ano de 2016

Para as velozes serpentes, o nascimento de filhotes de iguana marinhos são a certeza de boa alimentação, só que…

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O que o Facebook vê quando nos apaixonamos

via Fernando Guimarães
tradução e adaptação libérrimas de Milton Ribeiro

Durante os 100 dias antes do início da relação, observamos um aumento lento, mas constante, no número de postagens compartilhadas entre o futuro casal. A outra notícia é que os cientistas do Facebook sabem mesmo demais a nosso respeito.

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Viram? O Facebook pode entender muito bem suas intenções e perspectivas românticas.

Em um post publicado pelo Facebook Data Science, um grupo de cientistas da empresa anunciou que há evidências estatísticas que sugerem claramente o surgimento de relacionamentos antes que eles ocorram.

“Como os casais tornam-se casais”, escreve o cientista de dados Facebook Carlos Diuk, “as duas pessoas entram em um período de aproximação, durante o qual o tempo de Facebook aumenta. Depois que o casal torna-se oficial (em relacionamento sério), seus posts diminuem drasticamente, presumivelmente porque os dois estão felizes e passam mais tempo juntos”.

No post, Diuk dá números claros:

Durante os 100 dias que antecedem o início da relação, observa-se um aumento lento, mas constante, no número de postagens compartilhadas entre o futuro casal. Eles se curtem, chamam a atenção um do outro. Quando a relação começa (“dia 0”), os posts começam a diminuir. Observamos um pico médio de 1,67 postos por dia 12 dias antes do início da relação e depois os números começam a cair. Entendemos que os casais decidem passar mais tempo juntos e as interações on-line dão lugar a interações no mundo físico.

Você pode ver esses dados no gráfico acima. O número de posts no perfil sobe e sobe, até cair quando as coisas se tornam oficiais.

A equipe do Facebook Data Science costuma divulgar informações amorosas dentro do enorme volume de dados da empresa possui sobre relações sociais. Eles também sabem o quanto os relacionamentos duram normalmente e como o amor se correlaciona com religião e idade. Já os dados comerciais eles não gostam tanto de divulgar…

Voltando a nosso tema, Diuk também revela que, ao mesmo que o número de postos diminui, estes se tornam mais felizes. “Observamos uma espetacular melhora no humor após o ‘dia 0’. Aqui está um gráfico descrevendo essa mudança:

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Para a análise de sentimentos como os descritos acima, a ciência está longe de ser perfeita. Os robôs não são muito bons em interpretação e sarcasmo. Mas muitas vezes é interessante saber.

A equipe tomou vários cuidados para não errar muito. A fim de eliminar os falsos relacionamentos do Facebook, ele só analisou os casais que entraram em “relacionamento sério” entre os meses de abril e outubro, evitando os períodos de festas.

Para que seguir postando se há coisas mais legais para fazer agora?

Para que seguir postando se há coisas mais legais para fazer agora?

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As Origens da Cachaça

Eu adoro cachaça e pelo visto fiz escola em casa. Meu filho que mora em Berlim pediu que eu levasse alguma coisinha para ele. Sabia da origem do nome pinga — a primeira cachaça teria sido bebida por escravos negros de gota em gota, pois a cachaça caía do teto de onde o melaço fora preparado. Há a teoria de que o líquido também servira para curar ferimentos das costas de escravos, daí o nome aguardente. Nos primórdios a cachaça era consumida apenas por escravos e gente da ralé. Que tolinhos… O texto que segue é do professor e mestre em História Rainer Sousa.

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No começo da colonização do Brasil, a partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o processo de plantio e processamento da cana – já realizado nas ilhas atlânticas – e ainda contavam com as condições climáticas que favoreciam a instalação de grandes unidades produtoras pelas regiões litorâneas no território.

Para que todo esse trabalho fosse realizado, os portugueses acabaram optando pelo uso da mão de obra escrava dos africanos. Entre outras razões, os colonizadores notavam que os escravos africanos eram mais adaptados do que os índios ao trabalho compulsório, apresentavam maiores dificuldades para empreender fugas e geravam lucro à Coroa por conta dos impostos cobrados sobre o tráfico negreiro.

No processo de fabricação do açúcar, os escravos realizavam a colheita da cana e, após ser feito o esmagamento dos caules, cozinhavam o caldo em enormes tachos até se transformarem em melado. Nesse processo de cozimento, era fabricado um caldo mais grosso, chamado de cagaça, que era comumente servido junto com as sobras da cana para os animais.

Tal hábito fazia com que a cagaça fermentasse com a ação do tempo e do clima, produzindo um liquido fermentado de alto teor alcoólico. Desse modo, podemos muito bem acreditar que foram os animais de carga e pasto a experimentarem primeiro da nossa cachaça. Certo dia, muito provavelmente, um escravo fez a descoberta experimentando daquele líquido que se acumulava no coxo dos animais.

Outra hipótese conta que, certa vez, os escravos misturaram um melaço velho e fermentado com um melaço fabricado no dia seguinte. Nessa mistura, acabaram fazendo com que o álcool presente no melaço velho evaporasse e formasse gotículas no teto do engenho. Na medida em que o liquido pingava em suas cabeças e iam até a direção da boca, os escravos experimentavam a bebida que teria o nome de “pinga”.

Nessa mesma situação, a cachaça que pingava do teto atingia em cheio os ferimentos que os escravos tinham nas costas, por conta das punições físicas que sofriam. O ardor causado pelo contato dos ferimentos com a cachaça teria dado o nome de “aguardente” para esse mesmo derivado da cana de açúcar. Essa seria a explicação para o descobrimento dessa bebida tipicamente brasileira.

Inicialmente, a pinga aparecia descrita em alguns relatos do século XVI como uma espécie de “vinho de cana” somente consumida pelos escravos e nativos. Entretanto, na medida em que a popularização da bebida se dava, os colonizadores começaram a substituir as caras bebidas importadas da Europa pelo consumo da popular e acessível cachaça. Atualmente, essa bebida destilada é exportada para vários lugares do mundo.

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Conto de Natal

Em meio à ceia de Natal, ele bateu com o garfo no copo de cristal, ergueu-se e começou:

— A data de hoje pressupõe alegria, felicidade e creio que alcançamos isso novamente pelo simples fato de estarmos reunidos, sem ausências a não ser a de minha mãe doente, que dorme com minha pequena Clara, e a de meu recém falecido pai. A mística familiar está mantida, velhos afetos se reconhecem, histórias da infância de cada geração afloram e a nostalgia nos invade. Lembro-me de um Natal ocorrido há uns 30 anos em que eu sofri uma das maiores decepções da infância. Eu tinha absoluta certeza de que receberia de presente um barco a motor para pescar com meu pai… Ganhei uma bicicleta. Para a criança que eu era, aquilo foi a maior das frustrações; eu fantasiava com aquele barco, imaginava quantas noites poderia dormir tarde na companhia do pai e inventava histórias nas quais brilhava na pescaria, nas bravatas e nas piadas. Estava naquela idade em que os guris estão loucos para entrar no maravilhoso e livre mundo dos homens adultos. Quando soube que meu barco tinha sido substituído por uma bicicleta — mesmo ela sendo uma linda Peugeot –, quis sumir. Saí correndo e fui me esconder no local mais improvável. Fui na direção do galinheiro e lá fiquei, junto de minhas novas amigas, sentado atrás dos poleiros. Naquele desespero infantil, desejei ser uma delas, pois pensava ser impossível a uma galinha sofrer semelhante decepção. Odiei os seres humanos. Passada mais de uma hora, já estava achando as galinhas chatas e refletia sobre a forma menos humilhante de voltar para a festa. Foi quando vi a silhueta de minha mãe. Provavelmente atraída por meus soluços, ela adentrou cuidadosamente naquilo a que a gente chamava de casa das galinhas, sentou-se a meu lado e ficamos de mãos dadas. Explicou-me que a culpa fora dela, que ela havia suplicado a meu pai que não me desse o barco, que ela tinha medo de que eu me perdesse, me afogasse, essas coisas de mãe. Voltei para casa e até achei a Peugeot bonitinha. Só fui ganhar o barco uns cinco anos depois, mas já não via graça naquilo.

Fez uma pausa em seu discurso para observar familiares e amigos sentados dos dois lados da imensa mesa posta na rua e continuou:

— Agora vou lhes contar um fato ocorrido no Natal do ano passado. Após o brinde, o pai chegou perto de mim e disse que aquele seria seu último Natal. Reclamei daquele absurdo, mas o pai reafirmou o fato. Caminhamos pelo terraço e ele, com voz entrecortada, revelou que tinha levado os nossos negócios a seu limite. Admitiu (e é verdade) que administrara mal as empresas herdadas, que era um fracassado, que havia mais de quinze familiares que dependiam do bom andamento das coisas – além das aproximadamente duzentas famílias de funcionários – , que ele não soubera levar adiante tudo o que seu pai, meu avô, construíra. Contou-me que tudo estava hipotecado e que eu teria de administrar a massa falida. Perguntei-lhe sobre algumas situações e soube que havia dívidas fiscais, trabalhistas, com fornecedores, e que as terras tinham de ser imediatamente vendidas.

Agora o silêncio era total, apenas quebrado pelas risadas descontroladas de um tio embriagado que estava achando toda aquela seriedade muito cômica.

— Nos dias seguintes, o pai me orientou sobre como fazer as vendas e as demissões, de forma a que pudéssemos encerrar os negócios com alguma dignidade. Ele morreu no primeiro semestre deste ano, todos nós sabemos. O que poucos de vocês sabem é que ele se suicidou.

Ouviram-se alguns protestos na imensa mesa. O gerente da fábrica ficou em pé, a nora — tão linda — quedou-se boquiaberta. Outros pediram debilmente para que ele parasse, mas a estupefação e a curiosidade eram maiores. O tio seguia rindo, enquanto alguns amigos outros apenas observavam o patético da cena. Havia quem quisesse saber de seus empregos, fixando seus olhares no palestrante a fim de saber onde estavam pisando.

— Bem, amigos, aproveitei a data de hoje para compartilhar com vocês o problema. Nossa vida vai mudar. Nossos carros, nosso padrão, mudarão radicalmente. Já vendi duas empresas que serão entregues na virada do ano. Venderei e fecharei outras. Pagaremos os funcionários e é bom vocês se acostumarem a pedir penico para gerentes de bancos… Foi só que fiz este ano.

Alguns reclamaram, detestando a inclusão da palavra “penico”. Ele baixou a cabeça como se fosse chorar.

— Pare imediatamente com isso! — gritou sua esposa Laura.

— Não paro. Preciso dividir este problema com alguém. Estamos todos reunidos. Carrego isto sozinho há um ano. Tenho que aproveitar a oportunidade.

— Oportunidade de fazer mais besteiras? Destas tu sempre te aproveitaste! E como é que eu não sabia de nada disso?

Foi quando viram a velha senhora chegar-se à mesa.

— Por que vocês estão, ou estavam, querida, tão silenciosos? Deixei de escutar aquele burburinho gostoso de festa e fiquei curiosa — disse, dirigindo-se à nora que detestava. Costumava chamá-la de Lauríssima Criatura.

— Mãe, por favor, volte para o quarto, o médico avisou… – disse o orador.

— Seu rico filhinho estava proferindo uns disparates de Natal para nós! – interrompeu a furibunda nora.

— Sobre a falência e o suicídio? Até já vendi meu carro e algumas joias para comprar dólares e euros. Deixar no banco ou ter patrimônio pessoal será perigoso. A justiça vem e bloqueia. Por que não fazes o mesmo?

A nora estava vermelha, pronta a atirar-se sobre o primeiro que se atravessasse a sua frente.

— A senhora concorda com isso? Contar toda esta bandalheira publicamente, na frente de toda a família e amigos, numa noite de Natal? Basta vendermos nossas joias? E nós, Dona Maria, como vamos viver depois disso?

A velha olhou para o céu; depois, estendeu a mão para o filho, que a segurou e abraçou carinhosamente a mãe. Esta olhou para a nora e respondeu com seu melhor sorriso:

— Nós sempre teremos Paris, Laura.

O tio riu. Todos observaram como o filho levou a velha de volta para o quarto onde dormia a criança.

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O cartão virtual de ano novo de Zoravia Bettiol. Uma obra.

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Câmara foi usada como templo em mais de 100 ocasiões em 2016 / Número de brasileiros sem religião dobra em dois anos

Do Paulopes.

Evangélicos celebram culto com frequência | Foto: Saulo Cruz, da Agência Câmara

Evangélicos celebram culto com frequência | Foto: Saulo Cruz, da Agência Câmara

A influência cada vez mais forte de religiosos na política fez com que em 2016 as instalações da Câmara Federal fossem usadas como templo, para a realização de cultos, missa e cerimônias, em mais de 100 ocasiões.

Ali tem se reunido, por exemplo, evangélicos (principalmente estes), católicos, espíritas, fiéis da Seicho-no-ei.

Na explicação da assessoria de imprensa da Câmara, todos os pedidos de realização de eventos religiosos são aprovados para preservar a laicidade do Estado.

Trata-se de um entendimento convenientemente equivocado, para agradar os religiosos.

Em um verdadeiro Estado laico, onde religião e política não se misturam, deputados não realizam sessões em igreja e nem religiosos ocupam o espaço parlamentar para veneração de deuses.

Com informação da Exame.com e foto de Saulo Cruz, da Agência Câmara.

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O número de brasileiros sem religião acima de 16 anos pulou em outubro de 2014 para dezembro de 2016 de 6% da população para 14%. Portanto, mais que dobrou.

A informação é do Datafolha. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Os sem religião são compostos por crentes que não estão afiliados a nenhuma igreja, por agnósticos e ateus.

No mesmo período, a Igreja Católica perdeu 9 milhões de fiéis, com queda de 60% para 50%, confirmando uma tendência já registrada por outras pesquisas.

O sociólogo Reginaldo Prandi, professor da USP, disse que o crescimento dos sem religião ocorre em todo mundo.

“[Isto porque] socialmente a religião não tem mais nenhum papel”, disse.

Afirmou que há crentes que hoje podem pertencer a uma igreja e amanhã não.

O fato é que, acrescentou, a sociedade percebeu que religião não é mais “condição obrigatória para ser bom cidadão”.

Com informações da Folha de S.Paulo.

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A Playboy ainda existe e até cria uma marolinha de confusão

Eu nem sabia que a revista Playboy ainda existia. Então, quando surgiu a notícia de que eles colocariam uma gorda na capa, fiquei sem entender se era um relançamento em forma de paródia ou a própria revista. Sim, porque os padrões de beleza das revistas e da TV ignoram totalmente as mulheres acima do peso. E há lindas. Então, achei divertido que a certamente combalida Playboy fosse na direção contrária ao convencional corpo de modelo e também do horrendo — na minha opinião — padrão fitness. Mas o que não entendi mesmo foi o coral daquelas mesmas pessoas que antes reclamavam da objetificação deste gênero de publicações: agora o coro dizia a moça arrasaria, que ia se empoderar. Ri e esqueci da conversa.

Só que a revista recuou e colocou a plus size — termo aparentemente aceitável pelo politicamente correto — apenas na capa da edição digital… Exposta nas bancas, pode-se ver a habitual magra sem graça, fato que chocou a turma que estava aplaudindo e recolocou a revista na posição anterior de objetificadora e machista. Eu achei uma sacanagem com a Fúlvia Lacerda.

Então, quem procurava por isso nas bancas,

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encontrou isso.

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Ri novamente. Um jornalista escreveu: “A gorda é pra sair escondido. A de andar de mãos dadas na rua é a magra. A Playboy só reforçou isso”

De minha parte, digo apenas que as fotos da magrelinha fitness me faria procurar os artigos preenchidos por letrinhas na revista. Deve ter, né? Afinal, próximo do traseiro da menina, logo abaixo da envergonhada menção à Fúlvia, está anunciada uma entrevista com o ex-Secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Talvez seja interessante.

 

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“A Origem das Espécies” é votado como livro mais influente da história

Por Alison Flood
Publicado no The Guardian

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Depois da lista dos 20 melhores livros acadêmicos, uma pesquisa foi feita em conjunto por especialistas acadêmicos, vendedores de livros, bibliotecários e editores para inaugurar a Academic Book Week, o público foi convidado para votar naquele que eles acreditavam ser o mais influente. Competindo outros títulos na votação, incluindo ‘Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher’ de Mary Wollstonecraft, o romance ‘1984’ de George Orwell e a ‘A Riqueza das Nações’ de Adam Smith, a explicação da Teoria da Evolução de Darwin foi o grande favorito do público, com 26% de votação, disseram os organizadores.

O professor Andrew Prescott, da Universidade de Glasgow, chamou o estudo de 1859 de Darwin de “a demonstração suprema do porquê livros acadêmicos importam”. “Darwin utilizou a observação meticulosa do mundo à nossa volta, combinando com uma reflexão prolongada e profunda para criar um livro o livro que mudou a forma como pensávamos sobre tudo – não só o mundo natural, mas religião, história e sociedade”, disse ele. “Todo pesquisador, não importa se ele está escrevendo livros, criando produtos digitais ou obras de arte, almeja produzir algo tão significativo na história do pensamento como ‘A Origem das Espécies’”.

‘A Origem das Espécies’ foi seguida na votação do público pelo ‘Manifesto Comunista’ e Obras Completas de Shakespeare, com A República de Platão em quarto e o livro Crítica da Razão Pura de Kant em quinto – uma escolha de Alan Staton, da Booksellers Association. “Parece que estamos sendo governados por conveniências e pensamentos contraditórios, e é reconfortante saber que o Imperativo Categórico de Kant é visto como importante“, disse ele.

O filósofo Roger Scruton concordou. “Estou satisfeito com Crítica da Razão Pura, que deve ser certamente um dos trabalhos mais difíceis de filosofia já escritos, e que certamente deveria ter sido escolhido como um dos mais influentes de todos os livros acadêmicos”, disse ele sobre o texto do século 18.

“Kant partiu em uma tarefa extraordinária, que foi mostrar os limites da razão humana e, ao mesmo tempo, justificar o uso de nossas faculdades intelectuais dentro desses limites. A visão resultante, de seres autoconscientes envolvidos dentro de um limite, mas sempre pressionando contra ele, com um desejo para o além inacessível, tem me assombrado, como tem assombrado muitos outros desde a primeira vez que Kant expressou”.

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Porque hoje é sábado e Natal

Eu até gosto do Natal, dos reencontros, etc.,

só odeio a promoção de bons sentimentos,

e me irrito com a estória do menino Jesus.

Só dou presentes para crianças pequenas,

mas gosto das comidas,

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das sobras no almoço do dia 25,

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e dessa coisa de saber que o guri dos católicos,

o de 25 de dezembro, apareceu nesta data

só para atrapalhar a festa pagã do Solstício de Inverno.

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Três tópicos antes do Natal

Durante os aplausos, uma senhora tirava fotos de Daniel Barenboim usando o flash. Ele interrompeu a plateia e disse: “Não use o flash, senhora. Por três razões: primeiro, porque é proibido; segundo, porque me incomoda; terceiro e mais importante, porque, enquanto faz a foto, não pode me aplaudir”.

Uma coisa que sempre quis ter e não tenho é classe.

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Alex Castro tem razão: “Se você declara publicamente seu ódio a alguém, está declarando que aquela pessoa tem poder sobre você”. Faz três anos que tenho me mantido fiel à Lei de Steinbeck, que diz mais ou menos assim: “Vou me vingar de ti da forma mais cruel, vou deixar pra lá”. O Chico Marshall completa dizendo que “Aristóteles (De Anima) afirma que “nada produz maior cólera do que a expectativa de honra frustrada. Desdém, a mais letal das armas”.

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

Não é o Alex, nem o Steinbeck, é Aristóteles

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Conforme nós prevíamos, a coisa ia ficar séria. Ficou. O Vitória e a CBF fizeram sacanagem sim. Agora só falta dizerem que o Inter forjou o documento do Monterrey… Não creio que o Inter mereça ser resgatado do rebaixamento — afinal, quem perde duas vezes para o Vitória e e obtém um ponto do Santa Cruz tem que morrer mesmo — mas acho que o Vitória deveria ser o quinto rebaixado. Acho que os advogados do clube não devem se entregar. O Vitória fez algo duplamente proibido: contratou sem fazer o atleta voltar ao clube de origem e fora da janela. Curioso é o silêncio da Federação Gaúcha.

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Visitando a zona evacuada de Tchernóbil

Eu sempre incomodei a Elena para saber. Ela mudava de assunto, dizendo que doía falar naquilo. É que gosto de saber tudo sobre a pessoa que amo. Desde o nascimento, todo esse passado me parece puro encantamento, ainda mais se pensar que qualquer alteração — ou decisão tomada — poderia ter desviado Elena de mim. Afinal, ela veio de muito longe. Porém, a história de Tchernóbil não tem nenhum encantamento e devo ser apenas um cara chato.

Não há magia no acidente de Tchernóbil e sua relação com a cidade bielorrussa de Moguilióv, onde Elena nasceu e viveu até o final da adolescência. A cidade fica próxima do acidente e os ventos costumam ir para aquele lado. Quando li o livro de Svetlana Aleksiévitch, Vozes de Tchernóbil, soube que tinha razão — a cidade fora atingida fortemente. Mas ela me contava poucas coisas, na verdade uma coisa só, um fato que ocorrera no dia 1º de maio de 1986. Ignorantes do que estava ocorrendo, a população participou do desfile tradicional da data. Todos foram convocados para o mesmo e ninguém fora avisado de qualquer perigo. O acidente nuclear acontecera cinco dias antes, em 26 de abril. Um casal de professores que costumava ouvir a Voz da América foi para o evento munido de guarda-chuvas. Não chovia e todos riram deles. Depois de alguns dias, apareceu uma nuvem escura que passou lentamente sobre a cidade e a grande chaminé de uma famosa fábrica de tecidos sintéticos pegou fogo sem faísca nenhuma… Depois ela viu a carcaça resultante. Todos estavam assustados com a reação química entre a chaminé e a nuvem.

Quando eu estava lendo Vozes de Tchernóbil, a igualmente bielorrussa Aleksiévitch falou numa professora de arte, alguém muito inteligente e capacitada, e logo tive a certeza de que Elena a conhecia. Perguntei e ela me trouxe fotos onde estavam a tal professora, sua mãe e a própria Elena. Em pleno início dos anos 80, eles pareciam formar uma comunidade de hippies tardios. As fotos eram sempre de grupo, improvisadíssimas, e Elena aparecia como uma pré-adolescente rindo no meio de uns caras barbudos e de umas mulheres 100% ripongas.

Só ontem, inesperadamente, apareceram outras fotos. A excelente pianista e professora responsável pela turma da Elena, formada exclusivamente por futuras musicistas, era casada com um policial de alto cargo em Moguilióv. Por solidariedade e para demonstrar mobilização, ele e sua esposa organizaram uma excursão à área evacuada. Fariam uma apresentação de canto para os policiais que vigiavam o local, impedindo o acesso e os roubos de casas e maquinário. Ignorando o perigo e pensando em fazer uma coisa boa, as meninas aceitaram o convite. Era perigoso, mas elas queriam dar alento àquelas pessoas que se sacrificavam. E foram cantar na zona evacuada em Bráguin. Na volta, o marido da professora e os policiais que acompanharam o grupo receberam uma significativa promoção e privilégios apenas concedidos aos liquidadores de Tchernóbil. As estudantes não ganharam nada.

Ficaram lá três dias. Ela disse que cantaram, caminharam, se emocionaram, riram e dançaram com os milicianos. Um deles se apaixonou por ela e pediu-lhe o endereço. Trocaram cartas, mas nunca mais se viram.

Um dia, falei que queria registrar a história de sua relação com o acidente. Faria algo ao estilo de Aleksiévitch, mais uma voz de Tchernóbil. A coisa não andou. Não insisti.

Hoje a Elena está muito bem, basta olhar a linda mulher que é. Mas tem saúde frágil e teme que a radiação abundante venha a se manifestar um dia, se já não aconteceu. Ela fala em esquecer o passado, mas, repito, sou muito chato. Ela concordou que eu mostrasse as fotos de ontem.

Na zona evacuada. Elena é a menina que está no centro, com aquele blusão supostamente muito colorido, obra de D. Klara, sua mãe.

Na zona evacuada. Elena é a menina que está no centro, com aquele blusão presumidamente muito colorido, obra de D. Klara, sua mãe.

Elena bem no meio, cantando com um olhar meio estranho.

Elena bem no meio, cantando com um olhar meio estranho.

As meninas cantando. Elena é a segunda à direita.

As meninas cantando. Elena é a segunda à direita.

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Para jamais esquecer: fotos e nomes dos deputados inimigos da cultura e da ciência no RS

Aqui estão os responsáveis pelo desmonte. Jamais vote novamente neles!

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Em livro, Koff confirma auxílio para o Grêmio sair da Série B em 1992

fabio-koffNo livro Fábio André Koff, Memórias e Confidências — o que faltou esclarecer, depoimento do ex-presidente do Grêmio nos períodos de 1982-1983, 1993-1997 e 2013-2014, concedido a Paulo Flávio Ledur e Paulo Silvestre Ledur (Ed. Age, 2a. edição), há um trecho que põe por terra um dos mitos gremistas, o da volta “honesta” para a primeira divisão em 1992. O livro conta os bastidores das principais conquistas de Koff no clube e outros detalhes deliciosos. Sabiam, por exemplo, que Koff foi técnico de futebol?

O livro completo encontra-se neste link. Mas o que nos interessa é esclarecer um ponto que os gremistas adoram negar: que houve uma enorme colher de chá para que o clube voltasse à primeira divisão em 1992. Houve. E com a participação do ínclito Eurico Miranda. Vejam abaixo a palavra do ex-presidente do Grêmio:

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A estupidez triunfante: o ódio de Sartori e de certa direita à cultura e à ciência

O Tribunal de Justiça Militar permanece. Só Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo têm tais maravilhas de notável utilidade. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já sinalizou que poderiam ser extintos para dar lugar à criação de câmaras especializadas nos Tribunais de Justiça dos estados para julgamento de processos de competência militar. O órgão gasta R$ 36 milhões ao ano, 26% de tudo o que o governo da anta Sartori pensa economizar com a extinção de fundações estaduais. Mas são milicos, não fazem pesquisa nem divulgam cultura. São gente boa.

Já a Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), a Fundação Piratini (TVE e FM Cultura), a Fundação de Economia e Estatística (FEE), Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), a Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde (Fepps), a Fundação de Zoobotânica (FZB) e a Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (Corag) têm grande ligação com a produção científica e cultural do estado. Então devem ser extintas.

A burrice do governo olha apenas a despesa, sem buscar novas receitas. Não creio que nosso modelo federativo livre-se das isenções fiscais que somam R$ 9 bilhões por ano — pura e puta renúncia fiscal. Mas o governo recusa-se a ir atrás dos R$ 7 bilhões por ano de sonegação realizada basicamente por empresários. E quando vemos que a economia prevista com a extinção das empresas constantes no pacote de Sartori é de 137 milhões anuais — eu escrevi milhões, não bilhões –, só posso concluir que há um enorme ressentimento e ódio à ciência, à cultura e ao conhecimento.

Por outro lado, não temos uma imprensa plural. Os governos petistas nem tentaram alterar tal situação. Não houve a tão propalada democratização dos meios de comunicação, só o pagamento de alguns blogs. O monopólio da informação permanece e atrapalha qualquer reflexão crítica. A RBS, por exemplo, faz a assessoria de comunicação de todos os governos alinhados com o mercado, com a direita e com o senso comum evangélico. Servidor é vagabundo? Sim, é. Então vamos acabar com esses caras que só mamam na teta do estado.

Se as extinções ocorrerem como parece que vão, certamente haverá uma corrida de CCs vindos dos partidos aliados. Afinal, como ficar sem a FEE, por exemplo? Em substituição, vão contratar consultorias dos amigos, claro.

Eu não votei em Sartori, é claro. Não tenho grande visão política, mas o mundo me ensinou a avaliar pessoas e jamais votaria num cara flagrantemente mais ignorante, inepto e palerma do que eu. Ele está no posto para fazer um trabalho em benefício de grandes empresários. E só.

Fico deprimido de pensar que o local onde hoje está a TVE / FM Cultura talvez vire outra coisa. Fico fulo ao ver empresários e empresas sonegadoras protegidos. Fico desapontado com quem votou neste asno. Paralelamente, sorrio ironicamente com o ridículo discurso de fachada de que tais atos tirarão nosso Estado da situação de calamidade.

Sartori apontando sua falha.

Sartori apontando sua falha.

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O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena

o-ceu-de-lima-juan-gomez-barcenaJosé Galvéz e Carlos Rodríguez são dois jovens ricos que, com o futuro garantido, escolhem viver de maneira leve e superficial. São daquele tipo de estudantes universitários que raramente frequentam as aulas. Amam a literatura, sobretudo poesia, apreciando especialmente o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Querem ler seu novo livro, mas não o encontram na provinciana Lima da primeira década do século XX. E resolvem pedir o livro diretamente ao autor. Para que dê certo, fazem com que uma mulher o faça, criando assim a personagem Georgina Hübner – uma moça apaixonada pela obra de Juan Ramón. É ela quem lhe escreve uma doce e inteligente carta solicitando o livro, preparada pela bela e feminina caligrafia de Carlos. Ambos ficam loucos de felicidade quando a edição chega, acompanhada de uma resposta. E começa uma longa correspondência que forma um romance, tanto literário quanto amoroso.

É curioso. A narrativa é inspirada em uma história real. Sim, o grande Juan Ramón Jimenez foi iludido por dois dândis limeños. A partir desta uma introdução de comédia, Bárcena constrói minuciosamente a relação entre José e Carlos, além da deles com seus aconselhadores. Mostra-nos como se envolvem cada vez mais na farsa. Também a elite de Lima e suas relações sociais com os empregados e serviçais é retratada com particular exatidão. O contexto histórico é rico e esclarecedor, auxiliando e tomando boa parte da narrativa.

O livro é dividido em quatro capítulos: I- Uma Comédia; II- Uma História de Amor; III- Uma Tragédia e IV- Um Poema. Neles, lemos algumas cartas de Georgina, que acaba se tornando cada vez mais real, além de alguns trechos das cartas que o escritor Juan Ramón Jiménez lhe envia. Há sutil e inteligente metalinguagem. Os dois farsantes acabam discordando muitas vezes. Buscam conselhos de um homem que trabalha no centro da cidade redigindo cartas de amor. Carlos não deseja aderir às sugestões. Depois, outros amigos acabem se envolvendo, o que leva a dupla a um quase rompimento. A coisa fica séria e eles apenas voltam a se encontrar quando…

O Céu de Lima é excelente e foi uma grande surpresa. Comprei-o por indicação do amigo Iuri Müller e só porque tinha algum dinheiro sobrando no bolso, coisa rara. Valeu muito a pena. Recomendo!

Juan Gómez Bárcena

Juan Gómez Bárcena

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Uma aventura no ‘Tudo Fácil’ de Sartori

Ontem fui ao Tudo Fácil, onde fui fazer uma nova Carteira de Trabalho porque a minha está lotada de anotações. Já tinha revisado os documentos necessários e estava com tudo em dia e novinho. O atendente elogiou o estado de minha Carteira atual. “O Sr. é uma pessoa caprichosa”, disse. Então, o burocrata acordou nele e se pronunciou do modo que segue: “Mas antes o Sr. terá que fazer uma nova Carteira de Identidade porque essa foi feita sobre a sua Certidão de Nascimento e o Sr. é oficialmente divorciado”. Então, fiquei sabendo que um casamento é como nascer de novo, apesar de eu ter quase morrido no meu, aquela infelicidade toda. Depois de casar, a Certidão de Nascimento não vale mais porra nenhuma.

Já bastante puto, fui para a fila da Identidade. Mostrei todos os meus documentos e tudo ia bem até que a mocinha burocrata chamou uma colega que chamou mais uma que, por sua vez, chamou o chefe. Acontece que o sistema diagnosticava “Sorriso Detectado”, rejeitando minha foto. Sem exagero, tiraram 20 fotos minhas. “Ergue o queixo, não, não, abaixa um pouquinho”, essas coisas. Em todas eu estava sério, cada vez mais sério, mas a merda dizia que eu sorria. Olhavam para mim e diziam um pro outro, “deve ser a barba”. Já tinha umas 10 (dez) pessoas me atendendo. Então, eu falei que ia fazer cara de morto. Caprichei para imitar o olhar daqueles peixes da Semana Santa no Mercado. Deu certo. Obtive a foto mais horrorosa de todos os tempos. Parecia a Anna Kariênina depois do trem. Porém, finalmente o sistema deu OK. Agora são 15 dias para a nova Identidade e mais 15 para a Carteira de Trabalho. Entro em férias bem no meio deste período. Tudo fácil.

P.S.– Ah, e ainda tenho que pagar por estes documentos.

tudo-facil-porto-alegre-centro

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Porque hoje é sábado, a arte da dança com Aleska Diamond

Os princípios básicos do balé clássico são:

postura ereta,

uso do en dehors (o que será isso, meu deus?),

movimentos circulares dos membros superiores,

verticalidade corporal,

disciplina,

leveza,

harmonia e

simetria.

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A Biblioteca Pública volta ao lar: “Vamos resgatar o público que perdemos e muito mais”, diz diretora

Publicado em 20 de dezembro de 2015 no Sul21

Na tarde da última segunda-feira (14), a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul foi devolvida à população. Antes, pela manhã, conversamos longamente com sua diretora Morganah Marcon. O clima era de entusiasmo. Afinal, os funcionários e os livros estavam finalmente voltando para a bela casa cuja construção começou em 1912 e aberta ao público no formato atual em 1922. Há 93 anos, portanto. Ela ainda não está 100% pronta, mas já é perfeitamente habitável para eles e mais 250 mil volumes.

É um dos prédios mais bonitos do RS. Há mármores, parquês e mobiliário requintado, além de pinturas e esculturas. O revestimento das paredes internas tem pinturas decorativas. Quando foi inaugurada em 1922, a imprensa da época saudou o prédio como “do mais alto gabarito e elegância”. Quem entrar hoje na renovada Biblioteca não terá dúvidas disso.

A Biblioteca nunca deixou de funcionar, mas o prédio principal, na esquina da Riachuelo com a Ladeira, estava fechado ao público desde 2008.

Morganah Marcon falou-nos sobre a história, as várias funções e os problemas da instituição que começou sua vida em 1871, através da Lei Provincial nº 724, que autorizou o gasto de até oito contos de réis para aquisição de livros, ao mesmo tempo que criou um cargo de bibliotecário e outro de contínuo.

A querida Biblioteca já teve 40 funcionários, hoje conta com apenas 18.  Mas não pensem que eles não têm grandes planos. “Somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido”. 

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Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Tu és diretora da Biblioteca Pública desde 2003. Quando entraste, trabalhavas neste prédio. Quais eram as condições?

Morganah – Sim, eu assumi por convite de Roque Jacoby, Secretário de Cultura na época. O prédio tinha as aberturas, os pisos e os entrepisos bastante comprometidos. Havia também muitos vidros quebrados, outros estavam fora do padrão, enfim, tinha coisas inaceitáveis em um prédio histórico. Também os ornamentos da fachada corriam o risco de cair na calçada. Era um prédio de 1912 que exigia uma grande reforma, um restauro e os recursos disponíveis eram muito pequenos, em torno de R$ 465 mil reais, viabilizado pelo Projeto Monumenta. Não dava para fazer grande coisa, só o mais urgente. Isso foi entre 2006 e 2007, até nem houve a necessidade de sairmos do prédio. Porém, nesse meio tempo, nós montamos um projeto da Lei Rouanet, um projeto na época orçado em R$ 14 milhões e que incluía tudo, inclusive o restauro das pinturas murais. Deste projeto, nós conseguimos captar, em 2008, com o BNDES, R$2 milhões e 556 mil. E fizemos algo fundamental, que era a substituição dos entrepisos de madeira. Sob o piso de parquê tinham tábuas e estas estavam comprometidas. Elas pesavam como papel, cheia de cupins. O entrepiso foi substituído por um painel wall, que é um material que não pega cupim e que deve durar o resto da vida. Os parquês originais foram restaurados com um aproveitamento de 99%. Isso foi feito em todo o prédio, com exceção de duas salas.

Sul21 – Vocês ficaram quanto tempo fora daqui?

Morganah – Sete anos, desde 2008. No final de 2007, nós tivemos que sair, lá por outubro ou novembro, porque iam ter que mexer num dos pisos lá embaixo. Então nós saímos para a Casa de Cultura Mario Quintana.

Sul21 – E como é que sobrevive uma biblioteca fora da biblioteca?

Morganah – Foi difícil, foi muito difícil, porque tu perdes um pouco tua identidade, tu perdes a referência. É uma instituição dentro de outra instituição e esse monte de prédios públicos estaduais não tem condições de abrigar uma biblioteca. Ou requer um reforço estrutural muito grande, com investimento de vulto, ou é muito pequeno. Eu vasculhei todos os prédios do estado disponíveis. Todos os setores, mas não todo o acervo, foi para a CCMQ. Na época, ela tinha alguns espaços pouco utilizados. Ao longo desse tempo, nós fizemos outros projetos também, fizemos a higienização do acervo de obras raras, por exemplo. Enfim, a biblioteca sobrevive assim, porque entra governo e sai governo, as verbas para cultura sempre são escassas. Quando abre edital, a gente manda projeto.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Para muita gente, a Biblioteca Pública tinha fechado para sempre.

Morganah – Pois é, mas nós nunca estivemos fechados. Esses dias eu quase dei um beijo num rapaz ali na ferragem… É uma empresa familiar. Eu fui comprar umas lâmpadas e estavam presentes o pai, a mãe e o filho. Eu falei que era diretora da biblioteca, que a gente estava reabrindo e a mãe disse: ‘Ah, a biblioteca estava fechada’’, aí o filho disse ‘Não, a biblioteca nunca esteve fechada’. Aí eu pensei: meu Deus, é a primeira pessoa que eu falo e que tem essa interpretação, que é a correta. Nós nunca fechamos. Nós levamos os serviços todos, o setor de empréstimo de livros, toda a parte de pesquisa no acervo geral, no setor do Rio Grande do Sul, levamos o setor Braille, o acesso à internet gratuito, levamos tudo para a CCMQ.

Sul21 – Já disponibilizavam internet antes de sair?

Morganah – Sim, antes de sair. É algo bastante procurado. Temos Wi-Fi agora, que é uma novidade. Nós levamos todos os setores para a CCMQ. O que nós não levamos foi todo o acervo. Do acervo do RS levamos uma pequena parte, porque ele é muito grande, e deixamos o restante nas estantes aqui, organizados. Então, quando havia a necessidade de um livro que estava aqui, a gente vinha buscar para o pesquisador examinar na CCMQ. Por todo este período, nós nunca deixamos nossos leitores desatendidos. Mas a maioria ficou com essa impressão: a de que a biblioteca estava fechada esse tempo todo. Eu perdi a conta de quantas entrevistas eu dei para rádios, TVs e jornais avisando que nós estávamos na Casa de Cultura Mario Quintana. Eu chego à conclusão que as pessoas não leem, ou só leem o que querem, porque não houve falta de informação. Claro, a biblioteca perdeu visibilidade, é diferente de estar nesse prédio belíssimo, com menos lugares para pesquisar. O público com deficiência visual caiu bastante. Eles talvez não enxerguem a beleza do prédio, mas eles sabem, têm o tato e viviam perguntando: ‘Quando é que vai voltar a biblioteca pra lá?’. Para tu veres a sensação de pertencimento que as pessoas têm por este prédio, por este espaço. Hoje, está tudo aqui novamente.

Sul21 – Quais são os serviços da biblioteca?

Morganah – Além do empréstimo de livros para pesquisa no local, a gente tem também o acervo de pesquisa de documentação do Rio Grande do Sul. A Biblioteca Pública do estado tem a função de ser a guardiã, de preservar e disseminar a memória de tudo o que é produzido no estado do Rio Grande do Sul. A literatura gaúcha, a história, a geografia, tudo deve ficar aqui. Nós temos, por exemplo, documentos de governo, temos a função de preservar e muitos pesquisadores, historiadores e escritores utilizam nossa documentação pra compor suas teses e seus romances históricos. É um acervo de grande porte e com bastante valor sobre o estado do Rio Grande do Sul.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – A produção literária atual vem para cá de alguma forma?

Morganah – Nem tudo. Nós temos a Lei Estadual do Livro, que foi regulamentada em 2003, que obriga as editoras gaúchas a mandarem pelo menos um exemplar do que é publicado, mas quem cumpre realmente são as editoras universitárias e as pequenas editoras. Nós temos também um serviço que a gente oferece e que é cobrado via associação de amigos: a elaboração da ficha catalográfica dos livros. Para algumas editoras, a gente faz de graça e em troca ela nos dá os livros, dois exemplares. Nós também assessoramos a questão do direito autoral, pois não temos escritório de direitos autorais aqui no RS, mas damos toda a orientação sobre como registrar o direito autoral de uma obra. A equipe é pequena, mas a gente se vira.

Sul21 – E as doações?

Morganah – Sim, a gente recebe muitas doações. Claro, no meio dessas doações vem aquilo que não serve… Alguns acham que qualquer coisa dá pra mandar para a Biblioteca. Às vezes é uma Enciclopédia Barsa que o pai tinha na década de 80. Bem, sinto muito, mas o material está desatualizado, então a gente agradece… Mas nas doações vêm muito material precioso, raro. Só com doações, já conseguimos triplicar o número de obras raras. Visitamos as bibliotecas particulares que as pessoas desejam doar e avaliamos. A gente conseguiu muita coisa boa para o setor de obras raras, principalmente de autores gaúchos, primeiras edições fantásticas.

Sul21 – Qual é o tamanho do acervo aqui na Biblioteca?

Morganah – Juntando todas as obras, temos 250 mil livros. De obras raras temos 1.100 títulos já catalogados, mas já vai virar 3.000, contando com o que está sendo catalogado. As obras raras não saem daqui, as pesquisas são locais e usa-se luvas. A parte do Rio Grande do Sul também não sai, porque pode se perder algo. Agora, o público e os pesquisadores poderão entrar e usar o acervo geral para pesquisar com orientação de um funcionário. Antes, quando a gente saiu, o acervo ficava no segundo andar, então o usuário pedia o livro lá embaixo, o funcionário encontrava no catálogo, manualmente, e o livro descia pelo elevador. Ou seja, o usuário não circulava nas estantes e isso é ruim, porque tem muito livro que nunca foi aberto por ninguém. Caminhando pelas estantes, tu podes ver outros títulos que te interessam. No meu entendimento, a biblioteca não serve se não chegar ao seu leitor, então a ideia é abrir o acervo, ao mesmo tempo que o preservamos.

Sul21 – Um acervo que é sempre crescente.

Morganah – O acervo cresceu muito. São muitas doações. A gente tem um público com grande carinho pela biblioteca. Há um pessoal fantástico que compra os livros, lê e traz pra biblioteca, então nós temos obras recentíssimas, que o estado não compra. A última vez que compramos foi em 2006 e dentro daquele limite que não exige licitação. Na época, o estado não pagava os fornecedores em dia e chegamos a fazer um pregão, só que ninguém se apresentou… Aí eu fui me queixar com o presidente da Câmara Rio-grandense do Livro e com o clube dos editores. Eles me disseram que o problema era o estado estava demorando mais de um ano para pagar e ninguém queria esperar todo esse tempo. Eu já passei por vários governos e nunca a cultura foi prioridade. Então sobrevivemos de doações particulares. A Associação de Amigos também compra alguma coisa, principalmente os livros de leitura obrigatória para o Vestibular.

Morganah Marcono novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Algum autor vem aqui entregar?

Morganah – Sim, alguns sim, mas normalmente é a gente que tem de correr atrás. Muitos querem só vender, mas outros têm reconhecimento pela biblioteca e trazem suas obras.

Sul21 – O ex-secretário Assis Brasil me deu a informação de que a biblioteca teria sido o último prédio público construído para cultura no estado, mas acho que foi o Araújo Vianna em 1964. De qualquer maneira, se 1912 ou 1964, é muito tempo.

Morganah – É triste ver isso. Eu sou funcionária estadual há 23 anos, vou fazer 13 aqui na biblioteca, então já passei vários governos.

Sul21 – Como entraste no Estado?

Morganah – Como concursada. Fiz o concurso ainda sem me formar, porque não era exigida formação em Biblioteconomia, mas até que fui bem classificada. Então fui para uma biblioteca de bairro. Fiquei lá até 95, quando fui para a Biblioteca Pública.

Sul21 – Qual é o tamanho da equipe da BP?

Morganah – Hoje eu tenho umas 18 pessoas. Quando assumi a direção em 2003, éramos 40. As pessoas vão se aposentando e não são repostas. Tem gente que quer vir trabalhar de bibliotecário, mas só viriam se tivessem função gratificada e a secretaria não tem como disponibilizar.

Sul21 – Quais são as funções do pessoal que trabalha aqui?

Morganah – São cinco setores que atendem o público, dez horas por dia, das 9 às 19h, de segunda à sexta e no sábado das 14 às 18h. Então eu preciso de pelo menos duas pessoas por setor, todos os dias. Esses setores são o multimeios, o braille, a referência, que é a pesquisa no local, o setor do RS e o de empréstimo de livros. Esses atendem o público 10h por dia. Como o funcionário não tem carga de 10h por dia, eu tenho que revezar. Dividimos os horários. Alguns entram cedo e saem às 15h, outros entram às 12h e ficam até as 19h. O horário de 12h é complicado, porque há o almoço. É pouquíssima gente mesmo e bibliotecários então nem se fala: nós somos três. Eu na administração e cuidando de tudo, sistema e biblioteca, duas catalogando e uma voluntária, uma eterna voluntária bibliotecária que eu tenho, graças a Deus, e que é aposentada da UFRGS. Ela nos ajuda muito. Mas é uma equipe reduzida. O acervo cresceu muito, nós fomos para lá com 40 mil livros e voltamos com 60 mil. Conclusão: tenho um acervo de quase 20 mil livros encaixotados que estamos lutando para catalogar. Porque catalogar não é só botar o título, tem que analisar a obra, determinar o assunto. É um trabalho moroso, que tem que ser feito por técnicos e nós não temos técnicos em número suficiente. Eu tenho dois historiadores no setor do RS e duas estagiárias de história. Estagiários nós temos quatro: dois de história e dois de biblioteconomia. São poucos também.

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – E há os eventos.

Morganah – Eventos e também parcerias. Eu trouxe para cá o Clube de Leitura, que é quinzenal, e os recitais da Escola da Ospa. O Clube de Leitura são encontros quinzenais onde se discute literatura. Por exemplo, a cada segundo semestre nós damos prioridade para as obras do vestibular, vem muito estudante que precisa saber delas. Há os saraus do braille, etc. Há também apresentações musicais e as palestras no Salão Mourisco. Tudo isso é serviço, ma nada disso traz dinheiro. O que traz um dinheirinho é uma locação através da Associação de Amigos para alguma filmagem, algum comercial. Até a reforma dos banheiros e o Wi-Fi quem pagou foi a Associação de Amigos, com recursos que conseguimos através da gravação de um comercial e de parte de um filme. Claro, sempre um ou dois funcionários acompanham, não se pode arrastar nada, não pode encostar nada na parede, não pode pendurar nada, não pode beber, não pode fazer refeição. Nós estamos num prédio que deve ser preservado.

Sul21 – A Associação de Amigos, como é que funciona?

Morganah – Ela não é tão forte como a do Theatro São Pedro ou a do Margs. O associado paga uma anuidade de R$ 60. Agora poderemos dar um retorno melhor para os associados, inclusive no uso do Salão Mourisco, que pode ser utilizado mediante agendamento. Nós temos uns 60 pagantes, menos até. No ano passado fizemos uma campanha, mas ainda são poucos, bem poucos. A gente fatura alguma coisa através das fichas catalográficas, pelas quais cobramos R$ 30, bem abaixo do preço de mercado. Temos também a taxa de empréstimo anual de R$ 5 de cada sócio, para retirar livros. No multimeios, se o usuário quiser imprimir alguma coisa, cobramos centavos pela impressão, não pelo uso. O uso é gratuito. São vários produtos que geram alguma entrada de dinheiro para a Associação e que reverte para a biblioteca. E as locações que eventualmente acontecem. Nós recebemos recentemente uma escola de música. Locamos o espaço por R$ 200, o que também não é uma fortuna.

Sul21 – O que não está pronto ainda?

Morganah – O restauro da pintura mural é um projeto à parte, é um projeto caro e demorado. Orçaremos com especialistas. Isso é um projeto à parte, é uma coisa que eu acredito que vá demorar uns quinze anos e que será feito com a Biblioteca em funcionamento. Isola uma parede, trabalha ali, depois vai para outra e assim por diante. Além disso, o que falta fazer ainda: o restauro da fachada interna, que não foi feito, e a climatização. As esperas estão prontas, mas temos que adquirir os equipamentos e esse prédio precisa ser climatizado, porque tem muita poeira, muita poluição dos veículos que trafegam ao redor, o que prejudica o acervo. E está pendente a acessibilidade. Nós temos um elevador que dá acesso às pessoas de idade, mas onde não cabe uma cadeira de rodas. Então precisamos de um elevador para cadeirantes. Tudo vai bater lá pelos 8 milhões, que é o que nos falta. Precisamos também de segurança para o acervo, do restauro dos ornamentos, das escadarias, das colunas de mármore e do mobiliário. Há partes do mobiliário que foram comprometidas pelos cupins. O mobiliário precisa ser restaurado. Mas os ornamentos das cadeiras estão todos recuperados, são detalhes caros. E a infraestrutura está toda OK, não há problema de umidade nem de infiltração, o cabeamento idem. A sustentação dos tetos também. Havia problemas graves neste aspecto, como disse antes.

Sul21 – Eu dei uma olhada no site de vocês e ele fala em anexo.

Morganah – Não, o anexo era uma proposta do governo anterior, que era esse prédio da Andrade Neves, onde os Lanceiros Negros estão. Eu tinha conseguido o prédio com recursos do governo federal, mais R$2 milhões e 600 mil de contrapartida do estado. Assim, criaríamos esse anexo. Era o nosso sonho, só que essas coisas de governo…

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Morganah Marcon | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Sul21 – Qual é a importância da Biblioteca Pública para o estado?

Morganah – Bom, em primeiro lugar não existe prédio mais belo aqui na cidade, com detalhamento de pinturas, de murais, de mobiliário. É também é um dos templos positivistas de Porto Alegre. Além disto, somos um lugar de formação de memória, de disseminação do que é produzido no estado. Mas eu acho que o mais importante é que as pessoas têm enorme carinho por esse prédio. Todo mundo diz ‘’Ah, que bom que a biblioteca voltou’’. Os funcionários estão radiantes. A gente carregava caixas pesadas neste calor de verão, suava e não se importava. Eu ouço o pessoal daqui dizer “Ah, eu não me importo, eu tô voltando pra casa’’. Aqui é um prédio que, além da história do RS, oferece o acesso à informação, o acesso ao livro gratuitamente. É a maior do estado, a mais representativa, então tínhamos que estar de volta para o nosso público. E eu tenho certeza que, agora, com o retorno, nós vamos resgatar todo aquele público que perdemos com nossa saída e muito mais. A gente espera que as pessoas se apropriem desse espaço, para que ele se torne pequeno. Quando este lindo edifício foi construído, no início do século XX, a população era outra e o acervo era de 8 mil livros. Nós precisamos de uma biblioteca moderna para que aqui fique só a parte histórica, mas isso eu me aposento e não vejo. Espero que a situação do estado melhore.

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Veja fotos internas e externas do prédio restaurado:

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

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11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

11/12/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Biblioteca Pública recebe restauração e abre ao público novamente | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

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Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

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Obrigado, Pessoa, por ofender, em meu lugar, todos os governantes

Ultimatum
(Álvaro de Campos – 1917)

Mandado de despejo aos mandarins do mundo.

Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas,
charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro

Ultimatum a todos eles
e a todos que sejam como eles,
todos.

Monte de tijolos com pretensões a casa
inútil luxo, megalomania triunfante
e tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular,
que confundis tudo!

Vós, anarquistas deveras sinceros
socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vós que representais o mundo,
homens altos,
passai por baixo do meu desprezo.
Passai aristocratas de tanga de ouro,
passai frouxos.

Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
descascar batatas simbólicas

fechem-me isso tudo a chave
e deitem a chave fora.

Sufoco de ter somente isso à minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
do que todas as janelas que há no mundo.

Nenhuma ideia grande,
nenhuma corrente política
que soe a uma ideia grão!
E o mundo quer a inteligência nova,
a sensibilidade nova.

O mundo tem sede de que se crie.
O que aí está a apodrecer a vida,
quando muito, é estrume para o futuro.

O que aí está não pode durar
porque não é nada.

Eu, da raça dos navegadores,
afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores,
desprezo o que seja menos
que descobrir um novo mundo.

Proclamo isso bem alto,
braços erguidos,
fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.

fernando_pessoa

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