O chinês que enfiou o dedo num van Dyck na National Gallery

Ontem pela manhã, eu estava sozinho na National Gallery. Era uma visita lenta e anotada para quando a Elena se liberasse a fim de realizar o mesmo périplo. Sentei para descansar numa das confortáveis poltronas lá disponíveis — esses museus enormes cansam meus delicados pés — e vi uma cena incrível. O pai de uma família chinesa estava encostando o dedo numa pintura de van Dyck, Caridade (Charity), para mostrar um detalhe do quadro.

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

Eu vi o fato e um dos guardas também. Ele correu aos gritos de “Você não pode fazer isso!”. Mais dois guardas correram para auxiliar o primeiro e eu só assistindo a coisa, disposto a também ir lá dar uns cascudos no nobre cidadão da República Popular da China. (Que Deus, Nosso Senhor, o respeite, ame, e esconda sua estupidez).

Foi quando o primeiro guarda reiniciou seu discurso. Ele disse:

— Este quadro está aqui para o senhor, para seus filhos, seus amigos, para o mundo inteiro e para as gerações futuras. O senhor simplesmente não pode repetir sua atitude aqui e nem em nenhum outro museu que o senhor visitar em sua vida. Jamais faça isso novamente, por favor.

Todo mundo logo ficou calmo e sério. E a visita seguiu normalmente. Só o cidadão tinha um sorriso amarelo, enquanto levava uma mijada da mulher em chinês.

Ele estava tocando bem aqui, ó:

Foto: Milton Ribeiro

Foto: Milton Ribeiro

 Naquela parte escura do tecido, ao lado da mão.

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Talvez tenha sido o melhor concerto que assisti em minha vida

Poderia começar contando como Yuri Temirkanov parou quando estava entrando no palco com Martha Argerich. A argentina foi sozinha receber o aplauso do público antes de iniciar o 3º Concerto de Prokofiev. Fingiu irritação com a homenagem e chamou o lendário maestro com caretas e gestos peremptórios. Mas Temirkanov tem razão, é o concerto DELA. Ou poderia começar contando que a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo colocou no programa a 5ª Sinfonia de Shostakovich por esta estar completando 80 anos e ter sido estreada por ela mesma em seus tempos de Orquestra de Leningrado sob a direção de Mravinsky. Ou poderia logo dizer que foi um dos melhores concertos que assisti na vida, que tive de segurar as lágrimas quando Martha atacou Prokofiev. Ou poderia começar falando que compramos ingressos para um local onde as pessoas ficam em pé porque a Elena tinha clareza de sua “imperdibilidade” e não tinha outros disponíveis.

Poderia terminar contando que saí atarantado do concerto, tanto que fiquei esperando a Elena na porta do toalete feminino e deixei-a sair sem a ver. Ou que compositores russos interpretados por russos é texto puro, sem Google Tradutor — expressão da Elena. Ou devo tentar descrever a incrível sonoridade e unidade da orquestra? (Sem esquecer os magníficos solistas de sopros). Ou talvez o fato dos londrinos urrarem cada vez que Martha voltava ao palco?.Ou devo apenas terminar opinando que marcar um concerto desses para às 15h de domingo comprova que londrino não faz churrasco?

(Em tempo: Temirkanov rege sem batuta, com discretos movimentos horizontais e verticais. Jamais faz um gesto brusco nas notas longas. Parece que está cuidadosamente carregando a música. O que mais se movem são seus dedos e mãos, que devem passar significados que só os músicos entendem. Impossível fazer aquilo com uma batuta. Sua clareza nas entradas torna impossível alguém não entrar quando deve. Um sábio.)

.oOo.

A que me refiro?
Ao concerto de hoje à tarde no Royal Festival Hall do Southbank Center em Londres.

Programa:
Aram Khachaturian: Adagio of Spartacus and Phrygia from Spartacus, Suite No.2
Aram Khachaturian: Dance of the Gaditanian Maidens and Victory of Spartacus from Spartacus, Suite No.1
Sergei Prokofiev: Piano Concerto No.3
Dmitri Shostakovich: Symphony No.5 in D minor

St Petersburg Philharmonic Orchestra
Yuri Temirkanov, conductor
Martha Argerich, piano

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Martita recebendo os aplausos pós-Prokofiev

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

Temirkanov fazendo o mesmo pós-Shosta

E minha musa antes do concerto

E minha musa antes do concerto

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Em Berlim (I)

A Latam fez tudo para atrapalhar, mas no final tudo deu certo. Um atraso de 1h10 na saída de São Paulo quase impediu que pegássemos a conexão para Berlim. Chegamos a Frankfurt 40 minutos após o previsto e fizemos a maior correria num dos maiores aeroportos do mundo antes de vermos a bendita fila de embarque para Berlim. Apreciamos algumas cenas de desespero protagonizadas por norte-americanos que vieram no mesmo voo conosco. “Fuck this airport”, diziam em voz alta dois rapazes de ar nova-iorquino que perderam sua conexão por uma razão muito simples: os alemães não os deixaram passar na frente da fila de imigração. Para os alemães fila é fila e se eles chegaram atrasados, paciência. Aqui ninguém passa na frente. Tá bom. Entendi.

A viagem foi difícil. Eu estava sentado na janela, Elena no meio e um enorme alemão mal-humorado no corredor. O homem grunhia quando queríamos ir ao banheiro. A coisa era ainda mais tensa porque li em sua tela que ele ouvia a integral das sinfonias de Dvořák sem parar. Foram mais de quatro horas. Ele não podia ser boa pessoa. Passada a tensão, a Elena até sentiu-se mal no dia seguinte.

Em Berlim, no aeroporto de Tegel, Bernardo nos esperava. Se não fosse ele, gastaríamos horrores na locomoção até o centro. Como ele, gastamos 4,50 euros. Chegamos rapidamente ao Hotel Prens Berlin — simples e ótimo — e jantamos maravilhosamente em sua companhia ao custo de 25 euros. Preço para os três.

No voo da Lufthansa entre Frankfurt e Berlim, fui ao banheiro — já tinha outras vezes é claro, mas esta ida foi especial. A porta sinalizava o recinto como livre. Abri a porta com a maior sem-cerimônia quando vi que, dentro, estava uma aeromoça de olhando-se no espelho. Detalhe: ela retocava a maquiagem ou ajeitava o cabelo com as saias no chão, só de calcinhas e o resto da roupa. Pode ser que aqui ninguém passe na frente da fila, mas as moças entram em banheiro público sem maiores cuidados. Fechei imediatamente a porta. A moça nem me olhava depois.

Pela janela do avião, fiquei impressionado com os número de captadores de energia solar e os cataventos de energia eólica. Eles estão por todo lado.

A conversa com o Bernardo foi calma e amorosa, apesar de nosso imenso cansaço. Amanhã é o aniversário de meu filho.

Elena e Bernardo conversando sobre a poética dos livros de fotografias.

Elena e Bernardo conversando sobre a poética dos livros de fotografias.

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Férias

Não creio que, nestes meus quase 60 anos, tenha algum dia tirado 30 dias consecutivos de férias. Desta vez ficarei um mês fora. Então, se por um lado perco meus dez dias de folga em julho, por outro faço melhor uso de uma passagem absurdamente cara. Vou visitar meu filho em Berlim e dar as voltas que a grana permitir. Será ótimo ver a Ilha dos Museus, o Portão de Brandemburgo, o Memorial do Holocausto, a Alexanderplatz, o Muro, o Reichstag, etc. Temos também programada uma extraordinária lista de concertos. Mas creio que a atração principal da cidade será mesmo o Bernardo. É engraçado, quanto mais a hora da viagem se aproxima, mais sinto falta de vê-lo e abraçá-lo. É também praticamente certo que vou conhecer minha sogra em Praga. Ela só fala russo e certamente ficará decepcionada com o cara feio que sua linda filha foi arranjar. Pelo Skype, ela achou que eu fosse judeu. O que sei eu do que aconteceu com meus antepassados ibéricos? Quase nada e é possível que a Klara tenha até acertado. Então vou diminuir minha presença na rede para ver o que há por aí.

O castelo de Praga em fevereiro de 2013 | Foto: Milton Ribeiro

O Castelo de Praga em fevereiro de 2013 | Foto: Milton Ribeiro

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Em 1988, Akira Kurosawa saudava Bergman por seus 70 anos

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