Bom dia, Zago (com os melhores lances de Passo Fundo 2 x 2 Inter)

Com dois gols, Brenner confirma positivamente, já Valdívia...

Com dois gols, Brenner confirma positivamente, já Valdívia…

Ontem, assisti apenas os 15 minutos finais do jogo, Zago. Cheguei em casa e o Brenner estava sendo expulso junto com um jogador do Passo Fundo. Então, vi uma pequena parte de um jogo de 10 contra 10. Mas deu para observar algumas coisas.

Para meu horror, jogavam Paulão e Ernando na zaga. Ignoro como esta zaga conseguiu sobreviver ao rebaixamento. Só de ver os dois juntinhos em campo, qualquer colorado já murcha. Depois observei Seijas sofrer um pênalti claro, não marcado pelo apitador. Acontece. E… nos minutinhos finais, notei como o Inter se acadelou. E avisei minha mulher: vamos tomar um gol.

Tentando manter um resultado mínimo de 2 a 1, marcando o PF somente a partir de nossa intermediária e só fazendo isso, convidamos o PF para o nosso campo.

Ora, tal atitude anima qualquer adversário e sei — talvez tu também saibas, Zago — que nos últimos 12 meses perdemos dezenas de pontos nos minutos finais por ficar apenas se defendendo. Dezenas!

Reza a Lei de Bielsa:

O time que abdica de jogar com a bola, multiplica o número de oportunidades que o adversário terá.

E não é que o PF empatou mesmo o jogo? Como? Com uma bola alta sobre Paulão e Ernando. Depois, quando repetiram os gols do jogo, vi que o primeiro gol do Passo Fundo tinha sido marcado em outra bola alta no setor de Fraldão & Cagão, como diz o amigo Dario Bestetti.

É muito pouco amor ao cargo, Zago. São quatro jogos no Gaúcho, com três empates e uma derrota. Estamos em décimo, com a mesma pontuação do primeiro rebaixado, o 11º. Recebeste uma ruína de time, mas está hora de aparecer um novo trabalho. O teu. Podias começar trocando a zaga, Zago. Se continuares assim, já sabes o que vai te acontecer. Bom dia.

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Por que Stálin transformou Púchkin em um deus

Em 1937, o ano do Grande Terror, Stálin decidiu celebrar Púchkin como um deus socialista para conquistar apoio popular. O poeta, reverenciado como um gênio literário antes da Revolução Russa, viu sua reputação ir aos céus entre os soviéticos.

Da Gazeta Russa

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Homenagem a Púchkin em praça de Moscou, em 1937 Foto: Arquivo

Este ano marca não apenas o 100º aniversário da Revolução de 1917, mas também o 80º aniversário do Grande Terror, em 1937. Naquele ano, a Rússia soviética também celebrou, em uma escala sem precedentes, o 100º aniversário da morte de Aleksandr Púchkin. O grande poeta tinha permanecido até então nas sombras, mas, em 1937, tornou-se protagonista do panteão cultural soviético.

Stálin decidiu apresentar ao mundo um império quase clássico, centrado na cultura, que tinha como figura central Púchkin.

Púchkin nas alturas

A decisão de celebrar Púchkin como um deus socialista pertenceu a Stálin. Para entender a estranheza de sua iniciativa, vale a pena lembrar que no século 19 Púchkin era um poeta conhecido apenas pela elite intelectual. A lista de leitura para a intelligentsia revolucionária não incluía Púchkin porque ele era considerado muito distante e indiferente às necessidades imperativas do povo.

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Cartaz em referência ao aniversário da morte de Púchkin (Foto: Arquivo)

Stálin, no entanto, era bem versado em literatura russa clássica e gostava não só do revolucionário Tchernichevski, mas também de Dostoiévski e Púchkin.

A ideia de exaltar o poeta foi fortemente influenciada pela diáspora russa no exterior, que, a partir de meados da década de 1920, desenvolveu um forte interesse por suas obras. O regime acompanhava de perto as evoluções da diáspora, e Stálin acompanhava todas as principais publicações dos círculos de emigrantes russos.

Em 1937, a comunidade de russos no exterior planejava realizar seus próprios eventos em celebração a Púchkin, o que significava que o legado do poeta poderia se tornar uma arma política perigosa em suas mãos – portanto, era necessária fazer uma manobra oficial. Embora alguns historiadores aleguem ter sido esta a lógica de Stálin, não há consenso nem comprovações sobre tal tese.

Culto a personalidade

A partir de 1922, começaram a ser realizadas cerimônias oficiais anualmente para o aniversário da morte de Púchkin; nelas, o poeta era descrito como “primavera russa, manhã russa, Adão russo” e também comparado a Dante, Shakespeare, e Goethe.

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Ao atacar o Governo, Nassar apenas honrou uma velha tradição da literatura

Freire diz suas bobagens ao lado de Nassar, que observa as duas páginas de seu bombástico discurso | Foto: Wanezza Soares / Carta Capital

Freire diz suas bobagens ao lado de Nassar, que observa as duas páginas de seu bombástico discurso | Foto: Wanezza Soares / Carta Capital

Eu e dois amigos bem conhecidos de todos, já totalmente bêbados, criamos o conceito da “bundamolização da literatura”. No passado, o escritor era ouvido, consultado e participava da vida política. Thomas Mann tinha programa de rádio onde falava contra o nazismo. Orwell criou seus últimos livros não apenas falando de política, mas patrocinado pelo serviço secreto inglês, altamente anti-soviético. Céline, Greene, Brecht, Borges, Cortázar — que escreveu um belo conto homenageando a Revolução Cubana, lembram? –, para não falar em Vargas Llosa e García Márquez, todos tiveram participação na vida política de seu tempo. Nem que fosse para chamar os outros de idiotas. Enfim, a coleção não tem fim. Mais: como escreveu Idelber Avelar, “o argumento da independência entre a qualidade da obra e a coerência ou a virtude da posição política do autor é universalmente aceito”. Eu acho que a literatura perdeu — E MUITO — ao se demitir da vida política secular. Hoje, todos têm medo de falar para não perder aquele convite — e a consequente graninha — para a feirinha ali da esquina e resultado está aí, com a literatura lá atrás, no último banheiro da casa.

Charlles Campos também foi oportuno ao escrever no Facebook que “Nassar, além de ser o maior escritor — de longe  — nacional, se comportou segundo uma tradição literária muito antiga”.

O que me surpreende não é terem dado o microfone para Raduan Nassar e ele ter dito o que disse. O que me surpreende é o ministro da Cultura, Roberto Freire — verdadeira antítese da cultura — ter sugerido que Nassar deveria recusar o Prêmio Camões, no valor 100 mil euros. Também chamou Raduan de adversário político, o que é verdadeiro e até ceitável, dependendo do tom da fala. Porém, o tom de Freire foi ríspido e o poeta Augusto Massi fez muito bem ao dizer que Freire “não estava à altura do evento”. Bem, na minha opinião, será complicado achar algo à altura de Freire e do PPS.

Outra pessoa respeito muito, a tradutora Denise Bottmann, veio com tudo: “Roberto Freire sempre foi uma das grandes vergonhas nacionais, desde antes dessa nossa era neoneanderthal. Agora estreia em alto estilo na vergonha lítero-internacional. Parabéns multiplicados ao Raduan, por levar mais esse prêmio, o discurso do bocó de platina. E vivas ao amiguinho Massi, que não deixou passar barato”.

A vergonha nacional fez-me rir ao declarar: “Esse histrionismo oposicionista está com seus dias contados”. Então tá, ele vai implantar a ditadura.

O Ministro também disse que Nassar estava “recebendo um prêmio do Governo que ele considera ilegítimo”. Não, em primeiro lugar, ele recebeu o prêmio de dois governos  — tanto que Nassar agradece a Portugal em seu discurso –; em segundo lugar, o anúncio do vencedor deu-se quando Dilma era presidente e, terceiro, o prêmio é literário. É pela obra.

A propósito, Raduan Nassar é autor de dois romances fundamentais da literatura brasileira, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera. O Prêmio Camõesinstituído pelos governos do Brasil e de Portugal em 1988, é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. O prêmio é sempre concedido pelo conjunto da obra.

Confira a íntegra do discurso de Raduan Nassar:

“Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandescente desde a Revolução dos Cravos ocorrido dois anos antes. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo atestando a virulência de sua fala. E é esta figura exótico a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Esses fatos configura por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado, por sinal, ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração de riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal. Tanto que o ministro Celso de Mello acolheu, há três dias, o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes em uma única delação, beneficiou-se do foro privilegiado, com julgamento a perder de vista e provável prescrição. Em sua decisão, o ministro acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado.

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Em Berlim (IV)

Ao longo de nossa viagem, procuramos manter contatos interessantes em Berlim. Em nosso quarto dia na cidade, tentamos falar com Marx e Heg… Engels. Além de Lênin, claro. Eles estão na entrada da Ilha dos Museus para quem vem do lado da Alexanderplatz. Marx negou-me o cumprimento — aliás, sequer ergueu-se quando de minha chegada, enquanto Engels até levantou de sua cadeira. Lênin, porém, veio sorridente em nossa direção me imitando, isto é, caminhando com a mão direita no bolso, como quase sempre faço. Grande camarada! Lênin está na frente do guichê de informações da Ilha dos Museus. A seguir, fotos desta primeira parte e, depois, do restante do dia.

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Em nossa primeira ida à Ilha dos Museus, escolhemos a ótima Alte Nationalgalerie. A Ilha dos Museus é um complexo de 5 Museus temáticos, um melhor do que o outro.

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Hoje, passando pelo Arroio Dilúvio na Av. Ipiranga, em Porto Alegre…

… tirei esta foto das pessoas se refrescando e passeando. Ah, não é o Dilúvio? Todo mundo tem medo de sair na rua em Porto Alegre e o Dilúvio permanece poluído? Extremamente poluído? A foto é de Seul, capital da Coreia do Sul, e o Dilúvio de lá chama-se Cheonggyecheon? Ah, tá. Peço desculpas pelo sonho.

Arroio Diluvio

via Arroio Dilúvio

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Em Berlim (III)

Nosso terceiro dia em Berlim teve o grande auxílio do Bernardo como guia. Meu filho, que mora há um ano e meio na cidade, está mais do que ambientado na capital alemã. Foi um dia de voltas e mais voltas na neve. Ainda com algum sol, fomos até a Potsdammer Platz, importante bairro e interseção de tráfego no centro de Berlim. Fica a um quilômetro do Portão de Brandenburgo e do Reichtag, ao lado do Tiergarten. Para o lado do Tiergarten, temos os prédios da Filarmônica de Berlim.

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A sala à esquerda é a chamada Kammermusiksaal, onde se apresentam os conjuntos menores de Música de Câmara. A da direita é Großer Saal, onde normalmente se apresenta a Filarmônica de Berlim. Nos dias seguintes, assistiremos concertos em ambas as salas. Tirei fotos do interior. Achei o prédio bem feio por fora, mas lindo por dentro. É um ousado e polêmico projeto de Hans Scharoun que já está na história da arquitetura moderna. O exterior lhe valeu apelidos como “Circo Karajan”, mas sua acústica e ambiente interno o tornam disputado por artistas e fãs da música. Sua construção foi finalizada em 1963, auge do igualmente polêmico titular da orquestra.

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Depois, caminhando ao lado do Tiergarten, no maior frio, saímos em direção ao Memorial do Holocausto e do Portão de Brandenburgo.

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No caminho, o nome de uma ídola nossa.

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O Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal) é um memorial em Berlim dedicado às vítimas Holocausto, projetado por Peter Eisenman. Consiste numa enorme área coberta por 2.711 blocos de concreto. De fora, vê-se um campo ondulado de pedras retangulares com nada escrito. Os blocos são de 2,38 m por 0,95 m — parecendo caixões — e a altura varia desde 20 cm até 4,8 m.

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De acordo com o texto do projeto de Eisenman, os blocos são desenhados com a finalidade de produzir intranquilidade, confusão e para que as pessoas se percam entre os blocos. É comum você ouvir uma pessoa chamando outra de seu grupo. Se você for com o filho pequeno pegue sua mão. Ele vai querer correr e… A escultura toda representa um sistema supostamente ordenado que perdeu o contato com a razão humana. O notável é que Eisenman não usou nenhum simbolismo explícito sobre o Holocausto.

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Algumas ponderações sobre a pesquisa que coloca Lula como favorito à presidência em 2018

Por Luís Eduardo Gomes

lula bolsonaro

1) Se o Lula concorrer, vai para o segundo turno. EU, friso bem, EU, ACHO que ele não ganha, porque o anti-lulismo é muito forte e as forças contrárias vão se unir com QUALQUER candidato, da Marina a Bolsonaro, em 2018. Esse clima de “já ganhou” que eu andei vendo hoje é a mesma loucura de quem achava que ia ser Pont e Luciana no segundo turno.

2) É muito apavorante esse crescimento do Bolsonaro, mas é esperado. Cada vez mais eu acho que ele vai ganhar, ainda mais porque não se leva a sério essa possibilidade, especialmente A DIREITA não leva a sério, o que me leva ao item 3…

3) Aécio vai entrar para a história como o MAIOR OTÁRIO que o Brasil já viu. Se ele tivesse ficado quieto, sem querer lá atrás contestar o resultado das urnas, era o franco favorito em 2018. Foi o pai da crise política, deu o poder pro Temer, hoje nem a direita o respeita mais e ele pode ter criado o cenário pra vitória do Bolsonaro ou para a volta do Lula (Duvido que o PT faria um quinto mandato consecutivo se a Dilma não tivesse sido derrubada).

4) Eu não sei se a nossa mídia nacional se faz de louca, se é manipulação, se é iludida ou se é burra mesmo, mas essas notícias que sempre circulam sobre expectativa do Temer se candidatar, do Henrique Meirelles ou coisa do tipo, são totalmente descabidas nesse momento. A menos que haja um crescimento muito acima da expectativa em 2017 e no início de 2018, eles não têm nenhuma chance.

5) Ainda acho que há um cenário para uma disputa entre Marina (ou Ciro) e Alckmin, mas isso passaria por uma diminuição do extremismo, o que não estamos vendo hoje, e o Lula não disputar.

6) Para fechar, é preciso levar muito a sério o Bolsonaro e não tirar ele para louco. Tem muita gente que QUER MUITO votar nele e serem ridicularizados como boçais só aumentará a vontade dessas pessoas de abraçar o ex-militar. É preciso trazer essas pessoas para o nível da argumentação, para o debate, especialmente com quem é de direita e defende outras posições.

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Princesa do Solimões 0 x 2 Inter)

Teus salvadores, Zago | Foto: Ricardo Duarte

Teus salvadores, Zago | Foto: Ricardo Duarte

O que foi aquele primeiro tempo contra o Princesa do Solimões, de Manacapuru (AM), ontem à noite? Com um time mal escalado por ti — escrevi no Facebook antes do jogo — , o que fizemos? Nada. O Inter não criou nenhuma chance clara de gol contra o Princesa do Solimões, sim, o Princesa do Solimões, EM TODO O PRIMEIRO TEMPO, só uns lances fortuitos causados por erros do adversário. Somos um time plano, cansativo de se ver, sem inspiração, imaginação e criatividade, somos deprimidos e infelizes.

O “atacante” Diego é um braço roubado à construção civil. Klaus estaria melhor entregando gás por nossas ruas. Conseguiu errar três saídas de bolas consecutivas. Eram passes fáceis, de futebol primário. Roberson e Andrigo nem jogaram, mas não os esqueço em razão dos traumas que me causaram. Ambos fariam uma boa equipe de entregadores de pizza.

Enquanto isso, Valdívia, Seijas e Brenner — que entrara bem contra o Brasil-Pel e que, como prêmio, foi esquecido — estavam no banco. E o zagueiro Neris nem estreou, o que me assusta terrivelmente. Será pior do que Klaus?

No segundo tempo, com Valdívia em campo no lugar de Diego, D`Alessandro ganhou alguma parceria para jogar. Coitado do Dale. Veterano, prestes a completar 36 anos, tendo que jogar por todo o ataque. Deveria ser preservado, mas desse jeito vai acabar com algum problema muscular.

E então, com um gol de Valdívia em passe de D`Alessandro, obtivemos a vitória, que foi confirmada por Brenner, outro que pede passagem para entrar no time, em novo passe do incansável Dale.

Será um longo 2017 para todos nós, colorados. A diretoria do clube parece querer contratar quase tudo o que lhe é proposto. Marcelo Cirino está chegando. Este é outro mau jogador, varrido pelo Flamengo. Pertencia ao chamado Bonde da Stella, grupo de jogadores do Mengo mais ligados à Stella Artois do que em treinar. O Globo chamou-o de “jogador nota 3”. Já o também pretendido William Pottker (um globetrotter atualmente na Ponte Preta) parece ser melhor, talvez parecido com o Brenner.

E domingo voltamos ao Gauchão contra o Passo Fundo fora de casa. Temos dois pontos em nove disputados, estamos quase na zona de rebaixamento. Que a luz do bom senso te ilumine, Zago!

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Em Berlim (II)

Acordamos com problemas no dia 4 de janeiro, dia do aniversário do Bernardo. Uma baita dor de cabeça resolveu incomodar a Elena após a viagem e ela pensou que a recuperação seria mais rápida se ficasse no quarto descansando. Inclusive comeria ali. Foi uma boa decisão, porque ela já ficou bem para a festa da noite. Então saí para a rua atrás de comida. O bom e barato Hotel Prens fica nas imediações da estação de Schönleinstraße, na Kottbusser Damm (avenida). Meu filho mora perto a três quadras, na Bürknerstraße. É uma região de imigração turca onde tudo o que não há é culinária alemã. Só que os restaurantes e bares turcos vendem uma comida de primeiríssima linha e muito barata. Fiquei encantado com os mercados turcos da região. Em um deles, que ostentava um nome mais ou menos sincero — Best of the Rest — fiz algumas compras.

Aqui, a primeira parte:
Berlim (I)

Depois de resolvida a questão alimentar, dei várias voltas a pé pela região, com a finalidade de me perder na cidade desconhecida. O invólucro de segurança e respeito que recebemos na Europa que conheço é algo muito tranquilizador. Logo que chegamos, vemo-nos envolvidos por ele e relaxamos. Dá para ir a qualquer canto sem problemas e fico surpreso com minha súbita desatenção, totalmente diversa do que faço no Brasil, onde estou sempre preparado evitar ou aceitar um roubo.

E dei voltas cada vez mais longínquas de nosso hotel.

À noite, fomos na festa de aniversário do Bernardo. Fiquei agradavelmente surpreso com seus amigos. Um bando de gente de alto nível proporcionou boas conversas e, sempre que eu pensava que ficaríamos sozinhos por sermos os “velhos da festa”, vinha alguém conversar. Tudo extremamente educado. Disse para um certo Filipe — alemão filho de portugueses — que chegara a Berlim no dia anterior e que ainda não conhecera nada. Recebi uma resposta surpreendente:

— Não, estar aqui neste bar enfumaçado é conhecer Berlim. Não é uma cidade bonita, não é Paris, Londres ou Praga, é uma cidade onde as pessoas se reúnem para festas e coisas culturais ou não. Tu estás conhecendo Berlim aqui no Mamma. Isto é que é Berlim”.

— Então o turista que só circula não conhece a cidade?

— Não conhece.

Entendi.

Voltamos para casa tranquilamente, a pé, de madrugada.

Um arroio a 100 m do hotel.

Um arroio a 100 m do hotel.

Os arquitetos alemães não podem cer um ângulo agudo que já fazem um edifício. têm desses por todo lado.

Os arquitetos alemães não podem ver um ângulo agudo que já fazem um edifício. Têm desses por todo lado.

Como suportar isso, Bolsonaro?

Como suportar isso, Bolsonaro?

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Ruína y leveza, de Julia Dantas

ruina-350Gosto de resenhas curtas, mas acho que esta será pouca coisa maior do que o habitual.

Muitos de meus amigos elogiavam Ruína y leveza e faziam cara de espanto quando eu dizia que ainda não tinha lido. De certa forma, eles me enganaram. Não quanto à qualidade do livro, que é efetivamente excelente, mas quanto ao tema. Esperava uma espécie de “romance de viagem” pela América Latina, com descrições das minas de Potosí, de Nazca, do Salar de Uyuni, de Machu Picchu, misturadas com a vida sentimental da narradora, algo assim. Eles me falavam do livro e eu imaginava algo de inspiração goethiana ou hessiana, solitária e paisagística, sempre com a viagem como centro, abrindo espaço para uma viagem interior de auto-conhecimento. E pensava que talvez não fosse o livro mais adequado a este leitor… Só que Dantas me ganhou facilmente.

Porque é o inverso. A crise pessoal da personagem — fim de um caso amoroso, súbita demissão de seu trabalho como publicitária — é que a leva a viajar e as tais transformações e recomeço ocorrem como resultado dos contatos de Sara com figuras como a do argentino Lucho e a da peruana Carmem e não através de lições ou grandes frases forçadas. Ou seja, tudo parte da simples interação. Ponto para Dantas. Ou seja, não é um livro de um narrador solitário, apesar de Sara buscar ficar sozinha. Sim, escrevo uma resenha mais dizendo o que Ruína y leveza não é, mas a culpa é de quem me fez ler o livro…

E o que é o livro? É um livro sobre um processo de retomada da vida, de um recomeço. Da crise à retomada. Ele gravita em torno das experiências passadas e da viagem de Sara, uma narradora de voz muito sedutora e envolvente. Em segundo lugar, é um texto bem escrito, fluente, inteligente e realista. Os capítulos alternam entre as experiências da viagem e os motivos a levaram até ali. Então, boa parte do livro é urbana e porto-alegrense. Sara está deprimida, mas sempre permanece interessante e até divertida — o livro contém boas piadas e histórias. Não se trata de uma pessoa perdida e desesperada “que se encontrou”, pelamor.

A frase que parece dar título ao livro é do duro Lucho, que afirma: “Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza”. Gosto especialmente da palavra leveza e a uso com cuidado. Na acepção que prefiro, ela não é confundida com simplicidade ou falta de profundidade, mas com delicadeza e viço. Mozart, para mim, seria uma mistura de leveza e ousadia. Julia Dantas a utiliza bem.

Recomendo a leitura.

Julia Dantas em foto sem crédito encontrada na rede

Julia Dantas em bonita foto sem crédito encontrada na rede

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Inter 1 x 1 Caxias)

D`Alessandro marca seu golaço na única boa jogada de ataque do Inter | Foto: Ricardo Duarte

D`Alessandro marca seu golaço na única boa jogada de ataque do Inter | Foto: Ricardo Duarte

Três rodadas do Costelão 2017 — dois jogos no Beira-Rio e um fora — e o Inter conquistou apenas dois pontos. Está em décimo lugar, podendo entrar a qualquer momento na zona do rebaixamento. Sim, na zona do rebaixamento do charmoso Gauchão. O próximo jogo é contra o Passo Fundo (8º), domingo (19), fora de casa. Mas, no meio da semana, dia 15, à noite, o Inter joga contra o Princesa do Solimões, time semi-profissional da cidade de Manacapuru (AM). O jogo será em Cascavel (PR) e deve ser fácil, apesar de ter o potencial de nos eliminar, já em fevereiro, de uma das mais importantes competições do país. Muito cuidado, portanto.

Tudo pode acontecer conosco, pois não estamos jogando nada. A partida de sábado contra o Caxias foi uma grande demonstração de incapacidade ofensiva, aliada a erros defensivos — um deles fatal. No primeiro tempo, demos dois chutes a gol, ambos de fora da área. D`Alessandro não pode fazer tudo sozinho, Valdívia está fora de ritmo e quando olha para o ataque, vê Roberson…

Porque tu, Zago, estás queimando de cara uma de tuas contratações. A insistência com Roberson é um absurdo. Brenner e Aylon já fizeram mais este ano e em suas carreiras. Insistir com Roberson, Paulão, Ernando, Bob e Andrigo parece ser de rigorosa inutilidade. O primeiro já é detestado pela torcida e os outros, pelo rebaixamento. Paulão e Ernando reclamam que ficaram marcados pela queda. É óbvio que ficaram! Como não?

Sei que reconstruir um time que passou um ano e meio sem treinador é complicado, mas tu estás deixando a coisa ainda mais difícil com tuas insistências bobas. E o torcedor está distante, sumido mesmo. Ninguém quer dar respaldo. Ninguém quer nem ver. Note bem, teu presidente Marcelo Medeiros venceu a eleição com 95% dos votos porque o outro candidato era o de Piffero-Carvalho. Vocês não se enganem. Vocês não têm grande apoio.

Sei que mudar o cenário de um clube com dívidas e de plantel caro e ruim não é fácil nem rápido, então Zago, pelo menos evite ao máximo os testes desnecessários. Somos apenas um timeco de merda atrás da formação menos pior.

Por que não testar já, contra o Princesa do Solimões, Dourado e Charles como volantes, Dale e Seijas na armação, com Nico López e Carlos na frente?  Não seria mais razoável? Seijas jamais teve os cinco jogos seguidos de Roberson para jogar. Ninguém sabe muito bem quem ele é.

Bem, boa sorte na quarta!

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A diferença entre verão e inverno na Finlândia

Clipboard01Este vídeo consiste em duas sequências sincronizadas, uma tomada durante o dia mais longo do inverno e outro durante o dia mais claro do verão na cidade de Kuopio, Finlândia. Kuopio fica mais próximo do Polo Norte do que Ushuaia do Polo Sul. A cidade argentina fica a 54º ao sul e a finlandesa a 62º. Só por curiosidade: a cidade de Moguilev — onde nasceu a Elena — e Minsk, ambas na Bielorússia (Belarus), ficam a 53º ao Norte, correspondendo à Terra do Fogo.

Abaixo, o inverno está à esquerda e verão à direita, claro.

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Sorte na foto

É óbvio que, como disse o Fernando Guimarães, eu tive muita sorte. No dia 2 de fevereiro, há uma semana, estava voltando de férias em um avião da LATAM. E quis fotografar a ponte do Guaíba. Nem lembrava da procissão de Navegantes que ocorria em Porto Alegre, mas acabei registrando parte dela, além de pegar a ponte erguida, o navio que recém passara e a fila de carros. Após tirar a foto, fiquei encantado com minha sorte. Se tivesse planejado…

Clique para ampliar | Foto: Milton Ribeiro

Clique para ampliar | Foto: Milton Ribeiro

Teve outra também interessante. A usina do Gasômetro na ponta, à direita, com o Absoluto tomando conta da paisagem atrás, ao pé do Morro Santa Teresa.

Clique para ampliar | Foto: Milton Ribeiro

Clique para ampliar | Foto: Milton Ribeiro

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Luz em Nevoeiro, de Iuri Müller

luz-em-nevoeiro-iuri-mullerVolume de estreia de Iuri Müller na área da ficção, Luz em Nevoeiro traz doze contos, alguns já conhecidos meus da internet. Mas nada como lê-los em grupo. Neste caso, a desvantagem da leitura esparsa foi a de dificultar a distinção da boa voz de Iuri e de prejudicar a observação da unidade e da coerência do trabalho do autor. Em livro, tudo ficou mais claro. Os contos são escritos em ritmo decididamente adágio, tendo por base, quase via de regra, as ações dos personagens. Há também há uma peculiar integração entre eles e os diversos ambientes. Por ambiente, entenda-se as ruas e as cidades. A coisa acontece de tal maneira que é impossível imaginar o belíssimo e original Andava a te buscar fora de Montevidéu ou o ótimo Avenida Salgado Filho fora da conhecida e infernal rua de Porto Alegre. As histórias vêm grudadas às características específicas de cada habitat.

(Intervenção gonzo: li o livro durante uma viagem à Europa na qual mudei 4 vezes de cenário. Era curioso receber a enorme carga de informações da cada nova cidade onde me hospedava, enquanto lia um livro tão ligado a outras cidades também conhecidas de mim. Caminhava por Berlim, Praga, Amsterdam e Londres, vagando literariamente por Montevidéu, Buenos Aires, Porto Alegre, Santa Maria, Lisboa…)

A atmosfera ficcional de Luz em Nevoeiro é cuidadosamente rarefeita. Os contos não dizem tudo, deixando bom espaço para a imaginação do leitor e para a poesia. Iuri Müller nos joga detalhes sem ser exageradamente explícito (ou explicadinho), criando lentamente boas histórias de conflitos contra a situação política, a pobreza, a falta de perspectivas. Papéis Molhados, Edifício Paris e Acevedo, poeta são bons exemplos de sua arte. Os personagens são lenta e maravilhosamente bem construídos. E costumam tomar atitudes desconcertantes.

Além dos contos citados, gostei muito de O Estado das Coisas. Importante salientar: citei seis, mas a outra meia dúzia não é nada esquecível. Recomendo a leitura.

P.S. — Iuri Müller já tinha publicado anteriormente a reportagem Estilhaços de Rodolfo Walsh, comentado aqui no blog.

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Inter 1 x 0 Flu)

O gol foi do volante Charles | Foto: Ricardo Duarte

O gol foi do volante Charles | Foto: Ricardo Duarte

Ontem, fizemos melhor partida de 2017. Sim, tivemos poucos jogos, o ano está recém iniciando, mas o losango formado por Anselmo, Dourado, Charles e Dale foi a melhor solução encontrada até o momento. É claro que o adversário era o time reserva de Fluminense e jogamos com três volantes. Mas isso é mera tese, porque Dourado não joga mais como volante, está sempre no ataque e precisa de proteção atrás. Charles e ele alternaram-se eficientemente na função de ir ao ataque, preocupando o Flu.

Os laterais Alemão e Uendel atacaram bem — às vezes ao mesmo tempo, certamente em razão da presença dos tais 3 volantes — e tiveram problemas atrás. Acho que Uendel e Charles são as melhores notícias do ano. Klaus e Paulão atuaram bem demais. (Não tenho nada contra o Paulão jogar bem). Na frente, tivemos D´Alessandro pela direita e Valdívia pela esquerda, com o péssimo Roberson centralizado.

O interessante é que o gol de Charles teve uma troca de passes de 35 segundos. Foram mais de 20 passes certos. Mas fala sério, Zago, Roberson pode ser teu bruxo, mas deve vazar já, na minha opinião. E o Andrigo leva jeito de motoqueiro entregador de pizza, daqueles trazem o troco num saquinho.

Tu pegaste um time há 18 meses sem técnico. Vejo lógica nas tuas decisões e sei que vai demorar para que o time tome forma. Sou otimista. Por outro lado, a pressão será enorme. Uendel disse que até os treinos são nervosos. Por isso é que seriam importantes algumas vitórias no Gaúcho. O Inter está em 10º no regional, o 11º já está na zona do rebaixamento. Não dá, né? Isso incomoda.

Creio que estamos estruturando um novo time. Talvez não vá ser uma Brastemp, mas acho que será um time. Finalmente.

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Seis filmes clássicos que completaram 50 anos em 2016

Introdução, tradução e compilação do blogueiro

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O ano de 1966 foi extraordinário para o cinema mundial. Não houve grande movimentação no Brasil, mas a cena internacional viu surgir uma série de clássicos. Enquanto os EUA mantinham 250 mil soldados lutando no Vietname, enquanto a China dava início à Revolução Cultural, enquanto o Brasil fazia fiasco na Copa e via ocorrer uma eleição indireta para presidente, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni, Sergio Leone e Andrei Tarkovsky faziam uma revolução na linguagem cinematográfica.

Os seis filmes que escolhemos revelam nosso gosto. Poderíamos ter colocados outros de Godard — que produziu dois naquele ano febril –, Polanski, Rivette, Zinnemann, Nichols, etc. Foi um ano riquíssimo.

Os textos que escolhemos sobre cada filme foram encontrados na rede. Fizemos resumos e, ao lado dos títulos dos filmes, deixamos disponíveis os links para eles.

1. Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky — The Guardian

Espectadores e críticos sempre têm os seus filmes favoritos, mas alguns destes alcançam por unanimidade o status de obra-prima, como se houvesse um acordo. É o caso de Andrei Rublev. Vê-lo é uma tarefa que requer investimento de tempo. Ele tem 205 minutos de duração em sua versão mais completa, é falado em russo e é em preto e branco. Poucos personagens são claramente identificados, pouco acontece e o que acontece não está necessariamente em ordem cronológica. Seu tema é um pintor de ícones do século XV e herói nacional, mas você não vai vê-lo pintar e nem ele fará nada de heroico. Em muitos dos episódios do filme ele não está presente e, nos últimos, ele faz um voto de silêncio. Não é um filme que precisa ser longamente pensado ou até mesmo compreendido. É para ser experimentado e admirado. Um filme de poeta.

Desde a primeira cena, quando seguimos o voo de um balão rudimentar de ar quente, ficamos confusos e espantados como o próprio Rublev. Nas três horas seguintes, estaremos na lama e no caos da Rússia medieval, convivendo com ataques tártaros, rituais pagãos bizarros, fome, tortura e sofrimento físico. E experimentaremos tal vida de forma peculiarmente intensa.

Com Andrei Rublev, Tarkovsky estava conscientemente elaborando uma linguagem que não devia nada à literatura e é uma pena que tão poucos o tenham seguido. Em uma atmosfera de sonho, Andrei Rublev opera dentro de uma compreensão diferente de tempo e de história. Faz perguntas sobre a relação entre o artista, sua sociedade e suas crenças espirituais e não pretende responder a elas. “No cinema não é necessário explicar, mas estar de acordo com os sentimentos do espectador. Esta emoção é o que provocará o pensamento”, escreveu Tarkovsky.

O filme foi finalizado em 1966 e imediatamente proibido. Foi liberado para o Festival de Cannes de 1969, após Tarkovsky ter declarado que se mataria se não fosse apresentado.

2. A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo — Opera Mundi

O ex-assessor norte-americano para assuntos de Segurança Nacional e pensador influente da política externa dos EUA, Zbigniew Brzezinski, afirmou em 2005 que, se quiséssemos realmente entender o que estava acontecendo no Iraque, deveríamos assistir ao filme A Batalha de Argel. O recado se fez ouvir nos corredores do Pentágono, onde a exibição do filme contou com uma audiência de aproximadamente quarenta oficiais, que foram estimulados a avaliar e a debater os assuntos centrais do filme, como as vantagens e os custos de se recorrer à tortura e a outras formas de intimidação para desvendar os planos de um inimigo que se camufla na multidão.

Os convidados receberam o convite com o seguinte comunicado: “Como ganhar uma batalha contra o terrorismo e perder a guerra das ideias. As crianças alvejam os soldados, mulheres plantam bombas em bares e, gradualmente, a população inteira protesta fervorosamente. Soa familiar? Os franceses têm um plano. Prosperam taticamente, mas fracassam estrategicamente. Venha assistir a exibição desse filme e saiba o porquê” (Kaufman, 2003).

Produzido em 1965, no contexto das guerras de libertação na África, a temática da insurgência urbana e a violência perpetrada pelos insurgentes e torturadores é abordada de tal forma que faz com que o filme seja sempre atual, pois poderíamos ainda utilizá-lo para compreender a presente intervenção francesa no Mali, as revoltas árabes e os  conflitos na Palestina, no Afeganistão, no Sudão e outros tantos do mesmo tipo. Filmado em preto-e-branco, com atores argelinos e franceses desconhecidos, recriando cenas e figuras históricas em locais de batalhas reais com técnica utilizada pelos cineastas neo-realistas, o diretor italiano Gillo Pontecorvo nos induz a pensar que se trata de um documentário.

A Batalha de Argel retrata os conflitos em Argel (1954-1957) entre a FLN (Frente de Libertação Nacional) e o exército francês. A primeira parte do filme mostra a campanha de terror desencadeada pela FLN contra o domínio colonial francês em torno do personagem Ali La Pointe, mostrando sua gradual conversão à guerrilha urbana. Já a segunda metade focaliza a reação do exército francês, que consiste principalmente em uma campanha de tortura e assassinatos comandados pelo coronel Mathieu. As ações terroristas vão se intensificando e ampliando seus alvos à medida que a repressão se torna mais eficiente, passando dos assassinatos de policiais às bombas em restaurantes, bares e clubes frequentados por jovens franceses. Mas igualmente ilustrativas são as imagens da repressão colonial, do racismo francês e do desprezo pelos árabes isolados na Casbah (bairro popular da capital argelina).

O filme não idealiza terroristas, não demoniza os franceses, nem exalta a violência em nome de algum tipo de revolução ou justificativa de qualquer ordem; em vez disso, o diretor examina a fundo os motivos, justificativas e contradições de todos os beligerantes. Os combatentes não escolhem seus alvos, ambos os lados se atacam indiscriminadamente e fornecem argumentos racionais para provar que estão no lado justo. Não há heróis nem vítimas inocentes. As crianças são cúmplices dos atentados, as mulheres plantam bombas em bares, os franceses atiram nas multidões, soldados brutalizam seus prisioneiros e o exército arrasa edifícios, matando civis inocentes.

Ali La Pointe encarna a figura do oponente irascível, ladrão e cafetão. É recrutado pela FLN e torna-se um guerrilheiro profissional, um líder revolucionário. Seu olhar ameaçador revela o próprio sofrimento e cólera dos árabes oprimidos diariamente pelos pieds-noirs (que, em francês, significa, literalmente, “pés-negros” e é um termo usado para descrever a população francesa que vivia na Argélia e que se repatriou na França depois de 1962, ano em que a Argélia se tornou independente).

O personagem procura expulsar a ocupação a todo custo, disposto a matar ou mesmo morrer pela causa. É isso que faz com que o seu destino seja trágico, culminando com sua morte (suicídio?), diferentemente do militante marxista El-hadi Jaffar, que negocia a rendição preservando sua vida.

Já a figura do coronel Mathieu foi inspirada na vida do general Massu, considerado pelos soldados franceses a personificação da tradição militar francesa. Herói militar da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, que também esteve presente na derrota da França na Indochina, Massu, em 1971, publica o livro A Batalha de Argel, que ficou proibido durante muitos anos na França. Nele, justificava a tortura como “uma cruel necessidade”. Dizia Massu: “Penso que, na maioria dos casos, os militares franceses foram obrigados a usá-la para vencer o terrorismo”.

3. Blow-up, de Michelangelo Antonioni — O Rato Cinéfilo

Único e surpreendente sucesso comercial de Antonioni, e o primeiro realizado fora de Itália, Blow-Up é um dos filmes que melhor retratam a Swinging London dos anos 60. Muito embora pudesse ter sido rodado em Paris ou Nova Iorque, a capital inglesa teve a preferência do realizador italiano devido à nova mentalidade instalada e que revolucionou todo um comportamento e estilo de vida. Antonioni deixou-se imergir voluntariamente na cena londrina, com as suas cores pop, música e liberdade sexual. No entanto, e apesar da modernidade que envolvia Blow-Up, toda a ambiguidade do universo de Antonioni se encontrava presente até ao mais ínfimo dos pormenores – a incomunicabilidade e impossibilidade de relações entre as pessoas ou a alienação no seio de uma sociedade de consumo prolongavam as ideias que o mestre italiano já nos dera a conhecer nos seus filmes precedentes.

Thomas (David Hemmings) é um jovem fotógrafo que trabalha no universo da moda. Ele capta casualmente algumas imagens num parque londrino. Mais tarde, durante o processo de revelação do rolo e espicaçado pela insistência da mulher retratada que quer a todo o custo reaver os originais da película, Thomas percebe que testemunhou, sem querer, um assassinato. Este fio de intriga, vagamente policial, poderia conduzir facilmente a um thriller como tantos outros. Mas não nas mãos de Antonioni.

De início não se vê na fotografia mais que uma mancha difusa e amorfa; aumentando-a, distingue-se uma figura que bem poderia ser humana; um aumento maior apresentará uma tonalidade diversa. Isto é tudo. Quanto mais nos aproximamos do mistério que tínhamos impressão de dominar, mais nos desviamos e começamos a recusar compreendê-lo. E assim por diante, até chegarmos a duvidar da própria realidade das coisas e dos seres.

4. Fahrenheit 451, de François Truffaut — De Mattar

O filme é baseado no mau romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953. Montag (Oskar Werner) é um bombeiro cuja função é queimar livros, proibidos na sociedade do futuro. Sua esposa, Linda, é fútil e superficial, e presta mais atenção na televisão “interativa” do que no marido. Influenciado por sua vizinha Clarisse (o oposto de Linda, mas representada pela mesma atriz, Julie Christie), ele começa a guardar e ler alguns livros.

Uma cena marcante do filme: uma mulher recusa-se a sair de sua casa e é queimada junto com seus livros, sendo que ela mesma acende um fósforo e inicia a fogueira. Ao se apaixonar pela leitura, Montag decide sair da corporação, mas seu último serviço é em sua própria casa, pois fora denunciado por sua esposa Linda. Durante o serviço, ele queima seu chefe, Capitão Beatty, e foge. Refugia-se no local onde outras pessoas que leem se refugiam, representando personagens e decorando os livros, antes de queimá-los. O livro que ele começa a memorizar: Contos de mistério e imaginação, de Edgar Alan Poe.

Terezinha Elisabeth da Silva escreve:

O clima lúgubre e opressivo daquela sociedade é pintado com cores frias e pálidas, contrastadas com a única cor quente do filme: o vermelho do fogo e das viaturas dos bombeiros. Ritmo lento, cenários áridos e sem charme e diálogos escassos completam o panorama melancólico da obra. Com esses elementos, Truffaut impõe uma atmosfera pesada ao tempo de Fahrenheit, um tempo sem alternativas e, por isso mesmo, deprimente.

O título: na escala Fahrenheit, 451 graus (233 Celsius) é a temperatura a partir da qual o fogo queima o papel.

5. Persona (Quando duas mulheres pecam), de Ingmar Bergman — Clube do Filme

“Tudo o que se disser sobre Persona pode ser contradito, o oposto também será verdade”, palavras do escritor inglês Peter Cowie. Para o crítico americano John Simon, Persona “é o filme mais difícil de todos os tempos”. A crítica de arte Susan Sontag, por sua vez, foi categórica ao afirmar que Persona era o melhor filme da história do cinema. Há quase cinco décadas, a cultuada obra-prima de Ingmar Bergman vem exercendo um verdadeiro fascínio em gerações e gerações de cinéfilos e especialistas. Presente em inúmeras listas de melhores filmes do cinema (Sight and Sound, Empire, British Film Institute, New York Times, para citar algumas), Persona é constantemente apontado como a mais primorosa realização de Bergman no cinema, algo considerável se levarmos em conta a brilhante filmografia do diretor.

Persona conta a história de Elizabet (Liv Ullmann), uma atriz que para de falar repentinamente em meio a uma apresentação da tragédia Electra, entrando num estado de próximo ao catatônico. Nenhuma explicação física ou neurológica é encontrada para a crise de Elizabet. Internada em um hospital, ela é posta sob os cuidados da jovem enfermeira Alma (Bibi Andersson). Após algum tempo de internação, a médica de Elizabet sugere que esta passe uma temporada em sua casa de praia, ainda sob os cuidados de Alma. Isoladas do resto do mundo, as duas mulheres vão se tornando cada vez mais próximas. Alma encontra na emudecida Elizabet uma perfeita ouvinte e lhe conta os seus mais íntimos segredos, como uma orgia praticada com dois jovens adolescentes e uma amiga numa praia deserta e um subsequente aborto. Após ler uma carta comprometedora de Elizabet, Alma começa a perder o controle sobre si mesma, sentindo-se extremamente ligada à atriz e, ao mesmo tempo, oprimida pelo seu silêncio. Gradualmente, a persona de Elizabet toma conta da enfermeira e as identidades das mulheres parecem se fundir em uma só.

O filme se inicia por um intrigante prelúdio em que vemos uma série de imagens de duração variável (algumas que duram o tempo de um piscar de olhos, como aquela que mostra um pênis ereto). Essa sequência inicial consiste em uma justaposição de imagens heterogêneas, que lembra o experimentalismo das vanguardas modernistas e o surrealismo. Bergman faz diversas alusões ao próprio cinema, aos equipamentos, às suas primeiras formas, aos filmes mudos. A imagem da fita em movimento, dos aparelhos cinematográficos ou da fita que se deteriora intervém diversas vezes ao longo dessa primeira sequência e de maneira pontual no resto do filme. Existe algo de hipnótico na sequência de abertura que se deve muito ao atrevimento da montagem e a utilização poética de imagens impactantes. Ao final do filme, Bergman introduz novamente a imagem de uma câmera (manuseadas por Nykvist e o diretor), o que confere uma forma cíclica ao filme.

Persona é uma coleção de momentos antológicos. Uma das sequências inesquecíveis do filme é aquela em que Alma relata sua aventura sexual com um garoto, o momento de maior felicidade e gozo da vida da personagem. Certamente, o monólogo de Alma corresponde a um dos momentos mais eróticos da história do cinema. O diretor se dispensa de representar o ato sexual visualmente, o que poderia ser feito através de um flashback. O erotismo da cena é fruto do poder de evocação do ousado texto de Bergman e da maneira envolvente com que Bibi Anderson o declama. Para Pauline Kael, essa sequência corresponde a “um dos raros momentos verdadeiramente eróticos do cinema”. Outra cena brilhante do filme é aquela em que Elizabet entra no quarto de Alma no meio da noite. A lindíssima fotografia do genial Sven Nykvist confere uma atmosfera fantasmagórica à cena (sonho? realidade?). O instante em que as duas mulheres olham para si mesmas, como se estivessem diante de um espelho, enquanto trocam carícias, é uma das imagens mais marcantes da filmografia de Bergman.

Por fim, é inevitável não mencionar a escolha de Bergman de repetir o monólogo de Alma sobre o filho de Elizabet, uma vez com a câmera focalizando o rosto de uma, depois o da outra. O texto é exatamente o mesmo, assim como a montagem. Bergman parece querer mostrar a mesma história contada pelas duas mulheres, ainda que a voz seja só a de Alma (já que Elizabet não fala). Essa sequência mostra a união das duas mulheres e não por acaso ela termina pela colagem do rosto das duas atrizes, uma imagem impressionante que revela o quanto as identidades das duas se tornaram uma só.

6. Três Homens em Conflito (O Bom, o Mau e o Feio), de Sergio Leone — Cine Indiscreto

O filme focaliza três personagens: Blondie (Clint Eastwood) é o bom, Olhos de Anjo (Lee Van Cleef) é o mau e Tuco (Eli Wallach) é o feio (do nome original, The good, the bad and the ugly). A história dos três se junta porque estão atrás de duzentos mil dólares em ouro, uma fortuna na época.

Em Três Homens em Conflito, Leone constrói cuidadosamente cada imagem, como se estivesse pintando um grande quadro. Leone se mostra excepcionalmente criativo para construir longas tomadas sem cortes, criando tensão e atmosfera a partir da contraposição de tomadas panorâmicas de beleza tensa e dramática, na maioria das vezes paisagens com personagens minúsculos e close-ups de rostos rígidos e queimados pelo sol que revelam muito mais do que os olhos dos personagens. Esse talento transforma o filme em uma verdadeira experiência de imagens e sons inesquecíveis.

Ao contrário da maioria do gênero, os personagens de Leone são sujos, feios e parecem sangrar de verdade. Os protagonistas falam pouco, mas seus gestos e olhares dizem tudo.

Nos faroestes de Leone, os personagens não costumam atirar pra tudo quanto é lado. O diretor construía um duelo longo e sua grande preparação consiste em minutos de espera pelo primeiro disparo. Antes do revólver disparar, os personagens se analisam por inteiro e o silêncio só não toma conta do filme graças à fenomenal trilha sonora de Ennio Morricone, que ganha intensidade na medida em que começam cortes rápidos de um rosto para outro, capturando cada olhar tenso e cada mão buscando o revólver.

No começo do filme é revelado quem é o bom, o mau e o feio, mas com o desenrolar da trama percebemos que todos são bons, maus e feios… Descobrimos que, apesar de trambiqueiro e assassino, o homem sem nome guarda alguma bondade dentro de seu coração, como na cena em que o mesmo mostra uma certa compaixão por um combatente que está morrendo. A ganância pelo ouro revela o pior de cada um, mas comparados ao horror da Guerra Civil, os três são mocinhos.

Da abertura ao primeiro diálogo, temos cerca de 10 minutos de silêncio. Nenhuma palavra é ouvida. É a criatividade de Leone construindo uma narrativa baseada apenas em imagem, som e música. Outra cena que destaca o talento de Leone é quando o feio corre pelas lápides ao som de The Ecstasy of Gold, de Ennio Morricone. É simplesmente fantástico o efeito provocado. Uma viagem ofegante dos limites do oeste ao ápice da violência.

O filme é dispensa palavras, muitas vezes um pequeno desvio de câmera revela uma nova e surpreendente perspectiva. Outra técnica usada no filme é que os personagens não vêem (assim como nós) o que está fora do enquadramento. Assim a todo momento eles são surpreendidos por tiros ou balas de canhões que, normalmente, seriam vistas ao lado.

Uma obra prima revolucionária, que é, com grande estilo, homenageada por grandes cineastas da atualidade principalmente por Tarantino. Nesse filme testemunhamos o bom gosto, a inventividade e o controle de Leone sobre a narrativa.

 

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“Emma Bovary sou eu”: Madame Bovary e o processo contra Flaubert

No dia 7 de fevereiro de 1857, Gustave Flaubert foi absolvido da acusação contra seu livro Madame Bovary, considerado imoral pelas autoridades francesas. Dias antes, Flaubert proferira a célebre resposta à pergunta sobre quem seria Madame Bovary: “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu). Acusado de ofensa à moral e à religião, o processo foi movido contra o autor e o editor Laurent Pichat, diretor da revista Revue de Paris, onde a história foi publicada pela primeira vez, em episódios e com cortes. Como costuma acontecer, quanto maior o escândalo, maior o interesse provocado nos leitores, que adquirem a obra, que já era notável, movidos pelo sabor do escândalo.

Gustava Flaubert (1821-1880)

Gustava Flaubert (1821-1880)

A Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena absolveu Flaubert, mas certo puritanismo da época condenou o autor. Muitos críticos não perdoaram Flaubert pelo cru realismo dado ao tema do adultério, pela crítica ao clero e à burguesia. Muitos clássicos da literatura foram condenados pelos contemporâneos. Talvez os casos mais famosos sejam os de Ulysses de Joyce e de Lolita de Nabokov, por exemplo, que foram censurados por ofenderem a moral vigente. Seriam pornográficos.

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O julgamento era um exagero, mas as acusações a Flaubert eram compreensíveis. Afinal, Madame Bovary escancarava certa realidade social do século XIX, demonstrando a insatisfação de uma mulher, sob diversos aspectos, com seu casamento. De quebra, ridicularizava os romances sentimentais. Emma odiava seu marido, o médico Charles, para o qual mal podia olhar. Via-se encarcerada. Sentia sua vida como vazia e sem graça. Como se não bastasse, tinha aspirações a um refinamento incompatível com o interior da França. Então, passa a manter casos amorosos com homens de “gostos mais refinados”, que tivessem o condão de alcançar suas expectativas.

Não contaremos o final da história, a qual é bastante simples. Mas o que interessa não é o final e sim todos os detalhes da trama. Flaubert era um perfeccionista que sugeria aos candidatos a escritores que observassem uma árvore até que ela não pudesse ser confundida com nenhuma outra para depois descrevê-la. Era o escritor da “palavra certa, precisa” (“le mot juste“) e levou cinco anos para terminar o livro, que não é muito extenso. Pensava que “Uma boa frase em prosa deve ser como um bom verso na poesia, imutável”. Madame Bovary é um livro extraordinário. “O romance perfeito”, segundo Henry James.

Madame Bovary foi praticamente a única obra do autor a alcançar o sucesso. Seu romance Salambô (1862) é entediante como a vida de Emma. A educação sentimental (1869) já é bem melhor. Somente quando já estava doente e com dificuldades financeiras é que outro livro, Três contos ou Três histórias (1877), voltou a mostrar a genialidade de Bovary. Sua reputação cresceu postumamente, reforçada pela publicação do romance inacabado Bouvard e Pécuchet (1881) e pelos notáveis volumes de sua correspondência, onde dá grandes lições de arte literária.

O romance, publicado em outubro de 1856, conta a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico viúvo do interior tão apaixonado pela esposa quanto chato. Ele não é como os heróis das suas leituras. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao indissolúvel casamento ao qual a protagonista se sente presa. Ela espera alguma ação do marido que consiga despertar nela o amor tão sonhado e esperado.

Madame Bovary 1991 réal : Claude Chabrol Isabelle Huppert Collection Christophel

Isabelle Hupper como Madame Bovary (1991), filme de Claude Chabrol

Emma, cada vez mais angustiada e frustrada, busca no adultério uma forma de encontrar a liberdade e a felicidade. Evita um caso com o charmoso Léon por medo e vergonha. Vangloria-se de seu altruísmo e honestidade. Mas com Rodolphe é diferente e a fantasia romântica floresce. Ela se torna amável, mas a situação revela-se efêmera. Envolve-se em mais um caso de final melancólico. Não há arrependimento ou reviravolta no livro, nada de redenção, de final feliz. O romance foi considerado cruel por não apresentar saída.

Além disso, Emma não atrai simpatia, só que a arte de Flaubert faz com que os leitores acompanhem sua trajetória com imensa atenção. Na verdade, ela é ambiciosa e medíocre, incapaz de amar ou de sentir empatia por alguém. Entedia-se facilmente e é impulsiva. O que a faz fascinante talvez seja o choque entre suas aspirações e absoluta incapacidade de ser feliz. É fácil compará-la com outra personagem fascinante e trágica, Anna Kariênina, de Tolstói, porém Emma é muito mais voltada para si, despreocupada com o sofrimento dos outros, vendo o mundo através dos estereótipos românticos nos quais vê a única felicidade possível.

Era um tempo em que as mulheres deveriam ser dependentes do desejo masculino. Porém, em Madame Bovary, Flaubert mostra que o desejo e o prazer sexual têm dois sentidos. Deste modo, o romance era agressivo à moral burguesa do século XIX. Mal o livro começou a ser publicado, o secretário da Revue de Paris fez objeções sobre algumas cenas, que acabaram omitidas. Apesar disso, a censura francesa decidiu suspender a publicação da obra e processar o autor.

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O julgamento

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Alexandre Moraes, um lombrosiano no STF?

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O psiquiatra, cirurgião, higienista, criminologista, antropólogo e cientista italiano Cesare Lombroso, no anseio de buscar as motivações das práticas criminosas, concentrou-se no estudo da essência do criminoso, desenvolvendo uma extensa pesquisa empírica de traços físicos e mentais com indivíduos encarcerados, doentes mentais e soldados, denominada Antropologia Criminal. Considerando tais elementos, a pesquisa de Lombroso estabeleceu esses traços em “estigmas” passíveis de determinação de um potencial delitivo. Neste sentido, despida de qualquer tipo de livre arbítrio, a prática criminosa estaria sujeita apenas às características patológicas do indivíduo. Ele se deliciaria com o Ministro da Justiça Alexandre Moraes.

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É claro que eu não acredito em Lombroso, é claro que suas teorias estão amplamente superadas, é óbvio que eu conheço muita gente boa com jeitinho de neandertal, mas se eu visse Alexandre Moraes à noite vindo na minha direção, na mesma calçada… Eu atravessaria a rua.

O que deixaria Lombroso feliz seria o vídeo abaixo, onde o futuro ministro do STF tem um chilique e passa derrubar pés de cannabis com um facão. É uma guerra perdida, mas que soa como a música de Roberto Carlos aos ouvidos conservadores. Lombroso acaba de me soprar aqui no ouvido. “Esse crânio, esse descontrole, observe bem, Milton. Aposto que ele leva um pente no bolso”.

Por aí, estão chamando Moraes de “Alexandre, o Glande”.

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Bom dia, Zago (com os melhores lances de Inter 1 x 2 NH)

Fernando Bob preparando alguma bobagem | Foto: Ricardo Duarte

Fernando Bob preparando alguma bobagem | Foto: Ricardo Duarte

Não gostei nem um pouco do Inter ter te contratado. Sei do bom trabalho realizado no Juventude e do bom nível de atualização que tens — coisa rara em nosso futebol. Mas há atitudes difíceis de relevar, ainda mais em um clube cujo símbolo é um Saci. Acho sintomático que as pessoas te chamem agora de Zago. Querem deixar aquele zagueiro Antônio Carlos para trás. É o que farei também.

É claro que os 18 meses em técnico estão te cobrando um duro preço. Argel e Celso Roth não deixaram pedra sobre pedra. O time chegou a ti sem nada treinado ou bem preparado, estás partindo do zero absoluto. Mas escalações como a Fernando Bob no último sábado demonstram certo desespero ou desconsideração por 2016. Não adianta retestar velha fórmulas fracassadas, ainda mais que todo o RS futebolístico sabe que Bob será logo engolido pelo ascendente Charles. Também é inútil fazer um lado direito com jogadores como Ceará e D`Alessandro que, no meio do ano, somarão 73 anos. Também me surpreende a sobrevivência de Paulão, Ernando e Andrigo. Esses caras não jogam nada, Zago. Por que contratamos Klaus, Néris e trouxemos Eduardo de volta? Não foi para enterrar Pauão e Ernando de vez?

Outra coisa: não estaria na hora de fixar Dourado na frente da zaga? Este moço teve um 2016 desastroso jogando solto pelo campo, como se estivesse numa eterna pelada no Parque Saint-Hilaire. O que eram aqueles contra-ataques do Novo Hamburgo? A gente erra um passe — fato comum —  e é pego sempre com a bunda de fora?

Vai ser uma reconstrução penosa, muito dolorida, meu rapaz. Valdívia volta em boa hora. Penso que o Gaúcho é o momento perfeito para dar força jovens como Junio, Charles e outros que tu deves nos apresentar, assim como para ver quem são de verdade Nico López, Seijas e os outros recentes contratados.

Sei da pindaíba e dos salários — direitos de imagem — atrasados, mas tu sabes que serás cobrado do mesmo jeito por uma torcida impaciente.

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