Serena, de Ian McEwan

Serena McEwanResenha sem spoilers, tá? Serena conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres e Brighton, misturando amor, literatura, costumes e política (Guerra Fria). Serena Frome é uma jovem que vai trabalhar no MI5 (Military Intelligence, Section 5), serviço de inteligência do governo inglês. Ela estudou matemática em Cambridge, mas gosta mesmo é de literatura ligeira. No início do livro, diz preferir Jacqueline Susann a Jane Austen… e, sim, ela se torna mais razoável depois. Em razão de seu amor pela literatura e por ser de direita (além de linda), ela é convidada a participar de um projeto bem comum na época: com a finalidade de combater as ideias comunistas, o MI5 passa a financiar autores talentosos que escrevam a favor do capitalismo. Normal. Até Orwell participou de um programa desses. Após alguns casos amorosos, inclusive com o homem que de certa forma a colocou no MI5, Serena envolve-se com um escritor que recrutou, um certo Tom Haley. A partir deste ponto, paro de contar a trama.

Dito assim rapidamente, parece ridículo. Não é. McEwan é um baita escritor, realiza sempre minuciosas pesquisas e consegue manter esta trama vintage — meio espionagem, meio farsa, meio romanção — bem escondida sob uma prosa sempre interessante. Só que o livro não chega a ser bom. O final que o leitor elabora em sua cabeça, imaginando as cenas que virão antes do desenlace sugerido, é menos elegante do que aquilo que é descrito por McEwan. E a gente fica pensando que ele não explicita a história porque ela não é tão boa. Fica uma sensação estranha e insatisfatória.

McEwan nasceu em 1948, eu em 57. Muitas das referências feitas por ele àquele período de minha juventude foram-me absolutamente deliciosas. Talvez eu e ele tenhamos sucumbido nostálgica e apaixonadamente à música popular e aos problemas em voga na época. As descrições detalhadas de como Serena se veste ou pensa são ótimas e a certa ingenuidade sempre presente dão um perfume especial à esta narrativa longa (382 páginas).

Mas, vocês sabem, um mau McEwan é superior do que o melhor livro de muito autor consagrado e Serena é exatamente isso, um equívoco de um excelente autor. Afinal, sempre se espera deste cara que diz vencer seu bloqueio criativo lavando louça.

Ian-McEwan-escritor

Livro comprado na Bamboletras

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

Uma ideia sobre “Serena, de Ian McEwan

  1. É uma trama interessante, bem relevante nesses tempos de tecnologia da informação, que nada mais é do que o desdobramento imprescindível e necessário para os processos de dominação do capitalismo. Arrisco dizer que, se o capitalismo não necessitasse empreender o controle absoluto dos meios de comunicação, informação e transferência de capitais, não estaríamos hoje na Internet, pois ela não exigiria. O que vemos como progresso, para nós, é apenas a expressão da dominação capitalista, que nos transforma em servos de sua lógica fundamental: lucro, e rápido, cada vez mais rápido, e plenamente justificado pela propaganda, até calar o último comunista fechando sua boca com o último modelo de iPhone.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *