Em Berlim (VI)

A Elena escreveu no dia 8 de janeiro em seu perfil do Facebook. “Prometi que vou dizer e vou dizer: Milton Ribeiro é o cara!”.

É um grande exagero. Ela estava apenas agradecida. Acontece que este foi um dia muito diferente em Berlim. Uma amiga bielorrussa da Elena — também violinista — veio do interior da Alemanha para reencontrá-la após anos e trouxe seu marido alemão, um ser altamente político e que eu deveria divertir enquanto as duas conversavam. Claro, as duas conversavam em russo, eu e Renê em inglês. E nós dois realmente as liberamos para conversar. Elena ficou feliz por eu ter feito minha parte para a liberdade das amigas.

Renê é um alemão de Lübeck. Logo vi que tratava-se de um desses consumidores de notícias geopolíticas e que eu teria que falar sobre isso se não quisesse ficar num silêncio que seria constrangedor, pois por algum motivo é horrível ficar em silêncio ao lado de desconhecidos.

Primeiramente, ele quis falar sobre os refugiados e foi maravilhoso saber que ele apoiava todo o gênero de auxílio para que estas pessoas se integrassem à vida alemã.

Depois fomos, é claro, para o Brasil. E acho que assustei a curiosidade do gajo. Ele quis saber de uma usina chamada de Belo-Alguma-Coisa e da retirada dos índios… Fui obrigado a entregar Dilma Rousseff para ser comida viva pelo alemão, falei do financiamento das campanhas políticas no Brasil e dos grandes partidos sem os quais talvez seja impossível governar. Falei sobre o quase inevitável PMDB e de como sua presença em todos os lugares era perniciosa. Minha narrativa sobra a corrupção endêmica dos partidos políticos, dos empresários sonegadores e do povo o deixou perplexo. Ele também questionou sobre a ligação dos políticos e empresários. Menino esperto, não?

E contei sobre a estratégia zumbi criada pelo Moysés Pinto Neto para explicar certa parte da atuação do PT-PMDB. Tal estratégia consistia no governo do PT (de esquerda) e de seus pequenos blogs (blogs?, ele repetiu) atacarem incessantemente o adversário pela esquerda no discurso, enquanto que o governo adotava práticas da direita, produzindo aliados à direita que nunca estão satisfeitos com as concessões e uma base de esquerda disposta a justificar qualquer coisa para defender o governo que elegeram. Desta forma, Dilma diz que Temer implementa um “programa derrotado nas urnas”, mas ela, com certo pudor verbal, já fazia isso. Porém, no governo dela, programas sociais eram mantidos e a concentração de renda até diminuía discretamente. É claro que Temer é muito pior, pois adota um programa de ultra-direita sem pudor algum. Ele tenta cortar todo programa social mantido pelo governo anterior. Afirmei que a concentração de renda já se acentuou em seus primeiros meses de governo. E tentei explicar que a dupla atuação de Dilma era quase inevitável, já que o PMDB existe e que o PT jamais tentou controlar a opinião pública alimentada pela voraz grande imprensa de direita. Muito pelo contrário, o partido adubava tal voracidade, pagando-a. Renê arregalava os olhos.

Então decidi que ele ia pirar de vez. Expliquei sobre como são incultas e atrasadas nossas elites. São assim de uma forma tão completa que qualquer argumento que considerem — mesmo intuitivamente — como mais seguro é comprado por eles. Quem vende? Ora, a imprensa. E cheguei a meu tema mais caro: a educação. Expliquei sobre duas reformas educacionais — a militar e a próxima que Temer pretende implantar. Ele ficou apavorado com a primeira… Mas com a segunda foi pior. Acabou dizendo que isso levaria o país ao caos. Imagina deixar História como matéria opcional? Bem, ele é alemão.

E discorri sobre nossos alunos. Falei sobre meu trabalho voluntário na periferia de Porto Alegre e de como alunos de 14 e 15 anos da escola pública não sabem fazer contas de multiplicação e divisão. Sim, sei disso muito bem e provo.

Mas eu o deixaria ainda mais espantado ao dizer que a cidade dele, Lübeck, de 200 mil habitantes, tinha 3 Prêmios Nobel — Thomas Mann, Gunter Grass and Willy Brandt — e o Brasil inteiro nenhum. Sim, temos 1000 vezes mais gente, somos 200 milhões. Ele ficou feliz por eu saber tanto de Lübeck. E garanti que nosso Nobel não viria tão cedo, a não ser que fosse um Nobel da Paz ou para algum gênio isolado. Só que nós somos a prova de que gênios isolados não surgem facilmente como o Guga surgiu no tênis. Há que ter um ambiente cultural mínimo, algo que nossas elites detestam, desejando que permaneçamos um país vendedor de matéria-prima.

Ainda insatisfeito com minha severidade, mandei tudo às favas contando como uma pessoa com formação musical como a Elena era tratada no país. Falei de como a encalacraram numa posição subalterna, abaixo de pessoas que deveriam, na verdade, aprender com ela e de como isso era desmotivador.

Como viver no Brasil? Protegendo-se em ilhas de bons amigos.

E completei: pouca coisa de bom surgirá de nós. Levaremos 50 anos ou mais para melhorar, e desde que comecemos a mudar agora, pois nossa marcha ré ainda está engatada a toda velocidade, pilotada por bispos neopentecostais e políticos corruptos. Paralelamente, fiz questão de informar que um juiz de direito brasileiro podia receber uns 40 salários mínimos, mais benefícios — informação que chutei, mas que não deve se afastar muito da verdade.

Bem, após todo este DESTAMPATÓRIO, estava tão irritado que não tirei fotos de ninguém. E, depois do primeiro grande silêncio, ele começou a falar sobre os erros políticos de Willy Brandt.

Conversamos por mais de seis horas, bem entendido. Isto foi apenas um resumo do papo.

Fim.

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

Lübeck, 200 mil habitantes e 3 Prêmios Nobel

Gostou deste texto? Então ajude a divulgar!

3 ideias sobre “Em Berlim (VI)

  1. Eu acho que a Dilma pôs o Levy e tomou aquelas medidas escrotas porque tentou salvar o governo diante do Golpe que se avizinhava, estava prescrito e datado.E também porque existem pressões do mercado financeiro que põe qualquer governo de quatro. E, claro, que la não estava muito à altura do cargo.Mas que o vice dele era o Temer e… deu no que deu.

    Eu acho que na Alemanha as campanhas políticas também são bancadas por empresas. O que significa necessariamente que os políticos financiados por empresas devem a elas os favores de seus cargos, honrando seus compromissos se eleitos da mesma forma como fazem os daqui.

    Eu acho que a democracia é um fraude em qualquer lugar do mundo, e que o verniz que a cobre na Europa deriva das matérias-primas originadas do Hemisfério Sul.

    Eu acho que Prêmio Nobel não é parâmetro para porra nenhuma, uma vez que se trata de benefício oferecido por escrutinadores eurocêntricos, que eventualmente, para parecerem plurais (tem uma cota de pluralidade mínima), acolhem aqui e ali uns nomes de fora do clubinho. E em todos os campos.

    E no conjunto eu achei legal.

  2. E repito:
    Milton Ribeiro é o cara!!!
    Toda essa conversa em inglês…e o cara exigente adorou o Milton!
    Sobre a parte onde fui citada: obrigada por se preocupar comigo! A vida recompensa a gente por todas coisas ruins que devemos engolir. Por exemplo, encontrei você, q u e r i d o!
    Faço o que amo e o que sei fazer! Mudar de posição não mudaria nada no nível da auto exigência. Sentar atrás não faz um especialista esquecer de como se faz 😎
    Faço a minha parte. E mais uma coisa: quando não se tem nada a perder, pode se dar a liberdade de não puxar o saco de ninguém.
    Aprendi muito sobre as inseguranças humanas… E profissionalmente estou sendo muito bem avaliada por mim mesma! 😄👍🏻

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *