Minha internação

Esses últimos dois dias foram horríveis. Em meu trabalho como jornalista, fui fazer uma entrevista numa clínica psiquiátrica e tudo correu normalmente. Fiz perguntas normais e estas foram respondidas de forma convencional. O resultado ia ser tedioso como quase todas as matérias. Quando saí de lá, me dirigi à parada de ônibus em frente à clínica para ir pra casa. Foi quando dois enfermeiros enormes vieram, me pegaram e me levaram de volta para dentro. Eu berrava e esperneava e, quanto mais fazia isso, mais eles tinham certeza de que eu fugira de um dos quartos. Eu disse que era repórter do Sul21 e um dos enfermeiros respondeu que ele era o Renato Portaluppi. O outro disse que era o Gilmar Mendes. Riram de mim. Passei a dar chutes e cabeçadas na porta e eles nem se voltaram para me olhar, só disseram de forma bem audível: ih, esse surtou de vez. Me deram umas injeções. Dormi, é claro. Quando acordei, tinham servido um café com pão e manteiga. Todos os talheres eram de plástico, que merda, eu estava a fim de fazer em pedacinhos o primeiro que entrasse. Roguei para falar com a Elena, com minha irmã médica, com meus filhos, com o bispo, mas eles tinham pegado meu celular e não queriam devolver. Também não quiseram me levar no passeio dos loucos devido a meu estado nervoso. Enfim, após 48 horas, consegui atrair um médico até meu quarto. Ele me conhecia dos blogs e do facebook. Pensou que eu postava sempre ali da clínica mesmo. Tive que explicar que costumava escrever em casa ou no trabalho, que deus e minha chefe me perdoem. Pedi por meus familiares e afinal vieram a Elena, a Iracema e a Bárbara. O médico pediu desculpas e disse que a parada na frente da clínica era um fake, nenhum ônibus parava ali, era só para pegar os fujões, mas que eu, boca-aberta, tinha ficado esperando e, já viu, pensamos que era um dos nossos. Agora, estou aqui digitando pra vocês já no meu celular, a camisa-de-força não é tão apertada assim. Consegui até coçar o sovaco.

Foto: AF Notícias
Foto: AF Notícias

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  1. Benza Deus!Parece ficção,fica difícil de entender que eles nem saibam quem são os internados,será que não tem outro(s) que foram atraídos pela armadilha da parada-de-ônibus fake?.Imagino o sufoco que o jornalista passou,em meados dos anos 1970,estagiando num jornal do Rio,fui fazer uma matéria no Pinel,de triste memória,e após ter visto cenas tristes,os doentes de cabeça raspada,enfileirados,vestindo uma espécie de camisola,dopados,fui entrevistar um médico..Pela minha aparência,cabelos compridos,roupa bem despojada e bolsa à tiracolo,notei que o médico não prestava atenção ás perguntas e mostrava uma certa condescendência e um sorriso contido;Tive que mostrar documentos,máquina fotográfica e nem terminei a entrevista Me mandei!.Ainda bem que o ponto-de-ônibus em frente era de verdade!Aquela época vivíamos uma ditadura.Tá ficando parecido,o agora…

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