Anotações sobre Anton Tchékhov e e-mail recebido

Anton Tchékhov
Anton Tchékhov

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia, citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Rosa, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchékhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas e me ordenasse escolher um e somente um, eu — talvez estranhamente — escolheria Anton Pavlovitch Tchékhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchékhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco desencantada do amor — o qual é visto sem muitas ilusões — e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchékhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

tchekhov1Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchékhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo — uma boa história — indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchékhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen.

tchekhov2Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante, para um autor do sáculo XIX: “Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchékhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

tchekhov3Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.
– E ler suas peças de teatro é um deleite só.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

tchekhov4Em vida, Anton Tchékhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchékhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

E-mail do Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchékov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.

Para mim, Tchékov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévski.

Bom final de semana!
Fernando

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20 comments / Add your comment below

  1. Milton,
    o que me deixa triste em Tchecov é que não há mais nada novo. Sinto falta.

    Realmente, se quisesse listar meus escritores prediletos, oo os que mais volto ou cito poderiam ser (não deve interessa a ninguém, mas…): Tchecov, Borges, Mann, Dostoyevski, Kafka e Rosa (suas anedotas e contos curtos, principalmente – será um gosto inusitado). Ah, e Shakespeare.Sempre esqueço que também é um escritor.

    Abraços
    Branco

  2. Milton, seu texto é um raríssimo testemunho de amor de um leitor por seu autor. Parabéns!

    Por outro lado, você declara: “ Era o verão de 1978, tinha 20 anos… Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época…” A pergunta que não quer calar:
    Quando era o tempo da punhetinha, Sr Milton Ribeiro?

  3. tbem nunca parei pra pensar quem seria meu autor favorito…
    assim ,de primeira, fico entre Alberto Moravia(genial como contista), Borges, John Steinbeck, Philip K. Dick e sua ficção cientifica metafisica, Machado(sempre), e , embora ele tenha deixado poucas obras,Campos de Carvalho. O Púcaro Bulgaro e a vaca de Nariz Sutil são obrigatórios. Depois de ler eu me perguntava o porquê de nao ter conhecido a literatura dele antes.

  4. Caro Milton Monteiro, encontro-me em um dilema terrível e quero saber se você pode me ajudar: faço parte de um grupo de teatro, e os professores farão uma espécie de “audição” dos participantes, para selecioná-los de acordo com seu estilo teatral. Fiquei meio confusa, porque eu gosto de praticamente todas as vertentes teatrais, e não sabia qual escolher, até que minha professora sugeriu que eu interpretasse algo na linha de Tchekov, afirmando que o estilo dele é o que mais combina comigo. Apesar disso, não conheço nada da obra dele, e por isso pergunto: qual obra você me indicaria, da qual eu possa retirar algum trecho interessante?
    Obs. importante: dois rapazes terão que fazer junto comigo, por questão de horários coincidentes, então tem de ser qualquer coisa com dois homens e uma mulher, se possível.

    Obrigada.

  5. Carol, querida.

    Não sou um especialista nas peças de Tchékhov. Claro que li os clássicos Tio Vânia, O Jardim das Cerejeiras, As Três Irmãs, O Urso, etc. Mas assim sem maior tempo, não saberia te indicar um trecho para dois homens e uma mulher.

    Acho que em Tio Vânia há uma cena assim, pois há uma mulher vivendo um casamento infeliz com um homem mais velho e um amalucado e tardio apaixonado que a tenta convencer a largá-lo. Então, o máximo que posso fazer é te direcionar para Tio Vânia a fim de procurar a tal cena. Por conta de uma mudança, meus livros estão desorganizados e não poderia neste momento te indicar ato e cena, mas acho que não deve ser complicado encontrar.

    Se quiseres maior facilidade, saiba que Anthony Hopkins dirigiu e atuou uma esplêndida versão de Tio Vânia. O filme é de 1996 e chama-se August em inglês, tendo sido batizado no Brasil como Outono de Paixões. Creio que possa garantir que ali encontrarás tua cena. Se não encontrares, o máximo que vais sofrer será ver um excelente filme.

    Beijo e boa sorte. Me conte depois como foi!

  6. obrigado por sua sugestão das melhores traduções de tchecov, estava buscando isso na internet e vou seguir sua dica. A tradução que comprei hoje na cultura, de 4 volumes, portuguesa, é ume verdadeira bosta! abraço, fx

  7. Só para complementar: “A Dama do Cachorrinho e outros contos”, com tradução e revisão de Boris Schnaidermann, foi ainda publicada pela Max Limonad em 1985 e 1986, antes, portanto, da quarta edição, publicada pela Editora 34. Schnaidermann redigiu uma nota inicial à quarta edição, onde afirma ser esta um texto novo, onde estão corrigidos alguns defeitos das edições da Max Limonad, sobretudo no posfácio e nas notas, apontados por ninguém menos que Dalton Trevisan.

  8. Oi, estou procurando descobrir de onde saiu esta citação de Tchekhov:
    “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer pureza equivale a rejeitar a literatura. Esta só pode ser classificada de arte quando pinta a vida como ela é”.
    Poderias me ajudar?

  9. Milton, olha minha coluna da semana passada no Coletiva. Abs.

    Tchékhov: um gênio discreto

    Ernani Ssó 13/11/2017 17:12

    Quando penso no Anton Tchékhov, lembro sempre de Mário Quintana. Ele dizia que a gente lê um conto de Tchékhov e parece que não aconteceu nada, mas aconteceu, sim: aconteceu a vida. Aí está o primeiro sinal da dificuldade de falar de Tchékhov. A vida é um bicho tão informe que é um perigo. Se ela está de costas, o que fazem aqueles olhos ali e por que unhas na nuca? Talvez não seja um afago dela na tua cabeça e sim um bote, ou afago e bote ao mesmo tempo. Talvez a gente a esteja agarrando não pelos cabelos ou por uma perna ou pelos chifres, mas por algo menos nomeável. As possibilidades são vertigem.

    Tchékhov nos leva a perguntas óbvias e inescapáveis. Se numa história parece não acontecer nada, ou acontece muito pouco, isso quer dizer que é uma história sem enredo ou com um desses enredos desconjuntados, cheios de becos sem saída e enganos estúpidos que a vida nos proporciona todos os dias, confere? Depois de um bom conto de Tchékhov fica mais evidente ainda que os autores de enredos intrincados ou mirabolantes apelam pros truques mais baixos pra nos prender a atenção. Tchékhov poderia repetir a frase de Stendhal: “Não quero, por meios artificiais, fascinar a alma do leitor”.

    Concordo com assobios e palmas. Mas então me pergunto: como, diabos, se faz isso?! A melhor resposta é A dama do cachorrinho ou O vermelho e o negro. Claro que no caso de Stendhal nossa atenção é fisgada de modo mais fácil – Stendhal tem senso de aventura, o que dá uma turbinada até a uma ida à pracinha pra tomar sol. Em poucas páginas, estamos na torcida. Com Tchékhov, em poucas páginas, estamos tão desorientados como os próprios personagens. É preciso alguma distância da adolescência pra ler Tchékhov direito.

    Muitos autores, quando não são bons de enredos, tentam nos enganar com o texto. A baixaria de sempre, frases tão bonitinhas que nem sabem o que dizem (obrigado, Ivan Lessa) ou enroladas pra parecerem profundas. Mas Tchékhov não tem o que disfarçar. Ele não está nem aí pra enredos, ele quer é nos dar flagrantes das pessoas e suas pequenas ou grandes alegrias e tristezas. Como está seguro do que conta, não precisa enfeitar nem enrolar. É simples, preciso – e com a bênção da falta de qualquer impostura.

    De lambujem, ele foge das ênfases e das exclamações. Onde um Dostoievski dá espetáculo, onde apela pros grandes gestos, até pro melodrama, Tchékhov é discreto. É como se dissesse que não se impressiona. A vida é assim mesmo, dolorosa, absurda, cômica. Pra que exagerar então? A mim a contenção de Tchékhov emociona mais e me leva a pensar que talvez Mario Puzo estivesse certo quando disse, ao comentar Os irmãos Karamazov, que os personagens de Dostoievski parecem italianos tentando parecer sérios.

    Ele também não toma partido. Ele cria um personagem e esse personagem é quem pensa e age. O personagem toma partido, e Tchékhov fica livre pra criar outro personagem que pode agir e pensar de modo contrário. Esse é o partido de Tchékhov.

    Parece tão fácil. Mas tente, meu caro, pra ver quanto custa uma merengada em dia de chuva.

    A estepe é a primeira novela de Tchékhov, escrita quando ele tinha 28 anos. Quer dizer, desde cedo – desde muito cedo, na verdade – já estava definida a estratégia do escritor, sem falar na ousadia de topar a briga mais perigosa. Bom, não dá pra saber se se trata de uma escolha ou de aceitação da própria sina, ou uma mistura das duas. A juventude de Tchékhov não pesa tanto nessa questão, me parece, afinal o cara era gênio.

    Dickens, por exemplo, era um autor esplêndido de episódios. Mas pelo visto achava isso pouco – se matava tentando amarrar tudo em grandes enredos. O que teria acontecido se tivesse aceitado a natureza de seu talento e o levado às últimas consequências? Tchékhov fez isso e deu no que deu.

    A estepe conta a viagem de um menino que vai estudar numa cidade maior. Só isso. A paisagem russa, os companheiros de viagens, os pequenos incidentes, o medo do menino sufocado ao fundo. Eu, que costumo pular descrições, segui linha a linha as observações sobre a estepe. Em algum momento comecei a sentir a presença física daquela mesmice, daquele horizonte sempre distante, do tédio da viagem. Mesmo viciado em narrativas aceleradas, aceitei o jogo de Tchékhov – acho que meio agradecido pela experiência e meio ressentido por ser dobrado por ele com tamanha facilidade.

    Quando Tchékhov morreu – sacanagem, aos 44 anos -, Tolstói disse: “Acho que Tchékhov criou novas, absolutamente novas formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”. Ninguém levou a sério e descontaram na cortesia do velho conde, a essa altura um monumento que se sabia monumento. Pena que, tanto tempo depois, muita gente ainda não lê os dois com a distância necessária.

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