Conto de Natal

Em meio à ceia de Natal, ele bateu com o garfo no copo de cristal, ergueu-se e começou:

– A data de hoje pressupõe alegria, felicidade e creio que alcançamos isso novamente pelo simples fato de estarmos reunidos, sem ausências a não ser a de minha mãe doente, que dorme com minha pequena Clara, e a de meu recém falecido pai. A mística familiar está mantida, velhos afetos se reconhecem, histórias da infância de cada geração afloram e a nostalgia nos invade. Lembro de um Natal ocorrido há uns 30 anos em que sofri uma das maiores decepções da minha infância. Eu tinha absoluta certeza de que receberia de presente um barco a motor para pescar com meu pai… Ganhei uma bicicleta. Para a criança que eu era, aquilo foi a maior das frustrações. Eu fantasiava com aquele barco, imaginava quantas noites poderia dormir tarde na companhia do pai e inventava histórias nas quais brilhava na pescaria, nas bravatas e nas piadas. Estava naquela idade em que os guris estão loucos para entrar no maravilhoso e livre mundo dos homens adultos. Quando soube que meu barco tinha sido substituído por uma bicicleta — mesmo ela sendo uma linda Peugeot –, quis sumir. Saí correndo e fui me esconder no local mais improvável. Fui na direção do galinheiro e lá fiquei junto de minhas novas amigas, sentado atrás dos poleiros. Chorei e desejei ser uma delas, pois, pensava ser impossível uma galinha sofrer semelhante decepção. Odiei os seres humanos. Passada mais de uma hora, já estava achando as galinhas chatas e refletia sobre a forma menos humilhante de voltar para a festa. Foi quando vi a silhueta de minha mãe. Ela adentrou cuidadosamente naquilo que a gente chamava de casa das galinhas, sentou-se a meu lado e ficamos de mãos dadas. Explicou-me que a culpa fora dela, que ela havia suplicado a meu pai que não me desse o barco, que ela tinha medo de que eu me perdesse, me afogasse, essas coisas de mãe. Voltei para casa e até achei a Peugeot bonitinha. Só fui ganhar o barco uns cinco anos depois, mas já não via graça naquilo.

Fez uma pausa em seu discurso para observar familiares e amigos sentados dos dois lados da imensa mesa posta na rua e continuou:

– Agora vou lhes contar um fato ocorrido no Natal do ano passado. Após o brinde, o pai chegou perto de mim e disse que aquele seria seu último Natal. Reclamei daquele absurdo, mas o pai reafirmou o fato. Caminhamos pelo terraço e ele, com voz entrecortada, revelou que tinha levado os nossos negócios a seu limite. Admitiu (e é verdade) que administrara mal as empresas herdadas, que era um fracassado, que havia mais de quinze familiares que dependiam do bom andamento das coisas – além das aproximadamente cem famílias de funcionários – , que ele não soubera levar adiante tudo o que seu pai, meu avô, construíra. Contou-me que tudo estava hipotecado e que eu teria de administrar a massa falida. Perguntei-lhe sobre algumas situações e soube que havia dívidas fiscais, trabalhistas, com fornecedores, e que as terras tinham de ser imediatamente vendidas.

Agora o silêncio era total, apenas quebrado pelas risadas descontroladas de um tio embriagado que estava achando toda aquela seriedade muito cômica.

– Nos dias seguintes, o pai me orientou sobre como fazer as vendas e as demissões no ano que vem, de forma a que pudéssemos encerrar os negócios com alguma dignidade. Ele morreu no primeiro semestre deste ano, todos nós sabemos. O que poucos de vocês sabem é que ele se suicidou.

Ouviram-se alguns protestos. O gerente da fábrica ficou em pé, sua nora — tão linda — quedou-se boquiaberta. Outros pediram debilmente para que ele parasse, mas a estupefação e a curiosidade eram maiores. O tio seguia rindo, enquanto alguns amigos apenas observavam o patético da cena. E havia quem quisesse saber de seus empregos, fixando seus olhares no palestrante a fim de saber onde estariam pisando depois do natal.

– Bem, amigos, aproveitei a data de hoje para compartilhar com vocês o problema. Nossa vida vai mudar. Nosso padrão mudará radicalmente. Já vendi duas empresas que serão entregues na virada do ano. Venderei e fecharei outras. Pagaremos os funcionários e é bom vocês se acostumarem a pedir penico para gerentes de bancos… Foi só que fiz este ano.

Alguns reclamaram, detestando a inclusão da palavra “penico”. Ele baixou a cabeça.

– Pare imediatamente com isso! — gritou sua esposa Laura.

– Não paro. Preciso dividir este problema com alguém. Estamos todos reunidos. Carrego isto sozinho há um ano. Tenho que aproveitar a oportunidade.

– Oportunidade de fazer mais besteiras? Destas tu sempre te aproveitou! E como é que eu não sabia de nada disso?

Foi quando viram a velha senhora chegar-se à mesa.

– Por que vocês estão, ou estavam, querida, tão silenciosos? Deixei de escutar aquele burburinho gostoso de festa e fiquei curiosa — disse, dirigindo-se a Laura, que detestava. Costumava chamá-la de Lauríssima Criatura.

– Mãe, por favor, volte para o quarto, o médico avisou… – disse o orador.

– Seu rico filhinho estava proferindo uns disparates de Natal para nós! – interrompeu a mulher, furibunda.

– Sobre a falência e o suicídio? Até já vendi meu carro e algumas joias para comprar dólares e euros. Deixar no banco ou ter patrimônio pessoal será perigoso. A justiça vem e bloqueia. Por que não fazes o mesmo?

Laura estava vermelha, pronta a atirar-se sobre o primeiro que se atravessasse a sua frente.

– A senhora concorda com isso? Contar toda esta bandalheira publicamente, na frente de toda a família e amigos, numa noite de Natal? Basta vendermos nossas joias? E nós, Dona Maria, como vamos viver depois disso?

A velha olhou para o céu; depois, estendeu a mão para o filho, que a segurou. Abraçaram-se carinhosamente, desejando-se um Feliz Natal em vos baixa. Então Maria apenas respondeu:

– Nós sempre teremos Paris, Laura.

O tio riu. Todos observaram como o filho levou a velha de volta para o quarto onde dormia a criança.

galinhas

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