Textos para o Sarau Clara Corleone (II): Os piores dias…

…da adolescência de Flávio foram aqueles em que sua família olhou-o com desprezo e repugnância.

No inverno de 1973, Flávio tinha aulas apenas no turno da manhã. Porém, aquele dia, fora ao colégio à tarde jogar futebol com os colegas. Estavam combinados para as três da tarde, mas, como sempre, ele tinha chegado antes. Gustavo também chegou cedo. Flávio estava de calças de brim e não tinha nada nas mãos, enquanto Gustavo trazia uma bolsa onde havia calções, camisetas, meias, sabonete, xampu e pente, tudo organizado por sua mãe que, contrariamente a de Flávio, era uma dona de casa exclusivamente dedicada à família.

Começaram a caminhar pelo campo vazio. Gustavo perguntou a Flávio se ele iria jogar de calças.

— Sim. Essas calças são velhas mesmo. E, olha, estão sujas e com este rasgão no joelho.

Gustavo perguntou se ele não queria um de seus calções emprestados.

— Tu vai sentir o maior calor jogando de calça. E vai ficar cuidando para não cair, para não se sujar, vai ser uma merda.

Como não estavam fazendo nada mesmo, Flávio concordou. Foram aos vestuários em construção, totalmente às escuras, abriram uma janela para enxergar o mínimo e Gustavo emprestou-lhe um de seus calções, vestindo outro. Naqueles tempos pós-golpe de 1964, tão parecidos com os atuais, uma obra de escola pública podia ficar anos abandonada, sem maiores reclamações. Era o caso do Colégio Júlio de Castilhos. Depois, ambos mijaram nas paredes, sentaram-se no chão para recolocar os tênis, deixaram as roupas por ali mesmo e voltaram lentamente para o campo, onde já havia mais alguns jogadores. O calção de Gustavo ficou grande em Flávio, mas assim era até melhor para correr.

Depois do jogo recolheram suas coisas no vestiário e foram embora. Os pais de Flávio, quando retornaram do trabalho, encontraram-no na frente da televisão, vendo Thunderbirds de banho tomado. Todos jantaram e ficaram vendo as notícias na TV. Quando, à noite, Flávio estudava em seu quarto, sua mãe entrou.

— Flávio, preciso que tu me explique uma coisa.

— O quê?

— Eu quero que tu me diga neste exato momento de quem é esta cueca.

— Como assim?

— Esta cueca não é tua nem do teu pai. Como é que ela apareceu na roupa para lavar?

Flávio começou a ficar vermelho e gaguejou um

— eu não sei de quem é, mãe.

— E onde está a cueca que tu usou hoje?

— Deve estar na roupa suja.

Na verdade, ele costumava contornar as dificuldades com seus pais através de pequenas mentiras, mas logo notara — pelo olhar de sua mãe — que estava indo por um caminho perigoso. Decidiu que teria de agir com a máxima naturalidade e ia se debruçando novamente sobre seu caderno quando sua mãe começou a gritar.

— Flávio! A tua cueca não está na roupa suja. Esta aqui não é tua! De quem é?

Flávio deu ombros quando sua mãe de novo trovejou.

— Então tu me aparece em casa com a cueca de sei lá quem e pensa que vai ficar assim? E esta coisa é usada e grande, maior que o teu tamanho! De quem é?

— Mãe, eu juro que não sei. Deve ser de algum vizinho. Pode ter caído na área de serviço, sei lá.

— De algum vizinho… Tá bom, vou falar com teu pai. Fique sabendo que isso não vai ficar assim.

Nos dias seguintes, Flávio foi à aula cabisbaixo. Fora decidido que ele só podia sair de casa para ir à escola, sempre acompanhado por sua irmã mais velha, que o abandonava uma quadra antes de chegarem. Ela não queria ser vista como babá de um idiota de 14 anos. Flávio estava aliviado por livrar-se de mais este ridículo. Explicou aos colegas que não poderia mais sair à tarde para jogar bola, que estava de castigo por ter brigado em casa.

Gustavo, esse jamais falou sobre o acontecimento.

cueca

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