Textos para o Sarau Clara Corleone (V): Um beijo e muitos olhares

Eu trabalhava há quase um ano ali. As pessoas não eram nada interessantes. O papo era ruim de doer. Por causa disso, talvez eu fosse a mais dedicada de nosso setor, não perdia tempo com conversas e até evitava as reuniões em torno da cafeteira. Era discreta, acostumara-me assim. Desde que minha família descobrira, soube que não podia mais contar com eles; então, meus empregos eram as coisas mais importantes da minha vida na rua. Como eu não era concursada nem nada, tratava de me comportar. Um dia, o chefe começou a me destacar, a me valorizar. Elogiava meu trabalho e seriedade, tanto que eu estava a ponto de pedir um aumento. Sabia que a Contabilidade não andava sem mim. Mas logo ele deixou de lado os elogios à produtividade e passou a me olhar como “mulher”. Aquilo era mais do que chato, aquilo era perigoso, pois Vivian era muito ciumenta e por qualquer coisinha punha fogo no mundo. Será que eu ia ter que dar para aquele idiota? Ele não parecia mulherengo, minha esperança era a de que ele permanecesse vítima daquela lentidão e culpa que fazem alguns caras casados empacarem, ficando só no flerte.

Eu evitava o olhar do homem, mas ele inventou alguns trabalhos para serem feitos com ele, na sala dele, na mesa dele, com ele. Então, eu elaborava com ele desde pautas de reuniões importantes até as mais inúteis planilhas. Quantos carros vendíamos, quanto era pago à Ford, quanto ficava para a empresa. Eu sabia que tudo aquilo era informado pelo sistema da fábrica e o que fazíamos era redundante, mas enfim, ele pedia.

O jeito dele era assim: quando estava perto de mim, parecia normal, convivia numas de camaradagem; porém, quando se afastava, lançava olhares compridos, insistentes, fixos. Às vezes, por exemplo, eu parava desatenta no xerox e cruzava com seu olhar de peixe morto. Era habitual captar que de alguma forma era observada. Não incentivava aquilo e comecei a usar roupas mais largas e a sentar de pernas abertas como se estivesse num galpão do interior gaúcho; vinha despenteada, às vezes com o cabelo sujo, mas, por mais defunteada que eu aparecesse, ele me lambia com o olhar. Um dia em que eu estava em sua sala digitando umas daquelas brilhantes planilhas, ele resolveu sentar-se grudado em mim. Notei que a porta da sala estava fechada, levantei e disse

— vou ao toalete.

Quando voltei, depois de uns 15 minutos, ele estava exatamente na mesma posição. Cuidei para deixar a porta aberta. Havia o monitor com a minha cadeira na frente e ele na cadeira ao lado, sem fazer nada, só me esperando. Ih, hoje vou me incomodar, pensei, sentando. Quando pus a bunda no assento, falei alguma coisa bem irritada sobre o trabalho. Então ele engatou a primeira marcha e declarou que a vida dele estava uma merda, que tinha que se separar da mulher, que havia as crianças, a família, a religião – aqui, não resisti a um suspiro –, enfim, o papo de sempre. Ele tinha cara de bebê, era uma espécie de Brad Pitt pós-atropelamento. Mas acabamos conversando sobre sua questão pessoal. Afinal, fiquei curiosa com a história deles, perguntei como se conheceram, sobre o filho… Pô, quem não gosta de uma fofoca?

Porra, e ele me convidou para sair. Arranjei dez compromissos, falei em aulas de inglês, de dança, academia, família, tudo; não podia simplesmente dar um chute no cara, ele era meu chefe. Mas o cara insistia e insistia. Foram duas semanas de chateação. Como uma criança que conseguiu mudar de fase em seu joguinho, ele perdera o pudor e agora me convidava a toda hora. Eu não sabia como mostrar-lhe um “Game Over” de forma educada. Podia inventar um namorado, mas… Que saco! Sabia que aquilo podia dar merda.

Então, num fim de semana, eu estava num restaurante almoçando com Vivian e ele entrou com sua família. Eu e minha namorada tínhamos passado a manhã andando de bicicleta pelas ruas e estávamos eufóricas, felizes. Ele me cumprimentou de longe e foi sentar sei lá onde. Não parecia infeliz ao lado da mulher, que era bonitinha, e do filho, que tinha cara de joelho. Não disse nada para a Vivian e este foi um grande erro. Quando fomos nos servir de sobremesa, ela se colocou atrás de mim e me chamou. Virei rapidamente o rosto para atendê-la e ela me deu um beijo na boca. Foi aquele beijo de casal em fila de buffet, se me entendem. Aquele beijo que se dá ou se recebe quando estamos ociosos e satisfeitos, o beijo do carinho antigo e conhecido. Fiquei vermelha, procurei o idiota e ele, é claro, estava me olhando. Vivian me perguntou porque eu ficara tão sem jeito.

Contei a história a ela, que ficou puta. Ela não entende, pois é concursada e só será despedida se urinar na mesa do chefe. Pensando melhor, se só urinasse, permaneceria.

Na segunda-feira, ele não me chamou na sua sala; na terça, idem; na quarta, conversamos sobre um assunto de trabalho e ele estava de cara fechada. Depois, achei que tinha sido paranoica, que o mundo tinha girado e que não havia motivo para me preocupar. Só que, um mês depois, a diretoria resolveu cortar umas cabeças, coisa que fazia habitualmente para incentivar a produção, e pediu para que cada chefe reduzisse sua equipe em um funcionário.

Vivian está satisfeita. Ganha o suficiente para nós duas, me sustenta e agora tem uma mulher em casa. Eu acho uma bosta. Faço comida, vou ao banco, cuido das plantas, sou a rainha do lar. O jardim está uma beleza! Procuro emprego.

Cena do filme "Legend of the Seeker" | Foto: Divulgação
Cena do filme “Legend of the Seeker” | Foto: Divulgação

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