O deserto tático do futebol brasileiro, por Thomaz Santos

Essa noite um amigo meu (que chamarei de “palestrinha”) levantou uma questão interessante em um grupo do Facebook sobre futebol quando comentou que o campeonato japonês, embora tecnicamente ainda fraco e fisicamente abaixo do nosso campeonato nacional, encerrado neste domingo, está muito acima do futebol praticado aqui no que diz respeito à organização tática. E ele pode ter muita razão em dizer isso, e mesmo discordando dele em 99% das discussões futebolísticas, vou tentar justificar porque dessa vez concordo com ele.

Bueno, sempre gosto de lembrar uma história do Inter dos anos 1960/1970, que foi o debate interno entre dirigentes (os chamados “Mandarins”, termo usado pelo Luis Fernando Verissimo para se referir ao grupo político que chegou ao poder no clube na virada da década e que foi responsável por mudar a gestão de futebol do clube) sobre quem deveria ser titular no time treinado pelo Daltro Menezes: se Bráulio, o Garoto de Ouro, joia da base colorada e que era um jogador extremamente técnico, ou Sérgio Galocha (*), nem de longe um primor de técnica, mas um jogador fisicamente forte e veloz.

Montagem da página História do Sport Club Internacional (Facebook)

Pois então, os Mandarins entendiam que um jogador de futebol tinha três atributos básicos: técnica, força e velocidade. E, para ser jogador do Inter daqueles anos, o jogador tinha de ter no mínimo duas dessas habilidades. Falcão, que subiu aos profissionais em 1973, por exemplo, era um primor nos três atributos, assim como Figueroa, contratado em 1971. Mas Valdomiro, chegado ao clube em 1968 e titular absoluto até 1979, era tecnicamente muito limitado, dependendo quase que exclusivamente da bola parada (os gols nas finais do Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1976 saíram todos, direta ou indiretamente, de suas cobranças de falta), mas extremamente forte e veloz.

Voltando ao debate inicial, quem deveria ser titular: o Garoto de Ouro, que era extremamente técnico mas fisicamente frágil e não muito veloz, o ou Galocha, que até sabia chutar uma bola mas tinha como vantagem mesmo ser forte e rápido? Ganhou a regra do “melhor de 3” dos Mandarins e uma nova forma de pensar o futebol nascia.

E o que essa história tem a ver com a questão levantada pelo meu amigo? Porque, quase 50 anos depois, ainda escolhemos jogadores da mesma forma, mas com um quarto atributo básico: a famosa “obediência tática”. Hoje, nossos jogadores precisam ser aptos a cumprir diversos papéis em campo: goleiro tem que saber sair jogando com os pés, zagueiro tem que saber atacar, todos os jogadores de meio-campo precisam participar do jogo ofensivo e defensivo e atacante que não marca o zagueiro adversário não tem lugar no futebol moderno. Podem ver, o cara é tecnicamente fraco, lento, pesado, mas forte e “cumpre bem sua função tática”. Pronto, é titular absoluto com venda para a Europa garantida. Agora, com 4 atributos, ainda bastam dois, mas um deles sempre será a obediência tática.

Tite | Foto: Wikimedia Commons

Só que esses mesmos critérios usados para selecionar jogadores e montar elencos não são levados em conta na hora de formar e contratar técnicos de futebol. Sério, a formação de técnicos de futebol, sobretudo no que diz respeito a tática, é uma piada no Brasil. A própria Argentina, que tem diversos problemas no seu futebol nacional, forma mais e melhores técnicos do que nós, e eles muitas vezes são disputados a tapa pelo mercado europeu.

Então, mesmo não tendo visto um jogo sequer no campeonato japonês, concordo com palestrinha (ou melhor, acho que eu sou o palestrinha do grupo, levando-se em conta o quanto eu já escrevi) que o futebol jogado no Brasil é uma mixórdia tática, e a prova disso é que o melhor treinador brasileiro da última década não conseguiu fazer o a Seleção Brasileira jogar na Copa tudo o que podia, e isso é função única e exclusiva do técnico, fazer o time jogar.  Mas isso não vai ser resolvido com, sei lá, a vinda do Guardiola. Tem que pedalar a porta da CBF, mudar o calendário do futebol nacional, reformular TODAS as categorias de base no Brasil e ocupar os cursos de formação de técnicos de futebol com gente que não vive ainda em meados do século XX.

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Thomaz Santos é professor do curso de Relações Internacionais da UFSM e acha que entende mais de futebol que a crônica esportiva gaúcha.

(*) Nota do Milton: o “Galocha” de seu apelido foi-lhe atribuído por um motivo agressivamente racista — segundo os braulistas, Sérgio seria preto e mole. Os narradores e comentaristas da época chamavam-no apenas de Sérgio, mas o tempo consagrou o Galocha.

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