Like a rolling stone

No dia anterior, ela visitara o ex-marido que ainda habitava o apartamento onde moraram por quase uma década. No momento de sua chegada, a filha correra para o lado do pai, como era habitual há alguns meses. Afinal, a mulher passara a encontrar defeitos em tudo que a enteada dizia ou fazia e a menina apressava-se em ir para a cama cedo todas as noites, antes que a mulher chegasse da faculdade — ou das festas.

Mas naquele dia ela viera muito cedo, por volta das 20h. Quando entrou na sala, tinha vermelha a face de ossos proeminentes, ainda mais inchada do que o normal. Ela disse que precisava da chave do carro.

— Por quanto tempo?

— Dois ou três dias.

— Tudo bem, estão aqui.

E ela foi embora, não sem antes deixar no ambiente algumas ofensas, as quais foram recebidas com risos pelo marido e apreensão por parte da filha. Desde dezembro, quando Marcos anunciara sua intenção de não fazer mais tentativas de fertilização in vitro, ela tratava a filha com visível desdém. O casal estava separado há três meses, desde que o marido descobrira o adultério da mulher, concretizado com um amigo da família.

Desde então, ela estava morando na casa da mãe ou no apartamento do novo namorado. Eles ainda não tinham conseguido conversar a respeito dos acertos necessários. Na única visita que a mulher fizera ao advogado que ele constituíra, ela saiu batendo a porta, chamando-o de desaforado.

No dia seguinte, Marcos trabalhava normalmente quando recebeu uma ligação. Era de sua ex-mulher e ele atendeu prontamente, pensando que ela lhe faria algum gênero de proposta de separação. Mas não. Ela lhe comunicou aos berros — e com um turbilhão de ofensas de baixo calão — que tinha trocado as chaves da porta do apartamento e que ele deveria morar, por apenas quinze dias, na casa dos fundos, bem conhecida dele, já que sua mãe passara os últimos dias de sua vida ali. Suas roupas e alguns poucos pertences estavam lá.

Marcos desligou o telefone no meio da ligação e telefonou para sua filha. Esta já sabia de tudo e falou que a mulher estava louca. Ligou então para sua irmã, que também já tinha sido informada. Ligou então para vários amigos. Estes não sabiam de nada e ofereceram quartos para que ele passasse alguns dias. Eram unânimes; ele não deveria voltar lá. Marcos não pensava assim, achava que podia ficar na ex-casa de sua mãe por alguns dias. Ligou então para sua recente namorada e ela reafirmou: voltar está fora de questão. É que depois da agressão moral gratuita, os amigos tinham receio de outros ataques, verbais ou até físicos. De qualquer modo, Marcos foi até lá com um amigo. Chegaram calmamente, analisando o caso. Discutiam principalmente o caráter adesista, verdadeiramente peemedebista, da vizinha de cima. Riam das transformações instadas pelo oportunismo.

Ele foi até a casa de trás. Lá, viu suas coisas atiradas, trocou de roupa e foi embora. Recebeu um telefonema. Era um amigo mandando ele ir ao concerto daquela noite, pois Eugênia sempre comparecia, tinha ambições políticas e estava montando uma Associação de Amigos da orquestra que daria o concerto. Ele deveria aparecer bem vestido e tranquilo. Marcos concordou.

Quando desceu as escadas com o amigo, olhou para a sacada de seu apartamento e viu Eugênia falando ao telefone. Ela voltou o rosto para ele. Este estava ainda mais inchado e vermelho.

Marcos foi ao concerto. Depois, foi a um pequeno hotel da rua marechal Floriano, onde deitou-se numa boa cama para receber uma chuva de pó de cupim, que entrava na boca e nos olhos e que lhe fez dormir de bruços. Pela manhã, tomou banho e foi trabalhar. No dia seguinte, quando saiu do trabalho, fez pela primeira vez aquilo que se tornaria um hábito. Por motivos óbvios — afinal, era uma pessoa asseada –, foi com seus colegas de trabalho na loja Só Cueca da Sete de Setembro, depois subiu até a Jerônimo Coelho para comprar meias e desceu até a loja da Hering da Rua da Praia para comprar uma nova camiseta. Com o tempo, na Hering, tornou-se uma da diversões das atendentes. Ao final da tarde chegava e perguntava o que deveria vestir no dia seguinte. Tinha que combinar com sua única calça e sapato. Elas usavam toda a sua criatividade para que ele tivesse as melhores combinações para sua calça bege e sapato marrom. Só que naquele 23 de outubro, Porto Alegre recebeu uma das maiores chuvas de sua história e a coisa não estava engraçada. Os sapatos reclamavam em voz alta, as calças estavam sujas, sujíssimas, e ele teria que lavar, mas como?

Já estava tirando par ou impar entre a casinha de sua mãe e o hotel dos cupins. Subiu a Mal. Floriano e viu-a transformada numa cachoeira. Mas não podia desobedecer à ordem dos amigos e da namorada, eles foram seus esteios. Havia vários oferecimentos de quartos, mas cadê a cara-de-pau? Marcos estava pegando o telefone para falar com alguém, ao mesmo tempo em que se dirigia vagamente aos queridos cupins, quando ele tocou. Era sua namorada dando-lhe uma quase-ordem:

— Não te preocupa com a chuva, vem para cá. Meus filhos estão na casa do pai. Tenho lavadora e secadora. Amanhã, tudo estará limpo.

Eram namorados recentes e ele ainda não tinha dormido na casa dela. Os sapatos ficaram no corredor. Marcos entrou na ponta dos pés. Mora lá há mais de cinco anos.

Deixe uma resposta