O Brasileiro e o Foco na Véspera da Decisão

O Brasileiro e o Foco na Véspera da Decisão

Os colorados não estavam dando grande atenção ao Campeonato Brasileiro e, agora, nervoso, na véspera do jogo mais importante do ano — a decisão da Copa do Brasil no Beira-Rio — olho para o que vem depois e… Puxa, estamos bastante bem no Brasileiro! Mesmo jogando quase sempre com os reservas, estamos isolados no quarto lugar, com poucas chances de sermos campeões, mas vivos. Interessante.

No último domingo, pela manhã, vencemos o Atlético-MG em BH por 3 x 1. Foi uma vitória indiscutível de um time com bons jogadores como o lateral direito Heitor, o meio-campista Nonato, o lateral esquerdo Zeca, o armador Neílton — eu gostava muito dele no Vitória — e, pasmem, a ressurreição de Pottker, que fez boa partida e dois gols.

O time reserva repete a mania dos titulares. Somos o melhor time do Brasileiro no enfrentamento com os dez times da parte de cima da tabela e o 13º contra os mortos da segunda página.

É a eterna mania de fazer bondades aos moribundos. Cuidado, domingo, às 11h, pegamos a Chapecoense no Beira-Rio.

Mas o que interessa hoje, nosso FOCO tem que ser o jogo de amanhã, onde decidimos se vamos ficar mais um ano sem títulos importantes — já são 8 — ou se vamos mudar a história recente. É dia de esquecer as cagadas de Odair e dar total apoio ao time. O Athlético é um time pra lá de nojento em vários sentidos. É rápido e bem treinado, mas também é a instituição que apoiou Bolsonaro e ainda tem o patrocínio da Havan. Ou seja…

A questão política me afeta, mas o jogo poderia ser contra o querido St. Pauli (*) que eu desejaria vencer com todas as minha forças. Nossa questão é o nosso retorno não só à primeira divisão como ao convívio com os  vencedores. Nossa questão é demonstrara que nosso DNA de vencedores está em plena validade. Nossa questão é aumentar a sala de troféus.

Eu estarei lá, atento e na expectativa, com a camisa vermelha e sem cachaça na mão. OK, talvez depois. Antes só uma cerveja para entrar no clima.

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(*) O St. Pauli (Fußball-Club Sankt Pauli von 1910) foi o primeiro clube alemão a banir o ingresso no próprio estádio de torcedores adeptos do nazismo. Em 2005, o clube começou também a organizar obras de beneficência para terceiros. Por exemplo, a equipe e os torcedores criaram a iniciativa viva com água de sankt pauli, uma colheita de fundos para a aquisição de distribuição de água para as escolas de Cuba. No último domingo, O St. Pauli venceu o clássico citadino contra o Hamburgo por 2 x 0, pela segunda divisão alemã.

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineiros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.

Salvador Allende, 11 de setembro de 1973.

Bom dia, Odair, mantenedor de Patrick (com os principais lances da covardia de ontem)

Bom dia, Odair, mantenedor de Patrick (com os principais lances da covardia de ontem)

A filha de Odair chama-se Vitória. Deve ter nascido em casa, pois, se tivesse sido em hospital, se chamaria Tentando Segurar um Empatezinho Hellmann.
(de um amigo)

Ainda temos boas possibilidades de sermos campeões da Copa do Brasil 2019, apesar de ontem termos encaminhado consistentemente uma tragédia. Desde os tempos de Fernando Carvalho, instalou-se a Síndrome da Retranca Fora de Casa. Via de regra, longe do berço entramos timidamente para ganhar num contra-ataque ou para empatar… Ou para perder de pouco. Ora, se deu certo contra o Barcelona, há de dar também contra a Chapecoense e afins. Só que não.

Faz uns 8 anos que este esquema não funciona, mas parece que ser cagão mantém os empregos. Pois é, o que parece passar longe das mentes da direção colorada é que para se fazer uma boa retranca há que ter 100% de comprometimento, de atenção, e de manter a bola no pé de vez em quando.

Ontem, por exemplo, tivemos um meio campista que jogou 90 minutos e que foi desarmado 16 vezes. Sim, 16 vezes! Falo de Patrick. E nisto não estão contados os passes errados.

Enquanto a taça brilhava na Arena da Baixada, Odair usava seu eterno esquema cagão | Foto]]: Ricardo Duarte / SCI

Nico, Uendel e Edenílson — Ed foi culpado direto pelo gol ao errar uma brilhatura em nosso meio de campo e perder uma bola simples — fizeram péssimas partidas, mas nada comparável ao horrível Patrick. Todas as arrancadas do louco lento deram errado. E ele não manteve posição, ia lá pra frente, foi e é um peladeiro. O mapa de calor e os impedimentos marcados costumam indicar que Patrick é muitas vezes nosso homem mais avançado em campo. Mais do que Nico López e até Guerrero. Suas funções táticas são as mais incompreensíveis do esquema de Odair.

Patrick não funciona fora do Beira-Rio, este é outro fato. Edenílson não jogou nada, mas, assim como Nico, é sempre uma possibilidade, tanto que ambos perderam gols. Já Patrick nem isso.

E ele não foi substituído! Aliás, foram novamente lamentáveis as substituições de Odair. Só faltou tirar novamente o Cuesta.

Mesmo assim, sem insistência e fechados, chutamos e tivemos mais oportunidades de gol.

Mas temos que (sobre)viver com Odair e, pior, torcer por ele. Sim, irei ao Beira-Rio berrar a favor daquela ameba. Tenho que tornar esse burro campeão.

Há um adversário, claro. O Athletico é um time limitado, mas muito bem treinado. Joga tudo o que pode com jogadores como Welligton Martins e Marcelo Cirino, ambos corridos do Beira-Rio por deficiência técnica. O Patético não eliminou Flamengo e Grêmio à toa e, por termos perdido ontem, vamos passar trabalho no Beira-Rio para tentar uma vitória por dois gols. Será a vez de eles se retrancarem. Eles têm um meio-de-campo sem Patrick, isto é, veloz, porém a zaga é ruim de doer.

É VAMO, VAMO, INTER e fim.

O Inter retorna a campo no próximo domingo (15/09), às 11h, quando enfrenta o Atlético Mineiro no Independência. O jogo encerra o primeiro turno do Brasileiro. A volta do Inter ao Beira-Rio acontece na partida de decisiva contra o Athlético, time que apoiou institucionalmente o repugnante governo atual e tem o patrocínio do véio da Havan. A partida será no dia 18/9, às 21h30.

Vamos vencer, PQP!

Impossível ficar indiferente à capa do último CD de Cecilia Bartoli

Impossível ficar indiferente à capa do último CD de Cecilia Bartoli

Cecilia Bartoli acaba de anunciar seu novo álbum, Farinelli, com um programa de árias inspirado na figura do famoso castrato, provavelmente um dos melhores cantores da história. O álbum (no qual a cantora tem a colaboração do notável Giardino Armonico de Giovanni Antonini) estará à venda no dia 8 de novembro. Mas o que certamente não deixará ninguém indiferente é a imagem da capa, onde Bartoli aparece com barba. Piscadela aos transexuais? Auto-ironia? Marketing astuto? Uma mistura das três coisas?

A verdade é que Bartoli tem uma longa história de capas excêntricas, e não é a primeira vez que os castrati despertam sua imaginação. Alguns se lembrarão, há dez anos, de seu álbum Sacrificium, onde seu corpo havia passado por um processo de “marmorização” que a transformou em uma estátua.

Os jornais pré-programados

Os jornais pré-programados

Me incomodam os jornais, sites, colunistas e comentaristas das redes que desejam agradar seus leitores com opiniões previsíveis e consensuais. Ah, a sede de aplausos… Ah, vou falar bonito pra minha bolha… Significa que a opinião emitida tem em vista um objetivo que se esgota na vaidade e na fragilidade de quem a divulga. Se tivesse um jornal, escolheria os meus colunistas por um critério. Trataria de descobrir o tamanho da vaidade, se a pessoa precisa muito ser amada. Se sim, adeus. Se não, fique por aqui fugindo dia a dia do que esperam de ti.

Um saco

Posso dizer que posso adivinhar as manchetes de cada site a respeito de determinado assunto. É sempre a mesma pasmaceira previsível. É como diz Chico Buarque em “A História de Lily Braun”:

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

Ilíada, de Homero (trad. de Christian Werner)

Ilíada, de Homero (trad. de Christian Werner)
A capa externa da caixa homérica da Ubu Editora

Por Leonardo Antunes (*)

Há quatro anos, Christian Werner lançava sua tradução da Odisseia pela Cosac Naify. Àquela ocasião, Guilherme Gontijo Flores escreveu uma resenha para a Folha de São Paulo louvando o trabalho e celebrando o fato de que nosso sistema literário esteja produzindo novas traduções dos clássicos: um sinal de vitalidade de nosso meio, veredito com que concordo plenamente.

Agora pela Editora Ubu, Werner não só relança sua Odisseia como também publica uma tradução inédita da Ilíada. Salvo engano, creio que essa seja a tradução de Homero de mais longo período de gestação entre aquelas de que dispomos em português.

Digo isso porque, em 2002, quando iniciei meus estudos sob a tutela do professor, a tradução já estava sendo gestada. Desde então, Werner se tornou uma das figuras mais respeitadas no campo de estudos homéricos no Brasil, tendo também publicações e repercussão no exterior. Durante esses mais de 15 anos, vem se dedicando ao estudo dos poemas épicos gregos, tendo escrito inúmeros artigos e livros acadêmicos a esse respeito.

Creio que esse seja o grande diferencial de sua tradução, que Gontijo comparou, em 2014, à de Frederico Lourenço, também professor e pesquisador de literatura grega. Além de serem ambas oriundas de um cenário acadêmico, essas traduções também têm em comum o verso livre. Porém, creio que as semelhanças terminem aí.

Enquanto o texto de Lourenço parece focar-se na fluência como critério primeiro, a tradução de Werner, por sua vez, prima pelo cuidado extremo com a linguagem de Homero. Ela é concisa, como a de Odorico Mendes e de Haroldo de Campos, mas não pelo mesmo modo que a desses poetas, que buscavam impor uma dicção própria ao texto. A tradução de Werner é concisa pela emulação da parataxe grega, das frases coordenadas uma após outra, e que são vertidas com extremo rigor palavra por palavra, de modo quase interlinear.

É o tipo de trabalho que facilmente poderia se tornar infiel ao texto de partida em uma característica importantíssima: a da legibilidade – Homero, apesar de seu vocabulário vasto, não é difícil de ser lido por quem sabe grego. Mas também nisso Werner se mantém próximo ao texto do lendário aedo, evitando palavras desnecessariamente raras. Quando elas ocorrem, são para emular a raridade de um vocábulo pouco usual no texto grego ou para dar uma potencialidade de sentido precisa a um termo-chave para a interpretação da obra.

Ainda que a ordenação pouco usual da linguagem poética emulada por Werner possa causar um pouco de dificuldade de início, justamente por sua uniformidade cuidadosamente lavrada não demora para que o leitor se acostume com essa dicção que emula características fundamentais de Homero, jamais recriadas em português de forma tão criteriosa.

Também os paratextos, em que o tradutor explica minuciosamente suas escolhas e critérios, são um excelente apoio tanto para novos leitores de Homero quanto para estudantes da área. O box com os dois poemas conta ainda com o brilhantismo de uma introdução assinada por Richard P. Martin, no início da reedição da Odisseia.

Borges, que não sabia grego, dizia que conhecia bem Homero pela quantidade de traduções que tinha em sua biblioteca. Com essa nova tradução de Werner, nós também ficamos um pouco mais próximos de conhecer melhor o grande épico grego, pelas características que ficam tão bem aclaradas em sua tradução e em contraste com as demais.

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(*) Leonardo Antunes é poeta, tradutor e professor de Literatura Grega na UFRGS.

Um dia normal

Um dia normal

O dia começou cedo. Muito cedo. Acordei às 6h15 para receber a pessoa que faz a faxina na livraria. Na situação em que o comércio se encontra, não dá para pagar hora extra a cada faxina. Então eu venho, abro as portas e fico lendo na frente da livraria. Hoje deu 40 páginas de Knausgård. Deste forma, o dia começou bem. Enquanto vocês aproveitavam os últimos minutos aquecendo as bochechas em seus travesseiros, eu lia prazerosamente um autor de que gosto muito.

Depois, fui até o fórum onde trabalha minha filha. Não conhecia, ela trabalha num local bonito e limpo, em uma mesa em L cheia de processos e com um monitor. Senti falta do cheiro de café. Ah, se ela soubesse o quanto eu desejo que ela tenha uma vida menos atribulada do que a minha!

Agora, ela me manda pelo Whats a foto de uma xícara de café, feito após minha saída…

Agora, de volta ao trabalho, espero que a Elena me chame para fazermos uma reunião com um pessoal que representa a Unimed. Estou pagando “apenas” R$ 1402,41 por mês e quase não fico doente. Deveria receber uma medalha da instituição por pagar o plano há 20 anos quase sem utilizá-lo. Num mundo ideal, este valor deveria baixar.

E depois vou ter que enfrentar a uma fila na Caixa porque meu cartão deixou de funcionar e, deste modo, não consigo usar o caixa eletrônico. Aliás, os cartões da Caixa são de péssima qualidade. É o segundo que tenho que trocar em menos de um ano.

E assim a vida passa.

Ainda bem que a livraria não vai de todo mal.

Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 3 x 0 Cruzeiro)

Bom dia, Odair (com os melhores lances de Inter 3 x 0 Cruzeiro)

Hoje, meus sete leitores não tiveram a versão em texto do Bom dia, Odair em razão de minha participação no programa Hoje na História do Inter, capitaneado por Luís Eduardo Gomes na Rádio Inferno ou para os iniciados, na rádio Se o céu é azul, o inferno é meu destino. É claro que estávamos felizes com a vitória de ontem sobre o Cruzeiro de BH e consequente classificação para a final da Copa do Brasil. 

Foto maravilhosa de Ricardo Duarte no site do SC Internacional

Os 20 Melhores Contos de Aldyr Garcia Schlee

Os 20 Melhores Contos de Aldyr Garcia Schlee

Um grupo de amigos e literatos escolheram os 20 melhores contos de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) através de votação. Houve 396 indicações de contos feitas por 152 leitores e o resultado foi apresentado neste livro, publicado quando o escritor completou 80 anos. Mas a edição é única e está fora do comércio. Foi uma boa ideia e os primeiros contos do volume — os mais votados — são realmente extraordinários. Só que depois a escolha meio que se perde em contos cronísticos que podem ser da preferência dos amigos, mas que… Bem, conheço outros bem melhores dentro da produção do autor. Prova de que nem sempre dá para confiar nos amigos…

Schlee foi um enorme escritor. Ele é o cantor da região fronteiriça, o homem que imortalizou literariamente Jaguarão, seu rio e sua ponte. Seus personagens não são os potentados locais, mas a chamada gente simples do campo, as moças mal amadas, prostitutas e andarilhos. Suas histórias trazem o homem da fronteira, a cultura pampeana e seu linguajar, muitas vezes ignorando o que é Brasil e o que é Uruguai. Há muita nostalgia nas histórias também.

Temos vários contos esplêndidos na coleção. Me apaixonei pelo segundo mais votado, Maria Adélia, mas também por A Última Viagem do Vapor Rio Grande, por A Viúva de Quinteros, Um Brilho nos Olhos e Luíza vinha de noite.

Mas Schlee foi um raro e grande contista de futebol. A maioria de tais contos ficaram de fora da coleção dos 20. Paciência.

Aldyr Garcia Schlee | Fructos do Paiz / Divulgação / Jornal do Comércio

Pollini nos dá uma aula de música

Pollini nos dá uma aula de música

Aqui, o maior dos pianistas dá uma bela entrevista. Pollini parece pensar cada nota. Depois de ouvi-lo, a gente tem dificuldades com outros. Ele é convincente ao mais alto grau. A noite em que o ouvi em Londres foi uma das melhores de minha vida. Foi um recital muito longo dedicado a Abbado. Tinha umas 2000 mil pessoas no Southbank Center, todas em suspenso, absolutamente sozinhas com o gênio. Sensível e de enorme refinamento intelectual, ouvir Pollini (1942) — tocando ou apenas discorrendo — é um bálsamo em nossos dias bolsonarianos. Vale a pena.

Retorcer, por Thomaz Santos

Retorcer, por Thomaz Santos

“O que mais me impressionou foi o quanto a maioria dos homens à minha volta detestava, realmente detestava, estar ali. (…) [Nas plateias de que eu participara] eu nunca observara rostos contorcidos de fúria, desespero ou frustração. A diversão como sofrimento era uma ideia inteiramente nova para mim, e parecia ser algo que eu vinha aguardando” (Nick Hornby, “Febre de Bola”)

Hoje, dia 28 de agosto de 2019, por motivos óbvios, tão óbvios quanto o sofrimento que seria a minha noite, não consegui dormir. São exatamente 2h42 da madrugada e não consigo desligar corpo e mente. Tudo retorna àquela questão que martela minha cabeça: e se o Nico tivesse feito o gol no jogo de ida contra o Flamengo pela Libertadores?

O chá de camomila já no segundo tempo do jogo disputado no Beira-Rio não fez efeito algum. E estar gripado, com o nariz pingando feito um torneira, também não ajudava. Não querendo incomodar meu filho, que já havia acordado graças aos meus espirros, nem minha esposa, também gripada e precisando desesperadamente dormir, refugiei-me em outro quarto, munido de cobertor, travesseiro, rolo de papel higiênico e pijama improvisado composto por uma calça de moletom e a camisa retrô do Inter com o número 7 do Valdomiro às costas. Deitei na cama, peguei o celular e o que fui fazer? Rever vídeos de gols históricos do Inter, especialmente da década de 1970, em homenagem a quem já havia sido homenageado pela minha camisa retrô.

Torcida colorada em Inter x Flamengo na última quarta-feira | Foto: Ricardo Duarte / SCI

E fiquei ainda mais acordado que antes, obviamente. Então, pensei em recorrer à leitura para ver se caía no sono. Vasculhei o armário do quarto em que me encontrava mas não achei o único livro que poderia servir para este momento: Febre de Bola, o clássico de Nick Hornby que como nenhum outro soube compreender e apresentar tão bem o que significava torcer para um time de futebol. Já perdi a conta de quantas vezes li esse livro. De cara ele parecia ter sido escrito para mim, um então jovem torcedor colorado que tinha de testemunhar as glórias do time rival enquanto o clube que eu tanto amava colecionava vexames e decepções entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000. Esse livro, aliás, foi o que me fez criar simpatia pelo Arsenal, time do coração de Hornby, mais até do que o futebol de Thierry Henry, Patrick Vieira e Dennis Bergkamp. Porque se no período em que me deparei com o livro o Arsenal era um das melhores mais vitoriosas equipes da Inglaterra, durante boa parte do período retratado por Hornby no livro era como se o Arsenal fosse o Inter da virada do século: eliminações para times de divisões inferiores, finais perdidas de forma tragicômica e fracassos retumbantes em torneios continentais.

Pensando bem, os grandes temas que perpassam os três livros mais famosos de Hornby (Febre de Bola, Alta Fidelidade e Um Grande Garoto) são obsessão e amadurecimento, e como aquela pode muitas vezes frear a conquista desse. Ser um torcedor obsessivo (ou um obsessivo torcedor) me traz mais problemas que soluções. Eu fico irritado e mal-humorado depois de uma derrota do meu time (ou depois de um empate que levou à nossa eliminação do torneio continental), acabo me indispondo com pessoas de quem eu gosto, perco tempo e dinheiro em um amor nem sempre correspondido (quem torce por um time sabe bem como é isso) e, se tudo der certo, posso estar levando meu filho de 2 anos pelo mesmo caminho. Que espécie de pai tentaria criar em um filho o amor por uma instituição que, estatisticamente falando, é incapaz de só trazer alegrias para uma jovem criança? Pelo contrário, quem torce por qualquer time terá muito mais chances de ter frustrações que conquistas ao longo da sua vida, pois time algum no mundo pode ganhar tudo sempre. E todo time pode ser rebaixado, como finalmente descobri em 2016.

Mas, mesmo assim, eu sigo torcendo. E torcendo de novo. E retorcendo, inclusive a camisa, seja a do Valdomiro, do Fernandão ou do D’Alessandro. Porque ninguém torce só uma vez. Todo mundo retorce. E se retorce na frente da tevê, ao lado do rádio ou no meio da arquibancada. A cada gol sofrido, a cada pênalti perdido, a cada derrota sofrida, a cada eliminação doída. A gente torce e retorce, obsessiva e infantilmente, porque já não conseguimos ser de outra forma. Meu filho ainda tem chances de se livrar dessa obsessão que já me consumiu por inteiro. Sou, como diziam de Nelson Rodrigues, uma flor de obsessão. Minha sorte é a minha esposa ser uma colorada muito mais sensata e razoável do que eu, que se deixa afetar o mínimo possível pelas dores e derrotas que nosso time nos traz. Exceto quando eu assisto a um jogo na frente dela e não há como ela me ignorar, compartilhando um pouco ainda que seja desse mal que me aflige.

E semana que vem tem mais. Partida de volta contra o Cruzeiro pelas semifinais da Copa do Brasil. Com a possibilidade real de termos a primeira decisão de um torneio nacional disputada em dois Gre-Nais, o maior clássico do Rio Grande do Sul e, para muitas pessoas, do Brasil. São agora 3h20 e estou tão desperto quanto antes. Acho que vou ver alguns vídeos de gols do Inter contra o Cruzeiro. De repente o do gol iluminado do Figueroa na final do Campeonato Brasileiro de 1975. Será que eu tenho a camisa retrô dele com o número 3 às costas?

E assim sigo torcendo e retorcendo eternamente. Vamo Inter.

Nick Hornby

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Thomaz Santos é professor do curso de Relações Internacionais da UFSM e acha que entende mais de futebol que a crônica esportiva gaúcha.

Plácido Domingo: concertos cancelados nos EUA e ovação na Europa

Plácido Domingo: concertos cancelados nos EUA e ovação na Europa

O universo erudito norte-americano respondeu às acusações de assédio sexual que teriam sido cometidos pelo tenor e maestro Plácido Domingo. Quatro instituições foram radicais. A Orquestra da Filadélfia cancelou um concerto que teria participação dele. A Orquestra divulgou uma nota para justificar sua decisão. “Nosso comprometimento é o de manter um ambiente seguro, respeitável e apropriado”. A Ópera de São Francisco “desconvidou” o tenor espanhol de um concerto que seria realizado em outubro. Imaginem: o evento seria realizado para comemorar os 50 anos da estreia do cantor junto à instituição. Por meio de sua assessoria, os responsáveis pela Ópera alegaram que, embora nenhuma acusação contra Domingo tenha sido provada, ela tem o compromisso de repudiar qualquer situação de assédio.

As acusações dão conta de que Domingo causava prejuízos a artistas que não cediam a seus desejos.

A Ópera de Los Angeles e a Ópera Nacional, de Washington, foram mais reservadas. Los Angeles, onde ele atua como diretor artístico, informou que os casos de assédio serão investigados, ainda que reconheça que o maestro seja “uma força criativa” dentro da instituição por mais de três décadas. A Ópera de Washington, que teve Domingo sob contrato por 15 anos, afirmou por meio de seus representantes que não dispõe de políticas definidas para qualquer tipo de assédio e abuso. Os diretores da casa não quiseram dar mais detalhes se irão investigar o comportamento de Domingo — que teria assediado mulheres enquanto foi diretor artístico do local.

Enquanto isso, em Salzburgo, os bravos e os aplausos começaram quando Plácido Domingo foi visto caminhando rapidamente no palco antes de uma apresentação no Festival de Música na cidade. Foi uma ovação de pé que durou bem mais de um minuto. Aquela seria a primeira apresentação de Domingo desde que surgiram acusações de assédio sexual contra ele. A plateia aplaudiu todos os grandes momentos da ópera. Ele teve que pedir para parar a ovação de pé na última parte para que outros artistas também fossem homenageados.

O imponente Grosses Festspielhaus, a Grande Sala de Concertos do Festival, estava lotado naquela arde de trovoada. Havia gente junto às portas com placas pedindo para comprar ingressos para a apresentação esgotada. Era uma das óperas menos conhecidas de Verdi, Luisa Miller, que seria regida por Domingo. No saguão, havia o que parecia ser um pequeno santuário para Domingo — uma banca de venda de CDs e vídeos, junto com fotos de imprensa e de produções recentes. Em outros lugares do balcão, havia todos os Esa-Pekka Salonens ou Anna Netrebkos que você poderia desejar, mas todos pareciam querer Domingo.

Ao final de Luisa Miller, a ovação durou 15 minutos!!! Quaisquer que sejam os resultados da investigações em Los Angeles, Domingo poderá seguir cantando e regendo na Europa. E… Cada vez mais os europeus acham que os norte-americanos são um bando de idiotas, isso estava claro na atitude e na indignação das pessoas.

Esta foi a primeira aparição pública de Domingo desde que a AP informou que oito cantores e um dançarino acusaram Domingo de avanços sexuais indesejados. As acusações foram todas anônimas e ainda não comprovadas. A Ópera de Los Angeles, onde Domingo é diretor geral, iniciou uma investigação.

Isso ainda vai longe.

Com o Los Angeles Times, Norman Lebrecht e outros.