Bom dia, Roberto Melo

Bom dia, Roberto Melo

Eu não vou escrever sobre Ricardo Cobalchini — o menino que pegou este rabo de foguete — mas sobre nosso diretor de futebol Roberto Melo, futuro presidente do Internacional, pois é o nome da situação. E vou escrever rapidamente, porque ele não merece mais do que algumas linhas.

Ele, que apenas come da mão de Fernando Carvalho, escolherá o quarto treinador titular em três temporadas. Ele é o cara que deu aval ao modelo de Odair. Modelo retranqueiro, que empilha loucamente volantes, sem usar a base e sem visão de longo prazo.

Em 3 anos, Melo contratou (gastou em) 9 volantes, 6 zagueiros, 5 laterais e 14 atacantes (sendo que o time utiliza 1) e, pasme, apenas 2 armadores, sendo que só Camilo tinha características próximas de D’Ale. Resultado: nosso ataque não existe, como revimos ontem. Do que necessitamos? Ora de, armadores. Mas Melo e FC não gostam, preferem volantes que saiam para o jogo…

O gol do Vasco começou numa falha do último volante contratado, Bruno Silva.

Além disso, já entramos em férias em 18 de setembro, após perder a final da Copa do Brasil para o Athletico-PR. Acho que, como estamos em férias e como Patrick e D’Alessandro receberam o terceiro cartão amarelo, podíamos apostar em Sarrafiore e Neilton para começar o jogo contra o Bahia, não? Teste por teste… Mas não, vamos achar no grupo um volante para tentar segurar o jogo.

.oOo.

Alexandre Perin escreve e assino embaixo:

Sobre a questão do novo treinador do Inter.

Gente, é óbvio que o Eduardo Coudet está 100% garantido para 2020. É óbvio que ele está contratado.

A prova disso é que ninguém, nem na imprensa, tampouco nas comunicações oficiais no clube, discute mais isso. Nada. Não há mais sequer especulação.

O foco agora mudou para se continuará o interino, tão borrado quanto o antecessor, ou o um novo treinador temporário será escolhido.

Até mesmo essa Diretoria virgem, de um presidente omisso e um vice de futebol absolutamente incompetente (tal qual sempre falei) , não seriam tão BURROS de deixar uma especulação gigante acontecer sem simplesmente cortar o papo pela raiz, gerando uma expectativa que simplesmente jogaria contra eles.

Nem o Medeiros, nem o Melo (que foram “hackeados” e perderam as contas de Twitter após o vexame na final), a despeito das inúmeras decisões erradas, deixariam assim.

Nem mesmo eles estariam perdendo a chance de levar um baita treinador desempregado, caso do Ariel Holan, se não houvesse essa garantia. Nem eles.

Eles sabem que o projeto de poder deles depende muito de 2020.a manutenção desse grupo no comando do clube por 20 anos é responsabilidade das decisões deles até dezembro.

O Inter tem dono.
O Inter serve para um único objetivo.
Este dono continuar no poder.

Futebol e sucesso são detalhes na franquia Sport Club Internacional Ltda.

Roberto Melo, futuro presidente do Internacional

Boas frases que li após o jogo de ontem, Avaí 0 x 2 Inter

Boas frases que li após o jogo de ontem, Avaí 0 x 2 Inter

Dimitri Barcellos tem razão:

Vocês vão ficar esperando o Sarrafiore armador, camisa 10, substituto do D’Alessandro, até morrer. É um finalizador nato. Jogador pra trabalhar no terço final de campo.

MAFS também tem razão.

Ontem escutei a coletiva do nosso interino (Ricardo Cobalchini). Até pode conhecer futebol, mas não tem condições de permanecer no cargo. Muito cru, inexperiente, na primeira derrota será massacrado na coletiva. Independente do treinador de 2020, precisamos de um treinador até o final do ano. Lisca já devia ter sido contratado.

Douglas Ceconello escreveu:

O Sport Club Internacional foi fundado com o objetivo de enlouquecer as pessoas.

O Anti Influencer disse, com toda a razão:

Se o Inter efetivar a compra do Parede, com essa bola cagada que joga, é motivo pra denúncia no MP e investigação do Conselho. Tem coisa estranha, tem que investigar familiares, empresários e amigos. 4 milhões pelo Parede? Estão de brincadeira. Os adoradores do Parede odeiam o Sarrafiore.

Alexandre Perin calculou:

Parede tem 1700 minutos. 3 gols. Sarrafiore tem 1000 minutos. 6 gols.

O Anti Influencer volta a dar porrada:

Sarrafiore é SEGUNDO ATACANTE. Tem que jogar mais a frente, ao lado do CENTROAVANTE. Qualquer outra função dentro de campo é PODAR as melhores características do Sarrafiore.

E o Perin fecha com raro brilho:

— Não temos ninguém na base.

— O insira_um_nome_de_time_aqui usa a base porque tem jogador bom, o Inter não.

— Time encaixado como Grêmio tu coloca jogador da base, no Inter não dá.

–Torcida do Inter queima jogador da base.

Um dia vocês talvez entendam que jogador da base ruim não se cria, jogador da base bom se cria, independente do contexto. Tem jogador da base que subiu no time campeão mundial e afundou. Tem jogador da base que surgiu no time quase rebaixado de 2002 e virou ídolo no clube.

Com vocês, Heitor e Bruno Fuchs.

Heitor e Bruno Fuchs são ninguém da base

9 Histórias, de J. D. Salinger

9 Histórias, de J. D. Salinger

Há umas quatro décadas, literalmente, li este livro na versão Nove Estórias, da Editora do Autor. Tinha uma bonita lembrança dele, principalmente do conto Um dia perfeito para peixes-banana.

A estreia de J. D. Salinger na literatura ocorreu com o clássico O Apanhador no Campo de Centeio em 1951. 9 Histórias, que li agora na nova e bela tradução de Caetano Galindo para a Todavia, foi seu segundo livro, publicado em 1953. Sete dos nove contos haviam sido antes publicados na revista The New Yorker e eles guardam alguns pontos de contato com o romance de estreia ao retratar uma boa galeria de jovens entre o inteligente e o desajustado. Trata-se de uma reunião de contos não planejada para formar um livro, mas o todo funciona muito bem ao apresentar uma corrente comum de bem humorado descontentamento.

Eu cultivo uma mania quando leio livros de contos. Costumo atribuir-lhes notas de 0 a 5. 9 Histórias alcançou a média de 4 e não lembro de outro que recentemente tenha chegado a tanto. Adorei o livro, claro.

Cada uma das histórias é um relato impreciso sobre a maneira de como os personagens se movem no mundo e interagem entre si. São basicamente diálogos e ligações telefônicas onde são articulados sentimentos e posturas. Não há divagações do autor e muito menos longas descrições. Os personagens de Salinger têm enorme capacidade para desencadearem bons diálogos. Isso geralmente toma a forma de uma criança em conversa com um adulto recém-encontrado, como Sybil e Seymour nos Peixes-banana, Esmé e o Sargento X em Para Esmé, com amor e sordidez, Teddy e Nicholson em Teddy. Os adultos costumam ser bem mais chatos, mas se surpreendem com a sabedoria despretensiosa dos mais jovens. Mas jamais podemos esquecer do sensacional diálogo adulto entre os “amigos” de Linda a boca, e verdes meus olhos

Em algumas histórias, como em O Gargalhada e em partes dos Peixes-banana e em Lá no bote, a narrativa é angulada em perspectiva oblíqua — o personagem principal está sendo descrito por outros através dos quais o leitor o vê. Mais: em todas as histórias, independentemente da perspectiva, a narrativa é cercada por fatos de significado dúbio. Nada é gritado de forma deselegante. Tudo é sugerido ou parece enfiado ali casualmente. No entanto, o leitor atento que consegue sintonizar com a frequência peculiar de Salinger, verá o que é fundamental — a inocência, o arrependimento, a esperança, a saudade, o amor e a loucura.

Isto é, 9 Histórias tem histórias simples com um leque de significados que vão variar conforme a experiência do leitor. Li o livro há muitos anos e esta leitura de agora foi muito diferente, talvez mais rica. Cada conto é digno de ser lido, relido e trêslido. Há neles sutis menções a uma crescente cultura do ego e a uma imensa e gloriosa sugestão de que falta algo no mundo de todos nós.

Um grande livro.

Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Certas pessoas — de direita e da esquerda — encararam Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles como uma advertência ao governo Bolsonaro. Santa patetice! Os cineastas começaram o projeto do filme em 2009 e não têm culpa se a realidade brasileira de hoje se aproxima tanto de uma distopia. É claro que no filme fala do país de hoje como nenhum outro. E que é um filme que prega a resistência à opressão, por meio de uma trama com um pé no fantástico e outro no realismo.

Trata-se de um belo filme que permite muitas abordagens. Muitas mesmo. De um modo superficial, podemos dizer que o filme tem a estrutura típica dos westerns, com os malvados vencendo e vencendo até uma reviravolta surpreendente. Neste neofaroeste, os malvados são um grupo de psicopatas entediados norte-americanos, todos tarados por armas. Na verdade, são gamers que recebem pontos em um jogo ao cercarem a pequenérrima Bacurau. Sua forma de agir tem muito em comum com a gurizada de Violência Gratuita, filme do austríaco Michael Haneke, que também disse que usou os norte-americanos como modelo — isso num período pré-Trump e pré-babação de ovo bolsonarista.

O filme também é descrito por alguns como uma distopia. Mas isso é só por situar-se num futuro próximo, pois toda a tecnologia aplicada pelo invasor está aí, prontinha para ser usada. Só falta a disposição e um prefeito.

A ideia de Bacurau é a defesa contra o invasor e a negação das armas e arminhas. Isso une a todos, até o ladrão da cidade. O invasor cria a dimensão de povo e da reação. Toda arte tem dimensão política, mas o filme de Kléber e Juliano não é só política e também não é simplesmente a luta do bem contra o mal, ele vai fundo nas motivações psicológicas, tanto que o chefe do grupo invasor alveja e mata de graça alguns de seus companheiros por pura sede de sangue. Ele simplesmente odeia e isso basta.

Em Bacurau, só há dois caminhos possíveis: resistir e lutar ou morrer. No final do filme, somos avisados que o projeto gerou mais de 800 empregos, movendo a indústria nacional. Isso serve de aviso àqueles que não enxergam o empenho nem o valor (cultural e econômico) do cinema nacional.

E que cena linda a do velho homem nu que deflagra a reação!

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Ah, o filme foi visto na renovada Sala Eduardo Hirtz da CCMQ. Olha, a sala está um show.

Os feios e as belas

As mulheres bonitas que são possíveis aos feios são as inteligentes e apenas elas. Acompanhem o raciocínio tendo em mente que nós, em nossa profunda modéstia, sabemos que para burros não servimos. Uma bela mulher, mas para quem as luzes da inteligência brilham pouco ou ficam no pisca-pisca, vai buscar seu Adônis e, portanto, nos excluirá automaticamente. Nunca a convenceremos, na conversa, da flor de pessoa que efetivamente somos: dedicados, meigos, cultos, amorosos, solidários, bons de papo, etc. Já as inteligentes, podemos lentamente convencer ou subitamente surpreender com uma frase que fará com que elas voltem rapidamente a cabeça, lançando a fragrância de seus cabelos em nosso colo.

Como vais, Ricardo Cobalchini?

Como vais, Ricardo Cobalchini?

Antes do jogo, soubemos que o Sub-23 do Inter, sem seu técnico Ricardo Cobalchini, tinha vencido o Gre-Nal decisivo do Brasileiro de Aspirantes. Nada mal, já que os comentaristas diziam que a gente levaria um ARRODIÃO do Grêmio. Afinal alguém profissional é campeão no Beira-Rio! Foi outra grande atuação do goleiro Keiller e, pô, aquele pênalti que não foi marcado a nossa favor…

Explicar Guilherme Parede é mais complicado do que entender Física Quântica | Foto: Ricardo Duarte

Mas o que interessa é Inter x Santos no Beira-Rio. O Inter foi escalado por Ricardo Cobalchini com Heitor na lateral direita (tínhamos um lateral direito na base e gastaram um monte com pernas de pau), Roberto na zaga e Zeca na lateral esquerda. D’Alessandro voltava a começar uma partida depois da lesão. Ao menos o interino não foi doido de escalar Klaus e Uendel. Mas escalou Parede, deixando Neílton e Sarrafiore na reserva. Ou seja, Cobalchini também não é tão normal assim.

No primeiro tempo, nada de armação de jogadas e nenhum chute a gol. Uma vergonha digna do ex-técnico, em realidade o culpado por isso.

No final do primeiro tempo, perdemos uma substituição, pois Lindoso sentiu algum problema físico e entrou Bruno Silva, que jogou bem.

Como Patrick estava horroroso, havia dois grandes problemas em campo e duas substituições possíveis: Parede, totalmente inoperante e até errando em bola e Patrick, naqueles dias de errar ABSOLUTAMENTE tudo.

(Eu gostaria de saber o que acontece no Departamento Médico do Inter, com o perdão da expressão: Dourado foi operado… E reoperado. Matheus Galdezani sofreu uma grave lesão em janeiro e nunca mais. Acho que será operado novamente qualquer dia desses. E Nonato está sendo “tratado”. Medo.)

Fazia muito tempo que o Inter não voltava melhor no segundo tempo, muito tempo. Pressionamos, chutamos, criamos, marcamos dois gols, ambos anulados pelo VAR. Só que a bola não entrou em jogada válida. Acabou sendo um 0 x 0 digno, num jogo que poderíamos ter vencido.

Na próxima rodada, a 26ª, o Inter visita o Avaí, em Florianópolis. O jogo será às 19h15 de quinta-feira (17/10).

Com o empate e sem vencer os últimos cinco jogos, saímos fora do G-6. O Grêmio nos passou. Com o que estamos jogando, vai ser difícil voltar à zona da Libertadores. Na sétima posição, temos 39 pontos contra 41 do Grêmio (6º) e 43 de São Paulo e Corinthians, quinto e quarto colocados. Para nós, G-4 já é uma quimera.

Como escreveu o amigo Jerônimo Santanna, quem perde para Goiás com um a mais, quem perde para o pândego CSA e ainda tem Parede como titular no ataque, não pode querer vaga em Libertadores. Futebol também tem lógica.

Sobre o novo técnico: depois de Aguirre — técnico bem mais ou menos, mas que conhecia seu ofício — tivemos Argel, Falcão, Celso Roth, Lisca, Zago, Guto e Odair. Uma lista apavorante. E digo-lhes: nenhum treinador inteligente vai pegar o Inter, com o histórico que tem, em final de temporada, sem um contrato longo. Meus nomes são Roger Machado, Thiago Nunes, Heinze, Coudet e Holan.

Atrás do balcão da Bamboletras (XV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XV)

— Eu preciso de um romance bom, que prenda, que faça a gente grudar, entende?

— Olha, temos vários.

E lhe apresento alguns: O homem que amava os cachorros, A vegetariana, os Knausgård, os da Isabela Figueiredo, um monte de outros e ela tinha lido todos, pô. Para tudo o que eu oferecia ela respondia já li.

— Leste as Estações Havana do Padura, claro.

— Não, não li.

Ufa. Mostro pra ela os 4 volumes, mas ela nem olha direito, apenas pega o telefone.

— Oi, miga. Já leste as Estações do Padura? Sim? E tens?

Depois de ouvir a resposta, ela se volta pra mim e diz:

— Não quero. Minha amiga tem. Eu e ela trocamos livros para poder ler mais. Ela compra e me empresta, eu compro e faço o mesmo. E ela tem esses quatro. E só lemos coisa boa.

Então tento algo fora das trilhas habituais. Era o caminho, claro.

— Leste Lucky Jim?

— Não.

— É sensacional. Pergunta pra tua amiga se ela leu Lucky Jim. Liga aí.

Ela obedece.

E leva o livro de Amis.

Ufa!

Três sugestões imperdíveis e mais

Temos 3 ótimas sugestões de livros e 3 sessões de autógrafos esta semana na Bamboletras. Vamos primeiramente aos autógrafos:

— Quinta-feira (10), às 19h, Ricardo Almeida lançará seu novo livro, A Consistência do Verbo.

— Sexta-feira (11), às 19h, teremos o lançamento e sessão de autógrafos de A Patologia Coletiva, de Alexandre Appio.

— Sábado (12), às 16h, Jorge Hugo (Jottagá) Souza Gomes assinará Plinc, o livro e Plinc, a música, livro e CD. E haverá show!

E agora, nossas 3 sugestões de livros.

O homem que odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior (237 págs, R$ 39,90): Um livro divertidíssimo que narra a história fictícia de Pedro Junqueira, um filho mimado de um grande produtor de café, que vem a perder a mãe ainda criança e é obrigado pelo pai a morar com a tia na fazenda no Morro do Livramento, onde é obrigado a conviver com o mulato Joaquim, de mesma idade, protegido de sua tia. Logo a animosidade se instala entre os dois, fato que traria consequências por toda a vida dos dois garotos, influenciando diretamente as principais obras do considerado o maior nome da literatura no Brasil.

O homem infelizmente tem que acabar, de Clara Corleone (248 págs, R$ 44,00): Com textos francos, debochados, bem-humorados e linguagem despretensiosa, Clara Corleone narra criticamente as aventuras da vida de solteira a partir de uma ótica feminista. O livro aborda empoderamento feminino, relações amorosas e uma atribulada rotina de trabalho dividida entre a ONGs, um estpudio de produção de desenhos animados e a atuação como hostess de um bar durante os finais de semana. Prepare-se também para rir bastante.

Escravidão — Volume I, de Laurentino Gomes (479 págs, R$ 49,90): Depois de receber diversos prêmios e de vender mais de 2,5 milhões de exemplares no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos com a série 1808, 1822 e 1889, o escritor Laurentino Gomes dedica-se a uma nova trilogia de livros-reportagem, desta vez sobre a história da escravidão no Brasil. Resultado de seis anos de pesquisas e observações, que incluíram viagens por doze países e três continentes, este primeiro volume cobre um período de 250 anos, do primeiro leilão de cativos africanos registrado em Portugal, na manhã de 8 de agosto de 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares.

Bom dia e adeus, Odair Hellmann

Bom dia e adeus, Odair Hellmann

Acontece uma coisa curiosa na minha relação com o Inter. Às vezes, tenho que largar o clube de mão para não me irritar. Em certo momento de 2016, bem cedo, pois o Inter ainda estava entre os líderes, decidi que não iria ao Beira-Rio enquanto Argel fosse técnico. Não compareci a mais de dez jogos no Beira-Rio, mas vi tudo em bares, pois é menos impactante ver a incompetência pela TV. O resultado todos sabem, fomos para a segunda divisão.

E, nossa, Argel demorou a sair. Então veio Celso Roth e eu segui não comparecendo. Não vi nenhum jogo comandado por ele, tal a certeza que tinha de sua inutilidade. O resultado todos sabem, fomos para a segunda divisão.

Desta vez, minha atitude mudou. Odair é (ou era) tão repetitivo que larguei-o logo depois do jogo contra o Athlético-PR, mas de outro jeito. Deixei de ir ao estádio e também não vi os jogos pela TV e fiquei só na Rádio Guaíba.

Odair não altera nada, só se repete. Ele defende os mais velhos do grupo, ignorando a base e os jovens. Insiste tolamente em soluções que não dão resultado (Pottker, Uendel, Parede, Klaus, para dar alguns exemplos recentes), ele irrita uma torcida que não pode ser mais paciente do que é. Somos uns bovinos em comparação com a gloriosa época do Portão 8. E, na TV, vemos gente de menos de 20 anos jogar no Real Madrid, Liverpool, Barcelona, PSG, GRÊMIO, etc.

Ontem, Uendel cometeu o pênalti que deu a vitoria ao CSA | Foto: Ricardo Duarte

(E o que dizer de Trellez, Nathanael, Rithely, Bruno Silva… Parede vai ser contratado mesmo? Ele é horrível e está sempre impedido!).

Odair formou um time que só sabe se defender e marcar. Mas até isso fica prejudicado quando não há criação. Tudo vai se degradando, até porque um time sem a bola corre mais… Odair não treina o ataque, a sincronia, as cobranças de faltas, os escanteios. Acabamos impotentes em campo. Quantas vezes fizemos três gols num jogo com Odair? Creio que há estatísticas que mostram que JAMAIS fizemos 4 gols com ele na casamata. Nem no Gauchão.

O Inter perdeu o rumo. A base está às traças — ESTOU BEM INFORMADO. Os guris bons vão para o Grêmio, que os aproveita. Ontem, quando ouvi que o jovem zagueiro Roberto fora preservado para o Campeonato de Aspirantes… Meu deus, o que é isso? E nosso preparo físico? O que é aquilo? Mas acho que pro Z-4 não vamos. Não dá mais tempo e há candidatos imbatíveis como… o CSA.

Perdemos 2019 com posturas das quais reclamamos há meses.

O novo técnico? É claro que prefiro Roger Machado, Tiago Nunes, Coudet (Racing) ou Heinze (Velez). Mas acho que vamos acabar com Lisca, Jair Ventura, Clemer ou Cuca.

Ser técnico é escolher os melhores e ter bons auxiliares. Hoje, é quase uma atividade social. Decide a estratégia e manda treinar, escala e dá entrevistas. Não se deram conta ainda.

A gestão de Melo na direção de futebol teria que ser revista, mas ele é o melhor amigo do presidente Medeiros. Jamais sairá.

P.S.: A última informação é a de que jogadores do Inter não querem a demissão de Odair Hellmann. Isto comprova o que escrevo há alguns meses: o vestiário colorado é uma bagunça. A exposição do fato vai, de certa forma, mostrar que tipo de comando se tem na principal pasta do clube.

Atrás do balcão da Bamboletras (XIV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XIV)

Ainda agora, agorinha, chega uma senhora de uns 75 anos, 1,50m, me encara e larga:

— Sábado que vem, o Sr. sabe o que estamos comemorando?
— Sim, o Dia da Criança.
— Coisa inventada, bobagem!

Volta e me encarar:
— E o que mais?
— Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil.
— Uma porcaria como as outras santas e santos. Coisa inventada!

Crava os olhos em mim novamente:
— E o que mais?
— É o dia em que Cristóvão Colombo chegou à América em 1492.
— Sim. E por que não comemoramos este fato que é cantado em prosa e verso desde o Canadá até o Chile e Argentina?
— Porque somos uns idiotas? — arrisco.
— Ainda bem que o Sr. sabe.

Olha indignada para os lados e bufa:
— Nossa Senhora de Aparecida….Pfff… Vou levar estes livros. Soma aí.

Foto de Liane Neves

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O resultado da mobilização da esquerda na eleição dos Conselhos Tutelares

O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam.
ARNOLD TOYNBEE

A famosa frase de Toynbee não vale para o Brasil. Há 40 anos que digo: aqui, quem não se interessa por política manda no país. Por quê? Porque temos esta excrescência chamada ‘voto obrigatório’, que traz para as eleições gente que passa 4 anos babando. E eles elegem seus representantes…

Sem obrigatoriedade, os grupos de esquerda se mobilizaram em Porto Alegre e levaram a metade dos conselheiros tutelares. Toma! Em São Paulo foi a mesma coisa.

Seguindo a lista que compartilhamos:
MICRORREGIÃO 1- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 2- eleitos 5 dos indicados;
MICRORREGIÃO 3- eleitos 3 dos indicados;
MICRORREGIÃO 4 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 5 – 2 na suplência;
MICRORREGIÃO 6 – 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 7 – 1 eleito;
MICRORREGIÃO 8 – 5 eleitos;
MICRORREGIÃO 9 – 1 eleito e 1 na suplência;
MICRORREGIÃO 1O – 2 eleitos e 2 suplentes.

Carta de Fernanda Torres para os 90 anos de sua mãe Fernanda Montenegro

Carta de Fernanda Torres para os 90 anos de sua mãe Fernanda Montenegro

Publicado pela Folha de São Paulo em 6 de outubro de 2019

Mãe.

Espanta em seu livro a lucidez afiada de uma mulher de quase um século.

Minha mãe, no dia 16 você completa 90 anos.

O seu pai, seu Vitorino, quando chegou à sua idade, deu de apostar uma corrida contra o tempo. “Vou aos cem!”, ele dizia, já surdo, batucando uma música imaginária com os dedos, que era incapaz de escutar.

A paralisia infantil o deixou manco de uma perna, mas ele inventou um jeito próprio de caminhar, acompanhado de um larí, larí… que transformava a passada coxa num trejeito de Chaplin.

Vitorino tinha certeza de que morreria aos 33 anos, idade em que Cristo foi posto na cruz. Não morreu, e eu pude conviver com a sensibilidade de artesão, que você tem dele, com as bochechas que todas nós herdamos e com a delicadeza que nenhuma das mulheres da família tem.

Fernando Torres também era um homem doce. Torturado e doce. Bebia, mas nunca nos ofendeu ou te impediu de ser quem era.

Já o burocrata que te chamou de sórdida, ex-cocainômano que agredia mulher e filho, e diz ter sido curado de um tumor pela graça divina, já esse, pode bem ter se livrado do mal físico. Mas faltou, ao Deus que ele cultua, dar cabo da agressividade e da misoginia do cordeiro grosso.

Estranhos homens esses, que batem e xingam em nome de Deus.

Quando você completou 70 anos, me disse que havia cumprido o ciclo furioso de peças, novelas e filmes. Não havia nada mais a esperar da vida. Quatro meses depois, foi indicada ao Oscar de melhor atriz, por “Central do Brasil”.

Trabalhar sempre foi a sua sina. Sua alegria, sua mania, seu destino e sua sina.

Agora, com a autobiografia, o que seria um ponto final tornou-se farol, uma luz de integridade em meio ao obscurantismo carola dos adoradores de fuzis.

Eu cresci te vendo beijar outros homens em cena como beijava o meu pai. Isso nunca corrompeu a solidez da nossa família. Mas o prefeito do Rio de Janeiro, tão beato quanto ausente, mandou recolher, na Bienal do Livro, os exemplares de uma história em quadrinhos com um beijo gay.

Num país que mata crianças e nega educação, saúde e saneamento às famílias dessas crianças, tratar um beijo como ameaça é sinal não só de oportunismo político, como também de pequenez moral.

O episódio inspirou sua foto de bruxa diante da fogueira de livros. Sórdida, exclamou o burocrata convertido. A injúria, no entanto, detonou uma onda de respeito e admiração à sua figura. Resposta outra, que não a agressão no mesmo nível, sempre baixo. A solidariedade como antídoto para inocular os Savonarolas.

Teu livro é o testemunho de uma autodidata, neta de imigrantes e filha de um operário com uma dona de casa que, por meio da prática obstinada de um ofício, sobreviveu aos inúmeros reveses sociais e políticos que, volta e meia e sempre, acometem o Brasil.

A morte de Getúlio, a renúncia de Jânio, o AI-5, a campanha frustrada das Diretas-Já, o confisco de Collor, a coalizão corrompida da social-democracia e a ascensão da teocracia armada, os tombos e levantes que nos condenam a começar do zero “ad aeternum”, filtrados pelos olhos de uma Sísifo mambembe.

Quem sabe, quando eu fizer 70 e você passar dos cem, teremos vencido o horror de agora? Horror que promete deixar o legado de um país sem Rádio MEC, sem TBC ou Oficina, sem cinema novo nem velho, sem MPB e rock, sem Arena e sem Asdrúbal, sem Dulcina, Bibi, Dercy e Cacilda, sem Antunes e Nelson.

Terra arrasada. Esse é o horizonte. Sigamos.

O partidarismo, à esquerda e à direita, nunca foi o seu norte. Avessa a dogmatismos, você fez do drama existencial da comédia humana a sua matéria. Penso que foi isso o que te fez uma mulher do presente, não importa a época.

Comemoraremos os seus 90 com uma missa no lugar em que celebramos, todos os anos, a partida do papai. Apesar da profunda devoção cristã, você jamais nos impôs a sua fé. Você jamais nos impôs crença, diploma, sucesso, nada. Você ensinou os seus filhos a serem, na medida do possível, livres.

No fundo, há uma ilustração da Fernanda Montenegro. Na frente, várias pessoas aplaudindo e vibrando diante da atriz. Flores estilizadas estão em torno de toda a cena

Nas suas memórias, você narra o último delírio teatral do Fernando, com ele já doente, querendo ensaiar a peça “É…”, de Millôr Fernandes. Na mesa da sala de jantar, você se dispõe a ler com ele, até que meu pai se cala, ao perceber que não há elenco presente.

A cena é puro Beckett e lembra o final de “Seria Cômico se Não Fosse Sério”, em que você, Alice, cuidava dele, do marido, Edgar, vítima de um derrame. Vida e arte sempre se confundiram na nossa casa.

Chorei muito com o seu relato. Espanta, nele, a lucidez afiada de uma mulher de quase um século.

Feliz aniversário, minha mãe. Que o Brasil, tão trágico, bruto e desesperado entenda, com gente como você, o quanto a arte e a criação podem fomentar amor, progresso e civilização.

Evoé, novos artistas.”

Fernanda Torres
Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.

Pelé, Messi, Maradona, Cruyff e Di Stefano: o futuro não dirá quem foi o melhor

Pelé, Messi, Maradona, Cruyff e Di Stefano: o futuro não dirá quem foi o melhor

Os brasileiros amam imaginar que Pelé tinha características e dotes sobre-humanos. O próprio Pelé também. Já que não temos Prêmio Nobel, nem governo ou educação, ufanemo-nos do Rei! Um brasileiro publicou no Twitter um vídeo que dizia comprovar em dois minutos que Pelé tinha sido melhor que Messi e Maradona. O filme era tão ruim que provava o contrário. A gente só chegava à conclusão de que Pelé adorava dar canetas.

Pelé é de um tempo em que os clubes excursionavam por meses. O calendário era ultra camarada. Imaginem que até 1971, quando ele já tinha 31 anos, não havia um Campeonato Brasileiro, apenas Copas eliminatórias e o Paulistão. Mas todos queriam vê-lo e o Santos de Pelé jogava uma vez a cada dois dias em excursões no Brasil e na Europa e uma vez por dia na África, muitas vezes contra times semi-profissionais. Só isso explica fazer 1200 gols.

Sem dúvida, foi disparado o melhor jogador de sua época — uma época em que Garrincha bebia pesado e destruía adversários horas depois — mas é tolice compará-lo com Messi, Maradona e até mesmo Cruyff. Não dá para saber quem foi o melhor ou o mais revolucionário. O futebol mudou rapidamente depois de Pelé, um bom tanto por causa dele.

Para comparar, teríamos que levar Messi até a violência dos anos 60. Para comparar, teríamos que trazer Pelé até nossos zagueiros que também têm velocidade e usam o corpo. Isso é impossível, claro. Mas neste caso, eu apostaria que Maradona sobreviveria melhor. E que Alfredo Di Stefano estaria muito bem na disputa…

Mas uma coisa eu tenho certeza: Cruyff foi o mais influente.

E, se eu tivesse que escolher, nas divisões inferiores de um clube, apenas um jogador com as características desses 5, certamente escolheria um novo Messi, o gênio mais recente, muito mais adaptado às necessidades atuais de nosso futebol.

Di Stefano, Pelé, Messi, Maradona e Cruyff.

 

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVII – Dom Casmurro, de Machado de Assis

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVII – Dom Casmurro, de Machado de Assis

Sim, aos poucos estou relendo Machado. E me surpreendendo, pois li Dom Casmurro na adolescência e tinha a memória de um bom livro, mas não a clara noção da autêntica obra-prima que é. Publicado em 1899, o Casmurro é o terceiro da série de 5 grandes romances finais de Machado. Os anteriores são Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891) e os seguintes são Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). (De entremeio, também temos o desconhecido Casa Velha, de 1885). A história é contada na primeira pessoa por Bentinho. Ele é o célebre narrador não confiável, ainda mais que relata, no tom de uma longa conversa com leitor, um drama: a dupla traição que teria sofrido por parte de sua mulher, Capitu (Capitolina) e de seu melhor amigo, Escobar.

O romance começa numa situação posterior a todos os acontecimentos. Bentinho (Bento Santiago), já velho, conta ao leitor como recebeu o apelido de Dom Casmurro. A expressão fora inventada por um jovem poeta, que tentara ler para ele no trem alguns de seus versos. Como Bentinho cochilara durante a leitura, o rapaz ficou chateado e começou a chamá-lo daquela forma.

O narrador começa então a rememorar sua existência, o que ele chama de “atar as duas pontas da vida”. O leitor é apresentado à infância de Bentinho, quando ele vivia com a família num casarão da rua de Matacavalos.

Bentinho mora com a mãe amorosa, Dona Glória, o tio Cosme, a mal-humorada prima Justina e o agregado José Dias, um esplêndido modelo de chato. É uma família bem brasileira, destas que geram filhos mimados. Sua vida pode ser dividida em três fases: Bentinho, Dr. Bento Fernandes Santiago e Dom Casmurro.

Bentinho é o menino tímido e sem iniciativa que provavelmente acabará num seminário e depois padre — pois era uma promessa de D. Glória tornar seu filho padre. Mas há uma vizinha, uma vizinha de quintal, um dos maiores personagens da literatura brasileira, Capitu. Quando a ação começa, ela tem 14 anos e ele 15.

Capitu era Capitu, isto é, uma criatura muito particular, mais mulher do que eu era homem.

Os dois se apaixonam, prometem que vão se casar um com o outro haja o que houver, só que a família de Bentinho quer vê-lo padre. Capitu e Bentinho vão crescendo e não são mais aquelas duas crianças que brincavam no quintal, a coisa esquenta e eles passam aos beijos e carícias… As brincadeiras e a rotina dos quintais passam da infância para o erótico, sempre puxadas por Capitu.

— Sou homem!

Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminário, mas como se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extinto; todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangue era da mesma opinião. Outra vez senti os beiços de Capitu.

Capitu é linda. Bentinho também arranca suspiros, mas só tem olhos para ela, que, por sinal, puxa-o com os belos olhos e o engole.

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

Ele vai para o seminário, o que se torna uma tortura. Bentinho gosta de mulheres. Certa vez, no caminho para o seminário, vê uma muito bonita cair na rua e…

No seminário, a primeira hora foi insuportável. As batinas traziam ar de saias, e lembravam-me a queda da senhora. Já não era uma só que eu via cair; todas as que eu encontrara na rua mostravam-me agora de relance as ligas azuis. De noite, sonhei com elas. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim, tique-taque… Eram belas, umas finas, outras grossas, todas ágeis como o diabo. Acordei, busquei afugentá-las com esconjuros e outros métodos, mas tão depressa dormi como tornaram, e, com as mãos presas em volta de mim, faziam um vasto círculo de saias, ou, trepadas no ar, choviam pés e pernas sobre a minha cabeça.

Ele consegue livrar-se do seminário e casa com Capitu. E então começa uma certa estranheza que apenas aumenta.

A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que o ar de impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também.

E depois eu deixo para você descobrir o que e como acontece.

Mais detalhes, sem spoilers decisivos. No seminário, ele tinha conhecido Escobar, de quem se tornou inseparável. Eles tinham tudo em comum, inclusive o plano de sair de lá e não como padres. Escobar casa-se com Sancha, uma amiga de Capitu. Logo têm uma filha que recebe o nome de Capitolina… Depois de alguns anos e após penosas tentativas, Capitu finalmente tem um filho, e o casal pôde retribuir a homenagem que Escobar e Sancha lhes haviam prestado: o filho é batizado com o nome de Ezequiel, como Escobar.

Só que Ezequiel vai ficando cada vez mais parecido com Escobar… E Bentinho desconfia. A temática do ciúme, abordada com brilhantismo nesse livro, provoca polêmicas em torno do caráter de uma das principais personagens femininas da literatura brasileira: Capitu.

Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à bênção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir  mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém.

Assim como o enorme afeto e amor entre Capitu e Bentinho, a história do adultério (?) é composta por poucas pinceladas. Tudo é meio vago. Machado foi um mestre absoluto e deixa enorme espaço para nossa imaginação. Ele não apenas conta a história sem grandes detalhes como deixa para nós discutirmos se houve a traição de Capitu. Mas Bentinho enxerga no filho a figura do amigo e fica convencido de que fora traído pela mulher.

Cada um acha uma coisa. Como mais ou menos escreve Hélio Guimarães no posfácio desta linda edição da Carambaia — pois escrevo de memória — o livro pode ser sobre um adultério (traiu!), sobre o ciúme masculino (não traiu!), ou ainda uma denúncia a respeito do violento comportamento dos homens detentores do poder e da narrativa (sem dúvida não traiu, seus misóginos!) ou ainda uma gloriosa afirmação e reivindicação do desejo (pfff, e daí se traiu?).

Carlos Drummond de Andrade dizia que ler Machado de Assis era uma tentação permanente, quase um vício a ser combatido. Perguntem a um drogado (ou ex) quão fácil é livrar-se de um vício.

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908)

Eu, estudando… O Diabo em O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Eu, estudando… O Diabo em O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

A figura do demônio ganhou força na Idade Média e, desde então, é um grande sucesso. As mais variadas religiões jamais tiveram pudor de invocá-lo. Até hoje, nossos queridos bispos evangélicos gritam que algumas saias e posturas são coisas de Satanás. E faz tempo que é assim.

Em A Divina Comédia (1304), Dante Alighieri descreve os horrores que aguardam os pecadores no inferno. Em Paraíso Perdido (1667), John Milton narra a expulsão de Lúcifer do Paraíso. Na obra, um despeitado Lúcifer diz que é melhor ser rei no Inferno do que servir no Céu. A lenda alemã de Fausto inspirou o clássico de Goethe (1808 e 1832), que inova ao dar aparência humana ao demônio. Mefistófeles aparece cheio de seduções,  mentindo e propondo negócios. Em O Diabo Enamorado (1772), Jacques Cazotte faz com que o Demônio se apaixone por um jovem que o invocou, assumindo a figura de uma bela mulher. Em As Flores do Mal, Baudelaire também faz uso de Belzebu.

Já nos contos populares russos, as esferas Deus/Diabo — o Bem e o Mal — são interligadas, unidas. Assim, Baba-Iagá, a bruxa das florestas, a fiel ajudante do Diabo, ora faz maldades: rouba crianças, mata, envenena heróis, ora se transforma numa criatura bondosa: ajuda o herói, fornecendo-lhe a comida, o cavalo, a poção mágica, etc.

O Diabo tem vários nomes. Ele se transforma, se disfarça, aparece sob várias caras, máscaras. Em cada um deles há um pedacinho dele.

Seu séquito tem mais membros: a coruja, o gato, os defuntos, os vampiros, etc. Da mesma raça maléfica, são o lobo, os corvos, a cobra. Entretanto, todos eles, em algumas ocasiões, podem muito bem ajudar ao herói. Há mais seres que carregam o diabólico, o demoníaco (não esqueçamos que o diabólico e o divino estão unidos, sendo um o inverso do outro na concepção popular): os poetas, os músicos e outras “almas perdidas e pecadoras”, como os orgulhosos, os solitários, os rebeldes, os ateus, os ladrões, os bandidos, os vagabundos, os ciganos, os amantes… Isso explica a simpatia que o diabo de Bulgákov tem pelo Mestre — que é um bom escritor e que, além disso, escreveu um romance não só sobre os sofrimentos e a sabedoria de Jesus, como também sobre a fraqueza e os sofrimentos morais de Pôncio Pilatos. Isso explica também a simpatia que Woland tem por Margarida — uma adúltera, amante do Mestre. No folclore russo, o Diabo tem algumas características bem determinadas e estas mesmas características marcam o Diabo e seu séquito no romance de Bulgákov:

— olhos verdes, ou, então, um olho diferente do outro em cor: “ele aparentava ter bem uns quarenta anos. Boca ligeiramente torcida. Bem escanhoado. Trigueiro. O olho direito negro, o esquerdo — não se sabe por que — verde”;

— força — poderosa, orgulhosa de um “superhomem” demoníaco ou, então, uma força brincalhona, briguenta (o gato Behemot e Fagot/Korovin — os membros do séquito diabólico no romance de Bulgakov — são possuidores desta força brincalhona). Sim, em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korovin — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. O povo russo relaciona também a ventania, a nevasca, o incêndio — lembremos que foi justamente o incêndio que acabou com a casa de escritores e com o misterioso apartamento n.° 50 — com o Diabo;

— fogosidade, calor diabólico — na cor e na ação. O vermelho é a cor da paixão, do sangue, que estabelece a correspondência: fogo — calor — vermelho — passional — amoroso — diabólico. Outra cor diabólica é o preto, a cor da destruição. Os personagens diabólicos têm obrigatoriamente os cabelos pretos — ou o pelo preto, como o Gato, que era “negro como corvo, ou como fuligem” — ou, então, o cabelo vermelho, como Fagot, que tinha “cabelos ruivos brilhantes”;

— a marginalidade caracteriza os “filhos queridos” do Diabo. Este “marginal” pode ser uma espécie de um gênio, um poeta, um músico, mas pode também ser uma variante baixa: um ladrão, um bandido. Com a marginalidade o povo relaciona a solidão e a ausência de filhos. Margarida, há vários anos casada, não tem filhos, é uma pessoa solitária. Tudo isso a coloca naturalmente do lado do Diabo;

— o proibido é o Diabo, e a rebeldia também. O Diabo (Deus) está com Margarida, está com o Mestre, está com Ivan, no final do romance, quando este se recusa a escrever poesia encomendada;

— o Diabo é um mestre do jogo, da sedução, da representação teatral e da arte em geral. A própria palavra ‘arte’ — em russo ‘iskusstvo’ — vem do verbo ‘iskusit’, “seduzir”, “representar”. No folclore russo, o Diabo troca as máscaras e os papéis, e no romance de Bulgákov, ele também é um ator por excelência.

Eco do Fausto de Goethe, pelas reflexões filosóficas, o romance abre-se com esta epígrafe:

— Pois bem, quem és então?

— Sou uma parte desta força que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

Goethe, Fausto.

O Diabo aparece já nas primeiras páginas do romance e passa a desempenhar o papel substancial no texto. Mas, conhecendo o contexto histórico da União Soviética da época, quando o romance foi escrito, o leitor atento logo deixa de encarar o livro como “fantástico”, começa a sentir que “tem mais” e percebe que o papel desempenhado pela polícia secreta não é menos importante do que o papel desempenhado pelo próprio Diabo. Mas as atividades da polícia secreta são descritas por Bulgákov na linguagem de Esopo, que não revela por um instante a identidade dos agentes envolvidos. Bulgákov usa vários meios linguísticos para conseguir este “mascaramento”, cujo objetivo narrativo é fazer o leitor hesitar entre a explicação natural e a sobrenatural dos acontecimentos. Precisamente esta hesitação caracteriza o fantástico como o entende Todorov. O efeito produzido sobre o leitor é desorientador, chegando a ser grotesco.

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Texto parcialmente copiado do trabalho Quem é o Diabo?” de Elena Godoy. 

A Queda de Lúcifer, ilustração de Gustave Doré para ‘O Paraíso Perdido’

Adeus, Jessye

Adeus, Jessye

— De Richard Strauss (1864-1949)
— Das “Quatro Últimas Canções”
— Im Abendrot (Ao Crepúsculo)
— Jessye Norman (1945-2019), soprano
— Orchestre de la Suisse romande
— Wolfgang Sawallisch
— Gravado em 1979