Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Eu, estudando… O Mestre e Margarida, de Bulgákov (I)

Vou dividir este texto em vários capítulos, aproveitando coisas que já escrevi e escrevendo e pesquisando e copiando de outros, ladrão que sou. Apesar dos vários capítulos, este texto estará dividido em três grandes partes:

I — O Diabo de Bulgákov (capítulo curto, que pretendo terminar neste post);
II — As circunstâncias em que foi escrito O Mestre e Margarida;
III — O livro.

O Mestre e Margarida apresenta sua própria epígrafe — retirada do Fausto de Goethe — e ela trata do diabo, mas acho que preciso de outra, que pesquei do próprio livro de Bulgákov:

O que seria do bem se o mal não existisse, e como veríamos a Terra se as sombras desaparecessem? Afinal, as sombras resultam dos objetos e das pessoas.

Mikhail Bulgákov — O Mestre e Margarida

Então tratemos do demônio, do diabo, de Satã.

I — O Diabo de Bulgákov

A figura do demônio ganhou força na Idade Média. As mais variadas religiões jamais tiveram pudor de invocá-lo. Até hoje, nossos bispos evangélicos gritam que algumas saias e posturas são coisas de Satanás. E faz tempo que é assim.

Em parte de A Divina Comédia (1321), Dante Alighieri descreve os horrores que aguardam os pecadores no inferno. O foco do poema é a busca de Dante por sua amada Beatriz, que começa justamente no inferno, em cuja entrada há a famosa advertência: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Lá dentro há nove círculos, onde são julgados os vários tipo de delitos. Há vários demônios, mas no nono círculo está o maior deles, Lúcifer, o que julga os traidores. Ali não é quente, é frio e Lúcifer está lá, aprisionado da cintura para baixo, com suas grandiosas asas.

Lucífer no Nono Círculo do Inferno – Gustave Doré

Em Paraíso Perdido (1667), John Milton narra a expulsão de Lúcifer do Paraíso. Na obra, um despeitado Lúcifer diz que é “melhor ser rei no Inferno do que servir no Céu”.

A Queda de Lúcifer, ilustração de Gustave Doré para ‘O Paraíso Perdido’

Em O Diabo Enamorado (1772), Jacques Cazotte faz com que o Demônio se apaixone por um jovem que o invocou, assumindo a figura de uma bela mulher. Aqui, o demônio já adquire a característica da sedução, mas ele mesmo não tem uma imagem humana. Vejam abaixo a mulher sedutora e como ele é de verdade na imaginação dos ilustradores…

Ilustração para o livro de Cazotte

A lenda alemã de Fausto inspirou o clássico de Goethe (1808 e 1832), que inova ao dar aparência humana ao demônio. Mefistófeles aparece cheio de seduções, enganando, mentindo e propondo negócios.

Imagem de August von Kreling para o Fausto de Goethe (1874)

E há uma ópera de Gounod baseada no Fausto de Goethe. Faço questão de citá-la aqui pelo fato de Bulgákov tê-la assistido 41 vezes! Sabe-se disso porque ele guardava todos os ingressos de peças e concertos que assistia.

Cartaz original da ópera de Gounod.

E notem como o Mefistófeles de Gounod foi retratado no Municipal do Rio há poucos anos:

Foto: Ana Clara Miranda

Por que coloco todas as imagens acima? Ora, para mostrar que a representação do Diabo mudou paulatinamente. Ele não somente passou a ter forma humana como adquiriu primeiro a sedução e depois o ar zombeteiro.

Nos contos populares russos, as esferas Deus/Diabo — o Bem e o Mal — são interligadas, unidas. Assim, Baba-Iagá, a bruxa das florestas, a fiel ajudante do Diabo, ora faz maldades — rouba crianças, mata, envenena heróis –, ora se transforma numa criatura bondosa — ajuda o herói, fornecendo-lhe a comida, o cavalo, a poção mágica, etc.

O séquito dos vários diabos tem diferentes membros: a coruja, o gato, os defuntos, os vampiros, etc. E também os lobos, os corvos, as cobras. Entretanto, todos eles, em algumas ocasiões, podem muito bem ajudar ao herói. Como em Bulgákov.

E há mais seres que carregam o diabólico, o demoníaco: os poetas, os músicos e outras “almas perdidas e pecadoras” como os orgulhosos, os solitários, os rebeldes, os ateus, os ladrões, os bandidos, os vagabundos, os ciganos, os amantes… Isso explicaria a simpatia que o diabo de Bulgákov tem pelo Mestre — que é um bom escritor e que, além disso, escreveu um romance não só sobre os sofrimentos e a sabedoria de Jesus, como também sobre a fraqueza e o padecimento moral de Pôncio Pilatos. E isso explicaria também a simpatia que Woland tem por Margarida — uma adúltera, amante do Mestre.

No folclore russo, o Diabo tem algumas características bem determinadas e estas mesmas características marcam o Diabo e seu séquito no romance de Bulgákov:

— os olhos verdes, ou, então, um olho diferente do outro em cor: “ele aparentava ter bem uns quarenta anos. Boca ligeiramente torcida. Bem escanhoado. Trigueiro. O olho direito negro, o esquerdo — não se sabe por quê — verde”;

Woland: ilustração de uma edição de O Mestre e Margarida
Woland num filme

— a força poderosa, orgulhosa de um “super-homem” ou então uma força brincalhona, mas briguenta (o gato Behemoth e Korôviev — os membros do séquito diabólico no romance de Bulgákov — são possuidores desta força brincalhona). Sim, em Moscou, o demônio (Woland) vem acompanhado de uma improvável claque composta por Korôviev — altíssimo com seu monóculo rachado –, o enorme gato Behemoth (hipopótamo, que rima com gato em russo), o pequeno e forte Azazello e a bruxa Hella, sempre nua. O povo russo relaciona também a ventania, a nevasca, o incêndio — lembremos que foi justamente o incêndio que acabou com a casa de escritores e com o misterioso apartamento n.° 50 — com o Diabo;

—  a cor preta ou vermelha. O vermelho é a cor da paixão, do sangue e do fogo. Outra cor diabólica é o preto. Os personagens diabólicos costumam ter os cabelos pretos — ou o pelo preto, como o Gato, que era “negro como corvo, ou como fuligem” — ou, então, o cabelo vermelho, como Korôviev, que tinha “cabelos ruivos brilhantes”;

— a marginalidade caracteriza os “filhos queridos” do Diabo. Este “marginal” pode ser uma espécie de um gênio, um poeta, um músico, mas pode também ser uma variante baixa: um ladrão, um bandido. Com a marginalidade vem a solidão e a ausência de filhos. Margarida, há vários anos casada, não tem filhos, é uma pessoa solitária, que sente-se abandonada pelo marido. Tudo isso a colocaria naturalmente ao lado do Diabo. O Mestre também não tem familia;

— o Diabo é o proibido e a rebeldia. Tudo o que não poderia haver na União Soviética. O Diabo (Deus) está com Margarida, está com o Mestre, está com Ivan, no final do romance, quando este se recusa a escrever poesia encomendada;

— o Diabo é um mestre do jogo, da sedução, da representação teatral e da arte em geral. A própria palavra ‘arte’ — em russo ‘iskusstvo’ — vem do verbo ‘iskusit’, “seduzir”, “representar”, “ser falso”. Na Rússia, o Diabo troca as máscaras e os papéis, e no romance de Bulgákov, ele também é um ator por excelência.

Eco do Fausto de Goethe, pelas reflexões filosóficas, o romance começa com esta epígrafe:

— Pois bem, quem és então?

— Sou uma parte desta força que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.

Goethe, Fausto.

O Diabo aparece já nas primeiras páginas do romance e passa a desempenhar o papel substancial no texto. Mas, conhecendo o contexto histórico da União Soviética da época — é nosso próximo assunto –, quando o romance foi escrito, o leitor atento logo deixa de encarar o livro como “fantástico”, começa a sentir que “tem mais”. O objetivo do livro é fazer com que o leitor hesite em escolher entre a explicação natural e a sobrenatural dos acontecimentos. O efeito produzido pelas situações grotescas é desorientador. O mundo de O Mestre e Margarida é cheio de milagres, um mundo teatral.

Só que não é uma fantasia livre. Tudo aquilo que de sobrenatural acontece o outro pé na realidade. Por exemplo, quando, no epílogo, Bulgákov conta a perseguição aos gatos pretos, pois a polícia está atrás do gato Behemoth:

Cerca de uns cem desses animais pacíficos, dedicados e úteis ao homem tinham sido fuzilados ou exterminados por outros meios em diversos pontos do país. (…) Gatos, de aspecto às vezes bastante estropiado, foram entregues a destacamentos policiais de diversas cidades. Por exemplo, em Armavir, um desses bichos, sem culpa alguma, foi levado à polícia com as patas dianteiras amarradas por um cidadão. (Pág. 436)

Mas não se enganem, a maior parte do livro é pura sátira. Ele tem cenas belas, a maioria delas hilariantes e, se você pensar que Bulgákov viu a URSS dos anos 30 como Doutor Jivago estará navegando num mar de enganos. OK, aqui, o ambiente é de comicidade e sarcasmo, só que também é muito profundo.

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Texto parcialmente adaptado e copiado do trabalho Quem é o Diabo?” de Elena Godoy. 

Lembrete nada a ver (sobre Roma)

Lembrete nada a ver (sobre Roma)

Se um dia voltar à Roma, vou de tênis novos. Uma vez, no caminho para Londres, eu e minha filha fizemos uma Roma louca em um dia. Chegamos de manhã e saímos à noite.

Pegamos o ônibus em Fiumicino e fomos até um terminal bem bagunçado no centro. Lembro de uma palavra: termini (?). Bem, todos devem ser termini. Caminhamos como loucos.

Pantheon, Fontana di Trevi, Piazza Navona, Piazza di Spagna, imediações do Coliseo, algumas igrejas, um museu (Bárbara, qual foi?) e sei lá mais o quê. Tudo a pé, em um dia de louca infantaria. Lembro que comemos em um beco e a coisa era barata e maravilhosa. E também, burramente, na frente do Pantheon.

Lembro que quase todas as pessoas e garçons que nos identificavam como brasileiros perguntavam sobre a Boate Kiss, cujo incêndio tinha ocorrido uns dias antes.

É a última lembrança que tenho de Roma. Adorei quando fui pela penúltima (e primeira) vez e me perdi na cidade histórica. Isso eu quero que aconteça novamente. Deve ser fácil.

Em Roma, as estações de metrô ficam tão afastadas uma da outra que a cidade histórica deve ser vista a pé mesmo, acho eu.

A Bárbara inteira, o Coliseu nem tanto.

Quando a Elena indica…

Quando a Elena indica…

Quando a Elena indica, é garantia de alta qualidade. Em outras palavras, não percam!

Johannes Brahms era mestre em incorporar e reinterpretar o passado em suas obras. Sua última sinfonia contém um dos exemplos mais sublimes disso. No quarto movimento, ele adota um tema em forma de coral — com ligeiras modificações — extraído da Cantata BWV 150, de Bach, e constrói sobre ele um conjunto de 35 variações em forma de passacaglia. São os sopros (metais e madeiras) quem apresentam o tema circunspecto e austero que dá início a uma estrutura monumental que é um ponto final da última obra sinfônica do compositor nascido em Hamburgo. Tudo isso após um terceiro movimento fofo, onde a ‘melancolia generalizada’ de Brahms não aparece.

Bom dia, Zé Ricardo (com os lances de Bahia 2 x 3 Inter)

Bom dia, Zé Ricardo (com os lances de Bahia 2 x 3 Inter)

Deves saber, Zé Ricardo, que Odair jamais venceria o jogo de sábado contra o Bahia. Em primeiro lugar, porque não atacaria como atacamos. Em segundo lugar, porque, quando o Bahia descontou para 1 x 2, Odair recuaria, chamando o Bahia para nosso campo sem contra-atacar. Zé Ricardo manteve o time na frente e fez o terceiro.

No final do jogo, Guerrero fritou Odair: “Time entrou com tática diferente, para ganhar”.

Outra coisa maravilhosa é que foi um jogo sem VAR, essa grande invenção que não funciona no Brasil.

Boa partida de Neilton | Foto: Ricardo Duarte

No mais, vamos antes a uma estatística trazida pelo Alexandre Perin:

O Inter jogou 2 partidas no 4231 fora de casa e ganhou 2. Fez seis gols.

Inter jogou 1 jogo no 442 fora de casa e ganhou 1. Fez 2 gols.

Inter jogou 11 jogos como visitante no 4141 e ganhou 1. Fez 5 gols.

Por que Odair manteve o 4141 por tanto tempo?

Bem, sem Dale e Patrick, Zé Ricardo escalou Neilton e Parede.  O primeiro tempo de Parede foi trágico, mas ele melhorou no segundo tempo, marcando até um gol e dando passe para outro. Azar de comentaristas como eu, que estavam espinafrando Parede. Tive a sorte de não deixar registro por escrito, Gustavo Czekster… Prova de que às vezes é melhor esperar o fim do jogo, né?

Já Neilton foi escalado onde fazia misérias no Vitória, pelo meio. E saiu-se bastante bem.

Minha opinião? O 4231 deve ser mantido, é óbvio. Patrick deve entrar ou na posição de Wellington Silva ou na lateral esquerda. E Dale deve alternar com Parede ou Sarrafiore. Temos um equilíbrio bastante débil, então não é bom mexer muito.

Com a vitória, a segunda consecutiva fora de casa, chegamos aos 45 pontos em 28 jogos e ocupamos o 5º lugar. Voltamos ao campo na próxima quinta-feira (31/10), quando recebemos, a partir das 21h30, o Athletico Paranaense. Domingo tem Gre-Nal no Humaitá.

Bom dia, Renato e Zé Ricardo

Bom dia, Renato e Zé Ricardo

Tu, Renato, assim como o Zé Ricardo, estás mal assessorado. Imagina que o Flamengo não poupa seus jogadores, tem poucos lesionados, corre muito e, quando alguém se machuca, volta logo. Que incrível, né? O chefe do Depto. Médico do Grêmio é um pediatra… Mas conheço mais o caso do Inter.

Os jogadores são caros e, incrível, também são seres humanos que, como todo mundo, merecem profissionais atualizados. Rodrigo Dourado foi operado no primeiro semestre. Voltaria logo. Fez uma partida e foi operado novamente. Matheus Galdezani sofreu uma grave lesão em janeiro e nunca mais. Acho que será operado novamente qualquer dia desses. E Nonato está sendo “tratado”. Um perigo!

Outra coisa é a preparação física. É óbvio que Odair usava as folgas para agradar seus pupilos e permanecer no cargo. Todo mundo jogava — e todo mundo folgava — e era feliz com o papito. O vestiário estava na mão do técnico e a instituição que se danasse. Já Jorge Jesus é malvado — com ele sempre os melhores atuam.

É que ele trouxe toda uma trupe de Portugal. Ele tem uma equipe de seis portugueses e um brasileiro — que é o motivador Evandro Motta. Não desprezo Motta, mas vejam, a ciência é toda europeia. São auxiliares técnicos, preparadores físicos e analistas de desempenho, todo mundo bem informatizado e atualizado. O resultado disso fica claro dentro de campo.

Enquanto isso, em nossas comissões técnicas reina o compadrio. Todo mundo é amigo e está lá há anos, com os resultados que vemos. Os nomes dos médicos são os mesmos há 20 anos. Digo isso com conhecimento de causa. Tem um lá com 25 anos de casa. Será que eles se atualizam?

Mas é claro que há mais: o Flamengo tem jogadas ensaiadas, tem sincronia, há trabalho real ali, tempo de trabalho. Ouvi Rodrigo Caio dizer que jamais foi tão exigido do ponto de vista físico como com Jesus. E está lá, jogando sempre. Nada de folgas pelo desgaste. Aqui, os jogadores são mimados. Isto é apenas inabilidade para administrar o grupo, para deixá-lo calminho.

Óbvio que isto não explica 100% as atuações de Geromel e Kannemann na quarta-feira. Kannemann é comum, mas Geromel é bom jogador. Olha, se Geromel tivesse mais ritmo de jogo, talvez não perdesse aquela bola para Bruno Henrique logo no início do segundo tempo e que resultou no escanteio do segundo gol. Lembram da jogada? O magrão teve a noção de tempo de um bêbado. E falhou ou estava fora do lugar nos três gols seguintes. Querem saber de uma coisa? Dá uma folga pra ele, Renato. O coitado está es-ta-fa-do.

Foto: gremio.net

E Andris Nelsons grava sua integral das Sinfonias de Beethoven

E Andris Nelsons grava sua integral das Sinfonias de Beethoven

Andris Nelsons (1978) é um jovem maestro letão. Atualmente, ele é o diretor musical da Orquestra Sinfônica de Boston e da Gewandhaus Orchestra de Leipzig. Também já foi chefe da respeitada City of Birmingham Symphony Orchestra (CBSO). É uma estrela em plena ascensão e a Deutsche Grammophon já o contratou para gravar integrais das Sinfonias de Bruckner (Gewandhaus), de Shostakovich (Boston) e de Beethoven (com a Filarmônica de Viena).  As duas primeiras séries ainda estão sendo gravadas, mas a de Beethoven foi lançada neste mês.

E que esplêndido trabalho Nelsons fez com os filarmônicos de Viena! Um Beethoven forte e redondo, escandaloso e alegre, porém jamais, mas jamais mesmo, grosso. Certo pessoal do século XX achava que para tocar Beethoven, em certos trechos mais agitados, era só dar ênfase e berrar que estava bom. Era tudo muito emocional. Isso é ignorar a cultura. Beethoven foi um enorme artista de transição do classicismo para o romantismo. Se este é um dos fatores que o torna tão grande, também nos obriga a abordá-lo com conhecimento.

E Nelsons, com fraseados muito trabalhados, vai pelo outro lado e mata a questão com classe. E a Filarmônica de Viena fala beethoveniano, respira Beethoven. Creio que Nelsons deva ter ouvido muito os músicos da orquestra. Sei que se trata de um homem profundamente sensível e inteligente, conheço músicos que trabalham com ele. Sei das surpresas que apronta e que costuma dialogar.

O desenho do primeiro movimento da Eroica é quase erótico com a mágica das passagens da melodia de um instrumento para outro. Isso se repete a cada sinfonia, sublinhando a qualidade da orquestração. Raramente ouvi coisa mais natural, fluida e perfeita. E a sonoridade nem se fala.

Bem, ouvi as 4 primeiras sinfonias de Beethoven com Nelsons de enfiada. As duas primeiras — que jamais chamaram minha atenção — cresceram muito. A Eroica está sensacional, apesar de certas alegres liberdades tomadas na Marcha Fúnebre. A 4ª nem se fala. Mas logo voltei à Eroica (3ª), que está anormal de tão boa. Depois fui para uma excelente 5ª, cheia de sinuosidades e plena de tradição no terceiro movimento. Mas parece que Nelsons se dá melhor na delicadeza, pois sua 6ª é um primor, uma campeã.

Não, me enganei, sua sétima — com a sucessão fantástica de danças e o rock pauleira do último movimento — é um primor.

(Comecei a frequentar os concertos de música erudita com a idade de 4 ou 5 anos. Meu pai me levava. Ele disse que, por uns 5 anos, eu sistematicamente dormia após dez minutos. Ele queria saber quando eu pararia com aquilo, ainda mais porque eu dizia que gostava de ir… Certamente gostava era da companhia dele, claro.

Mas houve um dia em que eu passei a não mais dormir. Foi quando assisti uma 7ª Sinfonia de Beethoven regida por Pablo Kómlos. Aquilo era enlouquecedor. Uma sucessão de agitadas danças com aquele Alegretto (uma Pavana) no meio.

Ouvi hoje a 7ª e, pela enésima vez… Toda aquela primeira impressão permanece viva. Eu sou o mesmo, de certa forma. De certa forma bem distorcida.)

A oitava está menos haydniana do que o costume e mais parruda. A nona se vem dentro do padrão de alta qualidade do restante. Adorei.

A DG rouba sempre a cena quando o assunto é Beethoven, né?

E Nelsons, contrariamente àquela outra grande estrela da DG no século XX, está mais pela música do que pelo negócio. Isto é muito claro.

E, para deixar claro, QUE NOTÁVEL ORQUESTRA É A FILARMÔNICA DE VIENA. Não creio que possa haver algo melhor atualmente!

Bom dia, Roberto Melo

Bom dia, Roberto Melo

Eu não vou escrever sobre Ricardo Cobalchini — o menino que pegou este rabo de foguete — mas sobre nosso diretor de futebol Roberto Melo, futuro presidente do Internacional, pois é o nome da situação. E vou escrever rapidamente, porque ele não merece mais do que algumas linhas.

Ele, que apenas come da mão de Fernando Carvalho, escolherá o quarto treinador titular em três temporadas. Ele é o cara que deu aval ao modelo de Odair. Modelo retranqueiro, que empilha loucamente volantes, sem usar a base e sem visão de longo prazo.

Em 3 anos, Melo contratou (gastou em) 9 volantes, 6 zagueiros, 5 laterais e 14 atacantes (sendo que o time utiliza 1) e, pasme, apenas 2 armadores, sendo que só Camilo tinha características próximas de D’Ale. Resultado: nosso ataque não existe, como revimos ontem. Do que necessitamos? Ora de, armadores. Mas Melo e FC não gostam, preferem volantes que saiam para o jogo…

O gol do Vasco começou numa falha do último volante contratado, Bruno Silva.

Além disso, já entramos em férias em 18 de setembro, após perder a final da Copa do Brasil para o Athletico-PR. Acho que, como estamos em férias e como Patrick e D’Alessandro receberam o terceiro cartão amarelo, podíamos apostar em Sarrafiore e Neilton para começar o jogo contra o Bahia, não? Teste por teste… Mas não, vamos achar no grupo um volante para tentar segurar o jogo.

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Alexandre Perin escreve e assino embaixo:

Sobre a questão do novo treinador do Inter.

Gente, é óbvio que o Eduardo Coudet está 100% garantido para 2020. É óbvio que ele está contratado.

A prova disso é que ninguém, nem na imprensa, tampouco nas comunicações oficiais no clube, discute mais isso. Nada. Não há mais sequer especulação.

O foco agora mudou para se continuará o interino, tão borrado quanto o antecessor, ou o um novo treinador temporário será escolhido.

Até mesmo essa Diretoria virgem, de um presidente omisso e um vice de futebol absolutamente incompetente (tal qual sempre falei) , não seriam tão BURROS de deixar uma especulação gigante acontecer sem simplesmente cortar o papo pela raiz, gerando uma expectativa que simplesmente jogaria contra eles.

Nem o Medeiros, nem o Melo (que foram “hackeados” e perderam as contas de Twitter após o vexame na final), a despeito das inúmeras decisões erradas, deixariam assim.

Nem mesmo eles estariam perdendo a chance de levar um baita treinador desempregado, caso do Ariel Holan, se não houvesse essa garantia. Nem eles.

Eles sabem que o projeto de poder deles depende muito de 2020.a manutenção desse grupo no comando do clube por 20 anos é responsabilidade das decisões deles até dezembro.

O Inter tem dono.
O Inter serve para um único objetivo.
Este dono continuar no poder.

Futebol e sucesso são detalhes na franquia Sport Club Internacional Ltda.

Roberto Melo, futuro presidente do Internacional

Boas frases que li após o jogo de ontem, Avaí 0 x 2 Inter

Boas frases que li após o jogo de ontem, Avaí 0 x 2 Inter

Dimitri Barcellos tem razão:

Vocês vão ficar esperando o Sarrafiore armador, camisa 10, substituto do D’Alessandro, até morrer. É um finalizador nato. Jogador pra trabalhar no terço final de campo.

MAFS também tem razão.

Ontem escutei a coletiva do nosso interino (Ricardo Cobalchini). Até pode conhecer futebol, mas não tem condições de permanecer no cargo. Muito cru, inexperiente, na primeira derrota será massacrado na coletiva. Independente do treinador de 2020, precisamos de um treinador até o final do ano. Lisca já devia ter sido contratado.

Douglas Ceconello escreveu:

O Sport Club Internacional foi fundado com o objetivo de enlouquecer as pessoas.

O Anti Influencer disse, com toda a razão:

Se o Inter efetivar a compra do Parede, com essa bola cagada que joga, é motivo pra denúncia no MP e investigação do Conselho. Tem coisa estranha, tem que investigar familiares, empresários e amigos. 4 milhões pelo Parede? Estão de brincadeira. Os adoradores do Parede odeiam o Sarrafiore.

Alexandre Perin calculou:

Parede tem 1700 minutos. 3 gols. Sarrafiore tem 1000 minutos. 6 gols.

O Anti Influencer volta a dar porrada:

Sarrafiore é SEGUNDO ATACANTE. Tem que jogar mais a frente, ao lado do CENTROAVANTE. Qualquer outra função dentro de campo é PODAR as melhores características do Sarrafiore.

E o Perin fecha com raro brilho:

— Não temos ninguém na base.

— O insira_um_nome_de_time_aqui usa a base porque tem jogador bom, o Inter não.

— Time encaixado como Grêmio tu coloca jogador da base, no Inter não dá.

–Torcida do Inter queima jogador da base.

Um dia vocês talvez entendam que jogador da base ruim não se cria, jogador da base bom se cria, independente do contexto. Tem jogador da base que subiu no time campeão mundial e afundou. Tem jogador da base que surgiu no time quase rebaixado de 2002 e virou ídolo no clube.

Com vocês, Heitor e Bruno Fuchs.

Heitor e Bruno Fuchs são ninguém da base

9 Histórias, de J. D. Salinger

9 Histórias, de J. D. Salinger

Há umas quatro décadas, literalmente, li este livro na versão Nove Estórias, da Editora do Autor. Tinha uma bonita lembrança dele, principalmente do conto Um dia perfeito para peixes-banana.

A estreia de J. D. Salinger na literatura ocorreu com o clássico O Apanhador no Campo de Centeio em 1951. 9 Histórias, que li agora na nova e bela tradução de Caetano Galindo para a Todavia, foi seu segundo livro, publicado em 1953. Sete dos nove contos haviam sido antes publicados na revista The New Yorker e eles guardam alguns pontos de contato com o romance de estreia ao retratar uma boa galeria de jovens entre o inteligente e o desajustado. Trata-se de uma reunião de contos não planejada para formar um livro, mas o todo funciona muito bem ao apresentar uma corrente comum de bem humorado descontentamento.

Eu cultivo uma mania quando leio livros de contos. Costumo atribuir-lhes notas de 0 a 5. 9 Histórias alcançou a média de 4 e não lembro de outro que recentemente tenha chegado a tanto. Adorei o livro, claro.

Cada uma das histórias é um relato impreciso sobre a maneira de como os personagens se movem no mundo e interagem entre si. São basicamente diálogos e ligações telefônicas onde são articulados sentimentos e posturas. Não há divagações do autor e muito menos longas descrições. Os personagens de Salinger têm enorme capacidade para desencadearem bons diálogos. Isso geralmente toma a forma de uma criança em conversa com um adulto recém-encontrado, como Sybil e Seymour nos Peixes-banana, Esmé e o Sargento X em Para Esmé, com amor e sordidez, Teddy e Nicholson em Teddy. Os adultos costumam ser bem mais chatos, mas se surpreendem com a sabedoria despretensiosa dos mais jovens. Mas jamais podemos esquecer do sensacional diálogo adulto entre os “amigos” de Linda a boca, e verdes meus olhos

Em algumas histórias, como em O Gargalhada e em partes dos Peixes-banana e em Lá no bote, a narrativa é angulada em perspectiva oblíqua — o personagem principal está sendo descrito por outros através dos quais o leitor o vê. Mais: em todas as histórias, independentemente da perspectiva, a narrativa é cercada por fatos de significado dúbio. Nada é gritado de forma deselegante. Tudo é sugerido ou parece enfiado ali casualmente. No entanto, o leitor atento que consegue sintonizar com a frequência peculiar de Salinger, verá o que é fundamental — a inocência, o arrependimento, a esperança, a saudade, o amor e a loucura.

Isto é, 9 Histórias tem histórias simples com um leque de significados que vão variar conforme a experiência do leitor. Li o livro há muitos anos e esta leitura de agora foi muito diferente, talvez mais rica. Cada conto é digno de ser lido, relido e trêslido. Há neles sutis menções a uma crescente cultura do ego e a uma imensa e gloriosa sugestão de que falta algo no mundo de todos nós.

Um grande livro.

Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Certas pessoas — de direita e da esquerda — encararam Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles como uma advertência ao governo Bolsonaro. Santa patetice! Os cineastas começaram o projeto do filme em 2009 e não têm culpa se a realidade brasileira de hoje se aproxima tanto de uma distopia. É claro que no filme fala do país de hoje como nenhum outro. E que é um filme que prega a resistência à opressão, por meio de uma trama com um pé no fantástico e outro no realismo.

Trata-se de um belo filme que permite muitas abordagens. Muitas mesmo. De um modo superficial, podemos dizer que o filme tem a estrutura típica dos westerns, com os malvados vencendo e vencendo até uma reviravolta surpreendente. Neste neofaroeste, os malvados são um grupo de psicopatas entediados norte-americanos, todos tarados por armas. Na verdade, são gamers que recebem pontos em um jogo ao cercarem a pequenérrima Bacurau. Sua forma de agir tem muito em comum com a gurizada de Violência Gratuita, filme do austríaco Michael Haneke, que também disse que usou os norte-americanos como modelo — isso num período pré-Trump e pré-babação de ovo bolsonarista.

O filme também é descrito por alguns como uma distopia. Mas isso é só por situar-se num futuro próximo, pois toda a tecnologia aplicada pelo invasor está aí, prontinha para ser usada. Só falta a disposição e um prefeito.

A ideia de Bacurau é a defesa contra o invasor e a negação das armas e arminhas. Isso une a todos, até o ladrão da cidade. O invasor cria a dimensão de povo e da reação. Toda arte tem dimensão política, mas o filme de Kléber e Juliano não é só política e também não é simplesmente a luta do bem contra o mal, ele vai fundo nas motivações psicológicas, tanto que o chefe do grupo invasor alveja e mata de graça alguns de seus companheiros por pura sede de sangue. Ele simplesmente odeia e isso basta.

Em Bacurau, só há dois caminhos possíveis: resistir e lutar ou morrer. No final do filme, somos avisados que o projeto gerou mais de 800 empregos, movendo a indústria nacional. Isso serve de aviso àqueles que não enxergam o empenho nem o valor (cultural e econômico) do cinema nacional.

E que cena linda a do velho homem nu que deflagra a reação!

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Ah, o filme foi visto na renovada Sala Eduardo Hirtz da CCMQ. Olha, a sala está um show.

Os feios e as belas

As mulheres bonitas que são possíveis aos feios são as inteligentes e apenas elas. Acompanhem o raciocínio tendo em mente que nós, em nossa profunda modéstia, sabemos que para burros não servimos. Uma bela mulher, mas para quem as luzes da inteligência brilham pouco ou ficam no pisca-pisca, vai buscar seu Adônis e, portanto, nos excluirá automaticamente. Nunca a convenceremos, na conversa, da flor de pessoa que efetivamente somos: dedicados, meigos, cultos, amorosos, solidários, bons de papo, etc. Já as inteligentes, podemos lentamente convencer ou subitamente surpreender com uma frase que fará com que elas voltem rapidamente a cabeça, lançando a fragrância de seus cabelos em nosso colo.

Como vais, Ricardo Cobalchini?

Como vais, Ricardo Cobalchini?

Antes do jogo, soubemos que o Sub-23 do Inter, sem seu técnico Ricardo Cobalchini, tinha vencido o Gre-Nal decisivo do Brasileiro de Aspirantes. Nada mal, já que os comentaristas diziam que a gente levaria um ARRODIÃO do Grêmio. Afinal alguém profissional é campeão no Beira-Rio! Foi outra grande atuação do goleiro Keiller e, pô, aquele pênalti que não foi marcado a nossa favor…

Explicar Guilherme Parede é mais complicado do que entender Física Quântica | Foto: Ricardo Duarte

Mas o que interessa é Inter x Santos no Beira-Rio. O Inter foi escalado por Ricardo Cobalchini com Heitor na lateral direita (tínhamos um lateral direito na base e gastaram um monte com pernas de pau), Roberto na zaga e Zeca na lateral esquerda. D’Alessandro voltava a começar uma partida depois da lesão. Ao menos o interino não foi doido de escalar Klaus e Uendel. Mas escalou Parede, deixando Neílton e Sarrafiore na reserva. Ou seja, Cobalchini também não é tão normal assim.

No primeiro tempo, nada de armação de jogadas e nenhum chute a gol. Uma vergonha digna do ex-técnico, em realidade o culpado por isso.

No final do primeiro tempo, perdemos uma substituição, pois Lindoso sentiu algum problema físico e entrou Bruno Silva, que jogou bem.

Como Patrick estava horroroso, havia dois grandes problemas em campo e duas substituições possíveis: Parede, totalmente inoperante e até errando em bola e Patrick, naqueles dias de errar ABSOLUTAMENTE tudo.

(Eu gostaria de saber o que acontece no Departamento Médico do Inter, com o perdão da expressão: Dourado foi operado… E reoperado. Matheus Galdezani sofreu uma grave lesão em janeiro e nunca mais. Acho que será operado novamente qualquer dia desses. E Nonato está sendo “tratado”. Medo.)

Fazia muito tempo que o Inter não voltava melhor no segundo tempo, muito tempo. Pressionamos, chutamos, criamos, marcamos dois gols, ambos anulados pelo VAR. Só que a bola não entrou em jogada válida. Acabou sendo um 0 x 0 digno, num jogo que poderíamos ter vencido.

Na próxima rodada, a 26ª, o Inter visita o Avaí, em Florianópolis. O jogo será às 19h15 de quinta-feira (17/10).

Com o empate e sem vencer os últimos cinco jogos, saímos fora do G-6. O Grêmio nos passou. Com o que estamos jogando, vai ser difícil voltar à zona da Libertadores. Na sétima posição, temos 39 pontos contra 41 do Grêmio (6º) e 43 de São Paulo e Corinthians, quinto e quarto colocados. Para nós, G-4 já é uma quimera.

Como escreveu o amigo Jerônimo Santanna, quem perde para Goiás com um a mais, quem perde para o pândego CSA e ainda tem Parede como titular no ataque, não pode querer vaga em Libertadores. Futebol também tem lógica.

Sobre o novo técnico: depois de Aguirre — técnico bem mais ou menos, mas que conhecia seu ofício — tivemos Argel, Falcão, Celso Roth, Lisca, Zago, Guto e Odair. Uma lista apavorante. E digo-lhes: nenhum treinador inteligente vai pegar o Inter, com o histórico que tem, em final de temporada, sem um contrato longo. Meus nomes são Roger Machado, Thiago Nunes, Heinze, Coudet e Holan.

Atrás do balcão da Bamboletras (XV)

Atrás do balcão da Bamboletras (XV)

— Eu preciso de um romance bom, que prenda, que faça a gente grudar, entende?

— Olha, temos vários.

E lhe apresento alguns: O homem que amava os cachorros, A vegetariana, os Knausgård, os da Isabela Figueiredo, um monte de outros e ela tinha lido todos, pô. Para tudo o que eu oferecia ela respondia já li.

— Leste as Estações Havana do Padura, claro.

— Não, não li.

Ufa. Mostro pra ela os 4 volumes, mas ela nem olha direito, apenas pega o telefone.

— Oi, miga. Já leste as Estações do Padura? Sim? E tens?

Depois de ouvir a resposta, ela se volta pra mim e diz:

— Não quero. Minha amiga tem. Eu e ela trocamos livros para poder ler mais. Ela compra e me empresta, eu compro e faço o mesmo. E ela tem esses quatro. E só lemos coisa boa.

Então tento algo fora das trilhas habituais. Era o caminho, claro.

— Leste Lucky Jim?

— Não.

— É sensacional. Pergunta pra tua amiga se ela leu Lucky Jim. Liga aí.

Ela obedece.

E leva o livro de Amis.

Ufa!