Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

Uruguai no século XXI: Nada nos é estranho

O sociólogo uruguaio Julio Calzada descreve neste artigo para o esquerda.net a ascensão e queda do ciclo político progressista no seu país. E tira algumas lições da derrota do candidato da esquerda nas eleições do mês passado.

Do esquerda.net

A frase de Públio Terêncio Afro, “nada do que é humano me é estranho” que percorre vários séculos da história do ocidente, faz-nos refletir sobre o Uruguai de hoje, em que sentimos que “já nada do que acontece na região e no mundo nos é estranho”.

Quem somos

O Uruguai é um país pequeno de 3.3 milhões de habitantes, dos quais 2.7 milhões estão recenseados para votar e votaram 2.43 milhões. O voto no Uruguai é obrigatório para todos os recenseados e não está disponível o voto para os residentes além-fronteiras. Isso explica em parte a diferença entre os recenseados e os que foram efetivamente às urnas.

Até há poucos anos havia uma narrativa nacional que circulava nos meios académicos e de esquerda, segundo a qual as coisas no Uruguai aconteciam 30 anos depois de acontecerem no resto do mundo. Isso resultou num ditado que dizia que a vantagem de viver neste país, aqui no sul do mundo, é que quando o mundo acabar o Uruguai vai existir mais 30 anos.

Isto já não é assim há mais de uma década. O Uruguai foi um ator destacado da “DÉCADA PROGRESSISTA” que viveu a “AMÉRICA LATINA” no início do século e pelo menos até 2015.

Saído da crise econômica e social mais profunda da sua história no ano 2002, com o colapso do sistema financeiro, produziram-se no País a partir de 2005 um conjunto de transformações sociais, culturais, políticas e econômicas importantes que levaram a esquerda a ganhar o governo por três vezes consecutivas: 2005, 2010 e 2015.

Neste período foi reduzida a pobreza de 36% para 8%, a indigência de 3% a 0.5%, o salário aumentou 65% em termos reais e o índice de Gini melhorou substancialmente, tornando o Uruguai na economia mais equitativa na América Latina, o continente mais desigual do mundo.

A estes dados há que acrescentar uma transformação profunda da Matriz Energética que levou o Uruguai a cobrir mais de 50% do seu consumo de energia através de fontes renováveis e até, em certas alturas, que todo o consumo diário venha dessas fontes.

Concomitantemente às melhorias econômicas e sociais, ao desenvolvimento, foi promovido um conjunto de políticas que colocaram o Uruguai na ribalta das sociedades com melhores níveis de desenvolvimento humano da região.

A lei das 8 horas para os trabalhadores rurais — uma lei que tinha já 100 anos de atraso —, a regularização, regulação e sindicalização do trabalho doméstico, a lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, o Casamento Igualitário, a Regulação da Canábis, ou a Lei da responsabilidade penal empresarial para a prevenção dos acidentes no trabalho, a par de  outras iniciativas, marcaram esta posição única do Uruguai na região.

Milhares de pessoas passaram da economia da subsistência a ser parte da sociedade de consumo.

A década progressista não só não nos foi estranha, como até tivemos nela um importante protagonismo e destaque.

A insegurança, um fantasma percorre a América Latina

A partir do ano 2008, algumas formas de criminalidade começam a mudar e outras, nunca antes vistas, chegam de forma relevante, como o sicariato, uma prática criminosa praticamente desconhecida no País.

O tráfico de drogas, que já era uma realidade com décadas no País e na região, muda de forma significativa e passa a ser uma organização empresarial, não necessariamente cartelizada mas empresarial que se integra nas “cadeias de valor” do mercado internacional.

Alguns fenômenos geopolíticos, em especial  o Plano Colômbia, levaram, a partir dos primeiros anos deste século, a que certas ligações da cadeia mundial de produção, tráfico e consumo de drogas, em particular da cocaína, se transferissem do norte para o sul do continente.

As cocaínas fumáveis na forma de CrackPaco ou Pasta Base entraram no dia-a-dia das cidades e vilas do sul do continente. São os desperdícios do processo de produção da cocaína destinada aos grandes consumidores mundiais dessa droga — os Estados Unidos, os Países Europeus e os países ricos em geral — que “se valorizam” ao monetizarem-se no consumo dos setores mais vulneráveis das nossas sociedades.

Este fenômeno provocou profundas transformações econômicas, sociais e culturais nas nossas sociedades. Apareceram as ollas, as mulas, os centros de recolha e distribuição, as bocas.[1]

O surgimento desta nova realidade provocou inicialmente, no âmbito da grande crise económica dos anos 1999, 2000, 2001 e 2002, mudanças profundas nas dimensões sociais, sanitárias e culturais em toda a região, em particular no Sul do continente. Nos anos posteriores, este impacto incluirá a quebra das estruturas econômicas clássicas da vida quotidiana de sobrevivência dos setores mais vulnerabilizados da sociedade, e à boleia do microtráfico viriam a surgir novas formas de emprego e de relacionamento social. Nada nos é estranho.

Estas novas configurações sociais, econômicas e culturais chegaram repletas de novas formas de violência simbólica e fática.

Por um lado, ajustes de contas, assassinatos, extorsões, controlo dos territórios por famílias que impõem regras do jogo violentas para entrar, sair ou andar em zonas de onde o estado se retira progressivamente.

Por outro lado emergem as políticas de mão pesada, o populismo punitivo, das quais não ficaram isentos amplos setores da esquerda, que levaram as prisões a situações extremas e o Uruguai a ter hoje uma das maiores taxas de encarceramento da região, com 12 mil presos para uma população de 3.3 milhões de habitantes.

Mas a direita é insaciável em matéria de coerção estatal e punição, sempre quis mais e conseguiu instalar ao longo dos anos a ideia de que o País vivia numa situação extrema de emergência em matéria de segurança.

Desde a chegada do presidente Mujica ao governo em março de 2010, a investida em matéria de segurança chegou ao ponto de se falar em mexicanização da sociedade uruguaia.

Em junho de 2012, Mujica responde com a Estratégia pela Vida e a Convivência e com 15 medidas políticas para reverter a situação, houve a tentativa de mudar o eixo político da segurança para a convivência, das drogas ao relacionamento e aos projetos de vida das pessoas numa sociedade aberta, plural e em transformação permanente pelo impacto das mudanças tecnológicas e de novas formas de vida. Uma destas 15 medidas será a Regulação do Mercado da Canábis.

A direita não parou, chamou cortina de fumo às medidas e os seus setores mais recalcitrantes, ligados política, cultural e mesmo familiarmente à ditadura que ocupou militarmente o País entre 1973 e 1985, iniciou uma campanha pela reforma constitucional para baixar a imputabilidade penal para os 14 anos, colocando como o centro do problema as drogas e a inimputabilidade penal das crianças e adolescentes. Nesses anos, os e as adolescentes com problemas com a lei e privados de liberdade ascendiam a 600 em todo o país.

Os Jovens, imersos num amplo movimento social, cultural e político que tinha promovido o que apelidou de agenda de direitos, que incluiu o casamento igualitário, a Lei de segurança sexual e reprodutiva que legalizou o aborto, a regulação da canábis entre outras leis de claro recorte progressista como as que referi, responderam à direita e ao populismo penal com uma enorme campanha de recusa à descida da imputabilidade penal, que tomou o nome NO A LA BAJA e fez dele o seu slogan identitário, ao ponto de hoje se falar na geração NO A LA BAJA.

A descida da idade de imputabilidade penal foi a referendo e não foi aprovada. Nessa eleição, toda a campanha do NO A LA BAJA trouxe, mesmo sem o propor especificamente, água ao moinho da esquerda, que na segunda volta venceu com grande avanço.

Não obstante o resultado do referendo, positivo para o arco progressista, e da própria eleição, também favorável ao progressismo, a questão da insegurança continuava latente.

Embora a questão da insegurança não nos fosse alheia, e embora o populismo penal avançasse passo a passo no pensar e no sentir da sociedade, ainda se mantinha alheia ao recrudescimento das penas, a guerra às drogas e ao gatilho fácil.

2015-2019: Implosão da POLÍTICA na esquerda

Após cinco anos de uma forma frenética de fazer política a nível local e mundial por parte do presidente Mujica, o ano de 2015 traz uma aterragem abrupta do clima político, o novo presidente da República pela segunda vez, Tabaré Vázquez, desaparece do debate público e a esquerda política e parlamentar retrai-se para a custódia do governo e perde iniciativa, inovação e capacidade de proposta política.

A Frente Ampla, partido/movimento/coligação de governo, apresenta-se como ator de terceira categoria no palco social e político do país, limitando-se a dar o seu aval e apoio a toda a política avançada pelo Poder Executivo.

O grupo parlamentar da Frente Ampla, tanto em deputados como no Senado, fecha-se no acompanhamento do governo, perde iniciativa política e carece de uma agenda de novas iniciativas que aprofundem as mudanças e as conquistas do primeiro governo de Vásquez e do governo de Mujica. A narrativa da esquerda e a sua capacidade de sedução desvanecem-se até quase desaparecer, absorvida pela gestão, o bom governo e a correção política.

Os movimentos sociais, em particular o Feminismo e em alguma medida o Movimento Sindical são os que mantêm uma ação política permanente e sistemática de reivindicação e aprofundamento dos direitos adquiridos, da inclusão de novas perspetivas inclusivas em assuntos ambientais, de género, das deficiências, dos afrodescendentes e os migrantes, com especial ênfase naquilo que tenha a ver com violência de gênero.

A direita mobiliza toda a sua artilharia ideológica, política e mediática, questionando o que chama de “ideologia de gênero” e fazendo finca-pé nos problemas de segurança pública, promovendo denúncias de corrupção e judicializando as responsabilidades políticas e de gestão dos membros do governo de Mujica e do primeiro governo de Vázquez.

Há um episódio muito doloroso na gestão da empresa pública petroquímica que apresentou em 2015 um importante défice na gestão financeira, o que levará em 2017 o vice-presidente da República Raúl Sendic [2], que no período 2009-2015 tinha sido por duas vezes presidente da dita empresa, a renunciar ao cargo.

Alguns traços relevantes da segunda presidência de Tabaré Vázquez

O segundo governo de Tabaré Vázquez teve logo a partir do dia seguinte à eleição um viés conservador, até mesmo com nuances autoritárias em certas áreas.

Vázquez anunciou o seu elenco governativo imediatamente a seguir à eleição sem ter em conta a realidade eleitoral nem as sensibilidades da sociedade nesse momento, nem a do partido que o levou ao governo. O seu executivo foi formado com os incondicionais da sua velha guarda, aquelas pessoas que o acompanharam e com quem tinha governado Montevideo de 1990 a 1995 e que tinha sido a sua equipa de confiança no primeiro governo nacional entre 2005 e 2010.

O mandato teve início com a descontinuação de uma série de iniciativas que tinham avançado durante o governo de Mujica, algumas delas saídas da Estratégia pela Vida e a Convivência promovidas em 2012, que tentavam enfrentar o problema da insegurança de forma integral, com intervenções urbanas de envergadura para recuperar territórios pauperizados.

Os temas da Insegurança e das Políticas Sociais “ficam presos”, respetivamente, nos ministérios do Interior e do Desenvolvimento Social, que não dialogam entre si nem com o resto dos organismos do estado que têm intervenção na matéria, como os da Habitação, Trabalho e Segurança Social, Saúde, e o segundo e terceiro nível de governo, Departamentos e Municípios.

Apenas em 2018 foi ensaiado um plano para retomar formas de dar uma resposta integral em alguns territórios críticos de Montevideo e noutros departamentos do País, com a participação de diversos organismos do estado central, os Departamentos e os Municípios e o envolvimento dos moradores na construção de uma sociedade mais segura.

Aos olhos da direita dura foi uma resposta tardia e tímida e aos olhos de amplos setores de esquerda foi também uma resposta tardia e focada nos aspetos repressivos, sem sublinhar o facto de que se tratava de territórios abandonados pelo Estado, aos seus diversos níveis, desde há décadas.

Tudo parece indicar que já era tarde e insuficiente.

A bandeira emblemática da esquerda na sua chegada ao governo em 2015 eram as políticas sociais, a redução da pobreza, a quase eliminação da indigência. Foram implementados planos de transferências de rendimento, programas de proteção no emprego, uma bateria de ferramentas para corrigir as desigualdades de um sistema que as cria de forma sistemática.

Para além das inevitáveis falhas na implementação dos diversos programas de apoio aos setores mais vulneráveis da sociedade, eles contribuíram de forma significativa para a melhoria da qualidade de vida e a dignidade das pessoas.

A direita fustigou sistematicamente estas políticas, acusando-as de serem clientelares e de contribuírem para que as pessoas que recebiam as ajudas deixassem de procurar trabalho, de cuidarem de si próprios e de se superarem como seres humanos. Instalou a aporofobia[3].

As pessoas são pobres porque não se esforçam, porque são preguiçosas, porque gostam de viver às custas do estado. Uma narrativa cruel e impiedosa, que nega as histórias de vida de amplos setores sociais historicamente submergidos e postos de lado ao longo de gerações, à qual foram aderindo as classes médias, depois médias baixas e finalmente até as próprias classes baixas da sociedade.

15 anos após o nascimento do Programa de Atenção Nacional à Emergência Social — PANES, bandeira da esquerda que ganhou o goberno com 51% dos votos à primeira volta em 2005, sem alterações significativas nos elencos que implementaram essas políticas nem na reformulação das mesmas por parte da esquerda, a direita impôs a sua narrativa aporofóbica.

No que diz respeito às relações no seio do campo popular, em setembro de 2015 aconteceu algo que iria marcar não apenas toda a gestão da segunda presidência Vázquez, mas também o estilhaçar da sensibilidade, do pensar, da razão de ser da esquerda. No meio de um profundo enfrentamento com os sindicatos docentes e os estudantes, Vázquez decreta a requisição civil na educação. Uma medida impopular, que juntou milhares de pessoas nas ruas e que nem se podia aplicar por ser inconstitucional. Vázquez partiu a loiça sem ganhar nada com isso.

Por outro lado, no marco de uma estratégia com várias tenazes com que tentavam isolar a esquerda da sociedade, cujos eixos são A INSEGURANÇA, a ineficiência das POLÍTICAS SOCIAIS, MÁ GESTÃO e as acusações de CORRUPÇÃO, é a direita que marca a agenda de praticamente todo o período do mandato do governo.

Ao longo de dez anos e independentemente de não existirem indicadores no País que confirmassem a gravidade das suas afirmações, a direita convenceu a sociedade que o País estava perante uma crise generalizada de valores, de insegurança, de corrupção e que a mudança de caras na condução do país era imprescindível para que o Uruguai não se Venezuelizasse. O País ouviu e convenceu-se disso.

Duas eleições e muitas lições

Outubro

A 27 de outubro de 2019 a Frente Ampla foi o partido mais votado pelos cidadãos. Os 39.02% deram à Frente Ampla a possibilidade de ser a maior minoria, o partido político mais importante do país. O resto dos partidos de tom liberal ou ambientalistas e da direita conservadora, junto com outros pequenos grupos que não alcançaram representação parlamentar, somam 56.64% dos votos. O resto foi completado pelos  votos brancos e nulos.

A maioria da sociedade votou contra a esquerda e os três principais partidos da direita tiveram no seu conjunto 52% do eleitorado, dos quais 28.02% para o partido nacional, representante histórico do conservadorismo em matéria de direitos e liberdades e neoliberal nas suas conceções económicas; 12.34% dos cidadãos optaram pelo partido colorado, um partido liberal em matéria de direitos e liberdades; e depois a extrema-direita, com um partido liderado por um ex-chefe do exército que em oito meses alcançou 11.04% do eleitorado e que hoje é a chave do futuro governo.

Novembro

O Uruguai tem um regime eleitoral a duas voltas, o que implica que para um partido ganhar a eleição à primeira volta tenha de superar 50% do eleitorado mais 1 voto. Por isso, apesar de a esquerda no seu conjunto ter obtido 39.02% dos votos válidos e o segundo partido ter ficado a 11 pontos de diferença com 28.02%, a lei eleitoral estabelece a necessidade de uma segunda volta.

Logo a seguir à eleição de outubro, os três principais partidos da direita, incluindo a extrema-direita, coligaram-se numa aliança a que se juntaram os pequenos partidos. Tudo somado, esta coligação tinha juntado 54.05% da vontade cidadã.

A esquerda cometeu inúmeros erros ao longo da campanha de outubro e também na campanha da segunda volta em novembro. Tudo fazia crer que esta eleição seria um passeio sem sobressaltos para a direita.

Ao longo de todo o mês, as sondagens davam a coligação de direita vencedora da contenda com 8 a 9 pontos percentuais de avanço. A direita não conseguia captar todo o eleitorado que nela tinha votado em outubro, mas mantinha larga vantagem sobre a esquerda.

Mas às 20h30, ao fecharem as urnas, o País parou ao ver que a diferença entre ambos os candidatos era tal que as principais empresas de sondagens davam “empate técnico” e não apontavam um vencedor. Três horas mais tarde, às 23h30, o candidato da esquerda Daniel Martínez saúda a sua militância e diz que a eleição ainda não está definida e será necessário aguardar pela contagem dos votos observados [4], dada a diferença tão pequena. Por isso haverá que esperar várias horas, ou mesmo vários dias para saber quem será o próximo Presidente da República.

Na quinta-feira, 28 de novembro ao meio dia, a recontagem dos votos confirmou o triunfo da coligação de direita com 48.8% do eleitorado contra 47.3% da esquerda, uma curta margem de 27.042 votos separou a esquerda do que teria sido o seu quarto mandato consecutivo no governo.

Lições aprendidas

A primeira reflexão importante a destacar é que no Uruguai uma eleição não se ganha nem se perde numa campanha.

A segunda é que os candidatos são importantes, mas não são necessariamente determinantes.

A terceira é que a ação política do governo, da força política e dos deputados, bem como dos movimentos sociais e do conjunto da sociedade civil, ao longo de todo o período do ciclo progressista e em particular do período 2015-2019, assumem um papel central na construção da narrativa histórica que dá sentido ao voto no dia da eleição.

A quarta é a constatação de que havia 47.3% do eleitorado disposto a votar Martínez e que em outubro não votou nele. O voto fragmentado em vários partidos de direita não lhe teria dado a maioria parlamentar, mas sim à esquerda e assim pelo menos 8 deputados e 3 senadores agora nas bancadas da direita teriam ficado nas bancadas da esquerda.

A quinta e muito importante é que conservadores e liberais não duvidaram por um instante em abraçar a extrema-direita com o objetivo de tirar o progressismo do governo.

A eleição de outubro foi para a esquerda um triunfo com sabor a derrota, foi o partido mais votado mas perdeu 3 senadores e 8 deputados e a maioria parlamentar passou para as mãos da direita.

A eleição de novembro foi para a esquerda uma derrota com sabor a triunfo, com a direita a ir governar o país sem ter superado a fasquia dos 50% do eleitorado. Desde a reforma eleitoral de 1996, nenhum presidente foi eleito à segunda volta com menos de 50% dos votos. Ainda por cima, mais de 5% do eleitorado que votou na direita em outubro não votou em novembro no candidato único das direitas e escolheu antes apoiar o candidato do progressismo.

Se o resultado de novembro não evitará que a direita promova um programa de conteúdo fortemente neoliberal, como sugere a formação do executivo que está em marcha e as medidas que está a anunciar, pode contribuir para que não o faça de forma selvagem como acontece no Brasil de Bolsonaro e aconteceu na Argentina de Macri.

Terminado o processo eleitoral, é necessário constatar que a esquerda não soube interpretar o incómodo, o descontentamento, a vontade de mudança na sociedade e sofreu um revés histórico.

Finalmente, uma reflexão muito importante para o futuro da esquerda: as políticas dos 15 anos de progressismo que conseguiram retirar da pobreza mais de 25% da população não conseguiram uma mudança cultural por entre esta população e o conjunto da sociedade que tornasse estes cidadãos ativos, críticos e não meros consumidores de um mercado que antes lhes fugia.

Nada nos é estranho.


Julio Calzada é sociólogo, ex-Secretário Geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai e atual Diretor da Divisão de Políticas Sociais da Intendência de Montevideo.

Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Notas:

[1] Olla, lugar onde os “cozinheiros” cozem a pasta de cocaína e extraem o cloridrato que em seguida pode ser consumido na forma de cocaína snifada ou injetada.

Boca, lugar de abastecimento de drogas e no caso das cocaínas fumáveis, “lugar de abastecimento e consumo de pasta base”.

[2] Filho de Raúl “Bebe” Sendic, líder histórico do movimento de trabalhadores rurais de Artigas UTAA e fundador com o presidente Mujica do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros no início dos anos 1960, responsável pela guerrilha urbana mais mediática das décadas de 60 e 70 do século XX.

[3] Aporofobia: rejeição, hostilidade e aversão às pessoas pobres.

[4] “Votos observados” são votos registados separadamente nas mesas eleitorais, em casos de eleitores que votam numa zona eleitoral diferente do recenseamento ou cujo nome não é encontrado na lista eleitoral. Os dados desses eleitores são analisados posteriormente à eleição para confirmação de identidade e só após essa confirmação são validados.

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

O Sorriso do Vampiro (por Ernani Ssó)

Ou o humor na obra de Dalton Trevisan

Ernani Ssó

Sem busto de vampiro na pracinha

Quando o Márcio Renato dos Santos, curador da FLIBI (Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná), me ligou pra perguntar se eu topava falar sobre o humor na obra do Dalton Trevisan, eu disse sim no mesmo segundo. Foi uma irresponsabilidade, claro. Eu gosto de humor e reli muito o Dalton, mas não sou um especialista em nada, apenas alguém com curiosidade. É bem provável que as pessoas que me ouviram podiam trocar de lugar comigo com grande vantagem.

Mas eu sinto que tenho uma dívida com o Dalton. Não só eu, o Brasil também tem, e como tem. Mas vamos deixar o Brasil pra lá, eu só pago as minhas dívidas e de preferência as que não envolvem dinheiro.

Os críticos reconheceram que o Dalton é um grande escritor, claro. Todos nós sabemos disso. Mas, veja, reconheceram e em seguida saíram de fininho. Fora o Ivan Lessa, não lembro de ninguém que festejasse o Dalton. Até autores de segunda são festejados no Brasil, ou Bananão, para os íntimos. Será porque ninguém tem coragem de botar busto de vampiro na pracinha?

O diabo é que o Dalton é mais profundo, mais preciso e com maior domínio técnico que todos esses concorrentes a miss simpatia que enchem jornais e academias, ou que se dedicam mais à divulgação do que a escrever.

Bem, me desculpem a empolgação, ou não desculpem, porque é mais do que justificada. E como não consegui falar nem um terço do que anotei, volto ao assunto, espero que um pouco menos confuso.

Falta de humor

Vocês não sei, mas eu deploro a falta de humor na literatura brasileira. Sim, sempre se fala no humor do Machado, ou do José Cândido de Carvalho ou do Campos de Carvalho. Mas mesmo os que se dizem machadianos ou cantam sua admiração por Campos de Carvalho, na hora de escrever assumem um arzinho de sobriedade senhorial. Quem é o herdeiro do deboche brincalhão de José Cândido de Carvalho? Eu não conheço. No máximo vi a linguagem que José Cândido criou ser chupada pelo Dias Gomes na novela O bem-amado. Até um humorista como Millôr Fernandes dizia que humor não é pra rir, mas fazer pensar. Ele parece se defendendo da velha acusação do Aristóteles de que a comédia é menor, que a tragédia é que está com tudo.

Parece que se confunde seriedade com cara fechada, com solenidade. É óbvio, qualquer um pode ser raso ou mesmo idiota com a cara mais solene do mundo e enganar os trouxas. E qualquer um pode ser profundo e risonho ao mesmo tempo, vide o Oscar Wilde, o exemplo mais caindo de maduro. É como dizia Cortázar: como se Cervantes fosse solene, carajo! Ou alguém tem coragem de dizer, ainda hoje, que o Quixote não é sério, que não trata de uma das grandes misérias humanas, o desajuste entre a realidade e nossos desejos? Melhor ainda: trata de um modo exemplar, que continua fazendo sentido e sendo divertido quinhentos anos depois. Os sérios profissionais têm de engolir que o primeiro e talvez mais importante romance seja um romance cômico.

Há quem atribua a pose de seriedade e a linguagem empolada de grande parte da literatura brasileira à nossa tradição bacharelesca. Pode ser, não? Começamos com muitos advogados, muitos deles de classe média, ou mérdia, como dizia o João Antônio. A primeira coisa que o cara fazia – ainda faz, na verdade – era esfregar na cara da patuleia o seu anel, sem jamais desconfiar da sua cafonice. Eu sou doutor. Olha com quem está falando – aí o chorrilho de palavras difíceis, pretensamente bonitas, com surtos gramaticoides cabeludos. Exagero meu? Leia as “poesias” de Ayres Britto, pra sentir o gostinho.

O humor apareceu muito mais na crônica, me parece. Um gênero considerado menor, pra jornal, pra consumo de gente que nem lê livro. Pode ser que isso tenha contribuído pra que alguns autores escrevessem com mais naturalidade. Se você senta pra escrever com o peso de fazer grande literatura, de desbancar Dante e Goethe, talvez embatuque, não? Veja o Cervantes, que se saiu melhor justamente quando sentou pra escrever um livro sem ambição, uma mera sátira aos romances de cavalaria. O certo é que temos grandes cronistas, mas, o nível desses cronistas a mim, pelo menos, parece maior que de nossos ficcionistas. Digo isso de um modo geral, bem entendido. Eu gostaria muito de ler um romancista do nível do Rubem Braga, pra começo de conversa.

Fomos mais felizes na música popular, não? Nossa música tem relevância internacional, coisa que não acontece de jeito nenhum com nossa literatura. Nossa música popular, também de um modo geral, escapou da maldição do doutor. Veja a quantidade e a qualidade de grandes letristas cheios de humor: Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Aldir Blanc – seria tão bom que muitos dos nossos poetas tivessem o talento deles. Mas até o baixo clero se mostra humorado. Pra não ir mais longe, o Erasmo Carlos, no começo da Jovem Guarda, era muito bem-humorado.

O caso do Chico é estranho. Com letras geniais, muitas cheias de humor, na hora que sentou pra escrever romances, em geral ficou chato, sem bossa nenhuma. Deve ser praga dos imortais da academia.

O humor, como tudo, tem vários níveis. O que o Renato Aragão faz é humor. Mas, não vamos esquecer – porque faz bem ao coração e ao fígado –, o que Jorge Luis Borges e Julio Cortázar fizeram também é humor. Se você cortar o humor da obra deles, vai fazer um estrago e tanto. O humor está inclusive na visão de mundo deles. Mas quem pensa neles como humoristas? Mal se pensa neles como escritores com senso de humor.

Eu até gosto de comédias que são apenas comédias. Mas, desde o começo – gosto que se acentuou com os anos –, prefiro a comédia dramática, ou a tragicomédia. É um gênero complicado, porque misturar dois elementos de climas tão diferentes, tipo mocotó com limonada, exige pulso muito firme, muito tato, muito faro pra equilibrar tudo. Mas me parece que é o gênero que está mais próximo dessa mixórdia que chamam de – pra agravar, em maiúscula muitas vezes – vida.

Aristóteles dizia que a tragédia é superior à comédia porque a comédia não tem a dor. Podemos inverter a frase: a tragédia é inferior porque não tem o riso ou o ridículo. Eis o ponto: a tragicomédia tem tudo.

Acho que é aí que o Dalton Trevisan se enquadra.

O humor do Dalton

O humor dele é pouco explícito e é, praticamente sempre, negro, ou ironia gótica, como disse a crítica Barbara A. Bannon. Por falar nisso, há um achado que considero genial no conto “Três irmãos”, em O rei da terra: “Logo está lavando as mãos e abrindo os armários – não é o espelho o melhor esconderijo de um fantasma?”.

Vocês sabem, há humor pra se gargalhar, pra rir, pra sorrir, às vezes apenas mentalmente, e há um humor tão duro, tão cortante, que nossa reação talvez seja o silêncio ou uma exclamação de espanto. Há no Dalton de tudo um pouco, mas, claro, o predomínio é de Jack, o Estripador, disfarçado de palhaço. Outra coisa amarga: os heróis dele são tão escrotos que não dá pra gente torcer por eles.

Meu exemplo favorito, pra ilustrar essa quizumba, é de um conto chamado “Barata leprosa”, que acho que li no Pasquim e nunca encontrei em livro, que me lembre. Trata-se de um suspiro de absoluta solidão: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico, como eu a faria feliz!”

Às vezes a coisa está na linguagem. Mas com o Dalton nunca é apenas a linguagem, as palavras estão a serviço sempre, nunca por elas mesmas. A dor mais banal, com um pequeno toque de mão, se revela patética, sem falar que traça a estreiteza do universo da personagem, como nesse lamento de incompreensão de uma mãe tirada das páginas de A trombeta do anjo vingador: “Era cruel com o velho por amor ao filho? Como podia o filho não ficar ao seu lado? Se não era ela, quem enchia de água o filtro? Sempre lavando e chorando, varrendo e rezando, quem sabia fritar o ovo dos dois lados?”

Como disse, talvez na maioria dos casos seja mais ironia que humor. Isso acontece com Machado também. Só que no Machado isso é notado e cantado em prosa e verso. Pelo menos hoje em dia. Daqui a cem anos, por motivos de força maior, não terei como saber o que aconteceu, mas tenho minhas dúvidas de que haverá muitos interessados em ter vampiro como modelo. Quem tem jugular, tem medo.

Cortes e recortes

Há uma observação do Stevenson, num ensaio, que me parece de uma sensatez luminosa. Se você pede pra um menino contar seu dia, ele não vai dizer que ao se levantar desabotoou seis botões do pijama, deu quinze passos até o banheiro, abotoou tantos outros botões da camisa, tomou sete goles de café com leite, mastigou vinte vezes o pão com manteiga e desceu vinte e dois degraus pra sair de casa. Ele vai separar os fatos significativos, apenas. Daí que não interessa o acúmulo de descrições e detalhamentos, embora muitos escritores insistam, por pura tara ou tomado de uma espécie de êxtase.

O Dalton, entre dezenas de fatos e de detalhes, separa só os que interessam, quer dizer, aqueles que ilustrarão a ausência do resto, porque os silêncios, as lacunas são parte integrante do texto. Pra isso é preciso ter ótimo olho e precisa, também, ter vivido um pouquinho, não? Sem ter vivido e pensado no que se viveu não se tem a menor ideia do que importa.

O fato de Trevisan ser econômico ao extremo, de apostar em detalhes às vezes ínfimos, exige muito do leitor. De modo que é preciso reler – e reler como um Nero Wolfe examinando o depoimento de um suspeito. A cada releitura, nos damos conta do quanto deixamos escapar. A cada releitura, o Dalton se revela melhor do que pensávamos.

Vejamos um trechinho do dia a dia de um viúvo em Desgracida: “De volta à Pensão Bom Pastor com um jornal, às vezes uma revista. Um pouco de jornal, daí o rádio, logo me chateio. Mais jornal, suspiro, os pequenos anúncios, gemido. No fim começo a falar sozinho. Sabe que faz bem?”.

Deu pra notar? Ele recorta com tesourinha uns cacos de realidade e os cola numa ordem e com uma precisão perfeitas, quero dizer, de um modo que o efeito é cem vezes mais poderoso do que um acúmulo de cenas ou descrição de três páginas de lágrimas e lamúrias. É isso o que o humor e a poesia fazem quando são humor e poesia pra valer.

Acho esse trecho exemplar. Repito, o Dalton é o verdadeiro gigolô das palavras. Ele bate nelas pra mostrar quem é que manda no pedaço. No texto dele, as palavras nunca estão lá pra se exibirem apenas. Estão sempre em função da expressão. Elas são sempre meio, nunca fim.

Por falar nisso, li em algum lugar que o estilo do Dalton é antiliterário. Não entendi no primeiro segundo. Tive de lembrar que o pessoal acha Iracema, do José de Alencar, literatura. Bom, é literatura, no mau sentido do termo.

Pequenos fatos, pequenas observações

Há muitos exemplos de humor em pequenos fatos, ou em observações de passagem. Vejamos alguns.

No conto “Morte na praça”, há uma ceninha em duas frases: “à passagem do morto as lojas iam fechando as portas. Os homens revezavam-se nas alças do caixão: o cemitério perto, mas o defunto pesado.”

Detalhes realistas, simples. Primeiro, o fechamento das lojas indica um costume da época, talvez um respeito convencional, todo mundo se conhece na cidadezinha. Depois, a troca nas alças do caixão. Até aí, tudo normal, o leitor pode pensar várias coisas, até que os homens se revezam pra todos terem oportunidade de carregar o morto. Mas quando Dalton nota que o cemitério é perto e o defunto pesado, temos algo cômico. Ele não se deixa contaminar pela solenidade da situação. Na verdade ele premeditou a coisa. Veja, se ele diz apenas que o cemitério é longe ou que o defunto é pesado, não tem graça. Se diz que o cemitério é longe e o defunto pesado, força a barra, a graça diminui. Mas ao contrastar a distância e o peso, ele faz a formulação perfeita.

Lembrem do Mario Quintana falando do mistério da comicidade. Se você vê um perneta descendo a ladeira, qual a graça? Mas se você vê três pernetas descendo a ladeira? Há inumeráveis detalhes nos contos que provam que esse mistério não é nada misterioso para o Dalton.

Há quase a mesma piada no conto “Uma coroa para Ritinha”, do volume Abismos de rosas. Quase, porque aqui o cômico é melancólico, poético até. Vejamos: “Ali do cemitério poderiam ir todas para o bordel das normalistas. Disputavam uma alça do caixão, a da frente reservada para ele, que abria o cortejo. Como é que, tão leve nos seus braços, pesava tanto no caixão?”

Vocês lembram do conto “O caniço barbudo”, do livro Frufru Rataplã Dolores? O herói é todo doente, apaixonado pela mãe e, claro, tem ódio do pai. Quando o velho morre, o herói “Renova sempre a assinatura do jornal preferido do pai. Despreza as notícias de terremoto, ataque terrorista, inundação diluviana. O interesse antes nos pequenos anúncios que no fim do mundo”.

Talvez se possa dizer que o Dalton também despreza terremotos, ataques terroristas, inundações diluvianas. Que o negócio dele, como escritor, são os pequenos anúncios. Ele lida com os dramas cotidianos, muito particulares. Naturalmente que esses dramas valem em qualquer canto do mundo. Ele trabalha com uma lupa, nunca olha de longe, os movimentos das tropas não interessam, ele quer saber por que certo soldado manca. Ele é o ás do detalhe preciso, mas que muitas vezes parece banal. Quando digo preciso quero dizer que através dele temos o resto, a pessoa toda e, se somos chegados a somar dois mais dois, essa pessoa dentro do dito contexto maior. O mundo indo para o brejo e o camarada se queixando de que o sapato aperta o calo no joanete. Como se vê, é um retrato aterrorizante do bípede implume – o egoísmo, a irrelevância, a burrice extrema.

Se lermos com cuidado uns dez dos melhores contos do Dalton, compreenderemos mais facilmente o que acontece no país hoje do que lendo todo o jornalismo da grande imprensa. Mais, compreenderemos inclusive a calhordice da grande imprensa com seus eminentes colunistas chapas-brancas. Não conheço obra que tenha mais gente canalha ou burra ou maluca. Ou gente com tudo isso e mais alguns novos predicados.

No conto “O segredo do noivo”, do livro O rei da terra, temos um rapaz atormentado por um drama que só podemos supor. Ele quer mostrar pra noiva o que o atormenta, como quem deseja mostrar um objeto que precisa de distância e discrição. Ela não aceita, prefere casar e resolver tudo depois. Ele avisa: se você não for minha, não será de ninguém. A insinuação, claro, é que ela “não pode” ser dele.

Bom, na noite antes do casamento temos a seguinte cena: “Não dormiu aquela noite, a família ouviu que João andava pelo quarto. Três tentativas ele fez e nem uma deu certo: prendeu um fio no teto, amarrou na ponta um lápis vermelho e com a força do pensamento queria girá-lo. Com a mesma ordem dos olhos encarniçou-se por apagar a chama de uma vela. A terceira é muito triste para contar”.

Esse fecho é perfeito – e muito engraçado. Mas qual seria essa triste terceira tentativa? Alguém aí tem um palpite? Tremo só em pensar no que um psicanalista diria. Talvez, pra começo de conversa, que o lápis vermelho é um símbolo fálico. Afinal, tem forma cilíndrica e é vermelho, não? Fazer girar o lápis com o pensamento seria a vontade de fazer o pingolim se levantar? E apagar a chama da vela? Apagar o desejo pelas mulheres e tocar a vida? Mas a terceira tentativa ainda é mistério.

Pelo menos um exemplo de humor direto, brincalhão. No conto “Vozes no retrato” (na versão mais recente, não a de Desastres de amor:

“Com arte feiticeira desencantara um retrato de João.

“– Credo! Olhos fatais de Dom Pedro Primeiro”.

De volta ao grotesco. No conto “A gorda do Tiki Bar”. Primeira linha, a ironia direta: “Cambaleou na luz negra do inferninho: quanto mais escuro, mais lindas rainhas”. Mais adiante, ainda na mesma linha: “Credo, bem. Mais tarado que o meu marido”. Por fim, isto: “Nu, de meia preta e relógio de pulso. Ela surgiu balouçante na pontinha do pé, encheu todo o quarto. Se não a esperasse, teria gritado de susto”. Parece que estamos numa daquelas comédias do cinema italiano da década de 70, quando os índices relativos do ar eram carregados de sarcasmo.

O vampiro de Curitiba

Vamos falar do conto “Vampiro de Curitiba”? Talvez seja inevitável, deve ter gente esperando, vão me cobrar se não falo. Quem sabe o Dalton, com uma obra tão extensa, sinta algum ressentimento por esse conto, que recebe um destaque que em muitos momentos ele pode sentir como imerecido. Ou, nessas alturas, pode ter se resignado, não? Tanto que aceitou ser chamado de Vampiro de Curitiba, confundindo a imagem do escritor – que jamais deu moleza pro sentimentalismo, segundo muitos o principal fator de sucesso – com a do tarado escroto.

Seja como for, o fato é que esse conto se destaca, mas, veja, não porque o Dalton não tenha muitos outros contos tão bons quanto esse ou melhores. Literatura não é concurso de miss, onde se mede a beleza com fita métrica, o que, em minha opinião, é uma ofensa às mulheres em geral e à Fanny Ardant em particular.

Não gosto muito de comparar autores ou livros. Não acho que seja justo. Cada autor, cada livro têm suas intenções, mexem com coisas secretas e profundas que às vezes mal transparecem, enfim, são aventuras diferentes. Depois tem a pessoa que avalia, com suas manias e miopias – mais importante, com seus segredos que às vezes não confessa nem a si mesma mas que o texto pode despertar. Ao comparar dois autores o que mais aparece somos nós mesmos. Eu, faço questão de reconhecer, gosto de coisas diferentes conforme a época, ou até o dia. Ou gosto das mesmas coisas de modo diferente, conforme o tempo.

Acho que o que faz a diferença nesse conto é que ele nos dá um personagem – e nos dá de corpo inteiro, em poucas páginas. Só isso já é imenso. Mas isso é feito num conto que nem tem enredo, não tem história. É só um cara divagando enquanto olha as mulheres na rua.

Quem encarna na gente é o personagem. É que nem o Quixote, que em seguida não precisou mais do Cervantes. Até o Rocinante logo não precisou do Cervantes. Eles, o Nelsinho, o Quixote e o Rocinante andam por aí sozinhos, independentes. Como no caso do Cervantes, muita gente que não leu o Dalton já ouviu falar do vampiro de Curitiba.

Acho que isso acontece, primeiro, porque o Dalton acertou no retrato, que é feito menos de fatos do que de um modo de falar e de ver o mundo. Segundo, porque esse sujeito, em toda a sua escrotidão, encontra eco na gente ou em nossa memória, em nossa experiência.

Vejamos isso melhor. Quando Nelsinho vê na rua uma mulher com o marido, pensa: “Disfarce, vem o marido, raça de cornudo. Atrai o pobre rapaz que se deite com a mulher. Contenta-se em espiar ao lado da cama – acho que ficaria inibido. No fundo, herói de bons sentimentos”.

Essa observação me lembra outro personagem de um conto de que não lembro o nome. O sujeito diz: “velho sujo também tem sentimentos”. Talvez nossa identificação, maior ou menor, com o vampiro de Curitiba seja o reverso disso: boas pessoas também têm sentimentos sujos.

Outra coisa: esse conto é cheio de energia, é contagiante e engraçado. Pelo menos eu acho engraçado. O que não dá pra negar é que é extremamente irônico. E a ironia às vezes se volta contra o próprio personagem, que por alguns segundos parece se dar conta da própria loucura.

Nelsinho se define nas primeiras frases: “Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz”.

O sexo é o caminho da felicidade mas é um perigo mortal. Pobres mulheres. Porque Nelsinho atribui a felicidade e a dor a elas, felicidade e dor inseparáveis. Curitiba está menos no mapa do Brasil do que no Velho Testamento, a meio caminho entre Sodoma e Gomorra. Nelsinho não pensa que tem parte ativa no negócio. Até o fato de ele ser um canalha, oco de pau podre cheio de aranhas e escorpiões, é devido à existência das mulheres.

Em outros contos isso é levado ao delírio. O sexo trazendo embutida a punição pelo prazer. Lembrem-se de personagens transando com as mulheres mais horrorosas. O velho sujo, em nome dos seus sentimentos, tem de se punir. É uma doença monstruosa.

Há outra coisa presente em todo o devaneio do vampiro. A boquinha dela está pedindo beijo, certo? Mas onde o sinal disso? Pro Nelsinho o fato de essa boquinha existir e ser bonita é prova de que está pedindo beijo.

Mesmo que isso fosse verdade, pede pra quem? Nelsinho jamais pensa que uma mulher pode ter desejo e esse desejo ser legítimo e natural – e, note-se, com endereço específico. É sempre uma safadeza, um pecado. Se o desejo é por ele, é porque ele é poderoso, nada menos.

Não é exatamente assim que pensam os que dividem as mulheres entre as que merecem ou não merecem ser estupradas? Frase, aliás, que poderia ter sido dita por Nelsinho.

O estupro pode ser apenas o exercício da lei do mais forte, lei tão onipresente quanto a lei da gravidade. Mas em muitos casos também é punição. Pela lógica do vampiro, mulher nenhuma tem o direito de ser bonita, de querer ser vista e de não ter interesse pela maioria dos homens ou ter, que Deus atalhe, por outras mulheres. E se se entregar a muitos homens, é a pior das putas, merece a morte do mesmo jeito. Enfim, nas mãos do vampiro, mulher nenhuma tem escolha nunca. Ou é a Virgem Maria ou a puta da Babilônia.

Peço paciência: vamos pensar no óbvio ululante.

Por que uma mulher não pode ser vaidosa? Por que ela não pode desejar ser admirada? E, ao mesmo tempo, dar apenas pra quem ela quer dar? Só porque ela é bonita e vaidosa tem de pagar pedágio pra todo marmanjo que aparecer?

Os homens também não são vaidosos? Também não querem ser admirados por todas as mulheres? Mas, ao mesmo tempo, não querem ser agarrados por todas, só pelas que acham bonitas e interessantes, não é mesmo?

Olha, estou mastigando isso tudo porque conheço muita gente que acha que o Dalton está ultrapassado, que fala de um mundo que não existe mais, que Curitiba não está mais entre Sodoma e Gomorra apesar do esforço dos fundamentalistas evangélicos. Esse mundo poderia dizer, como Mark Twain, que sua morte foi um tanto quanto exagerada.

Há algumas semanas li, não lembro se no El País ou no UOL, as seguintes manchetes: “A cada 4 minutos, uma mulher é espancada”; “A cada 4 horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada”.

Nelsinho continua em ação. Sem bigodinho, mas é ele, talvez fazendo o tipo lenhador. Sem dente de ouro, agora com dente de porcelana, mas é ele.

Bom dia, Marcelo Medeiros

Bom dia, Marcelo Medeiros

Eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Bem, depois falo sobre isso.

Para 2020, o Inter deve ser pensado, repensado e, talvez, dispensado. Inclusive tu, Marcelo. É claro que tu não vais renunciar, então digo que talvez eu — ou a torcida — vá dispensar o clube em 2020. Alguns farão política contra ti, claro. Eu não sou candidato a nada, mas te digo que estou cansado de nosso futebol.

É demais. Tu estás finalizando três anos de gestão e, OK, subiste em 2017 da segunda para a primeira divisão. Só isso e  mérito nenhum. Afinal, até hoje, todos os grandes subiram no primeiro ano. Tua administração foi tão opaca que conseguiste subir sem brilho, na segunda colocação.

Tua administração é um mero balcão de maus negócios. Para quem foi boa a contratação de Natanael, por exemplo? Ele recebe 280 mil por mês em três anos de contrato. Jogava na Bulgária, imaginem. Sua estreia foi tão ridícula que ele nunca mais voltou a entrar em campo. É reserva do desastroso Uendel. Quem ganhou com esta contratação obscura, que provocou gozações do pessoal do Athlético-PR, onde ele atuava antes de ir para a Bulgária? Quem ganhou?

E Natanael não é o único. Há Parede — este joga mal e sempre, vocês dizem que vão contratá-lo… –, Bruno Silva, Tréllez, Rithely, etc. Negócios, apenas negócios, sem futebol.

E o pior é que temos bons meninos na base. Gostaria que se tivesse com eles a mesma paciência que temos com o Parede, Edenílson, Patrick, Uendel, que estão comprometendo o time há muito tempo.

Peglow — faz gols todo dia nos times da CBF –, Netto, José Aldo, Sarrafiore, a gente mal os conhece. E vocês contratando gente meia boca.

Como disse lá no início, eu não esperava a vaga direta para a Libertadores. Mesmo. Espero a baga na pré. O Fortaleza não pode mais encostar na gente, mas o Goiás, sim.

Sobre perder para o São Paulo no Morumbi; eu já esperava. Incrível como Zé Ricardo conseguiu esculhambar a única coisa que funcionava no nosso time, a defesa. Ontem, dava risadas com as patacoadas de Moledo e Cuesta.

Esta tua administração, Marcelo Medeiros… Demitir Odair sem um plano B engatilhado…

Guerrero na derrota de ontem à noite, uma das poucas boas contratações de um time que joga dinheiro pela janela | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

O Clube Pickwick, de Dickens, hoje está em Brasília

Uma das maiores tragédias da minha vida é já ter lido os Pickwick Papers — não posso voltar atrás e ler pela primeira vez.

Fernando Pessoa

Dickens é uma das felicidades da vida, uma das razões para se ter medo da morte.

Charlles Campos

Dias atrás, após mais uma leitura de notícias absurdas de Brasília, com participação especial atuação de ministros como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, presidente e filhos, etc., lembrei de um livro cômico muito fora de moda que li na juventude, As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens (1812-1870).

The Posthumous Papers of the Pickwick Club (mais conhecido em países de língua inglesa como The Pickwick Papers) foi escrito por Dickens entre 1836 e 1837. Na verdade, foi publicado em 20 partes mensais entre abril de 1836 a novembro de 1837, sob o pseudônimo de Boz. Ele apresenta nomes diversos tanto no Brasil quanto em Portugal, com variações como As Aventuras do Sr. Pickwick, Os Cadernos de Pickwick, Documentos de Pickwick, Os Papéis de Pickwick e Documentos do Clube Pickwick.

O romance narra as aventuras de um grupo de estudos científicos, o Clube Pickwick, composto pelo líder Mr. Pickwick (uma espécie de Quixote) e seus três pupilos: Mr. Tupman (o celibatário sempre apaixonado), Mr. Snodgrass (o poeta) e Mr. Winkle (o esportista). Financiados pelo clube, eles viajam pela Inglaterra — com particular ênfase no interior do país — fazendo descobertas e observando o desenvolvimento da ciência, assim como analisam as diversas variações no comportamento humano.

Mas todos são muito burros e suas conclusões são inacreditavelmente cômicas. Eu morria de rir lendo o livro. Não posso dizer que faça o mesmo lendo o que dizem Ernesto Araújo e Weintraub, mas a idiotia está tão presente que, se morasse longe do Brasil, riria deles.

O livro foi fundamental na carreira de Dickens. Ele obteve enorme êxito literário e reconhecimento popular durante a publicação do livro. Há um personagem sensacional, o criado do Sr. Pickwick, Samuel Weller. Sua entrada no romance teve efeito devastador, foi um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa fez com que as vendas mensais explodissem. Imaginem que foram vendidos 400 do número 4 e, após o surgimento de Weller, as vendas cresceram de tal modo que chegaram a ser impressos 400.000 exemplares dos últimos números.

Thomas Carlyle, numa carta ao primeiro biógrafo de Dickens, conta o desconsolo de certo padre que, depois de prestar conforto espiritual a um enfermo, suspirou: “Bom, o que interessa é que daqui a dez dias sai mais um número dos Pickwick Papers, graças a Deus.”

Outro dos personagens do livro, o gordo Joe, foi utilizado posteriormente para caracterizar uma patologia alcunhada como síndrome de Pickwick (ou A Síndrome da Hipoventilação Alveolar da Obesidade), posto que Joe descreve fielmente um quadro da doença: obesidade e sonolência excessiva, acompanhadas de demais sintomas.

O livro tem muita crítica social. Quem está lá? Notem o que há em comum com o Brasil de hoje:

— A religião e os falsos pregadores, ou pregadores corrompidos.

— Os advogados e o atravancamento na execução da justiça, a distorção de leis e possíveis processos de corrupção.

— A magistratura corrente à época, que concede poder a cidadãos apenas voltados aos próprios interesses da classe.

— Os políticos e sua conduta desonesta, bem como o eleitorado irresponsável.

— O jornalismo sem compromisso com a verdade, o respeito e a imparcialidade.

— A sociedade burguesa, com sua hipocrisia e conduta interesseira.

— A corrupção do sistema carcerário de devedores e a falta de assistência ao cidadão mantido em regime fechado (muitos presos pobres morriam de fome e frio nas prisões, enquanto sistema jurídico permitia brechas que auxiliavam apenas os devedores ricos).

— O sistema de justiça, que desfavorecia o devedor trabalhador.

— O novo estado das relações entre patrão x empregado, motivado pelo advento da burguesia e da revolução industrial.

A tudo isso junta-se um turbilhão de boas piadas, ridicularizando a sociedade e entendendo como “naturais” as diferenças sociais. Weller (ou Veller) é inteligentíssimo — tem soluções fáceis para quase tudo — e portanto sabe da burrice do Clube Pickwick, mas como é o criado… Além disso, há uma pesada crítica ao espírito cientificista da época. Os personagens principais, embora abertos aos procedimentos racionais da ciência, demonstravam grande inabilidade para situações que exigiam praticidade e que protagonizam a maior parte dos episódios cômicos do livro.

Ainda me lembro da surpresa de que Dickens poderia me fazer rir alto, e foi isso que me fez amá-lo.

Pickwick é desigual e heterogêneo, mas genial. Como diz Chesterton, “Em Pickwick, Dickens não escreveu exatamente literatura, escreveu mitologia”.

Texto parcialmente copiado (adaptado) de fontes diversas.

Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

Do que o Inter precisa para ir à Libertadores 2020

O Flamengo é o campeão do Brasileiro de 2019 e, como também venceu a Libertadores deste ano, o que lhe garante classificação automática para o ano seguinte, criou mais uma vaga para esta competição neste ano. O mesmo fez o Athlético-PR: como venceu a Copa do Brasil e está em quinto lugar no Brasileiro, ele também criou mais uma vaga.

Então, estes dois competentes clubes fizeram o G-6 transformar-se em G-8, ou seja, teremos 8 times brasileiros na Libertadores de 2020 — 6 com vagas diretas e 2 na escorregadia pré-Libertadores.

O Inter está em sétimo lugar. Vejamos.

1 Flamengo 87 pts, 27 v
2 Santos 71 pts, 21 v
3 Palmeiras 68 pts, 19 v
4 Grêmio 62 pts, 18 v
5 Athletico-PR 60 pts, 17 v
6 São Paulo 57 pts, 15 v
7 Internacional 54 pts, 15 v
8 Corinthians 53 pts, 13 v
9 Fortaleza 49 pts, 14 v
10 Goiás 49 pts, 14 v
11 Bahia 48 pts, 12 v

Para não ir à Libertadores 2020, o Inter teria que perder duas posições, caindo para o 9º lugar.

Todos jogam mais duas partidas. O Inter contra o São Paulo — observem a colocação dos são-paulinos, se os vencermos quarta-feira assumimos o 6º lugar com 16 vitórias contra 15 e podemos incrivelmente pegar uma vaga direta — e contra o Atlético-MG na última rodada, domingo.

O São Paulo pega o Inter (C) e o CSA (F). Este resultado garante uma vaga, no mínimo, na pré-Libertadores.

O Corinthians pega o Ceará (F) e o Flu (C).

O Fortaleza pega o Flu (F) e o Bahia (C).

O Goiás pega o Palmeiras (F) e o Grêmio (C).

E o Bahia, com chances quase nulas, pega o Vasco (C) e o Fortaleza (F).

Ou seja, como Goiás e Fortaleza estão a 5 pontos de distância, está difícil cair fora da pré-Libertadores. E se empatarmos em pontos com o Corinthians, estaremos na frente em razão do menor número de vitórias dos paulistas. Já para a vaga direta, os sites de estatísticas dão entre 18 e 24% de chances.

Então, é melhor a diretoria reformular o time para 2020, pois estamos MUITO MAL.

Morre Mariss Jansons

Morre Mariss Jansons

Aos 76 anos, Mariss Jansons morreu na noite passada em sua casa em São Petersburgo. Ele tinha problemas cardíacos há bastante tempo.

Este ano, sua saúde tinha se deteriorado dramaticamente.

Mariss foi um sensacional regente. Filho do maestro letão Arvid Jansons e Araida, uma judia, Mariss permaneceu escondido durante sua infância na Riga ocupada pelos nazistas. Durante os anos em que Arvid foi vice-diretor da Filarmônica de Leningrado, Mariss memorizava o que ouvia.

Mariss foi autorizado a partir para o País de Gales na década de 1970, onde um impressionante ciclo de Tchaikovski foi transmitido na televisão nacional, e para Oslo, onde se tornou o diretor de sua orquestra em 1979.

Em 1996, Mariss sofreu um ataque cardíaco quase fatal enquanto dirigia La Bohème em Oslo. Somente a presença de um médico de ágil e a proximidade de um hospital salvaram sua vida.

No ano seguinte, tornou-se diretor musical em Pittsburgh, revitalizando a orquestra por mais de meia década até se cansar dos vôos transatlânticos. Desde 2002, dirigiu a Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera, mantendo seu status de melhor século na Alemanha, atrás apenas da Filarmônica de Berlim.

Ao mesmo tempo, ele ocupou a posição de maestro titular no Concertgebouw de Amsterdã entre 2004 e 2014. Suas gravações incluem leituras absolutamente magistrais das sinfonias de Mahler e Shostakovich.

Ele deixa uma filha, Ilona, ​​de seu primeiro casamento, e sua segunda esposa, Irina, que sempre o acompanhava.