Daqueles que não se denuncia (um bolsoconto)

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…

Mario Quintana – Cocktail Party

Será que eu vou ser obrigado a contar tudo isso pra alguém? Se for, talvez seja melhor organizar meus pensamentos. É uma história vergonhosa, dessas que quem conta não se orgulha. Como começar? Ora, certamente por Marina.

Marina não tinha onde cair morta, mas só comprava roupas caras; andava contando o dinheiro, mas jamais comeria numa lancheria de chão sujo; pagava a academia provavelmente pedindo dinheiro para a mãe e ia, ao menos uma vez por mês, ao melhor dos cabeleireiros. Estava no último ano do segundo grau da mesma escola pública onde eu estudava, mas parecia uma universitária da PUC. Ela tinha intuição para o que era bom. Ela sabia, sempre sabia. Talvez sua roupa custasse o mesmo que a das outras meninas, mas ela sabia comprar e usar melhor, acho eu. O deus que não existe fez com que ela nascesse numa família de baixa classe média, mas ela era diferente de suas amigas. Tinha algo em si que exigia e obtinha respeito. Não precisava advertir os meninos abusados de que passar a mão na sua bunda era proibido. Eles sabiam disso. Não era arrogante ou antipática, era distante, misteriosa. Sob seus pés parecia haver um tapete que a elevava e deixava sua cabeça nas nuvens. Ela não andava com fones de ouvidos como nós, sua tatuagem não tinha esquisitices, era no braço, feita de flores traçadas em delicadas linhas pretas. Ela não participava das brincadeiras mais idiotas, apenas sorria delas. Era bonita, claro, tudo devia ser consequência de sua beleza. Só que ela carregava aquilo com enorme classe. Óbvio: era a musa inalcançável, tema de nove entre dez masturbações dos meninos como eu.

Eu tinha um pouco de medo dela. Todo mundo tinha. Era uma mulher entre nós. Um dia, vimos Marina chegar à escola num carro diferente. Era uma caminhonete enorme, novinha. Notei que uns colegas largavam uns uau e elogiavam a nave. Ninguém de nós tinha carro, ainda mais um daqueles. A rapidez com que o respeito por ela transformou-se em desprezo foi, quem sabe, digna da velocidade potencial do veículo. Uns disseram para os outros é uma puta mesmo. Mas não ousaram falar diretamente a ela.

Acho que ela logo entendeu o novo ambiente em que pisava, mas não fez nada para impedir o avanço da onda. Precisava? O motorista era um homem mais velho, o que nos deu a certeza de que ela estava recebendo algum em troca.

Mas Marina permaneceu a mesma e a onda virou uma marolinha.

Um dia, fui com meus pais a um desses lugares de comida sem gosto, vegana. Eles tinham essas manias, ficavam uma semana comendo folhas e realizando loucuras no liquidificador e subitamente voltavam a transformar nossa mesa num crematório a céu aberto com duplo entusiasmo. Ainda bem. Bem, eu dizia que lá estava eu escolhendo alguma coisa que se parecesse com carne quando vi Marina com o cara bem no meio do restaurante. O homem devia estar lá pelos 30 anos e não calava a boca. Falava alto e não foi muito difícil ignorar o blá-blá-blá familiar e prestar atenção na conversa dele.

Credo, ele falava como um idiota.

– Marina, olha só. Tu sabe como eram as TVs nos anos 60? As pessoas ligavam aquela porcaria e ela tinha que esquentar até ligar. Tu já viu um Fusca? Pois é, aquela coisa funcionava mal, estragava a toda hora. Era o que todo mundo tinha, meu pai tinha um. Tu acha que naquela época existia tecnologia pro homem ir à Lua? É óbvio que o homem não chegou nunca à Lua. Nunca. Pensa bem, o cara sai daqui impulsionado por um foguete, como é que vai voltar de lá, se lá não tem outro foguete para mandá-lo de volta, entende? É tudo mentira.

Marina olhava pra ele com um sorriso paralisado, devia estar odiando aquilo, ainda mais que ela tinha me visto e era uma menina esperta. Ela sabia que eu ia ficar ouvindo o cara pontificar, todo ouvidos, como minha mãe diz.

É claro que o discurso foi indo na direção de que a Terra era plana e de que aquecimento global era uma bobagem. Eu decorava tudo o que o cara dizia para contar no Colégio. O discurso dele sobre fatos científicos acabou com um

– Tu acredita naquilo que tu não vê?

Marina permanecia com as feições de quem estava injetada de litros de botox na cara. Ainda assim era bonita, a desgraçada.

No dia seguinte, na escola, vi Marina chegar cedo, sozinha. Ela me olhou de volta, agora muito séria e eu mudei de ideia. Achei melhor guardar o segredo do imbecil da caminhonete. As aulas iam se sucedendo e, toda vez que eu olhava para o lado onde ela estava, recebia um olhar frio, talvez triste. Caralho, ela realmente tinha o poder de mandar na gente. Minha fofoca arrasa-quarteirão foi perdendo a força. Ela me olhava, me olhava tanto que me preocupou se os outros não estavam notando.

Eu era – sou ainda – um nerd, desses que se apaixonam por uma coisa e vão atrás. Meu problema era com os livros de detetives. Lia tudo de Simenon, Rex Stout, Agatha, Rubem Fonseca, Padura, para citar os meus preferidos. Mas também os outros. Onde houvesse um crime e um detetive, lá estava eu. É claro eu era muito branco, magro e usava só camisetas pretas. Tinha o uniforme perfeito para não ser observado pela mulher-tesão do colégio. Então, quem me lê tem que saber que eu sabia que ela me olhava por outro motivo que não transar comigo, OK? Me olhava porque estava de olho em mim, nas minhas ações, só isso. Paralelamente, talvez seja importante dizer que eu estava cada vez mais feliz com a atenção dela e nos imaginava em todas as posições do Kama Sutra. Tanto que quase esqueci de Mario Conde.

Então, dias depois, eu fui à biblioteca para procurar mais livros de detetives. Havia uma boa fileira deles no colégio. Todos doados por um certo Milton Ribeiro que tinha o péssimo costume de escrever seu nome e sublinhar cada livro. Você que me lê deve saber que os autores desses livros costumam escrever uma montanha deles. E esse Milton devia ser mais um tipo que, como eu, gostava de literatura inconsequente e não tinha mais onde enfiá-los. E eu me agachei em busca do Maigret desconhecido quando vi Marina entrar no corredor onde eu estava. Ela parou do meu lado. Eu agachado como um sapo, ela em pé como a princesa. Ergui o olhar e ela disse uma coisa bem simples, só duas palavras:

– Me abraça?

E eu tive a certeza que ela queria apenas algum tipo de consolo, entendi perfeitamente o que ela queria. Pus meus braços ao redor dela e a apertei. É claro que tratei de aproximar o púbis, afinal, sabe-se lá. Mas ela se afastou um pouco, liberando apenas o abraço. Ficamos assim durante um longo e prazeroso minuto. Os seios dela contra o meu peito, apesar de o professor de biologia ter dito que o nome correto era mamas. Depois ela afrouxou os braços no meu pescoço, disse que estava mesmo precisando daquilo e foi embora.

Minutos depois, eu já duvidava se o abraço tinha realmente acontecido. Voltei para a sala de aula com as pernas um pouco bambas, muito feliz e confuso. Busquei o olhar de Marina, que desta vez veio mais doce. Quando cheguei em casa, bati todos os recordes masturbatórios.

Passaram-se dois dias sem maiores contatos. Por mim, estava tudo bem, tinha atingido meu ápice. Não desejava mais do que seguir adubando minha imaginação. Eu e Marina no chão da biblioteca, eu e Marina sobre as mesas silenciosas dos leitores, eu e Marina encontrando-nos à noite com as portas fechadas, eu e Marina sendo flagrados nos banheiros e depois indo para a diretoria, eu e Marina de mãos dadas pelos corredores, eu e Marina andando numa caminhonete…

Pois, dizia eu, passaram-se dois dias até que ela se sentou comigo na escadaria de entrada do colégio. Ela me disse que eu sabia de coisas que não eram para serem contadas por aí. Mas o que eu sabia dela?

– Que eu saio com aquele cara ridículo.

– Isso todo mundo sabe.

– Só que tu ouviu aquelas bobagens dele.

– Eu só ouvi um papo que a terra era plana. Só isso.

– Não… Ouviu mais.

Eu falava a verdade. Eu só tinha prestado atenção nas besteiras. Afinal, a humanidade leva séculos para descobrir que vive numa grande esfera e, do nada, o cara conclui que não.

– Ah, Marina, eu tava mais interessado na comida.

Ela riu e pude ver que ela era realmente alguém de outro mundo. Sua beleza chegava a doer em mim. Eu tentava decorar o formato de seus lábios e olhos, dos mamas sob a blusa, das pernas, tudo para que minhas sessões individuais fossem mais realistas. O que Marina falava era ao mesmo tempo interessante e muito besta.

– Aquele cara votou no Bolsonaro e não se arrepende. É um policial que acha que bandido bom é bandido morto, que quem fuma um de vez em quando é vagabundo. Mas ele me protegeu numa confusão em uma festa e eu sou uma burra. Acabamos ficando na noite da confusão e, bem, desculpe.

– Eu não tenho que desculpar nada, imagina. Tu sai ou fica com quem tu quiser. Mas por que tu fica com um escroto desses?

– Ah, é complicado. Ele é bonito, me trata bem, é gentil, me agrada, tem um grande grupo de amigos, todo mundo gosta dele, me leva a lugares onde eu não poderia normalmente ir. E não me incomoda quando eu dou meus rolês. Na verdade, eu não me preocupo com o que ele pensa, mas é claro que ele me envergonha quando é radical.

– Radical?

Eu achei ridículo o que ela disse e propus que fôssemos para a praça em frente fumar um baseado. Foi bom. Ela era tranquila e irônica. Também era curiosa. Me perguntou que livros eram aqueles que eu carregava sempre e eu desandei todo o meu conhecimento sobre o assunto. Quer dizer, não todo, mas bastante coisa.

Então começamos a fumar diariamente. Eu entendia que ela gostava da minha companhia e que namoraria um cara como eu – OK, um com mais aparência. Ah, se eu tivesse um carro… Entendi outras coisas também, entendi que o policial queria alguém que fosse grato a ele, que lhe devesse favores. Mas eu não tinha nada a ver com isso, era apenas um amigo dela.

Também caminhava com ela depois da aula. Ia até sua casa e muitas vezes ficávamos na porta de seu edifício, de papo. Sim, de minha parte era o clássico amor platônico, uma bosta. Eu tinha medo de, com um avanço, acabar com aquela amizade, tão boa e cheia de fantasias minhas. Eu sempre pensava que ela queria que eu a abraçasse e beijasse, mas ela me matava contando onde fora com o namorado, do motel que tinham conhecido e eu voltava correndo para a imaginação.

Eu criei uma imagem de Marina. A linda mulher legal que estava escravizada a um escroto por circunstâncias de pobreza. E eu não tinha nada a perdoar ou criticar. Ela caminhava comigo, sabia que eu estava apaixonado, mas não se incomodava. Nem eu.

Só que um dia estava indo pro colégio quando um cara me puxou pelo ombro e me encostou violentamente à parede de um prédio. Reconheci o policial. Logo vi que ia apanhar pra caralho. Ele me acertou um forte soco no estômago e falou bem perto de mim. Eu tentava me livrar de seu hálito de cerveja enquanto ouvia.

– Seu maconheiro de merda, se tu tocar na minha gata eu primeiro te encho de porrada e depois tu vira presunto. Que fique bem claro, seu idiota, eu posso tudo.

Depois, ele pegou o meu pescoço logo abaixo do queixo e apertou para eu quase sufocar ao mesmo tempo que girava minha cabeça de um lado para outro, como eu fizesse sinal que não.

– Agora eu podia quebrar esse teu pescocinho de galinha, o que tu acha?

– Não, não, por favor — disse sufocando. — Eu não fiz nada, eu trato ela com o maior respeito. Sou só amigo.

– Mas e aqueles cigarros que tu faz ela fumar?

– Eu vou parar com isso. Não sou viciado. Nem ela.

– Não fala dela, só de ti, porra, Dela eu trato, eu falo. E quem é que traz o baseado?

– Eu, é culpa minha.

– Tu sabe o que eu faço com maconheiro?

Então ele bateu a minha cabeça na parede e me largou.

– Vai pra aula, franguinho.

Ele não tinha batido muito forte porque não fiquei tonto, mas saiu sangue.

Assustado, não atinei de ir para o colégio. Aliás, nem devia porque o sangue já estava descendo pelas minhas costas e eu ia ter que arranjar uma explicação. Não era um absurdo, mas minha a camisa preta devia estar molhada de sangue.

Cheguei em casa e deitei de bruços no chão, tentando fazer o sangue parar. Eu tremia de medo, pensando no que tinha acontecido. Quando me acalmei um pouco, levantei para lavar minhas roupas e vi minha mãe entrando em casa na maior gritaria. Uma vizinha tinha avisado que um cara estava batendo em mim e ela vinha toda louca, histérica. Pegou minha camisa e, chorando, perguntou se eu estava bem. Examinou o corte na minha cabeça. Claro que doeu, mas ela não deu muita importância, disse que era um corte pequeno.

– Me diz o que tu fez pra apanhar desse jeito?

– Nada mãe, eu converso muito com uma colega e o namorado dela teve uma crise de ciúmes.

Ela me olhou bem séria, fazendo sinal negativo com a cabeça. Que merda, nem minha mãe acreditava que eu estivesse comendo alguém. E não estava mesmo.

– O que aconteceu de verdade?

– Exatamente o que eu te disse, porra!

– Nós temos que ir dar queixa, fazer um B.O. e foder com esse cara que agrediu.

Então, em vez de eu ficar deitado em casa tentando me acalmar tive que ensinar minha mãe de que a polícia não funciona pra nós e que a gente tem que se cuidar por si mesmo. Não ia dar pista da profissão do cara que tinha me pegado porque ela podia armar barraca com os vizinhos.

Minha cabeça doía, latejava enquanto eu tentava ser o mais veemente possível, mesmo falando em voz baixa. Nada de polícia, mãe, nada de B.O. Tá doida. Esse cara é violento, parece que é traficante, domina a área, é daqueles que não se denuncia para seguir vivendo.

Devo ter sido convincente porque deu certo.

Bolsonaro quer mudar livros didáticos: “têm muita coisa escrita, tem que suavizar”.

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