Like a rolling stone

No dia anterior, ela visitara o ex-marido que ainda habitava o apartamento onde moraram por quase uma década. No momento de sua chegada, a filha correra para o lado do pai, como era habitual há alguns meses. Afinal, a mulher passara a encontrar defeitos em tudo que a enteada dizia ou fazia e a menina apressava-se em ir para a cama cedo todas as noites, antes que a mulher chegasse da faculdade — ou das festas.

Mas naquele dia ela viera muito cedo, por volta das 20h. Quando entrou na sala, tinha vermelha a face de ossos proeminentes, ainda mais inchada do que o normal. Ela disse que precisava da chave do carro.

— Por quanto tempo?

— Dois ou três dias.

— Tudo bem, estão aqui.

E ela foi embora, não sem antes deixar no ambiente algumas ofensas, as quais foram recebidas com risos pelo marido e apreensão por parte da filha. Desde dezembro, quando Marcos anunciara sua intenção de não fazer mais tentativas de fertilização in vitro, ela tratava a filha com visível desdém. O casal estava separado há três meses, desde que o marido descobrira o adultério da mulher, concretizado com um amigo da família.

Desde então, ela estava morando na casa da mãe ou no apartamento do novo namorado. Eles ainda não tinham conseguido conversar a respeito dos acertos necessários. Na única visita que a mulher fizera ao advogado que ele constituíra, ela saiu batendo a porta, chamando-o de desaforado.

No dia seguinte, Marcos trabalhava normalmente quando recebeu uma ligação. Era de sua ex-mulher e ele atendeu prontamente, pensando que ela lhe faria algum gênero de proposta de separação. Mas não. Ela lhe comunicou aos berros — e com um turbilhão de ofensas de baixo calão — que tinha trocado as chaves da porta do apartamento e que ele deveria morar, por apenas quinze dias, na casa dos fundos, bem conhecida dele, já que sua mãe passara os últimos dias de sua vida ali. Suas roupas e alguns poucos pertences estavam lá.

Marcos desligou o telefone no meio da ligação e telefonou para sua filha. Esta já sabia de tudo e falou que a mulher estava louca. Ligou então para sua irmã, que também já tinha sido informada. Ligou então para vários amigos. Estes não sabiam de nada e ofereceram quartos para que ele passasse alguns dias. Eram unânimes; ele não deveria voltar lá. Marcos não pensava assim, achava que podia ficar na ex-casa de sua mãe por alguns dias. Ligou então para sua recente namorada e ela reafirmou: voltar está fora de questão. É que depois da agressão moral gratuita, os amigos tinham receio de outros ataques, verbais ou até físicos. De qualquer modo, Marcos foi até lá com um amigo. Chegaram calmamente, analisando o caso. Discutiam principalmente o caráter adesista, verdadeiramente peemedebista, da vizinha de cima. Riam das transformações instadas pelo oportunismo.

Ele foi até a casa de trás. Lá, viu suas coisas atiradas, trocou de roupa e foi embora. Recebeu um telefonema. Era um amigo mandando ele ir ao concerto daquela noite, pois Eugênia sempre comparecia, tinha ambições políticas e estava montando uma Associação de Amigos da orquestra que daria o concerto. Ele deveria aparecer bem vestido e tranquilo. Marcos concordou.

Quando desceu as escadas com o amigo, olhou para a sacada de seu apartamento e viu Eugênia falando ao telefone. Ela voltou o rosto para ele. Este estava ainda mais inchado e vermelho.

Marcos foi ao concerto. Depois, foi a um pequeno hotel da rua marechal Floriano, onde deitou-se numa boa cama para receber uma chuva de pó de cupim, que entrava na boca e nos olhos e que lhe fez dormir de bruços. Pela manhã, tomou banho e foi trabalhar. No dia seguinte, quando saiu do trabalho, fez pela primeira vez aquilo que se tornaria um hábito. Por motivos óbvios — afinal, era uma pessoa asseada –, foi com seus colegas de trabalho na loja Só Cueca da Sete de Setembro, depois subiu até a Jerônimo Coelho para comprar meias e desceu até a loja da Hering da Rua da Praia para comprar uma nova camiseta. Com o tempo, na Hering, tornou-se uma da diversões das atendentes. Ao final da tarde chegava e perguntava o que deveria vestir no dia seguinte. Tinha que combinar com sua única calça e sapato. Elas usavam toda a sua criatividade para que ele tivesse as melhores combinações para sua calça bege e sapato marrom. Só que naquele 23 de outubro, Porto Alegre recebeu uma das maiores chuvas de sua história e a coisa não estava engraçada. Os sapatos reclamavam em voz alta, as calças estavam sujas, sujíssimas, e ele teria que lavar, mas como?

Já estava tirando par ou impar entre a casinha de sua mãe e o hotel dos cupins. Subiu a Mal. Floriano e viu-a transformada numa cachoeira. Mas não podia desobedecer à ordem dos amigos e da namorada, eles foram seus esteios. Havia vários oferecimentos de quartos, mas cadê a cara-de-pau? Marcos estava pegando o telefone para falar com alguém, ao mesmo tempo em que se dirigia vagamente aos queridos cupins, quando ele tocou. Era sua namorada dando-lhe uma quase-ordem:

— Não te preocupa com a chuva, vem para cá. Meus filhos estão na casa do pai. Tenho lavadora e secadora. Amanhã, tudo estará limpo.

Eram namorados recentes e ele ainda não tinha dormido na casa dela. Os sapatos ficaram no corredor. Marcos entrou na ponta dos pés. Mora lá há mais de cinco anos.

Bom dia, Odair (com os lances da chatice NH 0 x 2 Inter)

Bom dia, Odair (com os lances da chatice NH 0 x 2 Inter)

O Internacional largou com uma vitória fora de casa na busca pela vaga na semifinal do Gauchão. Com gols de Nico López e Sarrafiore, venceu o Novo Hamburgo por 2 a 0 na noite deste sábado (23), no Estádio do Vale. Com o resultado, o Inter pode até perder por 1 a 0 na partida de volta, marcada para as 21h30 da próxima quarta-feira (27), no Beira-Rio, para confirmar a classificação à fase seguinte.

Nico e Sarrafiore: quanto tempo Odair levará para descobrir que o argentino deve ser o articulador do time? | Foto: Ricardo Duarte

É sempre a mesma história. Uma chatice. A defesa não sofre gols — Lomba está invicto há mais de 500 minutos –, o ataque não cria. O jogo fica horroroso. Odair tira Pedro Lucas e bota Tréllez, sempre sem resultados, pois o primeiro é um menino inexperiente e o segundo é um inútil. Então, Odair tem uma iluminação — sempre a mesma iluminação! — e bota um articulador que pode ser Sarrafiore, D`Alessandro ou Camilo e a coisa passa a funcionar muito melhor. No jogo seguinte, é a mesma coisa. Bah, cansa! Cansa e só serve para jogos contra times fracos.

É o mesmo esquema de substituições… Acho que a gente poderia entrar diferente e matar logo o jogo na quarta. O que achas, Odair?

Sim, eu sei. Tu tens resultados, mas precisa ser tão chato? Em um ano e meio, tu tens:

— 41 vitórias,
— 18 empates,
— 14 derrotas,
— vaga direta pra Libertadores (desde 2015 não acontecia),
— 1ª vez na história o Inter começa a Lib com 2 vitórias nos 2 primeiros jogos,
— em 2018, 82% de aproveitamento no Beira-Rio (só 2 derrotas).

Mas, repito, precisa ser tão chato?

O compacto do Inter começa aos 42 segundos do vídeo abaixo.

Convidada, a pesquisadora Ana Pizarro nega-se a ir a almoço com Bolsonaro no Chile

Convidada, a pesquisadora Ana Pizarro nega-se a ir a almoço com Bolsonaro no Chile

Ana Pizarro foi convidada para almoçar com Bolsonaro e membros do governo chileno e diplomatas neste próximo sábado (23). Ela negou-se a ir ao almoço através da carta abaixo. Quem é Ana Pizarro? Ela é chilena, professora e pesquisadora da Universidade de Santiago do Chile e doutora em letras pela Universidade de Paris. Especialista em temas relacionados com literatura e cultura na América Latina, já trabalhou em centros de estudos e universidades no Chile, França, Argentina, Venezuela e Brasil. Seu projeto de pesquisa Perfil cultural da área amazônica foi agraciado com a Bolsa Guggenheim, em 2002. Organizou as seguintes obras: La literatura latinoamericana como processo (1985), Hacia uma historia de la literatura latinoamericana (1987), El archipiélago de fronteras externas, entre outras. Sua obra mais conhecida no Brasil é a trilogia América Latina: palavra, literatura e cultura (1993-1995). Também foi editado no Brasil, pela EdUFF, em 2006, a coleção de ensaios O Sul e os trópicos. Atualmente é pesquisadora e professora do Centro de Estudos Avançados da Universidade de Santiago do Chile.

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Santiago de Chile, 21 de marzo de 2019.

Carta abierta al señor Presidente de la República

Exmo Señor Sebastián Piñera y Señora Cecilia Morel
Presidencia de la República de Chile

De mi consideración:

He recibido su invitación a participar en un almuerzo en La Moneda con ocasión de la visita del Presidente de Brasil Señor Jair Bolsonaro.

Brasil es un país que he aprendido a admirar profundamente en su historia , su gente,su diversidad social, étnica, cultural a lo largo de treinta años de trabajo como investigadora en diversos estratos de su población, a lo largo y ancho del territorio. Tengo premios internacionales en relación a ello.

Digo esto para explicarles mi negativa a participar del almuerzo en honor al Presidente Bolsonaro al que me invitan.

No voy a referirme a las desafortunadas y ya divulgadas expresiones del Presidente Bolsonaro relativas a la mujer, sus discriminadoras frases respecto de otros géneros y etnias que no respondan a su concepción de superioridad del sujeto hombre (macho), blanco, heterosexual, y occidental. Responden a una pérdida de privilegios,a la amenaza que se percibe en el empoderamiento logrado por estos sectores en las últimas décadas, como bien lo ha señalado la analista brasileña Eliane Brum. Tampoco a sus afirmaciones sobre la tortura y la muerte, que de tan graves caen en la caricatura.

Los últimos veinte años los he dedicado a la Amazonia, esa tierra paradisíaca que vio Euclides da Cunha, en donde el ser humano es “un intruso impertinente”. Como es sabido más allá de su riqueza cultural, se trata de un lugar de yacimientos minerales enormes. De uno de los mayores reservorios de biodiversidad del planeta, fundamental para su equilibrio climático, que, de acuerdo a un estudio reciente de la Universidad de Leeds desde 1980 ha absorbido aproximadamente 430 millones de toneladas de carbono por año, es decir cuatro veces las emisiones del Reino Unido. En medio del aumento del calentamiento global, el Presidente Bolsonaro apunta al retiro de su país del tratado de Paris y se suspende la Cumbre del Clima (COP25) con sede en Brasil , que dice relación con esto, lo que significa negar su importancia.

Sus proyectos empresariales en relación a la Amazonía no encierran menos peligro. Su intención es desarrollar la Amazonía “improductiva” y “desértica” a través de megaproyectos como el llamado Barón de Rio Branco en el rio Trombetas. Construcción de represas y carreteras que favorecen a los cultivadores de soya, sus apoyos electorales.No existen para él las comunidades indígenas ni quilombolas que a través de decenas de años de lucha y cientos de años en el lugar han logrado demarcar sus tierras. Ya no hay protección.

La institución demarcadora ahora es el Ministerio de Agricultura. El lobo cuida las ovejas. Las tierras públicas pasan a manos privadas y se abre la Amazonía a la explotación de soya, ganado y minerales. Estas decisiones ya tienen antecedentes en ese país: comienza la destrucción de la selva y el curso de los ríos, con sus consecuencias,la entrada de los taladores ilegales, la minería ilícita, la ganadería destructora, como lo fue en Acre con la desaparición de los castañales, los robos de madera con camiones sin patente por la selva y los troncos flotando sobre los ríos. El paraíso se vuelve infierno, y ese infierno nos incorpora a todos.

No voy a extenderme, señor Presidente. Solamente quiero explicar porqué no asistiré a la invitación al almuerzo del día sábado 23 de marzo de 2019, en la Moneda, en honor al Presidente Bolsonaro, al que tan gentilmente ustedes me invitaron.

Le saluda atentamente

Ana Pizarro
Doctora de la Universidad de París.
Ex-Académica de la Universidad de Santiago de Chile

Ana Pizarro, pesquisadora na área de Cultura Latino-Americana | Foto: UESPI – Universidade Estadual do Piauí

Árias de Bach

Estava caminhando para a Livraria Bamboletras ouvindo umas Cantatas de Bach — mais exatamente a BWV 154 — quando lembrei de um momento de minha adolescência. Estava sentado na cadeira de balanço que tinha no quarto de meus pais, ouvindo uma de minhas primeiras Cantatas, quando me dei conta de que as árias que as formavam eram canções, mais ou menos como as que faziam Chico Buarque, Caetano, Lennon e McCartney, etc. Havia um incrível sol matinal entrando pela janela e eu me balançava ao ritmo da música, provavelmente.

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 0 NH)

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 0 NH)

Jogando pessimamente no primeiro tempo e melhorando um pouco no segundo, o Inter fez o suficiente para vencer o Novo Hamburgo pela rodada final da primeira fase do Falso Charmosão 2019. Os gols foram de Guilherme Parede e Wellington Silva, ambos no segundo tempo. 2 x 0.

Com o resultado, terminamos a fase classificatória na segunda colocação, com 22 pontos ganhos. O adversário das quartas de final será novamente o Novo Hamburgo, com o jogo de ida sendo disputado no findi lá no estádio do Vale, e o segundo no Beira-Rio no meio da semana. As datas e horários exatos ainda não foram divulgadas pela justa e imparcial Federação Gaúcha de Futebol.

Em ascensão, Sóbis fez boa partida | Foto: Ricardo Duarte

Odair, tu voltaste a escalar um time sem armadores. Atacantes colocados como armadores não armam o jogo. Mais uma vez? Atacantes colocados como armadores não armam o jogo. Outra vez ainda? Atacantes colocados como armadores não armam o jogo.

Quando tu colocaste o jovem Sarrafiore e o rodado Camilo — jogadores nada excepcionais, mas articuladores natos –, o time passou a respirar e a criar oportunidades de gol. D`Alessandro, Odair, tem que ser a cerejinha do bolo, jamais a função de armação pode ser colocada exclusivamente nas costas de um jogador que fará 38 anos em 15 de abril.

Mas tu não aprende, eu sei. Sei também que a diretoria só contrata atacantes, mas fazer o que se só tem lugar para um ou dois no time?

Parede fez boa partida. O mesmo se pode dizer de Wellington Silva. Sóbis foi o melhor de todos.

Pottker e Dale foram mal.

A defesa não apresentou problemas.

No mais, foi um joguinho bem desinteressante.

Oremos para que sigamos com sorte na Libertadores. Porque futebol… Temos muito pouco.

Posso te ensin… Ops, posso fazer uma humilde sugestão, Odair? Tenta Dourado e Edenílson; Nico, Nonato, Wellington Silva ou Parede; Rafael Sóbis.

A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

A Ilha da Infância (Minha Luta 3), de Karl Ove Knausgård

Este é o volume 3 do imenso painel autobiográfico Minha Luta, de Karl Ove Knausgård. Me programei para ler um por semestre, mas garanto que foi complicado colocar este volume na estante sem pegar o quarto. E já tenho o quinto… Dizem que são os melhores da série. Em 2017, Knausgård recebeu o prêmio de melhor livro publicado na França por Uma Temporada no Escuro, o quarto volume.

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Aqui, a resenha do primeiro volume. E aqui, a do segundo.

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Neste A Ilha da Infância, Knausgård conta os primeiros anos de sua vida até a descoberta do sexo. Como sempre, ele parece estar contando nada, mas vamos sendo envolvidos de tal forma pelos detalhes de uma vida bem contada que acabamos grudados no livro. A memória do autor é prodigiosa em relação às impressões e sensações da infância. O segundo personagem do livro em importância é o pai de Karl Ove. O pai é um professor violento, astuto e às vezes sádico. Tem aguda intuição para descobrir os erros e as brincadeiras proibidas dos filhos — Karl Ove tem um irmão mais velho. O nervosismo no contato com o pai não ajuda muito. Ele deixa Karl Ove paralisado, em casa e fora dela. E ele tem medo de tudo, pois qualquer coisa pode irritá-lo e Karl Ove chora muito — em casa e fora dela, repito –, foge muito e, claro, aprende a enganar, apesar da esperteza paterna.

Há cenas patéticas envolvendo o pai. Numa delas, Karl Ove está tomando leite com corn flakes e nota que o leite está talhado. Mas segue comendo a coisa porque denunciar o problema com o leite poderia irritar o pai… Uma vez, ele foi comprar uma camiseta de futebol — presente de aniversário — com o pai. O menino torcia para o Liverpool, mas na loja tinha não nenhuma de seu tamanho. Então pai o fez comprar uma do Everton. Para quem não sabe, o Everton é o grande rival de Liverpool na cidade. É como ir comprar uma camiseta do Inter e sair da loja com aquele horror que os gremistas usam. Outra vez, Karl Ove pegou duas maçãs a mais durante a noite. Pela manhã, seu pai deu pela falta delas e fez com que o menino comesse todas as restantes. Um monte delas, até se sentir bem mal.

As intrusões do pai contrastam com a ingenuidade e o bucolismo de uma infância decorrida num vilarejo de uma ilha norueguesa. As casas ficam afastadas uma da outra e a bicicleta é o meio de transporte para quase tudo — escola e diversão. As coisas proibidas — revistas pornográficas, brincadeiras mais livres, beijos — acontecem na floresta ou atrás dos morros. Todos se conhecem e uma ação vergonhosa tem boa repercussão entre pais e crianças.

Lendo este livro, lembramos de muitas sensações, pensamentos e vergonhas de nossa infância. Também lembramos de algumas lógicas particularmente equivocadas. O totalmente sem noção, a falta de jeito. A descoberta das mulheres é parte fundamental do livro. O menino de oito anos já se sentia atraído por elas. E até seus doze ou treze anos, ele olha, se apaixona, sente os cheiros dos cabelos, anda de mãos dadas, dá selinhos, apalpa, beija , sonha, fricciona. Mas a história sempre retorna ao medo na presença do pai.

A ilha da infância é menos reflexivo do que os volumes anteriores. Mas traz sua formação como leitor, as tardes solitárias, as lembranças, as histórias cômicas da inexperiência, as pequenas tragédias. Um livro mais leve e divertido.

Gostei muito.

Bom dia, Odair (sobre Grêmio 1 x 0 Inter, ontem)

Bom dia, Odair (sobre Grêmio 1 x 0 Inter, ontem)

Eu aprovei a atitude da diretoria colorada de colocar os reservas. Meus sete leitores sabem que eu, após a partida contra o Aimoré, já antecipava a escalação de reservas e nem sabia da absurda ampliação da suspensão de Nico López. Achei fraco usar Nico como justificativa.

O Gre-Nal de ontem não merece a importância que estão dando a ele. Meus comentários no Facebook, que são dirigidos sempre aos colorados, recebem cômicos ataques gremistas. Auto-indulgência, covardia, choro e kkkk é o mínimo. A maioria dos colorados se divertem. Para nós, ganhar ou perder não significava nada; para eles, significava um afago numa torcida que anda de nariz torcido depois das derrapadas do começo da Libertadores. O problema deles chama-se Libertad e Universidad Católica, que, a propósito, venceu o Colo-Colo ontem por 3 x 2, com mando do Cacique. Ou seja, Los Cruzados devem estar otimistas com seu time. Mas é natural que os gremistas fiquem felizes com a vitória de reservas sobre reservas. Foi uma vitória e o adversário vestia vermelho, é inegável.

Seria ótimo se Émerson Santos, emprestado pelo Palmeiras, ficasse no clube | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

É claro que aquilo que apresentamos não era um time treinado — aliás, nosso time titular não parece muito mais treinado… –, era uma coisa, mas pudemos fazer algumas observações bem consistentes.

O que sobrou do Gre-Nal:

— A zaga reserva do Inter é excelente: Émerson Santos e Roberto.
— Gostei também do tal de Parede.
— Dourado e Edenílson não têm reservas. Rithely ainda vá, mas o tal Lindoso não têm condições.
— Centroavantes? Só temos Sóbis (meia boca) e Guerrero (interrogação).
— Nonato — acho que serviu para aprender. Entrou em campo acelerado demais. Estava na cara que seria expulso. Mas seu cartão vermelho foi obra do Daronco. Quem faz a falta da expulsão é Rithely, conforme podemos ver aqui. Esse juiz é tão ruim que parece ser ladrão, mas acho que é somente ruim.
— Bruno foi bem.
— O último amistoso é contra o NH quarta-feira. Depois tudo é importante.
— Finalmente o Grêmio empatou com os Empates. Parabéns. Só que os Empates são insistentes e prometem voltar.
— Tréllez é piada. Se eu fosse diretor do clube tentava devolver. Centroavante que têm medo de chutar é inconcebível.
— Odair acabou conosco no primeiro tempo ao escalar um time sem armadores.
— Odair saiu-se bem na segunda etapa. Parecia que eles estavam com 10 e nós com 11. Importante: jogamos mais de uma hora com um homem a menos.
— “Grêmio lotou sua casa no Gre-Nal”. Gente, eles nem têm casa.

Boçalnato

Boçalnato

É conservador, mas casou 4 vezes.
É patriota, mas curva-se aos EUA.
Cita Deus, mas tem discurso de ódio.
É homofóbico e racista, mas reclama se apontado como tal.
Vai acabar com a corrupção, mas não a da família e amigos.
Diz que teremos segurança, mas tem relações com milicianos.
E tem filhos burros, burros, burros como ele se mostraria
se abrisse a boca.

Os Bolsonaro: 5 Patetas

Bom dia, Odair Hellmann (com o melhor de Inter 2 x 0 Alianza Lima)

Bom dia, Odair Hellmann (com o melhor de Inter 2 x 0 Alianza Lima)

O Inter começou pressionando fortemente o Alianza Lima. O time peruano é fraco e nossa atuação foi apenas a suficiente para matar logo o jogo. Nico López, em dois chutes de meia distância, marcou dois gols no início da partida e o time pode usar sua tática reativa de apenas esperar o adversário. E o Alianza veio pra cima, tomando muitos contra-ataques. Fizemos um jogo seguro.

Todos amam Nico López | Foto: Ricardo Duarte

Marcelo Lomba só foi exigido uma vez — saiu-se maravilhosamente — e depois fim: o Alianza não conseguiu mais chutes a gol.

Jogamos bem, mas não foi nada excepcional. Zeca e Iago me preocupam muito, demais. Sóbis foi razoável e o restante do time foi bem.

Outra coisa que preocupa é o número de passes errados. Se conseguimos tocar mais a bola, ainda houve muitos erros e saídas inseguras de bola.

Com a segunda vitória, o Inter isolou-se na liderança do grupo, também beneficiado pelo empate entre River Plate e Palestino, assim como o fora antes pelo empate entre River e Alianza. Então, já abrimos 4 pontos do segundo colocado. O próximo compromisso é contra o atual campeão da América.

42 mil colorados… Que maravilha!

Agora temos um Gre-Nal na Arena. Há duas coisas quase certas que acontecem nos Regionais do RS. O Gre-Nal da fase classificatória é no Humaitá — nos últimos 8 anos, o mando de campo foi deles em 5 — e o Inter joga sob temperatura de 80 graus no plástico do São José e perde.

Só o Grêmio pode ser beneficiado pelo Gre-Nal de domingo. É claro que eu o jogaria com os reservas. Já dizia Ibsen Pinheiro: “Gre-Nal arruma a casa”. É tudo o que eles precisam. Afinal, estão na lanterna de seu grupo na Libertadores 2019.

Um ano de Bamboletras

Um ano de Bamboletras

Hoje, 12 de março, faz um ano de uma de minhas maiores loucuras, a de me tornar livreiro aos 60 anos. Se era um sonho antigo, também era um daqueles que todo mundo tem em devaneios irrealizáveis. Às vezes pensava em me tornar um velhinho de óculos vivendo em meio aos livros… E ia fazer outra coisa. Neste último ano, várias pessoas me cumprimentaram pela coragem. Não me acho corajoso. Apenas corri atrás quando soube que a Lu queria repassar a livraria a quem a mantivesse. E larguei a atividade de jornalista sem olhar para trás. A Elena ri, diz que eu garanti uma terapia ocupacional vitalícia, o ideal para quem nunca pensou em se aposentar. Ela está certa. Mas olha, jamais pensei que desse tanto trabalho. É claro que há uma maioria esmagadora de bonitos momentos atrás do balcão, mas há também um intenso trabalho de retaguarda que aprendi do zero.

Auden escreveu que “Quando o processo histórico se interrompe, quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar”. Talvez por não haver tédio nem horror, apenas necessidade e liberdade, virei livreiro e não dono de bar, sei lá.

A Livraria Bamboletras é um ícone de Porto Alegre. A Livraria Bamboletras é um ícone de Porto Alegre criado com extremo cuidado e carinho pela Lu Vilella. Digo-lhes claramente que virei um livreiro por herança. Tentei preservar o estilo ao máximo, mas inevitavelmente uma nova cara deve ter aparecido.

Sim, nosso acervo é escolhido criteriosamente e não apenas recebido; sim, ficamos felizes quando um cliente retorna e diz que nossa última sugestão foi fantástica e que o livro era ótimo (conhecemos o que vendemos); sim, há muita tensão em razão do mercado instável; sim, as distribuidoras querem nos enfiar best sellers; sim, vocês pedem e a gente vai atrás e muitas vezes dá certo (a gente se orgulha), outras vezes não (contrariedade); sim, estamos com todas as contas em dia mas não pensem que sobra muita coisa (a gente realmente quer ver vocês nos visitando mais, sabe?); sim, coloquei a herança da minha mãe na compra da livraria; sim, ainda estamos pagando a citada ex-dona que deixou a Bamboletras assim tão linda (fazemos isso direitinho); sim, fizemos e fazemos parcerias com escritores, instituições, artistas e bares; sim, vamos atrás dos melhores lançamentos às vezes enchendo o saco de meio mundo (às vezes, receber uma reposição ou livros para um evento mais parece um thriller); sim, visitamos as distribuidoras para escolher as obras uma a uma e… Não, não pretendemos ser menos exigentes.

A Bamboletras não sou eu, é uma equipe. Tem a Bárbara, a Cacá, a Eliane, o Gustavo, a Zair. E durante o ano ainda tivemos a Ana, a Josi e a Vitória. É uma baita equipe e falo da qualidade. Agradeço a todos.

Só não pensem que é fácil. Aliás, qual é o trabalho sério que é fácil? Porém é também divertido, estou muito feliz.

Ah, dia 24 de abril faremos 24 anos sempre independentes e agora, devido à circunstâncias que não vamos citar para não emporcalhar este texto pobre mas limpinho, também resistentes.

Particularmente, agradeço à Elena, à Bárbara, ao Bernardo e à Iracema pelo apoio neste ano e nos que virão.

E também a todos os que nos visitam e que apreciam nosso trabalho.

Bom dia, Odair (com o melhor de Inter 2 x 0 Aimoré)

Bom dia, Odair (com o melhor de Inter 2 x 0 Aimoré)

O Inter tinha vencido 5 jogos consecutivos sem convencer. Mas ontem foi diferente. Venceu o Aimoré convencendo, jogando bem.

D`Alessandro pela direita e Sarrafiore no meio atuaram muito bem. Nonato foi, como sempre, excelente. E não é meia, é um volante moderno. Sóbis movimentou-se muito bem na frente e o time criou dezenas — não é exagero, foram 23 conclusões — de chances.

Sarrafiore agradece o passe de D`Alessandro e parte pro abraço | Foto: Ricardo Duarte

A decepção foi Neílton, que, repito, tem que jogar no meio e não pela esquerda. E Tréllez, mas este não é surpresa. O cara é muito ruim e não tem remédio.

Até Bruno e Uendel atuaram bem.

Bem, o que interessa neste semana é o Alianza Lima quarta-feira, né? Uma sétima vitória consecutiva seria fundamental. Nove pontos quase nos garantiriam nas oitavas. Então, 6 pontos nos primeiros dois jogos poderiam nos deixar quase lá.

No Gaúcho, nosso próximo jogo é o Gre-Nal da Arena no próximo domingo, provavelmente com os reservas. Esse mistão parrudo deve significar que são eles quem vão ao Humaitá. Não há motivo para usar titulares no clássico. Ganhando ou perdendo, vamos ficar em 2º ou 3º. Ademais o campeonato deste ano não merece três Gre-Nais quentes. O que a FGF fez até agora foram claros favorecimentos. E imaginem, este é o 5º Gre-Nal com mando do Grêmio em 8 anos… Isonomia zero. E agora há esse boato de um julgamento complementar de Nico López, sem dúvida um facínora, um cara violentíssimo, nossa.

Bom dia, Odair (com os melhores lances da vitória encontrada ontem)

Bom dia, Odair (com os melhores lances da vitória encontrada ontem)

A qualidade do futebol do Inter é obscena. Nossos jogos deviam passar no xvideos, pornhub, essas coisas, Odair. Ou no twitter da presidência. Quando levantamos uma bola na área, não é chuveirinho, é Golden Shower. Mas temos 5 vitórias nos últimos 5 jogos, o que é pornográfico.

Junto com Lomba, Edenílson foi o melhor em campo. | Foto: Ricardo Duarte

É que, assim como Bolsonaro, tu tens a mesma compulsão para criar problemas. Só isso explica o retorno ao sistema de jogo do ano passado como se não houvesse pré-temporada, Nonato, Sarrafiore, nada. O jogo foi um pesadelo. Até tomei uma cerveja antes de dormir para passar a noite sem sonhar com teu time.

Então, contra o fraquíssimo Palestino, entramos com três volantes — Dourado, Edenílson (excelente) e Patrick — e três caras para armar e tentar o gol — Nico, Pottker e Pedro Lucas como se fosse Damião.

Ora, achei que estivesse comprovado que Nico rende mais pelo meio e que Nonato era mais interessante do que Patrick, que poderia ir para a lateral esquerda, por exemplo. Mas não, tu voltaste ao Inter que te rendeu pontos no ano passado e que tinha um esquema pra lá de defensivo e manjado.

Se vencemos por 1 x 0, num frango do goleiro do Palestino em cobrança de falta de Sóbis, foi pura sorte. O Inter jogou feio, jamais teve o controle da partida e as substituições deram resultados modestos. Mais ainda do que Edenílson, Marcelo Lomba fez uma atuação extraordinária, sendo decisivo no placar. Pedro Lucas esteve mais parecido com um centroavante do que das outras vezes que o vi jogar.

Não conseguimos trocar passes e nem imagino como vamos fazer para vencer em casa. Não temos condições de propor o jogo. Vai ser tudo na correria, no chutão e na loucura da torcida.

Só que o resultado veio e estamos líderes do Grupo A da Libertadores porque Alianza e River empataram em Lima. Agora, teremos três jogos consecutivos em casa — Alianza no dia 13, River no dia 3 de abril e novamente Palestino em 9 de abril. É claro que teremos que jogar propondo o jogo, atacando, essas coisas que tu não sabes muito bem como treinar.

Em meio a isso, muitos jogos do Campeonato Gaúcho, como o de domingo (10) contra o Aimoré e o do outro domingo (17) contra o Grêmio, provavelmente com os reservas, se vencermos o Capilé.

Oremos.

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Se nosso futebol foi horroroso, ao menos limpamos o vestiário que utilizamos e deixamos um recado bonito.

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Abaixo os melhores lances da partida começam em 14 segundos.

Gilels e Rostropovich queriam a presença delas

Gilels e Rostropovich queriam a presença delas

Emil Gilels e Mstislav Rostropovich iam sair da URSS para uma excursão aos EUA. A temporada norte-americana seria de dois meses e meio. Mas a burocracia soviética — para garantir o retorno dos músicos — impediu que suas mulheres viajassem juntos.

Gilels e Rostrô ficaram contrariados e foram falar com a Ministra da Cultura. Ela solicitou que ambos fizessem um pedido por escrito para levar sua esposas.

Gilels escreveu que era um homem doente e que sua esposa era quem lhe ministrava todos os medicamentos.

Rostrô disse que tinha saúde perfeita e que precisava de Galina Vishnevskaya porque precisava.

Ambas viajaram.

Russos: Gilels observa Rostropovich (esquerda) jogando xadrez.

Bernard Haitink aos 90

Bernard Haitink aos 90

Hoje é um dia especial para quem gosta de música sinfônica. Bernard Haitink — ainda em atividade — completa 90 anos. Acompanho sua carreira e gravações desde a adolescência e sempre o considerei um dos maiores. Por anos ele foi o regente titular da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam (RCO). Vi-o em ação há dois anos e, coisa de fã, me preocupei com a escadaria que a sala da RCO tem para entrar e sair do palco. Bem, no ano passado ele caiu ali, mas se recuperou logo. Os aficionados tarados por música sabem dos perigos… Naquela noite, eu e Elena sentamos atrás da orquestra a fim de ver seus gestos. Posso lhes garantir que é impossível não entrar corretamente vendo seus avisos e seu gestual altamente musical. Aliás, isso é uma coisa que é indescritível — o rosto de quem sabe fazer música, como ele vai se transformando. Aos 90, Haitink está cheio de compromissos. Regerá muitos Mahler, Mozart, Beethoven e Bruckner neste inverno e primavera europeias, mas já avisou que vai tirar uma folga no verão e no outono. Somos vorazes de beleza e, após 65 anos de atividades, ainda queremos mais, Bernard! Afinal, fineza, elegância, sensibilidade e atenção aos detalhes e ao estilo não são coisas que se encontram facilmente, mas parecem ter vindo pré-instaladas na cabeça do maestro.

Feliz aniversário!

Assombrações, de Domenico Starnone

Assombrações, de Domenico Starnone

Eu jamais pensei que este livro fosse de assustar, mas o fato é que ele me envolveu de tal forma — e o caso é tão preocupante — que não consegui largá-lo da metade até o final. Precisava saber o final da história e, bem, ela me ASSUSTOU de verdade. Mas não vou estragar a leitura de vocês contando a trama. Também peço a meu leitor que não reduza Assombrações (Todavia, 184 páginas, R$ 49,90) aos sustos que citei, pois o livro carrega enorme simbolismo e real dramaticidade. Deste modo, sigamos sem spoilers.

Daniele Mallarico é um respeitado ilustrador que já passou dos 70 anos. Vive solitário em Milão, é abastado e está convalescendo de uma cirurgia quando é chamado a cuidar por uns dias de seu neto Mario. Os pais de Mario, Saverio e Betta, filha do ilustrador, passam por um péssimo momento. Saverio é um daqueles ciumentos trágicos que imagina, pensa ou tem absoluta certeza de que a mulher está apaixonada por um poderoso professor do Departamento de Matemática onde trabalham.

Mas o livro gira muito mais sobre a relação entre neto e avô, entre o pequeno ser de quatro anos cheio de energia e o velho debilitado. À carência e à fraqueza de Daniele, Mario responde de forma mimada e descontrolada, típicas da infância super-protegida de hoje. Pior: aos quatro anos, demonstra enorme talento para o desenho, o que perturba o velho ilustrador. Enquanto cuida de Mario, Daniele deve produzir ilustrações para uma edição de luxo de The Jolly Corner, de Henry James. O editor que fez encomenda recebeu os primeiros esboços e está muito descontente, o que faz Daniele pensar que a fonte secou.

Daniele mal suporta o neto que parece saber tudo sobre a casa napolitana onde mora e que é a mesma onde passou sua infância. “Eu copiei do vovô”, é a última frase do livro. O inferno de Assombrações está nos detalhes de uma narrativa onde o velho busca um impossível acordo com suas opções e ambições.

Infância, decrepitude, inadequação, raiva, desconforto, inveja. Starnone é um mestre que faz com que grandes temas fluam através da descrição de pequenas ações cotidianas.

Recomendo muito.

Domenico Starnone