(Mais) Um jantar arrebatador da Astrid Müller

(Mais) Um jantar arrebatador da Astrid Müller

Ontem à noite, eu e alguns poucos e bons amigos fomos convidados como cobaias da chef Astrid Müller. Cobaias é uma forma educada de reduzir o convite aos níveis habituais das improvisações amadoras, pois um jantar da Astrid não é nada disso. Ali, nós estamos naquela situação de dar uma garfada e olhar para o prato a fim de descobrir o que haveria nele para nos causar tanta surpresa e prazer.

Eu sou um glutão tosco que não sabe nada de gastronomia e que sempre lavou a louça em casa por não saber cozinhar. Mas garanto-lhes — garanto mesmo! — que sei diferenciar o arrebatador do apenas ótimo. E a sequência de pratos foi arrebatadora.

Um psicanalista que cozinha muito bem disse-me que a cozinha era a extensão natural de seu trabalho no consultório. Em ambos os trabalhos, ele trabalhava com afetos. Penso eu que um jantar como o de ontem é um meio muito sofisticado e absolutamente matador de criar oportunidades de alegria.

Foi isso que a Astrid obteve para nós e demonstrou para nós, afeto.

P.S. 1: Como disse, sou um tosco gastronômico. Se a Astrid quiser vir aqui descrever os pratos cujas fotos coloco abaixo, eu acrescento o texto dela. Para que vou passar vergonha depois daquela sinfonia?

P.S. 2: Com Augusto Maurer, Elena Romanov, Jussara Musse e Ricardo Branco.

.oOo.

As fotos da sequência:

1.

Envelope de folha de arroz com salada crua com alho porro, pimentoes vermelho e amarelo, cenora, pepino,rabanete,maçã, manga, folhas de agrião e hortelã. Molho redução de manga com vinho branco. Entrada de influência cozinha tailandesa.

2.

Tartare de salmão coberto por blinis e caviar. Torradas de pão baguete com oliva. Fresco e perfumado “di mare”.

3.

Macarrão bifun com molho de mexilhões, coentro,cebola e tomates. Guarnição de mexilhões e anéis de Lula salteados. Sriracha para decorar e dar o toque de pimenta.

4.

Pulpo com batatines salteados. Redução de mirepoix do cozimento do polvo faz o molho para saborizar este prato, que tem a presença da páprica, pimenta caiena, humo liquido, raspas de limão siciliano. Influência asiática.

5.

Sorbet de morango e laranja. Com balsâmico de frutos rojos. Ideal para limpar o paladar. Este da foto já estava meio destruido,sendo consumido, vide a marca da colher na lateral da tigela.

6.

Crumble de banana com merengada, acompanhado de baba de moça, com leite de coco e gemas.

Enlouquecendo e morrendo

Enlouquecendo e morrendo

No Brasil — ou ao menos em Porto Alegre — existe o Imposto Sotaque. Se eu peço um serviço, ele custa mais ou menos R$ 25 por hora. Se a Elena pede, custa R$ 60. Não estou brincando. Aconteceu ontem e hoje, com a mesma pessoa.

Também se a Elena, que é bielorrussa, usa um táxi, tem que explicar o itinerário. Se não faz isso, o cara vai de um bairro a outro da cidade pelo Canal do Panamá.

Isso faz com que eu seja o porta-voz do casal para efeito de contato com prestadores de serviços. Marceneiros, hidráulicos, pintores, eletricistas, pessoas que arrumam ar condicionado, tudo tem que ser comigo. O que é muito chato, pois a maioria dessas pessoas presta maus serviços e tudo acaba em reclamação. Semana passada contratei um marceneiro para arrumar nossas venezianas.

— O Sr. também pode pintá-las?
— Sim, claro.

Pintura feita, vemos que o serviço ficou uma porcaria.

— É que o Sr. sabe, eu sou marceneiro. Pintei só porque o Sr. pediu. Na verdade, não sou pintor.

E eu não pedi absolutamente nada, apenas perguntei. Assim, enganado desta forma, vou lentamente enlouquecendo e morrendo. Para não matar.

Foto: Divulgação.

 

Porto Alegre e o calor senegalesco

Porto Alegre e o calor senegalesco

Ainda bem que a temperatura caiu nos últimos dias em Porto Alegre. Na semana passada, quase todas as pessoas com as quais eu mantive contato estavam irritadas, muito irritadas e cansadas. Vivíamos sob 37 graus e sensação térmica de 46. Os antigos narradores de futebol falavam em “temperatura senegalesca”, o que revela que os narradores de antes eram tão desinformados quanto os de hoje, pois, se a temperatura do Senegal chegasse aqui, seria uma dádiva a ser saudada por qualquer porto-alegrense.

Saibam que o Senegal é um país de clima muito agradável. Tem, basicamente, duas estações. Uma estação seca de novembro a maio, quando nunca chove e as máximas ficam entre os 23 e 25 graus. A outra estação é úmida e mais quente: de junho a outubro há alguma chuva, principalmente no sul do país. A média das máximas fica em 29, 30 graus.

Então, meus filhos, quando a coisa estiver insuportável por aqui, não fale em temperatura senegalesca e pense em Dakar como um bom destino. Ah, prepare algumas frases em francês. Ou em uolofe.

O Monumento do Renascimento Africano em Dakar, Senegal | Foto: Black History Heroes

Bom dia, Odair (Inter 1 x 0 Brasil-Pel)

Bom dia, Odair (Inter 1 x 0 Brasil-Pel)

Inter iniciou o jogo com Bruno e Tréllez. Isto além de D`Alessandro, que deveria entrar no segundo tempo. Essa escalação é quase como entrar com 9 homens. Ou com algumas substituições certas para corrigir o time no segundo tempo. (Isso eu escrevi no twitter antes da partida. Adivinha se os dois primeiros não foram substituídos?).

Só o Inter escala Tréllez e deixa Pedro Lucas (foto) no banco | Ricardo Duarte (SC Internacional)

O jogo iniciou com o Inter sem soluções ofensivas. Porém, em lance isolado, aos 14 min, D`Alessandro chutou no travessão. Na sobra, Moledo marcou, mas estava impedido.

Aos 15, novo gol perdido. Tréllez não entendeu a jogada de calcanhar de Nico López e não fez o gol por desatenção.

A defesa do Brasil-Pel mostrava não ser lá essas coisas. Os pelotenses erravam muitos passes, mas o Inter, para organizar contra-ataques, antes tinha que carimbar um memorando pedindo licença. Entendam, é um time burocrático.

Ademais, as jogadas de ataque acabavam sempre em Tréllez, que perdia todas.

Aos 32, Neílton deixou Edenílson na cara do gol, mas ele perdeu a bola para o goleiro.

Um minuto depois, Iago cruzou sem goleiro para Tréllez. Adivinha o que aconteceu? Nada, pois a forma com que Tréllez disputa as bolas na área é digna de um bêbado.

Graças a deus, acabou o primeiro tempo.

A mediocridade acentuou-se no segundo tempo. Havia tantas opções melhores no banco — Falo sério, ou seja, o Inter está muito mal escalado — que nem sabia o que sugerir.

Aos 13 min do segundo tempo, Odair tirou Tréllez — finalmente! — para colocar Pedro Lucas. Aos 20, já desesperado, nossa sumidade colocou Sarrafiore no lugar de Neílton.

Tudo porque nosso time parecia uma lixeira. Com Pedro Lucas e Sarrafiore, tudo melhorou. Então, Pedro tomou uma falta na entrada da área. Na cobrança, Dale bateu mal, mas no rebote Dourado tentou o gol e Moledo marcou.

O namorado da filha da minha mulher é colombiano e acompanha MUITO futebol. Ele me disse que não entende a contratação do Tréllez. Disse que ele JAMAIS se destacou por lá. Um dia — quem sabe o que houve? — , talvez o MP se interesse pelo caso. Custou R$ 1,5 milhão.

Nosso time segue mal, mas ganhará uma semana para treinar. Espero que Odair possa dar alguma dinâmica a ele e que vá retirando os inúteis. Ah, Zeca entrou bem na de Bruno.

O próximo jogo é domingo, às 17h, no Alfredo Jaconi, contra o Juventude.

Ela não aguentou

Ela não aguentou

Abaixo, reportagem da Marie Claire sobre Sabrina Bittencourt.

Foto: arquivo pessoal

.oOo.

Ativista social e uma das mulheres que ajudou a desmascarar abusos sexuais de João de Deus e Prem Baba, Sabrina Bittencourt, 38, cometeu suicídio no sábado (02/02). Em nota de falecimento comunicada à imprensa assinada por Maria do Carmo Santos, presidente da ONG Vitimas Unidas, com a qual Sabrina trabalhava, a morte de Bittencourt foi confirmada.

“O grupo Vítimas Unidas comunica com pesar o falecimento de Sabrina de Campos Bittencourt ocorrido por volta das 21h deste sábado, 02 de fevereiro, na cidade de Barcelona, na Espanha, onde vivia. A ativista cometeu suicídio e deixou uma carta de despedida relatando os porquês de tirar sua própria vida. Pedimos a todos que não tentem entrar em contato com nenhum integrante da família, preservando-os de perguntas que sejam dolorosas neste momento tão difícil. Dois dos três filhos de Sabrina ainda não sabem do ocorrido e o pai, Rafael Velasco, está tentando protege-los. A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo”.

Antes de cometer suicídio, a ativista e Doutora Honoris Causa por seu trabalho humanitário pela UCEM – Universidad del Centro, no México, escreveu post em sua conta no Facebook em que fala sobre sua vida e a luta pelas mulheres e minorias. “Marielle me uno a ti. Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos.”. Sabrina, que morava em Barcelona, se matou no sábado (02/02) e deixa três filhos.

De família mórmon, Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja frequentada pela família. Aos 16, ficou grávida de um dos estupradores e abortou. Bittencourt dedicou a vida a militar por vítimas de abuso e a desmascarar líderes religiosos, dentre eles Prem Baba e João de Deus. Bittencourt é uma das criadoras do “movimento” Coame, sigla para Combate ao Abuso no Meio Espiritual, plataforma que concentra denúncias de violações sexuais cometidas por padres, pastores, gurus e congêneres. Sabrina ajudou, principalmente, as vítimas de abuso sexual de João de Deus, investigando as acusações junto à imprensa. Sabrina também auxiliou a filha do próprio médium, Dalva Teixeira, na denúncia contra o pai por abuso.

Em relato em primeira pessoa feito em dezembro de 2018 à Marie Claire, Sabrina conta sobre a vida de abusos e como se tornou uma das principais vozes e forças de apoio a vítimas de abuso sexual, principalmente dentro de grupos religiosos. Alvo de ameaças de morte, Sabrina vivia fora do Brasil e se mudava frenquentemente.

A seguir, leia na íntegra o post de Sabrina postado no Facebook na noite de sábado (02/02):

“Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… ❤️ Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua “Lulu” como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, mulçumanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fudidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”

.oOo.

Obs. do editor: Não tenho boas alternativas, mas não gosto da expressão “cometeu suicídio”. A pessoa comete crimes ou ilícitos. Acho que tirar a própria vida, matar-se, suicidar-se ou abandonar a vida é um direito.

Neste fim de semana o Inter não dará fiasco

Neste fim de semana o Inter não dará fiasco

Pois o Inter entra em campo apenas segunda-feira para mostrar seu futebol de segunda categoria. Assim estamos. Uma bagunça geral. Em nosso time, quem tiver vontade bate pênalti. Pedro Lucas foi o melhor jogador que atuou na centroavância em 2019, então nem fica na reserva. Joga Tréllez, dispensadíssimo no São Paulo. Ou Pottker, de quem ainda falaremos. Odair já diz “não estar sofrendo pressão”. Tá bom. Nico López — melhor jogador do time –se consagrou e diz pra todo mundo que gosta de jogar no meio, então Odair o coloca pela direita, usando um lendário senhor de quase 38 anos no meio. Melhor seria preservá-lo, imitando que a Roma fazia com seu ídolo Totti. Parece que o técnico está refém de alguns jogadores “mais salientes” e sabemos onde isso vai parar. A mesma defesa que era um paredão agora só vaza. Sarrafiore entra aos 40 do segundo tempo para resolver o jogo — e o incrível é que o time melhora –, mas não inicia os jogos. Pottker há um ano é uma piada, só atrapalha. Faria mais se caminhasse em campo, falo sério. Fizemos 3 gols em 4 jogos… Não há nem triangulações, parece que o time não treina. O elogiado Nonato não foi visto em campo. Deve ter um mau empresário. O recém contratado lateral Bruno não parece ser do ofício. Do ofício de jogador de futebol. E Zeca? Este deve ter músculos de gelatina, sempre sentido desconforto muscular, Fica olhando o Bruno e pensando “não quero jogar”, “não quero jogar”…

Odair, iniciamos o ano muito mal. Eu e a toda a torcida colorada estamos apavorados. Libertadores? Bah, nem me fala nisso.

Ainda bem que está tudo bem. Na foto, o diretor de futebol Roberto Melo, o presidente Marcelo Medeiros e o futuro ex-técnico do Inter | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr Hyde (O Médico e o Monstro), de Robert Louis Stevenson

O Médico e o Monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde) é uma novela escrita por Robert Louis Stevenson para o Natal de 1865. Este período é tradicionalmente associado a histórias horripilantes na Inglaterra. Lembram de A Christmas Carol de Dickens e de O Ladrão de Cadáveres do próprio Stevenson? Pois é, são o mesmo tipo de narrativa, mas inferiores em qualidade. A publicação de O Médico e o Monstro acabou adiada para janeiro de 1886. Era uma encomenda, devia ter aproximadamente 100 páginas para custar bem baratinho. O resultado foi espantoso: o livrinho foi um enorme sucesso, vendeu 40 mil exemplares nos primeiros seis meses na Inglaterra, foi lido por todo mundo, inclusive pela Rainha Vitória, influenciou toda a literatura de inspiração gótica de sua época, que costumava usar castelos, épocas e locais remotos como palco de estranhos acontecimentos.

Já a novela de Stevenson era diferente. Tinha sua ação situada na Londres da época, com suas ruas escuras e seu fog. Não havia precedentes de histórias que pudessem acontecer na casa vizinha. Mais: não havia precedentes de histórias relativamente plausíveis. Mr. Hyde não é sobrenatural, não é um monstro, apesar de pisar em criancinhas.

O primeiro rascunho de Jekyll e Hyde foi queimado. A esposa de Stevenson, Fanny, reclamou que a alegoria não era forte o suficiente e simplesmente jogou o manuscrito no fogo. Stevenson ficou de cama por três dias e depois escreveu uma nova versão. Envergonhado, disse que era a pior coisa que tinha escrito, mas Fanny gostou da nova versão. Ela sabia das coisas.

O impacto do romance foi enorme e tornou coloquial a expressão “Jekyll e Hyde” usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente, dependendo da situação. A obra explora brilhantemente não somente o terror e a violência, mas o fenômeno das múltiplas personalidades — ou, no mínimo, do lado escuro, mau e escuso que carregamos.

Ou seja, a novela é uma parábola que assusta não somente por conter acontecimentos extraordinários, mas também por estar muito perto de nossa vida psicológica. Quem não tem um lado escuro que por vezes deseja o mal, quem não peca em segredo? E quem não cultiva uma imagem melhor do que a que vê de si mesmo? Note-se também que a Inglaterra vitoriana respeitava neuroticamente reputações e aparências. E Stevenson nos mostra um médico com um lado indefensável.

Quando a Escócia tinha seu próprio dinheiro, Stevenson estava no verso das notas

Sem spoilers: na narrativa, o advogado londrino Gabriel Utterson investiga estranhas ocorrências entre seu velho amigo médico Henry Jekyll e um certo Edward Hyde. Utterson estava preocupado, pois recentemente seu cliente, o respeitável médico Dr. Henry Jekyll, tornou Hyde beneficiário de seu testamento. Quem seria Hyde?

Alguns dias depois, o advogado consegue se encontrar com Hyde e fica muito impressionado. É um ser repugnante e asqueroso, lombrosiano. Sua simples visão deixa o advogado congelado e enojado. Após um jantar na casa de Jekyll, Utterson discute o assunto com o médico, mas este garante que está tudo sob controle e que não precisa absolutamente se preocupar. Meses depois, numa noite, Hyde espanca um importante membro do parlamento com uma bengala que Utterson presenteara a Jekyll.

E não vou contar o resto.

A narrativa é espetacularmente bem escrita. Seu estilo foi tão copiado, mas tão copiado que parece conter clichês. É claro que há mistério e reviravoltas na luta entre o bem e mal. O palco desta luta é interno, psicológico. Não é uma novela apenas para assustar, ela deixa-nos espreitar que toda pessoa carrega diferentes características dentro de si. Algumas delas são exibidas, outras não.

Recomendo demais.

Robert Louis Stevenson

Bom dia, Odair (São José 2 x 0 Inter)

Bom dia, Odair (São José 2 x 0 Inter)

Como disse o Julio Linden, há duas certezas na 1ª fase do Gauchão: (1) o Inter jogará sob um calor de 50 graus no gramado sintético do Passo d`Areia e (2) o Gre-Nal será na Arena.

E foi sob forte calor que nós vimos mais um fiasco do teu time, Odair. Com Patrick em campo, novamente perdido, o time voltou a não ter articulação e só jogou bola quando já perdíamos por 2 x 0. Tá meio na cara que precisamos de um articulador, mas Sarrafiore só entrou quando faltavam 10 min para o jogo terminar. Mesmo sem ser brilhante, o argentino deu algum trabalho.

Neilton: este está sendo fritado em razão da má companhia na armação. | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Alias, tuas substituições ontem foram atabalhoadas e inúteis até a entrada de Sarrafiore. A torcida, que não tem razão ao atirar pedras no ônibus do clube, tem toda a razão ao protestar: teu time foi mal escalado — Lindoso e Rithely saíram jogando, enquanto Nonato e Ramon, elogiadas joias da base, ficaram chupando o dedo –, com zero de entrosamento e sem muita perspectiva, mesmo considerando que são reservas. Todos os colorados estão preocupados, pois é quase um recorde ver o clube em crise antes de entrar em fevereiro. Nem o trágico 2016 foi assim. E não começar com Sarrafiore foi patético.

Ou seja, estamos muito mal. A torcida já está puta e pedindo tua cabeça. Não digo que o time não tenha vergonha, tu é que obedeces os medalhões e nunca tira ninguém por estar em má fase. Pottker e Patrick, que estão muito mal há seis meses, que o digam. Têm lugar perpétuo. Dale também. Eu fico imaginando a motivação desses garotos que subiram: Nonato, Sarrafiore, Richard, etc. Vão precisar de auxílio psicológico para entrar em campo. No dia em que entrarem, os coitados.

Odair e Cia. precisam parar com o discurso de início de temporada, de chegada de novos jogadores etc. Isto não é uma exclusividade do Inter. Outros na mesma condição mostram um futebol organizado, sem as desculpas. Não falo de resultados, mas de organização tática e técnica. ‬Em três jogos o Inter não apresentou nada em 2019, independente das escalações.

Bom dia, Odair (Inter 1 x 2 Pelotas)

Bom dia, Odair (Inter 1 x 2 Pelotas)

Eu sou contra mudar técnicos, OK? Mas hoje descobrimos que tu, Odair, passaste as férias sem pensar. Patrick não pode jogar na armação. É um volante. Ou joga ali ou é banco. Pottker não é para o Inter. E talvez Dale deva entrar só no segundo tempo. Mas como convencer um cabeça dura como tu a iniciar o jogo com Neilton e Sóbis? Enquanto isso, Nico López joga sozinho, coitado.

Pottker e nada. Qual é a diferença? O nada não atrapalha.

E o time fica sem ataque, se atrapalha em casa contra times fechados, blá-blá-blá. Sim, blá-blá-blá porque isso a gente já sabia do ano passado, né? Cansei de repetir os mesmos argumentos. Novidade nenhuma. Os jogos em casa eram um parto porque não sabíamos atacar. Ontem PERDEMOS para o PELOTAS.

Sei que é cedo, mas acredito que vale o alerta. Não estamos mais em época de reconstrução e temos jogadores e possibilidades melhores do que as que são escaladas.

Será que será mais um ano de ir atrás de uma vaga na Libertadores 2020? Porque, desse jeito, vamos cair na fase de grupos.

O Alexandre Perin acaba de contar a seguinte história:

o São Caetano tinha 2 jogadores de meio campo promissores e negociou um com o Grêmio e um com o Inter.

Matheus, o que foi pro Grêmio, teve 1195 minutos em campo em 2018 com o time principal.

Nonato, o que foi pro Inter, teve ZERO minutos em campo em 2018 com o time principal.

Assim é o Inter. No nosso time só jogam medalhões como Patrick e Pottker. Os guris que se ralem.

Não há como não entender Jean Wyllys

Não há como não entender Jean Wyllys

“Eu não quero ser mártir. Eu quero viver”, escreveu Jean Wyllys.

Só se vive uma vez e ninguém é obrigado a ser mártir, ainda mais perdendo a vida para um tiro de um miliciano bolsonarista. Todos sabem que os perfeitamente imbecis Jair Bolsonaro e Alexandre Frota são os maiores inimigos de Wyllys. E ele tem sido multi-ameaçado, ainda mais depois que se descobriu que quem matou Marielle Franco — também do PSOL — está ligado até por seus empregos à família Bolsonaro. Sim, dá medo. Dá muito mais medo do que discursar em Davos.

Ele já está no exterior e não irá retornar para o Brasil. Pretende seguir a carreira acadêmica, dedicando-se a um doutorado e ao livro que está escrevendo.

O suplente de Jean é o vereador carioca David Miranda, que também é homossexual assumido e marido do jornalista Glenn Greenwald, fundador do Intercept, com quem tem dois filhos. Sai um LGBT, entra outro.

A luta continua.

Globo x Bolsonaro e Frota

Sei muito bem que, nas redações, os jornalistas recebem muitas denúncias, boa parte delas furadas, apenas nascidas da vontade de se vingar de alguém, etc.

Mesmo assim, as denúncias que valeria a pena investigar sempre superam o número de jornalistas disponíveis, pois, é claro, ir atrás de uma denúncia requer tempo para checagem, para estabelecer contatos, enfim, é caro manter uma equipe como a do filme Spotlight para correr atrás de denúncias que às vezes não darão notícias, mas que sempre darão muito trabalho. Ainda mais que, por outro lado, há a necessidade de alimentar o sempre pantagruélico jornal com novidades diárias.

Porém, tudo isso se altera quando um beócio como Alexandre Frota — sim, aquele que fala pelo “Jair” — avisa que vai destruir a Globo e se aproximar dos pastores da Universal. Resultado: a emissora vai atrás de cada denúncia que recebe sobre a famiglia Bolsonaro e descobre horrores. Aposto que a Globo até segura o que já sabe para dar um escândalo a cada 2 ou 3 dias, como um conta-gotas. E também aposto que há um crescente time de denunciantes ligando para a Redação.

Quem planta inimizades não pode ter telhado de vidro.

(E Moro permanece silencioso como um capanga)

Bom dia, Odair (São Luiz 0 x 1 Inter)

Bom dia, Odair (São Luiz 0 x 1 Inter)

Aquilo não era um time, apenas um ajuntamento de última hora, Odair. Então, é impossível falar em organização. Sim, na coletiva tu falaste em organização. Elogiaste a partida e a sincronia de movimentos dos reservas. Balela, achei (achamos) cômico. Aqui neste espaço podemos ser mais razoáveis e falar somente em individualidades. Aquilo não foi um time, foi um horror. Então, falemos dos jogadores individualmente.

Emerson Santos fez o gol e torceu o pé durante a comemoração… | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Emerson Santos e Roberto foram surpreendentemente bem. Emerson jogou até de lateral, e muito bem. Roberto fez uma bela estreia.

Neílton repetiu seus bons jogos no Vitória. Foi para cima dos adversários e sempre obteve vantagem. Na minha opinião, acabará titular.

Pedro Lucas e Rithiely fecham o grupo dos que jogaram bem.

Daniel, Klaus, Iago, Bruno José foram aceitáveis.

Sarrafiore iniciou bem e foi afundando. É um caso para ser observado, porque parece que “pode ser bom”.

Lindoso, Parede e Juan Alano foram medonhos, mas o pior mesmo foi Uendel, uma piada. Não parecia estar muito interessado em jogar futebol. Curiosamente, recém teve seu contrato expandido.

O jogo? O jogo foi chatíssimo. Uma várzea completa. Uma perda de tempo assistir. Valeu pelos 3 pontos em um campeonato que não interessa muito.

A próxima partida do Inter será na quinta (24), às 21h15, contra o Pelotas. O time que entrará em campo será o titular e, desta vez, esperamos um futebol melhor.

O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

O Outro Lado, de Aldyr Garcia Schlee

Dias antes do falecimento de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), em novembro do ano passado, recebemos na Bamboletras seu último livro, O Outro Lado – Noveleta Pueblera (Ardotempo, 152 páginas). A leitura do livro, realmente muito bom, só pode nos deixar ainda mais tristes pela perda. A primeira coisa que chama a atenção é a linguagem fronteiriça, algo que talvez só se mantenha naquela região. Costumava ouvir muitas daquelas palavras e expressões da boca de meus pais, parentes e amigos. E isso só até os anos 60 ou 70, porque depois parece que fomos invadidos por um dicionário urbano, feio e descolorido. A linguagem utilizada por Schlee é linda, muito influenciada por uruguaios e argentinos.

Schlee foi escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Fundou a Faculdade de Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas / UCPel e de lá foi expulso durante o golpe civil militar de 1964. Sua cidade, Jaguarão, é ligada ao Uruguai pela bonita ponte que está na capa de O Outro Lado.

O Outro Lado conta a história de Martita e José Jacinto, personagens humildes em uma paisagem deserta. José Jacinto é um andariego sem paradeiro que gosta mais de pueblos do que de cidades e que vive circulando entre as coxilhas. Martita é a mulher que o espera. É daqueles livros em que delicadas nesgas poéticas giram em torno de um fato muito forte que… não contarei. É um livro é comovente sem ser piegas — ou uma história nada simples de gente humilde. É diferente daqueles livros amalucados de Schlee – também ótimos — sobre Gardel, Jaguarão e Melo, como, por exemplo, O Dia em que o Papa foi a Melo, livro de contos que deu origem ao filme O Banheiro do Papa.

Schlee tem extremo senso de estilo e bom gosto literário. Ele amava o Brasil de Pelotas e o Inter de Porto Alegre. Nossa, foi uma pessoa perfeita, daquelas que estavam lá no topo da evolução.

Recomendo muito.

Aldyr Garcia Schlee | Foto: Gilberto Perin

Pavimentando a estrada: o Concerto para Piano Nº 25, K, 503, de Mozart

Pavimentando a estrada: o Concerto para Piano Nº 25, K, 503, de Mozart

Por Georg Predota, na Interlude
Tradução livre do blogueiro

Uma pegadinha: sabe que importante composição de Wolfgang Amadeus Mozart teve que esperar 147 anos depois de sua morte antes de ser executada novamente? A resposta é verdadeiramente surpreendente, pois envolve um trabalho de um gênero muito popular: é um dos últimos de seus concertos para piano. E, se você disse que foi o Concerto para Piano Nº 25, K. 503, você teria acertado. E por que nenhum pianista ou maestro tocou este concerto por quase um século e meio?

Sabemos que Mozart estreou o trabalho em 5 de dezembro de 1786 em Viena, um dia depois de ter completado a composição. No dia seguinte, Mozart estreou uma nova Sinfonia para Praga — a de Nº 38, K. 504, apropriadamente apelidada de “Praga” — e conduziu uma performance de Figaro. Não há registro de Mozart tocando seu novo concerto para piano em Praga, mas o fez novamente em 7 de abril de 1787 em Viena e em 12 de maio de 1787 em Leipzig. E a próxima apresentação deste trabalho aconteceu somente em 1934!!! Nesta ocasião, o grande Artur Schnabel foi o pianista sob a regência de George Szell com a Filarmônica de Viena. Ainda demorou mais uma década até que o trabalho finalmente assumisse seu lugar de direito no repertório. Então, o que deu errado?

Quando ouvimos o Nº 25, K. 503, fica claro que Mozart estava trabalhando em algo novo e único. Por um lado, oferece uma incomparável grandeza e um senso de integridade estrutural que — particularmente durante o tempo de Mozart — não era comumente associado ao gênero do concerto. E o que devemos dizer da exibição extravagante de contrapontos que permeia os movimentos externos? Além disso, o concerto é grandiosamente marcado, incluindo trompetes e percussão, mas surpreendentemente omitindo os clarinetes, um dos instrumentos favoritos de Mozart. Mais: não temos certeza se Mozart planejou uma cadência no primeiro movimento — é uma dos seus composições mais difíceis de executar. Essas observações iniciais tornam muito óbvio que essa composição simplesmente não atendia às expectativas do público de Mozart. Certamente, eles gostavam de melodias mais charmosas, de uma interação mais lúdica entre orquestra e solista, de frases engraçadas, modulações incomuns e surpreendentes e, acima de tudo, lirismo operístico. Para ser justo, o Finale contém uma adaptação de um tema tirado de Idomeneo, mas é claro que trata-se de território de “ópera seria”. No evento de Schnabel e Szell, os críticos de música, em pleno 1934, ainda chamavam esse concerto de “frío e sem originalidade”.

Bem… Não é pouco original, mas decididamente sinfônico o movimento de abertura — é do mundo sonoro da Júpiter — e claramente operístico no movimento do meio e no Finale. Deste modo, ele ultrapassava as fronteiras entre gêneros distintos. De acordo com o H.C. Robbins Landon, o K. 503 é “o trabalho onde Mozart resolveu de forma mais brilhante e perfeita os problemas estruturais, dramáticos e musicais que ocuparam tanto de seus melhores esforços operísticos”, é o concerto que “continha a essência da abordagem de Mozart para a forma sonata: a unidade dentro da diversidade”. Visto dentro deste contexto, não é de surpreender que audiências e artistas não pudessem entender este trabalho altamente sofisticado e sutil. Afinal, hoje sabemos que ele apontava para o futuro. Infelizmente, foi deixado para Ludwig van Beethoven a chance de realizar este futuro, especificamente em termos de grandeza de escala, espaço formal e caráter épico em seus concertos para piano. É claro que Mozart poderia ter expectativas inteiramente diferentes do gênero concerto, já que seus dois últimos esforços aderem a outro caráter. Seja como for, o Nº 25, K. 503 corajosamente rompe as barreiras da forma de concerto altamente estilizada que Mozart herdou e abre o caminho para a incrível variedade, diversidade e originalidade do gênero no século XIX.

Ageism: as empresas e o preconceito etário

Ageism: as empresas e o preconceito etário

O paradoxo de querer que as pessoas trabalhem até os 65  anos quando elas já são descartadas pelo mercado aos 30.

Introdução descartável do blogueiro:

Eu já sofri preconceito por ser velho. Tenho 61 anos e, quando estava lá pelos cinquenta e pouquinhos, frequentei um ambiente de trabalho onde era um véio bastante produtivo (deixemos a grafia desrespeitando a nova ortografia, já que falamos de velharias), mas sempre alvo de desconfiança. O que sistematicamente me salvava era ter lido demais e ter muita informação armazenada na cabeça, o que me fazia alvo de consultas. E também de críticas, é claro. Afinal, era o Culto.

O artigo do meu amigo Fernando Guimarães fala mais da obtenção do emprego, já minha experiência fala mais sobre “as ideias de um véio que insiste em dar palpites”… Pois é, o problema é que muitas vezes eu acertava, dando soluções e antecipando crises e problemas. Os chefes gostavam de mim, já os colegas nem tanto. Credo, quantas piadas e brincadeiras sobre velhos tarados ouvi! Enchi o saco. Parecia que eu era o Tio da Sukita. Mas aguentei sempre sem reclamar.  

Sou um falador altamente sociável, algo como um bobo alegre. Porém, quando me deparei com o preconceito, tive que mudar minhas características e atuar. Tratei de me adaptar usando meus dotes inexistentes de ator. Senti que tinha que ser simpático e jovial e que devia falar o menos possível sobre trabalho, ficar de fora das brincadeiras que se relacionassem com festas, cerveja e assemelhados — não que bebesse ou saísse menos do que eles –, e deixar todo o trabalho profissional bem documentado e claro. Tudo porque sabia para onde os dedos seriam apontados no caso de problemas. Sim, não era um ambiente dos mais avançados, apesar de ser um local que dizia respeitar a diversidade. Ou seja, lá tinha vários exemplos de tolerância, mas não para com pessoas de mais de 50 anos. Foi complicado, mas hoje estou num lugar autenticamente avançado e tolerante.

O texto a seguir fala de ageism, palavra que deriva de age, idade. Os exemplos são todos da área da informática, mas não creio que as outras áreas difiram muito do que é contado. Vale a leitura.

.oOo.

Por Fernando Guimarães (*)

O Brasil vive hoje um paradoxo. Há um sensível aumento da camada da população com idade superior a 45 anos, que deverá representar cerca de 56% da futura população em idade ativa até 2040, segundo dados de estudos do IPEA. Por outro lado, a reforma previdenciária exigirá que homens trabalhem até os 65 e mulheres até os 60 anos. E como conciliar este cenário em um país onde cultura do mercado de trabalho desvaloriza quem já passou dos trinta anos?

Ageism é a palavra em inglês que descreve o preconceito em relação à idade de uma pessoa. Não existe uma tradução literal para o português, que poderia ser algo como “preconceito etário”, mas ela está muito presente dentro das organizações nos EUA e, certamente, no Brasil. Em muitos países, estes profissionais mais experientes, são tidos em alta consideração como uma fonte de sabedoria. Não parece ser o caso por aqui.

Curiosamente, nenhuma empresa estimula este preconceito, pelo contrário: em seus valores sempre estão descritos o respeito à diversidadeNosso paradigma atual mais forte direcionará a palavra diversidade à diversidade sexual. Diversidade, de fato, é a qualidade daquilo que é diverso, diferente, variado; variedade. E a idade de uma pessoa faz parte deste contexto.

Enquanto algumas áreas profissionais valorizam mais a experiência de trabalho, como a Engenharia, Medicina ou Direito – onde inclusive um número menor do registro na OAB já identificaria um advogado mais experiente e em tese já “intimidaria” o advogado da parte adversária – em outras áreas, onde a tecnologia está mais presente, os profissionais sofrem mais com o preconceito de idade, principalmente por eles sofrerem mais pressão para uma constante atualização técnica e uma cobrança para seu “crescimento” de carreira.

Paradoxalmente, algumas tecnologias de TI dos anos 60, onde as previsões diziam que elas já estariam mortas nos anos 80 ou 90 como o Cobol, sobreviveram – por serem muito utilizado por grandes bancos e corporações – e viram desaparecer primeiro os técnicos desta área antes que as previsões se concretizassem, o que causou a falta de pessoas para manter estes sistemas. Recentemente em um em um evento de tecnologia em Porto Alegre, a IBM expôs um Mainframe, com a finalidade de atrair jovens para sua academia, acenando como salários médios muito maiores do que os pagos para desenvolvedores Java – talvez os profissionais mais valorizados no mercado de TI – assim como para os Administradores de Banco de Dados, outra dor de cabeça para os RH´s. Ao que parece o Java permanecerá por muito tempo ainda. Resta saber se os desenvolvedores mais antigos, já entrando na casa dos 40 anos sofrerão do mesmo mal…

“Nós nem vamos chamá-lo: ele é muito capacitado para a vaga. Em seguida acha uma coisa melhor e vai embora”

Alguns paradigmas comumente presentes e discutidos (ou não!) nos processos de seleção:

  • A estabilidade não é um problema: se você está preocupado com um pedido de demissão de um funcionário mais velho nos próximos 5 a 10 anos, considere isso – a duração média para empregados com idades entre 25 e 34 anos é de 3,2 anos. É um erro considerar premissas projetadas ao contratar um candidato
  • Eles sabem o que querem: Profissionais mais jovens estão forjando sua carreira – profissionais mais antigos já têm uma. Quando você contrata um funcionário mais velho, você está contratando um funcionário que sabe como fazer o seu trabalho e quer continuar fazendo o mesmo. Só porque eles são mais velhos não significa que eles estão de olho no seu cargo ou interessados em escalar a escada corporativa. Eles entendem o que querem fazer e esse é o trabalho que desejam.
  • Idade não determina habilidades: só porque um candidato é mais velho não significa que ele não é apto para o que você precisa. Um candidato com um bom histórico de trabalho, provavelmente terá um conjunto de habilidades devido a seus anos de experiência contínua. A educação continuada é uma prática crítica para a maioria dos profissionais, independentemente da idade – portanto, não se pode presumir que um trabalhador mais velho não esteja familiarizado com as ferramentas, tecnologias e práticas mais recentes.
  • Eles têm menos obrigações: Funcionários mais velhos geralmente têm menos assuntos pessoais e familiares para atender. Filhos pequenos e empréstimos habitacionais geralmente não fazem mais parte de suas vidas, portanto estarão mais disponíveis e podem assumir hábitos de trabalho que não vivenciam desde os primeiros 20 anos.
  • Eles se inscreveram: A razão mais relevante pela qual você não deve desacreditar um candidato mais velho é simples: eles se inscreveu! Ele usou tempo para localizar a oportunidade de trabalho, atualizou seu Linkedin e decidiu enviar o CV. Se ele está confiante o suficiente para aplicar para uma vaga e possui as habilidades necessárias, não há razão para que lhe seja negada a chance de uma entrevista.

Mas se as empresas, estimulam a diversidade, por que existe o preconceito à contratação de pessoas mais velhas? Na realidade o preconceito já se faz presente, inconscientemente, quando alguém está efetuando sua contratação que é, na maioria das vezes, aquele que será seu superior imediato.

“Tenho medo do diabo não por ele ser o diabo, mas por ele ser bem mais velho do que eu”

Além da capacidade técnica e personalidade, um gestor considera no processo de seleção de seu subordinado, um outro fator pessoal uma pergunta muito importante:como este novo funcionário contribuirá para meu sucesso e no que ele pode ajudar a alavancar minha carreira.

Você, como gestor, poderia se perguntar: por que eu contrataria aquela pessoa mais velha do que eu, com mais experiência de vida do que eu, que já passou por experiências que eu ainda não passei, mas que por outro lado pode ser uma ameaça para minha carreira, que pode apontar meus erros para o meu gestor e tomar o meu lugar? Não seria menos arriscado eu optar por candidato mais jovem ou por um candidato medíocre, aquele que eu teria mais ascendência e que me consideraria um ídolo? E você, por quem você optaria?

.oOo.

(*) Fernando Guimarães é graduado em Gestão de Tecnologia da Informação e pós-graduado em Gestão de Projetos. Atua na área de Tecnologia há cerca de 20 anos, sendo que nos últimos sete anos esteve envolvido com Processos e Projetos. Como gosta também de escrever, vez ou outra dá voz a seus pitacos e gera algum conteúdo.

.oOo.

Fontes:
www.aarp.org/work/on-the-job/info-2014/workplace-age-discrimination-infographic.html
blog.indeed.com/2017/10/19/tech-ageism-report
www.edistaffing.com/blog/2014/10/02/age-discrimination-workplace, 
news.sap.com/2013/08/ageism-in-tech/