Parece uma bagunça, mas é um tesouro

Parece uma bagunça, mas é um tesouro

Olhando parece uma bagunça, mas a área infantil da Bamboletras é um tesouro.

Claro que é legal dar chocolates na Páscoa, mas nós, da Bamboletras, que também amamos chocolates — podem nos presentear, tá?, estamos aqui das 10 às 22h –, sabemos que o valor afetivo, a durabilidade e a lembrança de um bom livro infantil são para sempre.

E nossos infantis foram reforçados para esta Páscoa.

Na sexta-feira e no domingo, estaremos abertos das 15 às 22h. No sábado, horário normal.

É só chegar.

P.S. — Caso alguém queira nos deixar bem felizes, nossas preferências giram entre o Kit-Kat, o velho e bom Refeição, o Milka, Prestígio, Ouro Branco e livros, muitos livros!

Bibi Andersson (1935-2019)

Bibi Andersson (1935-2019)

Ontem, senti-me abalado ao saber da morte de uma das musas de Ingmar Bergman, Bibi Andersson. Ela participou de boa parte dos filmes que adoro.

Tive a grande sorte de ver e rever todos os filmes que ela fez com Ingmar Bergman faz poucos anos. A atuação dela em Persona… Ingmar Bergman teve a sorte de desenvolver e trabalhar com alguns dos maiores atores do mundo — Erland Josephson, Max von Sydow, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Bibi Andersson e Liv Ullmann.

Bibi Andersson é mais lembrada por seus papéis em O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), No Limiar da Vida (1958) — um dos meus filmes favoritos de Bergman que serviu de inspiração para o poema que Sylvia Plath chamou de Três Mulheres –, Persona (1966), A Hora do Amor (1971) e Cenas de um Casamento (1973), onde é coadjuvante. Mas trabalhou  também fora da Escandinávia, em filmes menores.

Jamais esquecerei aquelas imagens de Persona como as de Bibi e Liv atravessando a praia e seus rostos lado-a-lado em justaposição. Há também o célebre monólogo de quatro minutos do personagem de Bibi no filme, relembrando seu encontro com um menino em uma praia que levou a uma gravidez e a um aborto juvenil contra a vontade.

Bibi Andersson e Liv Ullmann em Persona (1966).

Eu me pergunto como Liv está se sentindo agora. Em entrevistas recentes, ela falou de sua admiração e respeito por Bibi, comentando suas atuações em Persona e Cenas de um Casamento, no qual Bibi aparece em uma cena crucial.

Bibi Andersson já estava aposentada — sofreu um AVC em 2009 e desde lá estava bastante mal –, mas espero que seu luminoso sorriso permaneça em minha memória até que venha meu momento de segui-la.

Bom dia, Odair (com os lances do Gre-Nal de ontem)

Bom dia, Odair (com os lances do Gre-Nal de ontem)

Há um grave problema no Inter. D`Alessandro está completando hoje 38 anos e é inevitável que não seja mais o mesmo jogador de antes. A idade pesa e ele tem de ser substituído em todos os jogos. Entramos em campo sabendo que Dale vai sair ali pelos 15 do segundo tempo. É claro que ele — com sua qualidade técnica superior — deveria entrar durante as partidas e não o início das mesmas, Odair, pois já pegaria os adversário cansados, mas… Mas este é apenas o primeiro dos problemas.

Parabéns pelo 38 anos completados hoje, D`Alessandro! | Foto: Ricardo Duarte | SC Internacional

Veja bem, nossa segunda linha de 4 é formada por Dale, Edenílson, Patrick e Nico. A ordem de substituições parece ser imutável: o primeiro da fila é, incrivelmente, Parede, depois vêm Pottker e Camilo. A ordem é finalizada por Nonato e Sarrafiore. É uma tremenda injustiça para com os jovens. Na minha opinião e na de quase toda a torcida, esta ordem deveria ser simplesmente invertida.

Ou deveria ser mais criteriosa. Nonato seria o substituto natural de Edenílson e Patrick, mais afeitos à marcação. Sarrafiore ou Camilo seriam SEMPRE os suplentes de Dale, e Pottker e Parede os de Nico. Mas como enfiar simplicidade na cabeça de um técnico amedrontado?

Parede na posição de Dale? Meu deus, ele é grosso de dar dó, muda toda forma de atacar do time. E gosta mais de marcar zagueiros do que construir jogadas…

No mais, seis coisinhas sobre o Gre-Nal:

(1) Inter fez uma partida apenas média. O empate foi justo. Nosso esquema foi o mesmo dos jogos anteriores, apenas com maior proteção a Zeca, mas isto só foi feito quando Éverton começou a reinar, fato facilmente previsível, não Odair?

(2) A arbitragem foi puramente política. Não me serve. Não expulsar Renato foi a piada do ano. Só no RS um técnico invade o campo para bater boca e fica tudo por isso mesmo.

(3) O Grêmio não marca muito. Gosta só de ter a bola. E o Inter gosta de entregá-la. O jogo foi gostoso de ver do ponto de vista tático, mas nada emocionante. As únicas emoções eram os erros de Vuaden.

(4) Na minha opinião, perdemos o Vaziozão 2019 ontem. Mas eu treinaria bastante cobranças de pênaltis para o segundo Gre-Nal quarta-feira, nas Arena, às 21h30.

(5) Os empates voltaram a ficar na frente do Grêmio na história dos Gre-Nais.

(6) Melhor jogador do Gre-Nal? Victor Cuesta, sem dúvida.

P.S. — E li no twitter de @dimibarcellos: “Hoje foi o quarto jogo quase em sequência onde o Inter teve que queimar uma troca ainda no primeiro tempo por lesão. Patrick contra Alianza Lima, Bruno contra River e Rithely hoje foram por problemas musculares na coxa. Isso não é normal”.

Eu e Elena

Eu e Elena

Primeiro, eu vi Elena com seu violino na Ospa e fiquei boquiaberto. Como ela é linda! Eu não sabia que ela lia o meu blog, que ainda existe — como iria imaginar? Depois, há exatos 9 anos, ela me pediu amizade no Face e começamos uma educada querelinha sobre música. Quando conversamos ao vivo, fiquei duplamente besta. Muito inteligente, bela voz, uma piadista de primeira. Sou um idiota sonhador e sempre acreditei que acabaríamos juntos. Às vezes acerto.

Fico sempre muito feliz ao vê-la, o que ocorre a toda hora. Por exemplo, se eu for na sala agora, ela estará vendo SVU. Se o filme não estiver muito tenso, vai sorrir pra mim.

Minha mãe e o Gre-Nal

Minha mãe era muito supersticiosa. Ela achava que a primeira camiseta que visse na rua, em dia de Gre-Nal, seria a do time vencedor. Estou meio febril há dois dias e não sei a que horas saio hoje. Nem se saio. Mas, mesmo sem acreditar na coisa, fico na expectativa. Quando sair vou ficar olhando para todos os lados até ver a primeira.

O maestro superego

O maestro superego

Publicado na Folha em 13 de abril de 2008
Tradução de Paulo Migliacci

Mais aclamado regente do século XX, Herbert von Karajan, que estaria fazendo 100 anos, esterilizou a imagem da música erudita para as futuras gerações, diz crítico inglês.

NORMAN LEBRECHT

Quando acordo ao som da música de Herbert von Karajan [1908-89] no rádio, esfrego os olhos para ter certeza de que Mao Tse-tung não continua no poder e a União Soviética deixou mesmo de ser uma potência mundial.

Houve um momento, definido pela forte presença de ditaduras, no qual Karajan parecia ser o fundo musical inevitável. Nos anos 70 e 80, ele era onipresente, uma presença cultural imponente cercada por admiradores nos mais altos postos. Afinal, era tudo que um político decaído aspirava ser: ultra-elegante e onipotente.

O centenário de seu nascimento, no último dia 5, está sendo celebrado por um dilúvio de produtos de uma indústria musical que ele conduziu à prosperidade e depois lançou à quase ruína.

Se o mercado de música clássica convencional se estreitou imensamente nos cinco últimos anos, isso é conseqüência inevitável dos excessos da era Karajan. Se a própria música clássica é vista por muitos (injustamente) como elitista, antiquada e retrospectiva, deve-se agradecer a Herbert von Karajan por tê-la transformado em uma forma de entretenimento seguro, empresarial, apresentado em festivais cujos preços são proibitivos ao espectador comum.

Trata-se de afirmações que mal requerem prova, mas continuam a existir nostálgicos que defendem a “grandeza” de Karajan em certas seções da imprensa.

O termo não significa nada em termos críticos, e até mesmo alguém um dia ousado como Simon Rattle se sente obrigado, à frente da Filarmônica de Berlim, que por tanto tempo foi dirigida por Karajan, a homenagear o velho tirano no ano de seu centenário. Quem sabe reviveremos também o culto a Brejnev [1906-82, presidente da União Soviética].

Karajan, como diretor musical e negociante escuso, dominou o cenário em Berlim e Salzburgo dos anos 1950 em diante, pagando cachês extravagantes a seus amigos e usando os ensaios de sua orquestra, cujos salários eram pagos pelo Estado, como sessões de gravação de discos comerciais.

Karajan enriqueceu de forma desmedida e levou muitos de seus músicos à prosperidade com ele, deixando uma fortuna avaliada em US$ 500 milhões [R$ 844 milhões], estruturada de maneira a evitar impostos, e uma pilha de 900 discos.

Ele manipulou a indústria fonográfica, dividindo para conquistar, sempre trabalhando com dois dos grandes selos e cortejando um terceiro. Em dado momento, ele respondia por um terço da receita da Deutsche Grammophon (DG), a maior gravadora mundial de música clássica.

Beleza artificial

Quase tudo o que regia soava muito liso, mais ou menos como camisetas de algodão que passaram por um banho de amaciante de roupa.

Não importa que estivesse executando Bach ou Bruckner, “Rigoletto” [de Verdi] ou uma rapsódia, a música acompanhava uma linha inconsútil de beleza artificial que devia menos à inventividade do compositor do que à intenção do regente de manufaturar um produto reconhecível.

Criado em Salzburgo depois da Primeira Guerra Mundial -uma cidadezinha que se tornou a segunda maior do Estado austríaco encolhido pela derrota-, Karajan aprendeu os perigos de viver em posição de fraqueza. Quando Hitler subiu ao poder, em 1933, ele aderiu ao Partido Nazista não só uma como duas vezes, e foi recompensando com um posto oficial em Aachen -o mais jovem diretor musical do Reich.

Não demorou para que começasse a ser elogiado pelos jornais controlados por Goebbels como “Das Wunder Karajan” (o milagre Karajan), em contraste com Wilhelm Furtwängler, maestro que não merecia a confiança política do regime. Karajan aprendeu com Goebbels como dividir para governar, entre outras artes obscuras da política.

Exibiu seus talentos sombrios na Paris e na Amsterdã ocupadas, servindo para todos os efeitos como o menino de ouro do nazismo.

Industriais ricos

Depois da guerra, foi suspenso de apresentações públicas enquanto suas conexões com o nazismo eram investigadas, mas um executivo da gravadora EMI, Walter Legge, o levou a Londres para conduzir a orquestra Philharmonia, composta por soldados britânicos recentemente desmobilizados.

O relacionamento explosivo entre maestro e orquestra duraria uma década, deixaria Karajan bem treinado nas artimanhas políticas e estimularia sua propensão ao conflito.

Depois da morte de Furtwängler, em 1954, ele se tornou maestro perpétuo em Berlim e usou a destruída capital do Reich como ponto de partida para sua expansão imperial. O festival de sua Salzburgo natal foi transformado em um evento quadrimestral, freqüentado por industriais ricos vestindo smokings, aspirantes a senhores do universo.

Conservadorismo

Nenhum músico da história procurou o poder que Karajan obteve com sua pompa, um poder que se estendeu, por emulação ou submissão, a muitas salas de concertos e festivais do planeta. Reacionário por natureza, ele sempre se manteve fiel ao romantismo convencional, excluindo a música atonal e os estilos de execução posteriores.

Christoph von Dohnányi chegou a acusá-lo de destruir a arte da regência na Alemanha, ao impor à disciplina, de modo tão vigoroso, seu gosto estreito.

Nikolaus Harnoncourt, violoncelista na orquestra de Karajan em Viena, foi excluído de Berlim e Salzburgo depois que começou a reger grupos que utilizavam instrumentos de época, de uma maneira que contrariava a ortodoxia proposta e imposta por Karajan.

A cada vez que gravava um ciclo de Beethoven -e o fez por cinco vezes-, reduzia a chance de interpretações alternativas. Sua hegemonia era autocrática e não admitia oposição.

Quando os músicos de Berlim se recusaram a admitir a clarinetista Sabine Meyer na orquestra, porque não queriam tocar com uma mulher, ele se transferiu para a orquestra rival, a Filarmônica de Viena.

Insatisfeito com a DG, ele estava conspirando para se transferir à Sony na época em que morreu. Karajan só era leal a si mesmo. Seu amor à música estava confinado à maneira como ele a executava.

Imenso charme

O poder dele, ao contrário do que acontecia no caso de Brejnev, no entanto, se baseava em um imenso charme. Muitos regentes que foram vilipendiados por Karajan durante anos, como Daniel Barenboim, se sentiram tentados a esquecer as mágoas em anos posteriores, quando o soberbo maestro os abordou de forma lisonjeira.

Na única ocasião em que me convidou para uma conversa, em 1985, decidi recusar a entrevista, preferindo observá-lo à distância, como a maioria dos músicos fazia. Ele era capaz de gentilezas pessoais tocantes em benefício de seus músicos, mas também de crueldades injustificadas, como a de cortar completamente o contato com um velho amigo sem que houvesse motivo aparente.

O passado nazista de Karajan não é incidental, ainda que ele não estivesse envolvido na promoção de holocaustos. Não há suspeita de que tenha cometido crimes raciais, e sua carreira no Reich encontrou percalços depois de 1942, quando se casou com uma rica herdeira que tinha ancestrais judeus.

O que ele adotou do nazismo foi um conjunto de valores que passou a aplicar à inocente e ineficiente indústria da música de maneira impiedosa e incansável. Se há uma lição que ele aprendeu com os nazistas é a da superioridade da música alemã e o imperativo do domínio mundial. Ele demonstrou que música era, acima de tudo, uma questão de poder.

Muita gente se deixou impressionar, e essa admiração continua. Alguns, como eu, viam sua atitude como desfavorável à música. Para mim sempre foi difícil ouvir Karajan no rádio com isenção.

A “celebração” de seu centenário é uma tentativa final da indústria fonográfica de extrair lucros de um leão morto. Algumas das celebrações são bancadas por subsídios ocultos oferecidos pelo riquíssimo e muito bem organizado espólio do maestro.

Mas é um tanto surpreendente descobrir que a Philharmonia, que nunca o aceitou integralmente, tenha decidido executar um tributo a Karajan.

Um aspecto do debate sobre Karajan, proposto por Dominic Lawson, é se “deveríamos aderir à celebração da vida de um ex-nazista” -e de um homem que jamais renegou suas afiliações passadas. Lawson ampliou a questão para discutir se um mau homem pode fazer boa arte e como devemos nos relacionar com a arte proveniente de fontes maculadas.
Essa questão, relevante quanto a Wagner, importa pouco no caso de Karajan, que jamais criou arte original. Determinar se Herbert von Karajan era um bom ou mau homem é irrelevante. Foi um brilhante organizador, capaz de moldar uma orquestra para executar seu som pessoal, uma capacidade que ele explorou ao extremo.

Karajan infligiu seu ego ao mundo da música clássica de forma que esmagou a independência e a criatividade e prejudicou a imagem da música diante das futuras gerações. Não é o mau homem que deveríamos deplorar, mas o legado reacionário e de exclusão que está sendo “celebrado”.

Para os amantes da música, não há muito a comemorar.
Quando a festa do centenário acabar, a cortina descerá para sempre sobre uma vida reprovável, carente de idéias novas e que não afirmou nenhum valor humano digno. Karajan está morto, e a música passa muito melhor sem ele.

As 6 perguntas e 6 regras de George Orwell para escrever

As 6 perguntas e 6 regras de George Orwell para escrever

Seis perguntas

“Um escritor escrupuloso, em cada frase que escreve, fará a si mesmo pelo menos quatro perguntas. São as seguintes:

1. O que eu estou tentando dizer?
2. Que palavras expressarão o que devo dizer?
3. Quais imagens irá torná-lo mais claro?
4. Esta imagem é boa o suficiente para causar efeito?

E ele provavelmente se fará duas perguntas a mais:

5. Posso fazê-lo mais em curto?
6. Eu disse alguma coisa que seja feia e que possa evitar?

Seis regras

“Pode-se muitas vezes duvidar do efeito de uma palavra ou uma frase, e é preciso regras em que se possa confiar quando o instinto falha. Eu acho que as seguintes regras irão cobrir a maioria dos casos:

1. Nunca use uma metáfora ou outra figura de linguagem que você costuma ler impressa.
2. Nunca use uma palavra longa onde uma curta pode ser utilizada.
3. Se for possível cortar, corte.
4. Nunca use o passivo onde você pode usar o ativo.
5. Nunca use uma frase estrangeira, uma palavra científica ou uma palavra de jargão se você puder pensar em um equivalente em sua língua.
6. Quebre qualquer uma dessas regras se elas resultarem em um absurdo.

* Retirado do ensaio de Orwell Politics and the English Language.

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 3 x 2 Palestino)

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 3 x 2 Palestino)

O Inter iniciou a partida pressionando fortemente o time do Palestino, como fizera contra Alianza e River no Beira-rio. Logo abriu vantagem de 2 x 0, como ocorrera no jogo contra o River. Os gols foram de Patrick após longa troca de passes e de Guerrero, com incrível competência depois de receber de Nico López. Na verdade, Nico deu o passe final para nossos três gols. A dupla Guerrero e Nico começa a funcionar e vale foto.

Nico deu as três assistências para os gols, Guerrero marcou dois com incrível competência | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Depois, ainda no primeiro tempo, igualzinho como acontecera contra o River, o Palestino achou um gol em falha inédita na temporada maravilhosa de Marcelo Lomba em 2019. Ele saiu caçando estrelas como um astrônimo drogado e tomou o gol.

Para ornamentar o cenário da tragédia que se formava, o juiz anulou um gol legal de Nico López no finalzinho da primeira etapa. Um completo absurdo, presente do bandeirinha.

A merda se instalou a um minuto do segundo tempo. Nico fez uma gracinha e perdeu a bola quando a defesa estava saindo. Moledo finalizou o momento de pane errando ridiculamente na marcação de Passerini, que empatou em 2 x 2.

Então deu aquele nervous breakdown no Inter. Tudo dava errado e os chilenos se atiravam no chão, ganhando tempo sob o olhar impassível do árbitro Carlo Orbe, que parecia achar legal ver o time do Palestino fazer cera enquanto distribuía cartões amarelos… Para o Inter! Aliás, que juiz ruim!

Então, na terceira assistência de Nico, saiu o gol salvador de Guerrero. Poie é, Guerrero é de outra turma. Não apenas faz gols como joga incrivelmente bem e com tranquilidade.

Depois, o juizeco deu dois cartões injustos para Parede e ficamos com dez em campo. Aí, tivemos aquele momento-sufoco em que só desarmamos e devolvemos a bola para o adversário.

Neste período, Odair resolveu dar força ao sufoco que sofríamos: colocou o burro William Pottker em campo e ele não se deu conta que tinha que segurar a bola.

Mais observações: Dourado saiu lesionado no primeiro tempo, mas Rithely foi bem. Dale não deve sair jogando nunca, Odair. É substituição certa. É ruim para ele e pro time. Patrick foi bem, é justo que se diga. Zeca foi bem, imaginem! Ah, outro que não usa o cérebro: Iago.

Estamos na próxima fase da Libertadores com dois jogos de antecipação.

Vida fácil? Nada disso. Agora temos dois Gre-Nais pela decisão do Campeonato Gaúcho. O primeiro jogo é domingo (14/04), às 16h, no Beira-Rio. O jogo de volta ocorre na quarta-feira (17/04), às 21h30. Voltamos a campo pela Libertadores no dia 24 de abril, às 21h30, contra o Alianza, ex-time de Guerrero, em Lima.

Glaxo, de Hernán Ronsino

Glaxo, de Hernán Ronsino

São 4 capítulos fora da ordem cronológica, sendo que cada um deles é escrito na primeira pessoa por um dos personagens principais, formando um quebra-cabeça que só será inteiramente compreendido na frase final. Eles são Flaco Vardemann, Bicho Souza, Miguelito Barrios e o suboficial Folcada. Um escreve em 1973, outro em 84, os outros dois em 66 e 59. É um livrinho de 80 páginas magistralmente planejado. Admiradores de westerns, eles protagonizam sua versão de violência no interior da Argentina. Os amigos falam a respeito e imitam certas cenas de Duelo de Titãs (1959), de John Sturges. Como um elegante western, não há excesso narrativo ou verborreia para contar uma história de pessoas que foram traídas.  Digamos que há 3 grandes traições na história. A linguagem é totalmente sem adornos. Encalhado em algum lugar entre o romance e a novela, o texto pode ser lido facilmente em uma sentada. Mas o arranjo engenhoso da narrativa consegue satisfazer o leitor como se fosse um trabalho muito mais longo. Seu laconismo acrescenta um mistério que imita os habitantes da cidade que representa. Apesar de um personagem trair outro por causa de uma paixão, o cenário de violência nesta cidade pontuada pela fábrica Glaxo está justificado pela política da época. Este ponto é ilustrado por um dos quatro narradores, Folcada, um homem associado ao regime, que fala vagamente de “todo o negócio de Suárez”.

Recomendo muito.

Hernán Ronsino

 

Um pouquinho de política

A candidata de Macri recebeu 6% dos votos na eleição para governador na província de Río Negro — achei o percentual até alto. O candidato de Cristina teve 30% e também não levou. Quem venceu foi Arabela Carreras, de centro-esquerda, com 56% dos votos e posições contra o discurso de ódio. Não é a primeira de derrota de Macri & Cristina. Em março, ambos perderam Neuquén com resultados parecidos.

Bem, os argentinos estão saindo da dicotomia burra. E nós? Quando?

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Quando a esquerda — minha trincheira — pegar no pandeiro e no zabumba, quando ela entender que o samba não é rumba… Ela vai usar as redes sociais como se deve.

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“Tínhamos entrado, tudo o indicava, com precipitação e por toda a parte ao mesmo tempo, na idade do vulgar. Estas gentes, herdeiras indignas de um espírito que tinha iluminado a Europa, retiravam o prazer e o comum da sua conversa do espetáculo quotidiano de marionetas de borracha que supostamente representavam os grandes deste mundo, representações em que o grosseiro dos traços não cedia senão à estupidez estereotipada das réplicas: julgavam ver nisso um tom de Molière. Esquecera-se o humor em favor da chalaça, a insolência em favor da canalhice.”

Olivier Rolin, in Porto-Sudão, trad. João Duarte Rodrigues

Meu Amor, de Beatriz Bracher

Não é um livro para mim. É bem escrito, tem contos curtíssimos — quase poemas em prosa — e outros mais longos. Ainda há os que são retirados da realidade, como aquele que se baseia no caso Isabella Nardoni. Há até um que é apenas um poema em inglês… Contos? Meu Amor é bem cronístico. A falta de fabulação da autora em alguns, tá bem, contos, me cansou. Me pareceu que Bracher estava fazendo uma limpeza de suas gavetas e eu que não queria participar daquilo, problema dela. Levei uma semana para ler todo o pequeno livro por absoluta falta de tesão. Ia num café e preferia ficar no celular. Ando mais Stevenson do que James, fazer o quê? O mérito do livro é o de fazer poesia com a realidade dura de nosso país e com personagens bem nossos. Em resumo, são textos coloquiais e realistas muito bonitos, mas a maioria não são contos, outros são casos reais e conhecidos e sobrou pouco para quem desejava e esperava ler… contos. Afinal, não era um premiado livro de, repito e repito, contos?

Talvez o problema seja eu, mas a verdade é que foi duro ler Meu Amor.

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 2 River Plate)

Bom dia, Odair (com os lances de Inter 2 x 2 River Plate)

Que chocolate tático tu tomaste ontem, hein, Odair? E nem conseguiste ver o que estava acontecendo. Acho que precisas de alguém que fique no telefone te dizendo, poe exemplo, no início do segundo tempo:

— Odair, o Marcelo Gallardo colocou três zagueiros, tá no 3-6-1, povoou o meio-de-campo, o número 11 (Nicolás de la Cruz) é bom e está sempre livre, tu tens que marcá-lo de cima, etc.

Essas coisas, entende?

Ontem, tivemos um belo jogo no Beira-Rio. Belo e decepcionante.

Edenílson vai marcar seu golaço | Foto: Ricardo Duarte

O Inter pressionou e logo fez 2 x 0. Um gol de oportunismo de Nico e outro — um golaço — de Edenílson. O River achou um gol ao final do primeiro tempo. Lucas Pratto fez 2 x 1.

No início do segundo, Odair pensou que podia recuar e explorar contra-ataques, mas do outro lado tinha Gallardo. E o treinador do River fez duas trocas no intervalo, deixou seu time num 3-6-1 e o Inter não teve nem a bola nem o contra-ataque. Tudo sem reação tua, que parecia não entender o que estava acontecendo. Por isso, alguém com maior conhecimento tático deveria te ajudar.

Logo aos 15min, o River empatou com o excelente De la Cruz, um dos que entrara. Enzo Pérez começou a mandar no jogo e, se os argentinos tivessem um ataque melhor, talvez tivessem virado o jogo.

Para completar, Odair, tu erraste ao substituir Dale por Wellington Silva. Dale retém a bola, WS vai pra cima. Como estávamos muito bem marcados, a bola voltava imediatamente. Perdemos o meio-de-campo e ficamos sem ataque. A única chance que tivemos foi com Sóbis, que errou a passada — quase tropeçou — na hora de finalizar jogada de Patrick pela esquerda.

O melhor teria sido colocar Sarrafiore ou Camilo, mais parecidos com Dale. Até Nonato, de bom passe, teria sido melhor.

Tu segues o estilo Abel. Perdes o meio-de-campo trocas atacante por atacante. Meu deus, para que botar Parede???

Odair, meu filho, olha pro Gallardo e imita, vê se aprende, por favor. 2 x 2 justo, mas decepcionante. Afinal tivemos um 2 x 0 de vantagem e deixamos o River chegar. Nosso time não é tão ruim quanto tu.

Pela Libertadores, nossa próxima partida é contra o Palestino, em casa, na terça-feira (9) às 21h30. Vai ser complicado, pois não sabemos atuar bem no Beira-Rio contra times fechados. O mesmo vale dizer para o perigoso jogo de sábado (6), às 16h30, também no Beira-Rio. Acho que o Caxias jogará melhor aqui do que jogou no Centenário e devemos ir com os reservas. Acho ambos jogos muito perigosos.

(Hoje o Inter completa 110 anos. O Grêmio joga contra a Universidad Católica em Santiago. Aguardamos um presente da Cordilheira).

Os melhores momentos começam aos 26 segundos:

Não tão longe assim do balcão da Bamboletras (X)

Não tão longe assim do balcão da Bamboletras (X)

Dois briosos funcionários da Bamboletras vão a uma distribuidora. Estão dentro de um carro do Uber. Um comenta com o outro:

— A cliente X me pediu o livro “Casamento Blindado”.
— Mas como? Ela é uma boa leitora!
— É. Mas uma amiga dela pediu.
— Imagina o que deve ser este livro. Largam uma bomba atômica e só sobram as baratas e o casamento.
— Sim. Diz na capa que é “à prova de divórcio”.

Os dois riem.

— E sabe? Esgotou na distribuidora Y. Vou perguntar nessa.
— Só falta ter virado raridade. Casamento blindado… O meu não era. Meu ex mandou um amigo buscar suas coisas na semana passada. Cagão.
— Ah, claro, tu é cética, não lê a bibliografia correta. Não blindou porcaria nenhuma.

Então o motorista do Uber se atravessa na conversa:

— Ouvi a conversa de vocês e… Vocês sabem que eu tenho um exemplar de “Casamento Blindado” no porta-luvas?
— Mesmo????
— Sim, só que tem o meu nome na primeira página. Pedro.
— Ah, pena, Pedro, então não podemos comprar. E está funcionando? Tá blindado?
— Olha, mais ou menos…

(E não é que tinha o livro na distribuidora onde eles estavam indo?)

Bom dia, Odair (com os lances de Caxias 1 x 2 Inter)

Bom dia, Odair (com os lances de Caxias 1 x 2 Inter)

O gol que Jonathan Álvez fez no jogo dos reservas do Inter de ontem… Parecia Romário. Viram a consequência de ficar no banco ou de fora vendo o Tréllez jogar? A contratação de Trèllez é cada vez mais complicada de explicar, meu caro Marcelo Medeiros. Álvez é limitado, mas sempre deu melhores resultados do que o colombiano e Pedro Lucas, quando não é expulso.

Marcelo Lomba, atualmente um monstro | Foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

Bem, o Inter venceu o Caxias no Centenário por 2 x 1 pelas semifinais do Gaúcho. Foi um sufoco — nosso goleiro Marcelo Lomba foi o melhor em campo –, mas o time enfrentou bem e realmente tentou vencer o Caxias. Foi pra frente, tomou muitos contra-ataques e venceu, trazendo um bom resultado.

Os árbitros seguem sua senda de absurdos. Ontem, ocorreu pênalti duplo num lance na área com Camilo, mas o apitador decidiu ignorar os fatos, mesmo estando em cima do lance. Primeiro, houve uma mão na bola e depois Camilo foi derrubado…

Bem, o desempenho da equipe importa sim. Enfrentamos o terceiro melhor time do campeonato, tivemos enormes dificuldades, mas ganhamos o jogo. Difícil de reclamar. Não gostei de Rithely e, é claro, de Tréllez. Estes comprometeram, mas o resto foi desentrosado e razoável do ponto de vista individual. Camilo esteve muito bem.

Agora, tudo é River Plate. O jogo será quarta-feira (3), às 19h15. O perigoso jogo de volta contra o Caxias será sábado (6), às 16h30. Podemos perder por 1 x 0. Empate dá Inter.

Os lances do jogo começam aos 8 segundos.

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVI – A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek

Os 50 maiores livros (uma antologia pessoal): XXVI – A Guerra das Salamandras, de Karel Čapek

A Guerra das SalamandrasEu tinha lido A Guerra das Salamandras (Record, 334 páginas, R$ 59,90) lá pelos anos 80, em uma edição portuguesa, creio que da Livros do Brasil, Coleção Argonauta. O livro me ficara na lembrança como a melhor distopia que já tinha lido. Busquei esta edição da Record, de 2011, para conferir minha impressão. Seria em equívoco? Não, de modo algum.

Não sou um grande leitor de distopias ou de ficção científica, mas creio ter lido todos os clássicos do gênero. E nenhum foi tão envolvente quanto este livro de Karel Čapek (1890-1938).

Vejamos as razões. Em primeiro lugar, a obra tem muito humor. Na verdade, o livro é uma sátira. Ciência, política, economia, jornalismo, capitalismo, fascismo, Hollywood… Tudo vai na receita do tcheco. É um humor sutil e sempre bem-vindo, mesmo que a história conte detalhadamente a derrocada final da raça humana.

Outro motivo é são as 3 divisões do livro. Primeiro, ficamos sabendo sobre o surgimento das salamandras e da enorme importância econômica que elas passam a ter no mundo. As salamandras Andreas Scheuchzeri foram descobertas pelo capitão Van Toch. Ele foi o primeiro a notar a alta inteligência dos bichos. Elas viviam nos Mares do Sul, em uma baía, lutando eternamente contra os tubarões que insistiam em comê-las. Van Toch descobre que são inteligentes — são salamandras grandes, de 1,20m, com jeito para usar ferramentas e para estabelecer comunicação com humanos. Ou seja, elas aprendem nossa língua. E Van Toch passa a lhes fornecer ferramentas simples como facões a fim de elas se defendam dos tubarões. Em troca, os inteligentes bichinhos, oferecem-lhe pérolas — elas sabem que os seres humanos gostam delas. Então, Van Toch corre para propor sociedade a um milionário tcheco, que logo vê uma oportunidade de lucro. Afinal, ferramentas por pérolas… Bom negócio! E elas — com notável capacidade de reprodução — acabam por se espalhar pelo mundo, tomando conta de todos os litorais. A humanidade progride espetacularmente, pois, é óbvio, o que fizemos com elas? Fizemos com que trabalhassem para nós e não apenas catando pérolas, ora!

O segundo capítulo traz um tratado científico sobre as salamandras Andreas Scheuchzeri. É discutido como elas falam, como acasalam e se reproduzem (há uma manual do sexo entre salamandras), seus rituais e sua tremenda disposição para o trabalho e resistência.

E nasce o Sindicado das Salamandras. É claro que as elas são cada vez mais necessárias e exploradas. Ao mesmo tempo, porém, criam consciência de si mesmas.

Ao final, vem a guerra. Com tudo o que o ser humano lhes disponibilizou, as salamandras vêm com tudo. Elas passam a ter um comandante, talvez humano. São numerosas, contam-se em bilhões e por isso querem aumentar os litorais do planeta, explodindo continentes. Os europeus, defendendo suas vidas e “cultura superior”, querem dar a China às salamandras. (Não esqueçam que, logo após a morte de Čapek, a Europa entregou a Tchecoslováquia a Hitler, em uma tentativa de apaziguar o expansionismo nazista). Mas nada as acalma.

As causas da derrocada são não apenas biológicas como também guardam um profundo e nada esquecível paralelo com fatos políticos do século XX.

Čapek não apela para o fantástico nem para o tecnológico. É tudo “biológico” e, é claro, altamente maluco e cômico. As salamandras são como seres de outro planeta que estavam escondidas num canto e que, sob condições favoráveis, vieram nos conquistar. Do princípio ao fim, o autor guarda um tom humano, preocupado e cômico.

É simplesmente demais.

Čapek morreu de pneumonia em 1938. Os nazistas foram atrás dele — ele era um inimigo e a Gestapo queria prendê-lo.  Mas encontraram apenas um cadáver.

Ou seja, os tchecos não tiveram apenas Kafka na primeira metade do século XX.

Karel Čapek: visto assim, parece normal

 

Minha cueca de zebrinha

Pois então eu disse para minha Adorável Irmã que me enchia o saco, perguntando insistentemente o que eu queria:

— Me dá uma roupa qualquer de aniversário.

Ela obedeceu. Trouxe uma camisa bem legal e uma cueca de zebrinha. A cueca era uma brincadeira, é claro. Ou não, pois não sei a que gênero de fetiches a Adorável é aficionada. Examinei a cueca. Era uma boa cueca, não era fio dental nem tanga, era até bem grandona, de um modelo que acho que chamam de boxer, mas era de zebrinha…

Tudo bem, guardei a cueca. Só que comecei a usá-la no dia-a-dia. O tecido era muito bom, agradável ao toque e não apertava, uma maravilha.

Minha ex-mulher dizia para eu não sair na rua porque

— imagina se tu sofres um acidente e tiram as tuas calças? O que vão pensar?

Nem presumo que tipo de acidente me obrigaria a tirar as calças, porém fiquei fantasiando a cena: eu caído no meio da rua após um atropelamento, um popular resolve me tirar a roupa para que eu fique mais arejado e…

— nossa…
— que selvagem…,
— hummm…
— será que é comestível?

E eu agonizando no meio da rua enquanto ouvia as piadas.

Bom, vocês então já sabem que eu usava a cueca de zebrinha por aí. Então, certo dia, eu e minha ex-mulher íamos a um concerto. A combinação era de que eu a pegaria no escritório e dali iríamos direto. Muito bem. Quando cheguei de carro ao prédio, telefonei para ela, que respondeu aos gritos e com voz de choro.

— Estourou um cano aqui na sala, estou sozinha. Busca um tampão numa ferragem e corre aqui de volta!!! Te apressa, é uma tragédia!!!

Dez minutos depois, lá estava eu com vedante e tampão. A sala era uma bósnia. Vocês sabem como são os prédios antigos: há registros que não funcionam, outros que não desligam nada, tubulações que não dão em lugar nenhum — parece Escher — e, na cozinha do escritório, havia uma torneira de plástico preto que dava no exato lugar onde, em tempos imemoriais, talvez houvesse uma pia ou um tanque. Minha ex batera sem querer com o braço na torneira e ela simplesmente estava colada e… Saiu voando! Uma beleza a força do jato, todo o escritório estava com um dedo de água e eu concluí que aquele dedo d`água causaria aos móveis outra tragédia, esta financeira. Fui ao banheiro, tirei os sapatos, as meias, a camisa, as calças e voltei com aquele ar temático para a cozinha. Isto é, era uma zebrinha. Descobri, tomando um dos maiores banhos de minha vida, que a parte da torneira que ficara dentro do cano estava toda untada de cola e que não sairia assim no mais. Procurei alicate, não havia; procurei chave-de-fenda, nada; tentei com facas, banho. Chamamos então o Pingo, nosso faz-tudo.

Enquanto isso, pus-me a trabalhar. Abri os ralos que havia por perto, peguei um rodo e comecei a direcionar o rio para aqueles locais. Um tremendo sucesso: mesmo com o jato ativo, a quantidade que eu lograva fazer ir pelos ralos era maior. Suava feito um estivador, mas meu bom humor estava de volta em função de ter provado àquela porra de jato d`água que eu era maior e mais forte. Ah, a alegria das tarefas braçais bem realizadas, feitas sem um nada de cérebro!

Foi quando tocaram a campainha da porta. Berrei para a minha ex atender. Devia ser o Pingo. Ouvi vozes. De mulher. Então, ela entrou na cozinha com a vizinha de baixo, uma chilena chamada Nila, enquanto eu jogava água para todos os lados vestido apenas com a cueca de zebrinha. Claro, ninguém tem nada a ver com as cores de minhas cuecas, mas… Bem, já é estranho a vizinha de baixo de um edifício de escritórios nos ver de cuecas se não temos relação mais íntima, contudo é para lá de estranho que em nosso primeiro contato sejamos tão esclarecedores sobre nossas preferências. E, vocês sabem, sou um sujeito sério, erudito, metido a intelectual, não é legal que logo a pessoa mais fofoqueira do prédio me pegue em trajes tão significativos. Ela foi embora com inédita rapidez, sem mesmo dizer oi nem tchau, como se tivesse visto uma cena pornográfica ou uma barata verde-limão. Eu fiquei irritadíssimo. Como é que foi autorizada a entrada de estranhos durante meu trabalho?

Como vingança pelo ato falho, tirei as cuecas e passei a mandar água para o ralo sem roupa nenhuma. Aí me veio a ideia de pegar um pau qualquer, fazer uma ponta levemente crescente nele, enrolá-lo num pano e depois metê-lo no cano. A raiva nos faz pensar, viram? E não é que o jato estancou? Pude então ir mais longe do que a cozinha e empurrar a água que estava no resto do escritório para os ralos. Mais suor e mais sucesso. Então, minha querida ex-esposa, ela de novo, que fora fazer relações públicas pelo prédio a fim de não brigar comigo, entrou na sala com outra vizinha, esta muito mais respeitável, a D. Rose. As duas puderam avaliar minha genitália, mas creio que viram melhor o traseiro, tal a velocidade com que retornei à cozinha.

Depois, o Pingo chegou e arrumou tudo, rindo de nossas histórias. Levamos o Pingo em casa e acabamos no cinema. Eu com minha roupa inteiramente seca, ela toda molhada. Fiquei preocupadíssimo.

Like a rolling stone

No dia anterior, ela visitara o ex-marido que ainda habitava o apartamento onde moraram por quase uma década. No momento de sua chegada, a filha correra para o lado do pai, como era habitual há alguns meses. Afinal, a mulher passara a encontrar defeitos em tudo que a enteada dizia ou fazia e a menina apressava-se em ir para a cama cedo todas as noites, antes que a mulher chegasse da faculdade — ou das festas.

Mas naquele dia ela viera muito cedo, por volta das 20h. Quando entrou na sala, tinha vermelha a face de ossos proeminentes, ainda mais inchada do que o normal. Ela disse que precisava da chave do carro.

— Por quanto tempo?

— Dois ou três dias.

— Tudo bem, estão aqui.

E ela foi embora, não sem antes deixar no ambiente algumas ofensas, as quais foram recebidas com risos pelo marido e apreensão por parte da filha. Desde dezembro, quando Marcos anunciara sua intenção de não fazer mais tentativas de fertilização in vitro, ela tratava a filha com visível desdém. O casal estava separado há três meses, desde que o marido descobrira o adultério da mulher, concretizado com um amigo da família.

Desde então, ela estava morando na casa da mãe ou no apartamento do novo namorado. Eles ainda não tinham conseguido conversar a respeito dos acertos necessários. Na única visita que a mulher fizera ao advogado que ele constituíra, ela saiu batendo a porta, chamando-o de desaforado.

No dia seguinte, Marcos trabalhava normalmente quando recebeu uma ligação. Era de sua ex-mulher e ele atendeu prontamente, pensando que ela lhe faria algum gênero de proposta de separação. Mas não. Ela lhe comunicou aos berros — e com um turbilhão de ofensas de baixo calão — que tinha trocado as chaves da porta do apartamento e que ele deveria morar, por apenas quinze dias, na casa dos fundos, bem conhecida dele, já que sua mãe passara os últimos dias de sua vida ali. Suas roupas e alguns poucos pertences estavam lá.

Marcos desligou o telefone no meio da ligação e telefonou para sua filha. Esta já sabia de tudo e falou que a mulher estava louca. Ligou então para sua irmã, que também já tinha sido informada. Ligou então para vários amigos. Estes não sabiam de nada e ofereceram quartos para que ele passasse alguns dias. Eram unânimes; ele não deveria voltar lá. Marcos não pensava assim, achava que podia ficar na ex-casa de sua mãe por alguns dias. Ligou então para sua recente namorada e ela reafirmou: voltar está fora de questão. É que depois da agressão moral gratuita, os amigos tinham receio de outros ataques, verbais ou até físicos. De qualquer modo, Marcos foi até lá com um amigo. Chegaram calmamente, analisando o caso. Discutiam principalmente o caráter adesista, verdadeiramente peemedebista, da vizinha de cima. Riam das transformações instadas pelo oportunismo.

Ele foi até a casa de trás. Lá, viu suas coisas atiradas, trocou de roupa e foi embora. Recebeu um telefonema. Era um amigo mandando ele ir ao concerto daquela noite, pois Eugênia sempre comparecia, tinha ambições políticas e estava montando uma Associação de Amigos da orquestra que daria o concerto. Ele deveria aparecer bem vestido e tranquilo. Marcos concordou.

Quando desceu as escadas com o amigo, olhou para a sacada de seu apartamento e viu Eugênia falando ao telefone. Ela voltou o rosto para ele. Este estava ainda mais inchado e vermelho.

Marcos foi ao concerto. Depois, foi a um pequeno hotel da rua marechal Floriano, onde deitou-se numa boa cama para receber uma chuva de pó de cupim, que entrava na boca e nos olhos e que lhe fez dormir de bruços. Pela manhã, tomou banho e foi trabalhar. No dia seguinte, quando saiu do trabalho, fez pela primeira vez aquilo que se tornaria um hábito. Por motivos óbvios — afinal, era uma pessoa asseada –, foi com seus colegas de trabalho na loja Só Cueca da Sete de Setembro, depois subiu até a Jerônimo Coelho para comprar meias e desceu até a loja da Hering da Rua da Praia para comprar uma nova camiseta. Com o tempo, na Hering, tornou-se uma da diversões das atendentes. Ao final da tarde chegava e perguntava o que deveria vestir no dia seguinte. Tinha que combinar com sua única calça e sapato. Elas usavam toda a sua criatividade para que ele tivesse as melhores combinações para sua calça bege e sapato marrom. Só que naquele 23 de outubro, Porto Alegre recebeu uma das maiores chuvas de sua história e a coisa não estava engraçada. Os sapatos reclamavam em voz alta, as calças estavam sujas, sujíssimas, e ele teria que lavar, mas como?

Já estava tirando par ou impar entre a casinha de sua mãe e o hotel dos cupins. Subiu a Mal. Floriano e viu-a transformada numa cachoeira. Mas não podia desobedecer à ordem dos amigos e da namorada, eles foram seus esteios. Havia vários oferecimentos de quartos, mas cadê a cara-de-pau? Marcos estava pegando o telefone para falar com alguém, ao mesmo tempo em que se dirigia vagamente aos queridos cupins, quando ele tocou. Era sua namorada dando-lhe uma quase-ordem:

— Não te preocupa com a chuva, vem para cá. Meus filhos estão na casa do pai. Tenho lavadora e secadora. Amanhã, tudo estará limpo.

Eram namorados recentes e ele ainda não tinha dormido na casa dela. Os sapatos ficaram no corredor. Marcos entrou na ponta dos pés. Mora lá há mais de cinco anos.

Bom dia, Odair (com os lances da chatice NH 0 x 2 Inter)

Bom dia, Odair (com os lances da chatice NH 0 x 2 Inter)

O Internacional largou com uma vitória fora de casa na busca pela vaga na semifinal do Gauchão. Com gols de Nico López e Sarrafiore, venceu o Novo Hamburgo por 2 a 0 na noite deste sábado (23), no Estádio do Vale. Com o resultado, o Inter pode até perder por 1 a 0 na partida de volta, marcada para as 21h30 da próxima quarta-feira (27), no Beira-Rio, para confirmar a classificação à fase seguinte.

Nico e Sarrafiore: quanto tempo Odair levará para descobrir que o argentino deve ser o articulador do time? | Foto: Ricardo Duarte

É sempre a mesma história. Uma chatice. A defesa não sofre gols — Lomba está invicto há mais de 500 minutos –, o ataque não cria. O jogo fica horroroso. Odair tira Pedro Lucas e bota Tréllez, sempre sem resultados, pois o primeiro é um menino inexperiente e o segundo é um inútil. Então, Odair tem uma iluminação — sempre a mesma iluminação! — e bota um articulador que pode ser Sarrafiore, D`Alessandro ou Camilo e a coisa passa a funcionar muito melhor. No jogo seguinte, é a mesma coisa. Bah, cansa! Cansa e só serve para jogos contra times fracos.

É o mesmo esquema de substituições… Acho que a gente poderia entrar diferente e matar logo o jogo na quarta. O que achas, Odair?

Sim, eu sei. Tu tens resultados, mas precisa ser tão chato? Em um ano e meio, tu tens:

— 41 vitórias,
— 18 empates,
— 14 derrotas,
— vaga direta pra Libertadores (desde 2015 não acontecia),
— 1ª vez na história o Inter começa a Lib com 2 vitórias nos 2 primeiros jogos,
— em 2018, 82% de aproveitamento no Beira-Rio (só 2 derrotas).

Mas, repito, precisa ser tão chato?

O compacto do Inter começa aos 42 segundos do vídeo abaixo.