Desafio a um homem de caráter


Pessoal, eu juro. Estava andando calmamente pela rua quando fui desafiado. Há momentos em que a covardia não é permitida a um homem de caráter.


Devemos reconhecer o momento de demonstrar nossa grandeza. Então, sem titubear, fui analisar o terreno onde se realizaria a pugna.


Sentei-me à mesa e tratei de encarar meus adversários um a um.


Nunca me desviei de meus objetivos, nem quando eles pareciam movimentar-se, tentando escapar à minha vigilância.


Em clara manobra diversionista, o aviso que definira minha missão também começava a oscilar. Impedi-o.


Depois, atendendo a conselhos, tratei de ficar bem embaixo do cartaz, com a finalidade de que suas artimanhas ficassem fora de meu campo de visão.


Após muito esforço, alcancei a vitória. Como prova, mostro-lhes o flagrante do pingo da vitória.


Apesar de eu não lembrar de nada, a comemoração deve ter sido memorável. O gosto da vitória!

As férias possíveis / Ensinando criacionismo na escola

Volto ao blog terça-feira, tá?

Não, não adianta ligar para o celular, estarei num hotel fazenda sem cidades num raio de 40 Km.

Por necessidades profissionais, devo estar em Porto Alegre entre segunda e quarta (ou terça ou quinta). Depois reencontro a família no hotel.

-=-=-=-=-=-=-=-

Gostaria de ter escrito o texto abaixo. Mas o Prof. Darwin poupou-me o esforço, escrevendo um claríssimo texto sobre a questão que gostaria de abordar na semana em que um dos maiores gênios da humanidade, Charles Darwin, completa 200 anos de nascimento e no ano em que seu livro “A Origem das Espécies” (do original inglês On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life) completará 150 anos.

Ensinando criacionismo na escola, por Prof. Darwin (um pseudônimo, por supuesto)

É assustador que, às vésperas do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, pai da teoria da evolução, escolas brasileiras estejam ensinando criacionismo nas aulas de ciências. Já se sabia que as escolas adventistas fazem isso. A novidade é que o negócio está se propagando. Em instituições tradicionais de São Paulo, como o Mackenzie, inventou-se até um método próprio para o ensino. “Antes, usávamos o material que havia disponível no mercado”, explica um dos diretores da escola, Francisco Solano Portela Neto.

O criacionismo é ensinado como ciência da pré-escola à 4ª série.

Não há problema em que o criacionismo seja dado nas aulas de religião, mas ensiná-lo em aulas de ciências é deseducador. Criacionismo é a explicação bíblica para a origem da vida. Diz que Deus criou tudo: o homem, a mulher, os animais, as plantas, há 6 000 anos. Quem estuda religião precisa saber disso. É uma fábula encantadora, mas não é ciência. É inaceitável que o criacionismo seja ensinado em biologia para explicar a origem das espécies. Em biologia, vale o evolucionismo de Darwin, segundo o qual todos viemos de um ancestral comum, há bilhões de anos, e chegamos até aqui porque passamos no teste da seleção natural. É a melhor (e por acaso a mais bela) explicação que a ciência encontrou sobre a aventura humana na Terra.

Quem contrabandeia o criacionismo para as aulas de biologia diz que, em respeito à “liberdade de pensamento”, está “mostrando os dois lados” aos alunos. Afinal, são escolas religiosas, confessionais, e os pais podem ter escolhido matricular seus filhos ali exatamente porque o criacionismo é visto como ciência. Pode ser, errar é livre, mas que embrutece não há dúvida. Embrutece porque ensina o aluno, desde cedo, a confundir crença e superstição com razão e ciência. É desnecessário. Que cientistas saem de escolas que embrulham o racional com o místico? Também é cascata, porque, fosse verdade, a turma estaria ensinando numerologia em matemática. Ensinaria alquimia em química, dizendo, em nome da “liberdade de pensamento”, que é possível transformar zinco em ouro e encontrar o elixir da longa vida…

Há pouco, na Inglaterra, um reverendo anglicano defendeu o estudo do criacionismo na educação básica. Era diretor de educação da Royal Society. Queria colocar Deus no laboratório da escola. Cortaram-lhe o pescoço. A Suprema Corte americana já examinou o assunto. Mandou o criacionismo de volta às aulas de religião. No Brasil, terra do paradoxo, o atraso avança.

Darwin foi um gênio. Em seu tempo, não se sabia como as características hereditárias eram transmitidas de pai para filho. Nem que a Terra tem 4,5 bilhões de anos e que os continentes flutuam sobre o magma. No entanto, a teoria da evolução se encaixa à perfeição nas descobertas da genética, da datação radioativa, da geologia moderna. Só um cérebro poderosamente equipado, conjugado com muito estudo, pode ir tão longe. Confundido com criacionismo, Darwin parece um macaco tolo. É assustador.

MAIS, E AINDA MELHOR, AQUI NO GRANDE GRIJÓ.

Meu último aborto

Ela dirigiu-se a minha mesa e disse:

— Depois preciso falar com o Sr. em particular.

Era uma de nossas estagiárias, a que fazia um misto entre auxiliar de escritório, substituta da secretária e telemarketing. Só os três estagiários me tratavam como “senhor”. Nossa empresa era pequena – quatorze pessoas – e ela, com 16 anos, era de longe a mais jovem. Todos nós trabalhávamos muito e acumulávamos funções muitas vezes díspares. Sendo um dos sócios, além de alguns trabalhos técnicos, responsabilizava-me pela parte financeira e de pessoal.

— É assunto urgente?

— Sim.

Ao final da tarde, enquanto os outros funcionários iam embora, fechei-me com ela na sala de reuniões.

— Olha, seu Flávio, preciso de um adiantamento.

Era só o que faltava, a estagiária de 16 anos e que mora com os pais pedindo adiantamento. Só lhe daria se fosse para algo relacionado com seus estudos. Comecei a pensar na desculpa. Porém, na realidade, sempre deixava algum valor reservado para esses pedidos. Os solteiros raramente solicitavam adiantamentos, os casados sem filhos também não, só os que tinham filhos ou estavam a ponto de tê-los é que vinham pedir-me valores para serem descontados no dia do pagamento dos salários. Éramos uns duros, mas estávamos crescendo. Quando ouvira a reclamação de que não tinham dinheiro para almoçar, fizemos vales-refeição para todos. Quando financiara o parto da mulher de um funcionário, colocamos todos em planos de saúde. Quando houve problemas com os altos preços dos remédios, fizemos cartões de farmácia cujos valores eram descontados ao final do mês. Mesmo assim, e apesar de que, considerando o mercado, pagávamos bons salários e raramente perdíamos funcionários, havia sempre os apertos de última hora. Era difícil evitar dar algum adiantamento, pois éramos todos muito próximos e eu tenho o coração mole, costumo assumir o problema dos outros, apesar das reclamações de meu sócio.

— De quanto tu precisa? — perguntei; afinal, ela ganhava apenas R$ 450,00 e talvez pudesse pagar do meu bolso.

— Preciso de R$ 2.000,00.

Tomei um susto e quase ri de sua pretensão.

— Mas, Mariana, tu recebe R$ 450,00 mais transporte e refeições…

— É, só que eu preciso mesmo! Tenho um grande problema.

Que saco, ela quer que eu pergunte qual é.

— Mariana, eu não posso adiantar um valor que é quatro vezes o teu salário. Além do mais, tu não tens vínculo empregatício e como é que vais passar os próximos meses sem receber?

— É que eu preciso fazer um aborto e o cara que faz isto direito, numa clínica, com higiene, cobra isso.

É, ela desejava realmente dizer qual era seu problema. E que problema. Nada mais típico; um caso de gravidez na adolescência. Sentindo-me cada vez mais desconfortável e sabendo que não deveria me envolver, fiz o contrário:

— E o pai?

— O pai? Bom, seu Flávio, não tenho bem certeza, mas acho que é o Chico.

— Chico? Ai, meu Deus, o nosso melhor analista estava comendo a menina. Ao menos era solteiro.

— Ele sabe?

— Sim, mas o Chico quer ter o filho. Eu não quero. Imagine, não tem nada a ver, eu com uma criança na casa dos meus pais em Guaíba. Meu pai me mata. E não vou ficar cuidando de filho nessa idade. A barriga é minha. E eu, casada? Brincadeira, né?

Dizia para mim mesmo: não te envolvas, mas… Acabei falando uma besteira.

— Mas o Chico tem um apartamento.

— É um cu – respondeu, fazendo um círculo com o polegar e o indicador — e eu já disse que não quero ser mãe agora! – Só não fala com ele, ele vai vir com o papo de que é filho dele, que é contra o aborto, vai falar em religião, etc.

— Vou ver o que dá para fazer; não posso te dar um adiantamento desses sem falar com o Leonardo.

No outro dia, não falei com Leonardo, meu sócio; porém Chico sentou-se a minha frente.

— A Mariana veio te encher o saco?

— Não entendi.

— A Mariana não te pediu dinheiro?

— Pediu.

— Quanto?

— R$ 2.000,00.

— Pois é, cara, e eu nem sei se o filho é meu. Essa guria trepa com meio mundo, cheira e fuma de tudo, deu para um colombiano que vende artesanato na Praça da Alfândega e o filho é meu?

— Chico, eu não tenho nada a ver com essas histórias, mas também não quero que a empresa vire uma novela mexicana, nem colombiana.

— Sou contra o aborto. Não vou à igreja, mas sou católico. E é um crime. As clínicas são clandestinas. E se ela morre?

Fiquei em silêncio.

— Eu propus assumir a criança, mas ela está louca. Chegou a levar cocaína lá para casa, só para mostrar como era irresponsável. Brigamos e ela foi para Guaíba de madrugada.

— Ela é drogadita mesmo?

— Claro — disse ele, num simulacro de riso. -– Mora na periferia, é difícil ser diferente.

Fiquei em silêncio, pensando idiotamente em qual seria a frequência dos ônibus para Guaíba de madrugada.

— Ela passa muitas noites lá em casa. Sai com as amigas e depois vai para lá. Bate no porteiro à uma, duas da madrugada. Às vezes só deita e dorme.

— Chico, e se ela persistir com a intenção de tirar a criança? Eu não vou emprestar essa grana para ela. Tenho que ser um pouquinho profissional.

Chico era muito importante em nosso trabalho. Sempre ficava com a parte mais difícil dos projetos. Tinha formação sólida e era competente, interessado.

— Chico, olha aqui. Fala com ela. Vocês têm que resolver. Não querem que eu decida, né?

— Tá bom, mas tu farias um aborto?

— Sei lá. Não sou eu quem deve resolver.

— Tá, mas eu quero ouvir a tua opinião — insistiu Chico.

— Já sou responsável por muita coisa. Pára com isso.

— Mas uma namorada tua fez aborto há duzentos anos atrás, tu falaste nisso uma vez.

— Sim, mas nada a ver com vocês, cara, resolve – disse-lhe.

Passaram-se duas semanas, Mariana faltou ao trabalho e Chico veio conversar:

— Fizemos a porra –, disse ele. — Ela vai ficar hoje em casa.

— Tu foste com ela?

— Não, só paguei. Ela foi com a irmã.

Meu papel parecia ser o de ficar quieto. No dia seguinte, Mariana estava toda feliz e dava saltinhos de felicidade pelas salas. Logo depois, sumiu por uma semana sem dar explicações. Retornou dizendo que estivera em Santa Catarina, numa praia. Achei a coisa verdadeiramente engraçada e tivemos uma longa e divertida conversa ao final da qual lhe disse que tinha que suspender seu estágio. Ela riu, deu-me dois beijos e despediu-se de todos.

Hoje, nove anos depois, Chico é casado e sua mulher está grávida do primeiro filho, que será, segundo ele, um menino torcedor do Internacional. Há dois anos, vi Mariana na rua quando ia almoçar. Estava magérrima, estranha. Fingiu que não tinha me visto, mas, por puro acaso, reencontrei-a uma hora depois no elevador. Nossos olhares se cruzaram rapidamente e não a cumprimentei, pois não sabia se ela queria ser reconhecida, mas notei um sorriso nascente e fiz-lhe um sinal com a cabeça. Ela perguntou se o escritório tinha se mudado para aquele edifício. Respondi que sim. Saímos juntos do elevador no meu andar e conversamos. Ela estava agitada, contou-me que coisas “muito loucas” tinham acontecido, que passara três anos na Suíça, que fazera faxinas e participara de colheitas, que sabia como viver lá com pouco dinheiro, quase sem pagar comida nem locomoção e que queria voltar logo, nem sabia por que estava aqui. Como se ainda trabalhasse conosco, pediu-me uma grana, qualquer coisa. Dei-lhe R$ 50,00. Eu queria me livrar dela. Aquele encontro estragou meu dia.

Contei o encontro ao Chico, que ainda trabalha conosco. Muito emocionado, disse-me que Mariana tivera aquela criança e que ela estava abandonada na casa de sua mãe. Ele soubera por uma amiga comum e procurou Mariana; só depois de muito esforço conseguiu um contato telefônico. Ele queria fazer um exame de paternidade. Ela o mandou se foder, mas Chico foi a Guaíba e encontrou a menina em situação miserável. A avó deu graças a Deus achando que finalmente ia livrar-se daquele peso que sua filha tinha-lhe deixado. Foi fácil convencer a velha a fazer o teste, só que o resultado apontou para outro pai. Mesmo assim, Chico insistiu com sua mulher para adotar a criança ou para dar mensalmente algum dinheiro à família, porém isso quase custou-lhe o casamento. Então voltou a Guaíba, deu um monte de roupas e presentes para a criança e ouviu a mãe de Mariana dizer que ele era um desgraçado de um pau no cu.

Flagrantes Flip 2004 III – Palestras, mesas

Antes de fazer algumas anotações sobre as palestras que assisti, faço registro de um telefonema recebido sexta-feira à tarde, 5 dias após o término da FLIP. Do outro lado estava Augusto Sales. Ele foi o organizador, junto com Mariana Ruiz, da Oficina Literária Veredas de Literatura, ministrada por Milton Hatoum. Para meu espanto, Sales começou a falar sobre a FLIP da mesma forma como eu começaria. Disse-me que ainda estava sem chão, que ainda não tinha conseguido voltar inteiramente ao Rio de Janeiro para trabalhar e seguir a vida. É a mesma impressão que tenho. Ao chegar em Porto Alegre, não fui trabalhar segunda-feira passada (ele chegou a seu escritório às 16h) e tudo o que fiz depois foi toldado pela certeza de que era meio sem graça. O que tinha graça havia ficara em Parati.

Gostaria de ter assistido mais palestras na FLIP. Infelizmente, a venda de ingressos foi uma confusão. Havia pouca coisa disponível para compra antecipada na Internet, mas muitos convidados do Unibanco não se interessavam por nada daquilo e quase sempre conseguíamos entrar comprando ingressos na última hora.

Não vou fazer uma avaliação das diversas mesas, apenas anotarei algumas afirmativas que tiveram valor pessoal, que disseram algo a mim. Tais anotações têm valor somente dentro deste âmbito, o pessoal. A maior decepção da FLIP foi a palestra de Margaret Atwood. Com voz monocórdica, de matemática uniformidade, ela conseguiu pôr toda aquela excitação para dormir. Para piorar as coisas, insistia em contar piadas de escritores. As piadas até que eram boas, mas trata-se de péssima piadista. Uma piada é formada por piada + piadista. Quando falta um dos dois… Fiquei de tal forma mal-humorado que, lá pela metade, demiti-me da palestra e fiquei pensando na vida. Havia muito em que pensar, havia a excelente Oficina com Milton Hatoum e, naquele mesmo dia tínhamos assistido à melhor das mesas… mas poucos estiveram lá. Falo sobre Luiz Vilela e Sérgio Sant`Anna. Nenhum deles tem vocação para showman, apenas têm muito a dizer e o fazem com graça. A partir de agora, vou citar desorganizadamente algumas declarações de memória. Espero não alterá-las muito.

Milton Hatoum (citando Borges): A pintura está no espaço; a literatura, no tempo.

Vilela: Todos nós que escrevemos hoje, um dia fomos leitores; isto é, fomos influenciados por um ou outro ou muitos escritores. Mas há uma coisa fundamental: a influência não cria nada – nem que o cara copie! -, apenas desperta coisas dentro de nós.

Vilela: Há regras para escrever um conto? Parece que Henry James deixou um monte de regrinhas prontas. Respeito James, porém mando suas regras à puta que o pariu. Preciso de liberdade.

Sant`Anna: Olha, gosto muito do Machado de Assis, mas de vez em quando ele é um saco! Leio Machado e penso “lá vem ele com aquela ironia” e ele vem mesmo. É um mestre, mas às vezes é um saco.

Mediador da mesa do Vilela e do Sant`Anna (um cara ótimo, esqueci seu nome): Atenção, jornalistas. A manchete da FLIP de amanhã é SÉRGIO SANT`ANNA DIZ QUE MACHADO É UM SACO. Risadas.

Hatoum: Um romancista precisa de concentração e muita dedicação para escrever. No Brasil é complicado, todo mundo tem que ralar muito para ganhar a vida. O melhor para um romancista é receber uma bolsa na Suíça. Funciona assim: você vai para a Suíça, comete um grave delito e vai preso. Então recebe de graça uma prisão com todo o conforto e escreve seu romance. O que acham?

Sant`Anna: Acho incrível quando a Bravo declara mortas as vanguardas. Será que isto dá Ibope? Guimarães Rosa, homenageado desta FLIP, tão imitado e lido, era retaguarda?

Miguel de Sousa Tavares: Começou sua exposição declamando uma poesia de sua mãe, a imensa Sophia de Mello Breyner Andresen, morta havia 8 dias, e deixou todos encantado com sua argumentação defendendo o romance histórico e contando casos e piadas. Foi o campeão individual da FLIP. Quando fui pegar-lhe um autógrafo, chamei-o de MST. Ele riu e disse que tinha um xerox ampliado de uma capa da Folha de São Paulo que dizia, em letras garrafais: “MST invade Brasília”.

Chico Buarque: Os escritores gostam de dizer que não lêem seus contemporâneos e que seus preferidos são Flaubert, Dostoiévski e Kafka. Todos dizem isto, só muda a ordem dos nomes.

Atwood: É desumano ter de divulgar seu próprio livro quando de um lançamento mundial. A gente pára de escrever. Você não deveria fazer isto comigo, Liz Calder. A editora Liz estava ali ao lado, como mediadora.

Vilela: Recebo um monte de livros de novos escritores. Na maioria das vezes, só leio o primeiro parágrafo. Por exemplo, se o cara começa assim: “O astro-rei escondeu-se por detrás da montanha…”, faço o seguinte: confiro se não é uma paródia e, se não é, desisto na hora. Quase todos os livros não me dão nenhum trabalho.

Vilela: Os leitores acham que, para a gente escrever, basta sentar e a coisa vai saindo. Nada disto, isto só nos acontece no banheiro.

Sant`Anna: O Vilela lê seus textos sentado, deitado e em pé. Diz ele que a perspectiva da leitura depende muito da postura adotada… Vilela confirmou tudo depois.

Flagrantes FLIP 2004 II – A noite que chamei Chico Buarque de bobão

Na última noite em que estaríamos na FLIP, sábado, marcamos um jantar no restaurante mais fino de Parati. Assim, faríamos uma despedida formal e provisória do grupo multiestadual, tendo como ganho secundário a chance de nos vingar de todas as refeições “mais ou menos” que fizemos na cidade.

Cheguei sozinho ao restaurante Porto. Todo mundo — incluindo meus amigos — parecia estar buscando encontros, autógrafos ou simplesmente olhar para Chico Buarque ou Paul Auster. Dois dias antes, a Claudia havia reservado uma mesa para 8 pessoas numa discreta saleta do restaurante. Posso jurar-lhes que ela falou o seguinte: marcando um jantar no melhor restaurante, no último dia e na sala mais escondida, tínhamos boas chances de cruzar com algum dos notáveis da FLIP… Assim que sentei, os donos do estabelecimento vieram falar comigo. Pensei que eles fossem comentaristas do meu blog, tal era a recepção que estava recebendo. Parecia um rei. Depois de alguns minutos, descobri o motivo real.

— Reservamos a mesa ao lado para o Chico Buarque. Talvez o Paul Auster também venha. O Chico pediu que sua presença aqui não fosse divulgada; gosta de tranqüilidade e já está a caminho.
— Sem problemas, só acho que ele vai demorar. Deve estar autografando Budapeste para uma fila que vai até o morro lá atrás.
— Não, ele não vai autografar livros hoje, está quase chegando.

Prometi formalmente que não deixaria nossas mulheres saltarem sobre ele; saltaria sozinho. A Claudia e a Stella chegaram e avisei-lhes que estaríamos na presença do semideus. Minutos depois, entra Chico Buarque acompanhado de sua filha (Sílvia?) e de amigos. Quando alguém se juntava a nós, era curioso apontar para a mesa ao lado e observar a cara de pasmo da criatura. O sangue errava de veia e se perdia, só podia. A mesma ficava balbuciando que estava atrás de um autógrafo e ele… aqui… Às vezes eu olhava rapidamente para a mesa ao lado e ficava pensando no que aquele homem já produzira e em como eu o admirava. Voltava a olhar para a frente e sentia falta de minha irmã — como ela adoraria estar naquele jantar! — e de gente como a Mônica do Crônicas e a Andréa do Literatus, que escreveram maravilhas sobre os 60 anos do músico e escritor. Veio-me também à lembrança uma frase bem prosaica de uma amiga, ouvida há muitos anos: “Meu Deus, se eu visse o Chico Buarque na rua, ele não ia nem ver de onde eu vim”. Achei graça.

O vinho que bebemos era positivamente espantoso – um Merlot argentino da Argento, penso eu – e isto fez com que ficássemos alegres, muito alegres. Bebemos muito. Calma, não aconteceu nada demais, apenas começamos a nos divertir, a contar casos e a rir muito alto. Acho que o ambiente, o vinho, a companhia aqui e ao lado, a FLIP, os livros sobre a mesa, Parati e a proximidade da despedida (provisória, repito) deixou-nos muito apressados para falar e felizes, felizes. Algo semelhante acontecia na mesa de Chico e, repentinamente, a conversa deles nos interessou.

Chico começou a elogiar Débora Secco. Em meio a gritos de seus amigos — todos falavam ao mesmo tempo — disse que ela era linda, maravilhosa, gostosa e tesuda. Onde esconder sua enorme euforia com a atriz? Os homens de sua mesa concordavam e teciam outros elogios, alguns de gênero merecidamente hardcore, enquanto as mulheres olhavam sorridentes esperando pacientemente aquela lamentável crise passar. Porém, havia uma exceção. Sua filha não parecia nada satisfeita com o que afirmava papai e, após muxoxos outros, disse no volume máximo:

– Pai, acho que você saiu direto da Idade do Lobo para a Idade do Bobo.

Todos riram, lá e aqui. Chico jogava o corpo para trás, descontrolado. E então aconteceu a piada. Ela não tem nada de engraçado, ainda mais por escrito. É uma piada de oportunidade, de bêbado, daquelas que quebram a expectativa e o leve nervosismo de estar… bem, com Chico Buarque. Enquanto ríamos do que dissera a filha, eu apontei indiferente o polegar para a mesa deles, voltei-me e disse reservadamente para nosso grupo:

– Bobão!

O curto veredito teve efeito excepcional. Foi uma explosão interminável de gargalhadas. Ainda vejo os rostos contorcidos da Eugênia, da Stella, da Laura, da Sue e da Ivone. E Chico, bobão que é, ficou olhando para nós, querendo adivinhar o motivo para tanta alegria. Era ele mesmo. Um companheiro de trabalho que acaba de ler este texto e é o melhor piadista que conheço, afirma que a piada é até engraçadinha, mas que pode tornar-se irresistível sob o efeito do vinho e da pseudo-irreverência diante da raríssima companhia de um gênio. Chico, meu guri, desculpe, a partir de agora você é nosso bobão.


Toda a vulgaridade de Débora Secco. Te perdoo por te traíres, Chico Bobão.

Flagrantes Flip 2004 I – A noite em que Mônica Salmaso me beijou

Porque a Camila Pavanelli escreveu esta maravilha, revisei e ressuscitei esta historinha escrita há cinco anos às pressas no Aeroporto de Guarulhos, antes do embarque de volta para Porto Alegre.

Poderia iniciar estes flashes pelo jantar perfeito que a Stella nos ofereceu assim que chegamos à São Paulo. Ou seria melhor começar pela noite em que chamei Chico Buarque de “bobão” (*) ? Ou talvez por algumas das palestras? Não, prefiro começar pelo beijo que ganhei de Mônica Salmaso.

Mas antes quero saudar a FLIP. Foi uma longa sessão de oxigenação, gentileza e bom humor. Havia eletricidade no ar. As palestras de Sérgio Sant`Anna + Luiz Vilela, a de Miguel Sousa Tavares (conhecido em Portugal por MST), a Oficina com Milton Hatoum e a palestra de Chico + Paul Auster foram esplêndidas. Conheci pessoalmente muitos blogueiros. Porém, perdi a chance de conhecer meu querido amigo Guiu Lamenha, cujo blog acabou em setembro. Falamo-nos ao telefone e nosso encontro deu errado por culpa minha.

Bom, vamos ao beijo de que tanto me orgulho. Descobrimos que Mônica Salmaso faria um recital com Paulo Bellinati na noite de quinta-feira, às 23h. O local seria o pequeno Paraty Café. Depois de um rápido jantar, fomos para lá. O local estava lotado, cheio, cheíssimo. Havia apenas duas mesas livres; uma para o grupo de Caetano Veloso, outra para o de Arnaldo Antunes. Não havia o que fazer. Porém, na porta estava o tradicional aglomerado de chorões suplicando ao porteiro:

— Não tem um lugarzinho? Nada? Nenhum? Fico em qualquer canto…
— Não! Agora só entrarão convidados da FLIP.

Dei umas voltas por ali com a Claudia, enquanto a Stella desistia e ia às compras. Estávamos quase conformados quando vi que o grupo de suplicantes da porta era encabeçado agora por 3 belas moças. Era nossa chance. Obviamente, aquelas entrariam depois de seduzirem o porteiro — ele já estava todo risonho… — e, quando elas entrassem, eu daria um jeito de entrar junto. Peguei a Claudia pela mão e fomos passando entre as pessoas até a porta. Estava num dilema, pois minha intenção era a de entabular conversação com uma das três moças, a mais bonita, a da frente, mas estava junto com a Claudia, que pode tornar-se ciumenta. Acho que ela entendeu meu plano e comecei a conversar com a desconhecida. A conversação com ela era tão fácil quanto observá-la e, pela forma com que o porteiro já estava seduzido por seus lábios vermelhos e carnudos, era iminente nosso ingresso. Ela suplicava para entrar. Entramos os cinco juntos, enquanto as moças davam abaninhos para o terrível e incorruptível Cérbero (que nos dizia todo feliz para ficarmos bem quietinhos em pé no balcão…).

Lá dentro, pedi para a Claudia falar com um carioca que tinha — não sei como — dois lugares livres em sua mesa. Ela se vingaria de mim e obteria importante ganho secundário. Ela começou dizendo que tínhamos vindo de longe, de Porto Alegre, aquele papo. Ele, outro risonho, perguntou para que time ela torcia e ela lhe respondeu que era gremista. Ele replicou bestamente dizendo que “detestava” colorados… Então ela, de forma muito temerária, declarou que seu marido era colorado e me apresentou ao homem. Ele deu uma risada dando-me os parabéns pela goleada que seu Botafogo tinha imposto ao meu Inter e nos cedeu o lugar. É claro que ficamos todos amigos. A cariocada é sensacional — todo mundo ali era amigo e o que todo mundo queria era a Mônica! Já instalado, telefonei para a Stella.

— Stella, eu e a Claudia estamos aqui dentro.
— Como é que é? Me esperem que eu já vou entrar!

Três minutos depois, sinto alguém tocando meu ombro. Era a Stella e, atrás dela, toda uma cambada. Com sua autoridade natural de psicanalista “holandesa e voadora” que tudo sabe, com seus 1,80m de altura, tinha dito ao porteiro:

— Estamos com o grupo de Milton Ribeiro. Ele nos está aguardando aí dentro.
— Estejam à vontade, senhoras. Entrem, por favor.

Disse-me ela que havia muitos Famosos Alguéns na cidade e que, afinal, eu era o famoso blogueiro Milton Ribeiro!

O recital começou. Meu Deus, toda a malandragem utilizada ganhou um sentido consistente. Que cantora, como ela cresce no palco, como fica bonita, que intérprete! Sem dúvida, é a maior cantora brasileira. Ficamos hipnotizados pela hora e meia daquele recital perfeito. Soubemos depois que servirá de base para um CD da Biscoito Fino.

Após o bis, resolvi comprar o único CD da Mônica que não possuía. Fiquei na fila de autógrafos e, quando chegou minha vez, achei muito longos os segundos ao pé da deusa. Fiquei angustiado, ela não parava de escrever a dedicatória no CD. Então, comecei a falar sobre os contrastes de sua maravilhosa interpretação de “Véspera de Natal” de Adoniran Barbosa, sobre o show, sobre determinada frase que começava pateticamente feliz e terminava pesadamente triste e como ela conseguira nos passar isso, etc. Na verdade, não lembro bem o que disse sobre a música de Adoniran (só lembro que estava inspirado, meus 7 leitores, muito inspirado), mas sei que ela parou, levantou os olhos lentamente para mim, abriu um sorrisão que quase me fez dobrar os joelhos e se dependurou no meu pescoço, dizendo “Você notou? Que lindinho que você é!”. Só depois do beijo estalado na bochecha e de muita conversa é que a musa acabou a dedicatória. Até agora estou nas nuvens.

(*) Esclarecimento Importante: Sábado, em Parati, nós jantamos numa mesa ao lado daquela em que estava Chico Buarque e seus amigos. Eu o chamei de “bobão” em resposta a uma observação feita em voz altíssima por sua filha. Só que minha resposta foi dada em voz baixíssima, só para nossa mesa. Quem sou eu para ofender Chico, mesmo que de brincadeira? No próximo post conto esta história de cabo a rabo, certo?

Amuleto, de Roberto Bolaño

Há vários capítulos inesquecíveis em Os Detetives Selvagens, porém, se há um menos esquecível que os outros, talvez seja aquele que narra a história da uruguaia Auxilio Lacouture, a mulher que ficou presa num banheiro feminino da Universidade Autônoma do México (Unam), em setembro de 1968. Auxilio costumava ler no banheiro, só que daquela vez começou a ouvir gritos e explosões e, ao sair de seu local de leitura a fim de averiguar o que estaria acontecendo, viu militares levando funcionários e estudantes para fora do prédio da Faculdade de Letras. Voltou ao banheiro para esconder-se e permaneceu 13 dias ali fechada até o dia da liberação da Universidade para professores, funcionários e alunos. Então, uma secretária abriu a porta do esconderijo e deu de cara com Auxilio, que caiu desmaiada.

O que era um belíssimo capítulo sem continuidade nos Detetives, torna-se novela — e das boas, e altamente poética — em Amuleto. Os fatos reais: houve uma pesada e trágica repressão militar na Universidade Autônoma do México (Unam) em 1968; esta foi invadida e temporariamente fechada; seguiu-se o massacre de centenas de estudantes na praça das Três Culturas de Tlatelolco, durante as Olimpíadas. Os fatos romanescos: Auxilio Lacouture, uma personagem absolutamente sedutora, uma andarilha que se autodenomina a mãe de todos os poetas mexicanos, uma quarentona sem emprego que perdeu por aí os dentes da frente, que vive de pequenos serviços para os professores da universidade, alguém que leu e lê muito, que põe a mão na frente da boca quando sorri — síntese genial de um personagem que fica entre o melancólico e o bem humorado –, que visita poetas e escritores propondo-se a lavar suas roupas e a varrer o chão em troca de alguns dias de hospedagem, uma mulher que ia a muitos bares, tendo bebido e conversado com todos os escritores do México, uma espécie de hippie sem-teto, culta, alta, loira, magra e exilada ilegal, esta é a uruguaia Auxilio Lacouture que, dizem os amigos de Bolaño, existiu e se chamava Alcira, tendo, na imaginação de Bolaño, ficado presa com sua saia branca, blusa azul e um livro num sanitário feminino da Unam quando ocorreu a ocupação.

A resistência poética de Auxilio, suas memórias e diálogos enlouquecidos, são narrados com a arte superior de Bolaño. A capacidade narrativa do chileno é realmente arrebatadora. Estão presentes novamente as histórias inconclusas e as narrações que nascem umas dentro das outras (uma superfetação de fantasias), mas o registro é um pouco mais delirante e onírico que o de outros romances, apesar de que o destino daqueles de quem Auxilio se julga mãe, seja aludido por ela num sonho semelhante ao flautista de Hamelin. Aliás, talvez seja paradoxal que em seu livro mais poético, Bolaño chegue ao mais duro julgamento de sua (nossa, minha) geração e até do futuro da literatura — previsto em trecho absolutamente cômico.

Não é um Bolaño típico, mas é fundamental.

Observações:
1. Houve realmente uma mulher que ficou presa na Universidade durante a invasão, mas não foi a Alcira conhecida de Bolaño.
2. Ah, obviamente um dos filhos da “Mãe de todos os poetas do México” era ele, o de sempre: Arturo Belano.

O Fingimento, a Secreção, o Espasmo e o Orgasmo

Neste momento, finjo escrever um post. Sob a janela do Windows em que lhes escrevo, há uma tese de uma amiga — de PHD, rapaz, te mete! — que faço de conta corrigir. Ela escreve muito bem, não há correções a fazer, trata-se de um pretexto intelectual para longos telefonemas nos quais nada é alterado; em outra janela há um extrato bancário meio apavorante; noutra há um trabalho que devo finalizar a fim de tornar melhor a janela citada anteriormente e há também o Outlook Express com várias mensagens a responder. Vida fácil. Ao fundo, o iTunes joga para meus ouvidos o Réquiem de Verdi.

Fora do micro, outras janelas me acenam. Meu filho Bernardo vai viajar para a Itália e talvez precise de algo, aliás, estou com um dinheiro para ele e a própria passagem… Bárbara, minha parece estar com deficit qualitativo de atenção de minha parte, coisa de que muito tratei no fim de semana. E lembrei que estou sem talões de cheques, pois enfiei-os em algum lugar da casa e tenho que dar uns pré-datados para umas compras aí.

Então, estou aqui fingindo que escrevo seriamente para meus 7 leitores. Esta é uma forma de “mau” amor. Nesta forma recém-inventada – não tem um minuto de vida! -, queremos manter o amor como se ele pudesse ser uma secreção que pinga feito um bálsamo. Dou uma pingadinha aqui, outra ali. A sobrecarga de trabalho nos torna quase indiferentes, mas desejamos receber e dar o bálsamo. Só que minha paranoia (ou razão) me diz que, se não produzirmos vez por outra grandes espasmos de paixão, o conta-gotas começará a pingar com menos freqüência. Um belo dia, ficaremos sem. Não adianta, meus amigos, é preciso forçar bons espasmos em qualquer gênero de relação, seja auxiliando uma amiga, seja na atenção aos filhos ou na de nossas amadas. (Enquanto escrevia a imagem acima, pensei naquela parte do corpo masculino que sometimes pinga… Sei que posso ser lido por psicanalistas e eles dirão imediatamente que o Milton pensa que seu pênis é um conta-gotas do qual pinga a panaceia. Mais: dirão que espasmo rima com orgasmo. Quase apaguei todo este parágrafo, mas não tenho tempo para fazer isto hoje. Desculpem-me, tudo será aproveitado!)

Depois do “clímax” do parágrafo anterior será difícil manter o, digamos, nível. A Claudia, à traição, às minhas costas, diz que todo o homem fica meio abobado depois do clímax; deve ser por isto que não consigo escrever mais.

Feriado

Hoje é feriado municipal em Porto Alegre. Dia lento, cidade vazia, muita gente na praia. Acordei desejando que fosse necessário ir à padaria buscar leite e pão, mas estávamos abastecidos. Gosto de ir à padaria da esquina; moro na desconhecida rua Gaurama há um ano e pouco e sou um personagem coadjuvante de nossa vicinal de jeito interiorano. Porém, na padaria, sou uma estrela. Os donos são uns italianos bem humorados que trabalham feito uns condenados — só fecharam no dia 1º de janeiro, abriram até no Natal. Eu sou o cliente engraçado que comenta a vida amorosa das atendentes, que inventa encontros para elas, sou o colorado que deve ser perseguido nas derrotas, o chato que comenta a qualidade dos pães e faz o padeiro vir lá de dentro discutir, o dono do cachorro que deixa o bicho deitado na porta sem amarrá-lo, o cara que mora na casa cuja janela da cozinha mais parece uma exposição de panelas e é decorada com uma galinha pendurada pelos pés, onde botamos os sacos de supermercado. Sou famoso na Zanini.

Ir à padaria de manhã enquanto os de casa ainda estão com suas caras enfiadas nos travesseiros pode parecer um carinho que lhes faço… (Lembro de Tom Jobim dizer às gargalhadas que ia todas as manhãs à padaria de seu bairro com a finalidade de não estressar a criadagem. Conta-se que ele nunca comprava nada. Ia só conversar.) … mas talvez é mais a necessidade de conversar e rir um pouco das bobagens que saem de nossas conversas. Estou com vontade de contar que fui ver Inter x Sapucaiense. Já sei que as mulheres vão dizer que posso ter cara de inteligente — são as únicas pessoas no mundo que dizem isso –, mas que sou um débil mental como todos os homens. O gremista da caixa vai me chamar de fanático, vamos discutir o fim-de-semana da balconista gorda que está há um ano prometendo separar-se do marido e alguns vão fazer um carinho na minha pastor alemão, a Juno, que ficará observando a conversa, esperando que eu me decida a voltar para casa. Sempre compro alguma coisa e minha mulher fica irritada com a quantidade de pão, frios e leite que trago. Nosso freezer está sempre lotado e ela diz que falta espaço para o que interessa.

O vizinho começou a cortar sua grama e a cachorra deve estar estranhando que ninguém desceu ainda. Minha filha e seus amigos vão acordar ao meio-dia e estou cheio de e-mails para responder, então acho melhor trocar o pijama por uma roupa civil e ir logo à padaria.

Porque hoje é sábado, Grace Kelly (retomando aquele assunto)

Havia a janela por onde observávamos muitas formas de amor: …

… a do músico, a do jovem casal, a da mulher solitária, a de Lars Thorwald, etc.

Mas dentro do quarto havia Grace Kelly protagonizando o mais belo beijo…

… que vi até hoje no cinema.

Uma coisa arrepiante. Lembram como o cabelo dela cai sobre o rosto de James Stewart? Inesquecível.

Por um erro que depois foi corrigido, Grace Kelly não nasceu princesa.

Nasceu em Filadélfia em 1929, no seio de uma família rica.

Grace foi imortalizada por Alfred Hitchcock – que a caracterizava como um vulcão sob gelo – …

… em três filmes memoráveis:

Disque M para Matar (1954), Janela Indiscreta (1954) e Ladrão de Casaca (1955).

Hitch perdeu sua musa neste último filme…

…ao rodá-lo em Mônaco. Que mancada, gordinho.

Aliás, todos nós a perdemos para aquele Rainier III, soberano de 200 metros quadrados.

Tá, tá bom, de 2000 metros quadrados, mas onde ela acabou morrendo em 1982, …

… num reles acidente de carro, deixando-nos até hoje assim:

Nossa, que vontade de rever Janela Indiscreta!

Meu time tem um cão como sócio

Excepcionalmente, não teremos O Monólogo Amoroso nesta sexta-feira. Voltaremos na próxima semana.

Nada de gatos. O sócio Nº 115435.00 do Sport Clube Internacional é o golden retriever Bjorn Borg Handler. Sua dona fez a associação pela Internet e, na hora de preencher o RG e o CPF do cão, telefonou para o clube. Disse que seu filho pequeno ainda não tinha tais documentos e solicitou a inscrição sem os códigos. Após a concordância da atendente, Bjorn Borg tornou-se um dos 78 mil sócios do clube. Sua mensalidade está rigorosamente em dia.

Quando a fotografia do novo sócio chegou ao Setor de Atendimento do Sócio Colorado, houve certa perturbação. Questionaram a dona — que não quis ser identificada, mas que EU CONHEÇO — sobre a loira identidade do novo integrante do quadro social e obtiveram a confirmação: um cachorro estava entre eles. Foram consultar o estatuto. Para pasmo geral, descobriram que o novo sócio teria direito a voto e, futuramente, até a candidatar-se ao Conselho e à Presidência. Em novo contato com a proprietária de Borg, disseram-lhe que o clube fora criado na presunção de angariar simpatias entre os membros da espécie homo sapiens (ou talvez homo ludens), nunca entre representantes dos canis lupus familiaris. A dona indignou-se:

– Não admito isso! O Borg é colorado fanático, usa roupinhas autografadas pelo Fernandão e comemora os gols do Inter com latidos. Tem até um filho que se chama Muricy – garantiu.

O Inter voltou à carga: confirmou que, em razão de normas de segurança da Brigada Militar, animais não poderiam de modo algum entrar no estádio em dias de jogos; então, Borg deixaria inapelavelmente de ser sócio. Isso até a intervenção do responsável pelo marketing, Jorge Avancini. Inspirado por Borg, ele anunciou o lançamento de uma linha de produtos para animais de estimação.

Mais: até o Carnaval, o clube lançará a carteirinha para mascotes, com foto e número de matrícula especial. Custará R$ 50 e dispensará mensalidade. Mais ainda: lançará ainda linha de produtos para cães – mercado que no país movimenta mais de R$ 6 bilhões anuais.

Não foi anunciada nenhuma promoção para gatos, mas desde já proponho-me a atirá-los da arquibancada superior na torcida adversária.

Obs.: A você, cético leitor que duvida da autenticidade da notícia, sugiro clicar aqui.

A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro

Estou terminando de ler a surpreendente novela do modernista português Mário de Sá-Carneiro “A Confissão de Lúcio”. Procurei no Google algum artigo que falasse sobre as questões de identidade sexual suscitadas pela obra, mas não encontrei quase nada, só algumas observações pudicas feitas por portugueses preocupados em negar ou esconder a homossexualidade – a meu ver inegável – do autor por trás de considerações oníricas… O simbolismo do livro é claro e não há problema algum em ser homossexual, o curioso é a forma com que os portugueses parecem querem proteger seu clássico das más-línguas. Para um clássico, o livro é muito descuidado. Foi escrito rapidamente em 27 dias.

Mário nasceu em 1890 e suicidou-se em 1916, em Paris, antes de completar 26 anos. “A Confissão de Lúcio” trata basicamente do triângulo amoroso formado pelo escritor Lúcio, o poeta Ricardo de Loureiro e a sua esposa Marta. Uma noite, em conversa com Lúcio e antes de conhecer sua esposa, Ricardo resolve revelar-lhe uma estranheza de sua personalidade. Deixemos a palavra a Sá-Carneiro:

Ricardo deteve-se um instante, e de súbito, em outro tom: – É isto só: – disse – não posso ser amigo de ninguém… Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! (…) Para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou homem ou mulher. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo, eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.

(As expressões grifadas são do original de Sá-Carneiro).

E Ricardo diz mais:

Entretanto estes desejos materiais (ainda não lhe disse tudo) não julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha alma po­deria matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha alma eu lo­graria possuir as criaturas que adivinho estimar – e assim, satisfazer, isto é, retribuir sentindo as minhas amizades.

Depois, Ricardo casa-se com uma belíssima mulher, Marta. Lúcio a conhecerá e será seu amante, porém, mesmo com toda a intimidade adquirida, nunca saberá nada de seu passado ou de seus planos. Saberá apenas que ela também mantém casos amorosos com alguns outros amigos de seu marido. Depois, Lúcio, presa de loucos ciúmes dos outros e sem entender a aparente indiferença de Ricardo a tudo isto, resolve matá-lo e, matando-o, faz desaparecer Marta. É como se ela nunca houvesse existido.

Ainda Ricardo falando a Lúcio:

– Ai, como eu sofri… como eu sofri!… Dedicavas-me um grande afeto; eu queria vibrar esse teu afeto – isto é: retribuir-to; e era-me impossível!… Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse… Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo.

E ele volta à lenga-lenga:

… Marta é como se fora a minha própria alma… estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava… Satisfiz minha ternura: venci! Chegou a hora de dissipar os fantasmas… Repito-te: foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se materializasse para te possuir…

Então ouve-se o tiro disparado por Ricardo contra sua esposa Marta, mas quem morre é Ricardo. No mesmo momento, Marta desaparece como que por encanto. É um suicídio, claro. Ricardo, dando um tiro em sua alma sexualizada e materializada, mata-se. Mas Lúcio é quem cumpre pena por ter matado o amigo.

Concordo com a portuguesa Maria Estela Guedes quando ela diz sobre Sá-Carneiro:

Ele, o Esfinge Gorda! Ora me parece a mim que o mistério maior da vida dele é não haver nela mistério nenhum. Lançar a dúvida na mente dos outros é a sua Grande Obra, rasgo francamente genial.

Genial? Nem tanto. O livro é muito curioso, simbólico e com prazo de validade vencido. Mas vale a pena lê-lo. Comprei-o por R$ 5,00, numa edição da Editora Moderna, 2001.

As "Maravilhosas" Terapias de Casal

Você – que é um de meus sete leitores – sabe que não sou um representante das trevas, até pelo contrário. Assim, não tenho nada contra psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e outras especialidades da área psi. Já fui um feliz e infeliz usuário destes serviços e não desconheço nem desmereço sua importância. Lembram que uma vez escrevi que Freud foi o homem mais importante do século XX? Pois é. Mas, desde que li numa antiga revista Veja, encontrada na sala de espera do meu cardiologista, o surpreendente e superficial artigo Separados no Divã, a coisa não me saiu mais da cabeça. De alguma forma difusa, eu já sabia, mas agora veio a confirmação. Esta matéria dá conta de pesquisas feitas por universidades americanas e canadenses que tabularam dados sobre casais que sofreram a tal “Terapia” e mostra-nos os índices que sempre imaginei:

– 65 % acharam que o casamento não melhorou;
– 82 % não sentem benefício algum um ano após o início da terapia;
– 25 % ficaram piores;
– 38 % se divorciaram em até quatro anos após o fim da terapia.

Um fracasso? Participei de uma terapia dessas (justamente a minha fase infeliz na área psi) e vi nossa psi-moderadora atuar sempre no sentido de levar-nos a uma separação tranqüila. Nunca a vi atuando no sentido da reconciliação. Parecia-me que os casais que ficavam muito tempo juntos eram vítimas de alguma patologia a ser evitada e corrigida ali. Sem maiores cerimônias, o objetivo claro tornou-se o de romper com classe e sem escândalos. Eu – mesmo achando que nossa relação iria mesmo para o brejo – esperava um bombeiro e encontrei um piromaníaco. Fomos bem sucedidos e a separação aconteceu em silêncio e com a surpresa dos amigos. Hoje, estamos ambos reestabelecidos em outras relações. Porém sempre fiquei com aquela dúvida e a expando para outros campos de nossa vida: de onde vem esta impaciência idiota, esse tolo encerrar-e-começar de coisas novas que nos afasta das já iniciadas, impedindo-nos de completá-las ou de nelas nos demorar de modo mais profundo? Não sou um desistente contumaz. Talvez por possuir uma memória mais competente (além de enorme, pouco seletiva, desagradável e que dificilmente se deixa iludir) que o comum, sempre sinto como uma traição o assassinato de qualquer afeto, mesmo que ele esteja em estado vegetativo persistente. A eutanásia repetidamente proposta pela terapeuta de casal proporcionou-me grande alegria meses depois, pois pude substituí-la por alguém muito melhor, mas conheço casos bem diferentes, casos em que o problema maior parecia ser o de comunicação adequada, em que parecia haver boa vontade de ambos os lados separadamente, em que havia a figura de um psi-moderador inócuo e… Não posso contar aqui, porque desconheço os nomes exatos de meus 7 leitores e prezo minha integridade física.

Segundo o Dicionário Aurélio, instalado em meu computador, a palavra terapia significa:

Forma de tratamento em que se empregam meios mentais (sugestão, persuasão, etc.), visando restabelecer o equilíbrio emocional perturbado de um indivíduo.

Terapia vem do grego “therapeía”, do verbo “therapeúein”, que significaria “servir”, ‘honrar”, “‘assistir”, “cuidar”, “tratar”, ou seja, são palavras que tem intimidade maior com continuidade do que com rompimento.

Conheço pessoalmente 5 casos de “Terapia de Casal” e as baixas foram de 100%. Por outro lado, todos os casais que vi separarem-se e retornarem não tinham terapeutas. Parecem felizes.

No ano passado, um amigo íntimo e querido enviou-me cópia oculta de um e-mail que enviara a sua terapeuta. O tratamento já havia terminado e, apesar da conhecida índole pacífica deste grande amigo, ele demonstrava certo ódio… da terapeuta. Digamos que o tratamento soube-lhe mal. Pedi-lhe para publicar aqui seu texto com os nomes alterados e algumas correções de digitação. Obtive a permissão, porém penso que seria demasiado. O post talvez ficasse interessante, mas o excesso de verossimilhança do relato visceral estavam incomodando a mim, dono de um blog às vezes lido pelos amigos dos filhos, muito mais do que por estes.

(Acabo de avisá-lo pelo telefone sobre minha mudança de planos. Ele compreendeu pacificamente, rindo e concordando.)

Ver na TV é ver pouco

Talvez eu vá ao estádio pela beleza plástica do jogo ou de sua tática (na TV não é tão bonito, nem tão interessante), mas talvez vá pela beleza do gramado, iluminado pelo sol ou pelos holofotes em jogos noturnos, ou quem sabe apenas por amor à disputa e ao Inter, mas acredito que a verdadeira razão é a de que o futebol é um gênero de espetáculo produz maior variação de humores e participação do que qualquer outro que conheça. Por exemplo, se você for a um concerto, provavelmente não poderá ofender o artista ou, num museu, será no mínimo estranho se começar a vaiar o quadro. Vou a muitos concertos; sei que escolho bem e, quase sempre, saio feliz. Às vezes, ele é apenas aceitável. Há possibilidades bem tristes, é claro, porém elas raramente incluem a vaia, chamar o artista de filha-da-puta ou a disposição de odiar o time e odiar a si mesmo a ponto de desejar a própria derrota — em outras palavras, de desejar o próprio fracasso.

Estou enrolando para dizer isso: um concerto ou qualquer outro espetáculo que aconteça dentro de um teatro são representações mais incompletas da vida do que um jogo de futebol. Pronto, disse! Talvez não consiga dormir hoje. Os fantasmas de Shakespeare, Pirandello, Tchekhov, Bergman, Wagner (ai que medo!), Sófocles e de tantos outros me perturbarão a noite. Sei que os aspectos culturais envolvidos fariam o futebol perder de goleada nos primeiros minutos de uma discussão, mas experimente olhar de frente para uma torcida de futebol com o jogo se desenvolvendo às nossas costas. O sofrimento, a alegria, a expectativa, a frustração e quase todos os sentimentos são coisas presentes, visíveis quase a ponto de serem fenômenos físicos. Talvez até o amor romântico tenha representação no futebol… No teatro elisabetano — época de Shakespeare –, os assistentes manifestavam-se, podiam gritar e fazer piadas sobre Otelo, Iago e Desdêmona, mas, hoje, fazer isto seria uma tremenda falta de educação e eu até concordo. Pô, já imaginaram um cara berrando ao nosso lado, fazendo-nos perder as falas?

A possibilidade de amar, de ser indiferente ou de detestar o próprio time, de ridicularizar e sentir medo do adversário, de aplaudir ou desejar a própria derrota é exercida plenamente apenas quando estamos no estádio. Não sinto e, mais, acharia ridículo sentir tanta coisa na frente da TV. A maravilha está no campo de batalha e no leque de opções por ele oferecidas. Na proximidade do fato e no oscilar entre o píncaro da glória e o possível funeral está o fascínio da coisa.

Pensei nisso quando li alguém afirmando que a narração da TV deveria ser substituída pelo simples som ambiente do estádio. Apenas ele, o som, os gritos e cantos da torcida, quiçá o som da casamata com as ordens, palavrões e lamentações dos técnicos. Quem sabe umas mensagens escritas, indicando o tempo de jogo e as substituições. E, quando lembro de Galvão Bueno e alguns “famosos alguéns” de nosso Rio Grande, concordo.