A trégua, de Mario Benedetti

Eis um excelente escritor. Muito pouco lido no Brasil, o velhinho Mario Benedetti está às vésperas de completar 88 anos. É um poeta, romancista, cronista e ensaísta uruguaio. A trégua é o diário de Martín Santomé, um viúvo de quase cinquenta anos, pai de três filhos, que vive há mais de vinte entre a criação dos filhos, o trabalho de contabilista e casos de uma noite com mulheres quaisquer. É um sujeito apagado e deprimido, um bom funcionário que detesta seu trabalho, mas que o faz bem; um pai que, com os filhos crescidos, recebe deles a indiferença e o desejo de distância. Tudo muda lentamente com a entrada de Laura Avellaneda como sua funcionária no escritório. Jovem, tímida, contida e muito inteligente, ela proporcionará uma trégua à vida de Santomé.

Dito assim, parece uma história como tantas outras, mas não é, não da maneira como o faz Benedetti. Fino observador, ele conta a história com o exato grau de minúcia, explorando principalmente a insegurança do viúvo em sua relação com uma mulher vinte e dois anos mais nova. É quase um estudo da solidão, da felicidade e do passar do tempo em forma de ficção. Vale a pena ler este pequeno romance com mais de cem edições em espanhol.

Minha única estranheza foi a forma como Benedetti refere-se ao homossexualismo antes do episódio do politicamente correto. Não é agressivo, porém não é nada compassivo. Compreende-se, o romance é de 1960.

Soube que a editora Alfaguara traduziu mais dois livros de Benedetti: El Buzón del Tiempo, lançado como Correio do Tempo, e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título). Mas fiquemos antes com A trégua. Indico fortemente.

A convivência com a maldade e com o luto

E lá vou eu contar para minha filha que, na sua ausência, alguém deu uma salsicha envenenada para sua cachorra. Como se diz isso? E como se explica e consola depois?

Gosto muito de cães, sou o que se costuma chamar no sul de “cachorreiro”, mas não sou de verter lágrimas por bichos. Talvez tenha ouvido muito o Geraldo Vandré cantar “Disparada”, então acho que bichos são bichos, e com maior ou menor sofrimento são passíveis do marca, tange, ferra, engorda e mata…, mas com gente é diferente. Quando vi nossa Maria Callas — a Callas filhote pastor alemão de 5 meses que estava sendo ensinada pela Bárbara — agonizando debaixo da churrasqueira; quando minha mulher e eu, ambos de pijamas, a levamos para um plantão veterinário; quando ouvi que estava morta; quando soubemos que havia vomitado “salsichas”… que salsichas?, só dávamos-lhe ração; fui menos tomado de pena e luto do que pelo ódio de estar no lugar em que sempre quis estar, porém acompanhado de anônimos que, talvez desejando entrar depois na casa sem a indesejável presença de um cachorro, escolhe matá-lo, avisando-nos com toda a clareza suas intenções.

Minha mulher ouviu um ganido tão alto e desesperado que acordou. Assustada, me chamou. Começamos a chamar pela Callas. Nada. Chamamos o segurança da rua. O homem veio. Já estava achando que fora roubada quando a vi sob a churrasqueira, bem da maneira que os cães escolhem para morrer, escondidos. Não vejo motivo para que minha filha passe um longo luto e já providenciamos a compra de um filhote de 34 dias. Com seu amor pelos bichos, ela logo vai preocupar-se com o crescimento do substituto. Não quero não dar muito espaço para sua dor. O que mais posso fazer?

Dentro das circunstâncias, tudo muito razoável. Mas e as circunstâncias? Já sabemos que não podemos deixar o cachorro ir até a grade da frente da casa. Teremos que impedi-la disto, seu limite agora será a porta da garagem. E assim vamos nos adaptando às exigências de uma vida cada vez mais estreita e estranha. A grade já foi anormal, as muitas trancas também, os cães tornaram-se parte da segurança e alarme, há seguranças na rua e agora só podemos permitir que nosso cão fique numa grade atrás da grade, vendo a rua de longe. Tudo bem.

Preocupo-me mais em evitar um luto doloroso a minha filha. Desde que ela aprendeu a expressar seus desejos e até hoje, garante que será veterinária. Nossa única sorte que é neste fim de semana ela esteve com a mãe e apenas retorna ao meio-dia. O que dizer a ela? Falar que luto é como quando perdi o pai que me criou e de quem eu gostava demais? É quando um filho morre? É quando o vôo da TAM cai levando nossa irmã? É quando um terremoto mata milhares de pessoas? Digo que gente é diferente? Que é errado dar tanto amor aos bichos? E é mesmo? Ah, sei lá.

Incompletos, de Albano Martins Ribeiro (Branco Leone)

IncompletosEu acho mais simpático e engraçado Branco Leone, mas o outro nome também está adequado; afinal, meu avô chamava-se Manoel Martins Ribeiro, nascido em São João do Loure, Portugal.

De todos os autores que apareceram através dos blogs, Albano-Branco é o que mais gosto. E não li poucos. Vamos começar pelo título do livro. Fico na dúvida se Incompletos é uma referência aos personagens do livro — sempre em busca do outro (em alguns casos em fuga) –, ou se aponta para a estrutura voluntariamente fragmentária dos contos. É um belo título. E um belo livro. Os contos são curtos, parecem instantâneos de um fotógrafo muito indiscreto. São muito bem escritas “cristalizações do fugidio” amoroso, como diria Erico Verissimo, contadas na voz característica do autor, entre a bem-humorada indulgência e a absoluta crueza. A única coisa que me perturbou na coletânea foi a história da qual gostei mais. (sexta à noite, no purgatório) é a maior narrativa do volume – 28 páginas -, a mais fragmentária e a que me causou a estranha sensação de pertencer a algo maior, que não nos foi dado a conhecer… Queria mais, parece haver mais. Haverá? Talvez seja porque a mim, o sarcástico narrador deste conto fez lembrar o extraordinário narrador da obra-prima Homo Faber, de Max Frisch. Mas isso é problema meu. Tiago Casagrande, ao comentar o livro, escreveu que Incompletos era um livro rarefeito, daqueles que nos deixam com mais dúvidas que esclarecimentos. Perfeito. Quem quiser verdades estabelecidas que vá a outro quintal, quem quiser o prazer da leitura que venha aqui.

O excelente livro é da editora Os Viralata.

Albert Einstein, sobre Deus

Depois de ficar 50 anos guardada, aparece uma carta de Einstein que diz:

The word God is for me nothing more than the expression and product of human weaknesses, the Bible a collection of honourable, but still primitive legends which are nevertheless pretty childish. No interpretation no matter how subtle can (for me) change this. These subtilised interpretations are highly manifold according to their nature and have almost nothing to do with the original text. For me the Jewish religion like all other religions is an incarnation of the most childish superstitions. And the Jewish people to whom I gladly belong and with whose mentality I have a deep affinity have no different quality for me than all other people. As far as my experience goes, they are also no better than other human groups, although they are protected from the worst cancers by a lack of power. Otherwise I cannot see anything ‘chosen’ about them.

Citação encontrada neste post do Hermenauta.

Puro fingimento

Acho que tive febre hoje, estou gripadíssimo. Todos os anos tomo aquela vacina contra a gripe; sempre me dizem que nos primeiros dias podemos arranjar uma, depois é difícil. Nunca tinha me acontecido. Vacinei-me sábado e hoje estou uma ameba. Neste momento, por exemplo, finjo escrever este post. Sob esta janela do Windows em que lhes escrevo, há uma tese de uma amiga – de PHD, rapaz, te mete! – que estou fingindo corrigir. Faço isto por puro prazer (ela escreve muito bem, não há correções a fazer, só frases que talvez pudessem ser mais bonitas e que são reformadas, ou não, durante divertidos telefonemas); em outra janela, há um extrato bancário meio apavorante; ainda em outra há um trabalho que devo finalizar a fim de tornar melhor a janela citada anteriormente e há também o Outlook Express com várias mensagens a responder. Tudo meio parado, pois há uma beterraba operando o micro.

Fora do micro, outras janelas me acenam. Tenho que resolver algumas coisinhas chatas que empurro de um dia para o outro – esta é uma janela que está há dias minimizada. Permanecerá assim. Tenho que pegar um filme que mandei duplicar para um amigo de Recife. Faço amanhã sem falta. O OPS me pede atitude e meus filhos dizem-me mudamente que deveria dar-lhes atenção de maior qualidade. Ou não, não sei bem. São adolescentes, sabe? Que paranóia, dou-lhes sempre enorme atenção…

Ademais, devo estar vendo coisas. Não me parece real este chapéu visto no blog da Leila. Vocês também o vêem? Parece-lhes normal? Dizem que ela foi assim na estréia de Sex and the City, o filme, mas não pode ser verdade. Preciso de algo que baixe minha febre, devo estar convulsionando.

Sarah Jessica Parker

Fernando Arralbal e Gerald Thomas têm chiliques em Porto Alegre

Parece que os fatos foram os seguintes. Num jantar, na noite anterior ao evento, os diretores teatrais Fernando Arrabal (espanhol nascido do Marrocos) e Gerald Thomas (nowhere man, segundo ele), estavam conversando alegremente. Então Arrabal citou alguns ditadores – Hitler, Stálin, Salazar, Pinochet, etc. – em meio a uma fala. Em resposta, Thomas perguntou-lhe porque não incluíra Franco em sua lista.

Pronto! Arrabal quis saber aos berros se Thomas pensava que ele tivesse apoiado Franco, Thomas chamou-o de anão descontrolado e por aí afora… Mais briga, depois: qual dos dois teria privado mais da companhia de Samuel Beckett. Era importante para ambos não somente apresentarem a grife Beckett, mas também demonstrarem tê-la maior e mais íntima. Gozado isso. Beckett morreu em 1989, sendo um dos fundadores do Teatro do Absurdo… Do absurdo, não da burrice.

A partir deste fato, os organizadores do Fronteiras do Pensamento fizeram de tudo para que as duas estrelas não se encontrassem. Só que havia um problema, estava programado um debate! Que não houve, claro. Houve duas palestras separadas: a do simpático e sedutor Arrabal foi um sucesso de público, mas fontes mais confiáveis dizem que o espanhol apenas empreendeu uma série de piadas razoavelmente inteligentes, retirando-se aplaudidíssimo; a de Gerald foi um fracasso, pois nosso amigo não soube ser simpático. Ficou 20 minutos no palco: disse que estava preparado para um debate, não para uma palestra, continuou dizendo que não era palestrante de profissão e começou a falar que era favorável ao fim do estado de Israel e que não acreditava mais no teatro. Aliás, este seria um ponto interessante pois Gerald é cético sobre o futuro do teatro e Arrabal acredita num renascimento. Mostrou também uma foto sua com Beckett… Depois, retirou-se abruptamente, provavelmente indignado pelo cotejo entre a capacidade de improvisação do espanhol e sua própria incompetência. Vaias e aplausos.

Um absurdo, não? As pessoas que pagaram para tal bobagem estão indignadas, claro.

Não creio que eles não pudessem entrar num acordo e conversar, expondo suas diferenças. São adultos, experientes e articulados. Mas acho que ambos, separadamente, concluíram que valeria mais a pena brigar e ganhar manchetes e posts. Porém, aqui em meu post, gostaria de fazer coro ao psiquiatra Mário Corso e declarar que ambos, ao escolherem os chiliques em lugar do debate, deviam ter pouco ou nada a dizer.

Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil

Lv MusicapQuando Música perdida fez a final da Copa de Literatura Brasileira contra Um defeito de cor tive absoluta certeza de que o vencedor seria o elogiado livro de Ana Maria Gonçalves. Ora, Ana surgiu nos blogs, Um defeito de cor recebera críticas favoráveis de todo gênero e os julgadores, seus pares, acabariam por escolhê-la, mas não foi o que aconteceu. O vencedor foi Música perdida. Tive então outra certeza: a de que se tratava de um livro superior, de uma obra cuja premiação era inexorável. E, burro que sou, enganei-me novamente.

Assis Brasil adota seu habitual tom manso para contar a história do Maestro Mendanha. No início, tudo me interessava. O personagem principal e suas circunstâncias eram muito sedutoras, principalmente para alguém que, como eu, ama e convive diariamente com a música erudita. Tanto foi assim que foi um pouco complicado inferir o que estava me incomodando no romance. Só quando o autor apresentou Pilar é que ficou clara a planura e a débil construção dos personagens. Assis Brasil nega-se a invadir suas psicologias, preferindo sinalizar acontecimentos e transições com simbolos factuais que são tão claros, mas tão notórios, que funcionam como deselegantes semáforos. Três mortes casuais ocorridas num mesmo dia – recurso estranho para uma narrativa tão tradicional – e uma enorme culpa fazem o personagem fugir de Vila Rica para uma guerra no sul, mas ele, internamente, não parece padecer grande sofrimento simplesmente porque Assis Brasil não o descreve. O livro é todo feito de narrativas de fatos, parecendo mais um roteiro cinematográfico escrito em linguagem literária. Para acabar com meu humor, o autor dedicou-se a estragar o final de minha tarde de domingo – a hora do suicídio – adotando um tom grandiloqüente em seu gran finale, equívoco que ele já havia cometido no patético final feliz de Concerto Campestre.

Pretendo ler Um defeito de cor assim que o obtiver de volta. A empregada lá de casa o pegou para ler. Ela escolhe seus livros e costuma ter bom gosto: antes leu Lolita.

Porque Hoje é Sábado, Salma Hayek

Ela contou que, quando era jovem, pediu para que sua mãe a levasse…

…à Igreja Universal dos Seios Sagrados, pois os tinha muito pequenos.

Sua mãe a levou, elas fizeram o pedido com muita, muita fé e… Milagre!

Eles ficaram grandes e bonitos. Salma Hayek demonstra muitas vezes uma simpática…

…auto-ironia, algo estranho entre as beldades e os médicos atuais. Filha de um empresário de origem libanesa…

…e de uma cantora de ópera, esta mexicana é uma morena mignon de apenas 1,55m de altura que diz:

“I act tall!…But look how short I am…I can’t even act to be tall”.

Acho incrível a quantidade de beleza concentrada na interessante Salma, mesmo…

…que a maioria de seus filmes não sejam maravilhosos como ela.

Vários Robert Rodriguez, um pequeno papel em Traffic, uma bela atuação no divertido Dogma, o Frida que não vi,…

…mais uma grande atuação no equivocado Pergunte ao Pó – filme que tinha tudo para ser bom, menos o diretor – e a brincadeira Bandidas, com Penélope Cruz.

Sua última participação foi como cinco enfermeiras sobrepostas (um grupo de “Salmetes”!) dançando Happiness is a Warm Gun em Across the Universe.

Depois, ofereceu seus seios firmemente conquistados com sua fé à menina Valentina Paloma, nascida em setembro passado.

Ah, o Dia das Mães!

Dilma é mordida em depoimento

A ministra Dilma Rousseff fazia uma emocionada descrição de seu passado de torturada pela ditadura militar, quando algo ocorreu com o presidente do senado Garibaldi Alves (PMDB-RN).

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Algum dos insepultos fantasmas da ditadura, ainda presentes em nosso egrégio senado, apoderou-se de seu corpo. Ele passou a emitir lúgubres grunhidos e a fazer medonhos movimentos faciais até suas mandíbulas abocanharem o pescoço da ministra.

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Acostumada a maus tratos, Dilma agüentou firme a incorporação do capeta, e logo apresentou discretas contrações faciais, em tudo semelhantes às que demonstrara o senador. Antes de abandonar o recinto por temor ao energúmeno, a ala evangélica confirmou o cheiro de enxofre, apesar de não terem observado a picadura.

P.S.- Nelson Moraes acaba de ventilar a hipótese de que Dilma usava Eau de Cebôle, a fragrância que assusta qualquer vampiro (vide a cara dele).

Bilhete

Meus queridos. Papai saiu cedo para trabalhar e deixou vocês dormindo. Vocês estavam tão lindos e tranqüilos nas camas que achei sacanagem acordar. Volto ao meio-dia e trinta para buscá-los. Enquanto isso, espero que vocês sobrevivam. Sofia, sei que vais acordar primeiro, ali pelas 8h30. Olha para o relógio e confere. Guria, olha agora! Teus parmalatinhos estão na geladeira, à altura da tua cabeça, do lado esquerdo. Bebe no mínimo dois. Tenta também COMER alguma coisa, dizem que é importante. Há pães de ontem à noite sobre a mesa da cozinha e outros novinhos no freezer, é só deixar um deles por 30 segundos no microondas e estará perfeito para receber e desmanchar a manteiga. Hummm. A geléia de morango está também na geladeira, pega a que não for light. Se tiveres tema para fazer, por favor, faze-o. Não deixa a TV com o som muito alto para não acordar teu irmão e, quando ele acordar, não briga com ele. Lembra-te de que ele é maior e que eu não estarei aí para te defender. O melhor mesmo é que fiques brincando com o pensamento ou no computador. Poderias também aproveitar o tempo e o silêncio da casa para ler um pouquinho, não, dona Sofia? Quando eu era pequeno, adorava acordar para acompanhar o movimento do sol. O sol entrava por minha janela de manhã. Eu colocava um lápis no chão, exatamente sobre a fronteira mais interna, entre sol e sombra. E lia; lia umas dez páginas e depois conferia quantos centímetros a luz do sol tinha caminhado em seu percurso para fora. Eu estudava no turno da tarde e ficava no quarto até que o sol abandonasse inteiramente o quarto. Aí sim, podia fazer outra coisa. Não sei se isso acontece aqui em casa, não lembro, não faço mais isso e que sei eu da orientação solar? Coisa nenhuma. Sou um adulto chato. No máximo, sei que nosso apartamento tem boa orientação, pois ainda não morremos assados nem congelados em nossa cidade maluca. Quando o teu irmão acordar, mostra este recado a ele, ele é muito desatento. Felipe, teus toddynhos estão ao lado dos parmalatinhos da Sofia na geladeira. Não precisas comer todo o conteúdo da geladeira e não mates tua irmã sem eu estar aí para te matar junto. Deixa o computador para ela, porque ontem tu já ficaste demais nele. Sei que tu tens de ler O Visconde Partido ao Meio para o colégio, então manda bala. Se quiseres sair, há uns trocados no balcão da cozinha; acho que falaste em ir ao Centro comprar uns CDs usados com um amigo teu, do inglês. O dinheiro que está ali dá para ir e vir de lotação. Usa o teu para as compras. Só não te atrases, pois eu chego ao meio-dia e trinta. Marca o encontro no centro do Mercado Público que é um lugar bom para esperar alguém. Tem sempre brigadianos por ali. Cuida-te, pois há assaltos e ladrões e as pessoas somem, mesmo sendo tu um adulto de 14 anos… O cara vai e não volta. Volatiliza-se. Porto Alegre é perigosa e não quero a tua mãe no meu pé. Já pensou eu falando pra ela? Olha, ele foi fazer umas compras na Stoned ou na Porto Alegre CDs e não voltou mais. Imagina, somem tantas pessoas anualmente numa cidade como Porto Alegre que talvez jamais sejas encontrado. Uma vez, em 2004, ou 5, sumiu o próprio chefe de polícia que saíra à tarde para uma volta no Parque da Redenção e até hoje nada. Minha mãe leu no Correio do Povo, ficou com o jornal embrulhado na memória. Mas vá. Lembra que o “pãe” te ama e que as ruas não mudarão seus traçados para que demores além da conta. Se sobrar algum dindin, pergunta pra mim sobre um CD que procuro há anos, tá? É aquele em que Carlos Drummond de Andrade recita Desaparecimento de Luísa Porto. Mas, se ficares em casa, não te esqueças do Calvino e trata tua irmã com calma, senão te acuso de pedofilia e te mando para a FEBEM, ou FASE. Hoje tem jogo à noite, queres ir ao estádio? Então faça tudo direitinho, senão não te levo. Hoje de manhã tenho que fazer um monte de coisas, algumas para vocês. O pessoal do colégio me chamou para conversar porque tu, Felipe, inventaste de chamar uma menina de lobisomem e agora ela não quer ir mais à aula. Tá certo que ela é peludinha nos braços, mas – caramba – chamá-la de lobisomem! Há que ser mais delicado. Por falar em delicadeza, no final de semana vou apresentar a Mônica para vocês. Chega de adiamentos, né? Sofia, não é preciso ter ciúmes, ela não me tirará de ti e nem eu vou descuidar de vocês só porque estou namorando. São necessidades adultas. Vocês têm as de vocês, nós temos as minhas as nossas. A Mônica também não será outra mãe, será mais uma amiga para conviver conosco. Ela não é chata e gosta de crianças, mas é claro que ela vai se embananar com vocês, pois não tem filhos e, de repente, estará recebendo um kit completo de namorado, dois filhos, duas calopsitas e uma cachorra. Não é fácil para nenhum de nós, então tolerância, educação e delicadeza são as palavras. Como digo sempre: “Nada de flatulências ou eructações!”. Eu mato vocês. Putz, são sete e meia. Estou atrasado. Beijos do pai.

Atenção, gauchada!

Yeda Pinoquio GrandeEstá circulando um abaixo-assinado que solicita a prorrogação dos trabalhos da CPI do Detran-RS na Assembléia Legislativa. A finalização dos trabalhos está prevista para 6 de junho. A possibilidade de prorrogação é rejeitada por quase toda a bancada governista na Assembléia. Para quem não sabe, houve desvios de mais de R$ 40 milhões e há fortes indícios de envolvimento de nossa governadora.

Para ler o conteúdo da petição e assiná-la, CLIQUE AQUI.

Ler é bom, mas assinar esquenta nossos pés à noite, dá direito a quentões gratuitos em todos os bares do estado (se parece que ela mente, por que não eu?) e cria bons modos. Logo mais, de madrugada, voltaremos a nossa programação normal.

Foto publicada no Washington Post

O Washington Post publicou esta foto em sua capa.

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Claro, é chocante. Trata-se de um menino iraquiano que é levado pelo pai para o hospital. Ele resgatara o filho dos escombros de sua casa após um bombardeio americano. O garoto, de dois anos, acabou morrendo. Só que os leitores se irritaram e protestaram. A alegação é que o Post estaria alimentando o sentimento antiamericano… Concordo com um dos poucos leitores que apoiaram o jornal: “Este é o tipo de imagem que recoloca em nossas mentes referências de brutalidade”.

Sei que numa guerra é normal que nem toda informação circule, ao menos temporariamente, mas a esta capa não é informação, é um documento humano. A foto é do jornalista iraquiano Karim Kadim.

Shostakovich – Vida, Música, Tempo (de Lauro Machado Coelho)

Foi uma surpresa descobrir a existência deste calhamaço de 502 páginas, uma biografia do enorme compositor russo-soviético Dmitri Shostakovich (1906-1975). O que não foi absolutamente surpreendente é o fato da biografia ter sido escrita por Lauro Machado Coelho, autor de alentadas obras sobre ópera que têm preenchido o deserto de publicações do gênero com alguns bem-equipados oásis.

Este livro sobre Shostakovich é imprescidível a quem se interessa pelo autor. O volume de informações é inacreditável e fiquei de tal forma envolvido pelo livro que seria quase uma injustiça criticar o trabalho de Lauro, porém, em meio a tanta novidade, consegui vislumbrar o guichê de reclamações e pretendo fazer uso dele. O texto é muitas vezes descuidado. Tenho a impressão de que Lauro necessitava finalizá-lo no ano de 2006 – ano dos cem anos de nascimento de Shosta – e deixou passar alguns parágrafos que são quase anotações esparsas. Pressa, certamente. A editora poderia tê-lo alertado. Deve haver leitores profissionais na Prespectiva, não? Outro fato é que o autor claramente arrepende-se de ter sido tão anticomunista durante o texto e escreve um inteligente e equilibrado último capítulo – talvez o melhor do livro – chamado “O Caso Shostakovich”. É um curioso e necessário recuo. Afinal, Shostakovich utilizou o mais abstrato dos meios para dar o depoimento mais realista da história da música sobre sua contemporaneidade e há controvérsias por todo lado. Shostakovich não nos legou testemunhos confiáveis. Há momentos de descontrole e outros em que já vemos o LMC do último capítulo. Ou seja, carece de revisão.

Agora, só um louco ousaria criticar o que realmente importa: a detalhada cronologia, a notável descrição das obras, a palavra de um indiscutível conhecedor, as valiosas opiniões de um excelente ouvinte. Também elogio a diagramação do livro, que nos deixa duas boas colunas para que façamos anotações e possamos discutir com o autor e suas fontes… Coisa que adoro fazer.

Vocês sabiam que L&PM lançou em pocket a tradução de Lauro Machado Coelho dos poemas de Anna Akhmátova – Poesia: 1912-1964? Pois é, é bom lê-los.

Quando as pernas (todas) e os decotes (nem todos) desaparecem

Tom Jobim cantava as águas de março que fechariam nossos verões. Eu mentiria se as cantasse em Porto Alegre, pois março e abril foram quentes e parcos em chuvas. Foi uma seqüência de dias lindos, os tais dias lindos do mais puro azul que Drummond dizia acontecerem na segunda metade de abril.

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

TOM JOBIM em Águas de Março – Grande autor, péssimo meteorologista.

Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Os Dias Lindos – Grande autor, razoável meteorologista

Drummond tem razão, o estatuto do calor está abolido, mas no segundo dia de maio caiu o mundo em forma de chuva. Dirão vocês que não importa, que Drummond é um dos picos da evolução humana e que a culpa deve ser do aquecimento global. OK, sou simpático a qualquer argumentação que enalteça o itabirano, porém lamento dizer que minha contestação aos dias lindos vai além. Saúdo-os ao mesmo tempo que lamento as perdas.

Hoje fui ao centro da cidade. Acostumei-me a caminhar pelas ruas quentes vendo as pernas e decotes das gaúchas. Ficava feliz com a crescente e elegante ousadia daquelas que mostram sua boa forma, suas belas formas, seus bronzeados e seus seios remodelados ou originais. Também apreciava a classe das mulheres que exibiam o que tinham de melhor, escondendo sob panos coloridos o indesejável, o inevitável, o irremediável ou o inexorável. Sou um admirador das artes femininas. Só que hoje o panorama era outro. Os decotes estavam mais fechados, as pernas haviam quase sumido e o colorido das roupas tendiam à diluição. Viram? O dia lindo e seus dezoito graus matinais derrubaram a libido do caminhante.

Mas quem viverá seu qüinquagésimo inverno nesta cidade, sabe que este é um fenômeno sazonal e logo nós, os homens, estas criaturas tão visuais para com o outro sexo, iremos nos readaptar. Ficaremos excitados apenas com um belo rosto e pelo prenúncio de um tornozelo. Conheço alguns que enlouquecerão por um mero salto alto. Pior, há os que abraçarão suas mulheres e amigas apenas para sentirem o aroma do perfume que acompanhará o ar expulso de suas peles pelo abraço. Voltaremos a adivinhar as formas sob as roupas e teremos vontade de levar em nossos carros as mulheres encolhidas nas paradas de ônibus. (Tratar-se-á da mais desinteressada e solidária gentileza.)

Drummond esquece-se de dizer que os dias lindos são o prenúncio de uma época em que o espírito vencerá a observação, em que a cogitação precederá o fato, em que os cobertores serão os companheiros mais adequados a quaisquer primícias e que serão jogados longe apenas durante os clímax. Os dias lindos nos fazem lembrar que, daqui seis meses, haverá uma primavera onde as flores, os plátanos, os guapuruvus e as mulheres reapararecerão. Deslumbrantes.

Porém, o leitor atento que há dentro de mim bate em meu ombro a fim de chamar minha atenção. Diz ele que Drummond vivia no Rio de Janeiro, que lá as pernas e decotes nunca desaparecem, que este é um fenômeno gaúcho, subtropical e que não tenho razão em reclamar do poeta. Acabo esta crônica fazendo tamborilar os dedos da mão direita sobre a mesa. Um por um, repetidamente. É o movimento característico da contrariedade do vencido.

Bagdá

Pessoal, depois do vendaval, ficamos sem água e luz em casa (escrevo numa lan house).

A Zona Sul de Porto Alegre está assim há quase 22 horas.

O celular não pega – a antena deve estar desligada.

O telefone – só temos sem fio e sem luz não funciona.

Estamos incomunicáveis.

Merda.

Mas tomamos banho na casa da sogra.

(Talvez na próximas horas peçamos alimentos não perecíveis, sabe-se lá. Estejam atentos e não nos deixem sós.)

Porque Hoje é Sábado, Scarlett Johansson

Esta parte de seu corpo certamente agrada ao Marconi e a mim, imagine se não!

Mas o rosto de Scarlett Johansson é dos mais belos que já passaram por minhas retinas tão fatigadas e curiosas.

Nascida em novembro de 1984, é certamente a mais famosa e interessante atriz com menos de 30 anos em atividade.

E é um espanto de mulher.

Scarlett é uma raridade que parece apreciar o bom cinema e já foi dirigida por…

… Sofia Coppola num belo filme, por Brian de Palma num equívoco, por Peter Webber em um …

… inesperado acerto, e parece ter virado figurinha comum em filmes de Woody Allen.

Passemos a palavra a Allen: “Ela tem tudo: é linda, sexy, inteligente, divertida, espirituosa …

… e boa para se trabalhar. Gosto de tudo nela. Se ela mantiver a cabeça no lugar nesse campo de trabalho maluco, o futuro será dela.”

Se o que Woody Allen diz é verdade: que é linda e sexy a gente está vendo, mas se ela ainda é …

… inteligente, divertida, espirituosa e boa para se trabalhar, eu não sei o que poderia haver de mais perfeito.

Em 2008, ela virá envenenando maridos em Lucrécia Bórgia e como Ana Bolena …

… junto de Natalie Portman (1981), lutando pelo amor de Henrique VIII. Querem me matar!

Entre as duas, ficaria com Scarlett, nem que fosse para dá-la a meu filho, um grande admirador da moça. Afinal, com 23 para 24 anos… Não sou o tio da Sukita. Mas aceitaria one night stand, claro.

Ássia, de Ivan Turguêniev

Assia Ivan TurguenievComparar Dostoiévski e Tolstói sempre me pareceu coisa de amador. Os dois são tão diferentes que parecem trabalhar em faixa própria. Tolstói tem melhor texto, se o encararmos do ponto de vista clássico, e, de certa forma, é um escritor que aspira à imortalidade. Ele a obteve com folgas… Já Dostoiévski é mais escabelado e moderno, fazendo com que sua prosa dobre-se aos personagens. Eu, que não sou bobo, não faço escolhas e gosto de ambos. Porém, havia outros enormes escritores circulando pela Rússia czarista e havia um que trabalhava na faixa de Tolstói. Era Ivan Turguêniev. Escritor de grandes recursos, criou algumas novelas perfeitas e um romance idem: Pais e Filhos.

Tenho especial consideração pelas novelas, estas narrativas que ficam entre o conto e o romance, seja em tamanho, seja em alargamento de intenções. Grandes escritores se dedicaram ao gênero. Kafka escreveu A Metamorfose, A Colônia Penal e outras; Henry James tem obras-primas como A Volta do Parafuso, Os Amigos dos Amigos, A Vida Privada, O Altar dos Mortos, a insuperável A Fera na Selva, etc.; Isak Dinesen tem Os Sonhadores e outras; Heinrich von Kleist escreveu uma inesquecível: Michael Kolhaas; Tolstói tem seu trio de ferro: Sonata a Kreutzer , A Morte de Ivan Illich e A Felicidade Conjugal; Goethe tem Werther. Estes exemplos foram os primeiros a me ocorrer, há muitíssimos mais.

Voltemos a Turguêniev ou Turguenev, como queiram. Quando vi que a Cosac & Naify tinha lançado a novela Ássia, animei-me imediatamente – seria ela um outro O Primeiro Amor, seria ela outra grande novela de Turguêniev? Não, não é tão boa, mas estão lá todas as características que fizeram deste russo um escritor tão singular. Lá está a prosa impecável do russo e lá estão os aristocratas inúteis de sempre, porém o narrador de Ássia é, além de inútil, um covarde emasculado. Ássia é uma jovem que se apaixona por ele. Só que o narrador fica confuso no momento decisivo e deixa a moça pensar que ele não a ama.

Este tema é um clássico em várias literaturas. Inclusive Machado de Assis constrói um de seus melhores e mais importantes contos sobre o tema do momento decisivo – o Missa do Galo (que é muito melhor que Ássia, bem entendido). Só que Turguêniev não deseja apenas mostrar um desencontro fortuito entre dois amantes, mas uma “história moral de sua geração”. Talvez por isto tenha criado um narrador tão inerte e irritante. Esta aristocracia russa, cuja psicologia é tão bem descrita neste livro e em grande parte da obra de Tchékov, mereceu plenamente a revolução que a sepultou.

Não ignoro que na literatura russa do século XIX havia eslavófilos e europeístas. Eu passei intencionalmente por cima desta esta classificação, OK?

Um Corpinho que Cai

Para meus filhos, sobre o caso da menina Isabella Nardoni.

Meus filhos, o caso da Isabella Nardoni não é para piadas, mas não resisto a uma. Por isso, o título esdrúxulo acompanhado da foto. Mórbido, não? Quero explicar-lhes o que houve naquela noite em São Paulo. Ora, é óbvio que vocês já notaram que às vezes me descontrolo, ficando muito irritado com vocês. Eu já berrei e tive vontade de matá-los por tênis embarrados deixados no meio da sala, por algum esquecimento tolo ou por motivos maiores. Eu juro que, em alguns desses irrefletidos momentos, senti tanto ódio que quis acabar com vocês.

O que diferencia a loucura da normalidade é que as pessoas ditas normais sentem a raiva crescer como um oceano de sangue quente que sobe direto à cabeça e… ou não fazem nada ou apenas gritam feito loucos ou saem da sala batendo a porta. Vocês sabem, já fiz vários escândalos desse tipo. Mas os loucos deixam que o ódio absoluto seja transformado em atos de agressão física. Houve um sujeito chamado Sigmund Freud que ensinou que civilização é um monte de coisas, mas também é repressão. A gente é educado desde pequeno a não sair matando gente por aí só porque nos bateu uma raiva incontrolável. Incontrolável uma merda. A gente sente a raiva, dá um soco na mesa, a mão dói e a gente trata de tentar conversar. É assim que acontece.

Quando te perguntei, Bárbara, se alguma vez tiveste vontade de me matar, tu respondeste que nunca, porém depois pensaste melhor e respondeste que só umas duas vezes… Viste? É normal. Nós nos amamos, mas já tivemos momentos de irreflexão em que achamos que o mundo seria melhor se um de nós não existisse. É normal. O que não é normal são pais que se deixam tomar pela violência irrefletida por longo tempo.

Quando, por exemplo, critico vocês com argumentos e palavras razoáveis, a Claudia normalmente me apóia, mas nas raras vezes que rugi feito um louco, ela sempre me criticou acerbamente e mandou-me parar. Mandou mesmo! E eu obedeci. Noto agora que sempre tive meus ataques na frente dela, talvez porque inconscientemente soubesse que não haveria apoio. Ou seja, os pais controlam um ao outro.

O que é loucura é que ambos se voltem contra uma criança a fim de assassiná-la. O que não é normal é que um tenha tido o descontrole de bater na cabeça de uma menina sem oposição do outro. Mais incrível é que o outro, em vez de protegê-la, ainda a tenha estrangulado. E o mais inacreditável é que eles tenham combinado atirá-la pela janela. Vocês não imaginam o quanto sempre estiveram longe de um ato desses.

O que faz com que esta notícia vire assunto nacional é a conjugação de vários fatos: a criança era branca, paulista e de classe média. Isto é, o crime foi cometido por gente como nós, gente que já sentiu vontade de, eventualmente, atacar suas crianças em momentos de descontrole. Ou seja, a sociedade branca do maior estado brasileiro, está fazendo um tratamento psiquiátrico coletivo. O resto país aproveita e se trata também. Todos estão condenando o próprio ódio e descontrole, que sabem eventualmente possuir, como coisas realmente hediondas. Têm razão nisso. O casal Nardoni entrou como uma luva num medo que é de todos. Quando eu abri o quarto do Bernardo numa manhã dessas e vi que ele não tinha chegado – ele me prometera chegar a determinada hora da madrugada -, quando vi que ele não atendia o telefone, disse para minha mulher que ia matá-lo…, mas só fui capaz de umas ácidas ironias quando ele chegou em casa. Ainda bem. Ele notou que tinha sido grave e passou a me avisar. Mas é contra aquele demônio que deseja matar que estamos fazendo a catarse coletiva que envolve o casal Nardoni.

Afinal, o público consumidor de notícias é branco, de classe média e, volta e meia, sente ímpetos de esganar seus filhos. Se Isabela fosse de uma família pobre e favelada, tendo sido atirada num barranco qualquer por um pai criminoso, não receberia grande atenção dos jornais e televisões. Por quê? Ora, porque os pobres não consomem jornais e haveria dificuldade de identificação por parte dos leitores. Mas um casal que mora bem, que possui carro e é branco e paulista? Nossa! Isso somos nós e por este motivo é tão impactante.

Meus filhos, vocês riram muito quando anunciei o título deste post e é claro que ele está aí para chamar a atenção de quem passar. Saibam que, de qualquer modo, para fazer seus corpinhos caírem de forma eficiente me daria muito trabalho. Teria que subir até o terraço. Não é fácil a vida de quem mora no primeiro andar…

Em defesa de Yeda Crusius, nossa governadora

Sacanagem o que estão fazendo com nossa honrada governadora. Então a pessoa que governa todos os gaúchos não pode morar bem? Vão proibir também isso?

O delegado Luiz Fernando Tubino, ex-chefe da Polícia Civil gaúcha e certamente um pobre ressentido loser nojento e feio, afirmou que Lair Ferst — coordenador da espetacular e vitoriosa campanha de Yeda Crusius ao governo do estado em 2006 — teria dado R$ 400 mil para ajudar a inatacável governadora a comprar uma casa no bairro Vila Jardim. Segundo o delegado, a Operação Rodin, da Polícia Federal, teria identificado o cheque. Qual é o problema, hein? Você não aceitaria um cheque desses de presente? Ou vai dizer que fugiria dele?

A casa da mais importante gremista do estado foi comprada no dia 6 de dezembro de 2006, 37 dias após do segundo turno das eleições. Notem bem: nossa decorosa governadora pensou 37 dias em como utilizar o cheque, só realizando a compra quando as tensões geradas pelo cargo, pela incompreensão da sociedade gaúcha e por gentalhas como essa e essa e essa fizeram-na pensar no futuro e em como seria tranqüilizador para si e sua família um aumento de patrimônio. Segundo certidão do Cartório de Registro de Imóveis da 4ª Zona de Porto Alegre foi uma pechincha: custou somente R$ 750 mil. Mais: nossa íntegra governadora é tão modesta e ficou tão na pindaíba após a compra que, em 18 de outubro de 2007, alienou-a ao Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul) para garantir um empréstimo de R$ 50 mil. Veja bem, ignaro leitor, nossa pudente governadora não tinha R$ 50 mil! Um troco! A casa das pantalhas está localizada em zona nobre de nossa capital e tem 467 metros quadrados de área construída. Ou seja, é uma moradia digna e segura para a insuspeita figura pública que detém, em suas mãos transparentes, as rédeas de nossos destinos.

Também não me surpreende que os corretores consultados estejam dizendo que a casa valeria R$ 1,5 milhão. Ora, ela é um ser humano como nós e provavelmente declarou, de comum acordo com o vendedor, ter pago menos pelo imóvel a fim de obter a vantagem de ver reduzido o imposto que pagaria para um governo municipal inoperante. Onde está o problema? Vai dizer que você pagou seu ITBI inteirinho — o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis, seu idiota — quando comprou sua moradia? Claro que não! E quem faz isso?

Tenho dois pedidos a fazer:

Primeiro: Tubino, comprove AGORA suas acusações! Quero ver! Só porque você é um ex-chefe da Polícia Civil falando numa CPI, acha terá mais importância do que a palavra tranqüila, meridiana e superior de Yeda? Comprove AGORA, seu merdinha! Já disse, quero provas! Esta frase que você diz: “A CPI não deve perder a oportunidade de destampar algumas panelas”, merece que o leite jorre imediatamente na chapa quente. Vocês verão quão branco e puro é o leite de nossa virtuosa Yeda. Tenho certeza.

Segundo: Lair, mande umas fotos da miss para o Porque Hoje é Sábado e depois marque um encontro… Com ela? Claro que não! Agende para mim um daqueles encontros com empresários que você arranjava para a briosa Yeda. Nada de chope, tá? Sou um cara fino, prefiro vinho. Vamos, marca logo! Vá, vá!

Papel Da Blogosfera
Gravura roubada do Diário Gauche